quarta-feira, 11 de setembro de 2013

40 anos do golpe no CHILE


40 Anos do Golpe no Chile

 

 

Interessante, antes e após a queda do regime de Pinochet, ditadura cruel e implacável, foi a defesa, por certos órgãos da mídia internacional e brasileira, do regime chileno como modelo para o Brasil.

 

Samuel Pinheiro Guimarães*

 

Fora do contexto mais amplo da política dos Estados Unidos para a América Latina, é difícil compreender o golpe no Chile, 40 anos atrás.

 

Desde a Independência das colônias espanholas e portuguesa, no início do século XIX, e da proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, os Estados Unidos consideram, e as potências europeias reconhecem (e muitos latino americanos aceitam), que a América Latina deve estar necessariamente na sua área de influência, isto é, sob a sua hegemonia.

 

Sobre a América Central e o Caribe os Estados Unidos estabeleceram o seu domínio com a conquista pela força armada de mais da metade do território do México, em 1848; com as seguidas intervenções e longas ocupações militares na Nicarágua, no Haiti, na República Dominicana e outros países; com a conquista de Cuba e de Porto Rico à Espanha; com a promoção da secessão do Panamá, em 1903, e a construção do Canal, com sua Zona de ocupação militar permanente, que perdurou até o ano 2000.

 

Estava criado o Mar Americano, do novo Povo Eleito.

 

Sobre a América do Sul, os Estados Unidos demorariam a estabelecer sua hegemonia, em parte devido à maior dimensão dos Estados e em parte devido à presença financeira, comercial e política inglesa até o fim da Primeira Guerra Mundial.

 

Encontraram os americanos sempre, em suas investidas de articulação política dos países da América do Sul, a oposição argentina, o VI Domínio da Grã-Bretanha, e a cooperação brasileira, desde o Barão do Rio Branco, na chamada Aliança não-escrita.

 

Após a penosa vitória sobre o Império Alemão, em 1918, conseguida, aliás, somente graças à ajuda econômica e militar americana, começa a se esvair a presença britânica na América do Sul e a se afirmar a influência política e econômica dos Estados Unidos.

 

O Corolário à doutrina Monroe, de autoria de Teodoro Roosevelt, belicoso tio de Franklin Delano, anunciado em 1904, em que os Estados Unidos se arrogavam o direito de intervir em qualquer país do Continente que se revelasse incapaz de manter a ordem (isto é, os interesses americanos) e o êxito em incluir a Doutrina Monroe entre os princípios do tratado que criou a Liga das Nações, em 1919, revelam claramente a visão americana da América Latina.

 

Devido à necessidade de aliciar o apoio dos Estados do Continente diante da ameaça nazista no horizonte, os Estados Unidos abandonaram a política do “big stick” e a diplomacia do dólar e lançaram a Política de Boa Vizinhança, com Zé Carioca e tudo o mais, renunciando retoricamente à sua hegemonia, e passaram a cultivar ativamente as elites e, muito em especial, os proprietários dos meios de comunicação na América do Sul.

 

Após a Segunda Guerra, o extraordinário prestígio americano e sua determinação de alinhar os regimes sul-americanos na luta contra o comunismo levou, de um lado, à criação, em 1948, da Organização dos Estados Americanos, a OEA, organismo regional previsto na Carta das Nações Unidas, e, de outro, à defesa da livre iniciativa como dínamo do desenvolvimento latino-americano, com atração do capital estrangeiro, o que significava capital americano, visto o estado precaríssimo das economias europeias no pós-guerra.

Com a Revolução Cubana, em 1959, tudo muda. A invasão fracassada da Baía dos Porcos (semelhante à operação que depôs Jocobo Arbenz, na Guatemala, em 1954); a oposição americana, cada vez mais feroz, a Cuba; a arregimentação dos regimes latino-americanos contra Cuba; a resistência de certos governos, entre eles o do Chile, à determinação americana de intervir em Cuba; e a suposta fragilidade dos governos civis latino-americanos diante da imaginada influência cubana e comunista, transformariam a política de Boa Vizinhança na política de instalação de governos militares, na aplicação da teoria da modernização autoritária, da qual fazia parte a Aliança para o Progresso.

 

O primeiro regime militar a ser instalado na execução da nova política foi o do Brasil, em 1964, em que houve ampla participação americana na preparação do golpe, inclusive na escolha do novo presidente, o general Castelo Branco, amigo do adido militar americano, Vernon Walters, segundo os documentos revelados pelos Estados Unidos e mostrados no educativo filme, O Dia que Durou 21 Anos.

