domingo, 8 de maio de 2016

Afinal, o que os evangélicos querem da política?

Afinal, o que os evangélicos querem da política?

A pesquisadora Bruna Suruagy conta o que descobriu sobre a bancada da bíblia, alvo de sua tese de doutorado
Bruna_José Cícero da Silva-3
A professora de psicologia Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fez 42 entrevistas para sua tese de doutorado Religião e política: ideologia e ação da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”. Ouviu parlamentares da bancada evangélica (de 2007 a 2011), assessores e jornalistas. Continuou acompanhando o movimento dos políticos evangélicos e o crescimento da bancada no Congresso. Em entrevista à Pública, Bruna explica como acontece a seleção dos candidatos dentro das igrejas, o esquema político das principais denominações pentecostais e o que querem os políticos evangélicos.
Leia a reportagem: Os pastores do Congresso
Como começou sua pesquisa sobre a bancada evangélica?
Meu objetivo era entender como se processava a articulação entre os discursos religiosos e políticos. Foi na legislatura de 2007 a 2011, que aconteceu logo após a CPI das Sanguessugas que apresentou alguns nomes de parlamentares evangélicos. Na ocasião, a Igreja Universal retirou a candidatura de muitos parlamentares e o início da legislatura de 2007 foi bastante tenso por conta desse processo. Teve uma redução significativa da bancada. Na época eles estavam com 45 membros.
Quando os evangélicos passaram a se organizar politicamente?
Antes da década de 1990, já existiam vários parlamentares evangélicos, mesmo antes da Constituinte – muitos protestantes históricos e alguns pentecostais, mas não existia uma organização institucional da campanha desse grupo específico. Eram evangélicos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na Câmara uma certa articulação em nome sobretudo da manutenção dos interesses e valores morais próprios desse grupo. Mas no início da década de 1990 a Universal passou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político. Ela criou uma forma de fazer política no sentido de quase atuar como partido.
Funciona assim: A cúpula da igreja, formada por um conselho de bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região, tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual. Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que é da Universal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso. Na época, havia uma distribuição por vários partidos para garantir a eleição. E são escolhidos bispos com um carisma midiático, que conduziram programas, radialistas e mesmo não bispos, mas figuras que se destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da mídia religiosa com a igreja e a política.
Não são parlamentares que se destacam na questão litúrgica como grandes estudiosos da Bíblia – até porque a tradição pentecostal está mais na produção de emoções e de momentos afetivos do que de fato na liturgia. Então os bispos e líderes religiosos que promovem essas catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional são normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares da Universal. A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, mas que não funcionava assim, passou a ter a Universal como modelo. Não atuando da mesma forma porque o funcionamento institucional é outro. A Assembleia é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela própria igreja e ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam, como dizia Freud, também termina sendo um critério.
ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões
Então tem uma lista, depois uma pré-seleção que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério [a Assembleia de Deus é uma igreja com muitas ramificações]. É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não seja escolhido. Na Universal, como o poder é nacional, tem uma sede hierarquizada que consegue controlar a instituição, candidaturas independentes não acontecem. Até porque os parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente não ganharam as eleições. A vitória está totalmente atrelada à instituição. Existe uma estratégia bem construída porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que não é alta. A Assembleia de Deus está tentando construir essa fidelidade e essa unidade política que são extremamente difíceis devido a essa fragmentação interna. E faz as prévias nacionais com a participação de pastores e obreiros, novamente sem a participação da comunidade – não é um processo transparente. No Congresso então você tem essas lideranças religiosas que demonstram uma maior habilidade na interlocução com o sujeito, um carisma que gera catarse, contágio, impacto afetivo e as lideranças que foram identificadas e constituídas pela igreja como nomes importantes para ocupar o cenário nacional.
A bancada evangélica é homogênea?
Na bancada evangélica no Congresso e também nas bancadas estaduais e municipais, você tem uma diversidade tão grande de integrantes que não dá pra pensar esse grupo como um bloco coeso, homogêneo. Muitos vêm representando a Assembleia de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa estratégia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu o Cunha. Você tem muitos parlamentares das chamadas protestantes históricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas] que têm uma candidatura totalmente independente porque não há um plano político já estabelecido dentro das igrejas. Eles simplesmente são evangélicos, mas a trajetória política geralmente não se dá dentro da igreja e não há uma vinculação direta ao exercício da fé. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a fé no âmbito privado da política na esfera pública. Mas é uma distinção contraditória porque eles tomam, sim, como referência algumas crenças e valores para orientar suas práticas parlamentares e votações como quando se discute aborto e homofobia,a por exemplo.
a Universalpassou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político
Lembro que um parlamentar me disse na época em que fiz as entrevistas que não há como fazer uma separação absoluta porque um marxista, por exemplo, vai acabar se submetendo a essa orientação de consciência na hora de atuar. E que ele, como cristão, se submete a essa orientação de consciência. Mas que vota orientado pela consciência, e não por uma filiação religiosa ou institucional específica. Então, nas protestantes históricas, não há essa presença ostensiva da instituição. A pentecostal, que traz consigo a teologia da prosperidade, que tem a presença do neoliberalismo, do conservadorismo institucional e moral, já tem essa coisa de práticas políticas fisiológicas e clientelistas. É um grupo heterogêneo, mas os parlamentares pentecostais têm uma posição mais orientada pelas instituições religiosas. O mandato não é do parlamentar; é pouco do partido, é mais da instituição.
Isso já é combinado com relação aos temas que eles vão defender? “Te ponho lá mas você me garante que o aborto não sai!”
