segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Oito pessoas detêm riqueza equivalente a de metade da população mais pobre do mundo


Oito pessoas detêm riqueza equivalente a de metade da população mais pobre do mundo

Deutsche Welle

Entre os mais ricos, todos são empresários e homens, afirma relatório da Oxfam. Para a organização internacional, o nível de desigualdade "ameaça fraturar nossa sociedade"
O abismo social entre os super-ricos e as camadas mais pobres da população mundial é maior do que se pensava, com apenas oito pessoas detentoras de uma riqueza equivalente ao acúmulo total da metade menos favorecida do mundo, ou seja, 3,6 bilhões de indivíduos. O alerta foi feito nesta segunda-feira (16/01) pela ONG Oxfam (Comitê de Oxford de Combate à Fome), por ocasião da realização nesta semana do Fórum Econômico Mundial de Davos. A ONG chamou a atenção para um nível de desigualdade que "ameaça fraturar nossa sociedade".
Segundo o documento, intitulado "Uma economia para 99%", seis dos indivíduos mais ricos do mundo são dos Estados Unidos, um é da Espanha e um é do México. Todos são empresários e homens. São eles: Bill Gates, da Microsoft; Amancio Ortega, da Inditex; Warren Buffett, maior acionista da Berkshire Hathaway; Carlos Slim, proprietário do Grupo Carso; Jeff Bezos, da Amazon; Mark Zuckerberg, do Facebook; Larry Ellison, da Oracle; e Michael Bloomberg, da agência de informação de economia e finanças Bloomberg.
Para a entidade, o relatório evidencia que os novos dados disponíveis, sobretudo da China e da Índia, permitem afirmar que "a lacuna entre ricos e pobres é muito maior do que se temia".
Em comunicado, a diretora-executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima, afirmou que, "quando uma em cada dez pessoas no mundo sobrevive com menos de US$ 2 por dia, a imensa riqueza que acumulam apenas alguns poucos é obscena".
"A desigualdade está prendendo centenas de milhões de pessoas na pobreza; está fraturando nossas sociedades e minando a democracia", afirmou.
Byanyima acrescentou ainda que ao tempo que muitos salários se encontram estagnados, as remunerações dos presidentes e altos diretores de grandes empresas têm disparado. "Os investimentos em saúde e educação são cortados, enquanto as corporações e os super-ricos reduzem ao mínimo sua contribuição fiscal".

O novo mapa da desigualdade brasileira

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picture-alliance/epa/N. Shrestha/S. Chirikov
Segundo a Oxfam, abismo social entre os super-ricos e as camadas mais pobres da população mundial é maior do que se pensava
Segundo a Oxfam, abismo social entre os super-ricos e as camadas mais pobres da população mundial é maior do que se pensava
De acordo com a organização, o ritmo no qual os mais ricos acumulam cada vez mais riqueza poderia dar lugar ao primeiro "trilionário" do mundo em apenas 25 anos. "Com essa concentração de riqueza, esta pessoa necessitaria esbanjar um milhão de dólares por dia durante 2.738 anos para gastar toda sua fortuna", segundo a Oxfam.
Desigualdade crescente
Entre 1988 e 2011, a renda dos 10% mais pobres da população mundial aumentou em média US$ 3 por ano, enquanto a do 1% mais rico cresceu 182 vezes mais, a um ritmo de US$ 11.800 por ano.
As mulheres sofrem maiores níveis de discriminação no trabalho e assumem a maior parte das funções não remuneradas. Segundo a Oxfam, no ritmo atual, levará 170 anos para se conseguir a igualdade salarial entre homens e mulheres.
A organização propõe que os governos aumentem os impostos tanto das grandes fortunas como das rendas mais altas; que cooperem para garantir que os trabalhadores recebam salários dignos e que freiem a evasão e as artimanhas fiscais para reduzir ao mínimo o imposto de sociedades.
Além disso, recomenda que os governos apoiem as empresas que operam em benefício de seus trabalhadores e da sociedade e não só no interesse dos acionistas; e que assegurem que as economias sirvam de maneira equitativa a mulheres e homens.

