quarta-feira, 5 de julho de 2017

SOBRE A BIOGRAFIA DE OTOMIRES LUNA BATISTA (1930-2014)

SOBRE A BIOGRAFIA DE    OTOMIRES LUNA BATISTA  (1930-2014)


      OTOMIRES  LUNA BATIsTA ESCREVEU DOIS ROMANCES ANTES DA DITaDURA MILITAR BRASILEIRA QUE DUROU UNS 20 ANOS  ( de abril de 1964
 a 1984). Nascida no nordeste do pais, em João Pessoa, capital do estado da Paraiba, em fevereiro de 1930, casou-se aos 16 anos não havendo concluido seus estudos. Lia muito, todo tipo de literatura, foi professora primaria,  e seu esposo era jornalista (e o foi toda a sua vida). Foram morar no sul do pais, onde ela escreveu seus romances, que nunca publicou por problemas econômicos, mas também porque seu esposo temia que fosse presa e seus livros considerados subversivos. Seus relatos sempre se relacionavam com a criação de personagens pobres, lutando por uma vida melhor. Na época da grande repressão, depois de 1968, seu esposo picou, rasgou em pedaços todas as folhas de seus romances, foi colocando-os por partes na privada, e dando a descarga, até que as folhas desaparecessem. 
       Na época ela não tinha copia de seus escritos, de seus romances, e não deveria conserva-las,  mesmo que as tivesse , pois como jornalista, Oduvaldo Batista sabia o que significava a censura, a perseguição  e a tortura.  Cometeu um ato feio, triste - a destruição de dois livros, de duas criações, mas também salvou sua esposa das garras de um regime injusto e desumano.
    Otomires publicou alguns contos em varias Antologias em diferentes estados brasileiros. Ela continuou a escrever pouco tempo depois, ainda em São Paulo, na metropole onde moravam ha anos, mas de volta a João Pessoa, depois de 30 anos na capital paulista, ela produz a maioria de seus contos na Paraiba.  Ja nos anos 2000, sua filha residente na França,  cumpre a promessa de publicar seu livro "Contos do Cotidiano", - cujos manuscritos conservava preciosamente numa pasta em sua residência  na França, e em São José do Rio Preto, estado de São Paulo, onde Otomires  se encontrava perto de sua neta Zuleika ( precisamente a 15 minutos, em Mirassol , na casa de repouso Le Residence, onde Otomires estava  morando.
      Numa de suas vindas ao Brasil, sua filha Roselis, finalmente cumpre sua promessa; Otomires teria seu livro editado; seu volume foi,   além do mais,  prefaciado pelo minucioso e experiente doutor  em literatura, o  professor paulista João Adalberto Campato Junior ;, 
   Assim, Otomires  Luna Batista teve seus contos publicados aos 83 anos, sendo naquele ano provavelmente a escritora senior de todo o Brasil. 
   Sua literatura é sensivel sem ser piegas. O professor J.A.Campato Jr. analisa seu estilo com  profundidade na introdução a "Contos do Cotidiano". Seu editor, João Paulo Vani disse : _Ela deu voz aos que não podem ou não sabem explicar os que a vida lhes inflige. Otomires Luna  Batista  esteve presente no lançamento de seu livro e faleceu um ano depois. 

Fonte: Roselis Batista

“Nosso patrimônio genético agrícola está sendo sequestrado. Deveria ser tema de segurança nacional”

“Nosso patrimônio genético agrícola está sendo sequestrado. Deveria ser tema de segurança nacional”

