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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
EXCLUSIVO | Lula: “Fome está voltando no Brasil por irresponsabilidade dos golpistas”
EXCLUSIVO | Lula: “Fome está voltando no Brasil por irresponsabilidade dos golpistas”
Em entrevista exclusiva, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala sobre as consequências do golpe para o país
Beatriz Pasqualino
Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Ouça a matéria:

Fome, desemprego e perda de direitos históricos. Esses são alguns exemplos do impacto do golpe na vida dos brasileiros, na avaliação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato. Para reverter esse cenário, Lula afirma que vai convocar um referendo revogatório, caso se candidate e seja eleito em 2018. Sobre as eleições presidenciais, ele dispara: “Eu não precisava ser candidato a presidente. Eu já fui, já fui bem sucedido. Mas eles cutucaram a onça com vara curta e a onça vai brigar”. Na entrevista, Lula volta a denunciar o papel da Rede Globo na perseguição política contra ele, em aliança com o Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal.
O ex-presidente afirma ainda que a Reforma da Previdência “é contra o trabalhador, contra o pobre”. E a respeito da questão agrária, Lula destaca o papel preponderante do agricultor familiar – e não do agronegócio - na produção da maior parte do alimento que chega à mesa dos brasileiros.
Nesta segunda-feira (4), o ex-presidente inicia sua terceira caravana pelo país – já cruzou 9 estados do Nordeste e também Minas Gerais. Desta vez, ele percorrerá o Espírito Santo e o Rio de Janeiro de ônibus.
Confira abaixo a entrevista, em texto e vídeo, que contou também com perguntas colhidas por nossa equipe de reportagem nas ruas do país.
Brasil de Fato: O senhor tirou esta metade do ano para colocar o pé na estrada. Já foi para o Nordeste, com a caravana, para Minas Gerais e agora dia 4/12 segue para o Espírito Santo e Rio de Janeiro. O que essa experiência tem te ensinado sobre o Brasil e os brasileiros de hoje?
Lula: Eu descobri na campanha de 1989 que não é possível você governar este país para todos os brasileiros e brasileiras se você não conhecer as entranhas dele. Porque, normalmente, quando você é candidato, você vai de capital em capital, de palanque em palanque, do aeroporto para outro aeroporto. Você desce de um carro, sobe em um palanque, faz um discurso, nem cumprimenta o povo, entra no carro, volta para o aeroporto… Em 1989, eu descobri, que seu quisesse governar o Brasil, efetivamente para os brasileiros, eu teria que conhecer o Brasil. Por isso que, em 1992, eu comecei a fazer as caravanas.
A primeira que eu fiz, eu refiz a viagem que eu tinha feito em 1952, de Pernambuco a São Paulo. Fiz de ônibus essa viagem. Depois eu viajei a Amazônia, o Sudeste, o Norte, o Sul, viajei o Centro-Oeste. Foram praticamente 91 mil quilômetros de estrada, de barco, de trem, conversando com mais de 600 comunidades no Brasil, para a gente aprender como vive o quilombola, o sem-terra no acampamento, os índios brasileiros, as catadoras de coco babaçu. Porque uma coisa é você ler uma história em um livro, outra coisa é você estar diante da pessoa, com os seus problemas, sua realidade, te relatando a vida dela.
E por que que eu, depois que governei o Brasil, voltei a fazer essas viagens? É porque grande parte das políticas públicas que eu coloquei em prática quando estive na Presidência da República foram oriundas do aprendizado que eu tive na caravana. E agora eu voltei para ver duas coisas: como está o Brasil de hoje, quais as políticas públicas que tiveram efetivamente sustentabilidade; e como está a vida do povo hoje. E ainda tenho que visitar o Sul do país, o Norte do país. Estou pensando em fazer uma viagem pelo Amapá, Roraima, Amazonas, Pará, Acre. Depois eu quero pegar o Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná, para completar o Brasil inteiro e ter uma fotografia. Ou seja, se vai ter a campanha de 2018 e se o PT entender que eu deva ser o candidato, quero ser candidato com a fotografia muito viva e atualizada das aspirações e da esperança do povo brasileiro.
Brasil de Fato: E até agora, essa fotografia tem o quê?
Lula: Essa fotografia às vezes me alegra e às vezes me entristece. Ela me alegra porque, em muitos lugares, as pessoas têm a clareza absoluta da evolução da vida delas. Quando você chega numa comunidade agrícola, as pessoas lembram da quantidade de financiamento do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], do Programa Luz para Todos, do PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]. As pessoas têm noção de que as coisas melhoraram.
Agora, quando você chega num centro urbano, você começa a perceber que, embora as pessoas lembrem da evolução no salário mínimo, do Bolsa Família, do ProUni [Programa Universidade para Todos], dos institutos federais de educação, elas também começam a se queixar de que a pobreza está voltando. Ou seja, o desemprego aumentou, a massa salarial tem caído, o brasileiro não tem mais recebido aumento acima da inflação. Ele percebe que as pessoas estão já voltando a pedir esmola nas ruas, tem aumentado o número de pessoas dormindo nas praças públicas. Então, essa é uma tristeza que eu tenho. Nós tínhamos tirado o Brasil do Mapa da Fome, segundo os dados da ONU [Organizações das Nações Unidas] do começo deste ano. E estamos percebendo que a fome está voltando no Brasil por irresponsabilidade das pessoas que deram o golpe neste país.
Essa é a fotografia que eu tenho agora. Mas ao mesmo tempo, eu tenho também a certeza de que este povo é capaz de dar a volta por cima. Ele não pode perder a esperança, tem que continuar acreditando. Este Brasil é muito grande e pode melhorar a vida das pessoas na hora que elas tiverem um governo que conheça a vida delas e esteja preocupado com as pessoas.
PERGUNTA DAS RUAS | Ana Carolina Teixeira, estudante de Jornalismo (São Paulo/SP): Por que você vai se candidatar sendo que há tantas denúncias contra você?
