segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Decência é isso: Dilma: queremos reencontro, não vingança

Dilma: queremos reencontro, não vingança

Da Alemanha, numa entrevista à agência de notícias Deutsche Welle – com a imprensa brasileira não tem entrevista, só tem fofoca apelativa – a ex-presidente”É preciso perdoar quem bateu panela”, a ex-presidente Dilma Rousseff diz  que é hora de “perdoar a pessoa que bateu panela achando que estava salvando o Brasil, e que depois se deu conta de que não estava”.
Dilma ironizou a conversa de renovação na política, que classificou como pretexto para para “tirar o Lula da parada”, perguntando se é possível chamar de novos  “o gestor incompetente” João Doria ou “a política de animação de auditório como política social, que é o Luciano Huck”.
Ela não afirmou nem negou que vá concorrer a algum cargo – alega que se “mudar de ideia, vou ter que dar um chá de explicações” –  e simbolizou a prioridade em favor dos excluídos ironizando a declaração de William  Waack: “Nós somos coisa de preto. Eu sou uma coisa de preto.”
O texto, na íntegra:
DW Brasil: Como a senhora avalia a situação em que o Brasil se encontra hoje?
Dilma Rousseff: O golpe que sofri tem três fases. A primeira e inaugural é meu impeachment. A segunda é esse estrago que eles estão provocando no Brasil, como a emenda que congela os gastos em saúde e educação. Ou a reforma trabalhista, num país que há pouco tempo saiu da escravidão, e esse processo de venda de patrimônio público. O terceiro momento do golpe é inviabilizar o Lula e, aí, vender o pré-sal.
Sobre as eleições de 2018, quais são suas expectativas?
Há uma maior percepção no Brasil de que o Lula está sendo perseguido. Em que eu baseio essa afirmação? Se você olhar o desenvolvimento das pesquisas, vai ver que está subindo a aprovação. É a percepção do povo brasileiro de que ele foi o melhor presidente. Minha esperança seria ele voltar. Na época do impeachment, eles [a mídia e os adversários políticos] conseguiram colocar a rejeição a ele e ao PT lá em cima. Eles apostam que o povo brasileiro é ignorante. Mas o povo brasileiro vai percebendo esse grau de intolerância e de perseguição.
Como a senhora vê a aproximação do PT com o PMDB em diversos estados? O próprio ex-presidente Lula já afirmou que está “perdoando os golpistas”. Não é um tanto incoerente o PT denunciar um “golpe” e voltar a se aliar com um partido que o teria traído?
Dificilmente nós faremos aliança com o PMDB em nível nacional. Mas você vai falar que não pode fazer aliança com o [senador Roberto] Requião? O Requião é do PMDB, e uma pessoa que combateu o golpe. Você não vai fazer uma aliança com a Kátia Abreu? Ela foi outra que combateu o golpe.
E figuras como o senador Renan Calheiros?
O Renan não trabalhou a favor do golpe.
Mas ele votou pelo impeachment.
Ele presidia [o Senado], não podia votar.
O voto final dele foi pelo impeachment.
Mas ele não trabalhou pelo impeachment. E essa não é questão relevante. Não acho que perdoar golpista é perdoar o PMDB e o PSDB. Acho que perdoar golpista é perdoar aquela pessoa que bateu panela achando que estava salvando o Brasil, e que depois se deu conta de que não estava.
Uma hora nós vamos ter que nos reencontrar. Uma parte do Brasil se equivocou. Agora isso não significa perdão àqueles que planejaram e executaram o golpe. Você tem uma porção de pessoas que foram às ruas e que estavam completamente equivocadas. Mas você não vai chegar para elas e falar ‘nós vamos te perseguir’. Precisamos criar um clima de reencontro, entende? Não vai ser um clima vingativo, não pode ser isso.