José Maria Tardin: “Patrimônio genético agrícola está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Marco Weissheimer
“O patrimônio genético agrícola brasileiro deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande.” A advertência é de José Maria Tardin, integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latinoamericana de Agroecologia (ELAA), localizada no assentamento Contestado, no Paraná. Tardin atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em vários países da América Latina.
Tardin esteve em Porto Alegre participando de um debate organizado pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) sobre a relação entre a agroecologia e os saberes de comunidades tradicionais. Além disso, participou de um seminário organizado pelo setor de educação e produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que discutiu a introdução da agroecologia nas escolas infantis e de ensino fundamental do MST em nível nacional. “Serão milhares de crianças que, nos próximos anos, estudarão agroecologia sistematicamente. Estamos dando um passo que representa uma das maiores alegrias da minha vida”, diz Tardin.
Filho de agricultores e trabalhando há décadas com o tema da agroecologia, Tardin fala, em entrevista aoSul21, sobre as raízes tradicionais desse tipo de agricultura no Brasil, destaca a decisão do MST de definir a agroecologia como uma agenda estratégica para o movimento e aponta os preconceitos e ameaças que pairam sobre a agricultura camponesa no Brasil, na América Latina e em todo o mundo. A erosão genética e a perda de saberes tradicionais são algumas delas.
Sul21: Como nasceu seu envolvimento com a agroecologia e, mais especificamente, com o ensino da agroecologia em escolas técnicas em diversos países da América Latina?
José Maria Tardin: Nasci no interior de São Paulo, filho de uma família camponesa que migrou das montanhas do Rio de Janeiro e se instalou em Martinópolis, região oeste do Estado. Meus pais chegaram nesta região como sem terra, conseguiram se estabelecer, mas depois perderam a terra no processo da Revolução Verde. Eu e um irmão fomos os únicos que seguiram na agricultura. Meus outros irmãos foram para outras áreas profissionais. Acabei indo para o Paraná onde morei por 34 anos, trabalhando como técnico. Em 2005, me engajei organicamente no Movimento Sem Terra, com a responsabilidade de atuar com as equipes que estavam dando início à criação da rede de escolas técnicas de agroecologia do MST e da Via Campesina. Desde aí, estou envolvido nesta área de militância em toda a América Latina.
“O primeiro campesinato que vai constituir o MST vem de uma tradição que chamamos de agricultura tradicional”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Sul21: Nos últimos anos, o arroz orgânico se tornou um carro-chefe da produção dos assentamentos do MST no Rio Grande do Sul. Qual a dimensão hoje do trabalho com a agroecologia promovido pelo MST, pela Via Campesina e por outras organizações ligadas à agricultura familiar?
José Maria Tardin: A agroecologia aparece de distintas maneiras no trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Se olharmos para a origem do MST, o primeiro campesinato que vai constituir o movimento vem de uma tradição que chamamos de agricultura tradicional. É um campesinato meeiro, sem terra, agregado, mas que vinha com uma larga experiência de uma agricultura de base ecológica bastante estabelecida. Parte deles, dependendo da situação, já adotava algumas práticas da agricultura industrial, sobretudo o uso de fertilizantes e de sementes certificadas. Essas famílias, na medida que foram se estabelecendo, passaram a reproduzir essa agricultura tradicional, preservando um patrimônio de conhecimento e também um patrimônio genético agrícola crioulo bastante diversificado. Isso ainda é muito forte no Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do Brasil.
Outra vertente que fará esse trabalho emergir no MST é a influência de agrônomos que tiveram uma formação bastante sensibilizada pela organização interna dos estudantes da Feab (Federação dos Estudantes de Agronomia) que tiveram um contato muito forte com agroecólogos pioneiros, sobretudo nos anos 80, que se articularam em um movimento chamado de agricultura alternativa. Esse movimento contestava a Revolução Verde com muita competência técnica e científica e capacidade de mobilização política. Muitos estudantes de agronomia foram atraídos a esse ideário de agricultura alternativa. Muitos deles, ao entrarem no Movimento Sem Terra, passaram a dinamizar, junto a essas famílias que tinham uma formação de agricultura tradicional, uma agricultura agroecológica.