No começo, a gente tem a impressão de que a igreja interfere totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo, é um líder muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou que eles precisavam ter uma formação política. Então eles frequentam cursos de formação política na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos são dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram isso explicando que não iam totalmente despreparados. “A gente tem uma formação, antes de vir tenta entender e conhecer.” O grande paradoxo da Universal é que no período eleitoral há uma mistura entre religião e política que é clara, não é velada. Ela se dá dentro do templo, o templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito. Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso político do discurso religioso. Na verdade, isso começou a ser exigido pela cúpula da Universal depois de aparecerem escândalos e irregularidades envolvendo parlamentares evangélicos. Na época, quem era o grande líder político era o Bispo Rodrigues, que era o braço-direito do Edir Macedo. Depois dos escândalos do caso Waldomiro e do mensalão [que o levou à condenação a seis anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro], ele renunciou em 2005, perdeu o título de bispo e retiraram todas as candidaturas dos parlamentares justamente para não arranhar a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privilégio de não participar desses momentos.
O templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito
Tem até um líder de outra igreja, o Robson Rodovalho, que é da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que dizia que era muito difícil para ele como líder estar ali. Que para o Edir Macedo era muito mais fácil porque, se algum parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente diria que não sabia de nada. No caso dele, a igreja correria o risco de se enfraquecer. O que me chamou atenção quando fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o título de bispo. Com os outros, eu começava sem perguntar nada sobre a religião, e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da fé. Já os parlamentares da Universal não falavam de Deus, era um discurso totalmente parlamentar. Não mais progressista, mas eles queriam separar os processos. E, segundo um deles, o próprio Edir Macedo orienta os parlamentares a seguir as orientações do partido nas votações exatamente para que eles não tenham divergências e eventualmente percam as verbas públicas destinadas às emendas parlamentares.
Então qual é o grande interesse da Universal?
Quando as temáticas são institucionais, relacionadas a isenção fiscal, alvará de funcionamentos das igrejas, doações de terrenos, distribuição de concessão de rádios e TV, a transformação de eventos evangélicos em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, questões relacionadas à lei do silêncio. Aí eles atuam de forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses, como em relação a questões morais. Com algumas diferenças, mas muitas aproximações. Alguns cargos dos gabinetes têm que ficar à disposição da igreja, que indica quem vai ocupar. É uma igreja pragmática, tem muito mais interesses institucionais do que morais. Se for analisar do ponto de vista moral, é muito mais flexível e aberta do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso de natureza moral além do institucional, de manutenção da ordem. Quando há convergência nesses temas institucionais e morais, a bancada se articula. É importante salientar que poucas vezes você verifica a articulação desse bloco de forma totalmente coesa. Eles excluem a política nessa discussão de pauta dos parlamentares evangélicos para criar uma falsa aparência de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evangélica como um ser único, e para a bancada é muito interessante aparecer assim como um corpo único, um bloco suprapartidário…
E dizer “a bancada” convenientemente não dá nomes, né?
Exatamente, uma entidade com um poder e as divisões não aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que estão à frente e que normalmente são os das igrejas pentecostais apresentam a bancada dessa forma. “A bancada decidiu”.
Eles se reúnem?
A mídia faz parecer que sim, mas não. Porque eles estão filiados a partidos e a movimentação na Câmara se dá por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder que têm, porque têm poder na igreja, mas a divisão por partido privilegia o alto clero. Você tem alguns líderes partidários que definem as orientações e eles tem que seguir ou são punidos de alguma forma, principalmente não tendo as verbas públicas para realização das emendas parlamentares. “Estou aqui mas não tenho muito poder de decisão, tenho sempre que obedecer partido, não tenho autonomia” eram reclamações constantes. Estou falando principalmente desse grupo pentecostal, que é o mais barulhento e que fala pela bancada, principalmente os assembleianos [da Assembleia de Deus]. Eles têm o Feliciano, o Cunha, o João Campos, que é o líder da Frente. Engraçado que na época em que eu fiz a pesquisa o Eduardo Cunha era superinexpressivo como integrante da bancada evangélica. Mas eles se reúnem muito pouco, às vezes no dia do culto, quarta de manhã, fazem o ritual religioso e têm alguma discussão sobre projetos de lei e discussão de pauta.
O interessante é a atuação dos assessores. Eles acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos projetos em tramitação e seleção dos mais importantes, projetos “anticristãos”. Você também tem uma distribuição dos parlamentares pelas comissões que eles consideram mais importantes como a de Seguridade Social, de Direitos Humanos, de Constituição Justiça e Cidadania. Aí eles vão tentando barrar a tramitação dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente ou relator. Você tem uma estratégia bem elaborada, mas não conta com uma participação tão ativa quanto parece. É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão. Acho que também é uma estratégia de parecer maior do que é pelo grito. Que é o que acontece nas próprias igrejas. As igrejas têm esse discurso de guerra, de combate. O exército da Universal que deixou todo mundo perplexo, mas isso sempre aconteceu, é o discurso de todas as igrejas. A convocação nas igrejas tem todo esse ritual bélico mesmo. E o soldado é aquele que está ali para obedecer e para combater. A bancada usa isso também. Você valoriza o tamanho do adversário para convocar os integrantes. Mas eu ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando votações e que tinham poucos para impedir a continuação da votação. Aí o assessor ligava para a lista da FPE: “Esse é pró-vida, vou chamar”. Aí liga: “Deputado, vem aqui, pede vista”. Eles têm uma assessoria que conhece os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas vezes não sabem nem o que está acontecendo ali. Tem uma disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total de alguns pela causa.
É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão
Qual é a missão da bancada evangélica nesse sentido? Ao meu ver, é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual…
Você acha que é uma causa legítima? Eles acreditam mesmo nisso?
Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais coerente com aquele espaço. No fim de 1980, os discursos condenavam o aborto e justificavam trazendo passagens bíblicas, dizendo que Deus não permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse sentido, entendeu que não dava pra usar esse discurso porque não tinha coerência e começaram a argumentar de forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais ressonância naquele contexto. Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico.

