quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Belluzzo: 'O Brasil está caindo para a série C do campeonato mundial'

20/10/2016 11:39 - Copyleft

Belluzzo: 'O Brasil está caindo para a série C do campeonato mundial'

'Nós vivemos um momento em que o temor supera a capacidade de formulação, nós estamos adstritos a fórmulas ultrapassadas', afirmou o economista.


Patricia Fachin - IHU Online
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“Nós vivemos um momento em que o temor supera a capacidade de formulação, nós estamos adstritos a fórmulas ultrapassadas. Isso tem a ver muito com esse caráter performático da visão econômica, mecânica, desprovida de qualquer capacidade de avaliar o que está acontecendo concretamente”, diz Luiz Gonzaga Belluzzo à IHU On-Line. Na avaliação do economista, um exemplo prático que resulta dessa compreensão, é a proposta do governo federal de instituir um novo regime fiscal com duração de 20 anos, conforme sugere a PEC 241.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-LineBelluzzo explica as razões que levaram ao “salto da dívida pública” e frisa que, para colocar a economia nos eixos e retomar o crescimento, é preciso seguir um princípio “contraintuitivo” e ampliar os gastos estatais ao invés de contraí-los. “Na economia capitalista, o que forma a renda é o gasto; não é a renda que determina o gasto. E se pudéssemos viver uma situação em que as empresas, diante do ajuste fiscal que foi feito, começassem a gastar porque elas ganharam confiança – como o governo diz – seria bom, mas isso não é verdade. Como as empresas vão começar a gastar depois de um ciclo de endividamento como esse? Ou como as empresas vão gastar dado o estoque de dívidas que elas têm e com o choque de juros que elas levaram? Então, é o Estado que tem mais liberdade de fazer o gasto”, defende.
 
Segundo ele, também é necessário instituir um “regime fiscal que dê conta das flutuações da economia, porque não se pode tomar decisões radicais”. Em 2014, exemplifica, “a economia estava caminhando para um déficit um pouco maior e, quando se deu o choque, o déficit aumentou, porque o efeito da contração abrupta do gasto para uma economia em desaceleração provoca um efeito negativo no resto da economia”. E crítica: “Agora há esse déficit monumental, e se usa o déficit que se provocou, por uma política estúpida, para dizer que não há instrumentos para fazer a economia crescer”.
 
Belluzzo também comenta a possibilidade de se instituir uma renda mínima universal mundial, dada a tendência de transformação dos mercados de trabalho determinados pelo avanço da tecnologia da informação. “Com essa superindustrialização, inevitavelmente, haverá sobra de gente, ou seja, mesmo que a dinâmica populacional seja de queda da taxa de crescimento da população, haverá pessoas sobrando por aí. (...) Como solução a essa mudança, alguns propõem que o tempo de trabalho seja reduzido para três horas por dia e que se compensem as pessoas com uma renda mínima. Então, a questão previdenciária, nesse sentido, não ficará restrita aos velhos que se aposentam, ao contrário, teremos pessoas que estarão semiaposentadas com 25 anos, e elas provavelmente terão que receber uma renda mínima para sobrevier. E essa situação gera outro problema: o que se faz com essas pessoas, como elas continuam a operar no meio social?”, questiona.




Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo - USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, atualmente, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - O texto da PEC 241 inicia afirmando que há uma “necessidade de mudança de rumos nas contas públicas”, porque a dívida bruta do governo aumentou de 51,7% do PIB em 2013 para 67,5% do PIB em abril de 2016, e afirma ainda que a despesa pública primária cresceu 51% acima da inflação entre 2008 e 2015, e a receita aumentou 14,5%. Como o senhor interpreta esses dados? A partir deles, um novo regime fiscal é ou não necessário e por quê?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Vamos começar por partes [risos]. Em primeiro lugar, houve um salto da dívida pública e eu tenho escrito vários textos, junto com o Gabriel Galípolo, mostrando que o fator mais importante do aumento dessa trajetória da dívida – o que os economistas chamam de dinâmica da dívida - se deve ao fato de que temos taxas de juros reais absurdamente altas. Muitos economistas alegam que as taxas são altas porque o regime fiscal é incapaz de infundir ao mercado a ideia de que o país é solvente. O fato é que a taxa de juros no Brasil, tanto a nominal quanto a real, é a mais alta do mundo desde os anos 1990, ou seja, desde que o Brasil assumiu o regime de política econômica que culmina em taxas de juros muito altas, em geral, porque foi feita uma abertura financeira insensata. Mas essa abertura financeira parece servir aos interessesdos investidores estrangeiros e aos interesses dos agentes do mercado financeiro, que fazem arbitragem com o câmbio. Um dos prejuízos acarretados por conta disso, nesse período todo, foi a valorização do câmbio somada a uma taxa de juros muito alta, o que causou um dano infernal à indústria de transformação.

Implicações da alta taxa de juros



 
Não preciso nem explicar que a queda da participação da indústria – a chamada desindustrializaçãoprecoce – foi uma das marcas dos últimos 20 anos. Essa é uma das anomalias desse sistema. Outra anomalia gerada pela taxa de juros é a indexação dos títulos públicos brasileiros, porque existe um volume de operações compromissadas no valor de quase R$ 1 trilhão, que são operações de aluguel de títulos de curtíssimo prazo, com uma remuneração altíssima. Isso tem a ver com formas de gestão monetária, que são realmente inadequadas e que colocam o Tesouro em má situação diante dessa operação monetária. A esterilização monetária, inclusive, decorre de efeitos de esterilização da acumulação de reservas, que é algo inevitável na situação do sistema financeiro internacional, isto é, não se pode deixar de ter reservas, porque se ficaria muito mais vulnerável. Então, infelizmente, tem que se carregar esse “inconveniente” porque o sistema monetário é muito assimétrico. Enfim, tudo isso não entra na cogitação dos nossos analistas ou dos proponentes desse ajuste fiscal.

 


Fim de um ciclo: de 2011 a 2014



 
Bom, vamos retomar a questão do gasto primário e da evolução do sistema fiscal. Até 2010/2011, a economia vinha tendo um desempenho muito bom por conta não só do ciclo de commodities, mas do ciclo de expansão da demanda, sobretudo, comandada pelo consumo americano e europeu. Isso permitiu um desempenho muito bom da economia brasileira, com superávit na balança comercial, com a abertura de um espaço para as políticas que trouxeram as camadas menos favorecidas para uma situação melhor de consumo. Houve também o reajuste do salário mínimo e políticas de estímulo ao investimento, sendo que a taxa de investimento subiu a 21%. Esse ciclo terminou em 2013, mas já em 2011 e 2012 começou a apresentar sinais de fadiga. O fim desse ciclo tem a ver, também, com o declínio da receita fiscal, porque a economia começou a perder dinamismo – ela caiu de 7,6% para 3,5%, depois para 2% e foi desacelerando. Essa forte desaceleração teve um impacto sobre a receita.