Um exemplo disso aqui no Rio Grande do Sul é a Bionatur, que alia o perfil de uma agricultura tradicional com o de agrônomos militantes muito ativistas e entusiasmados com a ideia da agricultura orgânica. Em regiões como o Nordeste brasileiro , onde o campesinato sertanejo tem uma forte base tradicional, esse conhecimento tradicional foi se mantendo numa escala que, mesmo dentro do Movimento Sem Terra, não se tem uma noção exata do tamanho. Isso ainda não foi mapeado, mas é muito expressivo. Estou enfatizando muito o Nordeste porque é onde se concentra 70% da base social do MST com experiências bastante diversas.
Em 2000, MST definiu a agroecologia como um tema estratégico de sua agenda. Hoje já é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)
Há cerca de dois anos fui ao assentamento Maceió, no Ceará, que possui 16 quilômetros de praia. É uma praia paradisíaca, super-preservada, com dunas lindas. É uma assentamento grande, com mais de 500 famílias, que está sendo ameaçado por empresas de resort que querem tomar parte da área da praia para instalar hotéis de luxo. Outro setor empresarial que pressiona o assentamento é o da energia eólica. Eles precisam manter um acampamento permanente na praia para protegê-la da invasão empresarial. É uma rotina de 24 horas por dia e 365 dias por ano. O MST, como ato político para repercutir nacionalmente, criou lá a regata dos Sem Terra no mês de julho, que reúne milhares de pessoas.
As famílias vivem da agroecologia e da pesca com jangadas. É uma agricultura tradicional. Não são pessoas que passaram por um movimento agroecológico. É a tradição camponesa do sertanejo que ocupa a terra no litoral e realiza uma agricultura extremamente diversificada, em um padrão muito próximo do modelo agroflorestal, complementando essa atividade econômica com a pesca de jangada. É um assentamento totalmente coletivizado, sem divisão em lotes. Essa, aliás, é uma característica muito forte no Ceará, tanto no litoral como no sertão. As famílias têm um processo de organização dos assentamentos muito coletivizado, o que é muito mais desafiador em vários sentidos. Sempre desafiei os estudantes do MST do Ceará a pesquisar esse fenômeno, mas ainda não foi feita nenhuma pesquisa a respeito. É algo ainda a ser investigado.
Outra vertente que vai influenciar o MST, do ponto de vista da agroecologia, é a articulação nacional para além do campo, que produziu interfaces com ONGs ambientalistas, de agricultura orgânica, alem do próprio processo da Eco 92, no Rio de Janeiro, e do Fórum Alternativo dos Povos que ocorreu naquela ocasião. Vem daí também uma certa tensão que se desenvolveu entre o MST e setores ambientalistas que acusavam o movimento de ser degradador da natureza. Tudo isso foi desafiando o movimento a ir se qualificando neste tema. Outro acontecimento importante, em 1993, foi a presença do MST como fundador da Via Campesina internacional. Isso lançou os militantes do movimento em um processo de intercâmbio internacional que nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecológica de dois, três mil anos de história, na América Latina, na Ásia e, mais recentemente, na África. Essa efervescência internacional do campesinato trouxe para o MST uma gama diversificada de conhecimentos.
Sul21: Quando a agroecologia passou a integrar formalmente a agenda programática do movimento?
José Maria Tardin: O quarto congresso nacional do MST, que ocorreu em Brasília, em 2000, definiu a agroecologia como uma política estratégica do movimento. O tema passou, a partir daí, integrar as diretrizes nacionais do movimento. A orientação estratégica passou a se reorientar as famílias para fazer essa passagem da agricultura convencional para a agroecológica. Uma das primeiras decisões que o MST tomou para concretizar essa diretriz foi começar a formar técnicos. Esses técnicos não estavam disponíveis. Pelo contrário, eram raros. Assim, a formação de técnicos foi a prioridade das prioridades. Naquele momento, não existia no Brasil nenhum curso de formação em agroecologia. O MST deu um passo de vanguarda e iniciou uma experiência ainda embrionária, em 2001, para testar currículo e método pedagógico. Em 2002, começaram os primeiros cursos técnicos de agroecologia no Paraná. Em 2003, iniciaram os cursos também no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo, surgindo um grupo de escolas de nível médio para formar as primeiras turmas de técnicos em agroecologia.
“Intercâmbio internacional nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecológica de dois, três mil anos de história.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
O andar dessa experiência gerou uma efervescência no movimento e logo depois se decidiu que era preciso partir logo para cursos de graduação. Essa costura foi feita pela Via Campesina Latinoamericana. Em 2005, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, foi assinado um termo de cooperação com representantes dos governos do Brasil e da Venezuela para, entre outras coisas, criar a Escola Latinoamericana de Agroecologia no Paraná e do Instituto Latinoamericano de Agroecologia, na Venezuela. Assim, em apenas cinco anos, passamos de uma situação onde não havia nenhuma escola de agroecologia no Brasil para a criação da primeira escola de graduação. Logo depois, criamos outra escola no Pará, no assentamento Zumbi dos Palmares. Impulsionada por essas experiências, a Via Campesina criou o Iala Guarani, no Paraguai, o Iala Maria Cano, na Colômbia e o das Mulheres Campesinas, no Chile. Queremos abrir também uma escola no Haiti, mas lá a situação é mais complicada.
