sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Cinquenta verdades sobre Fidel Castro

Cinquenta verdades sobre Fidel Castro

O líder histórico da Revolução Cubana marcou para sempre a história de seu país e da América Latina, transformando a ilha em símbolo de dignidade e de resistência.

Salim Lamrani*

1. Procedente de uma família de sete filhos, Fidel Castro nasceu no dia 13 de agosto de 1926 em Birán, na atual província de Holguín, da união entre Ángel Castro Argiz, rico proprietário de terras espanhol oriundo da Galícia, e Lina Ruz González, cubana.

2. Aos sete anos, ele se muda para a cidade de Santiago de Cuba e vive na casa de uma professora encarregada de educá-lo. Ela o abandona à própria sorte. “Conheci a fome”, lembraria Fidel Castro e “minha família tinha sido enganada”. Um ano depois, ele entra no colégio religioso dos Irmãos de la Salle, em janeiro de 1935, como interno. Deixa a instituição para ir para o colégio Dolores, aos 11 anos, em janeiro de 1938, depois de se rebelar contra o autoritarismo de um professor. Segue sua escolaridade com os jesuítas no Colégio de Belém em Havana, de 1942 a 1945. Depois de uma graduação brilhante, seu professor, o padre Armando Llorente, escreve no anuário da instituição: “Distinguiu-se em todas as matérias relacionadas às letras. Excepcional e congregante, foi um verdadeiro atleta, defendendo sempre com valor e orgulho a bandeira do colégio. Soube ganhar a admiração e o carinho de todos. Cursará a carreira de Direito e não duvidamos de que encherá de páginas brilhantes o livro de sua vida.”

3. Apesar de se exiliar em Miami, em 1961, por causa das tensões entre o governo revolucionário e a Igreja Católica cubana, o padre Llorente sempre guardou uma lembrança nostálgica de seu antigo aluno. “Me dizem: ‘o senhor sempre fala bem de Fidel’. Eu falo do Fidel que eu conheci. Inclusive, [ele] uma vez salvou a minha vida e essas coisas não podem ser esquecidas nunca”. Fidel Castro se jogou na água para salvar seu professor, levado pela correnteza.

4. Em 1945, Fidel Castro entra na Universidade de Havana, onde cursa a graduação de Direito. Eleito delegado da Faculdade de Direito, participa ativamente das manifestações contra a corrupção do governo do presidente Ramón Grau San Martín. Não vacila, tampouco, em denunciar publicamente gangues vinculadas às autoridades políticas. Max Lesnik, então secretário-geral da Juventude Ortodoxa e colega de Fidel Castro, lembra-se desse episódio: “O comitê 30 de setembro [criado para lutar contra as gangues] fez o acordo de apresentar a denúncia contra o governo e os gângsteres no plenário da Federação Estudantil [Universitária]. No salão, mais de 300 alunos de diversas faculdades se apresentaram para escutar Fidel quando alguém [...] gritou: ‘Aquele que falar o que não deve, falará pela última vez’. Estava claro que a ameaça era contra o orador da vez. Fidel se levantou de sua cadeira e, com passo lento e firme, se encaminhou ao centro do amplo salão, [...] e começou a ler uma lista oficial com os nomes e todos e de cada um dos membros das gangues e dos dirigentes da FEU que haviam sido premiados com suculentas ‘garrafas’ [cargos] nos distintos ministérios da administração pública.”

5. Em 1947, aos 22 anos, Fidel Castro participa, com Juan Bosch, futuro presidente da República Dominicana, de uma tentativa de desembarque da [expedição de] Cayo Confites para derrubar o ditador Rafael Trujilo, então apoiado pelos Estados Unidos.

6. Um anos depois, em 1948, participa do Bogotazo, revolta popular desatada pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, líder político progressista, candidato às eleições presidenciais da Colômbia.

7. Graduado em Direito em 1950, Fidel Castro atua como advogado até 1952 e defende as pessoas humildes, antes de se lançar na política.

8. Fidel Castro nunca militou no Partido Socialista Popular (PSP), partido comunista da Cuba pré-revolucionária. Era membro do Partido do Povo Cubano, também chamado Partido Ortodoxo, fundado em 1947 por Eduardo Chibás. O programa do Partido Ortodoxo de Chibás é progressista e se baseia em vários pilares: soberania nacional, independência econômica pela diversificação da produção agrícola, supressão do latifúndio, desenvolvimento da indústria, nacionalização dos serviços públicos, luta contra a corrupção e justiça social por meio da defesa dos trabalhadores. Fidel Castro reivindica seu pertencimento ao pensamento “martiano” (de José Martí), chibasista (de Chibás) e anti-imperialista. Orador de grande talento, se apresenta às eleições parlamentárias como candidato do Partido do Povo Cubano em 1952.