 

Era a política de mudança de governo executada pela CIA, de forma encoberta (covert action) com ações diretas e de espionagem, hoje fartamente documentada, e que nos dias atuais se faz de maneira absolutamente aberta, e até com certa desfaçatez, com a participação de serviços de inteligência e de ação americanos (special operation forces), de fundações públicas e privadas, de ONGs. Tudo com a ajuda da tecnologia mais sofisticada de espionagem, da qual não escapam os aliados (acólitos) mais confiáveis, como a Alemanha de Frau Angela Merkel e a França de Monsieur François Hollande e aqueles Estados amigos, como o México, do Señor Peña Nieto, tão longe de Deus, e o Brasil, da Senhora Dilma Rousseff, surpresa e indignada.

 

O Chile era, em 1973, um caso de grande importância estratégica para a política americana na América do Sul.

 

A ascensão democrática de Salvador Allende, sua disposição de implantar um regime socialista democrático e nacional no Chile, sua política externa independente, o receio de que viesse a estimular países latino-americanos a procurarem novas estratégias de desenvolvimento e a se rebelarem contra as ditaduras militares já implantadas no Brasil (1964) na Argentina (1966) no Uruguai (1971), na Bolívia (1971) levaram à determinação americana de organizar um golpe militar no Chile com a articulação financeira, política e midiática da direita civil e militar do pais.

 

Os Estados Unidos articularam a ascensão ao poder de uma das ditaduras mais cruéis, violentas e implacáveis da América Latina, comandada pelo General Augusto Pinochet, pelo jornal El Mercúrio e pelo empresariado chileno.

 

A ditadura do General Augusto Pinochet reverteu a reforma agrária do Governo Allende e implantou um programa neoliberal de reformas econômicas, sob o comando dos Chicago Boys , um primeiro resultado do programa de formação de pessoal nos Estados Unidos, financiado pela Aliança para o Progresso, fenômeno que se repetiria mais tarde em outros países da América do Sul. A Operação Condor - a articulação dos governos militares para perseguir, capturar e executar as lideranças políticas de esquerda - teve como seu inspirador o Chile, com a famosa DINA, Direção de Inteligência Nacional, cujo chefe era pago pela CIA.

 

O apoio brasileiro ao golpe militar chileno foi imediato e prolongado no tempo assim como o apoio norte americano e dos países europeus.

 

Com a crescente oposição americana aos regimes militares devido à sua deriva para uma posição de certa independência em relação aos Estados Unidos, com projetos em especial na área militar (tais como o projeto Condor de mísseis na Argentina e os programas brasileiros nas áreas espacial, nuclear e de informática), e com a nova política americana de direitos humanos, o regime de Pinochet perderia o apoio americano, dos europeus e dos países da região, mas somente viria a ser substituído em 1990.

 

Interessante, antes e após a queda do regime de Pinochet, ditadura cruel e implacável, foi a defesa, por certos órgãos da mídia internacional e brasileira, do regime chileno como modelo para o Brasil, e para outros países latino-americanos, justificando o regime militar como forma necessária de implantar as reformas econômicas.

 

Agora, redemocratizada a América do Sul, neoliberalizada pelos programas de renegociação da dívida e pela aplicação das políticas, definidas pela academia, Tesouro americano, FMI e Banco Mundial, resumidas no Consenso de Washington, políticas implantadas por economistas treinados nas melhores universidades americanas, futuros banqueiros e empresários, tudo parecia tranquilo para o Império. Mas, como o Continente viu a emergência de movimentos sociais e de Partidos políticos de diferentes matizes de esquerda, eleitos democraticamente, presenciamos hoje operações políticas de regime nos diversos países da América do Sul que não aderiram ao modelo americano de política econômica, implantado pelos acordos de livre comercio que o Chile, já em 1994, a Colômbia e o Peru celebraram com os Estados Unidos e que tem como princípios a privatização, a desregulamentação, a abertura comercial e financeira, o privilégio ao capital multinacional.