Efeito da Lava Jato: grande obra no Brasil só para estrangeiros

17/01/2017 10:58 - Copyleft

Efeito da Lava Jato: grande obra no Brasil só para estrangeiros

Trinta empresas vão participar da licitação para a construção da Unidade de Processamento de Gás Natural do COMPERJ. Nenhuma é brasileira.


Haroldo Lima - Portal Vermelho
Patrícia Santos / Banco de Imagens Petrobras
O COMPERJ é um projeto gigantesco da Petrobrás, cuja pedra fundamental foi lançada em junho de 2006 pelo então presidente Lula. É um dos maiores investimentos do setor petrolífero e petroquímico do mundo. Estava sob a responsabilidade basicamente de empresas brasileiras. Foi paralisado. A unidade de gás, que agora será retomada, não é parte fundamental do projeto original, mas é básico para processar o gás dos campos do pré-sal da Bacia de Santos.

A importância de serem retomadas as obras da UPGN do complexo petroquímico do Rio de Janeiro é incontestável. Contestável e dramático é que essa grande obra seja entregue exclusivamente a empresas estrangeiras.

O Brasil se categorizou, no curso das últimas décadas, por ter centros de excelência em engenharia de grandes obras. No planejamento e execução das maiores obras efetuadas no país e na América Latina, há muitos anos, a contribuição das empresas estrangeiras foi secundária ou inexistente, como a Ponte Rio - Niterói, a Usina Hidroelétrica de Itaipu, as Usinas de Angra 1 e Angra 2 e os Linhões em 765 KV (extra alta voltagem) entre Foz do Iguaçu e Tijuco Preto (SP). Em 2013, das 50 maiores obras de engenharia em curso no mundo, 14 estavam no Brasil:

Obras da Copa, Hidrelétrica Belo Monte, Hidrelétrica Santo Antônio, Hidrelétrica Jirau, Programas de saneamento, Hidrelétrica São Luiz de Tapajós, Transposição do São Francisco, Rodoanel de São Paulo, Gasoduto Urucu-Coari-Manaus, Cinturão das Águas do Ceará, Hidrelétrica Teles Pires. Linhão Manaus-Tucuruí-Amapá, Usina nuclear Angra 3 e Arco rodoviário do Rio de Janeiro.,





A essas, reconhecidas internacionalmente, devemos agregar o Projeto do PROSUB, de construção do submarino nuclear, com tecnologia própria, vital para a proteção das águas que encobrem tanta riqueza, como o pré-sal.

Problemas de diversas naturezas fizeram com que essas obras se atrasassem e tivessem seus orçamentos aumentados. Mas o que é certo é que a engenharia brasileira de grandes obras estava presente e dirigia todas elas, e estava presente ainda em alguns grandes empreendimentos em outros países.

Essa expertise em grandes obras passou a ser um fator de prestígio do Brasil no mundo, de garantia de crescimento do país, de ampliação da força de trabalho empregada, inclusive aquela altamente qualificada, e de capacidade do Brasil resguardar sua soberania em um setor chave, o setor de grandes obras públicas e privadas.

O núcleo que permitia nosso país ter essa performance era a existência de um número expressivo de grandes empresas de engenharia, que tinham nível técnico de excelência em âmbito mundial.

Quebrar a força nacional dessas empresas era do maior interesse de grandes grupos rapaces internacionais, inconformados com o fato de não hegemonizarem a feitura dos projetos e a execução das obras monumentais freqüentemente criados nesse país continental.

Os ingênuos, de direita e de esquerda, acreditam que um Juiz de primeira instância, desconhecido, embora pretensioso, com alguns Procuradores, limitados, desastrados e arrogantes, poderiam, de uma hora para outra, acometidos por algum desvelo moralista incontrolável, derrubar estruturas econômicas gigantescas, sozinhos. Não. Essa história ainda não está bem contada.

Na verdade, ainda não se sabe em que medida forças alienígenas poderosas fomentaram a criação dessa Operação Lava Jato. Ainda temos que observar e pesquisar qual o sentido de viagens de Juízes e Procuradores, inclusive o Procurador Geral, algumas vezes, aos Estados Unidos, e de cursos que ali fizeram. Precisamos saber como foi o estranho seminário de cooperação entre membros da Polícia Federal, Judiciário, Ministério Público e autoridades americanas, realizado no Rio de Janeiro, de 4 a 9 de outubro de 2009, que foi chamado de "Projeto Pontes" ("construindo pontes para a aplicação da lei no Brasil") e que produziu um Informe remetido ao Departamento de Estado americano, conforme foi revelado pelo Wikileaks.