9. No dia 10 de março de 1952, a três meses das eleições presidenciais, o general Fulgencio Batista rompe a ordem constitucional e derruba o governo de Carlos Prío Socarrás. Consegue o apoio imediato dos Estados Unidos, que reconhecem oficialmente a nova ditadura militar.

10. O advogado Fidel Castro apresenta uma denúncia contra Batista por romper a ordem constitucional: “Se existem tribunais, Batista deve ser castigado, e se Batista não é castigado [...], como poderá depois este tribunal julgar um cidadão qualquer por motim ou rebeldia contra esse regime ilegal, produto da traição impune?”. O Tribunal Supremo, sob as ordens do novo regime, recusa a demanda.

11. No dia 26 de julho de 1953, Fidel Castro se coloca à frente de uma expedição de 131 homens e ataca o quartel Moncada na cidade de Santiago, segunda maior fortaleza militar do país, assim como o quartel Carlos Manuel de Céspedes, na cidade de Bayamo. O objetivo era tomar o controle da cidade – berço histórico de todas as revoluções – e lançar um chamado pela rebelião em todo o país para derrubar o ditador Batista.

12. A operação é um fracasso e 55 combatentes são assassinados depois de brutalmente torturados pelos militares. De fato, apenas seis deles morreram em combate. Alguns conseguiram escapar graças ao apoio da população.

13. Fidel Castro, capturado alguns dias depois, deve a vida ao sargento Pedro Sarría, que se negou a seguir as ordens de seus superiores e executar o líder de Moncada. “Não disparem! Não disparem! Não se deve matar as ideias!”, exclamou para seus soldados.

14. Durante sua histórica alegação, intitulada “A História me Absolverá”, Fidel Castro, encarregado de sua própria defesa, denuncia os crimes de Batista e a miséria na qual se encontra o povo cubano, e apresenta seu programa para uma Cuba livre, baseado na soberania nacional, na independência econômica e na justiça social.

15. Condenado a 15 anos de prisão, Fidel Castro é liberado em 1955, depois da anistia que o regime de Batista lhe concedeu. Funda o Movimento 26 de Julho (M 26-7) e declara seu projeto de seguir lutando contra a ditadura antes de se exilar no México.

16. Fidel Castro organiza ali a expedição do Granma com um médico chamado Ernesto Guevara. Não foi muito trabalhoso para Fidel Castro convencer o jovem argentino, que recordava: “O conheci em uma dessas frias noites do México e lembro-me de que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Poucas horas depois, na mesma noite — de madrugada — eu era um de seus futuros expedicionários.”

17. Em agosto de 1955, Fidel Castro publica o Primeiro Manifesto do Movimento 26 de Julho, que retoma os pontos essenciais de “A História me Absolverá”. Trata de reforma agrária, da proibição do latifúndio, de reformas econômicas e sociais a favor dos deserdados, da industrialização da nação, da construção de habitações, da diminuição dos aluguéis, da nacionalização dos serviços públicos de telefone, gás e eletricidade, de educação e da cultura para todos, da reforma fiscal e da reorganização da administração pública para lutar contra a corrupção.

18. Em outubro de 1955, para reunir os fundos necessários para a expedição, Fidel Castro realiza uma turnê pelos Estados Unidos e se reúne com os exilados cubanos. O FBI vigia de perto os clubes patrióticos M 26-7 fundados em diferentes cidades.

19. No dia 2 de dezembro de 1956, Fidel Castro embarca no porto de Tuxpán, no México, a bordo do barco Granma, com capacidade para 25 pessoas. Os revolucionários são 82 no total e navegam rumo a Cuba com o objetivo de desatar um guerra de guerrilhas nas montanhas de Sierra Maestra.

20. A travessia se transforma em pesadelo por causa das condições climáticas. Um expedicionário cai ao mar. Juan Almeida, membro do grupo e futuro comandante da Revolução, lembra-se do episódio: “Fidel nos disse o seguinte: ‘Daqui não nos vamos até que o salvemos’. Isso comoveu as pessoas e animou a combatividade. Pensamos: ‘com esse homem não há abandonados’. O salvamos, correndo o risco de perder a expedição.”