Análise: Golpistas serão engolidos pelo golpe

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Entre os que estão contra Dilma, vemos a mesma parcela da sociedade reacionária que patrocinou a ditadura e apoiou chegada de Collor na presidência

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Eu tinha 16 pra 17 anos nas eleições entre Lula e Collor em 1989. Estudava num colégio fascista, o Bandeirantes, ninho de tucanos até hoje. O colégio todo, com meninos e meninas da elite paulistana, era favorável à eleição do Fernando Collor, Mas eu não ligava e fazia uma intensa campanha pro Lula – cantando Lula Lá alegremente pelos corredores.

Reprodução YouTube

Último debate presidencial entre Fernando Collor e Lula
Acho que, entre idas e vindas da época, eu tinha um namorado que achava boa a eleição do Collor, o caçador de Marajás. Lembro-me vagamente dele animado com uma reportagem da Veja sobre o novo fenômeno da política brasileira. Mas eu tinha a firme e forte convicção de que tinha que tirar título e votar no Lula. O namoro acabou.



Camiseta vermelha, estrelinhas de ferro em forma de broche e uma caneta que não funcionava nunca era meus fiéis aliados no colégio. Conversava horas com o professor de física sobre as eleições. Era uma época bem legal, ainda que eu sofresse certo bullying dos colegas. Ainda assim, andava orgulhosa pela escola, com minhas próprias convicções e confiante na vitória do Lula. Depois de um tempo de campanha, começaram as propagandas eleitorais baixas na TV, apareceu a Lurian, a história do aborto que não ocorreu, um debate roubado, uma menção atravessada a um “3 em 1” que o Lula teria e que  demonstraria que ele era rico (para as novas gerações, “3 em 1” era um aparelho revolucionário e caro, que reunia rádio FM e AM, toca-discos de vinil e fitas cassetes: a gente podia gravar o rádio e o disco nessas fitas magnéticas de 30, 60 e 90 minutos!).

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Era uma baixaria de dar vergonha.
No dia em que saiu o resultado das eleições, fiquei consternada, com o sentimento de que tinha sido roubada. Não podia ser verdade, não podiam ter feito aquelas baixarias todas. Minha sensação era a de que uma parte da população já estava começando a entender que aquilo tinha sido ilegal e imoral, que tinha sido um estelionato eleitoral. Então, nas pessoas com que convivia, uma vergonhinha se instalou timidamente.
Descobri, recentemente, em pesquisas sobre a ditadura, que Collor fora apresentado às tradicionais famílias paulistas por Luis Eulálio Bueno Vidigal, que era presidente da Fiesp na época. Tanto ele como o irmão, Gastão Vidigal, banqueiro do Mercantil, foram patrocinadores da ditadura, e Gastão organizou o “caixinha” da tortura – um dinheiro de caixa 2 que levou muitos militantes ao caixão. Nessa família acostumada a operações políticas reacionárias, portanto, nasceu o apoio em dinheiro à Collor e também o apoio midiático à sua candidatura.
A Fiesp e a oligarquia paulistana se uniam naquele começo dos anos 1990 para manterem a ordem vinda da ditadura e aprofundarem os saques do Estado. Minha sensação adolescente, de que o Collor era ainda a ditadura e que sua vitória foi a da ditadura, se confirmou nessas pesquisas da minha maturidade. Os militares saíam de cena, mas todos os outros atores do golpe de 1964 continuavam de pé e atuantes – as elites empresariais, o aparato jurídico reacionário, a mídia elitista.
Fernando Collor, e seu estilo machista do "eu tenho saco roxo", representava a velha política predadora do país, que havia derrubado o governo democrático de João Goulart em 1964. Na época, foram os militares e uma parte as sociedade que deram o golpe – uma classe média reacionária, inculta e religiosa, um judiciário retrógrado, uma elite voraz escudados por uma mídia profundamente ideológica e anticomunista. Foram exatamente esses grupos que, ao lado de Collor, travestiram-se com uma nova roupagem nos anos 1990 para usarem os mesmos truques sujos e continuar no poder.
Teoricamente, não era mais ditadura, mas, na prática, era ainda. A polícia continuava a mesma da ditadura, com a mesma violência, a economia servia apenas aos ricos e poderosos de sempre, o Estado era deles. A esmagadora maioria da mídia apoiou entusiasticamente o então jovem caçador de marajás.
Assim que assumiu a presidência, Collor mostrou com sanha seu desejo insano de se apropriar do Estado. Foram anos complicados, em que tudo parecia se desfazer no ar. Logo, começaram as manifestações pelo impeachment. Tínhamos o entendimento claro de que a saída de Collor do governo federal era a derrubada definitiva da ditadura no governo. O pior da sociedade parecia ser extirpado, jogado fora. Mas não foi, submergiu aos poucos durante a década em que reinou FHC, e mergulhou mais fundo nos tempos de Lula e Dilma. Até que se viu enricada, mas de joelhos. O dinheiro, maior, não comprava tudo, porque o dinheiro não comprava o poder absoluto. Era preciso negociar, aceitar avanços, políticas igualitárias, cotas, feminismo etc.  
Agora, com o golpe contra a presidenta Dilma e os governos do PT, vemos a volta da Ditadura, daquela parcela da sociedade reacionária, elitista e predadora, de mãos dadas com os de sempre: o Judiciário retrógrado e a mídia interesseira. São eles que nunca aceitaram a democracia, que precisam de golpes e artimanhas para se manterem no poder à força.
Eu tenho uma tendência a querer ver o lado bom das situações. Mas acredito que, da mesma maneira que a sociedade brasileira naquela época não cabia mais na roupa da ditadura, da opressão, do saque, do machismo e da falta de liberdade, agora também não. O golpe se consumará, mas não irá durar. A sanha predatória do golpistas os engolirá.
* Joana Monteleone é historiadora

** Este texto foi originalmente publicado em Painel Acadêmico

Fonte: Opera Mundi

50 verdades sobre a Revolução Cubana

50 verdades sobre a Revolução Cubana

Símbolo dos desejos de independência da América Latina e do Terceiro Mundo, a Revolução Cubana marcou a história do século XX.
1.      O triunfo da Revolução Cubana, no dia 1 de janeiro de 1959, é o acontecimento mais relevante da história da América Latina no século XX.

