quarta-feira, 4 de outubro de 2017

MAIS UMA DO DÓRIA - Pobres vivendo no centro são "obstáculos" para o mercado e precisam sair

Pobres vivendo no centro são "obstáculos" para o mercado e precisam sair

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Ermínia Maricato: "Os obstáculos são os pobres, os cortiços, os imóveis abandonados, a Cracolândia, e tudo isso já foi atacado pela prefeitura”
Por Luciano Velleda
Da Rede Brasil Atual
Anunciado pelo prefeito João Doria (PSDB) no último dia 26 de setembro, o projeto Centro Novo, “que propõe uma mudança urbanística e a modernização da região central”, é na prática mais uma tentativa do Executivo municipal de “tirar os pobres” do centro e favorecer os interesses do mercado imobiliário.
A análise, sem meias palavras, é da arquiteta e urbanista Ermínia Maricato. “A melhor localização de transporte sobre trilhos é a região da Luz. Aquilo é um tesouro e o mercado imobiliário sabe disso. Só que precisa tirar os pobres, e o prefeito já começou a fazer isso”, afirma, lembrando as ações realizadas recentemente na Cracolândia, uma tentativa de expulsar pessoas em situação de rua e uso abusivo de drogas.
Tendo como clientes preferenciais as classes média e alta, a urbanista define o mercado imobiliário como “preconceituoso”, para o qual a proximidade de populações pobres junto aos seus empreendimentos derruba o preço.
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“Para eles (o mercado imobiliário e seus apoiadores), é preciso tirar os obstáculos para o preço dar um salto. E os obstáculos são os pobres, os cortiços, os imóveis abandonados, cheios de dívidas e hoje ocupados, a Cracolândia, a favela do Moinho. Esses são os obstáculos e tudo isso já foi atacado pela prefeitura”, enfatiza.
A ex-secretária executiva do Ministério das Cidades e professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), analisa as cidades brasileiras como tendo a característica estrutural de uma “sala de visitas”, bairros onde o metro quadrado é mais alto, a população é prioritariamente branca e as ações de zeladoria, como poda de árvores, sinalização, recapeamento do asfalto e limpeza de ruas e bueiro, são sempre priorizadas, em detrimento das regiões periféricas, onde a população é mais pobre, de origem negra e menos escolarizada.
Ermínia Maricato também critica o termo “revitalização”, sempre empregado quando se trata de projetos para o centro da cidade. Para ela, o centro de São Paulo já é “muito vivo”. A questão, pondera, é fazer com que a região não seja tão erma durante a noite. Para conseguir isso, ela acredita que o caminho é combinar a vocação empregatícia da área central com mais moradias, sem expulsar as famílias de baixa renda que já moram na área.
“É fundamental que o centro abrigue um mercado popular de moradia, em função do grande número de pobres que ali vivem e da grande oferta de emprego”, avalia. Ela defende que o crescimento imobiliário ocorra em direção ao centro, até mesmo como um modo de preservar os recursos naturais nas “franjas” da cidade, como a Serra da Cantareira e as represas Billings e Guarapiranga.
Segundo a arquiteta e urbanista, o debate deveria ser orientado pela pergunta: “O que é prioridade na cidade?”. Uma discussão que envolveria diversos segmentos da sociedade, mas que, todavia, não tem acontecido.
“O problema é que as decisões são tomadas visando ao interesse privado e não ao público. Em vez de salvar a represa Billings, a Cantareira, se coloca dinheiro no centro”, afirmou. Como exemplo, cita o grave problema da mobilidade urbana em São Paulo e que, nesse sentido, um ônibus circular no centro, como anunciado pelo prefeito Doria, não é prioridade.
“A ignorância é tão grande que é possível eles fazerem a pauta que querem porque a população não conhece o que está em jogo. É importante mostrar não só a natureza dessa pauta, mas também colocar outra. Estamos numa cidade profundamente desumana e vamos fazer mais do mesmo?”, questiona, para logo em seguida destacar que a expectativa de vida no bairro de Itaquera é de 54 anos, enquanto nos Jardins é de 80 anos.
Para ela, o centro de São Paulo ainda é o único lugar democrático da cidade, com convivência de diferentes classes sociais. Um espaço que, se depender da gestão do prefeito Doria e do Sindicato da Habitação (Secovi/SP), que encomendou o projeto Centro Novo e ofereceu-o “sem custos” à prefeitura, pode estar ameaçado.  
“Nossa elite é tão avessa à democracia que não consegue conviver com pobre, a menos que trabalhe para ela”, definiu a arquiteta e urbanista Erminia Maricato.