21. Depois de uma travessia de sete dias, em vez dos cinco previstos, no dia 2 de dezembro de 1956 a tropa desembarca “no pior pântano jamais visto”, segundo Raúl Castro. Os tiros da aviação cubana a dispersam e 2 mil soldados de Batista, que esperavam os revolucionários, a perseguem.

22. Alguns dias depois, em Cinco Palmas, Fidel Castro volta a se encontrar com seu irmão Raúl e com outros 10 expedicionários. “Agora sim ganhamos a guerra”, declara o líder do M 26-7 a seus homens. Começa a guerra de guerrilhas que duraria 25 meses.

23. Em fevereiro de 1957, a entrevista com Fidel Castro realizada por Herbert Matthews, do New York Times, permite que a opinião pública estadunidense e mundial descubra a existência de uma guerrilha em Cuba. Batista confessaria mais tarde, em suas memórias, que graças a esse golpe jornalístico, “Castro começava a ser um personagem lendário”. Matthews suavizou, entretanto, a importância de sua entrevista. “Nenhuma publicidade, por mais sensacional que fosse, poderia ter tido efeito se Fidel Castro não fosse precisamente o homem que eu descrevi.”

24. Apesar das declarações oficiais de neutralidade no conflito cubano, os Estados Unidos concedem seu apoio político, econômico e militar a Batista e se opõem a Fidel Castro até os últimos instantes. No dia 23 de dezembro de 1958, a uma semana do triunfo da Revolução, enquanto o Exército de Fulgencio Batista se encontra em plena debandada, apesar de sua superioridade em armas e homens, acontece a 392ª reunião do Conselho de Segurança Nacional [dos Estados Unidos], com a presença do presidente [Dwight D.] Eisenhower. Allen Dulles, então diretor da CIA, expressa claramente a posição dos Estados Unidos. “Temos de impedir a vitória de Castro.”

25. Apesar do apoio dos Estados Unidos, de seus 20 mil soldados e da superioridade material, Batista não pôde vencer uma guerrilha composta de 300 homens armados durante a ofensiva final do verão de 1958, que mobilizou mais de 10 mil pessoas. Essa “vitória estratégica” revela, então, a genialidade militar de Fidel Castro, que havia antecipado e derrotado a operação Fim de Fidel lançada por Batista.

26. No dia 1 de janeiro de 1959, cinco anos, cinco meses e cinco dias depois do ataque ao quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, triunfou a Revolução Cubana.

27. Durante a formação do governo revolucionário, em janeiro de 1959, Fidel Castro é nomeado ministro das Forças Armadas. Não ocupa a Presidência, ocupada pelo juiz Manuel Urrutia, nem o posto de primeiro-ministro, entregue ao advogado José Miró Cardona.

28. Em fevereiro de 1959, o primeiro-ministro Cardona, que se opõe às reformas econômicas e sociais que considera demasiadamente radicais (projeto de reforma agrária), apresenta sua demissão. Manuel Urrutia chama Fidel Castro para ocupar o cargo.

29. Em julho de 1959, frente à oposição do presidente Urrutia, que recusa novas reformas, Fidel Castro renuncia a seu cargo de primeiro-ministro. Imensas manifestações populares têm início em Cuba, exigindo a saída de Urrutia e o retorno de Fidel Castro. O novo presidente da República, Osvaldo Dorticós, volta a nomeá-lo primeiro-ministro.

30. Os Estados Unidos se mostram imediatamente hostis à Fidel Castro ao acolher com braços abertos os dignitários do antigo regime, incluindo vários criminosos de guerra que tinham roubado as reservas do Tesouro cubano, levando 424 milhões de dólares.

31. Não obstante, desde o princípio, Fidel Castro declara sua vontade de manter boas relações com Washington. Entretanto, durante sua primeira visita aos Estados Unidos, em abril de 1959, o presidente Eisenhower se nega a recebê-lo e prefere ir jogar golfe. John F. Kennedy lamentaria o ocorrido: “Fidel Castro é parte do legado de Bolívar. Deveríamos ter dado ao fogoso e jovem rebelde uma mais calorosa acolhida em sua hora de triunfo”.