O ponto de partida de todo esse processo foi a escola cubana. Quem saiu na frente em educação em agroecologia na América Latina foi o Estado cubano, logo depois da queda do Muro de Berlim e da crise que se seguiu em Cuba em função do colapso da União Soviética e do leste europeu. O governo cubano deliberou que era preciso encontrar soluções técnicas para dar conta das demandas de alimentação. Foi um processo interessante, pois Cuba tinha adotado totalmente a Revolução Verde, com um modelo de agricultura industrial subsidiado pela União Soviética.
Os pesquisadores foram para as áreas mais longínquas das montanhas para falar com os camponeses que mantiveram a agricultura tradicional e não entraram na Revolução Verde. Esses camponeses tinham preservado todo um campo de conhecimento e material genético agrícola, vegetal e animal. Com base neste conhecimento e com a qualidade científica dos pesquisadores cubanos, foi iniciado um programa enorme de pesquisa em agroecologia e de educação em agroecologia. Antes de iniciar a nossa experiência, alguns militantes nossos foram para Cuba para conhecer esse sistema de pesquisa e de educação que já estava andando lá desde 1994. A nossa experiência piloto iniciou em 2001. Cuba criou um programa nacional em agroecologia e é hoje a grande escola latinoamericana nesta área. Hoje, o país tem 100 mil famílias camponesas fazendo agroecologia.
Sul21: Ainda hoje há um certo senso comum que associa a agricultura tradicional ao atraso. Você poderia dar alguns exemplos de como esse conhecimento tradicional tem atualidade para dar conta de problemas do presente?
José Maria Tardin: O campo em geral, sobretudo na America Latina, sofre uma discriminação enorme. É muito difícil para o campesinato e para os povos indígenas se afirmarem como detentores de saberes importantes para a sociedade. Há um poderoso histórico de negação dessa sabedoria. Se conhecermos minimamente a história da agricultura, essa tese cai por terra. A sociedade só chegou a ser o que é hoje porque, um dia, mulheres e homens no campo descobriram a germinação da semente, começaram a domesticar animais e a desenvolver o que somos hoje. O desconhecimento desse processo histórico é uma das razões pelas quais a população camponesa, indígena, quilombola e ribeirinha não seja considerada como detentora de conhecimento. Esse é um traço da ideologia dominante para desqualificar essas populações.
Hoje, em qualquer lugar do mundo, você vai encontrar essas populações resistindo a toda essa pressão não só ideológica, mas que se expressa de diferentes formas, mantendo seus conhecimentos e a agrobiodiversidade que é a base da agricultura. Hoje, em nível mundial, 70% da alimentação da humanidade é produto do trabalho camponês, da agricultura familiar. Essa não é só uma realidade brasileira.
‘Há um poderoso histórico de negação dessa sabedoria camponesa tradicional.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Eu comecei trabalhar no Paraná em 1981 e tive uma experiência que foi muito forte para mim. Em todo o centro-sul do Paraná e em parte do norte de Santa Catarina, o campesinato gerou um sistema muito específico chamado de “faxinal”, termo que pode ser traduzido como “mata rala”. Era um sistema autogestionário com um grande território em comum chamado de “criadouro”, dentro do qual eram mantidos os animais. Essa área também tem um espaço de floresta, caracterizando um sistema silvo-pastoril, com pastagem nativa e erva mate em grande quantidade. As famílias moravam aí dentro, cada uma com um pequeno quintal para cultivar coisas do dia-a-dia. Os rebanhos, altamente diversificados, eram criados soltos dentro desse território.
A bibliografia que eu conheço, que pesquisou um pouco mais a fundo esse sistema, relata que ele tem suas origens no início do século 19, em especial a partir da chegada de grandes levas de imigrantes. Uma pesquisadora do Paraná relatou que os caboclos faziam pequenas roças a partir da abertura de clareiras na Mata Atlântica. Essa roça era cercada por causa da presença dos animais silvestres. Com a chegada dos imigrantes europeus em grande quantidade, esse sistema se inverteu. Eles aumentaram a área dos rebanhos e passaram a morar nesta mesma área, fazendo a agricultura para fora da cerca. Quando você anda por essa região verá que os animais estão nas partes mais planas, onde tem água, e a agricultura está na parte mais acidentada.
