sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O cinturão progressista no Nordeste e o lulismo como oposição ao fascismo

COLUNA

O cinturão progressista no Nordeste e o lulismo como oposição ao fascismo

Porto Digital, em Recife: o maior parque tecnológico do Brasil / WikimediaCommons/Américo Nunes
O Lulismo é o ponto de partida de qualquer programa de governo daqui pra frente
O resultado do 1º turno das eleições de 2018 deixou muita gente perplexa e desanimada. Se é verdade que as pesquisas confirmaram a tendência para a eleição presidencial com Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno, isso não ocorreu com o legislativo brasileiro. Políticos com respeitáveis trajetórias, como Eduardo Suplicy, Lindbergh Farias, Chico Alencar, Dilma Rousseff entre tantos deputados, não foram eleitos, dando lugar a novos agentes que vão desde as subcelebridades das manifestações de 2015 contra o governo do PT, como Alexandre Frota e Kim Kataguri, e uma bancada imensa no empuxo da Lava Jato. 
De acordo com os dados disponibilizados pelo TSE, se compararmos o resultado das eleições do legislativo em 2014 e 2018, políticos implicados na Lava Jato e com protagonismo no golpe/impeachment da Presidenta Dilma também não foram eleitos: Magno Malta, Eunício Oliveira, Cássio Cunha Lima. 
A grande imprensa tem elogiado essa mudança de perfil dos políticos eleitos como um dos desdobramentos das manifestações de 2013, mas omite a representatividade dos novos eleitos. O número de policiais e militares eleitos para as assembleias, câmara e senado pulou de 18 para 73, muitos deles do PSL das regiões centro-sul do país ao tempo em que o PT elegeu a maior bancada do congresso com 57 deputados, a maioria das regiões norte e nordeste. 
Segundo a declaração de bens dos candidatos eleitos no 1º turno, dos 567 parlamentares 48,85% tem patrimônio superior a R$ 1 milhão, sendo que no senado federal a proporção é de dois em cada três senadores com patrimônio médio de R$ 2 milhões. 
De acordo com o site de notícias UOL “um dado curioso é que, nas duas Casas. Os políticos mais ricos [eleitos] se apresentaram ao eleitor como professores, [mas] ambos são grandes empresários da educação”. Além disso, cumpre destacar que entre os governadores eleitos no 1º turno e as pesquisas sobre a disputa no 2º turno: é possível afirmar que o país sairá novamente rachado das eleições de 2018, com um cinturão progressista nas regiões norte/nordeste e conservador/autoritário no centro-sul. 
Muitos analistas políticos têm afirmado que essa “polarização”, pra usar um termo da moda cunhado pelos isentos, ocorre desde as eleições de 2014, com a presidenta Dilma Rousseff (PT) eleita e Aécio Neves (PSDB) contestando o resultado das eleições. No entanto, chamo atenção para o fato de que essa polarização política ocorre desde as manifestações de 2013: há uma diferença substancial nas manifestações ocorridas no centro-sul em junho de 2013, pedindo “Fora Todos”, e nas manifestações contra o aumento da tarifa no restante do país, especialmente no Nordeste – pois a diferença quantitativa de participantes e qualitativa de demandas são gritantes.
O que explica essas diferenças e as polarizações políticas nos últimos processos eleitorais é a assimetria do Lulismo no país.
Pode-se afirmar com alguma tranquilidade que o resultado das eleições de 2018 seria outro se Luís Inácio Lula da Silva não tivesse sido preso arbitrariamente e tivesse concorrido. Lula é um sertanejo que virou um operário líder sindical, o que explica muito sobre o Lulismo e o movimento político de Lula nos dois mandatos, com destaque para a sua imensa capacidade de negociação e conciliação forjadas nas lutas do chão da fábrica e nas ruas e seu projeto de integração nacional e fim do chamado “Brasil Profundo”. 