32. A partir de outubro de 1959, pilotos procedentes dos Estados Unidos bombardeiam Cuba e voltam para a Flórida sem serem perturbados pelas autoridades. No dia 21 de outubro de 1959, lançam uma bomba sobre Havana que provoca duas mortes e fere 45 pessoas. O responsável pelo crime, Pedro Luis Díaz Lanza, volta a Miami sem ser perturbado pela justiça e Washington se nega a extraditá-lo para Cuba.

33. Fidel Castro se aproxima de Moscou somente em fevereiro de 1960 e apenas adquire armas soviéticas depois de os Estados Unidos rejeitarem fornecer o arsenal necessário para a sua defesa. Washington também pressiona o Canadá e as nações europeias solicitadas por Cuba com a finalidade de obrigar o país a se dirigir ao bloco socialista e assim justificar sua política hostil em relação a Havana.

34. Em março de 1960, a administração Eisenhower toma a decisão formal de depor Fidel Castro. No total, o líder da Revolução Cubana sofreria nada menos que 637 tentativas de assassinato.

35. Em março de 1960, a sabotagem, comandada pela CIA, do barco francês La Coubre, carregado de armas no porto de Havana, provoca mais de cem mortes. Em seu discurso em homenagem às vítimas, Fidel Castro lança o lema: “Pátria ou morte”, inspirado no [lema] da Revolução Francesa, “Liberdade, igualdade, fraternidade ou morte.”

36. No dia 16 de abril de 1961, depois dos bombardeios dos principais aeroportos do país pela CIA, prelúdio da invasão da Baía dos Porcos, Fidel Castro declara o caráter “socialista” da Revolução.

37. Durante a invasão da Baía dos Porcos por 1400 exilados financiados pela CIA, Fidel Castro faz parte da primeira linha de combate. Infringe uma severa derrota aos Estados Unidos e esmaga os invasores em 66 horas. Sua popularidade chega ao topo em todo o mundo.

38. Durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, o general soviético Alexey Dementiev estava ao lado de Fidel Castro. Conta suas lembranças: “Passei junto a Fidel Castro os momentos mais impressionantes de minha vida. Estive a maior parte do tempo a seu lado. Houve um instante em que considerávamos próximo o ataque militar dos Estados Unidos e Fidel tomou a decisão de colocar todos os meios em [estado] de alerta. Em poucas horas, o povo estava em posição de combate. Era impressionante a fé de Fidel em seu povo, e de seu povo, e de nós, os soviéticos, nele. Fidel é, sem discussão, um dos gênios políticos e militares deste século.”

39. Em outubro de 1965, cria-se o Partido Comunista de Cuba (PCC), substituindo o Partido Unido da Revolução Socialista (PURS), surgido em 1962 (que substituiu as Organizações Revolucionárias Integradas — ORI —, criadas em 1961). Fidel Castro é nomeado primeiro-secretário.

40. Em 1975, Fidel Castro é eleito pela primeira vez para a Presidência da República depois da adoção da nova Constituição. Seria reeleito até 2006.

41. Em 1988, a mais de 20 mil quilômetros de distância, Fidel Castro dirige de Havana a batalha de Cuito Cuanavale em Angola, na qual as tropas cubanas e angolanas infringem uma retumbante derrota às forças armadas sul-africanas que invadiram Angola e que ocupavam a Namíbia. O historiadora Piero Gleijeses, professor da Universidade John Hopkins, de Washington, escreve a respeito: “Apesar de todos os esforços de Washington [aliado ao regime do apartheid] para impedir-lhe, Cuba mudou o rumo da história da África Austral [...]. A proeza dos cubanos no campo de batalha e seu virtuosismo à mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua exitosa defesa de Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou a SADF [Força de Defesa Sul-Africana, as então Forças Armadas oficiais da África do Sul, por sua sigla em inglês] a sair de Angola. Essa vitória repercutiu para além da Namíbia.”

42. Observador lúcido da Perestroika, Fidel Castro declara ao povo em um discurso premonitório do dia 26 de julho de 1989, que, no caso do desaparecimento da União Soviética, Cuba deveria resistir e prosseguir na via do socialismo. “Se amanhã ou qualquer outro dia despertássemos com a notícia de que se criou uma grande guerra civil na URSS, ou até se despertássemos com a notícia de que a URSS se desintegrou [...], Cuba e a Revolução Cubana seguiriam lutando e seguiriam resistindo.”

43. Em 1994, em pleno Período Especial, conhece Hugo Chávez, com quem estabelece uma forte amizade, que duraria até a morte dele, em 2013. Segundo Fidel Castro, o presidente venezuelano foi o “melhor amigo que o povo cubano teve”. Ambos estabelecem uma colaboração estratégica com a criação, em 2005, da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, que agrupa atualmente oito países da América Latina e do Caribe.