A política brasileira não está precisando de renovação depois do impeachment? Não seria o momento de abrir espaço para novas lideranças, especialmente na esquerda?
[Dilma gargalha] Isso se chama “como tirar o Lula da parada”. Tá entendendo?
Com o impeachment o PSDB acabou, sumiu. O que os conservadores conseguiram produzir? Produziram a extrema direita, o MBL [Movimento Brasil Livre] e o [Jair] Bolsonaro. E o que ainda é novo no Brasil? O gestor incompetente, tipo o Trump? O João Dória? Ou você deseja a política de animação de auditório como política social, que é o Luciano Huck? Isso é o novo?
Sabe o que eu acho que é o novo? Esse foi um pensamento que tive depois do caso do William Waack. Você sabe o que é coisa de preto? O PT é coisa de preto. O Lula é coisa de preto. Nós somos coisa de preto. Eu sou uma coisa de preto.
Como está sendo sua rotina um ano após o impeachment?
É uma rotina que depende de onde estou, seja em São Paulo ou em Berlim. Participo de aulas, debates, conferências, caravanas – estive na do nordeste e na de Minas Gerais. Sempre que posso faço minha atividade física, ando de bicicleta, pelo menos 50 minutos por dia.
Quando estou em Porto Alegre fico com meus netos, às vezes, levo para dormir na minha casa. Criança tem uma energia inesgotável e não temos mais a mesma energia. Mas ser avó tem esse mérito: a gente estraga bastante e depois devolve para a mãe.
Não parece existir no Brasil um papel bem definido de ex-presidente, como nos EUA e em alguns países europeus. Que tipo de ex-presidente a senhora vai procurar ser?
O presidente só tem direito à segurança e uma pequena assessoria. Em algum momento, vão ter que discutir qual é a proteção que tem um ex-presidente, a física, a legal, não acho que um ex-presidente possa voltar a trabalhar na iniciativa privada. Acho que isso é incompatível com o ex-presidente. Vai ter que definir o que é. Nos EUA, está estipulado.
A senhora vai ser uma ex-presidente que vai procurar novos mandatos políticos?
Não vou deixar de fazer política porque sou ex-presidente ou não tenho um mandato eletivo. Fiz política minha vida inteira, eu estive presa não era porque eu era técnica, ninguém vai para a prisão por ser técnico. Fiz política a vida inteira e não precisei de mandato parlamentar para continuar fazendo, obviamente num ritmo compatível com a minha idade.
Então pretende mesmo voltar a se candidatar a algum cargo?
Não descarto, mas ainda não pensei de maneira séria sobre o assunto. No Brasil, se eu falar que não vou me candidatar e depois mudar de ideia, vou ter que dar um chá de explicações. Contemplo a possibilidade para não ter que dar explicação.
A senhora acha que a história vai lhe dar razão?
A história no Brasil tem sido rápida. Ela já está me dando razão. Eduardo Cunha, que presidiu meu impeachment, foi afastado, suspenso, condenado a nove anos e está preso. Vários processos mostram que ele comprou deputados. Também foi comprovado que os motivos alegados para o impeachment eram ridículos, que não pratiquei nada ilegal.
Alegaram que o impeachment ia resolver a crise econômica e política, mas essas crises só se aprofundam. O atual presidente usurpador já foi denunciado duas vezes, e o senador Aécio Neves também, ambos enfrentam provas cabais e gravações. Mas essas duas pessoas continuam em seus cargos, enquanto duas outras [Dilma e Lula] são acusadas apenas por terem sido presidentes.

