domingo, 4 de agosto de 2013

Alerta oportuno

Contra as tramoias da direita: sustentar a Dilma Roussef

15/7/2013 13:34
Por Leonardo Boff - do Rio de Janeiro


Dilma Roussef
Dilma Roussef
É notório que a direita brasileira, especialmente aquela articulação de forças que sempre ocupou o poder de Estado e o tratou como propriedade privada (patrimonialismo), apoiada pela midia privada e familiar, está se aproveitando das manifestações massivas nas ruas para manipular esta energia a seu favor. A estratégia é fazer sangrar mais e mais a presidenta Dilma e desmoralizar o PT, e assim criar uma atmosfera que lhe permite voltar ao lugar que por via democrática perderam.
Se por um lado não podemos nos privar de críticas ao governo do PT (e voltaremos ao tema), mas críticas construtivas, por outro, não podemos ingenuamente permitir que as transformações politico-sociais alcançadas nos últimos 10 anos sejam desmoralizadas e, se puderem, desmontadas por parte das elites conservadoras. Estas visam ganhar o imaginário dos manifestantes para a sua causa, que é inimiga de uma democracia participativa de cariz popular.
Seria grande irresponsabilidade, e vergonhosa traição de nossa parte, entregar à velha e apodrecida classe política aquilo que por dezenas de anos temos construido, com tantas oposições: um novo sujeito histórico, o PT e partidos populares. Esta classe se mostra agora feliz com a possibilidade de atuar sem máscara e mostrando suas intenções antes ocultas: finalmente temos chance de voltar e de colocar esse povo todo que reclama reformas, no lugar que sempre lhe competiu historicamente: na periferia, na ignorância e no silenciamento. Aí não incomodam nem criam caos na ordem que por séculos construimos mas que, se bem olhrmos, é ordem na desordem ético-social.
Esta pretensão se liga a algo anterior e que fez história. É sabido que com a vitória do capitalismo sobre o socialismo estatal do Leste europeu em 1989, o presidente Reagan e a primeira-ministra Tatcher inauguraram uma campanha mundial de desmoralização do Estado tido como ineficiente e da política como empecilho aos negócios das grandes corporações globalizadas e à lógica da acumulação capitalista. Com isso visava-se chegar ao Estado mínimo, debilitar a sociedade civil e abrir amplo espaço às privatizações e ao domínio do mercado, até conseguir a passagem de uma sociedade com mercado para uma sociedade de puro mercado no qual tudo, mas tudo mesmo, da religião ao sexo, vira mercadoria. E conseguiram. O Brasil sob a hegemonia do PSDB se alinhou ao que se achava o marco mais moderno e eficaz da política mundial. Protagonizou vasta privatização de bens públicos, que foram maléficos ao interesse geral.
Que isso foi uma desgraça mundial se comprova pelo fosso abissal que se estabeleceu entre os poucos que dominam os capitais e as finanças e a grandes maiorias da humanidade. Sacrifica-se um povo inteiro como a Grécia, sem qualquer consideração, no altar do mercado e da voracidade dos bancos.
A crise econômico-financeira de 2008, instaurada no coração dos países centrais que inventaram esta perversidade social, foi consequência deste tipo de opção política. Foram os Estados que tanto combateram que os salvaram da completa falência, produzida por suas medidas montadas sobre a mentira e a ganância (greed is good), como não se cansa de acusar o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman. Para ele, estes corifeus das finanças especulativas deveriam estar todos na cadeia como criminosos. Mas continuam aí faceiros e rindo.
Então, se devemos criticar a nossa classe política por ser corrupta e o Estado por ser ainda, em grande parte, refém da macroeconomia neoliberal, devemos fazê-lo com critério e senso de medida. Caso contrário, levamos água ao moinho da direita. Esta se aproveita desta crítica, não para melhorar a sociedade em benefício do povo que grita na rua, mas para resgastar seu antigo poder político, especialmente aquele ligado ao poder de Estado, a partir do qual garantiam seu enriquecimento fácil. Especialmente, a mídia privada e familiar, cujos nomes não precisam ser citados, está empenhada fevorosamente neste empreitada de volta ao velho status quo.
Por isso, as massas devem continuar na rua contra elas. Precisam estar atentas a esta infiltração, que visa mudar o rumo das manifestações. Elas invocam a segurança pública e a ordem a ser estabelecida. Quem sabe, até sonham com a volta do braço armado para limpar as ruas.
Daí, repetimos, cabe reforçar o governo de Dilma, cobrar-lhe, sim, reformas políticas profundas, evitar a histórica conciliação entre as forças em tensão e a oposição para, juntas novamente, esvaziarem o clamor das ruas e manterem um status quo que prolongue benefíciois compartilhados.
Inteligentemente, sugeriu o analista político Jeferson Miola em Carta Maior (07/7/2013): ”Há uma grave urgência política no ar. A disputa real que se trava neste momento é pelo destino da sétima economia mundial e pelo direcionamento de suas fantásticas riquezas para a orgia financeira neoliberal. Os atores da direita estão bem posicionados institucionalmente e politicamente… A possibilidade de reversão das tendências está nas ruas, se soubermos canalizar sua enorme energia mobilizadora. Por que não instalar em todas as cidades do país aulas públicas, espaços de deliberação pública e de participação direta para construir com o povo propostas sobre a realidade nacional, o plebiscito, o sistema político, a taxação das grandes fortunas e do capital, a progressividade tributária, a pluralidade dos meios de comunicação, aborto, união homoafetiva, sustentabilidade social, ambiental e cultural, reforma urbana, reforma republicana do Estado e tantas outras demandas históricas do povo brasileiro, para assim apoiar e influir nas políticas do governo Dilma?”
Desta forma se enfrentarão as articulações da direita, e se poderá com mais força reclamar reformas políticas de base que vão na direção de atender a infraestrutura reclamada pelo povo nas ruas: melhor educação, melhores hospitais públicos, melhor transporte coletivo e menos violência na cidade e no campo.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


