quarta-feira, 11 de maio de 2016

Temer não será presidente, sempre será um golpista!

Temer não será presidente, sempre será um golpista!

Governos ilegítimos não produzem estabilidade, e dão origem a legítima desobediência civil. Temer não será presidente, sempre será um golpista.


Maria do Rosário Nunes*
VPR
Em 2009 assistimos com espanto e uma série de questionamentos, o desenrolar dos fatos que culminaram com a prisão e afastamento do presidente de Honduras. Eleito em 2006, Manuel Zelaya foi preso sob a vaga alegação de desobediência constitucional, poucas horas antes da realização de uma consulta popular não vinculante sobre a necessidade ou não de realizar uma reforma da Constituição hondurenha. Zelaya foi levado para a Costa Rica, e apenas em 2011 conseguiu retornar ao seu país. Nenhuma nação reconheceu o governo liderado por Roberto Micheletti, o Brasil recebeu o presidente deposto na Embaixada de Honduras, mas o golpe teve continuidade sem grandes enfrentamentos e pressões internacionais. O Paraguai não tardou a chegar. 
 
Em junho de 2012 o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, foi destituído. Após um processo que durou dois dias, e precisou apenas dos votos de 76 deputados e 39 senadores conspiradores para se consumar, o presidente progressista eleito foi apartado de seu cargo. O Paraguai foi afastado do Mercosul, mas aos poucos a normalidade retornou às relações no Cone Sul, como se um golpe não tivesse sido consumado contra nossos vizinhos.
 
Se nas décadas de 1960 e 1970 os golpes na América Latina por vezes tinham tanques nas ruas, - nem todos se deram desta maneira -, os do século XXI são de outra natureza. Não menos nocivos, ilegítimos e articulados internacionalmente, estes se revestem de roupagem legalista. Liderados por civis, apelam a formatos constitucionais, mantendo uma fachada institucional.
 
A intentona fracassada promovida contra Hugo Chávez na Venezuela em 2002, tratou-se de um tipo de golpe intermediário, distinto dos de outrora, mas também dos que viriam. Chávez foi preso, mas os militares não tomaram as ruas, o governo do golpista Carmona foi rapidamente reconhecido por Estados Unidos e Espanha, mas suas ações, dentre essas: a dissolução do Parlamento e do Supremo Tribunal Federal, e a eliminação de 48 leis, escancararam o golpe internacionalmente e deram força para os partidários do governo eleito retomarem o poder. 

 
Em 11 de maio de 2016 um novo capítulo dessa vergonhosa história foi escrito, sabemos, porém, que tal como ocorreu com o povo venezuelano, não nos faltará a resistência que é também característica da nossa gente. 
 
Neste triste dia a presidenta eleita pelo voto popular sofreu o segundo ato de um processo golpista, foi afastada de suas funções pelo Senado Federal. Sem ter cometido crime de responsabilidade. Dilma Rousseff, que na sua juventude resistiu e lutou contra a ditadura civil-militar de 1964, poderá ser golpeada por uma ação política-jurídica-midiática que tem como objetivo, tal como nos outros casos aqui citados, apartar do poder aqueles e aquelas que incomodam a ordem instituída. 
 
Chávez significou o fim de quatro décadas do pacto de revezamento no poder entre os partidos do status quo na Venezuela; Lugo encerrou um período de domínio de 61 anos da direita paraguaia representada pelo partido Colorado; Zelaya candidato eleito pelo conservador Partido Liberal de Honduras, aderiu à ALBA, e promoveu reformas econômicas e sociais consideradas de esquerda, levando-o a perder o apoio da elite hondurenha; Lula e Dilma juntos significaram 13 anos de governo da esquerda, após 500 anos de domínio das elites que nos colonizaram, escravizaram, e espoliaram ao longo de toda a nossa história.
 
Os governos progressistas iniciados a partir da vitória do Partido dos Trabalhadores em 2002, tiraram milhões da miséria; colocaram os filhos e filhas da classe trabalhadora, de todas as cores, todas as etnias, para dividir as salas de aulas com os que durante séculos foram os únicos a ocupar os bancos das universidades; deram sobretudo dignidade e oportunidade para o povo brasileiro, e mesmo sem terem logrado em fazer as reformas estruturais tão necessárias, incomodaram o andar de cima. 
 