 


Déficit de 2014 para 2015



 
Seja como for, em 2014 a situação era a seguinte: a economia cresceu 0,1%, ou seja, nada, e tivemos, pela primeira vez, um déficit primário de 0,6% - é importante darmos as cifras porque as pessoas estão dizendo absurdos sobre isso. Realmente o governo, durante esse período, cometeu o erro de fazer as tais desonerações fiscais, o que agravou a situação fiscal. O governo não só fez uma compensação do câmbio valorizado para os setores exportadores, mas generalizou isso diante da pressão do Paulo Skaf[presidente da Fiesp], do pato da Fiesp. De todo modo, em 2014 a situação fiscal era a de uma economia em desaceleração, com queda de receita, e quando a economia desacelera se tem, de fato, uma tendência de que os estabilizadores automáticos comecem a funcionar, ou seja, seguro desemprego e outras medidas de proteção social começam a operar. Logo, isso gera um déficit naturalmente, pelo próprio movimento da economia.
 
De 2014 para 2015, no final do processo eleitoral, houve uma pressão muito grande e um verdadeiro “foguetório” negativo em relação à situação fiscal, que estava numa situação de desequilíbrio, porém não era a catástrofe que alguns economistas, e muitos dos políticos que perderam a eleições, fizeram fazer crer. Mas o governo da presidente Dilma cometeu um erro fatal ao aceitar o diagnóstico e aspropostas dos adversários, e com isso ela partiu para o tal deajuste fiscal, que foi uma tragédia. Na verdade, foi um verdadeiro desajuste – de 0,6% do PIB, odéficit caminhou para 2,5% e 3%. Por conta do quê? Por uma combinação funesta de um choque de tarifas a fim de tentar compensar aquilo que devia ter sido feito ao longo do tempo, durante o seu primeiro mandato, ou seja, deveria ter corrigido os preços, sobretudo o preço da gasolina.
 
Além disso, houve um problema com a tarifa de energia elétrica, que sempre foi uma das mais altas do mundo. Depois da privatização - é preciso que se diga -, com os critérios de indexação das tarifas aoÍndice Geral de Preços do Mercado - IGPM, houve uma pressão dos empresários no sentido de controlar essas tarifas, mas aí o governo foi pego de surpresa com a seca e com os problemas das termoelétricas, e cometeu um erro ao dar um choque de tarifa, que atingiu as empresas por baixo. E, para conter essa inflação produzida pelos preços administrados, o governo subiu a taxa de juros, entre 2013 e 2014, para 14,25%.
 
Para dar um choque de confiança, foi produzida uma tragédia no comportamento das empresas que, prejudicadas pela queda das receitas, do faturamento, algumas não conseguem sequer pagar os juros da dívida que contraíram. Houve ainda a desvalorização do câmbio, e quando isso ocorre depois de um longo período de valorização, afeta negativamente os custos das empresas que dependem muito das importações. Ao mesmo tempo se desmobilizou e se desestruturou a indústria doméstica, se desestruturou cadeias inteiras e tornou a indústria mais dependente das importações. Sempre que se dá um choque, depois se causa um dano enorme.
 
Por conta dos juros mais altos e da situação econômica até então favorável no país, as empresas começaram a se endividar em moeda estrangeira e muitas delas sofreram esses choques, que geraram um problema nos custos, juntamente com o choque de tarifas. Com o aumento do custo e do serviço da dívida em moeda estrangeira, o Brasil tem, mais ou menos, de dívida de moeda estrangeira acumulada pelas empresas não financeiras, algo em torno de 95% do PIB. Então, é nesse cenário que a política econômica agravou a situação ao provocar uma recessão de aproximadamente 8% do PIB em dois anos.
 
Portanto, é só como piada que eu posso aceitar a ideia de que o desemprego só vai parar de aumentar quando a confiança dos empresários aumentar. Como a confiança dos empresários vai aumentar se está se promovendo a desconfiança? Veja o que está acontecendo no crédito: os bancos agem individualmente, se protegendo, e o resultado para o conjunto é uma contração do crédito que volta em cima deles como inadimplência; e a inadimplência está em 20%. Esse é o quadro que o governo quer tratar com a ridícula PEC do gasto por 20 anos. O problema maior disso tudo é a persistência da burrice. 

IHU On-Line - Diante desse quadro que o senhor descreve, se o novo regime fiscal não é adequado, qual seria? O senhor aponta que baixar a taxa de juros é necessário. Nesse momento, baixar a taxa de juros já seria suficiente?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – A capacidade de resposta numa situação como essa em que estamos é bastante limitada. De todo modo, é importante baixar a taxa de juros para não continuar deteriorando o balanço das empresas, mas é preciso que se tenha outro instrumento para fazer a economia se recuperar.
 
Voltando àquilo que eu disse, essa ideia de resolver tudo rapidamente através de choques faz parte de um modelo que entende que a economia está sempre em equilíbrio, e de que a economia cresce sem que se tenha inflação. Eu vi muitas análises que afirmam que o produto em potencial caiu e que qualquer ação de expansão da economia por intervenção do Estado vai gerar mais inflação, porque aumentará a demanda nominal, e como se está operando acima daquilo que está determinado pelo equilíbrio do produto potencial, se produzirá inflação e mais desequilíbrio. Hoje em dia esses modelos ainda são usados pelos Bancos Centrais, mas estão sujeitos a muitas críticas, porque isso é uma construção muito mal concebida e não decorre de uma observação, porque é difícil fazer um teste empírico dessa situação. Mas é esse modelo que está por trás das medidas adotadas.
 
O que eu quero dizer é que tem que ter um regime fiscal que dê conta das flutuações da economia, porque não se pode tomar decisões radicais. Em 2014 a economia estava caminhando para um déficit um pouco maior e, quando se deu o choque, o déficit aumentou, porque o efeito da contração abrupta do gasto para uma economia em desaceleração provoca um efeito negativo no resto da economia.
 
O que o governo Temer fez? Jogou o déficit primário para 170 bilhões e com isso esticou o prazo do ajustamento, mas veja a situação dos estados, por exemplo, está insustentável. Não é viável manter os estados sufocados dessa maneira. O pessoal argumenta que os estados gastaram demais no passado, mas eles não estão conseguindo pagar o salário dos funcionários.
 
IHU On-Line – Mas o que seria esse regime fiscal que daria conta das flutuações? Se o senhor tivesse poder de propor algo, o que faria?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O que eu faria? [risos] Faria uma discussão do orçamento de modo que eu pudesse controlar a expansão de certas despesas. Mas, num momento como esse, tem que concentrar os esforços para “puxar a economia pelos cabelos”. Através de que gasto seria possível fazer isso? Através do investimento autônomo. Se não gastar, a receita não vai aumentar. Se não colocar a economia para funcionar, a receita não aumenta. Veja o que aconteceu: se o PIB caiu 8%, areceita caiu 12%.
 