 

 
 

 

sábado, 3 de agosto de 2013

Propinoduto tucano

Governos de Serra e Alckmin deram aval para propinoduto do Metrô, acusa a Siemens

2/8/2013 12:31

As empresas europeias de engenharia Siemens e Alstom estão cooperando com as autoridades brasileiras
As empresas europeias de engenharia Siemens e Alstom estão cooperando com as autoridades brasileiras
A multinacional Siemens teria apresentado ao Conselho Administrativo de Desenvolvimento Econômico (Cade), nesta sexta-feira, documentos que atestam o aval do governo de São Paulo nas gestões do então governador José Serra e do atual, Geraldo Alckmin, à formação de um cartel para licitações de obras do metrô no Estado. O acordo permitiu ampliar em 30% o preço pago em outra licitação para manutenção de trens da CPTM. O caso se torna cada vez mais rumoroso, agora, com o vazamento de relatório interno da empresa alemã, de fevereiro de 2000, no qual está dito que “o fornecimento dos carros (trens) é organizado em um consórcio político. Então, o preço foi muito alto”.
Na tentativa de se reabilitar junto ao setor público brasileiro, diante de uma crise sem precedentes na história da companha, a Siemens delatou a existência do cartel para compra de equipamento ferroviário, além de construção e manutenção de linhas de trens e metrô em São Paulo e no Distrito Federal. A formação do cartel para a linha 5 do metrô de São Paulo, segundo a empresa, começou em 2000, quando o Estado era governado pelo tucano Mário Covas, morto no ano seguinte. O esquema se estendeu ao governo de seu sucessor, Geraldo Alckmin (2001-2006), e ao primeiro ano de José Serra, em 2007. Ouvido por jornalistas, o então secretário de transportes Cláudio de Senna Frederico negou o crime, mas foi lacônico:
– Não me lembro de ter acontecido uma licitação, de fato, competitiva.
Protestos
Diante do escândalo, os metroviários de São Paulo e o Movimento Passe Livre (MPL) marcaram, para o próximo dia 14, um ato público para dar visibilidade e cobrar responsabilidades e a apuração das denúncias de desvios de recursos públicos do Metrô paulistano e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), no que ficou conhecido como ‘propinoduto tucano’.
– A ideia é denunciar o cartel e o desvio de R$ 400 milhões do metrô e os transportes, que deveriam ser usados em investimento e redução de tarifas, por exemplo, que faria muito bem à população – diz Mateus Preis, do MPL.
Preis diz que o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), entre outras entidades, deve participar do ato, cujo ponto inicial ainda está sendo discutido. Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sérgio Renato da Silva Magalhães, o Carioca, a população vai ser informada do protesto e suas motivações com antecedência.
– No próximo dia 6, vamos divulgar uma carta aberta à população, explicando o ato, cujo núcleo é cobrar a investigação das denúncias – disse. A carta será assinada também pelo MPL.