Lula: Eu vou me candidatar porque o fato de ter denúncia não quer dizer nada. No Brasil toda vez que alguém é candidato, sempre aparece uma enxovalhada de denúncias contra as pessoas, seja no campo da política, da economia. E eu já provei a minha inocência em todos estes processos que eu estou sendo acusado. E estou na expectativa de que eles consigam provar para a sociedade algum desvio de conduta do Lula, ou na Presidência ou depois dela.
Eu fui acusado de ter um apartamento triplex em uma praia, aqui na cidade de Santos, em São Paulo. Cansei de dizer que o apartamento não era meu, mas eles teimaram que o apartamento era meu. Nós provamos que não é possível você ter um apartamento que você não tenha documento, não tenha escritura, que você não pagou, não comprou, que você não tenha nada. Mas eles teimaram em dizer, porque eles não precisam de prova, eles precisam apenas ter convicção. Depois, o Moro [juiz Sérgio Moro] me condenou a nove anos e seis meses de cadeia e ainda me obrigou a devolver R$ 10 milhões. O que é engraçado é que quando nós entramos com o recurso o Moro diz, na defesa dele, que ele não disse que o apartamento era meu, ele não disse que tinha dinheiro da Petrobras. Mas mesmo assim ele manteve a condenação. Por quê? Porque eu acho que tanto o juiz Moro, quanto o Ministério Público, quanto a Polícia Federal estão refém neste momento, de uma política que eles adotaram de condenar as pessoas pela mídia. Ou seja, “primeiro eu quero condenar as pessoas politicamente. Eu conto uma mentira e a mídia vai divulgar aquela mentira como se fosse verdade”. E nem todo mundo aguenta quatro ou cinco manchetes de jornais, do Jornal Nacional. As pessoas ficam debilitadas, fragilizadas. Alguns se matam, como o reitor de Santa Catarina.
Eu tenho que aproveitar tudo que eu construí na vida para poder não só provar a minha inocência, mas para provar que eles estão mentindo, que não estão se comportando de forma adequada. Porque um juiz não tem que ficar dando importância para o Jornal Nacional. Ele tem que dar importância para os autos do processo, para as provas das pessoas que vão depor. Eu levei 83 testemunhas para depor ao meu favor. O acusador não compareceu nenhuma vez, que é o senhor Dallagnol [procurador Deltan Dallagnol]. Não levaram nenhuma testemunha de acusação. E depois o cara me condena sem nenhuma responsabilidade?
São sempre desagradáveis essas denúncias. É sempre desagradável você aparecer na imprensa, sendo acusado. Mas eu tenho que ter a sabedoria de, graças ao status que o povo brasileiro me deu, de ter sido um presidente muito reconhecido, aproveitar para me defender e servir de exemplo para outras pessoas. Ou seja, se tem político que roubou e está com medo, é problema do político que roubou e está com medo. Se tem gente que roubou e está com o dinheiro, essa pessoa tem que ir presa mesmo. Agora eles têm que aproveitar e absolver os inocentes.
Você veja que eu sou pego de surpresa às seis horas da manhã lá em casa, com um monte de Polícia Federal. Eles foram na minha casa, na casa dos meus quatro filhos, invadiram a casa de todo mundo, cada um com a máquina fotográfica pendurada no pescoço. Não encontraram nem dinheiro, nem jóia. Eles poderiam ter tido a sensibilidade de pedir desculpas à opinião pública, de dizer ao povo que não encontraram nada. Levantaram até o colchão da minha cama. Tiraram a tampa do exaustor do fogão. Acho que pensaram que eu tinha ouro lá dentro escondido. Abriram meus televisores achando que eu tinha ouro dentro da televisão. Ao não encontrar nada eles deveriam ter tido vergonha na cara e ter pedido desculpas à sociedade brasileira. Eles não fizeram isso. Saíram quietinho e deixaram as manchetes falar, porque na verdade o grande juiz hoje, no meu caso é o “Jornal Nacional”, a Rede Globo de Televisão. Se dependesse da Globo, são mais de 30 horas de “Jornal Nacional” me condenando. E eu quero viver para ver a dona Globo me pedir desculpas no ar. Por isso que eu, embora fique ofendido, fique chateado, isso me dá um ânimo e uma disposição de brigar muito grande. E eu vou ser candidato por isso, é a chance que eu tenho também de me defender.
Brasil de Fato: E como enfrentar a Globo em 2018, na campanha eleitoral, se ela tem todo esse poder?
Lula: Nós já ganhamos da Globo em 2002, 2006, 2010, 2014. Portanto, não é difícil ganhar. Ela faz estrago, obviamente. A Globo escolhe candidato, e eu nunca fui o candidato dela. A Globo apoia qualquer um contra mim. Agora ela está atrás de um candidato. Eu estou esperando, porque a única coisa que eu tenho na vida de precioso é a minha honra. Foi o compromisso que eu assumi com o povo brasileiro e não vou permitir que a elite brasileira, através de manipulação dos meios de comunicação, de juízes e promotores subordinados aos interesses da elite brasileira, tentem me colocar no mesmo saco dos políticos corruptos que eles conhecem. Eu só tenho um aliado, neste momento do Brasil, que é o povo brasileiro. Por isso a minha tranquilidade e disposição.
Se o objetivo deles é tentar não deixar eu ser candidato, vamos brigar para ver. Eu vou estar na disputa até que eles tenham coragem de cometer a barbárie de sangrar mais uma vez a democracia brasileira. Porque já sangraram com o impeachment da Dilma [Rousseff]. Eu nasci para brigar. Eu não precisava ser candidato a presidente. Eu já fui, já fui bem sucedido. Mas eles cutucaram a onça com vara curta e a onça vai brigar.
PERGUNTA DAS RUAS | José Mauro (ambulante, Rio de Janeiro/RJ): Hoje sabemos que no Brasil temos 14 milhões de desempregados. Caso o senhor seja eleito, quais medidas o seu governo tomará de imediato para o Brasil voltar ao ciclo de crescimento e geração de emprego?