IHU On-Line – Quem tem que financiar esse desenvolvimento é o Estado?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Sim.
 
IHU On-Line – Mas aí voltamos àquela discussão de que ao gastar, aumenta o gasto e aumenta o déficit, ou não?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Sim, mas aí tem que ser cuidadoso, tem que controlar o gasto corrente– o Brasilnunca fez isso –, e montar um fundo com a ajuda dos bancos públicos, e deslanchar um programa de infraestrutura e, ao mesmo tempo, reduzir a taxa de juros. Alguns dizem que ainda não é possível baixar os juros porque é preciso colocar a inflação na meta, mas esse é um dos maiores desastres que foram produzidos no Brasil: estávamos com inflação de 6,4% em 2014, quase no teto da meta - mas isso é normal -, mas foi feita aquela barulheira, e o governo subiu a taxa de juros, deu um choque de tarifas e a inflação foi a 10% em 2015. Não tem outro jeito de mudar a situação a não ser fazendo algo progressivo e com muito cuidado.
 
Agora há esse déficit monumental, e se usa o déficit que se provocou, por uma política estúpida, para dizer que não há instrumentos para fazer a economia crescer. Diante dessa situação, o Michel Temerdiz que, quando as empresas recuperarem a confiança, o desemprego será solucionado. O desemprego para o governo é apenas um acidente. Mas o que acontece com as famílias desempregadas? Recentemente um rapaz que perdeu o emprego foi à Justiça do Trabalho e, como não houve audiência, se jogou de um prédio com o filho. Mas isso é visto como normal, como um dano colateral que temos que admitir, porque temos que deixar que a economia se ajuste. Precisamos falar direito sobre esses absurdos que decorrem do caráter performático da economia, e as pessoas acreditam que as finanças públicas funcionam da mesma maneira que as finanças domésticas, o que é um absurdo.
 
IHU On-Line – Então sua proposta consiste em diminuir a taxa de juros e aumentar o investimento através do Estado, de tal modo que o gasto seja controlado e direcionado para alguns setores para não gerar um déficit maior?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O estudo do Fundo Monetário Internacional - FMI diz o seguinte: oajuste fiscal tem que ser feito organicamente com crescimento da economia, porque ao colocar a economia para funcionar e ao gerar demanda adicional, as empresas irão reagir e aos poucos vão descomprimir a situação dos seus balanços; trata-se, na verdade, de uma política anticíclica. Não se pode agravar ainda mais uma recessão que está no fundo do poço.
 
Na economia capitalista, o que forma a renda é o gasto; não é a renda que determina o gasto – isso é contraintuitivo. E se pudéssemos viver uma situação em que as empresas, diante do ajuste fiscalque foi feito, começassem a gastar porque elas ganharam confiança – como o governo diz – seria bom, mas isso não é verdade. Como as empresas vão começar a gastar depois de um ciclo de endividamento como esse? Ou como as empresas vão gastar dado o estoque de dívidas que elas têm e com o choque de juros que elas levaram? Então, é o Estado que tem mais liberdade de fazer o gasto. Não é preciso necessariamente que o Estado, nesse momento, aumente o gasto em investimentos, mas ele pode coordenar os setores que têm chance de gastar, dar garantias para que esses setores possam investir. Por que todo mundo fala do setor de infraestrutura? Porque aí tem um espaço de investimento que é importante para a economia e que melhora a produtividade e ao mesmo tempo gera renda e emprego. É o Estado que tem a liberdade de fazer isso, porque o setor privado está sufocado por uma sucessão de besteiras que foram feitas lá atrás.

 


Como se cobre o déficit?



 
Portanto, só será possível cobrir o déficit se reduzir os juros. O déficit primário são todas as despesas exceto os juros. O déficit nominal é formado pelo déficit primário mais o déficit dos juros, que está em torno de 10% do PIB, mas 85% desse déficit é formado por gastos com juros.
 
Um economista polonês chamado Michal Kalecki diz que os capitalistas ganham o que gastam e os trabalhadores gastam o que ganham. Isso se aplica ao Estado também. Então os detentores dos meios de produção, que têm acesso ao crédito, são os que têm a liberdade para gastar. Se os capitalistas ganham o que gastam, essa formulação diz o seguinte: os capitalistas podem acumular lucro e o Estado só pode aumentar a sua receita se alguém estiver gastando e formando renda, porque a renda não é dada. Na cabeça de alguns economistas, existe uma renda dada, e quando se gasta demais, gera-se um déficit. No entanto, não é assim que funciona. A formação da renda depende do gasto do conjunto dos protagonistas do sistema econômico, inclusive dos consumidores. Mas quando se gera uma recessão, o consumidor não aumenta seus gastos, porque está desempregado. Ao contrário, com uma massa de desempregados, as famílias reduzem os gastos. É isso que estamos observando agora na economia. E as empresas estão encalacradas em seus endividamentos e não vão gastar. Então, quem vai gastar? O setor externo, se ele estivesse tendo um dinamismo, mas isso também não está acontecendo. Estamos tendo superávit na balança comercial, mas é porque as importações caíram mais do que as exportações. Diante disso, como se recupera a economia? Como se cobre o déficit? Só se fecha o déficit se a receita aumentar. Do contrário, não tem mágica.
 
Aliás, a economia brasileira aumentou o superávit primário até 2013. Muita gente diz que o Brasil quebrou e que vai dar um calote, mas como isso é possível se a dívida brasileira é toda em moeda nacional? Um país quebra quando a dívida é em moeda estrangeira, como ocorreu em 1980 ou no período de FHC, em que se tinha um estoque de dívida interna denominada em moeda estrangeira. Fizeram um festival de besteira dizendo que o país vai quebrar, mas como, se ele pode, como muitos países fazem, financiar isso com expansão monetária? Alguns dizem que isso pode gerar hiperinflação, mas você está vendo algum sinal de hiperinflação? Estamos caminhando para uma queda da inflação.
 
IHU On-Line - Em um artigo recente o senhor mencionou o economista Gunnar Myrdalcomo um pioneiro na preocupação em estabelecer uma política fiscal capaz de suavizar as flutuações econômicas. Pode nos explicar em que consistia a proposta dele e, nesse sentido, como essa proposta poderia sugerir um arranjo fiscal adequado para o Brasil não precisar fazer um ajuste fiscal como o atual, num momento de recessão ou de queda da arrecadação?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo - Myrdal é um economista sueco e um dos pais do Estado de bem-estar social sueco. Nos anos 20, 30, ele tinha uma proposta de que o Estado deveria funcionar como o estabilizador do ciclo econômico e que, portanto, deveria ser mais austero nos tempos de prosperidade – o que está certíssimo – e mais ativo no momento em que a economia flutuasse ou que caminhasse para uma recessão, a fim de estabilizar o ciclo. Isso já era pensado por outros economistas suecos, como Johan Gustaf Knut Wicksell – que era um conservador -, que tinham uma visão mais complexa de como a economia flutuava.
 