44. Em 1998, Fidel Castro recebe a visita do papa João Paulo II em Havana. Ele pede que “o mundo se abra para Cuba e que Cuba se abra para o mundo”.

45. Em 2002, o ex-presidente dos Estados Unidos James Carter realiza uma visita histórica a Cuba. Faz uma intervenção ao vivo pela televisão: “Não vim aqui interferir nos assuntos internos de Cuba, mas estender uma mão de amizade ao povo cubano e oferecer uma visão de futuro aos nossos países e às Américas. [...] Quero que cheguemos a ser amigos e nos respeitemos uns aos outros [...]. Devido ao fato de os Estados Unidos serem a nação mais poderosa, somos nós que devemos dar o primeiro passo.”

46. Em julho de 2006, depois de uma grave doença intestinal, Fidel Castro renuncia ao poder. Conforme a Constituição, é sucedido pelo vice-presidente, Raúl Castro.

47. Em fevereiro de 2008, Fidel Castro renuncia definitivamente a qualquer mandato executivo. Consagra-se, então, à redação de suas memórias e publica regularmente artigos sob o título “reflexões.”

48. Arthur Schlesinger Jr., historiador e assessor especial do presidente Kennedy, evocou a questão do culto à pessoa [de Fidel] depois de uma permanência em Cuba em 2001. “Fidel Castro não incentiva o culto à [sua] pessoa. É difícil encontrar um cartaz ou até um cartão postal de Castro em qualquer lugar de Havana. O ícone da Revolução de Fidel, visível em todos os lugares, é Che Guevara.”

49. Gabriel García Márquez, escritor colombiano e Prêmio Nobel de literatura, é amigo íntimo de Fidel Castro. Esboçou um retrato dele e ressalta “a confiança absoluta que desperta no contato direto. Seu poder é de sedução. Busca os problemas onde eles estão. Sua paciência é invencível. Sua disciplina é de ferro. A força de sua imaginação o empurra até os limites do imprevisto.”

50. O triunfo da Revolução Cubana no dia 1 de janeiro de 1959, dirigida por Fidel Castro, é o acontecimento mais relevante da História da América Latina do século XX. Fidel Castro continuará sendo uma das figuras mais controversas do século XX. Entretanto, até seus mais ferrenhos detratores reconhecem que fez de Cuba uma nação soberana e independente, respeitada no cenário internacional, com inegáveis conquistas sociais nos campos da educação, saúde, cultura, esporte e solidariedade internacional. Ficará para sempre como o símbolo da dignidade nacional que sempre se colocou do lado do oprimidos e que deu seu apoio a todos os povos que lutavam por sua emancipação.