Lula: Só é possível dizer ao povo brasileiro que a gente vai voltar a gerar emprego, se a gente primeiro tiver o compromisso de dizer que a economia brasileira vai voltar a crescer. E eu falo isso de cátedra, porque tive o prazer a satisfação, por conta do apoio que eu tive do povo brasileiro, de junto com a Dilma, de 2003 a 2014, a gente criar mais de 20 milhões de empregos neste país com carteira profissional assinada. É por isso que a gente conseguiu aumentar o salário mínimo durante 12 anos seguidos. É por isso que todos os trabalhadores que trabalhavam de forma organizada tiveram aumento de salário acima da inflação. É por isso que nós conseguimos tirar 36 milhões da miséria e fazer com que 40 milhões de pessoas fossem a um padrão de consumo de classe média. É por isso que nós tivemos o maior programa habitacional do país.
No Rio de Janeiro, a gente tinha as pessoas de várias comunidade trabalhando em obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], porque a gente exigia que as empresas contratassem essas pessoas. É por isso que a gente queria recuperar a indústria naval do Rio de Janeiro, que em 2002, quando eu fui candidato, tinha apenas 2 mil trabalhadores, chegou a ter 86 mil trabalhadores o ano passado. Eles estão desmontando a indústria naval brasileira, como estão desmontando a indústria de óleo e gás, no Rio de Janeiro. Estão vendendo aquilo que para nós era o passaporte do futuro: o pré-sal, que a gente queria para recuperar o prejuízo de investimento na educação que não foi feito no século 20 neste país.
Vamos fazer a economia brasileira voltar a crescer. E para isso, nós precisamos fortalecer o mercado interno de um país que tem 207 milhões de pessoas. Se você combinar o fortalecimento do mercado interno, uma política de incentivo ao desenvolvimento de infraestrutura com a política de aumento do financiamento para o povo pobre deste país, para o povo trabalhador, na hora que o povo tiver o mínimo de dinheiro, que ele for ao supermercado, ao shopping, que ele for comprar um caderno, uma camisa, um lápis, um chinelo, a economia brasileira começa a funcionar. E quando a economia brasileira começa a funcionar de baixo, ela vai ajudar o crescimento econômico.
Quando eu deixei a Presidência, a gente estava crescendo 7% ao ano. O comércio varejista estava crescendo acima de 12%. Ou seja, a verdade é que este país viveu um momento auspicioso na sua história econômica e eu tenho orgulho de fazer parte disso, porque vocês ajudar a fazer. Agora nós temos gente tentando ajudar a destruir.
Quando todo mundo tiver acesso a um pouquinho de dinheiro, a economia deste país volta a funcionar. Do jeito que eles estão fazendo agora, com milhões de pessoas desempregadas, com quem é mais rico ficando cada vez mais rico, vendendo nosso pré-sal para os chineses e americanos, não vai dar certo.
Tenho muita esperança que o Rio de Janeiro não vai ficar do jeito que está. Ele não pode pagar o pato pelo desacerto na economia, não tem o direito de estar sofrendo como está sofrendo hoje, nem salário recebe do poder público. Obviamente que a gente não esperava que as pessoas que o governassem estivessem roubando tanto. Mas eu sonho com a volta do crescimento econômico e com a possibilidade de você ter um emprego decente, com carteira assinada, apesar de a reforma trabalhista, estar dificultando isso.
PERGUNTA DAS RUAS | Lisian Jardim dos Santos (Assentamento Novo Rumo, em São Gabriel/RS): No seu próximo governo, poderemos contar com políticas públicas que fortaleçam a produção de alimentos saudáveis, com melhorias na geração de renda das famílias assentadas?
PERGUNTA DAS RUAS | Geraldo Zantarias (João Câmara, Rio Grande do Norte): O senhor falou em 2002, quando candidato, que resolveria o problema da Reforma Agrária com uma canetada. O que houve com sua caneta, que não solucionou? E agora, se vencer em 2018, o que fará pela Reforma Agrária?
Lula: Vamos fatos e vamos aos dados. Entre 2003 e 2014, mais notadamente de 2003 a 2010, eu disponibilizei para a Reforma Agrária mais de 47 milhões de hectares de terras. No governo da Dilma, acho que foram 2,8 milhões hectares. Foi menos. Eu não sei por que. Ou seja, nós chegamos a 51 milhões de hectares disponibilizados para a Reforma Agrária. Você sabe o que significa isso? Isso significa 52% de toda a terra desapropriada no Brasil em 500 anos para efeito de Reforma Agrária. Fizemos tudo? Não, falta fazer. Mas uma coisa tão importante quanto você desapropriar terra é você fazer com que a terra que já está na mão do agricultor se torne produtiva. E para ela se tornar produtiva, nós tivemos que fazer o quê? Aumentar muito o dinheiro de financiamento da agricultura familiar.
Nós criamos o Programa Mais Alimentos para financiar máquinas em 2008 e poder tornar o campo mais produtivo, para enfrentar a crise de alimentos que se apresentava no mundo. E nós financiamos quase 80 mil tratores de 80 cavalos para ajudar o pequeno produtor, além de implementos agrícolas. Você lembra do programa PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], que era o programa para comprar alimento? Você lembra que nós saímos de R$ 2,5 bilhões do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], em 2003, para R$ 30 bilhões no último ano da Dilma?
O avanço espetacular que teve o desenvolvimento na agricultura familiar é motivo de orgulho para o Brasil aqui e para o mundo inteiro. E isso tem que continuar acontecendo. Sobretudo agora, que o mercado consumidor está cada vez mais exigente, cada vez mais querendo produto orgânico, mais saudável. Cada vez mais a gente vai ter que ir aprendendo para poder fazer com o Brasil compreenda que quem dá comida para o país não é nenhum grande produtor de 50 milhões de hectares de soja. É o pequeno produtor de um hectare de feijão, de meio hectare de hortaliça, de três hectares de qualquer coisa, de um açude que cria peixe. Essa gente é que está sustentando o país e é essa gente que nós queremos continuar incentivando.