A Operação Lava Jato identificou e desmascarou um esquema corrupto de grande monta que há anos dilapidava principalmente os cofres da Petrobras. E isto foi positivo. Mas ela não fez só isto, nem fez isto bem feito. Cometeu erros de tal monta, com tanta parcialidade, pirotecnia e arbítrio, que pode prejudicar os processos e beneficiar os corruptos.

Mas, a Lava Jato foi muito além de identificar e prender empresários e políticos corruptos ou suspeitos. A título de coibir a corrupção, desmontou os maiores conglomerados brasileiros da área de engenharia e construção de grandes obras, e com isto paralisou empreendimentos, desempregou muita gente, derrubou o PIB nacional.

Pelos frutos conhece-se a árvore. E o fruto que agora apareceu é revelador: a licitação para a retomada de uma grande obra no Brasil será feita apenas com empresas estrangeiras, posto que, pela legislação brasileira, empresa inidônea não pode ser contratada pelo poder público. E, por obra e graça da Lava Jato, todas as grandes empresas de engenharia brasileiras foram transformadas em "inidôneas". Idôneas são as estrangeiras!!!

O famoso personagem de Shakespeare, Hamlet, antes de elucidar as dúvidas que tinha, profetizava: "Há algo de podre no Reino da Dinamarca". Perguntamos: "Há algo de podre na República de Curitiba ?". Descobriremos.

Finalmente, pode-se levantar a questão: tendo havido corrupção, como de fato houve, qual seria a saída então?

Inicialmente temos que responder qual não pode ser a saída. Definitivamente, para se debelar a corrupção, a saída não pode ser acabar com grandes empresas, desmoralizá-las, inviabilizá-las e entregar, na bacia das almas, todo o estratégico setor de grandes obras públicas e privadas brasileiras a grupos estrangeiros. Isto é o que não poderia ser feito. E então, como proceder?

Também aí comecemos por dizer como não se devia proceder: não se poderia usar o suposto combate à corrupção para objetivos políticos partidários, fazendo vazamentos seletivos de informações, seleção de corruptos, protegendo os corruptos-amigos e utilizando métodos arbitrários e ilegais.

Teria, sim, que encontrar o meio de se combater a corrupção com firmeza, mas sem dar prejuízo à Nação, sem liquidar empresas e postos de trabalho. Assim é a experiência internacional.

Ninguém vê falar em esvaziamento de empresas e queda de PIB em algum país porque foram identificados e punidos corruptos. É comum, em países asiáticos, corruptos serem presos e condenados até à morte, mas as organizações às quais serviam seguem em frente. Em 2008, nos EUA, várias empresas se envolveram em grossa corrupção, no escândalo da chamada bolha imobiliária. Dirigentes da General Motors e do Citibank, dois gigantes americanos, responderam processos criminais. Mas nada aconteceu com a GM nem com o Citibank. Não houve desemprego nem recessão.

Por último, sobre o que poderia ser feito, não esqueçamos: a intervenção estatal, pelo menos temporária, em empresas problemáticas, pode ser feita.

Quando se imobilizam grandes empresas, promove-se demissão em massa de seus trabalhadores, paralisa-se suas obras e praticamente se a inviabiliza, aí, o combate à corrupção é um pretexto, e o objetivo básico é outro, é um objetivo de traição nacional, o de liquidar o concorrente nacional para abrir as portas do país ao capital estrangeiro.

Haroldo Lima - é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil


Créditos da foto: Patrícia Santos / Banco de Imagens Petrobras




Grécia de hoje, Brasil de amanhã

02/01/2017 12:01 - Copyleft

Grécia de hoje, Brasil de amanhã

Embora seja um drama que narra três histórias amorosas, o pano de fundo de todas elas é didático para os brasileiros da era pós-PEC 55.


Léa Maria Aarão Reis
reprodução
O filme do grego Christoforos Papakaliatis (2015), em cartaz há três semanas, mesmo mal lançado em apenas oito salas do país, ganhou um título infame em português: Mundos Opostos. É injusto, mas comercial. Embora seja um melodrama que narra três histórias amorosas pautadas pela pieguice, o pano de fundo de todas elas é didático para os brasileiros da era pós-PEC 55 que está se anunciando para nós.
 