*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos

O último encontro com Lula

O último encontro com Lula
Fidel Castro

Em julho de 1980, há 30 anos, conheci Lula em Manágua, durante a comemoração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, graças aos meus contatos com os partidários da Teologia da Libertação, nascida no Chile, exatamente à época em que visitei o presidente Salvador Allende (1972).
Através de Frei Betto sabia quem era Lula, um líder operário no qual os cristãos de esquerda, desde cedo, depositaram as suas esperanças.
Tratava-se de um simples operário da indústria metalúrgica que se destacava por sua inteligência e prestígio entre os sindicatos, na grande nação que emergia das trevas da ditadura militar imposta pelo império ianque, na década de 60.
As relações do Brasil com Cuba tinham sido excelentes até que o poder dominante no hemisfério, as fez sucumbir. Desde então, passaram-se décadas até que voltassem lentamente para ser o que hoje são.
Cada país viveu a sua história. Nossa pátria suportou inusitadas pressões nas etapas incríveis vividas desde 1959, em sua luta frente às agressões do mais poderoso império da história.
Por isso, é de enorme transcendência para nós a reunião que acaba de acontecer em Cancún e a decisão de criar uma Comunidade de Estados da América Latina e Caribe. Nenhum outro fato institucional de nosso hemisfério durante o último século reflete similar transcendência.
O acordo foi celebrado em meio à mais grave crise econômica que o mundo globalizado já conheceu, coincidindo com o maior perigo de catástrofe ecológica de nossa espécie e com o terremoto que destruiu Porto Príncipe, capital do Haiti, o mais doloroso desastre humano da história de nosso hemisfério, no país mais pobre do continente e o primeiro onde se erradicou a escravidão.
Quando escrevia esta Reflexão, há apenas seis semanas da morte de mais de duzentas mil pessoas de acordo a cifras oficiais naquele país, chegaram notícias dramáticas dos danos causados por outro terremoto, no Chile, que ocasionou a morte de pessoas cujo número se aproxima a mil, segundo cifras das autoridades, e enormes danos materiais. Comovem especialmente as imagens do sofrimento de milhões de chilenos atingidos, material ou emocionalmente, por aquele golpe cruel da natureza. O Chile, felizmente, é um país com mais experiência diante desse tipo de fenômeno, muito mais desenvolvido economicamente e com mais recursos. Se o país não contasse com infraestruturas e edificações mais sólidas, um número incalculável de pessoas, talvez dezenas ou inclusive centenas de milhares de chilenos, teriam perecido. Fala-se em dois milhões de danificados e possíveis perdas que oscilam entre 15 a 30 bilhões de dólares. Em sua tragédia conta também com a solidariedade e a simpatia dos povos, entre eles o nosso, embora dado ao tipo de cooperação que precisa é pouco o que Cuba pode fazer, cujo governo foi um dos primeiros em expressar ao Chile seus sentimentos de solidariedade, quando as comunicações ainda estavam paralisadas.
O país que hoje põe à prova a capacidade do mundo para enfrentar a mudança climática e garantir a sobrevivência da espécie humana é sem dúvida o Haiti, por constituir um símbolo da pobreza que hoje padecem bilhões de pessoas no mundo, incluída uma parte importante dos povos de nosso continente.
O que aconteceu no Chile com o terremoto de incrível intensidade de 8,8 graus na escala Richter, a uma profundidade maior do que o abalo sísmico que destruiu Porto Príncipe, obriga-me a enfatizar a importância e o dever de estimular os passos de unidade obtidos em Cancún, apesar de não ter ilusões sobre a difícil e complexa luta de idéias que teremos pela frente perante os esforços do império e de seus aliados dentro e fora de nossos países por frustrar o objetivo de unidade e independência de nossos povos.
Desejo deixar registrada a importância e o simbolismo que para mim teve a visita e o último encontro com Lula, do ponto de vista pessoal e revolucionário. Ele disse que, muito em breve terminará o seu mandato, por isso desejava visitar o seu amigo Fidel; qualificativo honroso que recebi de sua parte. Acredito conhecê-lo muito bem. Em diversas oportunidades conversamos fraternalmente, dentro e fora de Cuba.
Uma vez tive a honra de visitá-lo em sua casa, situada em um modesto bairro de São Paulo, onde residia com sua família. Foi para mim um encontro emotivo com ele, sua esposa e seus filhos. Não esquecerei jamais a atmosfera familiar e sã daquele lar, e o sincero afeto com que o abordavam seus vizinhos, quando Lula já era, então, um líder operário e político de prestígio. Ninguém sabia se chegaria ou não à Presidência do Brasil, pois os interesses e forças que lhe opunham eram muito grandes, mas me agradava falar com ele. Lula tampouco se importava muito com o cargo; satisfazia-lhe, sobretudo, o prazer de lutar e o fazia com irrepreensível modéstia. Isso o demonstrou quando, tendo sido duas vezes derrotado por poderosos adversários, só aceitou a indicação do Partido dos Trabalhadores pela terceira vez devido à forte pressão de seus amigos mais sinceros.