Após a quarta vitória eleitoral seguida, e diante do aprofundamento dos efeitos da crise econômica internacional, as aves de rapina de plantão se articularam para inviabilizar o governo Dilma. Sabedores dos nítidos limites da política em que todos ganham, pobres e ricos, em tempos de escassez, optaram por golpear a democracia a correr o risco de perder parte dos seus privilégios.      
Tal como em todos os casos que fizemos referência, o afastamento de Dilma não se deu por corrupção, endêmica em nosso país, mas da qual a presidenta jamais foi acusada, ou qualquer outro crime comprovadamente cometido por ela. Trata-se de uma conspiração que envolve o capital financeiro internacional, o empresariado nacional, ruralistas, a mídia hegemônica e oligopolizada, e as classes mais abastadas, inconformadas com a ascensão social de muitos que lhe tirou o quase sádico prazer da distinção. Setores amplamente representados em um Congresso Nacional cuja composição responde mais aos donos das cifras recebidas em suas campanhas do que ao povo que deveriam representar.
 
A ausência de pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre o afastamento de Eduardo Cunha antes da sessão da Câmara dos Deputados que aprovou a admissibilidade do processo de impeachment, e o posicionamento de Teori Zavascki, durante o andamento da sessão que debateu a abertura do processo de impedimento no Senado, tratam-se de duas faces de um mesmo golpe, de uma tentativa de legitimá-lo. Tal apelo a uma legalidade profundamente ideológica disfarçada de imparcialidade, só teria sucesso caso não existissem setores organizados que disputassem essa narrativa, mas nós existimos e resistimos.
 
Não é difícil percebermos a repressão que já está em curso e a criminalização dos movimentos sociais, hoje tendo origem em governos estaduais defensores do golpismo, mas há também uma resposta das ruas, há luta. Da Câmara dos Deputados ecoaremos a voz dos movimentos sociais, da resistência contra o golpismo, seguiremos ao lado daqueles e daquelas que lutarão para o reestabelecimento da democracia. 
 
Governos ilegítimos não produzem estabilidade, e dão origem a legítima desobediência civil. Temer não será presidente, sempre será um golpista. Caso o golpe seja consumado, não reconheceremos um governo fruto de usurpação e que tem como objetivo usurpar também os direitos e conquistas do povo brasileiro. 
 
Desde já, mesmo neste momento em que o último ato do golpe não foi consumado, manifesto meu reconhecimento ao valor e generosidade dos movimentos sociais e suas lideranças, que em que pesem as críticas ao governo em vários aspectos, não vacilaram um minuto em defender o Estado Democrático de Direito. Demonstram assim o apego do povo à democracia, e sublinham a falta de caráter das elites políticas e econômicas tradicionais no Brasil.
 
Maria do Rosário Nunes é Deputada Federal (PT/RS) *


Créditos da foto: VPR

'O Judiciário brasileiro é seletivo contra o PT'

'O Judiciário brasileiro é seletivo contra o PT'

Raúl Zaffaroni, ex-ministro do Supremo argentino e juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, aponta arbitrariedades na Lava Jato e em tribunais


por Thales Schmidt - Calle2
Agência Brasil
Raúl Zaffaroni é advogado e um dos maiores especialistas em direito penal do mundo. Foi durante mais de 10 anos ministro do Supremo argentino e hoje é juiz na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesta terça (10), o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, após se reunir com Dilma e Lewandowski (STF), anunciou a intenção de consultar a Corte Interamericana sobre a legalidade do processo de impeachment, para encontrar respostas jurídicas mais contundentes, já que as que obteve até o momento foram consideradas insuficientes.
 
O perfil de Zaffaroni na Revista Anfibia conta que, quando foi convidado, em 2003, pelo então presidente Néstor Kirchner para o Supremo, ficou incrédulo e lhe perguntou: mas você me conhece? Ele tem 32 doutoradoshonoris causa de diversas universidades ao redor do mundo, vários livros publicados em português e é uma referência para os advogados brasileiros. O magistrado não se esquiva de marcar suas opiniões − e elas são muitas.
 
Em entrevista exclusiva para a Calle2, por e-mail, o juiz afirma que o Judiciário brasileiro é burocrático e seletivo contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e que a comparação entre a Lava Jato e a Operação Mãos Limpas – responsável por investigar casos de corrupção na Itália nos anos 1990 e fonte de inspiração de Sérgio Moro – é errada. “A operação italiana Mãos Limpas foi contra todos os setores da política italiana, a Lava Jato é contra um só setor.” Para ele, vivemos um “golpe de estado institucional, de estilo novo”.
 
A decisão de Moro grampear e divulgar conversas entre o ex-presidente Lula e seu advogado também foi alvo de críticas por parte do juiz: “A comunicação com o advogado não pode ser interceptada por ninguém, muito menos ser usada como prova. Que garantias vamos ter se não se pode falar com sigilo nem sequer com o próprio advogado?”. Zaffaroni diz ainda que a Lava Jato abusa da prisão preventiva e critica o uso da delação premiada.

 
Ele analisa ainda que o governo de Mauricio Macri enfrentará “sérios problemas” e afirma que o político do Propuesta Republicana (PRO) governa por decretos-leis, “como os militares”. “Esses meses criaram uma transferência de riqueza muito preocupante”, diz Zaffaroni.