A produção desse sistema era muito grande e altamente diversificada. Quando cheguei lá, em 1981, era raro ver uma família usar um fertilizante químico. A diversidade agrícola era enorme e o grau de soberania alimentar era pleno. Além disso, todas essas comunidades tinham alguma agroindústria de erva mate, farinha de mandioca ou de milho. As escolas também eram comunitárias e, em um período mais antigo, eram bilíngües, dependendo da presença de cada grupo, tinhas grupos de teatro e uma sociabilidade muito grande, com uma forte presença religiosa.
Sul21: O que houve com esse sistema?
José Maria Tardin: Na década de 80, a Revolução Verde penetrou com força na região e detonou quase tudo. Hoje, existe um movimento dos faxinalenses para tentar salvaguardar alguma coisa. Se você anda na região hoje, as comunidades continuam se identificando como habitantes do faxinal, mas são pouquíssimas que mantém os criadouros comunitários. Entraram muitos agricultores de fora que compraram terras e começaram outros plantios como é o caso da soja. Foi um processo com muito conflito. Participei de assembleias comunitárias realizadas em um clima de rebelião. Mas a maioria do sistema desmoronou. Eu vi essas comunidades serem destruídas pela Revolução Verde. Lamentavelmente, essa experiência foi pouquíssimo estudada.
“Nestes sistemas de agricultura camponesa, a produção de alimentos é fantástica”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Algo similar a isso ainda é muito forte no Nordeste, onde há um sistema chamado de “fundo de pasto”. É uma grande área de uso comunitário para os animais. As famílias manejam os seus animais em um curral próprio e depois eles são soltos em uma vasta região que eles chamam de fundo de pasto, alimentando-se de forragem nativa. Eles vivem na caatinga mesmo. Esses sistemas tradicionais nunca foram apoiados por políticas públicas. Foram sendo construídos e sustentados pelas próprias famílias, sem um anteparo de políticas de Estado. O potencial agroecológico deles é enorme e a sua produtividade muito alta. Eu duvido.
Sul21: O argumento da produtividade costuma ser utilizado contra essas formas de agricultura camponesa…
José Maria Tardin: Sim. É uma grande mentira. Nestes sistemas de agricultura camponesa, a produção de alimentos é fantástica. É uma farsa essa história que o nordestino sertanejo é um lascado miserável que está sempre morrendo de fome. É uma versão preconceituosa.
Outro exemplo importante ocorre na Amazônia. As quebradeiras de côco e de babaçu, depois de muita luta, conquistaram uma legislação importante. O babaçu é uma árvore protegida por lei. Um latifundiário não pode derrubar os babaçuais e as mulheres têm o direito de entrar nas fazendas para colher o babaçu. Elas têm livre acesso a qualquer área onde tenha babaçu, não interessa se é de um empresário de São Paulo ou de uma transnacional. Com isso, elas fazem um enorme trabalho de preservação da floresta e dessa espécie em particular. É um sistema extrativista 100% sustentável, envolvendo uma escala territorial gigantesca. São milhares de pessoas trabalhando nesta modalidade que eles mesmo geraram dentro da Amazônia, assim como tivemos também o caso fantástico do movimento extrativista gerado pelos seringueiros, do qual Chico Mendes foi uma das principais lideranças.
Um documentário intitulado “Para onde foram as andorinhas?” mostra que onde o agronegócio está chegando na região amazônica está gerando um impacto avassalador dentro dos territórios indígenas. A deriva dos herbicidas começa a afetar a vegetação e as frutas. Mesmo sendo aplicado com trator, uma quantidade razoável de agrotóxico vai embora com o vento. No caso da pulverização aérea nem se fala. Aí é crime total. É guerra do Vietnã mesmo. Esse documentário mostra que, quando eles começam a usar agrotóxico na soja, as nuvens de percevejo que atacam a soja vão para dentro da floresta e atacam as frutas nativas e as cultivadas pelas comunidades indígenas. O percevejo da soja é transmissor de um vírus que detona a produção de alimentos dos indígenas. Bananais, cajueiros, jaqueiras, abacateiros e outras plantas começam a morrer. Esse documentário é doloroso.
O nosso patrimônio genético agrícola deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo sequestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande. O Brasil é um centro de origem da mandioca, por exemplo. Muitas variedades e mesmo espécies estão se perdendo. Essa perda é diária. O livro “Século 21: erosão, transformação tecnológica e concentração do poder empresarial”, de Pat Roy Mooney, mostra números da perda de biodiversidade em escala global. Antes dessa obra, ele lançou aqui em Porto Alegre outro livro, “O escândalo das sementes”. Em seu trabalho, ele também pesquisa os genocídios étnicos e a erosão das línguas humanas. O século 21, adverte, será o século do extermínio das línguas locais.