Extraído do Correio do Brasil

 


 


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Inqualificável!!!

Um por cento mais rico tem mais dinheiro do que 99% da humanidade

1/8/2013 14:27
Por Redação, com ACSs - de Londres


Cartaz do movimento 99%
Cartaz do movimento 99%
As 300 maiores fortunas do planeta acumulam mais riqueza que os mais de 3 bilhões de pobres que existem no mundo e representam 99% da população. Assim afirma o professor Jason Hickel, da escola de Economia de Londres, assessor do movimento The Rules, que luta contra a desigualdade.
– Citamos estes números porque nos oferece uma comparação clara e impressionante: as 200 pessoas mais ricas possuem aproximadamente US$ 2,7 trilhões e isso é muito mais que o que possui as 3,5 bilhões de pessoas, que possuem um total de US$ 2,2 trilhões – explica o economista Jason Hickel, citando um estudo recente da ONG Oxfam, que salienta que o 1% dos mais ricos aumentou seus ingressos em 60% nos últimos 20 anos com a radicalização das políticas imperialistas.
No vídeo A desigualdade da riqueza mundial, o movimento The Rules expõe como cresce esta desigualdade social com o passar do tempo em diferentes países. Assim, durante o período colonial, a brecha entre os países ricos e pobres aumentou de 3:1 a 35:1. Desde então, a brecha cresceu até um nível de 80:1.
De acordo com o economista, o crescimento da brecha se deve em parte às políticas econômicas neoliberais que instituições internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) impuseram aos países em desenvolvimento durante as últimas décadas.
– Essas políticas estão desenhadas para liberar os mercados à força, abrindo-os a fim de dar as multinacionais um acesso sem precedentes à terra barata, recursos e mão de obra. Mas a um preço muito alto: que os países pobres percam por volta de US$ 500 milhões por ano de seu PIB – explica o professor citando o economista Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts.



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Aonde está Amarildo?