Não tentarei fazer recontagem das vezes que falamos antes que ele fosse eleito Presidente; uma delas, entre as primeiras, foi em meados da década de 80 quando lutávamos em Havana contra a dívida externa da América Latina, que então subia a 300 bilhões de dólares e já tinha sido paga mais de uma vez. É um lutador nato.
Duas vezes, como já disse, os seus adversários, apoiados em enormes recursos econômicos e mediáticos, derrotaram-no nas urnas. Os seus mais próximos colaboradores e amigos sabiam, entretanto, que havia chegada a hora de que aquele humilde operário fosse o candidato do Partido dos Trabalhadores e das forças de esquerda.
Com certeza os seus oponentes o subestimaram, pensaram que não poderia contar com a maioria parlamentar. Não mais existia a URSS. Que importância teria a condução de Lula na presidência do Brasil, uma nação de grandes riquezas, mas de escasso desenvolvimento em mãos de uma burguesia rica e influente?
Entretanto, o neoliberalismo entrava em crise, a Revolução Bolivariana triunfara na Venezuela, Ménen estava em queda vertical, Pinochet tinha desaparecido de cena, e Cuba resistia. Mas Lula foi eleito quando Bush triunfava fraudulentamente nos Estados Unidos, despojando o seu rival, Al Gore, da vitória.
Iniciava-se uma etapa difícil. Os primeiros passos do novo Presidente dos Estados Unidos foram de impulsionar a carreira armamentista e, com ela, o papel do Complexo Militar Industrial, e reduzir os impostos aos setores mais ricos do país.
Com o pretexto de luta contra o terrorismo, reiniciou as guerras de conquista e institucionalizou o assassinato e a tortura como instrumento de domínio imperialista. São impublicáveis os fatos relacionados com os cárceres secretos, que delatavam a cumplicidade dos aliados dos Estados Unidos com essa política. Deste modo, acelerou-se a pior crise econômica que em forma cíclica e crescente acompanham o capitalismo desenvolvido, mas desta vez com os privilégios de Bretton Woods e sem nenhum de seus compromissos.
O Brasil, por sua parte, nos últimos oito anos sob a direção de Lula, vencia obstáculos, incrementava seu desenvolvimento tecnológico, e potencializava o peso da economia brasileira. A parte mais difícil foi seu primeiro período, mas teve êxito e ganhou experiência. Com seu incansável batalhar, serenidade, sangue-frio e crescente consagração à tarefa, em condições internacionais tão difíceis, o Brasil alcançou um PIB que se aproxima dos dois trilhões de dólares. Os dados variam segundo as fontes, mas todas o situam entre as 10 maiores economias do mundo. Apesar disso, com uma superfície de 8 milhões 524 mil quilômetros quadrados, em comparação com os Estados Unidos, cujo território é um pouco maior, o Brasil só alcança aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto desse país imperialista que saqueia o mundo e desdobra suas forças armadas em mais de mil bases militares de todo o planeta.
Tive o privilégio de assistir à sua posse no final de 2002. Também esteve Hugo Chávez, que acabava de enfrentar o golpe de estado traidor de 11 de abril desse ano, e posteriormente o golpe petroleiro organizado por Washington. Bush era Presidente. As relações entre o Brasil, a República Bolivariana da Venezuela e Cuba sempre foram boas e de respeito mútuo.
Sofri um grave acidente em outubro de 2004, que limitou seriamente minhas atividades durante meses, e adoeci no final de julho de 2006, em virtude do que não vacilei em delegar minhas funções à frente do Partido e do Estado, em 31 de julho desse ano, em caráter provisório. Em seguida atribui caráter definitivo, quando compreendi que não estaria em condições de reassumir minhas funções.
Assim que a gravidade de minha saúde me permitiu estudar e meditar, consagrei o meu tempo a isso e a revisar materiais de nossa Revolução, e de vez em quando publicar algumas reflexões.
Depois que adoeci tive o privilégio de ser visitado por Lula cada vez que esteve em nossa Pátria e de conversar amplamente com ele. Não direi que sempre coincidi com toda a sua política. Sou, por princípio, oposto à produção de bicombustíveis a partir de produtos que possam ser utilizados como alimentos, consciente de que a fome é, e poderá ser, cada vez mais uma grande tragédia para a humanidade.
Entretanto - o expresso com toda franqueza - este não é um problema criado pelo Brasil e muito menos por Lula. Faz parte inseparável da economia mundial imposta pelo imperialismo e seus aliados ricos. Subsidiando suas produções agrícolas, protegem seus mercados internos e competem no mercado mundial com as exportações de alimentos dos países do Terceiro Mundo, obrigados a importar em troca pelos artigos industriais produzidos com as matérias primas e os recursos energéticos deles mesmos que tenham herdado a pobreza de séculos de colonialismo. Compreendo perfeitamente que o Brasil não tinha outra alternativa, diante da concorrência desleal e dos subsídios dos Estados Unidos e Europa, senão incrementar a produção de etanol.