PERGUNTA DAS RUAS | Antônio de Carvalho Filho (São Paulo/SP): Trabalho desde os 7 anos e, registrado desde os 13 anos. Estou meio descrente, muitas vezes até meio desesperado com a questão da minha aposentadoria, por causa da Reforma da Previdência. A gente luta tanto e quando chega na hora de a gente ter um pouquinho mais de tranquilidade, aí acontece isso. O que fazer?
Lula: Acho que o povo brasileiro tem muita razão de estar apreensivo. Primeiro porque já foi feita a Reforma Trabalhista, uma coisa feita por um Congresso altamente conservador, sem nenhum debate com a sociedade. E eu acho que a sociedade ainda não se deu conta dos malefícios que significa a Reforma Trabalhista, porque na televisão o governo está dizendo que ela significa mais emprego, mais oportunidade. O que ele não diz é a qualidade do emprego que ele vai criar, que é emprego sem carteira profissional assinada, intermitente, que o cara só vai ganhar as horas que trabalha. Não diz que muitas vezes as férias e os direitos históricos vão desaparecer. Vai levar um tempo para os trabalhadores perceberem o que vai acontecer.
Eu acho que nós, do movimento social, não conseguimos neste curto período esclarecer para o povo do que ele estava sendo vítima, na verdade. A Previdência é a mesma coisa. Historicamente se tenta jogar a culpa da situação econômica do país a um déficit da Previdência. Quando a Previdência tinha dinheiro, ele foi utilizado para fazer a Transamazônica e não devolveram o dinheiro. Foi utilizado também para fazer a Ponte Rio-Niterói e não foi devolvido.
No meu período de governo, por exemplo, de 2004 a 2014, quando nós geramos 22 milhões de emprego e legalizamos 6 milhões de micro e pequenos empreendedores individuais, a Previdência brasileira foi superavitária. Então, se nós quisermos resolver o problema da Previdência, não é dificultando a vida do pobre de se aposentar. Temos que gerar mais emprego, formalizar mais a economia e dar aumento de salário e aumento de salário mínimo, como¬ nós fizemos, que aumentamos 74%. Querer aumentar apenas o tempo de idade para o trabalhador e o tempo de contribuição é, no fundo, jogar nas costas do trabalhador brasileiro, que é a vítima, a responsabilidade por um déficit que ele não tem culpa. A culpa é da própria política econômica do governo ou da política de gasto do governo
Não é o salário do trabalhador, do salário mínimo, que causa problema à Previdência. É um procurador que se aposenta com R$ 30 mil, é um diplomata, um general que se aposenta com isso. O povo trabalhador, que trabalha que nem um desgraçado dentro da fábrica, a Previdência dele não é deficitária. E é só gerar emprego que ela vira superavitária.
Ainda vamos precisar fazer muita briga e aí é que entra a importância da eleição de 2018, de votar num Congresso comprometido com os direitos dos trabalhadores. E quando a gente fala em direito dos trabalhadores, a gente não quer quebrar o Brasil. A gente quer que o Brasil seja governado de forma a que os ricos paguem um pouco mais e os pobres ganhem um pouco mais. Porque é preciso equilibrar a distribuição de riqueza neste país. E a aposentadoria é uma das riquezas do nosso povo. É você ter consciência que você trabalhou para o Brasil e quando você estiver com uma idade avançada, você vai se aposentar, vai viver o resto da sua vida recebendo uma contribuição por parte daquilo que você contribuiu com o crescimento econômico do país.
Essa Reforma da Previdência é contra o trabalhador brasileiro, ela é contra o pobre. Ela favorece mais as camadas que ganham mais dinheiro e prejudica as camadas que ganham menos dinheiro e é por isso que nós temos que brigar muito.
Não sei se o governo vai ter coragem de mandar a proposta de Reforma da Previdência para o Congresso. E não sei se o Congresso vai ter coragem de aprovar. Mas o dado concreto é que eu estou dizendo, se eu for candidato em 2018, eu estou propondo um Referendo Revogatório. Ou seja, vamos ter que pedir autorização do Congresso Nacional, para que a gente possa mudar muita coisa que foi feita de errado, neste governo golpista. Isso é um compromisso, porque senão não tem nem sentido eu ser candidato. Ser candidato para chegar lá e constatar que está tudo errado e que eu não posso fazer nada, eu prefiro ficar em casa.
Edição: Beatriz Pasqualino
TACLA DURAN EXIBIU O QUE ESCONDEM
Alfredo Herkenhoff
Foram mexer com Dom Rodrigo
Tacla Duran, achando que ele fosse do bando da Odebrecht, ou somente mais um
doleiro amigo de qualquer delação que o livrasse da preventiva. E o cara é mais
espanhol do que brasileiro.
O cara é expert em direito
internacional. E deu um nó na Lava-Jato. Pegou na jugular da ORCRIM
(organização criminosa).
Tacla Duran não acusou Moro,
que mesmo assim não gostou do que leu e cometeu um erro grave ao interromper um
fim de semana no mês de agosto para responder
à Folha de S Paulo horas depois
que o jornal publicou a matéria de Monica Bergamo dizendo que existia um tal
Tacla Duran. Informou a jornalista que este advogado estava escrevendo um livro
sobre a Lava-Jato e que dizia ter provas de que se trata de uma indústria de
delação criminosa.
Moro e o federal Carlos Lima negaram
prontamente a denúncia pública de que certo advogado Carlos Zuccoloto Jr.,
padrinho de casamento de Moro e Rosângela, e procuradores da Lava-Jato tivessem
oferecido um acordo de delação, envolvendo punição caseira, zero preventiva e
honorários caríssimos para aliviar Tacla Duran num esquema costurado adrede
para o juiz mais poderoso do golpismo.