A Grécia e a tragédia social e econômica que lá se abateu e perdura há cerca de dois anos depois do plano de austeridade com submissão forçada ao capital globalizado imposto pela União Europeia, FMI e Banco Central Europeu, terra arrasada onde a população amarga o pão amassado pelo(s) diabo(s), sem dinheiro no bolso para comprá-lo e comê-lo.
 
Eu sou você amanhã seria um título melhor para o filme grego.
 
Também roteirista e ator de Mundos Opostos, o diretor Papakaliatis desenha três situações nefastas que já foram gestadas e vicejam na intimidade das famílias e nas ruas do país: a discriminação, o preconceito e a agressividade aos imigrantes (aqui, também aos mais vulneráveis: mendigos, travestis, gays, indígenas e moradores de rua). A consequente perseguição dos grupos xenófobos e milícias neonazistas e de extrema direita aos refugiados – aqui, além deles, às esquerdas e aos estudantes que ocuparam milhares de escolas nos últimos meses. E as crueis ondas de demissões coletivas – a consagrada ’flexibilização’ ensinada nos manuais neoliberais - em empresas de todos os portes, gerando taxas recordes de desemprego (13% tendendo a subir), pobreza e, com certa frequência, tragédias previsíveis – suicídios, atentados de rua, vidas truncadas.




 
Este filme-mosaico se passa na Grécia atual e é construído com três histórias em que o tema superficial, de visibilidade imediata é sempre o mesmo: a relação de amor entre um estrangeiro e um grego.
 
A atração mútua de um refugiado sírio e uma universitária cujo pai tornou-se um ultra - xenófobo; a tesão de um executivo grego e de uma sueca por ele que vem administrar as demissões em massa da firma onde o homem trabalha para tornar mais atraentes as ações da sua empresa, em Estocolmo, compradora do negócio que o quer ‘’enxuto’’.
 
O amor que nasce entre uma dona de casa de meia idade, da classe média, triste e empobrecida que na condição de precarizada, não possui mais dinheiro suficiente para comprar os produtos habituais, no supermercado (tomates-cereja, por exemplo; a sua paixão), e um professor alemão aposentado que vai viver em Atenas e trabalhar como consultor na Biblioteca Nacional - um apaixonado pela Mitologia grega e por Eros.
 
A primeira história pretende mostrar, mesmo em condições difíceis e instáveis (a dos gregos), como o apoio e a solidariedade (aos imigrantes) prevalecem e deságuam no afeto entre os jovens - numa mesma medida simétrica do ódio e da desconfiança da população de mais idade, que sofre com o austericídio de estado e rejeitam com violência os que chegam procurando refúgio.
 
No segundo movimento, a relação entre a Grécia cujo símbolo é o executivo de Atenas (interpretado pelo próprio diretor) e os países europeus nórdicos personificados na CEO sueca,  protagonistas e porta vozes do capitalismo financeiro avançado que, com hipocrisia, quer ajudar a reerguer o país do sul do continente ao preço do sofrimento de todos e de imensos prejuízos sociais.
 
A última fábula fecha o filme com tratamento de hiper realidade felliniana. Trata da relação entre gregos e alemães. É uma metáfora da simpatia que em determinado momento, em 2014, alguns países demonstraram pela causa da Grécia que anunciava sua falência, em particular a Merkel.
 
O ator americano oscarizado J. K. Simmons faz o professor alemão vivendo na despreocupação da sua aposentadoria, o oposto dos idosos gregos aposentados cujas imagens inundam de vez em quando a mídia ocidental, catando no lixo das ruas de Atenas restos de comida.
 
Bem instalado na sua situação financeira, o intelectual se apaixona pela dona-de-casa que passa um dia, todas as semanas, sentada no banco da praça diante do supermercado onde não entra porque não tem recursos. É o seu único e triste momento de lazer. Já a Grécia é a paixão do alemão.
 
É inteligente que os primeiros encontros do casal de meia-idade se passem na rua, defronte do supermercado em que a grega  não tem acesso, e, pouco a pouco, à força do afeto, vão ocorrendo dentro da loja para onde o alemão leva a mulher. Ele, detendo o poder de compra e ela sonhando com as prateleiras tentadoras.
 