 

Hoje, os Governos da América do Sul podem realizar programas sociais (no que terão o apoio da Igreja, antiga defensora dos regimes militares, hoje convertida), reduzindo a pobreza e estabilizando sociedades em extremo desiguais, podem construir sua infraestrutura a duras penas e podem ter veleidades de política externa, até aceitas, pois agradam os movimentos de esquerda, mas não podem, sob pena de se tornarem alvo de políticas ativas de regime change, tomarem iniciativas concretas para promover políticas que abalariam os pilares da dominação imperialista:

 

          democratizar a mídia

          fazer a auditoria da dívida pública

          substituir o regime de metas inflacionárias por um regime de metas de desenvolvimento e emprego

          disciplinar o capital multinacional

          desenvolver sua indústria de defesa

 

Os Estados que respeitarem estes limites, que não tentarem implementar políticas com tais objetivos, continuarão a crescer a taxas muito baixas, cada vez mais desiguais ainda que com menos pobres, sem autonomia tecnológica, vulneráveis política e militarmente, seu Estado endividado, mas, para a tranquilidade e satisfação de suas classes conservadoras (ainda que sempre apreensivas) continuarão a ser parceiros confiáveis (reliable partners) dos Estados Unidos e de sua hegemonia imperial.

 

 

* Diplomata, ex-ministro de Assuntos Estratégicos e professor do Instituto Rio Branco, do Itamaraty

 

Fonte: CartaMaior, 11/09/2013

A verdadeira história do 11 de setembro

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Mais informações para menos preconceitos

Brasil e Cuba estão fazendo uma troca sensata de produtos e serviços
 
A construtora brasileira Odebrecht está renovando o porto de Mariel, em Cuba
 
 
por Heloisa Villela, de Nova York, especial para o Viomundo
 
 
 
Para quem só entende a lógica capitalista, John Kirk explica: no mundo globalizado, cada país vende aquilo que faz de melhor ou que tem de excedente.
 
A Colômbia vende muito café, o Chile exporta frutas e Cuba hoje vende ao mundo serviços na área de saúde.
 
John Kirk é britânico, estudou na Espanha e é radicado no Canadá onde, há três décadas, tornou-se um dos mais respeitados professores de estudos espanhóis e latino americanos. É professor da Universidade Dalhousei.
 
Ele tem se dedicado a um assunto em particular: Cuba. Especialmente à política externa e ao sistema de saúde do país. Por isso se voltou para o que chama de internacionalismo médico.
 
Ele visita Cuba desde 1976 e se interessou pelo país porque sempre viajou muito pela América Latina.
 
Nas viagens, começou a encontrar mais e mais médicos cubanos por toda parte.
 
Há cinco anos ele escreveu o primeiro livro sobre este intercâmbio médico e está preparando o segundo. Desta vez, vai corrigir dois erros. Vai mudar de editora e de conclusão.
 
A University Press, da Flórida, empresa que distribui Cuban medical internationalism: origins, evolution and goals (Internacionalismo médico cubano: origens, evolução e metas) cobra mais de US$ 100,00 por cópia.
 
John Kirk desconfia que o objetivo seja dificultar ao máximo a venda.
 
Quanto à conclusão, expressa logo na abertura do livro, ele mudou de ideia. Ele achava, anteriormente, que o principal motivo para tanta dedicação de Havana à saúde alheia era uma forma de conquistar votos e apoio nas Nações Unidas.
 
Hoje, John Kirk está convencido de que o espírito humanitário, a noção de que é um dever ajudar quem precisa estão sedimentados na cultura cubana, além de fazer parte da Constituição do país.
 
No mundo capitalista globalizado, onde os interesses econômicos determinam as ações governamentais e vale tudo para conseguir novos negócios, até mesmo espionar governos amigos, soa irreal e ingênuo.
 
Mas Cuba investiu muito no programa, nos últimos 50 anos. E continua investindo.
Só que agora, depois que Raúl Castro assumiu a direção do país, houve uma mudança. Cuba passou a cobrar de quem tem, para continuar oferecendo ajuda a quem não pode pagar. Assim, governos árabes, como o do Qatar, pagam pela experiência dos médicos cubanos, enquanto o Haiti continua recebendo todo o apoio de graça.
 
Para John Kirk, o sucesso incontestável do programa de saúde cubano, e da diplomacia médica, é o segredo mais bem guardado da história.
 
Segredo, diz ele, que os meios de comunicação ocidentais fazem questão de manter guardado. Muito bem guardado. Ele conta que observou com atenção o trabalho da imprensa internacional logo após do terremoto do Haiti, em 2010.
 