Myrdal teve influência importante sobre Keynes, que, em sua teoria geral, disse que a economia tinha uma tendência à estabilidade, mas não uma trajetória de equilíbrio estável ao longo do tempo. Ao contrário, a economia se desenvolve e cresce a partir das expectativas dos empresários que avaliam, sempre numa condição de incerteza absoluta, se devem ou não aumentar seus gastos, contratar ou não mais pessoas, porque eles não têm controle sobre o futuro. Isso dá ao investimento uma instabilidade muito grande, porque a economia oscila entre o otimismo e o pessimismo.

 


Socialização do investimento



 
Keynes era contra fazer intervenções pontuais de curto prazo na economia. Ele dizia que era preciso organizar a economia da seguinte maneira: tem que ter uma socialização do investimento, isto é, o Estado tem que ter um orçamento de capital, o que faz com que os empresários tenham mais conforto para tomar decisões ao saberem que, se houver algum problema de flutuação da economia, o Estado vai interferir. Em segundo lugar, é preciso controlar a taxa de juros, o que Keynes chamava de a eutanásia do rentista. A terceira coisa a fazer é um sistema fiscal progressivo em que se pudesse, nos momentos de oscilação, favorecer o consumo dos menos favorecidos. E, em quarto lugar, o programa de ajustamento internacional.
 
Essas medidas nunca foram rigorosamente aplicadas e, no caso do Brasil, sequer são discutidas. Mas, com essas medidas, Keynes dizia aos seus contemporâneos que a sua ideia era prevenir, e não curar a economia, porque a cura pode ser mais danosa do que a prevenção. Então, ele estava preocupado em fazer um sistema que envolvesse uma combinação entre o Estado e o mercado, de modo que pudesse estabilizar a economia. Infelizmente, o Brasil tem alguns problemas, entre eles, o da inserção externa e o da perda de protagonismo da indústria brasileira. A minha preocupação é com o fato de que temos um declínio secular na economia brasileira. O Brasil já foi o país mais importante do ponto de vista do investimento estrangeiro produtivo manufatureiro, entre o final dos anos 1940 e os anos 1980, e hoje perdeu essa posição para a China. Estamos andando para trás, infelizmente.
 
IHU On-Line - Os críticos à PEC 241 argumentam que ela irá desmontar o Estado social brasileiro ao reajustar os investimentos com educação e saúde de acordo com a inflação nas próximas duas décadas. O senhor também tem críticas à PEC nesse sentido?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O Brasil é um país que tem gastos per capita em educação e saúdemuito baixos, inclusive, mais baixos do que muitos países menos desenvolvidos da América Latina. A Constituição de 1988 teve como foco principal a manutenção do avanço, em termos reais, dos gastos em saúde e educação, que são questões fundamentais em uma sociedade civilizada. O Brasil chegou muito tarde a esse debate acerca do Estado de bem-estar social, e foi a Constituição de 1988 que trouxe esse debate à tona. O Brasil não tinha essa preocupação, era atrasado, enquanto os países europeus e mesmo osEstados Unidos construíram seus sistemas de proteção social logo depois do pós-guerra, ou seja, após as lições terríveis que tiveram nos anos 1920 e no entreguerras.
 
Apesar de o Brasil ter estabelecido que os orçamentos de saúde e educação eram prioridade, muitos contra-argumentavam que o orçamento se tornou rígido. O orçamento, portanto, é a peça democrática por excelência, a peça que concentra as demandas da sociedade. Então é importante que se preservem certos gastos, e isso não pode ser feito mecanicamente, segundo a determinação de uma PEC que estará em vigência por 20 anos. Essa proposta não tem o menor cabimento, é algo inacreditável, porque, em primeiro lugar, se perde qualquer capacidade de manobra na utilização do orçamento, ou seja, se fica com as mãos amarradas; segundo, é preciso discutir quais são as questões prioritárias, mas isso precisa envolver um debate. A Constituição condensou esse debate público e deu preeminência aos gastos de educação e saúde. Agora o governo está tentando dar explicações que são insuficientes sobre essa questão.
 
IHU On-Line – Alguns economistas do governo argumentam que os orçamentos de educação e saúde estarão protegidos, mas essa proteção depende de os parlamentares aprovarem orçamentos maiores. Isso lhe parece adequado ou confuso?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – É bastante confuso porque eles mesmos não têm certeza do que estão fazendo. A questão é exatamente esta: quem teria que determinar a composição de gastos doorçamento é o parlamento, representando a opinião majoritária da população; é assim que se faz. Agora, não se pode querer engessar isso e tirar essa capacidade de discussão. Acho que a discussão não está completamente suprimida, mas do jeito que está estabelecida, trará problemas para discutir a composição do gasto. Isso não pode ser feito assim, de cima para baixo, de maneira tecnocrática. O orçamento tem que ser discutido pelas várias posições interessadas, porque a sociedade é umasociedade de interesses. As pessoas pensam que se pode ter, em uma peça orçamentária, a expressão da vontade geral, mas a vontade geral é formulada por quem? Pelos tecnocratas? É isso que está parecendo, porque eles pensam que existe uma racionalidade que está acima do debate político entre as várias camadas sociais, mas isso é uma ilusão tecnocrática de economista. O que a sociedade, através dos seus representantes e de um debate público, considera mais importante? Esse é o princípio orçamentário de um país democrático.
 
IHU On-Line - Hoje alguns têm retomado a discussão sobre uma renda mínima suficiente para todos os cidadãos. Essa proposta lhe parece plausível nos dias de hoje? Por quais razões?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um debate que está ocorrendo no mundo. A revista The Economist – uma revista conservadora – publicou, cinco edições atrás, uma matéria discutindo essa questão diante das tendências de transformação dos mercados de trabalho determinados pelo avanço da tecnologia da informação; ou seja, daquilo que chamei da superindustrialização– alguns dizem que se trata da pós-industrialização, mas é mentira, trata-se de uma superindustrialização, porque estão industrializando os serviços e a agricultura. Com essa superindustrialização, inevitavelmente, haverá sobra de gente, ou seja, mesmo que a dinâmica populacional seja de queda da taxa de crescimento da população, haverá pessoas sobrando por aí.

 


Renda mínima



 
Nesse cenário, a renda mínima está sendo discutida no mundo inteiro: já tem essa discussão naFrança, na Holanda e nos Estados Unidos, por conta da capacidade produtiva que está se apresentando com o avanço tecnológico. Esse novo cenário não aparece nas estatísticas, porque o avanço da produtividade está sendo feito com o deslocamento de pessoas para o setor de serviços e para regiões do setor de serviços que são muito pouco produtivas. Então, quando se faz o cálculo da produtividade total, se percebe que ela está caindo, mas ela não está caindo, está subindo, só que está subindo e deslocando gente para os setores de menor produtividade; está subindo nos setores que são mais intensivos na introdução em tecnologia. E quais são esses setores? Todos. A agriculturanão emprega mais ninguém, o setor de serviços está deslocando gente não só nos trabalhos rotineiros, mas também médicos, advogados e contadores estão vivenciando esse processo. Os softwares começarão a dispensar esses trabalhadores, e os próprios engenheiros e médicos estão virando trabalhadores em tempo parcial e, portanto, precários com esse avanço tecnológico. Isso acontecerá, inevitavelmente, no mundo inteiro.
 