Há uma grande discussão no Brasil se as chamadas “pedaladas fiscais” do governo de Dilma Rousseff são um crime de responsabilidade e suficientes para afastar a presidente. Na sua leitura, houve crime de responsabilidade?
 
Não, não houve crime de responsabilidade, porque outros presidentes fizeram a mesma coisa e o Tribunal de Contas não apontou erro. O Tribunal de Contas pode mudar seu critério, mas ao menos, se ele o faz, deve deixar à margem a responsabilidade da presidente, pois a sua mesma conduta anterior a teria feito incorrer em erros.

O Brasil assiste um processo de impeachment que respeita todos os requisitos legais ou trata-se de um golpe disfarçado?
 
É um golpe de Estado institucional, de estilo novo, como corresponde à modalidade da onda de colonialismo tardio que estamos vivendo na região. Já não nos ocupam com as forças armadas nem com as oligarquias locais, mas entram pelos defeitos institucionais das nossas democracias. Fundamentalmente, dois deles: o monopólio dos meios de comunicação e a estrutura burocrática e seletiva do poder Judiciário.

De que maneira o Judiciário brasileiro é seletivo?
 
Vejo que o Judiciário brasileiro é seletivo contra o PT.

O que acha do provável próximo presidente do Brasil, Michel Temer, do PMDB?
 
Não sei, mas temo que o Brasil entre em um período de difícil governabilidade, espero que isso não aconteça, pelo bem de todos, inclusive de nós. O Brasil é, pela sua dimensão, população e por sua economia, a peça chave da nossa regionalização, e se uma ingovernabilidade debilita ou desativa a regionalização, todos os sul-americanos estão perdidos no mundo atual, onde sem a regionalização os interesses do capital financeiro transnacional passará por cima de nós.

Muitos juristas criticam a operação Lava Jato dizendo que há um abuso da prisão preventiva como forma de forçar delações premiadas. Na sua leitura, estão sendo respeitadas todas as garantias constitucionais dos acusados?
 
Sem dúvida que o uso arbitrário da prisão preventiva é uma extorsão. A prisão preventiva é a quadratura do círculo do processo penal, ainda mais quando se manipula arbitrariamente [a prisão preventiva], à margem de razões legais e jurisprudências que a limitam. É óbvio que há uma extorsão quando se diz “se fala eu te solto, se não fala te mantenho preso”. Isso é o mesmo de quando a Inquisição torturava as mulheres para que falassem o nome de outra possível “bruxa”, até que a mulher nomeava qualquer uma: é uma forma de assegurar a clientela.

O juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, escreveu em artigo de 2004 sobre a operação Mãos Limpas que a parceria com a mídia é indispensável para combater a corrupção. Dessa maneira, praticamente todas as informações envolvendo a Lava Jato são vazadas à imprensa. Qual é a avaliação do senhor sobre essa prática?
 
A operação italiana Mãos Limpas foi contra todos os setores da política italiana, a Lava Jato é contra um só setor. Isso não nem nada a ver com a Mãos Limpas, é diretamente uma partidarização judicial, algo totalmente diferente.

Uma das ações mais polêmicas de Moro foi a divulgação de grampos de Lula conversando com seu advogado e até mesmo com Dilma Rousseff. Moro foi longe demais divulgando esses grampos?
 
A comunicação com o advogado não pode ser interceptada por ninguém, muito menos ser usada como prova. Que garantias vamos ter se não se pode falar com sigilo nem sequer com o próprio advogado? Como se pode interceptar comunicações privadas porque um juiz tem essa vontade e publicizar isso? O que é isso? Stalinismo? O “Grande Irmão” controla tudo? Estamos em uma democracia e em uma República ou em um Estado totalitário?

Qual o papel da imprensa na atual crise política brasileira?
 
Fundamental, básico. Os monopólios midiáticos latino-americanos, por seu volume, são parte de corporações transnacionais e, portanto, dos interesses do capital financeiro transnacional. Enquanto continuarmos a ter monopólios midiáticos, que nenhum país desenvolvido tolera, não teremos democracia, eles inventam a realidade, a criam. Agora não é Hitler, nem Mussolini ou Stalin os que controlam os meios de comunicação e fazem censura, são as corporações transnacionais e seus interesses mesquinhos.

Em entrevistas anteriores, o senhor fez duras críticas ao uso da delação premiada. Ela não é um importante recurso nos crimes do colarinho branco?
 