Entre 2003 e 2013, o Nordeste teve índice de crescimento de 4,1% ao ano, enquanto o país ficou na marca de 3,3%, de acordo com o Banco Central. Só no ano de 2012, por exemplo, a economia local cresceu o triplo da brasileira. Em 2014, a região passou a ser a segunda maior em consumo, atrás apenas do Sudeste, e corresponde a 13,8% da economia nacional. 
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), entre 2001 e 2012, o nordestino teve o maior ganho de renda entre todas as regiões, o que fez com que a participação da base da pirâmide social caísse de 66% para 45%. Tudo isso fez com que a classe média deixasse de representar apenas 28% da população nordestina em 2002, para ser 45% em 2012. As ações dos governos petistas para a região também geraram empregos: em 2002, apenas cinco milhões de nordestinos tinham emprego formal. Já em 2013, esse número passou para quase nove milhões. Em 2002, quando o presidente Lula foi eleito, mais de 21,4 milhões de nordestinos viviam em situação de pobreza. Em 2012, esse número caiu para 9,6 milhões, segundo estudo da Fundação Perseu Abramo, com base em dados do IBGE. 
Por isso, a importância do programa Bolsa Família para a região, que chegou a ter mais de 35 milhões de pessoas e 7 milhões de famílias beneficiadas pelo maior programa de transferência de renda com contrapartidas: filhos na creche, mulheres com acompanhamento ginecológico e planejamento familiar. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Nordeste tinha 413.709 universitários. Em 2012, esse número saltou para 1.434.825. O número de cursos de doutorado e mestrado também cresceu 33% entre 2010 e 2012 no Nordeste. Com isso, a região ultrapassou o Sul e passou a segunda com maior número de estudantes do ensino superior – 20% do total –, atrás apenas do Sudeste. Sete das 18 universidades criadas nas gestões petistas estão no Nordeste. Apenas quando o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência da República, ações concretas para afastar o fantasma da seca no Nordeste foram realizadas: 1,2 milhão de cisternas foram construídas para consumo humano, pelo o Programa Água para Todos, garantindo água a 22 milhões de sertanejos ao tempo em que para levar acesso à eletricidade de forma gratuita, o governo Lula criou o programa Luz para Todos. Apenas no Nordeste, o programa já tinha atendido, até 2015, mais de 1,5 milhão de famílias, beneficiando cerca de 7,5 milhões de pessoas (PNAD). 
Para quem vive nessas regiões, esses programas, entre outros, resultaram em uma melhoria de vida concreta que foi acompanhada por um processo intenso de politização da importância do Estado Brasileiro no combate às desigualdades econômicas e às assimetrias regionais. Isso significa afirmar que metade da população deu um recado claro nas eleições majoritárias de 2014 e primeiro turno das eleições de 2018: o Lulismo efetivado no Norte e no Nordeste é o ponto de partida de qualquer programa de governo daqui pra frente e assim por diante. Não à toa, esse reformismo de alto impacto dessas regiões tem sido a maior resistência ao processo de fascistização no Brasil. Também tem sido no Nordeste as manifestações mais violentas contra os que votaram no candidato à presidência do PT, Fernando Haddad, como ocorreu com o Mestre Moa do Badauê, assassinado com 12 facadas por uma pessoa sem antecedentes criminais. 

