Não se sabe se, junto a sua base eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro fez bem em comparecer à posse do ministro Alexandre de Moraes, novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Os 28 minutos de discurso do magistrado foram uma resposta direta aos ataques do ex-capitão, que já sofre com os inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal e com as decisões do ministro que, muitas vezes, são contrárias aos desejos de Bolsonaro e de seus apoiadores. Do plenário, os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff observavam um Bolsonaro "incomodado, inquieto e constrangido", nas palavras do petista. “A cada discurso sobre democracia era visível a cara de constrangimento", observou o ex-presidente. "Ele quase não bateu palma e, com muita má vontade, ficava em pé para aplaudir”. Não poderia ser diferente. O que se viu ali na solenidade foi talvez o mais duro recado que Moraes já deu a Bolsonaro. No púlpito, a poucos metros do ex-capitão, o novo comandante do TSE fez uma defesa enfática das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. Diante de 2 mil pessoas, que chegaram aplaudir de pé o magistrado, Bolsonaro não esboçou reação quando Moraes afirmou que “somos a única democracia do mundo que apura e divulga os resultados eleitorais no mesmo dia, com agilidade, segurança, competência e transparência". Já não era segredo que as palavras do ministro tinham um alvo, que se encontrava sentado a alguns passos dele. "A Constituição federal não permite, inclusive em período de propaganda eleitoral, a propagação de discursos de ódio, de ideias contrárias à ordem constitucional e ao Estado democrático, tampouco a realização de manifestações visando o rompimento do Estado de direito com a consequente instalação do arbítrio", discursou. "Eu não canso de repetir, e obviamente não poderia deixar de fazê-lo nessa oportunidade, nesse importante momento: liberdade de expressão não é liberdade de agressão". Bolsonaro não esteve só ao não reagir às declarações de Moraes. O seu filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos nomes à frente da estratégia digital do presidente, também não se moveu. O evento, segundo muito dos presentes, ganhou um tamanho como nunca visto em posses de autoridades do Judiciário. Ao ponto do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, acusado de ser leniente com Bolsonaro, também elevar o tom em defesa do processo eleitoral. "Estamos irmanados na defesa do sistema eleitoral, no combate à desinformação e aos abusos de qualquer natureza", declarou o PGR. "Mas, sobretudo, estamos atentos e vigilantes na sustentação do regime democrático, que se expressa, também, por meio de eleições livres, justas, diretas e periódicas, como as que certamente teremos em menos de dois meses”. O cálculo feito por alguns aliados do presidente foi de que a presença de Bolsonaro no evento foi positiva. Não é o que parece. O evidente constrangimento do ex-capitão foi estampado em jornais e sites que cobriram o evento. Uma imagem oposta da de Lula, que circulou no ambiente com boa parte da atenção dos presentes voltada para ele. Foi, como escreveu a advogadad Tania Oliveira, integrante da Coordenação Executiva da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, uma jogada de mestre de Moraes. O novo ministro do TSE deixou Bolsonaro emparedado diante do Brasil. |
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