A delação premiada é como a tortura: dá lugar a quem, para resolver sua situação, fale qualquer coisa. Que valor tem o que diz uma pessoa que sofre extorsão? Se isso é prova de culpa, realmente, voltamos à Idade Média, acabou o Estado de Direito, naufragaram todas as garantias. Não há crime do colarinho branco que não se possa investigar com papéis, a marca fica, o dinheiro sujo tem rotas que se podem investigar sem maiores dificuldades, não é necessário recorrer à delação. Isto é como fingir que não se pode investigar e punir sem tortura.

Qual avaliação o senhor faz dos primeiros meses de governo de Mauricio Macri? O que podemos esperar?
 
Acredito que esses meses criaram uma transferência de riqueza muito preocupante. A diminuição dos impostos do agronegócio e, sobretudo, da mineração, as demissões em massa na administração pública, a desarticulação da pesquisa e tecnologia em Bariloche, a redução dos orçamentos universitários, a inflação e a depreciação de salários; além do caos institucional, a manipulação do Congresso, uma Corte Suprema de Justiça reduzida a três ministros, tudo isso anuncia um panorama de dificuldades que é muito preocupante. Além da pretensão de fechar todo espaço de crítica ao perseguir jornalistas opositores, o discurso que atribui todos os males ao governo anterior, a acusação judicial contra Cristina Kirchner, a prisão de Milagro Sala. Enfim, acredito que vamos ter sérios problemas.

Macri está abusando dos DNU’s, os decretos de necessidade e urgência, como os utilizados para alterar a Lei de Serviços e Comunicação Audiovisual?
 
Sim. Macri faz o que quer. Não se trata de abusar, mas sim de governar por decretos-leis, como os governos militares: um decreto de necessidade e urgência sem urgência é um simples decreto-lei.
 
Qual sua leitura sobre a prisão de Milagro Sala [dirigente política e social argentina, líder da Organización Barrial Túpac Amaru, presa no início do ano acusada de causar tumulto]?
 
É uma vingança pessoal do governador da província de Jujuy [Gerardo Morales, aliado de Macri] e, também, uma arbitrariedade. Se Milagro usou recursos de maneira desordenada, é um delito execrável. O resto são invenções de uma Justiça da província manipulada descaradamente pelo governo de Jujuy, que parece um feudo. Em uma sessão noturna do Legislativo, ampliou-se o Superior Tribunal da província e, no dia seguinte, dois dos deputados que votaram pela ampliação foram nomeados juízes desse tribunal. Mais claro e descarado impossível. Milagro é deputada do Parlasul (Parlamento do Mercosul) e tem direito a foros, pelo menos para o translado para integrar-se, mas eles não são reconhecidos, precisamente porque ela está presa.


Créditos da foto: Agência Brasil
 
Fonte: Carta Maior

A República dos Psicopatas (Alemanha, 1933 - Brasil, 2016)


A República dos Psicopatas (Alemanha, 1933 - Brasil, 2016)

Um tema das revoltas de 1968 na Alemanha foi a pergunta: 'o que fizeram durante o nazismo?' No Brasil em breve perguntaremos 'onde você estava em 2016?'.


Flavio Aguiar, de Berlim
Mídia Ninja
Claro está que nem a Alemanha de 1933, nem a Itália de 1922, nem o Portugal salazarista ou a Espanha franquista se equiparam ao Brasil de 2016. Mas se pensarmos nas estruturas do que está acontecendo, sim, se equiparam, por analogia, no que toca às dinâmicas psíquicas em jogo.
 
No Brasil de hoje domina a desfaçatez escancarada dos golpistas "de cima": Parlamento apalermado, dominado por uma quadrilha de rufiões, liderada por um psicopata, Executivo nas mãos agora de um "sabonete", como a gente dizia, e seboso, ainda por cima; um Judiciário ocupado por ousados violadores de qualquer lei ou timoratos defensores das próprias rotas togas, não mais que isto; promotores públicos que exercem a magistratura impunemente em proveito próprio e em defesa de privilégios políticos, como os coronéis de 54 e os generais de 64; delegados e policiais federais que exercem o poder do distintivo para intimidar os "conduzidos coercitivamente"; a mídia marrom, que se intitula "grande", como sempre insuflando nos seus leitores, apesar de serem cada vez menos, o ódio, o preconceito, a mentira, baseada na ideia de que se a mentira é suficientemente repetida ela vira verdade e, se não engana o tempo todo, engana por tempo suficiente para patrocinar os golpes que ela deseja – brancos ou sanguinários.
 
Não é isso que cola os anos de hoje no Brasil à Alemanha de 1933 e anos seguintes. Pode até aproximar. O que cola, mesmo, são os processos que isso recolhe e deflagra. Inclusive os psíquicos.
 
A prática disseminada na Operação Lava Jato e seus vazamentos alta e baixamente seletivos para a mídia galopeira do golpe, das "delações premiadas", induziu fortemente uma prática disseminada entre a direita sequiosa de ter motivos para se livrar das políticas de favorecimento do povo e da afirmação da soberania popular e nacional: as "agressões premiadas".