2.      As raízes da Revolução Cubana remontam ao século XIX e às guerras de independência.
3.      Durante a primeira guerra de independência, de 1868 a 1878, o exército espanhol derrotou os insurgentes cubanos atolados em profundas divisões internas. Os Estados Unidos apoiaram a Espanha, vendendo ao país armas mais modernas e se opôs aos independentistas perseguindo os exilados cubanos que tentavam dar sua contribuição à luta armada. No dia 29 de outubro de 1872, o secretário de Estado Hamilton Fish compartilhou com Daniel Sickles, então embaixador estadunidense em Madrid, seus “desejos de êxito para a Espanha na supressão da rebelião”. Washington, contrário à independência de Cuba, desejava tomar posse da ilha.

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4.      Cuba é efetivamente uma das mais antigas inquietudes da política exterior dos Estados Unidos. Em 1805, Thomas Jefferson observou a importância da ilha, salientando que sua “posse [era] necessária para assegurar a defesa de Luisiana e da Flórida porque [era] a chave do Golfo do México. Para os Estados Unidos, a conquista seria fácil”. Em 1823, John Quincy Adams, então Secretário de Estado e futuro presidente dos Estados Unidos fez alusão ao tema da anexação de Cuba e elaborou a teoria da “fruta madura”: “Cuba, separada pela força de sua própria conexão desnaturalizada com a Espanha, e incapaz de sobreviver por si própria, terá necessariamente que gravitar ao redor de união norte-americana, e unicamente ao redor dela”. Assim, durante o século XIX, os Estados Unidos tentaram 6 vezes comprar Cuba da Espanha.
5.      Durante a segunda guerra de independência, entre 1885 e 1898, os revolucionários cubanos, unidos em volta de seu líder José Martí, tiveram de enfrentar outra vez a hostilidade dos Estados Unidos, que deu sua ajuda à Espanha vendendo-lhe armas e prendendo os exilados cubanos que tentavam apoiar os independentistas.
6.      José Martí, em uma carta profética ao seu amigo Gonzalo de Quesada, escrita no dia 14 de dezembro de 1889, advertiu sobre a possibilidade de uma intervenção estadunidense. “Sobre a nossa terra, Gonzalo, há outro plano mais tenebroso [....]: a iníqua de forçar a Ilha, de precipitá-la à guerra, para ter o pretexto de intervir nela, e com o crédito de mediador e  garantidor, ficar com ela”.

7.      Em 1898, apesar de sua superioridade material, a Espanha estava à beira do abismo, vencida no campo de batalha pelos independentistas cubanos. Em uma carta ao presidente estadunidense William McKinley, datada de 9 de março de 1898, o embaixador Woodford, de Madrid, disse que “a derrota” da Espanha era “segura”. “[Os espanhóis] sabem que perderam Cuba”. Segundo ele, “se os Estados Unidos desejam Cuba, devem consegui-la mediante a conquista”.
8.      Em abril de 1898, depois da explosão misteriosa do navio de guerra estadunidense The Maine na baía de Havana, o presidente McKinley solicitou autorização do Congresso para intervir militarmente em Cuba e impedir que a ilha conseguisse sua independência.
9.      Vários congressistas denunciaram uma guerra de conquista. John W. Daniel, senador democrata do estado da Virginia, acusou o governo de intervir para evitar uma derrota dos espanhóis: “Quando chegou a hora mais favorável para um êxito revolucionário e a mais desvantajosa para a Espanha, [...] se exige ao congresso dos Estados Unidos entregar o exército dos Estados Unidos ao Presidente para impor um armistício pela força às duas partes, enquanto uma delas já entregou as armas”
10.  Em três meses, os Estados Unidos tomaram controle do país. Em dezembro de 1898, os Estados Unidos e a Espanha assinaram um tratado de paz em Paris sem a presença dos cubanos, destroçando assim seu sonho de independência.
11.  De 1898 a 1902, os Estados Unidos ocuparam Cuba e obrigaram a Assembleia Constituinte a adotar a emenda Platt na nova Constituição, sob pena de prorrogar a ocupação militar.
12.  A emenda Platt proibia Cuba de assinar qualquer acordo com um terceiro país ou contrair dívida com outra nação. Também dava direito aos Estados Unidos de intervir em qualquer momento nos assuntos internos de Cuba e obrigava a ilha a conceder indefinidamente a Washington a base naval de Guantánamo.