Os chineses estão fazendo essa discussão de outra maneira, porque estão inflando o setor de serviços, mas estão fazendo isso de uma maneira muito engraçada - por exemplo, num ônibus chinês tem um motorista, um cobrador e uma terceira pessoa, que fica olhando se os passageiros estão bem -, mas ao mesmo tempo eles estão investindo pesado nas tecnologias de automação einteligência artificial.
 
Aliás, essa situação foi discutida pelos economistas e pensadores que olharam essa tendência na sociedade com mais cuidado. Se analisarmos Grundrisse, por exemplo, perceberemos que Marxfalou o tempo inteiro do impacto do sistema de maquinaria na formação do valor e na estrutura do emprego – ele tem páginas proféticas que estão se observando agora.

 


Mudanças no mundo do trabalho



 
Como solução a essa mudança, alguns propõem que o tempo de trabalho seja reduzido para três horas por dia e que se compensem as pessoas com uma renda mínima. Então, a questão previdenciária, nesse sentido, não ficará restrita aos velhos que se aposentam, ao contrário, teremos pessoas que estarão semiaposentadas com 25 anos, e elas provavelmente terão que receber umarenda mínima para sobrevier. E essa situação gera outro problema: o que se faz com essas pessoas, como elas continuam a operar no meio social? Será preciso dar uma atividade para elas. Isso poderá ser muito bom, porque poderão ser desenvolvidas atividades culturais, e aí precisaria haver outra forma de se integrar no mundo que não mais pelo trabalho, então há uma oportunidade aí.
 
Nesse aspecto sou otimista, mesmo que eu entenda que nessa mudança irão ocorrer muitos choques, muita fricção para as pessoas entenderem o que está acontecendo. E mais, tem quemudar o sistema tributário, penalizar os mais ricos para que eles gerem os recursos suficientes. Foi o capitalismo que colocou esses problemas, mas eu não sei se ele é capaz de resolver isso por seus próprios termos. Mas essa questão está posta, está tão posta que até a The Economist está discutindo, porque ao contrário do Brasil, os conservadores ingleses são muito mais abertos.
 
Pensar a renda mínima nesses termos não é uma proposta de um programa assistencial, mas uma forma de enfrentar essa questão do desemprego tecnológico estrutural. E é também um problema de atendimento das necessidades. Não podemos deixar uma legião - como vemos nos Estados Unidos e na Europa - de trabalhadores precários, cuja renda, às vezes, não permite nem pagar o aluguel. Trata-se de um problema que está aflorando com manifestações muito claras. Se analisarmos os eleitores do [Donald] Trump, eles estão expressando isso, porque eles foram chutados para fora do sistema e ninguém explica ou tem uma discussão séria – o Sanders teve – e proveitosa com a população a respeito do que está acontecendo. A maioria dos eleitores homens votará no Trump, porque são os que sentem mais de perto os danos dessa mudança tecnológicacombinada com a transferência de empresas para a China, por exemplo, no caso dos EUA.
 
Diante desse cenário, estão todos discutindo se a globalização acabou, mas trata-se de um problema da forma de organização da economia mundial em todas as suas dimensões, sobretudo nessa dimensão importante que é o mundo do trabalho e que está se transformando com uma rapidez incrível. Então, não se trata mais de reeditar o Estado de bem-estar do jeito que ele existia nos anos 1950, tem que se fazer um avanço, do contrário, a situação irá gerar uma barbárie.
 
IHU On-Line – Como o senhor está compreendendo o atual momento brasileiro, em que muitos tinham uma euforia em relação aos primeiros anos do governo Lula e agora o país está imerso numa crise novamente?
 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Estou pensando que nós vivemos um momento em que o temor supera a capacidade de formulação, nós estamos adstritos a fórmulas ultrapassadas. Isso tem a ver muito com esse caráter performático da visão econômica, mecânica, desprovida de qualquer capacidade de avaliar o que está acontecendo concretamente. É muito perigoso ficar navegando em abstrações insustentáveis. Esse aspecto tomou conta de uma parte da opinião pública, e com isso entendo que o debate está se estreitando também, porque é muito difícil encontrar, na grande mídia, um debate mais esclarecedor, e eu temo muito pela decadência do Brasil.
 
Eu já disse que o Brasil está caindo para a série C do campeonato mundial, e não vejo, nesse momento, possibilidades cravadas no seio da sociedade e expressas em atitudes de política econômica que possam mudar esse rumo. Estou muito preocupado, mas não estou pessimista, porque sempre tenho esperança de que a sociedade se mova. Mas estou muito preocupado, porque estou vendo que ao longo de 20 anos nós não aprendemos nada.


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Ajuste de Temer provoca milhares de protestos

25/10/2016 13:19 - Copyleft

Ajuste de Temer provoca milhares de protestos

O projeto de lei que pretende congelar o gasto público por 20 anos é rejeitado por movimentos sociais, mas é o pilar do ajuste fiscal do governo


Página/12
Roberto Parizotti / CUT
O governo de Michel Temer acelerou os tempos e buscará votar ainda nesta terça-feira (25/10), na Câmara dos Deputados, a segunda parte da emenda constitucional que congela o gasto público por 20 anos, medida que vem inspirando manifestações em todo o país, como a ocupação de escolas e universidades, o bloqueio de avenidas e estradas, entre outras iniciativas.
 
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, anunciou nesta segunda-feira (24/10) que esta votação “concluirá o primeiro ciclo de reformas” e mostrará aos investidores que o Brasil está “no rumo correto”, ao se referir à Proposta de Emenda Constitucional 241 (PEC 241).
 
Se aprovada, a proposta congelará os gastos públicos do país – incluindo os de áreas sensíveis, como saúde e educação – pelos próximos 20 anos. O chefe de Estado terá poderes para mudar os parâmetros dessa medida somente depois de uma década. A proposta é a mais arriscada entre as impulsadas por Temer e seu ministro de Economia, Henrique Meirelles.
 
Segundo o cronograma, após a aprovação definitiva na Câmara dos Deputados, a pauta deverá ser apreciada pelo Senado, em meados de dezembro. Neste domingo, Temer convidou os membros da câmara alta a um jantar no Palácio da Alvorada, com o objetivo de afiançar compromissos em favor da reforma – semanas atrás, os deputados já haviam comparecido ao Palácio, para convite semelhante, e com o mesmo intuito.