 
Direitistas de todos os matizes, estimulados por jornalistas criminosos, passaram a estigmatizar o que viam como "objetos de descarrego": a cor vermelha, os petistas, os que criticam a ditadura de 64, de repente comodamente reunidos debaixo do rótulo: "corruptos".  Mais ou menos como se fazia com as bruxas de antanho ou os judeus de menos antigamente.
 
O raciocínio é mais ou menos assim: a mídia diz que alguns petistas foram corruptos; então, todo o petista é corrupto e todo o corrupto é petista; se não é, não interessa, porque nós precisamos construir um bode expiatório visível, porque a corrupção é algo mais difícil de combater do que os petistas, que a gente pode cercar na rua, bater neles, insulta-los, a partir da cor vermelha, ou de seu retrato.
 
E a gente pode fazer tudo com eles: se recusar a atender seus filhos, se formos médicos, insulta-los nas ruas, bater nos seus cachorros, expulsá-los de hospitais, de restaurantes, etc. Por que essa agressão é "premiada"? Porque ela é impune. Com "eles", você pode fazer o que quiser, nada vai acontecer.
 
Pode extravasar, pode liberar seu ódio, seus preconceitos, tudo. Substitua as palavras "petista", "esquerdista" etc., por "judeu", "cigano", "homossexual", "social-democrata", "liberal" "comunista" etc. – a estrutura é a mesma. Só que hoje, como na Alemanha de 1933, ninguém está pensando no etc. Vamos a isso.
 
Há um romance que deveria ser lido nestes momentos. Infelizmente, não há tradução para o português que eu conheça. Em alemão, ele se chama Jeder starbt für sich allein, que pode ser traduzido mais ou menos por "Cada um morre sozinho e por si", e é de um autor chamado Hans Fallada, pseudônimo de Rudolf Wilhelm Friedrich Ditzen (1893-1947). O autor teve outro romance traduzido, grande sucesso nas décadas de 1930 e 1940, Kleiner Mann - was nun?, que Erico Verissimo, o tradutor, converteu em E agora, seu moço?, em 1937, e que agora tem uma nova edição, E agora, Zé Ninguém?
 
Aquele romance ganhou dois nomes em diferentes versões para o inglês: Alone in Berlin e Every Man Dies Alone. É baseado na história real de um casal que, durante a Segunda Guerra, se dedicou a escrever cartões postais antinazistas e a distribuí-los por prédios e ruas de Berlim, meio ao acaso.
 
Não eram militantes políticos. O que aconteceu a eles foi o trauma provocado pela morte do irmão da mulher no front de batalha. Escreviam, sobretudo, que Hitler mentia, o regime era opressivo, o nazismo era insuportável. Foram pegos, condenados à morte, executados. Depois da guerra, Fallada recebeu os informes sobre o caso e escreveu o romance em 24 dias, antes de morrer de causas naturais.
 
No romance, o casal original (Otto e Elise Hampfel) se torna Otto e Anne Quangel, e o morto passa a ser seu filho. Ao seu lado, enfrentamos o mundo nazista, feito tanto da operística e bufa tragicidade de seus líderes (no Brasil de hoje diríamos, comicidade trágica) quanto da pequena mesquinhez das injustiças cotidianas: as denúncias, as agressões contra judeus, a soberba dos que acham donos do espaço, e assim por diante, tudo disfarçado ou pintado com as cores de se acreditar na "limpeza da pátria", mais ou menos como hoje.
 
Um detalhe importante é que os cartões do casal são, na verdade, inócuos. Deixados em prédios privados ou públicos, escritórios, repartições, são entregues à Gestapo assim que descobertos. Motivo: quem os descobre entra em pânico, pela simples posse deles, e os "descarrega" de imediato para a polícia política. Não basta, por exemplo, destruí-los: é preciso dar mostra de "bom comportamento". Graças ao que já se chamou de "medo ininterrupto".
 
Mas tem mais. O título do romance só se explicita ao se considerar que, ao lado do casal Quangel, o outro protagonista é o policial da Gestapo encarregado de elucidar o caso: o comissário Escherich, um investigador civil que foi parar na Geheime Staatspolizei, mais conhecida por aquela sigla. Até mesmo o número de páginas da edição alemã é equânime: 50% dedicadas ao casal e seu mundo, e 50% ao comissário.
 