Certo está o candidato Fernando Haddad (PT) que tentou sem sucesso um pacto ético e pacífico com o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que além de não aceitar, chamou Fernando Haddad de “canalha”. A sociedade brasileira precisa entender que o que está em jogo, com a fascistização de 30% dos eleitores, é a própria democracia. 
Só em um regime democrático fortalecido poderemos construir as bases para um regime que Boaventura de Souza Santos define como pacífico e democrático, firmado na complementaridade entre as democracias representativa e participativa; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e coletiva (cooperativa). 

Um Estado que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público do Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for caso disso); luta permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da burocracia ou da lealdade partidária; promoção da educação, dos conhecimentos (científicos e outros) e do fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como prioridades governativas.
* Patrícia Valim é professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia. Conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo. Mãe de Ana, Bento e Maria, e avó de Maria Antônia.
Edição: Daniela Stefano

Haddad: 'Bolsonaro é a representação de tudo o que tem de pior em violência’

SEGUNDO TURNO

Haddad: 'Bolsonaro é a representação de tudo o que tem de pior em violência’

Afirmação foi feita em coletiva na manhã desta sexta-feira, depois que ontem a comitiva de Haddad foi ameaçada por apoiador do adversário, que também fez ataques verbais à Igreja Católica
por Redação RBA publicado 12/10/2018 12h49, última modificação 12/10/2018 17h01
RICARDO STUCKERT
haddad na missa do jd angela.jpg
Ao lado da mulher, Ana Estela, Haddad participou de missa no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo
São Paulo – O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, criticou em entrevista coletiva nesta sexta-feira (12), após missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, o adversário Jair Bolsonaro (PSL), por causa de um episódio de ameaça de violência sofrido ontem (12) por sua comitiva, ao sair de reunião na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. “O Bolsonaro é isso, é violência, é bala, é desrespeito, ele é a representação de tudo o que tem de pior em violência no país”, afirmou.
Haddad explicou que “o que aconteceu foi que um ativista do Bolsonaro começou a ofender a Igreja Católica". "Nós nos retiramos ali da CNBB onde a entrevista ia ser concedida e ele começou a ofender a Igreja Católica chamando de igreja comunista, igreja gay, coisas completamente sem sentido e no trânsito até o hotel, onde nós passamos a fazer a coletiva para evitar transtorno, ele seguiu com uma 4x4 e tentou realmente furar a comitiva. fazendo gestos, e acabou desistindo da provocação na porta do hotel”, disse.
Haddad afirmou também que ele não foi preso, mas que foi identificado e está sob supervisão da Polícia Federal. “Ele está sendo monitorado em função do gesto de violência, ele agrediu muito a Igreja Católica e isso é preocupante, porque qual o sentido disso em um país que é majoritariamente católico?”
Sobre a homenagem desta sexta, Haddad disse que “Nossa Senhora Aparecida é muito importante, porque ela é negra e protetora dos escravos. Temos que compreender que temos de superar a cultura do racismo que ainda persiste no país”.
O candidato também falou de suas propostas para a área de educação no país e da proteção à criança e adolescente, visto que hoje também é celebrado do Dia das Crianças. “Temos uma meta de colocar toda a criança a partir de quatro anos na escola e para isso vamos fazer uma busca ativa das crianças que ainda não estão na escola, porque é obrigatória a matricula a partir dos 4 anos desde que eu, como ministro da Educação, aprovei a Emenda Constitucional 59, que torna a matrícula obrigatória”, afirmou.
Ele disse também que já são mais de 100 as notificações de violência no país. “Eles estão usando a suástica nazista que, aliás, o próprio Bolsonaro declarou já, em entrevista, que se estivesse na Alemanha dos anos 1930 se alistaria ao Exército nazista”.

Cores

O verde e amarelo adotado por Haddad e Manuela D´Ávila nesta reta final para o segundo turno tem despertado a curiosidade nas redes sociais,e internautas que procuram saber a razão de o petista mudar as cores da campanha. Mas isso não chega a ser uma novidade, visto que a campanha do próprio Luiz Inácio Lula da Silva, com José Alencar vice, em 2002, já adotava o visual das cores da bandeira.

Uma família brasileira perante as eleições de 2018

Arquivo Nacional

Uma família brasileira perante as eleições de 2018

O candidato fascista adora a palavra "família". Vamos então falar de família. A minha, por exemplo