 
O projeto é rejeitado por sindicatos, movimentos sociais e pela oposição, agora minoritária no Congresso. Porém, se trata do principal pilar da política de ajuste fiscal ideado pelo governo para sair da recessão e atrair investimentos. Nessa linha, Temer defendeu o ajuste e as mudanças na Constituição de 1988 durante sua apresentação na conferência bianual Rio Oil & Gas, que acontece na cidade do Rio de Janeiro.
 
“Estamos tomando algumas medidas de austeridade administrativa, endurecimento administrativo, basta verificar a questão do teto do gasto público, uma medida fiscal”, disse Temer, que convocou o setor privado petroleiro a “gerar uma maior expectativa de otimismo no país”. Temer, que vem de encerrar às pressas uma viagem internacional, sem se referir à Operação Lava Jato, uma semana depois da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, o arquiteto do impeachment de Dilma Rousseff – fato que teria sido o responsável pela interrupção abrupta da viagem internacional do presidente, embora essa versão não tenha sido reconhecida pelo Palácio do Planalto.
 
Temer também defendeu a nova lei petroleira proposta pelo ex-senador e atual chanceler José Serra, e que está à espera de aprovação pelo Senado. Este outro projeto de lei, que poderia ser votado também nas próximas horas, derrubaria o marco regulatório estabelecido durante o governo de Lula da Silva (2003-2010), retirando a exclusividade da Petrobras na exploração dos megajazimentos submarinos da zona do Pré-Sal.
 
Neste sentido, o presidente brasileiro destacou o perfil do novo presidente da Petrobras, Pedro Parente, ex-chefe de gabinete do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e ex-diretor no Brasil da multinacional agrícola Bunge, e explicou como ele liderará o plano de desinvestimento da Petrobras até 2020.
 
Enquanto isso, PEC 241 vai acumulando cada vez mais opositores nas ruas: em Recife, sindicatos bloquearam a principal rodovia do estado de Pernambuco. Os protestos se centraram nas universidades federais de Pernambuco, Bahia, Sergipe, Mato Grosso, Brasília, Amazonas, Paraná, Rio de Janeiro, Alagoas, Ceará, Roraima e Minas Gerais.
 
No Paraná, o movimento é ainda maior, com 800 escolas ocupadas, além de oito universidades. A petição dos estudantes mobilizados não se resume somente à PEC, mas também ao projeto de reforma do ensino médio, que prevê o fim da obrigatoriedade de algumas disciplinas, como sociologia, filosofia, artes e educação física.
 
A situação política no país teve também outros desdobramento vinculados à Operação Lava Jato e iniciativas similares: o presidente do Senado, Renan Calheiros, chamou de “juizinho de primeira instância” o magistrado que autorizou a operação de busca e apreensão na câmara alta, na semana passada, e que prendeu quatro policiais legislativos que investigavam grampos telefônicos contra parlamentários ordenadas pela Justiça.
 
Um dos policiais legislativos detidos pela Polícia Federal disse que o ex-presidente José Sarney teve sua casa devastada por agentes do Senado, devido a possíveis grampos ordenados pela justiça, que impulsa investigações por corrupção.
 
Neste cenário, o ex-deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha pediu um habeas corpus, para ser liberado logo depois de ser preso por ordem do juiz Sérgio Moro, que lidera as investigações da Operação Lava Jato, sobre esquemas de propina em contratos da Petrobras.
 
Também nesta segunda-feira (24/10), a Polícia Federal, que depende do ministro de Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que suspeita que o ex-presidente Lula figura como “amigo” numa lista de financiamento clandestina que tinha a empresa Odebrecht, uma folha na qual estariam citados também outros políticos, como o chanceler José Serra, sempre referidos através de apelidos.
 
Lula negou a suspeita e ironizou a declaração da polícia, já que a mesma suposição havia sido levantada durante o pedido de processamento que a Polícia Federal fez ao Ministério Público contra o ex-ministro Antônio Palocci, cuja prisão foi solicitada por Moro no final de setembro.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: Roberto Parizotti / CUT

Temer esvazia reunião da ONU em Genebra

26 de outubro de 2016 - 16h31 

Temer esvazia reunião da ONU em Genebra


Sputnik
Sede da ONU em GenebraSede da ONU em Genebra
Era segunda-feira, 24 de outubro de 2016, e início da sessão de negociação de Tratado para julgar empresas transnacionais por crimes e violações, muitas das quais também implicam em rupturas na democracia.

“A solidariedade internacional de pessoas de todo o mundo foi impressionante”, diz no Facebook Diana Aguiar, estudante do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da UFRJ.

Confira no vídeo:


 


Fonte: Vermelho

Médicos cubanos se despedem do Piauí

26/10/2016 11:40 - Copyleft

Médicos cubanos se despedem do Piauí

Antes do programa, muitos municípios não tinham acesso a atendimento médico. Guaribas era uma das milhares de cidades com dificuldade de fechar contratos.


Flávia Rocha - Portal AZ
Benonias Cardoso
"Peço desculpas por vocês terem enfrentado algumas adversidades no nosso país. Saibam que a dor que vocês passaram valeram a pena. Vocês estão saindo daqui com um Brasil diferente”, disse o governador Wellington Dias (PT), durante homenagem a 256 médicos cubanos que atuaram no Piauí no Programa Mais Médicos nos últimos três anos. A solenidade aconteceu na manhã desta segunda-feira (24), no Palácio de Karnak.
 
Centro e trinta médicos cubanos despedem-se já neste mês. Outros 124 cubanos deixam o Estado até o final do ano.
 
Ao saberem do retorno dos médicos à ilha caribenha, houve pacientes que choraram de emoção. “Pacientes choraram quando souberam do nosso regresso a Cuba, principalmente os idosos”, declarou Idalia Romero, 54 anos. “Eles gostavam muito do nosso trabalho. Realizamos muitas atividades: rodas de conversas com idosos, reuniões com grávidas, grupo de tabagismo, caminhadas, atividades físicas com a comunidade”, disse. “Gostaria de ficar mais tempo, mas acabou o prazo, infelizmente”, declarou o médico geral Ibrahin Gainza, 46 anos.
 
Segundo Wellington Dias, um dos principais resultados é que o programa está vencendo muitas doenças a partir da prevenção.  A diminuição da mortalidade infantil foi outro ponto destacado por Laura Ivete Torres, cônsul cubana no Nordeste.





 
A médica cubana Lidice Vasquez, em discurso emocionado, contou que foi um grande privilégio trabalhar em Guaribas, a 653 km de Teresina, cidade de difícil acesso e com 4.500 habitantes. “Compartilhamos o cuscuz, o beju, o cafezinho. Começamos a fazer parte da família brasileira”, declarou.
 
Antes do programa, muitos municípios brasileiros não tinham acesso a atendimento médico. Guaribas era uma dessas milhares de cidades onde os gestores tinham dificuldade de fechar contratos com médicos.  “O programa foi pensado principalmente para esse tipo de população”, destacou Vasquez.
 