Escherich é um policial metódico. Quer descobrir os autores do "crime" através do método e da investigação sistemática. Mas os seus chefes não. Querem ação, resultados imediatos, pancadaria eventualmente. Isso cria muitas tensões para ele. Diga-se de passagem, que ele não tem a menor simpatia pelos criminosos que investiga. E tem simpatia por sua função, seu método, seu caráter de policial "correto". Despreza a tortura, como "ineficaz". Mas termina até se valendo dela, não para obter informações, mas para satisfazer os chefes e continuar no caso.
 
Com tal personagem, Fallada constrói uma fina paródia de um romance policial. O detetive é, na verdade, o criminoso, o agente do crime que vai ser cometido. Os supostos "criminosos" são, na verdade, as vítimas, e o que vamos assistir é um "assassinato judicial", perfeitamente dentro da lei, da ordem e dos bons costumes.
 
Mais ou menos o que está acontecendo hoje no Brasil com a presidenta. A inocente vai para a fogueira, estilo Joana D’Arc (capa do Estadão, que acho que nem se deu conta da canonização que promoveu), a bandidagem é que a condena "legalmente". Além disto, o casal é que é descrito, naquele mundo, como "anormal", "psicótico", "ameaçador", desequilibrado, por desafiar os poderes vigentes ou por denegar seus ditames.
 
Há ainda algo mais profundo, que vemos no destino do policial, ao lado dos protagonistas da rebeldia. Para executar suas funções, ele precisa construir uma carapaça extremamente rígida que o proteja da realidade. No seu caso, isso nem se transforma em ódio, mas em desprezo em relação a seus objetos, os investigados. Ele precisa construir uma negação sistemática da realidade, chamar de crime o que não é crime, chamar de loucura o que é razão, chamar de nada o que é tudo, a humanidade dos supostos "criminosos".
 
Algo parecido acontece hoje com os que negam a existência de um golpe. Esgrimem uma má-fé que vai terminar por engoli-los. Uma parte vai esgrimir essa má-fé até o fim da vida, inutilizando sua capacidade de pensar, mais ou menos como acontece com os hoje "saudosos de 64". Outra parte vai cair na ressaca, quando as tragédias começarem a ser vomitadas nas suas portas, inutilizando seu pensamento também por longo tempo. Qual será o percentual de ambas as partes? Impossível saber.
 
Escherich confronta seu destino em dois capítulos. No primeiro, é brutalizado por seus superiores por sua "ineficiência". Apanha, rola escada abaixo, sangra. Para continuar no caso, desce mais um degrau na escala humana, denunciando um inocente como culpado, só para se manter no caso, que quer elucidar.
 
No segundo, que é o verdadeiramente demolidor, confronta-se com o verdadeiro "culpado", Otto Quangel. O reconhecimento do quanto Quangel (que está longe de ser um herói, é muito mais um anti-herói) manteve sua humanidade intacta é insuportável para ele, e a constatação de que toda a negação que construiu em relação à realidade externa terminou por atingir sua realidade interna, corroendo-a e destruindo-a. E ele se mata. Seus superiores o consideram um mero "desertor".
 
Claro: trata-se de um romance. O policial real, que investigou o caso e descobriu o casal, chamado Püschel, sobreviveu à guerra, mas depois dela desapareceu. Confinou-se a um anonimato. O que pode ter sido uma condenação pior do que o destino de Escherich, como personagem.
 
Um outro aspecto a considerar está naquilo que chamei de "assassinato judicial". Era o método nazista, de Roland Freisler, mas não só. Era também o do estalinista Andrei Vychinsky, e o de Joseph McCarthy. Consiste em fazer uma usurpação de papeis, em que o "camisa nera" de Curitiba, os promotores do Ministério Público, o Procurador Geral da República e até mesmo a PF se tornaram mestres, senão doutores. Assim: o juiz passa a ser promotor também; o promotor passa a ser juiz; o Procurador passa a ser tudo isto junto, e os policiais mais ainda. O parlamentar passa a ser carrasco antes do julgamento.
 
A partir daí qualquer um em mesa de restaurante, saguão de hospital ou meio da rua se arvora a ser tudo também, juiz, policial, promotor, júri, tudo. E se dá o direito de vaiar, expulsar, bater… ou prender.
Querem ver?
 
Examinemos o comportamento do comandante da TAM que ontem (10) foi confrontado por manifestantes antigolpe de um lado, e uma reclamação por parte de dois deputados golpistas no voo, de outro. Que fez ele? Liberou os deputados e deteve as manifestantes até a chegada da PF, que as re-deteve por mais uma hora. Ou seja, ele julgou o caso, e deu sentença. Libertou as "vítimas", na verdade os culpados, deteve as "infratoras", na verdade as vítimas de um estupro legal de seus direitos.
 
Em conjunto, esse processo de negação da realidade se volta primeiro para fora. Nega a realidade e a humanidade do outro. Mas ele tem um preço para dentro, que termina por ser cobrado. O psicopata clássico é o que volta ao local do crime porque acha que não foi ele que cometeu o crime ou que o que fez não foi um crime, embora dentro dele bruxuleie uma culpa que o arrasta à autocondenação.
 