A taxa de mortalidade infantil no Brasil é de 23,3 por cada mil nascidos vivos e a materna de 110 por cada 100 mil partos, enquanto nos países industrializados e ricos é menos de 5 e 15, respectivamente. Outros dados similares poderiam ser citados.
O açúcar de beterraba, subsidiado pela Europa, arrebatou ao nosso país o mercado de açúcar, derivado da cana de açúcar, trabalho agrícola e industrial precário e eventual que mantinha no desemprego grande parte do tempo os trabalhadores açucareiros. Os Estados Unidos por sua vez, apoderou-se também de nossas melhores terras e suas empresas eram proprietárias da indústria. Um dia, abruptamente, despojaram-nos da cota açucareira e bloquearam nosso país para esmagar a Revolução e a independência de Cuba.
Hoje, o Brasil desenvolveu o cultivo da cana de açúcar, da soja e do milho com máquinas de alto rendimento que podem empregar nesses cultivos com maior produtividade. Quando um dia observei a preparação de uma extensão de 40 mil hectares de terra em Cego de Ávila dedicada ao cultivo de soja em rotação com milho onde se tratará de trabalhar durante todo o ano, exclamei: é o ideal para uma empresa agrícola socialista, altamente mecanizada com elevada produtividade por homem e por hectare.
Os problemas da agricultura e suas instalações no Caribe são os furacões que, em número crescente, arrasam seu território.
Também nosso país elaborou e assinou com o Brasil o financiamento e construção de um moderno porto em Mariel, que será de enorme importância para nossa economia.
Na Venezuela, está sendo utilizada a tecnologia agrícola e industrial brasileira para produzir açúcar e utilizar o bagaço como fonte de energia termoelétrica. São equipamentos modernos que trabalham em uma empresa também socialista. Na República Bolivariana utilizam o etanol para melhorar o efeito ambientalmente nocivo da gasolina.
O capitalismo desenvolveu as sociedades de consumo e também o esbanjamento de combustível que engendrou o risco de uma dramática mudança climática. A natureza demorou 400 milhões de anos para criar o que nossa espécie está consumindo em apenas dois séculos. A ciência ainda não resolveu o problema da energia que substituirá a gerada pelo petróleo; ninguém sabe quanto tempo será necessário e quanto custaria resolvê-lo a tempo. Terá condições? Isso foi o que se discutiu em Copenhague, e a Cúpula foi um fracasso total.
Lula me contou que quando o preço do etanol chega a 70% do preço da gasolina, já não é negócio produzi-lo. Expressou que dispondo o Brasil da maior floresta do planeta, reduzirá progressivamente o corte atual em 80%.
Hoje, o país possui a mais avançada tecnologia do mundo em perfuração de poços em águas profundas, e pode extrair combustível localizado a uma profundidade de sete mil metros no fundo do mar. Há 30 anos teria parecido história de ficção científica.
Explicou os programas educacionais de alto nível que o Brasil se propõe levar adiante. Valoriza altamente o papel da China na esfera mundial. Declarou com orgulho que o intercâmbio comercial com esse país se eleva a 40 bilhões de dólares.
Uma coisa é indiscutível: o operário metalúrgico se converteu atualmente em um estadista destacado e de prestígio cuja voz se escuta com respeito em todas as reuniões internacionais.
Está orgulhoso por ter recebido a honra de sediar os Jogos Olímpicos para o Brasil em 2016, em virtude do excelente programa apresentado na Dinamarca. Será sede também do Mundial de Futebol em 2014. Tudo foi fruto dos projetos apresentados pelo Brasil, que superaram os de seus competidores.
Uma grande prova de seu desinteresse foi a renúncia à reeleição, e confia em que o Partido dos Trabalhadores continuará governando o Brasil.
Alguns invejosos de seu prestígio e de sua glória, e pior ainda, os que estão a serviço do império, criticaram-no por visitar Cuba. Utilizaram para isso as abjetas calúnias usadas contra Cuba há meio século.
Lula conhece há muitos anos que em nosso país jamais se torturou ninguém, jamais se ordenou o assassinato de um adversário, jamais se mentiu ao povo. Tem certeza de que a verdade é companheira inseparável de seus amigos cubanos.
De Cuba partiu rumo ao nosso vizinho Haiti. Informamos a ele nossas idéias sobre o que propomos com relação a um programa sustentável, eficiente, especialmente importante e econômico para o Haiti. Sabe que mais de cem mil haitianos foram atendidos por nossos médicos e graduados da Escola Latino-americana de Medicina depois do terremoto. Falamos coisas sérias, conheço seus ardentes desejos de ajudar esse nobre e sofrido povo.
Guardarei uma indelével lembrança de meu último encontro com o Presidente do Brasil e não vacilo em proclamá-lo.

Fonte: CubaDebate, 1º de março de 2010