IGOR FUSER

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O candidato fascista adora a palavra "família".
Vamos então falar de família. A minha, por exemplo.
Em março de 1973, quando eu tinha 16 anos de idade, minha mãe, a artista plástica Marlene Crespo, foi presa pelo aparato de repressão política da ditadura militar. Ela era militante de base do PCdoB. Na prática, participava de reuniões onde se discutia política. Nada mais do que isso.
Minha mãe morava em São Paulo, mas foi presa em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, para onde viajava com frequência, para receber o aluguel de um imóvel que meu avô deixou de herança.
Soubemos da prisão pelo inquilino, que telefonou para o meu tio-avô, em São Paulo, Ficamos cinco dias sem saber do paradeiro dela, rodando a cidade, junto com o meu pai, de quem ela já estava separada: do quartel-general do II Exército para o Dops, de lá para o DEIC, a polícia civil, no Parque Dom Pedro II.
Não sabíamos se ela estava viva ou morta. Um delegado do DEIC disse ao meu pai, eu estava junto e ouvi: "Se for prisão legal, ela deve estar no Dops, se não..."
Finalmente, depois de muitas negativas, o soldado que estava de plantão no DOI-Codi, o famoso centro de torturas na rua Tomás Carvalhal, admitiu indiretamente que ela estava lá.
Conforme o advogado nos explicou, havia uma espécie de código entre o aparelho de repressão e os familiares dos presos. Nos primeiros dias, nós levamos ao DOI-Codi uma cestinha com cigarro, chocolate e biscoitos para a Marlene. O guarda nos mandava embora com nossas coisas, dizendo que lá não tinha ninguém com o nome dela. No quinto dia da prisão, o guarda disse: "Ela não está aqui, mas, se vocês quiserem, podem deixar aqui essa cestinha." Era uma maneira de dizer que ela estava lá, e viva, sem o compromisso de admitir a prisão e se responsabilizar pela sua vida.
Por aqueles dias, nosso advogado, Idibal Piveta, também foi preso, e o caso foi passado para o seu sócio Airton Soares, que mais tarde foi eleito deputado federal pelo MDB e mais adiante se tornou um dos fundadores do PT. Imaginem: se até o advogado encarregado de defender a minha mãe tinha sido preso, o que se podia imaginar que iria acontecer com ela?
Nós éramos três filhos, eu (o mais velho), o Carlos e o Bruno Fuser. Todas as manhãs, um de nós ia de táxi até o DOI-Codi, levando a famosa cesta de presentes e acompanhado sempre da minha avó, Ivete, já idosa. Minha avó, que sempre tinha sido uma pessoa de direita, anticomunista, leitora de Seleções do Readers' Digest e frequentadora de uma paróquia católica especialmente reacionária, ficou contra a ditadura ao ver o que estavam fazendo com sua filha.
Éramos três meninos, angustiados sem saber da verdadeira situação da mãe, refém de um organismo estatal que não existia oficialmente, e que nem sequer reconhecia que a tinha sob sua custódia. Essa era a nossa família, de verdade, não essa fantasia a que se referem o Bolsonaro e os falsos cristãos, moralistas hipócritas.
Enquanto nós percorríamos a via-sacra em busca de notícias, minha mãe estava sendo torturada. Queriam que ela delatasse seus companheiros, coisa que ela não fez. Anos depois, quando eu era candidato à diretoria da União Estadual dos Estudantes, um aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), um daqueles estudantes "mais velhos", de barba branca, me abordou e disse: "Você não me conhece, mas eu sei quem você é. Escapei de ser preso porque a tua mãe não me entregou pra repressão. Mande um abraço pra ela". Disse isso e falou o nome. Quando relatei o episódio, minha mãe se emocionou e confirmou tudo.
Pois a minha mãe, Marlene, foi torturada por uma equipe sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, aquele que o deputado Jair Bolsonaro homenageou ao votar pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Minha mãe viu esse facínora, o Ustra, quando estava no DOI-Codi, ele sempre na atitude daquele que manda.
Por conta das torturas, minha mãe foi internada no Hospital das Clínicas de São Paulo. Mas não delatou ninguém, nem mesmo confessou sua condição de militante. Por conta disso, escapou de ser processada e acabou sendo libertada, depois de passar, no total, três semanas no DOI-Codi, incomunicável, e outras cinco semanas no DOPS, onde já podíamos visitá-la.
Minha mãe saiu da prisão e seguiu a vida, voltou ao seu emprego de revisora na Editora Nacional e passou a desenhar mais e melhor do que antes. Mas as marcas da prisão e da tortura -- na alma, não no corpo -- permanecem até hoje.
Aos 86 anos, ela está finalizando o livro "Desenhos da Resistência", com sua produção gráfica nos tempos da ditadura. O livro está sendo produzido pela Editora Expressão Popular e o lançamento está programado para o início de novembro. Se ainda existir Brasil até lá.
Família...
Bolsonaro, fascista de m..., defensor das torturas, cínico e mau caráter, eu sei muito bem o que é família, e tenho muito orgulho da minha.
Todos nós, meu pai, minha mãe Marlene, todos os seus filhos e netos e noras, votaremos no Haddad, pra derrotar você, seu fdp!

HADDAD LIGA BOLSONARO AO NAZISMO E O CHAMA DE 'GRANDESSÍSSIMO MENTIROSO'