Desaparecimento do pedreiro Amarildo mobiliza comunidade da Rocinha

30/7/2013 13:12
Por Anne Vigna, com agência Pública - do Rio de Janeiro


O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão
O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão
Não é preciso passar muito tempo junto à família de Amarildo para entender que a UPP da Rocinha se envolveu em um problema bem grande. Amarildo não é uma pessoa que poderia desaparecer sem que sua família perguntasse por ele, não é o pai de quem os filhos esqueceriam facilmente, não é o sobrinho, tio, primo, irmão, marido por quem ninguém perguntaria: onde está Amarildo?
Neste pedaço bem pobre da Rocinha, onde nasceu, cresceu, viveu e desapareceu Amarildo, “muitos são de nossa família”, diz Arildo, seu irmão mais velho, apontando os quatro lados da casa. Em uma caminhada pela comunidade na companhia de um sobrinho de Amarildo, a repórter da Pública conheceu algumas primas, depois umas sobrinhas, tomou um café com as tias lá em cima, de onde desceu acompanhada de irmãos e filhos de Amarildo. De todos ouviu a descrição de Amarildo como “um cara do bem” que, por desgraça, tornou-se famoso – e não por sua característica mais marcante, o bom coração.
As casas são ligadas por escadas antigas, feitas possivelmente por seus avós que vieram da zona rural de Petrópolis para o Rio com os três filhos ainda bem pequenos. “A Rocinha nessa época ainda era mato e poucas casas de madeira, uns barracos como se diz, e nada mais”, diz Eunice, irmã mais velha de Amarildo.
A curiosidade da repórter sobre o passado da família é o suficente par que ela pegue o telefone, para ligar para uma tia avó, “a única que pode saber alguma coisa sobre a história é ela”, diz. A tia-avó, que também vive na Rocinha, confirma por telefone o que Eunice já sabia: a “tataravó era escrava, possivelmente em uma fazenda de Petrópolis, mas não se sabe mais do que isso”.
Eunice diz ter retomado as origens familiares ao fazer de sua casa um centro de Umbanda. É aqui, na parte debaixo da casa, a mais silenciosa, que ela recebe as pessoas que querem saber de seu irmão. “Temos a mesma mãe, mas nosso pai não é o mesmo. Minha mãe gostava de variar”, comenta, rindo.
Ali, na casa construída por ela, moram pelo menos 10 pessoas, entre crianças e adultos. Na cozinha, as panelas são grandes como numerosas são as bocas. No primeiro quarto, três mulheres comem sentadas na cama. Em outro quarto, duas sobrinhas estão em frente ao computador, trabalhando na página do Facebook feita para Amarildo, seguindo os cartazes virtuais de “onde está Amarildo?” que vêm de várias partes do país.
Entre onze irmãos
A mãe de Amarildo teve 12 filhos e trabalhou muito tempo como empregada doméstica na casa de uma atriz famosa do bairro do Leblon. “Essa atriz quis adotar um de nós mas a minha mãe nunca quis”, lembra o irmão Arildo, 3 anos mais velho do que ele. Sobre o pai de ambos, não se sabe onde nasceu, apenas que era pescador, com barco na Praça XV, no centro do Rio, onde conheceu a sua esposa. Os netos não se lembram como nem quando, mas ele se acidentou em um naufrágio e acabou morrendo em consequência de um ferimento na perna. Amarildo tinha um ano e meio. Mas, adulto, Amarildo, tinha paixão pela pesca. “Era a única coisa que ele fazia na vida, quando não estava trabalhando ou nos ajudando: ia pescar sozinho ou com um primo nas rochas de Sao Conrado. Voltava com muitos peixes”, conta orgulhoso, Anderson, o mais velho dos seus seis filhos.
As varas de pescar de bambu, que ele mesmo fazia, estão encostadas em casa desde o dia 14 de julho, um domingo, quando os policias da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o levaram “para verificação”. Ele tinha acabado de limpar os peixes trazidos do mar e Bete, apelido de Elizabete, sua esposa há mais de 20 años, esperou que ele voltasse da UPP para fritar os peixes “como tantos domingos”, ela conta, o olhar perdido. Foram 20 anos de união, seis filhos, a vida dividida em um único cômodo que servia de dormitório, cozinha e sala.
Semanas após o desaparecimento do marido, Bete se esforça para conseguir contar como conheceu o “meu homem”, ela diz, evocando a lembrança do jovem que se sentou ao lado dela em um banco em Ipanema: “Eu não saía muito desde que cheguei de Natal (Rio Grande do Norte) para trabalhar como empregada em uma família. No domingo, ia caminhar um pouco no bairro. Ele veio conversar comigo, nos conhecemos, e ele me trouxe para a casa de sua mãe aqui na Rocinha. Nunca mais saí”, conta.