Ao lado de Temer, premiê da Noruega cobra solução para corrupção no Brasil


Ao lado de Temer, premiê da Noruega cobra solução para corrupção no Brasil


Depois das críticas de Erna Solberg, Temer tomou a palavra e declarou que visitaria o 'Parlamento brasileiro' e se encontraria com o 'rei da Suécia', quando na verdade visitou o Parlamento da Noruega e se reuniu com o rei norueguês, Harald V
A primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, criticou a corrupção no Brasil e disse estar preocupada com a operação Lava Jato e questões ambientais no país. A declaração se deu durante encontro oficial com Michel Temer em Oslo nesta sexta-feira (23/06).
A premiê afirmou em nome de seu país que “estamos preocupados com a Lava Jato e é preciso fazer uma limpeza e encontrar uma solução”. Solberg ainda disse que o Brasil vive uma época de “desafios” e “turbulência” e que está “preocupada com forças que querem reduzir” a proteção ambiental no país.
No encontro, a chefe de Estado confirmou que haverá um corte de quase R$ 200 milhões no envio de auxílio financeiro da Noruega para o Fundo Amazônia. O corte havia sido anunciado ontem pelo governo norueguês, que é o maior doador do fundo internacional para a preservação da Amazônia, e é a expressão concreta da insatisfação de Oslo com o aumento do desmatamento no Brasil no último ano.
Beto Barata / PR

'Estamos preocupados com a Lava Jato e é preciso fazer uma limpeza e encontrar uma solução', declarou Erna Solberg, primeira-ministra da Noruega

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Brasil, um pária das Relações Internacionais

 
Depois das críticas de Solberg, Temer tomou a palavra e declarou que visitaria o “Parlamento brasileiro” e se encontraria com o “rei da Suécia”, quando na verdade visitou o Parlamento da Noruega e se reuniu com o rei norueguês, Harald V.
Em resposta à primeira-ministra, Temer afirmou que, no Brasil, "as instituições funcionam com regularidade extraordinária". "A democracia é algo plantado formalmente pela Constituição e praticada na realidade", disse o presidente que chegou ao poder por meio da destituição de Dilma Rousseff em 2016.
O peemedebista ainda disse que governa com “muito apoio do Congresso Nacional” e que “não é sem razão que as medidas tomadas são amparadas pela Constituição, prestigiadas e incentivadas pelo governo”. 
Temer ainda foi alvo de protestos em Oslo. Diante do prédio em que houve o encontro dos dois líderes, manifestantes seguravam placas em inglês com frases como “respeito à democracia”, “respeito aos indígenas” e “respeito aos direitos humanos”.
Para jornalistas brasileiros, Temer minimizou os efeitos do corte anunciado pela premiê e afirmou que “eles colaboram enormemente para o Fundo Amazônia; as explicações dadas por mim e pelo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, deixaram claro que há uma revisão desses aspectos”.
Agência Efe

Manifestantes protestam contra Temer em Oslo (23/06)

Temer é sinônimo de traição e Trump 'bate recorde de estupidez', diz Correa


Temer é sinônimo de traição e Trump 'bate recorde de estupidez', diz Correa


Ex-presidente do Equador lamentou que Trump seja líder 'da maior potência da história da Humanidade' e criticou mandatário brasileiro: 'que descarada traição'
O ex-presidente do Equador Rafael Correa (2007-2017) disse nesta sexta-feira (23/06) em uma entrevista à Agência Efe que o nome do presidente do Brasil, Michel Temer, se tornou sinônimo de "traição" e que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, "bateu o recorde de estupidez".
Em Montevidéu, Uruguai, Correa disse que “é difícil” encontrar um exemplo parecido com o de Trump e que lamentavelmente se trata do presidente "da maior potência da história da Humanidade".
Para o ex-presidente equatoriano, entre as medidas que indicam a estupidez de Trump estão o muro que ele pretende construir na fronteira com o México para evitar a imigração irregular, o retrocesso na relação com Cuba e a saída dos EUA do Acordo de Paris.
Sobre Temer, Correa afirmou que "a traição vai mudar de nome" e "vai se chamar, de agora em diante, Temer". "Que sujeito, por ter dois anos de poder, condena suas futuras gerações à vergonha, que descarada traição", disse o ex-presidente do Equador.
Correa também comentou o caso do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, asilado na embaixada do país em Londres há cinco anos. Para ele, se trata de uma das grandes "injustiças" da história recente.
Agência Efe