A imprensa não falava dos médicos cubanos, que já estavam na ilha antes do terremoto e estão lá até hoje.
 
Uma reportagem na rede de tevê a cabo americana CNN chegou a entrevistar um médico obviamente cubano, porque o sotaque não nega, que vestia uma camisa com o retrato de Che Guevara, e foi identificado como um médico espanhol, conta John Kirk.
 
O pesquisador britânico entrevistou mais de 70 profissionais de saúde cubanos em Cuba e no exterior, nos últimos sete anos.
 
Ele está escrevendo outro livro, que deve ficar pronto em janeiro. Mas adiantou ao Viomundo alguns resultados do estudo. Diz que hoje Cuba tem um número maior de profissionais de saúde trabalhando em missões de cooperação fora do país do que todos os países do G-8 somados.
Os médicos cubanos estão dando aulas em 15 países (entre eles Etiópia, Iêmen e Gana). Foram os profissionais de Cuba que, através do programa Operação Milagre, salvaram a vista de Mario Terán, o soldado boliviano que executou Che Guevara em outubro de 1967.
 
A informação foi confirmada pelo filho de Terán em carta enviada a um jornal boliviano.
 
John Kirk se mostrou indignado com reação de algumas organizações da classe médica, no Brasil, contra o programa que começa a levar assistência aos municípios que não têm profissionais de saúde para cuidar da população. Mas tem certeza de que, a exemplo do que já se passou em outros países, em breve a população brasileira, atendida pelos cubanos, vai mudar a opinião de quem ainda resiste ao programa.
 
 
VIOMUNDO – Por que você escolheu esse tema para suas pesquisas?
JK – Vou a Cuba desde 1976. Escrevi 13 livros sobre Cuba. Conheço bem o país e recentemente, quase todo o meu trabalho tem sido sobre a política externa de Cuba. Viajei muito pela América Latina e toda hora esbarrava em médicos cubanos.
Então escrevi um livro sobre internacionalismo médico há cinco anos. Agora estou escrevendo um segundo sobre internacionalismo médico analisando o que os médicos cubanos estão fazendo, onde estão e qual é o impacto do trabalho deles. É algo que me interessa muito e que é um dos segredos mais bem guardados do mundo.
 
 
VIOMUNDO – Por que a necessidade de um novo livro? O programa mudou?
JK – Com o Raul Castro, que assumiu o poder em 2008, como interino e depois como presidente, Cuba inaugurou uma política de cobrar dos países que podem pagar pelo serviço médico para cobrir ao menos pelo custo do programa. Antes disso, desde 1960, Cuba mandava delegações médicas, sem custo.
Em 1960 houve um terremoto no Chile. Cuba mandou uma delegação médica apesar de o governo do Chile, na época, ter péssimas relações com Cuba. Em 1972, o Somoza, na Nicarágua, um dos grandes inimigos do governo de Castro, sofreu um grande terremoto em Manágua. Cuba também enviou ajuda médica e vem fazendo isso sem cobrar nada.
 
 
VIOMUNDO – Mas este socorro de emergência não é o único projeto médico de Cuba no exterior…
JK – Eles também têm o programa Operação Milagre, as operações de vista que já recuperaram a visão de 3 milhões de pessoas na América Latina. Em Chernobyl, em 1996, quando o reator nuclear implodiu, Cuba tratou, de graça, 25.000 pacientes. Além disso, a ELAM, a Escola Latino Americana de Medicina, já formou 13.000 alunos, de graça.
Esse programa tem várias faces. Mais e mais, Cuba tem um excesso de médicos. O Brasil tem uma relação bem baixa, de 1,8 médicos para cada 1.000 habitantes, enquanto Cuba tem 6,7 para cada mil. Cuba tem um superávit de médicos e está usando a exportação de capital humano como forma de levantar recursos para a sociedade cubana.
 
 
VIOMUNDO – Então os médicos se tornaram um item importante da pauta de exportações?
JK – No ano passado, estima-se que o turismo rendeu 2,7 bilhões de dólares para a economia cubana e a exportação de serviços profissionais, 6 bilhões de dólares. Esses serviços profissionais significam, basicamente, médicos.
O Mais Médicos em pesquisa da CNT divulgada neste 10.09.2013
 
 
VIOMUNDO – Então o que o Brasil está fazendo com Cuba, no programa Mais Médicos, é uma troca comercial?
JK – Eu fui a Cuba quatro vezes no último ano e estou indo novamente no mês que vem. A empresa Odebrecht, do Brasil, é muito importante lá agora. O Porto de Mariel está todo sendo reformado pela Odebrecht.
Brasil e Cuba fecharam vários acordos na área de biotecnologia e transferência de tecnologia. Existem rumores de que uma grande empresa de ônibus vai se instalar no Porto de Mariel. Então, o Brasil e Cuba, no governo Lula e no governo Dilma, se tornaram excelentes aliados e parceiros comerciais.
 