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13.  Em uma carta de 1901, o general Edward Wood, então governador militar de Cuba, parabenizou o presidente McKinley. “Desde então há pouca ou nenhuma independência para Cuba sob a emenda Platt e a única coisa importante agora é buscar a anexação”.
14.  De 1902 a 1958, Cuba tinha o status de república neocolonial, política e economicamente dependente, apesar da revogação da emenda Platt em 1934, então obsoleta.
15.  Os Estados Unidos interviram militarmente em Cuba em 1906, 1912, 1917 e 1933, depois da queda do ditador Gerardo Machado, e cada vez que um movimento revolucionário ameaçava ostatus quo.
16.  A Revolução de 1933, liderada por Antonio Guiteras, foi frustrada pela traição de um sargento chamado Fulgencio Batista, que se tornou general e colaborou com a embaixada dos Estados Unidos para manter a ordem estabelecida. Dirigiu o país nos bastidores até sua eleição como presidente em 1940.
17.  Depois das presidências de Ramón Grau San Martín (1944-1948), e Carlos Prío Socarrás (1948-1952), gangrenadas pela violência e pela corrupção, Fulgencio Batista pôs fim à ordem constitucional no dia 10 de março de 1952, orquestrando um golpe de Estado militar.

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18.  No dia 26 de junho de 1953, um jovem advogado chamado Fidel Castro, membro do Partido Ortodoxo fundado por Chibás, se pôs à frente de uma expedição de 131 homens e atacou o quartel Moncada na cidade de Santiago, a segunda fortaleza militar do país, assim como o quartel Carlos Manuel de Céspedes, na cidade de Bayamo. O objetivo era tomar o controle da cidade — berço histórico de todas as revoluções — e lançar um chamado à rebelião em todo o país para derrubar o ditador Batista.
19.  A operação foi um fracasso e numerosos combatentes — 55 no total — foram assassinados depois de serem brutalmente torturados pelo exército. De fato, apenas 6 deles morreram em combate. Alguns conseguiram escapar graças ao apoio da população.
20.  Fidel Castro, capturado alguns dias depois, deveu a vida ao sargento Pedro Sarría, que se negou a seguir as ordens de seus superiores e executar o líder de Moncada. “Não disparem! Não disparem! As ideias não se matam!”, exclamou frente a seus soldados.
21.  Durante sua histórica alegação intitulada “A História me Absolverá”, Fidel Castro, que se encarregou de sua própria defesa, denunciou os crimes de Batista e a miséria em que se encontrava o povo cubano e apresentou seu programa para uma Cuba livre.
22.  Condenado a 15 anos de prisão, Fidel Castro foi liberado em 1955 depois da anistia que lhe concedeu o regime de Batista e se exilou no México, onde organizou a expedição de Granma, com um médico argentino chamado Ernesto Guevara.
23.  No dia 2 de dezembro de 1956, Fidel Castro desembarcou na província oriental de Cuba comandando 81 revolucionários com o objetivo de desatar uma guerra de guerrilhas nas montanhas de Sierra Maestra.
24.  Ao contrário do que se diz, os Estados Unidos jamais deram apoio ao Movimento 26 de Julho, organização político-militar dirigida por Fidel Castro, durante toda a guerra insurrecional, de 2 de dezembro de 1956 a 1 de janeiro de 1959.
25.  Ao contrário, Washington perseguiu cruelmente todos os simpatizantes do Movimento 26 de Julho exilados nos Estados Unidos, que tentavam fornecer armas aos rebeldes.

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26.  Ao mesmo tempo, o Presidente Dwight D. Eisenhower seguiu fornecendo armas ao exército de Batista, inclusive depois da instauração do embargo de fachada, em março de 1958.
27.  No dia 23 de dezembro de 1958, a uma semana do triunfo da Revolução, enquanto o exército de Fulgencio Batista estava em plena debandada apesar de sua superioridade em armas e homens, aconteceu a 392ª reunião do Conselho de Segurança Nacional, com a presença do presidente Eisenhower. Allen Dulles, então diretor da CIA, expressou claramente a posição dos Estados Unidos: “Temos de impedir a vitória de Castro”.

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28.  Assim como aconteceu em 1898, o Presidente Eisenhower estava a favor de uma intervenção armada para impedir o triunfo de Fidel Castro. Perguntou se o Departamento de Defesa tinha pensado em uma “ação militar que poderia ser necessária em Cuba”. Seus assessores tiveram êxito em dissuadi-lo.
29.  Assim, a hostilidade dos Estados Unidos para com a Revolução Cubana não tem nada a ver com o contexto da Guerra Fria. Começou antes de Fidel Castro chegar ao poder, antes da aliança com Moscou, em maio de 1960, e continuou depois de desaparição do bloco soviético em 1991.
30.  No dia primeiro de janeiro de 1959, cinco anos, cinco meses e cinco dias depois do ataque ao quartel Moncada no dia 26 de julho de 1953, a Revolução Cubana triunfou.