Este psicopata político do século 21 brasileiro está assassinando o país que lhe deu berço e não vai ter para onde voltar. Não sei qual destino antever, se o de Escherich ou o de Püschel. Que nenhum deles lhe seja leve.
 
Aqui na Alemanha houve muitos Püschel. Tanto que um dos temas das revoltas de 1968 foi a pergunta: "Papai, mamãe, vovô, vovó, tio, tia, onde estavam e o que fizeram durante o nazismo?" Uma capa de silêncio envolvia tudo.
 
Da mesma forma haverá a pergunta: onde vocês estavam em 2016? E ela vai vir muito mais rápido. Talvez no ano que vem.


Créditos da foto: Mídia Ninja
 
Fonte: Carta Maior

O que vi nos 20 dias que passei em um grupo de apoiadores de Jair Bolsonaro no WhatsApp

O que vi nos 20 dias que passei em um grupo de apoiadores de Jair Bolsonaro no WhatsApp

Eles são jovens, antimídia, odeiam a Rede Globo e Reinaldo Azevedo (considerado comunista); defendem as Forças Armadas, o torturador Coronel Brilhante Ustra e se autodeclaram fascistas, xenófobos e homofóbicos; veja conversas
Sexta-feira, 15 de abril, 1h da tarde. Jair Bolsonaro acena de dentro do Rolls-Royce de cerimônias usado para a posse dos presidentes brasileiros. O político do PSC (Partido Social Cristão) veste a faixa presidencial sobre o terno preto e usa óculos Thug Life (aqueles que cobrem os olhos de quem supostamente acaba de “mitar” na internet). Sob a montagem, uma legenda sugere: “Se você acredita que isso se tornará realidade, deixe o seu amém”.

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Em poucos segundos, améns vindos de vários cantos do país tomam a tela. Emojis com mãos ao alto ou rezando, além de carinhas felizes com lágrimas e corações coloridos aparecem ao lado das exaltações religiosas.
Criado em outubro de 2015, o grupo Direitas Já tem cerca de 170 membros de todas as regiões do Brasil. A maioria dos integrantes é jovem, na faixa dos 18 aos 30 anos. Entre os números que constam em sua lista de membros estão os de Eduardo Bolsonaro e de seu pai, Jair.
Nenhum dos dois é ativo. Bolsonaro pai nada publica ou lê. Já o filho (ou sua equipe) às vezes joga vídeos contra o governo e a esquerda. Suas interações são recebidas com uma profusão de emojis de aplausos em apoio ao “Bolsokid”, como é carinhosamente apelidado pelos seguidores.
Um dos mais participativos do fórum, o cearense Janderson Guerra, 22, define o Direitas Já como uma reunião de “jovens, estudantes universitários de direita, conservadores e cristãos”.
Ascensão
Um breve contexto para quem sabiamente se escondeu numa caverna nos últimos dias: Jair Messias Bolsonaro é, segundo o último Datafolha, o candidato favorito para a Presidência em 2018 entre os 5% mais ricos do país. Num quadro geral, fica com 8% das intenções de voto. Traduzindo numa conta rápida: pelo menos 11 milhões de brasileiros se interessam de alguma maneira pelas ideias dele.
Disputando os holofotes com uma presidente apeada do poder, o tributo de Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra na Câmara no dia da votação do impeachment só fez crescer a fama do deputado e a de seu homenageado, inclusive internacionalmente. As páginas de ambos no Facebook engrossaram exponencialmente seu número de seguidores desde então.
Direita opressora
Descobri o Direitas Já por meio de uma página de Instagram com mesmo nome e mais de 17 mil seguidores. O perfil foi criado por um adolescente da Paraíba de 15 anos.
“Antes, [a página] chamava Direita Opressora. O pessoal tinha receio de entrar, não gostavam muito do nome”. Sem sucesso no disputado universo dos sítios da direita que misturam noticiário político e memes, em janeiro deste ano o estudante paraibano mudou de grife — e, a partir daí, bombou.
Suas postagens se diferenciavam das de outras páginas de extrema-direita pela agressividade. Algumas imagens veiculadas no grupo – supostos criminosos com rostos desfigurados, por exemplo – são idênticas às das páginas de adoradores da Rota (batalhão da PM que mais mata em SP). A sensação era a de ter chegado à deep web da ultradireita brasileira, embora todas as publicações fossem abertas.