 
VIOMUNDO – Algumas pessoas no Brasil reclamam que o programa, na verdade, é uma maneira de o Brasil financiar a revolução cubana…
JK – Na economia global, todo país exporta o que tem de excedente. A Colômbia tem muito café por isso exporta café, o Chile tem muita fruta e exporta isso. Nessa economia global, Cuba tem um excesso de serviços profissionais e os está exportando.
O Brasil, importando 4.000 médicos, está dando dinheiro para a revolução cubana? Claro que está. Mas como parceiro comercial de Cuba, a Odebrecht está ganhando dinheiro em Cuba desenvolvendo um grande programa de construção e Cuba está preocupada com uma tomada do capitalismo por causa de um império de construção brasileiro? Claro que não.
Na economia internacional, você troca aquilo que tem ou faz de bom ou tem em excesso. Neste sentido, Brasil e Cuba estão fazendo uma troca sensata de produtos e serviços.
 
VIOMUNDO – Essa nova maneira de usar o programa de medicina no exterior muda, de alguma forma, o programa em si, os objetivos, a maneira com que eles atuam em outros países?
JK – No momento, o país que não tem como pagar ainda recebe o serviço de graça e o melhor exemplo disso é o Haiti. Se o país pode pagar, o melhor exemplo é o Qatar. Existe um hospital cubano em Qatar. E vários países árabes, agora, contrataram os serviços médicos de Cuba.
Existem aproximadamente 40.000 agentes de saúde cubanos, no momento, trabalhando em 67 países do mundo. Majoritariamente na América Latina, no Caribe e na África. Porém, mais e mais nos países árabes que têm dinheiro para pagar pelo serviço.
 
 
 
VIOMUNDO – Essa mudança afeta, de alguma maneira, a filosofia do serviço médico cubano?
JK – Em nada. Eu passei dois meses em El Salvador e na Guatemala trabalhando com os médicos cubanos e o interessante é que eles adotam a mesma filosofia de medicina preventiva, promover a educação local. Os médicos cubanos vivem em meio à população, frequentam as mesmas lojas, são muito visíveis e ativos na comunidade.Eles também são bem treinados. Quase todos já participaram de outras missões no exterior. Estão muito acostumados a viver em condições difíceis, ao contrário dos colegas brasileiros dos bairros mais ricos de São Paulo e Rio.
Esses médicos cubanos vão se dar muito bem no meio da Amazônia, especialmente porque já viveram em condições bastante difíceis em outros países do terceiro mundo. Eles não são elitistas, vivem com o povo. É importante entender que depois de crescer em condições difíceis em Cuba, eles se adaptam muito bem a qualquer situação. Vendo a reação das associações médicas no Brasil, é importante ressaltar que entre 80 e 85% dos problemas de saúde podem ser diagnosticados com uma boa consulta, com a observação apropriada, ouvindo o paciente e conversando com a família dele.
Em outras palavras, a tecnologia que se encontra nos hospitais top dos grandes centros não existe nas cidades menores. E essa é compreensão da medicina que os cubanos têm. Os médicos que preferem que essas populações não tenham assistência nenhuma, ao invés de ter os cubanos, estão negando qualquer juramento que fizeram. É impressionante! Mas aconteceu o mesmo em outros países onde os cubanos chegaram pela primeira vez. Em Honduras, foram depois de um grande furacão e os dois países não tinham relações. A associação médica reclamou, exigiu a revalidação dos diplomas, e a população se rebelou. O governo de direita teve que voltar atrás. Na Venezuela, a Federação Médica também não queria porque é competição com uma filosofia totalmente diferente e a elite não queria perder o controle da situação. Os médicos cubanos mostram que atendem melhor a população do que essa elite médica.
 