31.  Em janeiro de 1959, os Estados Unidos acolheram com os braços abertos os partidários do antigo regime, incluindo os criminosos de guerra, que haviam roubado 424 milhões de dólares do Tesouro cubano.
32.  Desde o começo, a Revolução Cubana teve de edificar seu projeto de sociedade em um contexto de estado de sítio permanente, frente à crescente hostilidade dos Estados Unidos. Desde 1959, Cuba nunca desfrutou de um clima de paz para construir seu futuro. Em abril de 1961, Cuba teve de enfrentar a invasão armada da Baía dos Porcos organizada pela CIA, e em outubro de 1962, a ilha foi ameaçada de desintegração nucelar durante a crise dos mísseis.
33.  Desde 1959, os Estados Unidos, decididos a derrotar Fidel Castro, deram início a uma campanha de terrorismo contra Cuba com mais de 6 mil atentados, que custaram a vida de 3478  civis e incapacitaram 2099 pessoas. Os danos materiais são avaliados em vários bilhões de dólares e Cuba teve de gastar somas astronômicas em sua segurança nacional, o que limitou o desenvolvimento dos programas sociais. O próprio líder da Revolução foi vítima de 637 tentativas de assassinato.
34.  Desde 1960, Washington impõe sanções econômicas sumariamente severas, ilegais de acordo com o Direito Internacional, que afetam as categorias mais vulneráveis da população, ou seja, as mulheres, as crianças e os idosos. Este estado de sítio, condenado pela imensa maioria da comunidade internacional (188 países de 192), constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento da ilha, que a Cuba custou mais de um bilhão de dólares.
35.  Apesar de todos esses obstáculos, a Revolução Cubana é um inegável êxito social. Ao dar prioridade aos mais desfavorecidos com a reforma agrária e com a reforma urbana, ao erradicar o analfabetismo, ao desenvolver a educação, a saúde, a cultura e o esporte, Cuba criou a sociedade mais igualitária do continente e do Terceiro Mundo.
36.  De acordo com a UNESCO, Cuba tem a mais baixa taxa de analfabetismo e a mais alta taxa de escolarização da América Latina. A organização das Nações Unidas nota que “a educação tem sido prioridade em Cuba há [mais de] 40 anos. É uma verdadeira sociedade de educação”. Seu relatório sobre a educação em 13 países da América Latina classifica Cuba como primeira em todas as disciplinas. De acordo com a UNESCO, Cuba é a nação do mundo que usa a maior parte de seu orçamento em educação, cerca de 13% do PIB.
37.  Cuba tem uma taxa de mortalidade infantil de 4,6 por mil, ou seja, a mais baixa do continente americano, mais baixa que a do Canadá ou a dos Estados Unidos.
38.  Cuba é a nação que tem o maior número de médicos per capita do mundo. Segundo o New England Journal of Medicine, a revista médica mais prestigiada do planeta, “o sistema de saúde [de Cuba] resolveu problemas que o nosso [o dos Estados Unidos] não conseguiu resolver”. A revista destaca que “Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante que os Estados Unidos”.
39.  Segundo a UNICEF, “Cuba é um exemplo na proteção da infância” e um “paraíso para a infância na América Latina”, e enfatiza que Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que erradicou a desnutrição infantil.
40.  De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que se encontra entre as dez nações do mundo com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano sobre os três critérios: expectativa de vida, educação e nível de vida, durante a última década.

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41.  A Revolução Cubana fez da solidariedade internacional um pilar essencial de sua política exterior. Cuba acolhe dezenas de milhares de estudantes procedentes de países pobres, lhes oferece formação universitária gratuita de alto nível e se encarrega de todos os gastos. A Escola Latino-americana de Medicina de Havana é uma das mais famosas do continente americano e formou vários milhares de profissionais de saúde procedentes de mais de 123 países.
42.  Desde 1963 e da primeira missão internacionalista na Argélia, cerca de 132 mil médicos  cubanos e outros funcionários de saúde trabalharam voluntariamente em 102 países. Atualmente, 38.868 médicos colaboradores, entre eles 15.407 médicos, oferecem seus serviços em 66 nações do Terceiro Mundo.
43.  Graças à Operação Milagre lançada por Cuba em 2004, que consiste em operar gratuitamente populações pobres vítimas de doenças oculares, cerca de 2,5 milhões de pessoas de 28 países recuperaram a visão.
44.  O programa de alfabetização cubano “Sim, eu posso” (“Yo, sí puedo”), lançado em 2003, permitiu que 7 milhões de pessoas dos cinco continentes aprendessem a ler, escrever e somar.
45.  De acordo com a World Wild Fund for Nature (WWF), organização mais importante de defesa da natureza, Cuba é o único país do mundo que alcançou um desenvolvimento sustentável.
46.  Cuba desempenhou um papel chave na luta contra o apartheid, com a participação de 300 mil soldados em Angola entre 1975 e 1988 para enfrentar a agressão do exército suprematista sul-africano.  O elemento decisivo que pôs fim ao apartheid foi a abrupta derrota militar que as tropas cubanas infringiram ao exército sul-africano em Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, em janeiro de 1988. Em um discurso, Nelson Mandela rendeu homenagem a Cuba: “Sem a derrota infringida em Cuito Cuanavale, nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Canavale tornou possível que hoje eu possa estar aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África Austral!”.
47.  Ao contrário do que se diz, a Revolução Cubana teve quatro presidentes diferentes: Manuel Urrutia, de janeiro de 1959 a julho de 1959, e Osvaldo Dorticós, de julho de 1959 a janeiro de 1976, sob o antigo regime da Constituição de 1940, e Fidel Castro, de fevereiro de 1976 a julho de 2006, e Raúl Castro, desde 2006, depois da adoção da Constituição de 1976.
48.  A imprensa ocidental, propriedade de conglomerados econômicos e financeiros, vilipendia a Revolução Cubana por uma razão muito precisa que não tem nada a ver com a democracia ou os direitos humanos: o processo de transformação social iniciado em 1959 sacudiu a ordem das estruturas estabelecidas, levou a juízo o poder dos dominantes e propõe uma alternativa social onde os recursos são destinados à maioria e não à minoria.
49.  A principal conquista da Revolução é ter feito de Cuba uma nação soberana e independente.
50.  A Revolução Cubana, edificada por várias gerações de cubanos, possui todas as virtudes e defeitos da condição humana e nunca teve a pretensão de ser um modelo. Segue sendo, apesar das dificuldades, um símbolo de dignidade e resistência no mundo
 
Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba. Les médias face au défi de l’impartialité, Paris, Editions Estrella, 2013, com prólogo de Eduardo Galeano.