Bete trouxe os dois filhos que vieram com ela do Nordeste sem criar problema com Amarildo. “Ele adora crianças”, ela diz. O que as duas menorzinhas da família confirmam: “É o tio Amarildo que nos leva para a praia de de Sao Conrado, ele que nos ensinou a nadar”. Ela apenas sorri, sempre fumando, e sem disfarçar a tristeza conta que está preocupada com a filha mais nova, de 5 anos. “Ela sempre estava com o pai”, suspira. No começo, Bete lhe disse que o pai tinha ido viajar e que, por hora, ele não voltaria. A pequena conserva a esperança de filha que sempre acreditou nas palavras do pai, e ele lhe prometeu um bolo grande no próximo aniversário.
“Era um menino e pulou no fogo”
Aos 11 anos, Amarildo se tornou o heroi da comunidade ao se meter em um barraco em chamas para salvar o sobrinho de 4 anos. “Era um menino, e pulou no fogo. Me salvou e também tentou salvar a minha irmã, que tinha 8 anos. Não conseguiu tirá-la de lá, ela morreu, e eu fiquei meses no hospital”, lembra Robinho, hoje com 34 anos, a pele marcada pelas cicatrizes desta noite de incêndio.
Aqui, Amarildo é conhecido por todos como “Boi”, por ser um homem forte que carregava as pessoas que precisavam de socorro para descer as escadas e chegar com urgência a um hospital. “Uns dias antes de desaparecer, ele carregou no colo uma vizinha, e a salvou. É uma ótima pessoa, sempre ajudava os outros – numa emergência ou numa mudança”, conta a cunhada Simone, sem conter as lágrimas. “Eu tenho muita saudade dele, principalmente do seu sorriso. Meu marido não fala nada, mas eu o conheço, está com muita raiva. Na primeira noite, ficou debruçado na janela a noite toda, esperando o irmão voltar”, diz, emocionada.
Toda a família está com raiva. E dessa vez ninguém quer ficar quieto, mesmo sabendo dos riscos da denúncia. Vários familiares foram ameaçados por policiais. “Por que foram atrás dele? Estamos voltando à ditadura?”, pergunta a prima, Michelle. “Ele trabalhou toda a vida, quando não trabalhava, nos ajudava, ou ia pescar para a sua família. Ninca se meteu com ninguém”, comenta, revoltada.
Boi era pedreiro havia 30 anos e ganhava meio salário mínimo por mês. “Por isso, às vezes carregava sacos de areia aos sábados para ganhar um pouco mais”, comenta Anderson, mostrando os tijolos que o pai comprou com o dinheiro extra para fazer um puxadinho no segundo andar na casa: “Na verdade, ele ia ter que voltar a fazer a fundação aqui de casa porque está caindo, eu e meu irmão íamos ajudar”, detalha.
- Ele era meu pai, irmão, amigo, era tudo para mim – diz, escondendo as lágrimas quando chega a irmã mais nova, de 13 anos.
Os familiares vivem em suspense, à espera das notícias que não chegam. Não desistem: organizam-se como podem com vizinhos, amigos e outras vítimas da polícia. Negaram uma oferta do governo do Estado do Rio de Janeiropara entrar no programa de proteção à testemunha. Preferiram continuar na Rocinha, sua comunidade. Na próxima quinta-feira, dia 1 de agosto, farão mais uma manifestação na Rocinha, onde estarão presentes familiares de outros desaparecidos por obra de outros policiais em outras favelas. “Temos que lutar para que essa impunidade não continue. Queremos justiça por Amarildo e para todos nós que convivemos agora com essa polícia”, revolta-se a sobrinha Erika.
Aos 43 anos, Amarildo desapareceu sem que a família tenha direito sequer a uma explicação oficial, como tantos outros de tantas favelas brasileiras vítimas de violência policial. Mas dessa vez, ninguém vai se calar. Onde está Amarildo?
Como levaram Amarildo
A Operação Paz Armada, que mobilizou 300 policiais, entrou na Rocinha nos dias 13 e 14 de julho para prender suspeitos sem passagem pela polícia depois de um arrastão ocorrido nas proximidades da favela. Segundo a polícia, 30 pessoas foram presas, entre elas Amarildo. Segundo uma testemunha contou à reporter Elenilce Bottari, do Globo, ele foi levado por volta das 20 horas do dia 14, portando todos os seus documentos: “Ele estava na porta da birosca, já indo para casa, quando os policiais chegaram. O Cara de Macaco (como é conhecido um dos policiais da UPP) meteu a mão no bolso dele.
Ele reclamou e mostrou os documentos. O policial fingiu que ia checar pelo rádio, mas quase que imediatamente se virou para ele e disse que o Boi tinha que ir com eles”, disse a testemunha.
Assim que soube, Bete foi à base da UPP no Parque Ecológico e chegou a ver o marido lá dentro. “Ele me olhou e disse que o policial estava com os documentos dele. Então eles disseram que já, já ele retornaria para casa e que não era para a gente esperar lá. Fomos para casa e esperamos a noite inteira. Depois, meu filho procurou o comandante, que disse que Amarildo já tinha sido liberado, mas que não dava para ver nas imagens das câmeras da UPP porque tinha ocorrido uma pane. Eles acham que pobre também é burro”, contou Bete ao Globo.
O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão.