Histórias
 
O governador Wellington Dias, a coordenadora da comissão estadual do Programa Mais Médico no Piauí, Idvani Braga, e alguns médicos cubanos presentes da solenidade de homenagem no Palácio de Karnak, na manhã desta segunda-feira (24), contaram muitas histórias curiosas, que são difíceis de serem imaginadas pela medicina tradicional brasileira.  
 
As casas dos médicos cubanos
 
Dias lembrou que, por exemplo, em São João do Piauí, o governo preparou casas nos melhores bairros para servirem de moradia para os cubanos, mas, ao chegarem à cidade, os médicos fizeram questão de morar na comunidade onde iriam atuar, em casas sob as mesmas condições onde vive a população carente, sem privilégios, a fim de garantir uma maior proximidade dos pacientes, para entenderem os seus problemas de perto e também para estarem mais acessíveis à população.
 
A posição da cadeira
 
A coordenadora da comissão estadual do Programa Mais Médico no Piauí, Idvani Braga, contou que, em Guaribas, ocorreu um fato curioso: o médico cubano teve que amarrar a cadeira do paciente ao lado da cadeira do médico. A tendência brasileira é que a cadeira do paciente fique atrás da mesa, de modo que o paciente fique na frente do médico. Já no modelo cubano, o costume é que o paciente fique mais próximo ao médico, logo ao lado, para garantir um maior contato entre ambos, diminuindo as distâncias.  
 
Em São João do Piauí
 
Na cidade da primeira-dama, Rejane Dias, e do provável futuro presidente da APPM, o médico Gil Carlos Modesto, um idoso fez um relato ao governador. Disse que, ao levar a filha para uma consulta, ocorreu um fato inacreditável: A criança estava com disenteria. Assim, o médico cubano forneceu a medicação, mas disse que no dia seguinte visitaria a casa da família, para descobrir o que estava ocasionando a doença. Para a surpresa do idoso, cedo da manhã seguinte, lá estava o médico, que se deparou com muito lixo por várias partes da casa. Vendo de perto o que estava acarretando a doença, para mais uma surpresa do sanjoanense, o médico combinou que no dia seguinte iria novamente à casa da família, para realizar a retirada do lixo, junto com uma equipe. E assim foi feito!
 
Rede feita com o “coração”
 
Para Wellington Dias, outra característica é que “é uma rede feita com o coração, com muito amor. Vamos levar esse modelo ao Programa Saúde da Família”, declarou.  “Tenho acompanhado as despedidas dos médicos cubanos no Nordeste, vejo o quão emocionante tem sido”, revelou Laura Ivete Torres, cônsul cubana no Nordeste.
 
Continuidade do Programa
 
Mesmo sob ameaça, o Programa foi renovado e outros cubanos devem substituir os médicos que estão finalizando a cooperação. Além disso, de acordo com Wellington Dias, ele irá se reunir com todos os outros governadores para garantir a continuidade do programa, priorizando os médicos brasileiros e conforme o que for possível dentro da legislação.
 
Segundo Teófilo Cavalcante, presidente do Conselho Estadual de Saúde, 92% da população do estado, cerca de 2 milhões e 900 mil piauienses dependem do SUS. “A tal PEC da morte será um grande atraso para a saúde. É nossa preocupação a continuação do Programa Mais Médicos. A Farmácia Popular já acabou. Como sabemos, não há como fazer saúde sem dinheiro”, protestou.


Créditos da foto: Benonias Cardoso

A PEC 241 é uma declaração de guerra contra o povo brasileiro

25/10/2016 16:23 - Copyleft

A PEC 241 é uma declaração de guerra contra o povo brasileiro

Nildo Ouriques afirma que governo não anuncia nenhuma medida contra a dívida pública, que consome entre 40% e 43% do orçamento.


Rede Brasil Atual
reprodução
São Paulo – Em vídeo divulgado nas redes sociais, o economista e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Nildo Ouriques, avalia que a Proposta de Emenda à Constituição 241, de 2016, que impõe um teto para os gastos sociais e com saúde e educação pelos próximos 20 anos, é uma “declaração de guerra” contra o povo brasileiro. “A saúde, a educação, as condições de vida não estão boas. E eles estão dizendo, vai piorar. E não é por quatro ou cinco anos. É por vinte. Ou seja, é uma declaração de guerra contra nós. É uma guerra de classe”, afirma.
 
Para Ouriques, está sendo construído um discurso para iludir a população a acreditar que o maior problema brasileiro são os impostos muito elevados, que inibiriam investimentos e a iniciativa das pessoas, e a irresponsabilidade dos governos. “Todo o esforço da classe dominante brasileira consiste em iludir a população, criar uma ideologia, segundo a qual a crise é consequência da irresponsabilidade dos governos, que arrecadam muito e gastam muito mal. E não bastasse isso, ainda tem a corrupção, que é a forma mais deslavada de inépcia e desrespeito com os assuntos públicos”, avalia.
 
Ele, porém, ressalta que o principal dispêndio dos governos federal, estadual e municipal não é com áreas sociais, mas sim com juros e amortizações de um sistema de dívida, que consome uma imensa parte da arrecadação de impostos e dos ativos que os governos vendem – privatizam. Porém, não há nenhuma medida quanto à dívida, somente contra os gastos considerados sociais. “E terá de ser por vinte anos. Não é que essa disciplina resolverá o problema em 20 anos. É que como vamos manter intocável o pagamento de juros, então não tem outra alternativa a não ser apertar a população. Diminuindo direitos previdenciários, reduzindo vagas em universidades, tudo o que está sendo proposto”, afirma.
 
Ouriques lembra que no começo do Plano Real, em 1994, a dívida brasileira era de aproximadamente R$ 64 bilhões. Hoje são cerca de R$ 4 trilhões. “Os que decidiram fazer o Plano Real elevaram radicalmente a taxa básica de juros a mais de 50%. E deram como alternativa aos capitalistas comprar Títulos da Dívida Pública. Remunerados a um tal valor com uma taxa tão elevada, que era melhor emprestar dinheiro ao governo do que investir na produção de produtos”, relata. Hoje, a dívida consome entre 40% e 43% do orçamento da União, aliada a uma das maiores taxas básicas de juros do mundo.




 
“A carga tributária não é elevada porque precisa pagar salários astronômicos para deputados e juízes, mas porque precisa manter o pagamento de juros e amortizações da dívida. Precisa de uma auditoria. É o maior esquema de corrupção da República”, disse. “Mas nós próximos 20 anos o que vai governar a vida é uma austeridade contra o povo”, completa.
 