Apesar de comercial, como foi dito, Mundos Opostos  trata de um tema que nunca é exagerado abordar – apesar da sua pieguice -, neste instante, num país como o Brasil, no qual a mídia mente, distorce e sonega informações diariamente.
 
Nos últimas semanas, diversos cientistas políticos e observadores, como o ex - Ministro Roberto Amaral, vêm relembrando a penosa situação da Grécia pós austericídio e relacionando-a com as medidas criminosas da PEC 55, criação e obra do governo que assaltou o poder, em Brasília, este ano.
 
Detalhe: é conveniente lembrar que os gregos tinham o segundo maior orçamento militar entre os membros da OTAN em relação ao seu Produto Interno Bruto, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
 
Diz o ex-ministro e cientista político Roberto Amaral sobre a burguesia industrial daqui: “ ( ...ela ) dá sinais de inquietação, pois já vê no final do túnel um Brasil próximo da tragédia grega, afundado na depressão, a outra face de nossa inépcia e da opção neoliberal pela inserção subordinada na globalização.”
 
Alguns analistas comparam o austericídio à brasileira com outras duras medidas no mundo - muitas das quais foram implementadas  pelos governos após a crise financeira em 2008. Descobriram que aqui ele será particularmente grave.

A professora de Economia Laura Carvalho, da Universidade de São Paulo, é uma que ressalta: quando alguns países implementam regras para limitar o crescimento da despesa ao longo do tempo, nenhum deles retira os gastos do crescimento do PIB inteiramente. “ Ou seja, os planos de austeridade não costumam congelar os gastos de hospitais, por exemplo, mesmo quando a economia começa a crescer novamente e gerar mais receita do governo,” ela lembra, e conclui:  “O campeão de futebol é agora campeão mundial na austeridade."

Um alto funcionário das Nações Unidas, há dias,  advertiu o Brasil sobre como a medida coloca o país em "uma categoria socialmente regressiva" e está em contradição com as suas obrigações de Direitos Humanos.

Na contramão da crítica cinematográfica tradicional conservadora, apesar da fragilidade e mesmo da obviedade do pequeno filme de Papakaliatis, é útil assisti-lo neste grave e penoso momento em que a PEC 55 se abate sobre o Brasil e tornando-o a Grécia de amanhã - ou até pior.


Créditos da foto: reprodução

Os editoriais no Brasil e no mundo e a movimentação da economia

14/01/2017 12:42 - Copyleft

Os editoriais no Brasil e no mundo e a movimentação da economia

As "reformas" que estão sendo feitas nem de longe vão fazer a economia se recuperar, tanto aqui no RS como no país, vão apenas repor em parte as perdas.


Tarso Genro
Wikimedia Commons
O livro "The New Yorker - a graça do dinheiro" (edição da Zahar, 2016) que publica "as melhores charges do "New Yorker" sobre economia entre 1925 e 2009,  encerra com uma peça que sintetiza uma boa parte da história do capitalismo americano, no último século. Lá está a figura do executivo de uma grande empresa dizendo, com as mãos nos bolsos, aos seus empregados atônitos: "Ainda somos a mesma grande empresa que sempre fomos, apenas deixamos de existir." 


Esta charge lembrou-me um editorial de "Zero Hora", de 4 de janeiro deste ano, titulado  "A degradação da Administração Pública", bem como de um quadro de Paul Klee, de 1920, o "Angelus Novus". O editorial fala de um Estado, segundo ZH, que deve deixar de existir nas suas funções públicas mais relevantes. Do olhar sobre o quadro de Klee -com o seu anjo bifronte- pode-se deduzir a perspectiva de futuro do executivo americano, que dá um sentido para o progresso infinito.


Tanto o anjo de Klee, como o executivo da empresa falida, sabem de um passado de ruínas, guerras, mortes, vitórias e conquistas do progresso, na História mundo ou da empresa. Ambos veem os próximos séculos pela tempestade que os "impele irresistivelmente para o futuro", que decifram como "um amontoado de ruínas que cresce até o céu", que se dá o nome de progresso, como disse Walter Benjamin.