Extraído do Correio do Brasil

Enecom PI 2013

O que preocupa os jovens comunicadores

30/7/2013 14:36
Por Venício A. de Lima - de Minas Gerais


A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um megaevento organizado periodicamente pela igreja católica em diferentes países
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um megaevento organizado periodicamente pela igreja católica em diferentes países
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um megaevento organizado periodicamente pela igreja católica em diferentes países. Mobiliza milhares de jovens e tem orçamento de muitos milhões de reais. Multidões, debaixo de chuva e frio, acompanharam a peregrinação do novo papa Francisco entre 23 a 28 de julho na JMJ do Rio de Janeiro.
A JMJ constitui o que se denomina media events, isto é, “parte espetáculos, parte festivais, parte textos, parte performances” em simbiose com uma maciça cobertura midiática e a consequente confirmação ritual de poderes estabelecidos, sendo exemplos clássicos as coroações, casamentos e funerais de monarcas ou líderes religiosos.
Enquanto a JMJ saturava a cobertura da grande mídia, cerca de seiscentos estudantes de jornalismo, publicidade, relações públicas e cinema, da maioria das unidades da federação e com idade entre 19 e 23 anos, enfrentavam a situação oposta: uma temperatura média acima de 30 graus centígrados e alojamentos improvisados em salas de aula para discutir “A qualidade de formação do comunicador social”, tema geral do 34º Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação Social, Enecom PI 2013, que ocorreu de 20 a 27 de julho, no campus da distante Universidade Federal do Piauí, em Teresina.
Aparentemente, nem mesmo a mídia local ofereceu cobertura ao Enecom – que não foi considerado “notícia” merecedora de inclusão na pauta. O evento, todavia, estava nas redes sociais e tinha seu próprio blog. Além disso, mantinha a tradição de ser “feito por e para estudantes, desde seu projeto político à busca estrutural e financeira de como realizá-lo”. Vale dizer, com o mínimo possível de recursos financeiros e a total dedicação de seus organizadores.
Debate organizado
Participei do Enecom PI 2013, como convidado de uma mesa sobre “Democratização da Comunicação”, um dos quatro painéis realizados no evento.
Chamou minha atenção a “metodologia” utilizada. O painel é dividido em “perfis” a serem apresentados por diferentes expositores, não necessariamente professores. Sobre a “Democratização da Comunicação” foram quatro perfis: 1. Por que a democratização da comunicação tem tudo a ver com você?; 2. Novas leis para um novo tempo: marcos regulatórios pelo mundo; 3. Construindo outras vozes; e 4. Das redes às ruas: a internet e a mobilização social da juventude.
Feitas as exposições, os presentes (excluídos os expositores) se reúnem em suas respectivas “brigadas” (nas quais já estão agrupados todos os participantes do encontro) e debatem os temas levantados pelos expositores, ou não. Depois de 30 minutos, um ou mais representante de cada brigada coloca seus comentários para todos. Retorna-se, então, aos expositores (panelistas) para uma rodada final de observações.
Políticas públicas
Após as canônicas exposições iniciais dos convidados, a novidade foi que o debate nas brigadas revelou uma animadora autonomia não só frente às exposições, mas também “pés no chão” em relação à realidade brasileira do setor. Alguns pontos:
1. Diagnósticos e críticas não interessam mais. Precisamos discutir alternativas.
Como viabilizar a construção de alternativas locais de jornais populares? Quem teria mais credibilidade nos assuntos de interesse local, o Jornal Nacional da Globo ou um jornal produzido na comunidade? Quem os financiará? Quais parcerias coletivas são possíveis para viabilizar, por exemplo, a contratação “por serviço”, do maquinário ocioso de grandes jornais ou de gráficas?
2. A internet é importante, mas a maioria dos brasileiros ainda não tem acesso a ela. A banda larga é cara e de má qualidade. Precisamos criar alternativas complementares à internet.
A importância das rádios comunitárias é amplamente reconhecida. É necessário priorizar uma nova legislação que impeça a criminalização e o fechamento de rádios já existentes e amplie o seu alcance.
3. Não basta ser um canal de televisão público ou educativo para uma emissora se constituir em alternativa à mídia comercial dominante.
É preciso exigir dos órgãos fiscalizadores (Ministério das Comunicações) o cumprimento das obrigações dos canais não comerciais e transformá-los em espaços de veiculação de programação alternativa de qualidade.
4. A explicação midiática “pós-moderna” da total fragmentação de interesses e objetivos das manifestações de jovens não deve ser aceita sem discussão.
Por detrás da aparente fragmentação existem insatisfações comuns como, por exemplo, uma demanda por participação na construção de políticas públicas. Surge aqui a necessidade de se instalarem os conselhos de comunicação como espaço de interferência na destinação de recursos públicos nos planos estaduais de comunicação.
Com “os pés no chão”
O indispensável diálogo com os jovens é muitas vezes surpreendente. Os observadores de gabinete, analisamos movimentos de jovens sem conhecer o que de fato pensam esses sujeitos coletivos.
Mesmo levando-se em conta que boa parte de participantes dos Enecoms são jovens diferenciados porque envolvidos em militância estudantil, é gratificante observar que eles não estão – como em geral se acredita – “deslumbrados” com os falaciosos superpoderes das redes sociais virtuais. Na verdade, estão com “os pés no chão” e preocupados em encontrar formas factíveis de exercício profissional em suas respectivas áreas de formação, sem abrir mão de interferir politicamente nas transformações do país.
Ignorados pela grande mídia, no calor estorricado do Piauí, jovens futuros comunicadores sociais brasileiros “fazem” mais um Enecom e mostram saber muito bem o que querem.
Estão no caminho certo.
Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros.

Extraído do Correio do Brasil