Tacla Duran interrompeu as
negociações.
E quando Moro mandou prender
o Tacla Duran, o advogado já estava em Madrid. Moro pediu extradição. E a
justiça espanhola, prudentemente, prendeu Tacla Duran, examinou a sua defesa e
o soltou depois de uns 100 dias de cana em Madri. Negou a extradição e pediu ao
Brasil que, dentro dos acordos internacionais, enviasse as provas contra o
acusado espanhol para que fosse processado em Madri. Moro não mandou.
Tacla Duran explicou hoje na
CPI por que a Lava-Jato não enviou as provas solicitadas pela Justiça da
Espanha.
Tacla Duran desmentiu Moro e
Carlos Lima e exibiu mensagens de Carlos Zuccolato Jr. e de procuradores com
papel timbrado do Ministério Público Federal formulando as condições de uma
delação “à la carte”. Tacla Duran não aceitou, porque o acordo incluía crimes
que ele não cometeu e acusações contra alvos que não vinham ao caso. E mais,
Tacla Duran em Madri enviou provas à CPI da JBS, apelidada de CPI do Moro. E
mais, as provas que Tacla Duran enviou foram periciadas judicialmente na
Espanha com todos os rigores de um judiciário e uma Procuradoria técnica não
politizados.
Tacla Duran disse que a Lava-Jato não envia as provas contra ele para que seja
julgado em Madri, porque os procuradores e Moro não podem enviar.
Seriam desmoralizados.
Durante a busca e apreensão
em sua casa e escritório em São Paulo, no ano passado, Tacla Duran viu os
federais levarem tudo, incluindo as declarações de renda com tudo que recebeu
da Odebrecht e de outra empreiteira. Pagou imposto por tudo quanto recebeu.
Declarou tudo que ganhou no Brasil e no exterior. E nas declarações de I.R. que
os federais pegaram está lá também a prova de que Tacla Duran pagou dinheiro a
advogados de Curitiba, milhões ao Dr. Arns, e pagou também ao advogado Carlos
Zucolloto Jr. O tal padrinho de casamento de Moro), e mais, pagou também à mulher de Moro, Rosângela
Moro, que era sócia do Carlos Zucoloto Jr.
Ou seja, Tacla Duran, que não
acusa Moro de nada, mostra provas de que Moro, se enviasse as provas produzidas
contra ele (e na Espanha delações não valem), o juiz seria declarado como
impedido espetacularmente, porque está cercado de amigos e outros suspeitos da
Força Tarefa e ainda vive com uma advogada que está na declaração de IR do seu
foragido mais odiado.
Moro já deve estar com mais
raiva de Rodrigo Tacla Duran do que de Lula.
Se toda a ação penal envolvendo
a Petrobras fosse parar no Supremo, procuradores seriam presos por formação de
petrolão, ou esquemão dos honorários.
A desventura de marajás que
assaltaram o sistema de justiça e implantaram a
tortura por conjectura está chegando ao fim.
A Lava-Jato está implodindo a
exemplo do golpe.
Rodrigo Janot pediu a prisão
do procurador amigo Pedro Miller. O STF negou; Janot, na saideira, nem
recorreu.
Neste momento, por exemplo, a grande mídia e o
PSDB estão alardeando que os tucanos já desembarcaram do governo do vampiro.
Conversa fiada.
Continuam juntos destruindo
tudo, da CLT à Petrobras. Querem aprovar o fim da aposentadoria real na semana
que vem.
Como náufragos, buscam uma
boia. Alguns já acham que pode ser o capitão Jair. Outros já sonham com Ciro
Gomes. Alckmin é picolé de chuchu e derreteu.
Lula, ao centro, só faz
crescer.
Dos 27 Estados, provavelmente
os dois primeiros a se insurgir contra a Lava-Jato, e contra o governo Temer,
serão Santa Catarina e Alagoas.
Hoje no mundo só existe socialismo
radical em dois lugares: na Coreia do Norte e na ponta das narinas de Aécio
Neves.
É pela política que o Brasil
vai sair da crise e começar a discutir um caminho para um desenvolvimento
econômico e social pujante.
Os golpistas, uns oligarcas que
vivem roubando os recursos públicos, insistem pra você odiar os políticos e a
política, como se o Brasil fosse ser dominado para sempre por esses imbecis e
pelos segmentos imbecilizados pelo telejornalismo de propaganda a favor da
farsa da Lava-Jato que enganou pessoas simples dizendo que ia extinguir a
corrupção.
Fonte: Blog
do Alfredo Herkenhoff
O MAR DE LAMA DA OPERAÇÃO LAVA-JATO
Rogerio Dultra dos Santos
Nunca desconfiei que as
intenções da “força tarefa” inconstitucional, criada para criminalizar setores
da política e da economia produtiva no Brasil, pudessem ocultar interesses
escusos, como vantagens pecuniárias indevidas, tráfico de influência, peculato
etc.
Por outro lado, desde que a
operação iniciou os seus trabalhos, eram óbvios o enviesamento das
investigações, a utilização política do processo penal e a violação sistemática
da legislação para alcançar as finalidades persecutórias, de outra forma, não
viáveis.
O caráter protofascista da
ação judicial e das manifestações de seus responsáveis eram claros e foram
denunciados em vários momentos, por distintos veículos de comunicação, no
Brasil e fora dele.
Havia – e ainda há – uma
clara articulação entre os grandes conglomerados de comunicação de massa e os
delegados, procuradores, juiz e desembargadores. Seu objetivo é o de antecipar
culpas, produzir condenações na opinião pública e conduzir uma narrativa em que
o processo judicial funcione como uma corroboração das “sentenças
condenatórias” produzidas na televisão e nos jornais de circulação.
A estratégia é que uma
comoção pública induzida chancele a priori os desmandos processuais e
constranja as instâncias judiciais superiores a endossar de forma cega as
decisões canhestras da Operação (como escutas telefônicas ilegais, conduções
coercitivas fora do limite processual e acordos de delação ao arrepio da Constituição
e do devido processo).