Rafael Correa, ex-presidente do Equador, durante entrevista à Agência Efe nesta sexta-feira (23/06)
"É uma das grandes ignomínias, injustiças e abusos da história recente. Se nós tivéssemos feito um décimo do que a Suécia fez, ou do que a Grã-Bretanha está fazendo, já estaríamos no Tribunal Penal de Haia e seríamos denunciados em todas as partes, mas como são eles, não acontece absolutamente nada", opinou.
Correa apontou que seu governo "nunca quis" impedir o avanço da Justiça sueca em relação à acusação de suposta violação que mantinha há sete anos contra o australiano e que era o motivo para que o Reino Unido tentasse detê-lo e enviá-lo às autoridades em Estocolmo.

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"O que sempre quisemos, no nosso direito soberano, é garantir o devido processo", porque Julian Assange "estava ameaçado até de morte por certos grupos dos Estados Unidos, que tinham uma lei que incluía a pena de morte se fosse deportado para esse país", assegurou.
Para o ex-presidente equatoriano, por estas razões seu país decidiu dar asilo a Assange, embora tenha esclarecido que seu governo "não justifica o que tenha feito".
"Não estava garantido o devido processo, então com a Suécia foram derrubadas todas as acusações, e agora, por uma falta menor que violou sua liberdade condicional, a Grã-Bretanha então diz que se ele sair da embaixada, será levado preso. Isto realmente é atentar contra os direitos humanos", alegou.
O Equador, que outorgou asilo a Assange em 2012, pediu às autoridades britânicas que estendam um salvoconduto a ele para que possa deixar Londres e gozar do status conferido pelo governo equatoriano.
Nesse contexto, a chanceler equatoriana, María Fernanda Espinosa, disse que seu país "teve contatos diplomáticos" e até uma reunião com a embaixadora do Reino Unido em Quito, Catherine Ward, para abordar o tema.

*Com Agência Efe

Imagem do Brasil no exterior se deteriora rapidamente, diz fundação alemã ligada a partido de Merkel

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Em relatório sobre o Brasil, a Fundação Konrad Adenauer, ligada à CDU, afirma que Temer se mantém no poder 'por meio de manobras políticas questionáveis' e que país 'está desperdiçando seu potencial geopolítico'
Atualizada às 17:19
A Fundação Konrad Adenauer, ligada à União Democrata-Cristã (CDU), partido de Angela Merkel, chanceler alemã, divulgou um relatório em que afirma que o Brasil perdeu “importância no cenário internacional” e que o país “está desperdiçando seu potencial geopolítico”.
O documento, publicado em alemão no dia 13 de junho e em português nesta sexta-feira (23/06), critica Michel Temer e diz que ele "perdeu credibilidade e continua conseguindo manter-se no poder por meio de manobras políticas questionáveis". "Não obstante, a saída de Temer tampouco parece ser a solução do problema", acrescenta o documento que diz que "não há saída à vista".
A Fundação ainda critica o poder Legislativo, que não votou e não debate as reformas estruturais do país porque a maior parte dele também está envolvido na Operação Lava Jato, e o Judiciário, por estar ficando cada vez “mais politizado”.

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Brasil, um pária das Relações Internacionais

Noruega anuncia corte de 50% em repasses contra desmatamento no Brasil em 1º dia de visita de Temer