Professor intimado pela USP: “Há triagem ideológica na universidade brasileira”

Professor intimado pela USP: “Há triagem ideológica na universidade brasileira”

Marcos Sorrentino responde a sindicância por realizar atividade em parceria com o MST em abril deste ano

Sorrentino descreve a discriminação aos movimentos sociais / Reprodução
Em artigo recente, o portal da ADUSP (Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo) expôs o gravíssimo caso das ameaças sofridas pelo professor Marcos Sorrentino. Ele é alvo de sindicância e foi convocado para uma oitiva com a finalidade “de investigar uma atividade acadêmica organizada em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”. A atividade foi realizada em abril desse ano, durante a quarta edição da “Jornada Universitária em Apoio à Reforma Agrária” (JURA). Organizaram o evento o Laboratório de Educação e Política Ambiental (OCA, do qual faz parte o professor Sorrentino), o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental (NACE PTECA/ESALQ) e movimentos sociais ligados à Via Campesina.
Segundo conta a matéria, “no dia 18/4, no gramado central do campus, foi organizada uma oficina de lona preta em conjunto com o MST com o objetivo de mostrar como se montam as barracas de assentamentos e promover uma conversa sobre a vida de um militante acampado. Entretanto, no mesmo dia uma notícia falsa foi compartilhada nas redes sociais, espalhando o boato de que o MST estaria promovendo uma invasão do campus. A notícia foi rapidamente desmentida pela direção da ESALQ e pela Prefeitura do Campus”.
Dada a comoção gerada pelo factoide e tendo em vista o intenso momento de polarização e criminalização da política que atravessamos, instalou-se nesse contexto uma Comissão Sindicante, para averiguar os fatos. Sorrentino foi convocado para a oitiva, que trazia dois questionamentos gerais: se havia autorização para utilizar a logomarca da ESALQ no evento; e se algum colegiado havia aprovado a realização das atividades. Sobre os questionamentos, o professor afirma categoricamente trabalhar há 30 anos na ESALQ e sempre haver se utilizado da logomarca da universidade sem qualquer problema; e que, até hoje, jamais precisou de autorização de um órgão colegiado para organizar suas atividades.
O que está em questão, como o próprio professor expõe, é uma espécie de “triagem ideológica”, com as universidades claramente a serviço das elites e corporações. Tanto que se naturaliza e estimula quaisquer eventos empresariais voltados a fomentar o agronegócio — como o ESALQShow, realizado no último mês de outubro –, ao passo em que se criminalizam e dificultam atividades vinculadas a movimentos sociais e de contestação ao estabelecido. A universidade torna-se, assim, uma correia de transmissão dos interesses das classes dominantes, e transforma-se em palco de batalhas e disputas sempre que tensionada a cumprir um papel social, crítico e transformador. Nas palavras de Sorrentino, “a escola serve majoritariamente a essas grandes empresas que trazem recursos a laboratórios, e quando há um conjunto de professores ou estudantes que se comprometem com a agricultura familiar ou com agricultores acampados, vem esta triagem dizendo que não poderíamos usar o gramado para a oficina”.
O blog Plantar o Futuro publica a seguir entrevista exclusiva com o professor Marcos Sorrentino, procurando aprofundar o debate. Além disso, iniciou abaixo-assinado em forma de manifesto para denunciar e impedir que tais situações de retaliação ideológica se multipliquem, firmando o papel da universidade como um espaço de liberdade, emancipação e pesquisa voltada ao benefício da sociedade. Você pode ajudar, divulgando e assinando esse manifesto.
Professor, antes de mais nada, gostaria de saber o que você acha sobre a importância de divulgar e dar visibilidade a episódios como esse.
Certamente é importante divulgar, para que a sociedade brasileira e a universidade amadureçam no diálogo sobre o papel dessa instituição na construção de uma cultura de procedimentos democráticos e nas transformações necessárias para sermos sociedades sustentáveis ou que caminhem em direção à sustentabilidade socioambiental.
Dado que a oficina que gerou a atual sindicância ocorreu em Abril, por que a notícia veio à tona apenas agora? Aconteceu alguma movimentação recente?