Até este momento, a noção de
que parte do sistema de justiça tinha se corrompido para a perseguição de
inimigos políticos e não para a aplicação da lei era que esta corrupção estava
centrada sob uma ótica política. Corrupção política do sistema, utilização
distorcida de suas instituições para o cumprimento de objetivos torpes, mas
objetivos tão somente político-econômicos (porque em conluio com o grande
capital especulativo). E isto na esteira do golpe de Estado comandado pelo
partido derrotado nas ultimas quatro eleições majoritárias, o PSDB, sob a voz
de Aécio Neves e sob a batuta de Eduardo Cunha.
Este desiderato alçou os
componentes da Operação Lava-Jato ao estatuto de heróis ou deuses para parte
significativa dos brasileiros.
Tudo muda de figura com o
depoimento do ex-advogado das empreiteiras Odebrecht e UCT Rodrigo Tacla Durán
à CPI da JBS. As denúncias do advogado lançam sobre os integrantes da Operação Lava-Jato
uma imensa sombra de dúvida e suspeita de que os seus objetivos eram não
exclusivamente políticos, mas também voltados para a aquisição de vantagens
pessoais da mais variada espécie.
É preciso lembrar que se
criou artificialmente no país, desde a “redemocratização”, um caldo cultural
onde a fome, a desigualdade, a violência (em todas as suas matizes), o déficit
de direitos, o arbítrio das agências repressivas, tudo se torna menos
importante que o combate à corrupção.
A eleição de Collor de Mello
em 1989 – e sua “plataforma” de “caça aos marajás” do serviço público – foi
talvez o primeiro sintoma de que o lacerdismo não nos abandonaria facilmente.
Lacerdismo moralista como desculpa para o desmonte do Estado e para a
dilapidação do patrimônio público.
O bordão “ética na política”,
bandeira compartilhada pela esquerda e pela direita desde a ascensão de Lula no
final dos anos 1970, adquiriu lado, na passagem dos anos 1990 para os anos
2000. Em especial, o moralismo raso desenvolveu-se à larga com a judicialização
da política advinda da derrota do PSDB em 2002.
O “mensalão”, com as
inovações procedimentais e espetaculares, já hoje de todos conhecida, foi o
início de um ciclo punitivista de largo espectro político que parece, pelo
menos, começar a perder a legitimidade dourada, personalizada nos cruzados
castiços do Ministério Público Federal de Curitiba.
O “mar de lama”, metáfora
para a suposta corrupção das esquerdas e das lideranças populares, de Getúlio
Vargas a Lula, parece recair sem dó sobre a Lava-Jato.
[Um parêntesis: registre-se
que houve um esforço mensurável do Ministério da Justiça, ainda sob o governo
Dilma Rousseff, para que a “força tarefa” Lava-Jato fosse preservada na sua justa
missão. O PT dava corda para o seu próprio enforcamento, a olhos vistos. Como
ocorreu no caso dos Deputados Estaduais cassados ilegal e inconstitucionalmente
no Rio de Janeiro, a esquerda brasileira, incluindo o PT, ainda é uma esquerda
punitiva, porque chancela a punição dos inimigos políticos independentemente do
devido processo.]
Assim como as “boas intenções”
de Collor foram rapidamente desmascaradas pelo seu próprio irmão, Pedro Collor
de Mello, que denunciou um enorme esquema de corrupção coordenado pelo
tesoureiro PC Farias, assistimos hoje as mesmas ilibadas intenções, agora sob a
batuta da Lava-Jato, começarem a ser questionadas no que respeita aos
destemidos “heróis” da Operação.
O depoimento de Tacla Durán à
CPI levanta um véu que até então pairava sobre os arautos da moral alheia,
aparentemente imbuídos na exclusiva missão de “purificar” a política e “limpar
o país da corrupção”.
Segundo o depoimento do
advogado Tacla Durán, residente hoje na Espanha, existem provas – que devem ser
verificadas na sua veracidade pelas autoridades competentes – de que há em
Curitiba um esquema de venda de facilidades em torno das delações premiadas, no
núcleo da Operação Lava-Jato.
Este esquema atingiria
Procuradores Federais e provavelmente o próprio juiz da Operação, Sérgio Moro.
Parece que se inaugura a
tragédia dos deuses e heróis, como no quadro de Paul Chenavard (Divina
tragédia).
Quem sobreviverá se forem
comprovadas as denúncias de Tacla Durán?
Essas denúncias são tão graves,
porque apontam para o núcleo operacional da Lava-Jato. Em especial, para o
advogado Carlos Zucolotto, padrinho de casamento do juiz Sérgio Moro, seu amigo
íntimo e ex-sócio de sua esposa, Rosângela Moro.
Carlos Zucolotto, além de já
ter advogado para o próprio Sérgio Moro, também já advogou para o Procurador
Carlos Fernando dos Santos Lima, outro integrante da Operação de Curitiba.
Zucolotto seria responsável,
segundo Tacla Durán, por negociar desconto de U$ 10 milhões em multa
determinada pelo Ministério Público Federal em delação a ser realizada pelo
espanhol. Parte do dinheiro seria – segundo conversas gravadas por Tacla Durán
num aplicativo de celular –, repassado a um membro da Lava-Jato com iniciais
DD.
Alguns indícios anteriores ao
depoimento de Tacla Durán na CPI da JBS já levantavam suspeitas sobre esquemas
escusos no seio da Lava-Jato.
Ex-advogados de réus da
Operação Lava-Jato foram afastados por não concordarem com os termos exigidos
pelo Ministério Público Federal para as delações. Estes disseram, em momentos
variados, que um seleto grupo de advogados supostamente eram escolhidos pelos
próprios integrantes da Lava-Jato para representar réus nos processos de
delação, todas com algum tipo de cláusula ilegal.