Legado de Marielle: assessoras são eleitas para Assembleia do Rio de Janeiro ​ ​

Legado de Marielle: assessoras são eleitas para Assembleia do Rio de Janeiro

Publicado em 12 outubro, 2018 11:06 pm
Reportagem de Léo Rodrigues na Agência Brasil.
Há quase sete meses, “Marielle vive” se tornou palavra de ordem pelas ruas do Rio de Janeiro. Agora, a palavra também ganha o Parlamento estadual. Vindas de comunidades da periferia da zona norte da capital fluminense, três assessoras diretas da vereadora, assassinada em março, assumirão em 2019 mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Eleitas no último domingo (7), Renata Souza, Dani Monteiro e Mônica Francisco farão parte da bancada do PSOL e prometem dar prosseguimento ao trabalho de defesa dos direitos humanos.
Se Marielle não tivesse sido executada, talvez nenhuma das três teria se candidatado. Elas contam que já tinham pensado em se candidatar no futuro, mas o projeto foi antecipado com a morte de Marielle Franco. “Era uma coisa pensada talvez para o horizonte de 2020, com uma construção gradual, como tem que ser. A execução da Marielle precipita esse processo”, conta Mônica Franciso.
Segundo Renata Souza, Marielle sempre trabalhou para que outras mulheres negras ocupassem mandatos no Legislativo. “Nossa resposta [ao crime] não foi recuar. Fomos ousadas e desafiamos o pragmatismo político, que diz que só pode vir no máximo uma mulher negra por vez. E nós dissemos não, dessa vez vão três. E trabalhamos para que todas três fossem eleitas”, diz a candidata mais votada da bancada do PSOL, com 63.937 votos.
As eleitas prometem mandatos com foco em medidas que contribuam para superar as desigualdades sociais e promover políticas públicas em comunidades da periferia. “A favela é historicamente o lugar da política pública ineficaz, precária, descontinuada. A militante do movimento de favela luta pelo direito à água, pelo saneamento, pela habitação, pela saúde, pela educação. São os problemas que queremos enfrentar”, diz Mônica Francisco, que obteve 40.631 votos.
Renata Souza destaca que o deputado não trabalha só para aprovar leis. Segundo ela, é essencial fiscalizar o Executivo e o cumprimento da legislação e, nesse sentido, se diz disposta a acompanhar a atuação das forças de segurança na periferia. Um dos objetivos é o fim das operações policiais perto de escolas em horários de entrada e saída de estudantes. Renata defende protocolos de ação que determinem, por exemplo, locais onde não devem ocorrer confrontos e que estabeleçam a garantia de ajuda humanitária.
“Nós não temos formas de fazer com que a população possa se refugiar em um lugar seguro. Alunos ficaram 20 dias sem aula no Complexo da Maré. Se isso se repete ao longo dos 12 anos, que é o tempo que o estudante leva até concluir o ensino médio, ele terá perdido um ano de aulas. E isso é gravíssimo. É o Estado impedindo que esse aluno chegue na escola”, lamenta.
Na visão de Dani Monteiro, que conquistou 27.982 votos, as candidaturas também devem contribuir para uma revisão do passado do país, de forma a perceber a necessidade de reparação, já que “a abolição da escravatura não constituiu direitos e não houve inclusão das pessoas que até então as via como inferiores”.
Para levar adiante as propostas, as três precisarão lidar com parlamentares com pensamentos bem diferentes. O PSL, partido do presidenciável Jair Bolsonaro, conquistou a maior bancada e terá 13 deputados estaduais a partir do próximo ano. O mais votado deles é Rodrigo Amorim, que provocou polêmica ao posar para uma foto em Petrópolis (RJ) destruindo uma homenagem à vereadora Marielle Franco.
Com 36 anos, Renata Souza é jornalista, pesquisadora em comunicação e militarização e professora de pré-vestibular comunitário no Complexo da Maré. Já Mônica Francisco, nascida há 48 anos no Morro do Borel, é socióloga e pastora evangélica. Moradora do bairro de Higienópolis, Dani Monteiro é a mais nova do trio. Aos 27 anos, ela é estudante cotista de ciências sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e  carrega em sua história a conquista de ter integrado a primeira geração de sua família a chegar à universidade.
“O que nós queremos vai além de promover espaços de resistência. É proporcionar a formação para que essas mulheres negras possam se tornar especialistas. E daí poder vê-las debatendo saúde, debatendo educação, debatendo segurança pública.”, diz Dani Monteiro, que conquistou 27.982 votos.
Para Mônica Francisco, a eleição delas também se colocou como necessidade diante do atual cenário, quando “o Brasil revela sua incapacidade para passar sua história a limpo, permitindo assim uma instabilidade democrática”. “Como a história é cíclica, nós podemos viver situações que nós achamos que não viveríamos mais. E isso tem a ver com o fato de que nós não conseguimos falar abertamente sobre a ditadura militar. Chegamos em 2018, com 130 anos de uma abolição da escravatura inconclusa, em que a gente não discute o racismo que cimentou as relações sociais no país”.
As serão responsáveis por fazer com que a Alerj tenha a maior quantidade de mulheres negras de sua história. Serão seis, enquanto atualmente há apenas duas. Ao mesmo tempo, o trio contribuirá para ampliar no próximo ano a representação feminina de uma forma geral – que saltará de oito parlamentares para 11 – e também a representação negra – que sai de 12 para 22. A casa legislativa tem ao todo 70 deputados estaduais.
Ligadas a Marielle Franco, Dani Monteiro e Renata Souza foram eleitas deputadas para Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) – Fernando Frazão/Agência Brasil

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