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Notei uma mobilização nos comentários das fotos que ia além do Instagram: um grupo de “wpp”, como diziam, referindo-se ao WhatsApp. Pedi para fazer parte e, depois de algumas tentativas sem resposta e várias semanas de espera, fui aceito. Isso sem nenhuma pergunta do administrador sobre o que eu fazia e quais eram minhas preferências políticas.
Calhou de me incluírem na roda às vésperas da votação do impeachment na Câmara. Se antes eu era um mero observador, agora estava sentado na mesa do bar com a juventude bolsonarista.
Lá dentro, fiz várias perguntas sem fingir ser um deles. Não só me identifiquei como jornalista como perguntei se gostariam de me dar entrevistas. Alguns membros e o próprio administrador da página toparam.
Rotina
Ficar uma hora longe do celular, a partir daí, significaria ter de 150 a 200 mensagens me esperando. O bate-papo começa todo dia com uma mesma mensagem, uma espécie de mantra enviado no final da madrugada por um usuário da Irlanda: “Bom dia a todos. Que apenas a mãe dos zé droguinhas chorem hoje”.
A troca entre os ativistas pró-Bolsonaro não parou sequer durante o apagão de 25h do WhatsApp no Brasil (parte dos membros driblou o bloqueio navegando através de VPN).
Apesar do alto volume de envios, raramente debates prosperam no Direitas Já. Boa parte do que se pretende discutir é resolvido na base do xingamento aos “esquerdalhas” ou com memes.
Discordâncias mais profundas entre integrantes são raríssimas. Durante os vinte dias em que acompanhei o grupo, apenas um membro foi expulso ao criticar em termos pouco civilizados a ainda menos civilizada homenagem de Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra (o deputado “cagou pela boca”, nas palavras desse dissidente).
Também há constantes sugestões de livros. Um dos mais comentados é Ditadura à brasileira, de Marco Antônio Villa. De acordo com o autor, “a obra busca desmistificar a ditadura brasileira, tanto em sua duração como em seus efeitos”. Nenhuma publicação, no entanto, foi tão sugerida nos últimos dias quanto A verdade sufocada, de Carlo Alberto Brilhante Ustra. Relançado em 2014, um ano antes da morte de torturador, o livro promete “A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça”.
Não faltam desabafos quanto ao isolamento que vários participantes relatam sofrer em suas casas, trabalhos e universidades por apoiarem ideias ultraconservadoras.
“É difícil porque quando eu toco no assunto o pessoal já sai criticando. Infelizmente estou praticamente só nesta batalha”, me escreveu o jovem criador do Direitas Já.
Abaixo, destaco algumas conversas e trocas de memes que presenciei no grupo. São recortes do que me chamou atenção (ou não) nesses dias ao lado de apoiadores de Bolsonaro —ou Mito, como eles gostam de chamá-lo.
Coisas que provavelmente não vão surpreender ninguém vindas de um grupo de apoiadores do Bolsonaro
1) Conversas rodam em torno de questões morais e de comportamento
2) Ódio por tudo que seja ou se pareça com a esquerda. E acredite: praticamente tudo é de esquerda num grupo de apoiadores do Bolsonaro
3) Não faltam memes e fotos de armas brancas, de fogo e munição
4) Misoginia? Sim. Xenofobia? Sim. Homofobia? Sim. Preconceito com pobres? Sim
5) Intervalo para idolatrar Bolsonaro e Brilhante Ustra
6) O discurso religioso também é forte
7) Debates raramente prosperam; memes resolvem quase tudo
8) Organização para atacar publicações e tirar do ar perfis adversários
9) Defesa do Estado mínimo, com exceção do Exército
10) Fuzilamento, trabalho escravo e tortura às vezes entram na pauta
Coisas que não deixam de ser uma surpresa vindas de um grupo de apoiadores do bolsonaro
1) São antimídia. Odeiam Globo, Record, William Bonner, Reinaldo Azevedo…
Ainda assim, me deram entrevista.
2) Há mulheres no grupo (umas 20). E muitos jovens.
Aliás: Norte e Nordeste têm mais integrantes neste grupo do que Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
3) A maioria está satisfeita com a chegada de Michel Temer (PMDB) à presidência
Às vezes, por motivos esdrúxulos.
4) Pedem ajuda uns para os outros a fim de “ganhar discussões” na vida real
5) Vários se dizem solitários e discriminados em seus meios por suas posições conservadoras
6) Nem todos concordam quanto à homenagem de Bolsonaro ao Brilhante Ustra
7) Cunha não preocupa tanto assim
8) Não há consenso sobre Donald Trump, candidato republicano à Casa Branca
9) Esqueça Kim Katiguiri, Danilo Gentili ou Lobão. O verdadeiro líder intelectual da turma é o youtuber direitista Nando Moura
Seu canal já tem mais de meio milhão de seguidores.
10) Sentem saudades do Clodovil
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Publicado originalmente pela Ponte Jornalismo