Candidato avul$$o: festa do “MBL-Mercado” e do “Bolsa-Candidato”

Candidato avul$$o: festa do “MBL-Mercado” e do “Bolsa-Candidato”

O ultraliberalismo não é ética, é dinheiro no comando de tudo.
É a selva onde  as garras e os dentes  são feitos de grana.
Os partidos políticos, criação secular da civilização, com todos os seus desvios e defeitos, ainda são formas – medíocres aqui, reconheça-se –  de controle coletivo sobre os representantes eleitos.
Hoje, o Supremo  julga a possibilidade de haver candidaturas avulsas nas eleições do ano que vem.
É impensável que o mesmo STF que instituiu, faz poucos anos e finalmente, alguma fidelidade partidária – que a toda eleição os parlamentares acham o jeito de burlar, com “janelas” e redução de prazos de filiação  – vote para aprovar uma monstruosidade destas.
Aliás, o voto que se conhece a favor é o de Luís Roberto Barroso, o jurista-sol.
Em um partido, alguém ainda se submete a algum tipo de regras de alinhamento político.
Fora deles, vira candidato de si mesmo ou de sua capacidade de interpretar interesses de quem não pode se expor.
Como o “MBL-Mercado”, revelado ontem pela Piauí, reunindo picaretas da política e das finanças, ou o “Bolsa Coxinha” financiado por ricos e celebridades da mídia.
Até Bolsonaro, incapaz de conviver com qualquer um fora de seu clã familiar, terá seus problemas resolvido. Será “El Mito Solito”.

Fiscalização contra o trabalho escravo está suspensa no Brasil

Fiscalização contra o trabalho escravo está suspensa no Brasil

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Desde 1995, a divisão já libertou mais de 50 mil trabalhadores que eram explorados de maneira análoga à escravidão
Da Conectas
Desde agosto de 2017, a fiscalização contra o trabalho escravo está suspensa no Brasil. A Conectas alertou o Conselho de Direitos Humanosd a ONU sobre o caso durante a sessão de ontem, 12, e exigiu que o governo brasileiro volte a destinar recursos para o combate ao trabalho forçado.
O governo de Michel Temer interrompeu o repasse de verbas para a Detrae (Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo), órgão vinculado ao MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), responsável por combater essa violação. Desde 1995, a divisão já libertou mais de 50 mil trabalhadores que eram explorados de maneira análoga à escravidão.
O pronunciamento feito pela Conectas durante a 36a reunião do Conselho alerta sobre como a falta de financiamento impacta no trabalho de campo da divisão. Um dos pontos de atenção são as fazendas cafeeiras do Sul de Minas Gerais, região em que já foi constatada a ocorrência de violações como tráfico de pessoas, condições degradantes de trabalho e violência contra trabalhadores.
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"A interrupção da fiscalização contra o trabalho escravo vai ter efeitos devastadores. O Brasil vinha num ritmo de controle que permitiu a libertação de uma média de 2500 trabalhadores por ano. Essas pessoas viviam em condições totalmente degradantes e eram submetidos às formas modernas de escravidão. Quase 130 anos após a assinatura da Lei Áurea, a escravidão ainda é uma realidade no Brasil e não pode ser tratada com leviandade. O atual governo tem o dever de manter os mecanismos de defesa dos trabalhadores para não nos depararmos com esse tipo de situação inaceitável", pontua Caio Borges, coordenador de Empresas e Direitos Humanos da Conectas.
Em resposta, o governo brasileiro argumentou que "nenhum trabalho de campo para combater a escravidão moderna foi suspenso" e que o Ministério do Trabalho vai realocar recursos para continuar as operações de monitoramento.

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Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive

Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive

Vias públicas batizadas em homenagem a torturadores e mandantes do regime militar estão presentes em todo o país
Uma rua de menos de 200 metros no centro de São Paulo leva o nome de Vladimir Herzog. Ela homenageia jornalista que foi torturado e morto pela ditadura militar – que governou o país de 1964 até 1985 – e se constitui em uma pequena exceção: a maioria das ruas que levam os nomes de personagens do período homenageia o lado dos ditadores e seus colaboradores.
É o caso da Avenida Presidente Castelo Branco, parte do complexo de vias que forma a Marginal Tietê, a menos de 500 metros de distância da rua Vladimir Herzog. Ela foi batizada em referência ao general que tomou o poder no Golpe de 1964 – iniciando o processo autoritário que culminaria no assassinato de Vladimir Herzog e de pelo menos mais 433 pessoas, muitas das quais seguem desaparecidas até hoje, sem que seus corpos tenham sido encontrados.
Em todo o território do Brasil, são muitas ruas nomeadas em homenagem a personagens sombrios de nossa história – incluindo aqueles que estão entre os 377 apontados como responsáveis por torturas e mortes pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), um comitê que investigou os crimes do Estado naquele período.
Embora o número de vítimas reconhecidas seja maior que o número de criminosos levantados pela CNV, a soma do comprimento de ruas com o nome de vítimas é bem menor. São aproximadamente 160 km homenageando os que tombaram pela mão do regime contra mais de 2000 km de vias que fazem referência aos algozes de acordo com o mapeamento feito nas ruas de todos os estados brasileiros.
No projeto, foram usados dados publicados pelo OpenStreetMap, uma plataforma colaborativa em que cada usuário pode adicionar e atualizar informações sobre localizações geográficas e endereços. O banco de dados não é perfeito: há inconsistências na padronização dos nomes e, principalmente, algumas das vias são representadas por mais de um item, o que impossibilita um contagem precisa do número de logradouros. Uma descrição detalhada sobre a produção está disponível aqui.
No mapa que apresentamos abaixo, as ruas com nomes de criminosos estão marcadas em roxo; e as das vítimas em laranja. Ao clicar em cada uma das linhas no mapa, é possível ler uma breve biografia de cada pessoa.