A notícia veio à tona agora porque no dia 18/10 fui convidado (ou seria mais correto dizer intimado?) para uma oitiva que faz parte dos procedimentos da sindicância instaurada pela diretoria da Esalq para apurar responsabilidades pela realização de uma Oficina de Construção de Barraco de Lona Preta no gramado do campus. No dia 19/10 estive em reunião da diretoria ampliada da ADUSP e relatei o fato. Na semana seguinte um jornalista da entidade me telefonou pedindo uma entrevista e a publicação começou a circular pelas redes sociais. A oficina ocorreu em abril deste ano, durante a Jornada Universitária pela Reforma Agrária, que realizamos há quatro anos aqui. Nos três primeiros sob a liderança do saudoso Paulo Y. Kageyama e neste ano coordenada por um coletivo de 20 entidades, entre os quais a Oca – Laboratório de Educação e Política Ambiental -, que coordeno.
Essa Jornada é realizada por diversas universidades em todo país. Aqui na ESALQ ocorreu neste ano durante dois dias, com mesas redondas e outras atividades, dentre as quais as que foram realizadas no gramado – um teatro e a mencionada oficina, coordenada pelo MST. Quando de sua realização (a montagem do barraco nem sequer furou o gramado para colocar as estacas/pontaletes, pois foram fixados em uma lata de 50 litros), alguns ex-alunos, segundo me contaram, fotografaram o barraco com a bandeira do MST e denunciaram que a faculdade estava sendo “invadida”. Essa informação equivocada (maldosamente ou não) causou comoção entre todos aqueles e aquelas que, como nós, admiram as belezas e a importância deste patrimônio público centenário para a vida nacional. A própria diretoria da Esalq e a Prefeitura do campus se apressaram a informar a verdade dos fatos, mas apenas o diretor poderia informar o motivo pelo qual resolveu levar adiante uma sindicância para apurar responsabilidades pelo fato.
Qual era sua intenção ao convidar integrantes do MST para uma atividade no campus da USP?
Acredito que esteja claro o porquê do convite. Cooperamos no sentido de bem formar estudantes com compreensão crítica sobre a realidade brasileira. Cooperamos na implantação de assentamentos agroecológicos no Extremo Sul da Bahia. Paulo Kageyama e a equipe de seu laboratório já cooperavam há mais tempo, com diversos projetos de pesquisa no Pontal do Paranapanema. Nós, da Oca, nos últimos cinco anos, desenvolvemos pesquisas focadas no desenvolvimento de um método de Alfabetização Agroecológica Ambientalista e na compreensão de estratégias para o aprendizado da agroecologia por agricultores assentados. Estamos amadurecendo propostas de políticas públicas regionalizadas que contribuam para a transição educadora de municípios que assumam a agroecologia como caminho para a sustentabilidade socioambiental. E o MST, assim como outros movimentos sociais do campo, tem sido importante parceiro nisto.
Para você, houve perseguição ideológica ao abrir essa sindicância? Existe histórico de situações como essa?
Não posso afirmar que houve ou há perseguição ideológica mas posso constatar que há uma triagem ideológica, pois diversos outros eventos que são realizados no gramado central e em outras áreas públicas da Esalq nunca solicitaram permissão para a sua realização. Eu mesmo já realizei aulas ali e acompanhei atividades de extensão e eventos diversos realizados por mim e/ou por outras pessoas.
Há muito tempo você vem desenvolvendo atividades em parceria com movimentos sociais como o MST. Por que dessa vez houve tal repercussão?
Já realizamos aberturas dessas atividades do JURA inclusive com a participação de ex-diretores da ESALQ, mas acredito que neste momento de retrocesso conservador em toda a sociedade brasileira sejam maiores as pressões sobre a diretoria da Instituição, para expurgar grupos e pessoas com compromissos divergentes do hegemônico.
Edição: Plantar o Futuro

Paulo Nogueira Batista Jr.: Banco do Brics depende do Brasil 2018

Paulo Nogueira Batista Jr.: Banco do Brics depende do Brasil 2018

Por uma confusão aqui de minha parte, deixei de transmitir, no final da semana passada, a palestra do economista Paulo Nogueira Batista Jr, ex-diretor brasileiro do Novo Banco de Desenvolvimento  – o Banco dos Brics – e de  Samuel Pereira Guimarães, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores no governo Lula, debateram a inserção do Brasil  na ordem econômica mundial e do deste mecanismo de financiamento internacional que o Brasil, há tempos, vem desdenhando.
Como era longa – a íntegra pode ser vista aqui – recortei a fala de Paulo Nogueira Batista, no trecho do vídeo abaixo, onde ele diz que o futuro que nosso país pode ter país pode ter no bloco econômico “dependerá muito das eleições de 2018”, porque, nos últimos anos, a participação e a identidade do Brasil com o grupo enfraqueceu, seja por conta da crise do início do Governo Dilma, seja pelo alinhamento com os EUA adotado desde o golpe.
Assista.
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