 

O anjo de Klee vê a si mesmo como vínculo de uma inexorável dor do mundo que se agravará; o executivo da grande empresa "quebrada", não é menos fatalista, mas sabe que no capitalismo -de uma forma ou de outra- ele será salvo: a ruína particular da sua organização privada não é a ruína da sua classe, nem das formas de acumulação de riquezas que a fizeram e a levaram à ruína. Pode, portanto, afirmar: "ainda somos uma grande empresa, apenas deixamos de existir". E é verdade. Ela sobreviverá sempre, como outra forma particular, pois permanecerá viva -de uma ou outra maneira- no fluxo ascendente do capital universal.

 

O editorial de "Zero Hora" merece uma atenção especial, não porque traga algo de novo na ideologia da empresa ou nas velhas receitas do ultraliberalismo para reformar o Estado. Mas porque ele é honesto na sua visão de mundo, propositivo sobre a continuidade dos ajustes e da "austeridade" e diz, sinceramente, qual é o seu alvo imediato, o setor público e os “privilégios” dos seus servidores, bem como consegue popularizar as receitas tecnicistas da direita para combater a crise. Torna-se, por isso, bom "ponto-de-partida" para um debate sobre a crise. 

 

Qual o seu conteúdo? O referido editorial denuncia de forma genérica a “incompetência” dos administradores (os políticos) e a “gastança descontrolada” do setor público, não de forma gratuita. O debate proposto nestes termos permite ao editorialista colocar os "políticos-administradores" de qualquer ideologia ou partido, no mesmo saco: um bando de espertalhões incompetentes. Até agora, certamente, pois o passado já está sendo  corrigido por Temer, Padilha, Sartori e seus certamente novos novos administradores.

 

A ideologia que subjaz ao conteúdo do editorial transfere para os “administradores” do passado a responsabilidade da crise do sistema montado pelo capital financeiro, que capturou e Estado pelo controle que exerce sobre a dívida pública e também omite quais foram, efetivamente, os principais beneficiários das “gastanças”, nas épocas de funcionamento “normal” daquele sistema. 


Se a concentração de renda aumentou, o número dos muito ricos diminuiu (embora ficassem mais mais ricos), a natureza foi devastada, as guerras de conquista prosperaram e a dívida pública de países como o nosso, cresceu, não é difícil concluir que o editorial trata de uma das catástrofes cíclicas do capitalismo, refletida no Brasil e no Rio Grande, como se esta fosse uma crise provocada pelos "políticos" que administraram-na, não como um resultado da reciclagem do sistema global para retomar o "progresso": um novo momento de "progresso", com concentração de renda e distribuição de migalhas num futuro incerto. 

 

   Não especifica, o referido editorial, também a habilidade e a seriedade dos administradores -atuais ou anteriores- no contexto da crise mundial aberta pela vigarice privada do “subprime” americano. Nem se reporta à conformidade das decisões, de cada Governo, com os projetos de Estado e Sociedade que cada um deles comprometeu-se ou representa. Com este “embolamento” passa a ideia que todos deveriam aplicar uma receita universal para sair da crise, como se não tivéssemos opiniões e projetos diferentes e não fôssemos um pedaço do mundo mergulhado no domínio do capital financeiro. E recomenda a solução: administradores que rejeitem as "benesses" a servidores – que certamente existem mas que não são o motivo da falência do Estado –  que sejam mais responsáveis e menos ineptos.

 

Abstrai, assim, que estamos dentro de uma das crises cíclicas do sistema do capital -provavelmente num dos seus momentos mais graves-  num regime de acumulação e de propriedade, que teve os seus momentos de "normalidade" e que nestes momentos -nos quais os governos fizeram "gastanças" e os administradores foram "irresponsáveis"- aquelas gastanças" e "inépcias"  tornaram, no mundo, os ricos mais ricos e o dinheiro mais concentrado. E que isso se deu, também, por meios ilícitos para o Direito Internacional – com guerras de conquista para apropriação de fontes de energia e fortalecimento da indústria armamentista (com o aumento dos privilégios do "rentismo"), com mais pobreza, fome e morte, na África, na Ásia e na América Latina. 