 
Agência Efe

Michel Temer na Noruega: para a Fundação Konrad Adenauer, presidente 'perdeu credibilidade e continua conseguindo manter-se no poder por meio de manobras políticas questionáveis'
O texto também classifica como uma “farsa” o julgamento da chapa vencedora das eleições de 2014, formada por Dilma Rousseff e Michel Temer, feito recentemente pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os únicos elogios vão para a Lava Jato que, para a entidade, é um sinal na mudança da "cultura da impunidade" do Brasil.
Com tantos problemas internos, o país está perdendo espaço no campo internacional, provocando um isolamento que pode ser difícil de reverter, diz a Fundação. “É sintomático que a chanceler alemã Angela Merkel (CDU) tenha deixado o Brasil de fora de sua viagem de quatro dias à América Latina, cuja pauta incluía temas relacionados ao G20, grupo do qual o Brasil faz parte; e as consultas de governo em alto nível, previstas para serem realizadas entre Brasil e Alemanha no início do verão europeu, tenham sido canceladas”, afirma a entidade.
“O Brasil, que já era considerado um ‘global player’, está desperdiçando seu potencial geopolítico. Esse isolamento é um passo que o Brasil não deveria arriscar, pondo a perder conquistas políticas e econômicas – mas não há saída à vista”, finaliza o documento.
Em seu site, a Fundação Konrad Adenauer se descreve como "uma fundação política alemã, independente e sem fins lucrativos", presente no Brasil desde 1969, cujos "interesses específicos são a consolidação da Democracia, o fomento da unificação europeia, a intensificação das relações transatlânticas e a cooperação na política em prol do desenvolvimento". 

*Com ANS

VEJA RETRATA TEMER COMO UM ANÃO MORAL NA PRESIDÊNCIA

VEJA RETRATA TEMER COMO UM ANÃO MORAL NA PRESIDÊNCIA



"O presidente encolheu", anuncia a revista Veja neste fim de semana. Peça decisiva na construção do golpe de 2016, que destruiu a economia e desmoralizou o Brasil no mundo, a revista acaba de descobrir que Michel Temer é um anão moral na presidência da República.

O motivo, claro, é o fato inédito de, pela primeira vez na história, o Brasil ser comandado por um personagem carimbado como corrupto pela própria Polícia Federal – e que também será denunciado por organização criminosa e obstrução judicial pela Procuradoria Geral da República.

"Com denúncias e acusações em ritmo quase diário, Temer é hoje um presidente moralmente acossado, politicamente fragilizado e administrativamente atordoado, pois despende mais energia com a polícia do que com a política", aponta a reportagem de Robson Bonin e Thiago Bronzatto.

Capa de Veja demonstra o esgotamento do golpe e também a tragédia criada pelas próprias elites econômicas, ao apoiar a derrubada de uma presidente legítima e honesta e sua substituição por Temer.

Abaixo, reportagem da Reuters sobre as denúncias que serão apresentadas contra Temer:

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deverá oferecer ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais de uma denúncia criminal contra o presidente Michel Temer a partir das delações premiadas de executivos da J&F, controladora da JBS, disse à Reuters uma fonte que acompanha o caso.

A tendência é que Janot apresente até terça-feira (27) uma acusação contra Temer e o ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), ex-assessor especial do presidente, por corrupção passiva. Num segundo momento, ele denunciará Temer por outros crimes.

O ministro Edson Fachin, do STF, deu prazo de cinco dias corridos a partir da quinta-feira para que o procurador-geral decida denunciar Temer ou arquivar o caso contra o presidente. Enviou a Janot cópia do inquérito que inclui o relatório parcial feito pela Polícia Federal que aponta haver evidências de crime de corrupção passiva.

Segundo a fonte, o procurador-geral deverá denunciar Temer primeiro por esse crime e, quando receber a conclusão das demais investigações da PF - como o laudo que analisa a gravação da conversa entre Joesley Batista, da JBS, e o presidente - fazer nova acusação ao STF.

Formalmente, Temer é alvo de inquérito pelos crimes de corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa.

Essa decisão de Janot terá impacto para a decisão que a Câmara vai tomar sobre se autoriza o Supremo a julgar a denúncia contra o presidente ou não - conforme prevê a Constituição.

Se for mesmo mais de uma denúncia, os deputados terão de fazer, em plenário, mais de uma votação sobre se permitem ou não que os ministros do STF decidam se recebem a acusação contra o presidente - se aceitá-la, ele vira réu e tem de ser afastado do cargo por até 180 dias, período em que se espera que haverá o julgamento. Se isso não ocorrer nesse período, ele retorna ao cargo.

Para a autorização ser concedida, são necessários os votos de dois terços dos deputados - ao menos 342 dos 513 deputados.

Temer e aliados políticos já têm trabalhado para barrar a autorização para o STF julgá-lo e garantem ter mais de 200 votos contrários à autorização.