Impeachment de Dilma Rousseff é 'negação da democracia', diz jornal francês Libération

Impeachment de Dilma Rousseff é 'negação da democracia', diz jornal francês Libération

Para o periódico, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é 'estrategista maquiavélico' cujo afastamento não terá impacto sobre processo contra presidente brasileira
Em artigo publicado nesta sexta-feira (06/05), o jornal francês Libération classificou o processo de impeachment contra a presidente brasileira, Dilma Rousseff, como “negação da democracia”.
O texto, escrito pelo jornalista François-Xavier Gomes, comenta o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara dos Deputados, descrevendo o parlamentar como um “estrategista maquiavélico” e “carrasco de Dilma”.
“Infelizmente, o afastamento de Eduardo Cunha não significa o pontapé inicial de uma grande limpeza no sistema político brasileiro. Em primeiro lugar, o seu substituto na liderança da Câmara dos Deputados é um dos seus fieis escudeiros. Em segundo lugar, esta decisão não terá nenhum efeito sobre uma destituição [de Dilma Rousseff] que é uma negação da democracia”, escreve o jornalista.
Antônio Cruz / Agência Brasil

O vice-presidente brasileiro, Michel Temer, e o deputado Eduardo Cunha, ambos do PMDB, em foto de novembro de 2015

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Segundo o Libération, Cunha “ofereceu a cabeça da presidente” com o pretexto das pedaladas fiscais para preservar sua própria, “uma vez que suas manobras atrasaram o trabalho da Justiça sobre seus próprios supostos desvios de verbas. Ele teria escondido na Suíça pelo menos 5 milhões de dólares dos fundos desviados de empresa petrolífera estatal Petrobras”, lembra o jornal.
O periódico afirma que “tudo indica que o Senado irá se alinhar com o parecer dos deputados”, aprovando o processo de impeachment na próxima quarta-feira (11/05), e “a herdeira de Lula só terá de arrumar as malas e dar sua cadeira para o vice-presidente, Michel Temer, que também está sob investigações da Justiça”.
Libération lembra que Cunha, membro do mesmo partido de Temer, o PMDB, “tem um perfil evangélico e ultraconservador” e que “de acordo com pesquisas, 90% dos brasileiros têm uma má imagem” do deputado, “uma vez que ele encarna a corrupção e o nepotismo”.
O periódico francês, porém, afirma que pessoas como ele desempenham “um papel fundamental no jogo de alianças, essenciais para a formação de qualquer governo no Brasil”. O PMDB, continua o Libération, se aliou ao PT em troca de ministérios, “atraído pela perspectiva de alcançar o poder sem passar pelas urnas”.

Fonte: Opera Mundi

Campanha de Sanders criará geração de jovens socialistas, diz militante da esquerda dos EUA

Campanha de Sanders criará geração de jovens socialistas, diz militante da esquerda dos EUA

Para Dan La Botz, ex-membro do Partido Socialista dos EUA, Sanders e Trump estão ligados a movimentos surgidos nos últimos anos: o ultraconservador Tea Party, o Occupy Wall Street e o Black Lives Matter
Atualizada às 18:10
Militante socialista de longa data, Dan La Botz, doutor em História e professor da City University of New York, vem realizando uma série de viagens ao exterior para debater o fenômeno da pré-candidatura de Bernie Sanders nos Estados Unidos. 
Ex-membro do Partido Socialista dos EUA, ele relaciona as surpreendentes pré-campanhas de Sanders e de Donald Trump, pré-candidato pelo Partido Republicano, com movimentos surgidos nos últimos anos que mexeram com o imaginário social norte-americano, como o Tea Party, de ultradireita, o Ocuppy Wall Street, questionando o sistema político e econômico, e o Black Lives Matter, pautando a temática racial.
La Botz falou com Opera Mundi durante sua passagem pelo Brasil, onde realiza palestras no Rio de Janeiro, Vitória e Fortaleza.
Reprodução/Facebook

Campanha de Sanders está criando geração com pensamento socialista, diz Dan La Botz
Opera Mundi: Desde sua visão, como é possível que uma campanha como a de Bernie Sanders, que se declara socialista, possa ter essa expressão nos Estados Unidos?
Dan La Botz: Obviamente é algo completamente novo para os Estados Unidos. Há mais de 70 anos que a palavra socialismo, assim como comunismo, é um tabu, não se pode usar. Então de onde vem esse movimento político ao redor de Sanders? 
Eu acho que vem diretamente da crise de 2008, que causou um aumento tremendo do desemprego nos Estados Unidos. As estatísticas oficiais falam em 10%, mas sabemos que provavelmente seja o dobro, e maior ainda para os negros e outros grupos. Além disso, também houve crise das hipotecas, gente que perdeu sua casa, inquilinos perderam seus apartamentos. Isso causou grandes problemas nos Estados Unidos e causou uma reação.
A grande reação foi Ocuppy Wall Street, que tinha dois pontos centrais. Um era a crescente desigualdade nos Estados Unidos e outro era o papel do dinheiro na política, já que os ricos, as grandes corporações, os bancos, têm o controle do processo político, pois financiam as campanhas, candidatos e partidos.
Assim Ocuppy Wall Street mudou o discurso nacional, antes dominando pelo Tea Party, um movimento de ultradireita. Ocuppy mudou a mentalidade nacional no sentido de que havia que enfrentar o problema da desigualdade e da atuação das corporações no sistema político. Então, acho que Bernie Sanders representa uma expressão política de Ocuppy Wall Street, e não só desse movimento, mas também da enorme mudança de consciência.
OM: Por outro lado, há uma emergência de Donald Trump, outro candidato outsider, vindo de fora do sistema tradicional, mas com um discurso oposto. Isso mostra que o sistema político está decadente?
DLB: Muitos norte-americanos sentem que o atual sistema político não serve para a maioria das pessoas, mas têm diferentes versões. 
Eu acho que a raiz do movimento de Trump tem relação com as mudanças demográficas do país. Quer dizer, os Estados Unidos são um país historicamente dominado por brancos, embora sempre houvesse negros e hispânicos dentro do território nacional. Mas agora mais de um terço da população é de “gente de cor”, como dizem: negros, hispânicos, asiáticos, indígenas remanescentes.
Agência Efe