 
VIOMUNDO – Mas essa mudança, que começa a levar em conta algum interesse financeiro, influencia de alguma forma o trabalho dos médicos cubanos?
JK – Deve haver algum impacto. Se Cuba não tivesse tantos médicos como tem, teria efeito adverso. Mas Cuba tem muitos, muitos médicos. Mais de 80 mil para uma população de 11 milhões. E acho que o Partido Comunista disse que vai continuar. Está na Constituição cubana, que enfatiza a necessidade de oferecer ajuda humanitária onde quer que seja necessário, especialmente na América Latina e no Caribe.
Isso vai continuar e não vão negar ajuda a países que não têm dinheiro. Porém, mais e mais, acho que os médicos que Cuba em excesso serão exportados. Acho que terá impacto, sem dúvida. Mas a política governamental, sob Raúl Castro, ele deixou bem claro, o aumento da exportação de serviços será canalizada para benefício da população. Então, todo o dinheiro que os médicos ganham para o estado vai para os cofres do estado para comprar livros e penicilina para as crianças, por exemplo, e mais dinheiro para os médicos. 
 
 
VIOMUNDO – Qual seria o melhor exemplo de mudança profunda em um sistema de saúde nacional por conta do contato com médicos cubanos?
JK – O Haiti talvez seja o melhor exemplo. Quando o país sofreu com um grande furacão, o George, os médicos cubanos foram para lá. Centenas deles.
Quando aconteceu o terremoto, em 2010, ainda havia 400 médicos cubanos trabalhando no Haiti, de graça.
Em termos de mortalidade infantil, acesso a médicos, qualquer estatística que você quiser usar, o Haiti é o melhor exemplo.
Mas se você observar qualquer outro país no qual os cubanos estiveram envolvidos, na Guatemala, em Honduras, onde você teve um grande número de médicos cubanos, se pegar as estatísticas da Organização Pan-Americana de Saúde, e olhar as áreas onde os médicos cubanos estiveram, vai ver que essas áreas desassistidas se beneficiaram tremendamente do papel de Cuba.
 
 
VIOMUNDO – E o sistema de saúde mesmo, muda também?
JK – Isso é mais difícil avaliar. Talvez a Venezuela porque com o apoio financeiro de Hugo Chávez e as ideias dos cubanos, existe agora uma segunda ELAM, Escola Latino Americana de Medicina que foi instituída na Venezuela. Ela começou a funcionar no ano passado.
Existem cerca de 30 mil agentes de saúde cubanos na Venezuela. Destes 30 mil, uns 13 mil são médicos e eles começaram a trabalhar nos bairros treinando jovens venezuelanos que não têm dinheiro para frequentar a faculdade de medicina.
No passado, muitos eram enviados para a ELAM, para estudar em Havana. Mas a combinação Chávez-Castro decidiu treinar as pessoas na Venezuela mesmo. Este ano, os primeiros 8 mil médicos treinados para se tornarem médicos comunitários integrais se formaram. Até agora, 50 mil médicos venezuelanos já foram treinados por médicos cubanos.
 
 
VIOMUNDO – Essa segunda ELAM vai aceitar alunos apenas da Venezuela ou também de outros países?
JK – De outros países também. Este ainda é um trabalho em andamento, sendo criado, mas a filosofia médica… se você puder imaginar, Chávez e Fidel fizeram um pacto para treinar 100 mil médicos da América Latina e do Caribe sem custo algum para os estudantes. Eles foram escolhidos porque têm uma origem pobre, ao contrário de muitos médicos de vários países — tenho certeza que o Brasil não é uma exceção, ou a Venezuela — que foram embora para Miami, para o Canadá ou para a Europa.
Esses outros não. Quando se formam, voltam para suas comunidades. Tem dado resultado e vai continuar dando resultado.
Acho que se a gente refizer essa entrevista dentro de 10 anos, você verá, por toda a América Latina, que os médicos que se formaram sob a forma de pensar de Cuba e da Venezuela, tanto em Havana como em Caracas, terão modificado a forma que se pratica medicina na América Latina.
 