A omissão deste processo excepcionalmente perverso, que teve raras exceções em países que promoveram tímidas reformas distributivas, não é gratuita, pois permite que se jogue sobre os pobres e remediados os ônus da crise e se  puna as próprias vítimas do sistema, que já eram as mais prejudicadas, mesmo quando ele ainda atravessava um funcionamento normal. De outra parte, é bom ponderar que aquilo que os ajustes desta natureza menos conseguem é atingir os verdadeiros privilégios do serviço público, em regra protegidos por normas constitucionais, o que implica que os mais atingidos e sacrificados sejam os pobres e os remediado, tanto no âmbito do Estado, como na esfera da atividade privada.

 

Por estes critérios, "gastanças" como as do "RS mais Igual", que agregavam um valor para alimentar melhor as crianças pobres de até "x"anos de idade, que já estavam no cadastro do bolsa-família, são mais nocivos do que os gastos de publicidade. A instalação de um Conselho de Desenvolvimento, para decidir sobre políticas públicas estratégicas, onde os trabalhadores, os intelectuais e os empresários, podiam discutir em pé de igualdade (na luz pública) as suas demandas sobre o Estado, é uma perda de tempo sem sentido, que certamente atrapalha a "austeridade" urgente. O aumento real do salário-mínimo regional, então, é um sacrilégio!

 

Por estes critérios, também os subsídios ao microcrédito, para pequenos e microempresários,  a correção dos salários arrochados de servidores, o chamamento por concurso público de funcionários para a Segurança e Professores para o Magistério, é "gastança", que certamente deve ser evitada, porque o bom acordo feito pelo Estado, na era Malan-Brito, deve ser complementado com novos arrochos, despedidas, dilapidação de políticas sociais e estrangulamento das formas novas de participação democrática, que hoje são adotadas até pela sra. Merkell, na Alemanha, em Portugal, na Espanha e na Islândia.

 

A "ideologia do caminho único", como se conclui do editorial modelar de "ZH", não admite que possa existir uma saída social-democrata para a crise, contraposta às saídas ultraliberais, que reduzem o Estado à condição de uma máquina burocrático-financeira de pagamento da dívida pública, superfaturada pela especulação e pela arbitragem unilateral dos seus custos pelos próprios credores. Esquece, ideologicamente, o editorial de ZH que, “no fundo, a austeridade é principalmente um problema político de distribuição de renda, não um problema de contabilidade fiscal" ("Austeridade e  e Retrocesso", documento publicado pela Fundação Ebert "et"alii), porque os seus efeitos afetam de forma distinta os diversos agentes e econômicos e classes sociais.

 

Como mostra um trabalho recente do professor Ladislau Dowbor, o déficit brasileiro, em 2014, foi 2% do PIB, o que é bastante satisfatório considerando que na própria União Européia, um déficit de 3% é tido como normal e aceitável. Pensando nesta complexidade da crise mundial é que sempre alertamos que não haveria saída para a situação do Estado (gestada há várias décadas) sem crescimento econômico e sem a reestruturação da dívida pública, cuja liderança o RGS pontuou, entre 2011/2014, obtendo inclusive uma grande  vitória contra a burocracia do Banco Central e da Fazenda, que não queriam sequer discutir o assunto. Tal fato nos permitiu, como primeiro capítulo desta luta por uma “saída para a crise”, entregar o Estado com um passivo da dívida, menor do que recebemos e bater sucessivos recordes de arrecadação sem amentar impostos.


As "reformas" que estão sendo feitas nem de longe vão fazer a economia se recuperar, tanto aqui no Estado como no país, e quando ela, a economia, respirar novamente, vai apenas repor, em parte, as perdas brutais que estamos sofrendo até que se inicie, novamente, mais um ciclo de "reformas" para que o Estado se dissolva integralmente no mercado e possamos celebrar o reino da precariedade, da meia jornada, das jornadas intermitentes e mal remuneradas no altar do deus-dinheiro, concentrado no rentismo e na especulação.  


A criminalização da política, por meio de ideologias como essa, e a politização da criminalidade, com os "ghetos" que aumentarão nas prisões e nas favelas, pode abrir um ciclo de anomia e de violência sem precedentes na História do nosso país. Se estamos separados radicalmente, agora, pelos juízos diferentes que temos sobra a crise, poderemos estar juntos no futuro, mas só unidos pela desgraça de uma vida impossível. Repactuar o país imediatamente por eleições gerais e diretas é uma chance de evitar tudo isso.   