Trump chama a ressentimentos de classe branca média, diz militante do Partido Socialista
Imagine os trabalhadores qualificados nos Estados Unidos, que trabalhavam numa siderúrgica ou indústria automobilística. As sucessivas crises nas últimas décadas resultaram em fechamento de fábricas, perda dos trabalhos sindicalizados bem pagos. Imaginem também e homens e mulheres, principalmente homens, que têm ou tinham pequenos negócios, e que agora encontram dificuldades. 
Nos subúrbios brancos, esses dois grupos vivem juntos, compartilham a mesma visão. Há famílias em que o pai perdeu o trabalho e o filho não encontra trabalho. Vão buscar emprego e encontram competição de negros, hispânicos, mulheres e gays e lésbicas, grupos que também eram invisíveis.
Essa é a base demográfica e social para Trump, porque ele está chamando a seus ressentimentos quando fala em construir um muro entre Estados Unidos e México ou em excluir muçulmanos. Não o faz diretamente, mas implicitamente também se refere aos negros. Faz ataques misóginos às mulheres. Tudo isso é uma forma de chamar aos ressentimentos, a esta fúria, ao sentimento de frustração que há nessas camadas sociais.

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Trump está sendo muito criticado nos meios pelos meios, pelos políticos, mas não lhe importa. Ele sabe que praticamente já ganhou a nomeação do Partido Republicano [Trump virou o provável candidato do partido após as desistências de John Kasich e Ted Cruz]. Mas isso também é uma crise para os republicanos, pois está deixando mais estreita sua base social e popular. Latinos estão se registrando em massa para votar contra Trump. A comunidade negra, as mulheres, também. Por isso, ele representa um desastre para o partido.
OM: O que a candidatura de Sanders representa para a esquerda dos Estados Unidos?
DLB: A esquerda norte-americana, se falamos de uma esquerda socialista, é muito pequena. São pequenos grupos e divididos, se organizam ao redor de um programa, de um jornal, mas não tem muita influência. Há exceções, há grupos que trabalham nos sindicatos e tem uma base. Eu sou de um desses grupos que tem uma base, tentamos organizar movimentos democráticos dentro dos sindicatos, movimentos militantes para lutar pelos trabalhadores.
Mas o papel da esquerda é muito débil, não tem muita influência. Acho que a campanha de Sanders vai criar toda uma nova geração de jovens com pensamento socialista. Mas o que sempre falta nos Estados Unidos é alguma maneira de organizar esse movimento social, para que não desapareça. No momento, o grupo que tem maior chance de organizá-los é o Democratic Socialist of America (DAS), de linha mais social democrata.
O que Sanders está fazendo é excelente, tem um programa progressista, está dizendo que temos que ter educação gratuita, da escola ao doutorado, que deve haver também aumento do salário mínimo, que necessitamos cobertura de saúde para todos. Também fala abertamente de socialismo, mas o socialismo dele não é o meu socialismo. Entendo que o socialismo tem a ver com a coletivização dos bancos e corporações que tem que estar em propriedade pública.
Mas eu não acho que um marxista, um socialista, uma pessoa da esquerda, deve levantar a bandeira e dizer “eu tenho o programa”. O que deve acontecer é uma conversa sobre o futuro desse movimento, sobre o que é esse socialismo.
Bernie Sanders diz que necessitamos uma revolução política. Nesse momento, uma revolução política tem a ver com a mudança da forma de governo que temos, que é muito conservadora e impossibilita a participação de muitos setores da sociedade.
Vitor Taveira/Opera Mundi

La Botz: Muitos americanos sentem que o atual sistema político não serve para a maioria das pessoas
OM: O fato da campanha dele ser competitiva mesmo sendo feita sem apoio das grandes corporações também é algo que era inimaginável...
DLB: Isso é algo impressionante. Ele disse desde o princípio que não queria criar um fundo político cheio de dinheiro dos bancos, companhias petroleiras e outros. Que queria o apoio do povo. E as pessoas estão ajudando numa média de 27 dólares cada uma. E ele teve milhões dessas doações, além de contribuições de sindicatos. Talvez tenha arrecadado um pouco menos que Hilary ou Trump, mas num nível próximo. E critica muito Hilary por dar preferência ao financiamento de grandes corporações.
OM: Ainda é possível que Sanders seja candidato democrata?
DLB: Matematicamente, eu acho que é possível. Mas ainda que Bernie ganhe a maioria dos delegados das prévias, Hilary tem os superdelegados, que não foram eleitos por ninguém, que são da maquinária política do Partido Democrata e que dariam a vitória a ela.
Há que pensar que isso põe Hilary Clinton numa posição muito negativa, de ser candidata à presidência graças a delegados não eleitos. 
OM: Há possibilidade de Sanders lançar candidatura própria independente?
DLB: Acho pouco provável. Se ele fizesse campanha como independente, fora do Partido Democrata, seria imediatamente acusado de ajudar Trump a chegar à presidência, porque tiraria votos de Hilary. Então o acusariam de ajudar o fascismo a chegar à Casa Branca.
OM: E o que aconteceria com seus seguidores?
DLB: Acho que os seguidores de Sanders vão votar em Hilary. Para eles, parece lógico. É um problema essa lógica do “menos mal”, mas acho que, nessa eleição, não vai ser possível mudar. Para mim, o mais importante é que tenhamos uma visão a longo prazo, porque essa gente jovem e os sindicalistas que apoiam Bernie vão ter outra consciência e temos que pensar que, nos próximos anos, vamos ter outras erupções, outros vulcões como Ocuppy Wall Street, Black Lives Matter. Mas podem ser ainda maiores, porque já temos uma juventude consciente.

Fonte: Opera Mundi