Carlos Zucolotto seria, segundo
Tacla Durán, um desses intermediários, a prometer modificações nas cláusulas
das delações em troca de dinheiro “por fora” supostamente para pagar
integrantes da Operação Lava-Jato.
Outro movimento no mínimo
estranho foi a contundente defesa que o próprio juiz Sérgio Moro fez de seu
amigo e compadre Carlos Zucolotto em uma nota “oficial” onde afirma
categoricamente que não são verdadeiros os fatos alegados contra Zucolotto.
Moro coloca a mão no fogo
pelo advogado amigo e questiona a declaração de Tacla Durán. Esta declaração,
entretanto, se realizou em moldes muito menos constrangedores que as delações
obtidas na Lava-Jato, utilizadas sem problema como meio de prova para
incriminar políticos e empresários a granel.
Para se ter ideia do tamanho
da bomba que é este depoimento de Tacla Durán, leia-se, por exemplo, o
insuspeito artigo do jornalista Reinaldo Azevedo (Globo). Azevedo fala, dentre
outras coisas, que se Moro fosse submetido aos seus próprios critérios de
“investigação”, ele próprio já estaria em maus lençóis com a Justiça.
Respeitando o devido processo
legal e as garantias constitucionais, passou da hora de investigar a sério o
que realmente se passa nos gabinetes de uma operação judicial que manipula
milhões de reais, aparentemente sem qualquer controle ou supervisão.
Ou a lei não é para todos?
Leonardo Boff | O intento de recolonizar o Brasil e a América Latina
RECOLONIZAÇÃO
Leonardo Boff | O intento de recolonizar o Brasil e a América Latina
Neoliberalismo radical que impera na América Latina e no Brasil pretende solapar caminho de desenvolvimento autônomo
Leonardo Boff
Rede Brasil Atual
,
A colonização, especialmente, a escravidão, não constituem apenas etapas passadas da história. Suas consequências (Wirkunsgeschichte) perduram até os dias de hoje. A prova clara é a dominação e a marginalização das populações que foram colonizadas e escravizadas, baseadas na dialética da superioridade-inferioridade, nas discriminações por causa da cor da pele, no desprezo e até no ódio do pobre, considerado preguiçoso e um zero econômico.
Não basta a descolonização política. A recolonização ressurge na forma do capitalismo econômico, liderado por capitalistas neoliberais nacionais, articulados com os transnacionais. A lógica que rege as práticas da recolonização é tirar o máximo proveito do extrativismo dos bens e serviços naturais e pela exploração da força de trabalho mal paga e, quando possível, como está ocorrendo escandalosamente no Brasil, pela redução dos direitos individuais e sociais.
Os primeiros a verem claro a recolonização foram Franz Fanon, da Argélia, e Aimé Césaire, do Haiti, ambos comprometidos com a libertação de seus povos. Propuseram um corajoso processo de descolonização para liberar a “história que foi roubada” pelos dominadores e que agora pode ser recontada e reconstruída pelo próprio povo.
No entanto, trava-se um duro embate por parte daqueles que querem prolongar a nova forma de colonização e de escravidão, criando obstáculos de toda ordem para aqueles que buscam fazer uma história soberana na base de seus valores culturais e de suas identidades étnicas.
Césaire cunhou a palavra “negritude” para expressar duas dimensões: uma, da continuada opressão contra os negros e outra, de uma resistência persistente e de uma luta obstinada contra todo tipo de discriminação. A “negritude” é a palavra-força que inspira a luta pelo resgate da própria identidade e pelo direito das diferenças. Césaire critica duramente a civiização européia por sua vil cobiça de invadir, ocupar e roubar riquezas dos outros, espiritualmente indefensável por ter difundido a discriminação e o ódio racial, embrutecendo e degradando os povos colonizados e escravizados inculcando-lhes a impressão de que não são gente e não possuem dignidade.
Paralelamente ao conceito de “negritude” criou-se o de “colonialidade” pelo cientista social peruano Anibal Quitano (1992). Por ela quer-se expressar os padrões que os países centrais e o próprio capitalismo globalizado impõem aos países periféricos: o mesmo tipo de relação predatória da natureza, as formas de acumulação e de consumo, os estilos de vida e os mesmos imaginários produzidos pela máquina mediática e pelo cinema. Desta forma continua a lógica do encobrimento do outro, do roubo de sua história e a destruição das bases para a criação de um processo nacional soberano. O Norte global está impondo a colonialidade em todos os países, obrigando-os a alinhar-se às lógicas do império.
O neoliberalismo radical que está imperando na América Latina e agora de forma cruel no Brasil é a concretização da colonialidade. O poder mundial, seja dos Estados hegemônicos seja das grandes corporações querem reconduzir toda a América Latina, no caso o Brasil, à situação de colônia. É a recolonização como projeto da nova geopolítica mundial.
O golpe que foi dado no Brasil em 2016 se situa exatamente neste contexto: trata-se de solapar um caminho autônomo, entregar a riqueza social e natural, acumulada em gerações, às grandes corporações. Faz-se pelas privatizações de nossos bens maiores: o pré-sal, as hidrelétricas, eventualmente os Correios, o BNDS e o Banco do Brasil. Freia-se o processo de industrialização para dependermos das tecnologias vindas de fora. A função que nos é imposta é o de sermos grandes exportadores de commodities, já que os países centrais não os têm para o seu consumo perdulário.
Nomes notáveis da economia, articulada com a ecologia, como Ladislau Dowbor e Jeffrey Sachs, entre outros, nos alertam que o sistema-Terra chegou ao seu limite (a Sobrecarga da Terra) e não suporta um projeto com tal nível de agressão social e ecológica.