Créditos da foto: Wikimedia Commons

Destaque da semana: em Davos, Oxfam relata que desigualdade é maior do que se pensava

16/01/2017 10:21 - Copyleft

Destaque da semana: em Davos, Oxfam relata que desigualdade é maior do que se pensava

Relatório do ano passado dizia que 62 bilionários detinham tanta riqueza quanto 50% da população. Desta vez o relatório diz que este número se reduz a oito


Flavio Aguiar, de Berlim.
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Começa nesta segunda-feira (16.01) o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O  ministro Henrique Meirelles comparecerá levando a missão de atrair investimentos, comprovando que agora o Brasil é um país “sério” que finalmente está enfrentando “seus problemas”.
 
Naturalmente a mídia conservadora brasileira deverá apresentar o esforço de Meirelles como bem sucedido. Não se esperam surpresas deste lado.
 
Mas mais uma vez o esforço do governo brasileiro estará na contramão. Desde pelo menos o ano passado o Fórum Econômico, ao contrário do que fazia antes, quando apresentava quase sempre uma visando positiva na economia mundial, vem apresentando um balanço problemático do tema, apontando o aprofundamento da desigualdade como a espinha dorsal dos problemas do planeta.
 
Os dados são cada vez mais estarrecedores. No ano passado o relatório da Oxfam - um conglomerado de dezenas de ONGs e associações semelhantes que atuam em mais de 90 países, apresentado no mesmo Fórum, dizia que 62 bilionários detinham tanta riqueza quanto 50% da população mundial. Desta vez o relatório diz que este número se reduz a oito. Se levarmos em conta os outros 56 do relatório passado, a desigualdade terá dados mais dramáticos ainda.




 
Estes bilionários são: Bill Gates, da Microsoft, Amansio Ortega, da Zara, Carlos S. Helm, da mexicana Carso, Warren Buffet, da Berkshire Hathaway, Jeff Rezos, da Amazon, Mark Zuckerberg, da Facebook, Larry Ellison, da Oracle tech, e Michael Bloomberg, da Bloomberg News. Juntos, eles detém uma riqueza avaliada em 426 bilhões de dólares, que corresponde ao valor das posses de 3,6 bilhões de pessoas na outra ponta da pirâmide social planetária. Diz a Oxfam que a reavaliação decorreu da obtenção de dados mais precisos sobre estas empresas e também sobre a pobreza no mundo, sobretudo na Índia e na China.
 
Olhando-se o universo destas empresas, observa-se que:
 
1.Microsoft, Oracle, e Facebook atuam na frente virtual e proximidades.
 
2.A Amazon também atua na frente virtual, especializada em vendas de produtos editoriais.
 
3.A Berkshire Hathaway é uma empresa especializada em administrar outras empresas, e faz algum tempo se especializa em compra-las, agregando-as ao seu conglomerado.
 
4.A mexicana Carso se especializa em infra-estrutura e energia, macro-construções e no varejo destes setores.
 
5.A Bloomberg News é hoje um conglomerado de empresas especializadas em informações para o setor financeiro.
 
6.A galega Zara é uma rede de vestimentas, calçados e produtos afins para mulheres e crianças.
 
Todas elas têm uma atuação em escala planetária.
 
Foi-se o tempo, portanto, em que o Fórum de Davos e o Fórum Social Mundial, que nasceu em 2001, em Porto Alegre, eram antípodas. O FSM perdeu muito de seu ímpeto, ao recusar uma aproximação mais diretamente política (sem cair no partidarismo) dos temas mundiais. O Fórum de Davos continua em grande parte dedicado a apresentar soluções paliativas para os problemas mundiais, mas pelo menos vem se aproximando mais de um quadro realista da desigualdade planetária.
 
Quanto a Porto Alegre, hoje presa de uma plêiade de políticos e de uma classe média que se tornou largamente conservadora, deixou de ser “a capital do século XXI” que já foi. E como um todo o Brasil do governo ilegítimo de Michel Temer se afunda cada vez mais no pântano da desigualdade. Segundo dados da OIT, em 2017 um entre cada três novos desempregados no mundo será brasileiro.



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