Ruas que homenageiam torturadores e vítimas da Ditadura

Clique no estado para visualizar | Clique aqui para melhor visualização em dispositivos móveis

Comparação da extensão de ruas com nomes de torturadores e vítimas


Vielas estreitas e grandes estradas

Não é apenas em número que as ruas com nome de generais e oficiais têm maior destaque do que as vias que homenageiam suas vítimas. Há também uma diferença geográfica e simbólica.
Enquanto grandes rodovias como a já mencionada Avenida Castelo Branco e a Ponte Costa e Silva (nome oficial da Ponte Rio-Niterói) comemoram o regime militar, os locais de memória da resistência se concentram em áreas periféricas e mais pobres. Em São Paulo, por exemplo, a maioria das ruas que homenageiam as vítimas se concentra em regiões pobres da Zona Norte e da Zona Sul, nos bairros de Jova Rural e Grajaú, respectivamente.
O mesmo acontece no Rio de Janeiro, onde diversas ruas que homenageiam militantes da resistência ficam no bairro operário de Bangu.
Uma grande parcela dos locais que relembram os líderes militares foram batizados ainda sob o governo ditatorial. Em contraste, os endereços que rememoram os mortos e desaparecidos só apareceram depois de esforços empreendidos por diferentes setores da sociedade civil.

Mudanças de nome

No centro de São Paulo, uma via elevada corre por cerca de 3.5km, atravessando quatro bairros diferentes. Popularmente conhecida como Minhocão por seu comprimento e aparência, essa controversa intervenção urbana se chamou oficialmente Elevado Costa e Silva em referência ao segundo presidente da Ditadura, desde que foi finalizada, em 1970, até meados de 2016.
No meio do ano passado, porém, ela foi rebatizada de Elevado Presidente João Goulart, uma homenagem ao último líder civil a governar o país antes do Golpe de 1964.
A mudança faz parte de um movimento que acontece conforme as instituições brasileiras olham para o passado e tentam decidir de que maneira ele deve se refletir no presente e no futuro. Ainda que o presidente João Goulart tenha sido perseguido e perdido os direitos políticos durante o regime, ele não é considerado oficialmente uma vítima de violações de direitos humanos. Paulo Stuart Wright, porém, é.
Ex-deputado estadual de Santa Catarina, filho de dois missionários norte-americanos, Wright foi perseguido pelos militares desde o início do regime. Cassado pelo golpe militar ele se exilou no México em 1964, voltando clandestinamente ao país no ano seguinte para militar na resistência contra a ditadura. Wright desapareceu em 1973 e sua morte só foi confirmada quando arquivos secretos foram abertos onze anos depois, perto do final da ditadura. Em 2015, uma rodovia em seu estado foi rebatizada em homenagem a ele.

Confronto aberto

Um dos momentos mais dramáticos da política brasileira nos últimos anos, o impeachment de Dilma Rousseff (PT), foi deflagrado na Câmara dos Deputados. Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército e figura proeminente da extrema-direita, estava entre os deputados que votaram contra Dilma – e ele fez isso de maneira controversa.
“Perderam em 1964 e perderam novamente em 2016”, disse Bolsonaro comparando o golpe militar ao impeachment. “Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff […] eu voto sim [ao impeachment]”.
Bolsonaro homenageava o comandante do DOI-CODI de São Paulo, a câmara de tortura e morte que operava contra os inimigos do regime entre 1970 e 1974. Ustra, que há dois anos morreu livre e, segundo ele, sem arrependimentos, é considerado um dos agentes mais violentos das forças de repressão da ditadura.
Suas vítimas descreveram diferentes métodos de tormento, como choques elétricos e a inserção de ratos vivos na vagina de prisioneiras. Em alguns dos casos mais brutais, as sessões de tortura foram testemunhadas pelos filhos e cônjuges dos dissidentes. A própria Dilma passou meses detida em prisões do DOI-CODI nos anos 70 por participar de movimentos de resistência armada.
Durante o impeachment de Dilma, grupos que simpatizam com Bolsonaro tomaram as ruas, pedindo que as Forças Armadas “salvem o país do comunismo outra vez”– retórica que evoca a justificava usada pelos partidários do Golpe Militar há 43 anos. Atualmente, o candidato à presidência Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, atrás apenas do ex-presidente Lula, também detido pela ditadura militar. Mais uma evidência de que o passado não está apenas confinado nos nomes de rua – ele insiste em voltar à superfície de tempos em tempos.
Fonte: Pública