Ora, esse modelo, para nossa desgraça, é assumido pelo atual governo corrupto e totalmente descolado do povo, de um neoliberalismo radical que implica o desmonte da nação. Daí o dever cívico e patriótico de derrotarmos estas elites do atraso, antipovo e antinacionais que assumiram esta aventura, que poderá não ser mais suportável pelo povo. Tudo tem limites. Há de surgir uma consciência patriótica na forma de uma generalizada rejeição social. Uma vez ultrapassados esses limites, iríamos fatalmente ao encontro do inominável.
Edição: Brasil de Fato
Lula vs. casa-grande
Política
Editorial
Lula vs. casa-grande
Ao identificar seus inimigos, o ex-presidente abre fogo como candidato, enquanto os golpistas não encontram o seu. Talvez atentem para a minha humilde sugestão
Ricardo Stuckert

Lula visita Bacia do Rio Doce em Governador Valadares
Ao constatar a dificuldade dos mafiosos no poder de encontrar um candidato potável para as eleições de 2018, permito-me sugerir o nome de Mister Músculo na cozinha, no banheiro, limpa tudo onde quiserem. Parece-me muito mais convincente do que Geraldo Alckmin, João Doria, Luciano Huck et caterva.
Por acaso, ao zapear diante do vídeo, tropecei em Mister Músculo e imediatamente exclamei, para deleite dos meus botões: “Eis o cara!” Trata-se de um rapaz parrudo e determinado, e entendi que nele votariam todas as donas de casa do Brasil. Vantagem importante, convenhamos.
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Tenho meditado a respeito do tormento a assolar os golpistas na busca do candidato ideal, ou seja, habilitado a dar continuidade ao projeto de demolição do Brasil. Em relação ao último cogitado, Luciano Huck, consegui perceber nele uma certa semelhança com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.
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A se levar em conta a ideia acalentada por Michel Temer e Gilmar Mendes de transformar nosso presidencialismo velho de guerra em semipresidencialismo, ou semiparlamentarismo, à francesa (se um, ou outro, ainda não está claro), a semelhança com Sarkozy talvez representasse a vantagem do apresentador global.
Ouso, entretanto, registrar que o presidente ilegítimo e o nosso Darth Vader navegam águas bastante turvas, e ali, no comando, revelam sua lacuna, de certa maneira espantosa: não sabem o que é o presidencialismo à francesa. A ignorância brasileira é mundialmente reconhecida, mas não haveria de ser esperada de figuras tão representativas.
A dupla dinâmica quer um presidente com funções idênticas às da rainha do Reino Unido. O presidencialismo francês é bem diferente. Nasceu com Charles de Gaulle, aquele que disse que “o Brasil não é um país sério”, herói da guerra e figura imponente, foi quase um rei, mas, no sentido de Luís XIV, que por sua vez dizia: “O Estado sou eu”.
A dupla dinâmica quer um presidente com funções idênticas às da rainha do Reino Unido. O presidencialismo francês é bem diferente. Nasceu com Charles de Gaulle, aquele que disse que “o Brasil não é um país sério”, herói da guerra e figura imponente, foi quase um rei, mas, no sentido de Luís XIV, que por sua vez dizia: “O Estado sou eu”.
De todo modo, quem manda hoje na França é o senhor Macron, assim como mandava, e muito mal, o senhor Hollande, e antes o senhor fisicamente semelhante a Luciano Huck, e assim por diante, na marcha à ré passado adentro. O que os estrategistas das quadrilhas pretendem é o presidencialismo à brasileira para confirmar inexoravelmente que De Gaulle estava certo.
Nesta moldura, de ridícula patetice sem deixar de ser trágica para o destino do País, sérias são as mais recentes falas de Lula, assunto da reportagem de capa desta edição. O ex-presidente define claramente os seus inimigos: o mercado e a Globo. Esta tomada de posição tem implicações importantes, em primeiro lugar o reconhecimento de que a conciliação, na qual ele já acreditou, é impossível.
Nesta moldura, de ridícula patetice sem deixar de ser trágica para o destino do País, sérias são as mais recentes falas de Lula, assunto da reportagem de capa desta edição. O ex-presidente define claramente os seus inimigos: o mercado e a Globo. Esta tomada de posição tem implicações importantes, em primeiro lugar o reconhecimento de que a conciliação, na qual ele já acreditou, é impossível.
CartaCapital sempre sustentou que a conciliação é a das elites, acontece quando os inquilinos da casa-grande se desentendem e, logo, a salvaguardar os interesses comuns, fazem as pazes. Quimera é imaginar o acordo entre Capital e Trabalho, entre ricos e pobres, entre casa-grande e senzala.
Lula manifesta-se como candidato. Não sei, porém, se acredita na possibilidade de competir, já que o objetivo principal do golpe de 2016 foi alijá-lo do pleito. Duvido que queira iludir-se. Diz apenas que, se eleito fosse, no combate ao monstruoso desequilíbrio social iria mais longe, muito mais longe, do que nos seus dois mandatos presidenciais.
As palavras de Lula me alegram e me entristecem ao mesmo tempo. Ao identificar seus inimigos, abre fogo contra a casa-grande e com isso me agrada além da conta. Sobra a tristeza de percebê-lo como o presidente capaz de recolocar o Brasil nos trilhos, por ora sem esperança de vê-lo em ação.
Lula manifesta-se como candidato. Não sei, porém, se acredita na possibilidade de competir, já que o objetivo principal do golpe de 2016 foi alijá-lo do pleito. Duvido que queira iludir-se. Diz apenas que, se eleito fosse, no combate ao monstruoso desequilíbrio social iria mais longe, muito mais longe, do que nos seus dois mandatos presidenciais.
As palavras de Lula me alegram e me entristecem ao mesmo tempo. Ao identificar seus inimigos, abre fogo contra a casa-grande e com isso me agrada além da conta. Sobra a tristeza de percebê-lo como o presidente capaz de recolocar o Brasil nos trilhos, por ora sem esperança de vê-lo em ação.
Lula me diz, entretanto, que é preciso sonhar, e a insistência dele no apelo onírico me induz a alguma desconfiança. Será que o ex-presidente tem alguma carta na manga?
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