Ouriques defende uma auditoria da dívida pública, além de uma atuação firme do governo em outras áreas que efetivamente contribuem para o déficit financeiro do governo: excesso de incentivos fiscais, sonegação de impostos e evasão de divisas. Hoje o país tem uma dívida ativa – valores devidos por empresas e pessoas aos governos – de R$ 1,5 trilhão. Dessa dívida, cerca de R$ 250 bilhões correspondem a causas já transitadas em julgado. “O capitalista não tem mais a quem recorrer. O governo poderia lançar mão desse valor para equalizar a dívida. Mas ele não faz”, afirma.
 
Além disso, segundo Ouriques, ao menos US$ 1,5 trilhão está depositado por brasileiros em paraísos fiscais. “Esse dinheiro saiu daqui sem tributação, de forma ilegal, não sabemos como foi adquirido. E todo ano tem no Congresso uma lei propondo anistiar isso, com a justificativa de que o país precisa de capitais. E é cobrada uma parcela mínima do imposto devido, que permite ao capitalista legalizar esse dinheiro”, ressalta. Outros R$ 500 bilhões são sonegados por ano, segundo estimativas do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz), que denuncia repetidamente a precarização dos trabalhadores, que impede a atuação.
 
Assista ao vídeo:



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Contra o fim do SUS, sanitaristas defendem de pacto social a desobediência civil

25/10/2016 16:28 - Copyleft

Contra o fim do SUS, sanitaristas defendem de pacto social a desobediência civil

Depois de golpes como a abertura da saúde ao capital estrangeiro, o subfinanciado sistema público de saúde está diante da PEC 241.


Cida de Oliveira - Rede Brasil Atual
ANDRÉ ZUCCOLO/LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL/REVISTA VAIDAPÉ
São Paulo  - A construção de uma aliança entre estudantes, indígenas, movimentos populares, centrais sindicais, partidos políticos de esquerda e frentes em defesa da democracia, como a Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo, é a estratégia defendida por sanitaristas para reverter os ataques ao SUS que podem se fatais com aprovação  da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que congela investimentos da União nas áreas sociais, e desobriga repasses a estados e municípios para a saúde e educação.
 
Durante o seminário Golpe no SUS, realizado na capital paulista, na noite de ontem (24), pelo Le Monde Diplomatique Brasil e Plataforma Política Social, a médica sanitarista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ligia Bahia fez uma reflexão nada animadora do momento pós-golpe. "Hoje temos a invasão do PP (Partido Progressista) que divide entre si o Ministério da Saúde e suas quatro secretarias. São como piratas que se apossam dos recursos públicos. E perdemos a base técnica, que foi construída ao longo de 30 anos. Uma perda fatal; já era. Estão todos fragilizados. Estamos perdendo o SUS", disse.
 
Ligia lembrou que desde a Constituição de 1988, o SUS contabiliza perdas com o crescimento da saúde privada, que responde por 25% do atendimento à saúde e fica com R$ 85 bilhões dos recursos assistenciais, quatro vezes mais que o recebido pelo SUS, que responde por 75% do atendimento.
 
Outra perda é a falta de apoio dos sindicatos e centrais, que colocam em suas pautas de reivindicação planos privados de saúde. "Precisamos pensar como será daqui a seis meses. Eles pagam quem é do partido deles, bem na lógica dos piratas, de recompensa para os aliados e punição para quem não é. Será que como piratas vão brigar entre eles? E como vamos reconstruir nossa agenda depois que esse imenso raio cair nossa cabeça? Como desprivatizar? Temos de apresentar propostas. E mesmo que a viabilidade seja zero, politicamente teremos uma agenda. É preciso reunir a tropa e retomar nossa capacidade de brigar".





 
Para uma "volta por cima", Ligia defende a construção de uma agenda de pesquisas e ações. "Temos de reconhecer que somos minoria e retomar nossa capacidade de luta, vamos nos voltar para os estudantes que estão ocupando escolas em todos o país contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, a Medida Provisória (MP) 746, que fragmenta o ensino médio, e o projeto de Escola sem Partido. Vamos fazer aliança com o movimento indígena, sindical, centrais e de frentes, como a Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo. Precisamos de mais radicalidade".
 
Médico sanitarista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jairnilson Paim destacou golpes e tentativas contra o SUS justamente numa conjuntura de crise, quando a busca por seus serviços tende a aumentar pelo desemprego e pela migração da saúde privada.
 
"Vivemos agora mais um golpe entre tantos que põem em risco o sistema, como a abertura da saúde ao capital estrangeiro, a PEC do Cunha, que obriga empresas a oferecerem planos privados aos trabalhadores, o PL da terceirização, que vai afetar os quadros do sistema, a volta da DRU e os chamados planos de saúde acessíveis. Paralelo a isso temos a bomba relógio da diabetes que vai estourar com essa garotada obesa, mais a epidemia de acidentes de moto que demandam reabilitação e síndromes causadas por epidemias de zika. Fora as taxas crescentes de câncer", lembrou.
 
De acordo com Jairnilson, há ainda a crescente prevalência de transtornos depressivos, a duplicação do tamanho da população idosa até 2036 e a carga de doenças transmissíveis que não foram erradicadas, as crônicas não-transmissíveis e os acidentes. "É possível pensar no desmantelamento do que foi construído em 30 anos? Esses planos populares vão corroer ainda mais os insuficientes recursos do SUS."
 
Atualmente, conforme lembrou, apenas 25% das crianças do Nordeste com cardiopatias congênitas são operadas. E políticas consagradas, como o Plano Nacional de Imunizações são está ameaçado com falta de vacinas, como a contra a raiva.
 
"Talvez os senhores congressistas que votam pela PEC não se lembrem que suas válvulas cardíacas são avaliadas pela Agência Nacional de Vigilância à Saúde, a Anvisa, que faz parte do SUS."
 
O médico sanitarista professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gastão Wagner, lembrou que se os outros governos não eram muito a favor do SUS, o de Michel Temer é "totalmente contra".
 
E o que o sistema, pelo fato de ir além da assistência, confrontando o neoliberalismo, é sempre muito criticado e golpeado. Mas mesmo assim, sendo apenas sombra do projeto do movimento sanitarista, está longe de ser "um pato manco". "Em 20 anos de SUS, homens e mulheres com problemas cardíacos passaram a viver 10 anos a mais. O tratamento da diabetes no SUS tem uma abordagem que nenhum sistema privado tem igual. É uma tragédia política, ética e moral tirar essa capacidade de intervenção."
 
Gastão defende a radicalização. "Temos de ampliar o bloco político de usuários e dizer que o SUS é a solução, de enfrentar esse tema com a população, brigar por carreira, pela base técnica, e o movimento sanitário deve priorizar junto às universidades a construção da ideia de que o ajuste fiscal faz mal à saúde. Temos de disputar esse discurso, combater o da meritocracia, e voltar para as bases. Cadê a esquerda nas periferias? Vamos começar também a luta institucional, a desobediência civil."


Créditos da foto: ANDRÉ ZUCCOLO/LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL/REVISTA VAIDAPÉ