 
VIOMUNDO – Quando o programa começou em 1960, a ideia básica era a ajuda humanitária ou também havia um viés ideológico ou o objetivo de conquistar votos na ONU?
JK – A introdução do meu livro fala que quando comecei a pesquisa, achava que Cuba estava fazendo isso por motivos políticos, para ganhar votos na ONU. Isso está bem na abertura do meu livro. Mas eu estava errado.
Claro que também é um fator. Mas se você analisa o papel de Cuba no Timor Leste, por exemplo, quando o país se tornou independente, tinha apenas 47 médicos. O governo pediu a Cuba que fornecesse alguns médicos e 250 foram enviados. Mas Castro disse: no lugar de fornecermos uma solução band-aid, por que não treinamos pessoas das suas comunidades que não podem pagar uma universidade de medicina? Então, no ano passado, 400 médicos já estavam formados, treinados tanto em Havana como na faculdade que agora existe em Díli, capital do Timor Leste. Eu menciono isso porque Cuba pode conseguir no máximo um voto na ONU com este investimento massivo em capital humano no Timor Leste, sem custo para os timorenses.
 
 
VIOMUNDO – Essa faculdade no Timor Leste foi montada por Cuba?
JK – Sim. Os cubanos decidiram que, por uma questão de eficiência e custo, seria melhor, ao invés de levar centenas de timorenses para Havana, estabelecer uma faculdade no Timor Leste para treinar os estudantes locais.
 
 
VIOMUNDO – Como funciona, o país forneceu o prédio e Cuba montou o curso, forneceu os professores?
JK – Exatamente. E o Timor Leste é um exemplo do que Cuba fez por motivos humanitários, por solidariedade. Eles não ganham muitos votos na ONU com isso, mas fizeram assim mesmo. Foi assim também quando enviaram pessoas a Honduras, El Salvador, depois de furacões, à Nicarágua quando nem tinham relações diplomáticas.Nada disso foi para ganhar votos na ONU porque não tinham relações diplomáticas com esses países. Eu escrevi um artigo a respeito dos motivos pelos quais Cuba faz isso. E listei várias razões.
Primeiro, por causa de Fidel Castro. Eu tive a sorte de passar duas semanas com ele em 1994 e 1996.
O premier da minha província, a Nova Escócia, que é um médico de família, estava em Cuba para discutir trocas comerciais. Mas como o premier tinha muito interesse em saúde pública, era um médico bastante liberal que trabalhou com ajuda humanitária na Nicarágua na época dos sandinistas e na África, ele e o Fidel Castro ficaram muito amigos.
Eu estava traduzindo e ouvia os dois. A ideologia do Fidel Castro foi crucial desde o começo e continua sendo ainda hoje.
Segundo, existem razões históricas. Na guerra da independência, contra a Espanha, de 1868 a 1898, vários estrangeiros foram a Cuba dar apoio e lutar pela independência. Por outro lado, o contingente Henry Reeve foi uma brigada de 2.000 especialistas de emergência formada depois do furacão Katrina. O Henry Reeve era um norte-americano que lutou pela independência de Cuba. Então, a tradição da solidariedade internacional era muito importante. O fato de que Cuba foi mantida pela ajuda da União Soviética e pelos países do Leste Europeu, entre 1960 e 1990, também é parte dessa solidariedade internacional.
Em terceiro lugar, a Constituição cubana faz referência à obrigação de Cuba de ajudar quem está em uma situação mais difícil do que ela mesma. Está dentro da Constituição cubana essa necessidade de prover solidariedade e cooperação.
Um quarto fator seria a possibilidade de ganhar apoio internacional. Cuba, como você sabe, foi eleita como líder do movimento dos países não alinhados duas vezes. Cuba foi eleita para presidir a Comissão de Direitos Humanos da ONU com o apoio de 135 países. O Canadá foi eleito com o apoio de 130. E os votos que você comentou, da ONU, condenando o embargo dos Estados Unidos.
Seria muita inocência dizer que Cuba não pensou nessa perspectiva internacional e na possiblidade de conquistar votos na ONU. Mas acho que não foi um fator primordial.
Por todos estes motivos, Cuba mandou missões médicas a vários países quando não era nem tão bom assim para ela. Esse é um processo que já tem mais de 50 anos. Agora acho que está sendo usado como uma forma de conseguir capital e também como uma oportunidade para dar os médicos cubanos a chance de ganhar um salário decente.
Como você deve saber, em Cuba eles não ganham um salário decente. Indo ao Brasil, terão a oportunidade de ganhar muito mais do que podem ganhar em casa.
Por todos esses motivos, Cuba se envolveu em um programa internacional de cooperação, principalmente por razões humanitárias no começo, o que ainda é o fator essencial, mas também, mais recentemente, como forma de manter a economia cubana em dia.
 
 
 

A construtora brasileira Odebrecht está renovando o porto de Mariel, em Cuba

 
 
 
 
 


 
 
 

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