quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os lados do Polígono da Maconha

Os lados do Polígono da Maconha

Na região do sertão do São Francisco, moradores cercados por roças clandestinas convivem hoje com tráfico e repressão policial
Salgueiro é um ponto estratégico no meio do sertão nordestino. Conhecido como a “Encruzilhada do Nordeste”, o município pernambucano é equidistante das principais capitais da região; gasta-se o mesmo tempo para chegar dali a Recife ou a Fortaleza, por exemplo. Por esse motivo, a cidade tem grande importância na economia do Nordeste. O ponto central das operações da ferrovia Transnordestina fica no município, agora cortado pelos canais da transposição do rio São Francisco.
É também em Salgueiro que a BR-232 e a BR-116 se encontram, as rodovias que compõem a rede que escoa para o resto do país boa parte dos produtos agrícolas da região – incluindo a maconha produzida nas margens do rio São Francisco. Com os municípios de Cabrobó, Orocó, Petrolina, Carnaubeira da Penha, Belém de São Francisco, Betânia, Floresta e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco; e Juazeiro, Paulo Afonso, Glória e Curaçá, na Bahia, Salgueiro compõe a região conhecida como o Polígono da Maconha.
Há relatos da presença da cannabis na região desde o século XIX, mas o auge da produção se deu nas décadas de 1980 e 1990, quando chegou a produzir 40% da maconha brasileira, de acordo com o pesquisador da Universidade de Juiz de Fora Paulo Fraga. Os agricultores familiares, que subsistiam em meio à briga por terra entre os poderosos que financiavam suas disputas políticas com a produção de maconha, passaram a conviver com um negócio cada vez mais associado ao crime organizado de fora da região.
 A repressão policial ao plantio e ao tráfico também se intensificou nesses 20 anos. Os produtores de cannabis, camuflada nas roças de mandioca, associaram-se ao crime organizado, a maconha perdeu qualidade pela pressão para escoar a carga e, de acordo com a superintendência da Polícia Federal em Pernambuco, passou-se a utilizar a região como porta de entrada para outros tipos de droga.
Há relatos da presença da cannabis na região desde o século XIX (Foto: Clelio Tomaz/Agência Pública)
 A violência também explodiu – os moradores a comparam ao período do cangaço. Em 1998, segundo pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco, a taxa de homicídios de Carnaubeira da Penha, por exemplo, atingiu 145,06 por 100 mil habitantes, e Floresta registrou 127,49. Para se ter uma ideia do que isso significava, no mesmo ano a taxa de homicídios no Rio de Janeiro era de 44,3.

Guerra dos clãs

As violentas disputas políticas travadas entre os grandes proprietários de terra da localidade teve início no fim os anos 1980; o cultivo e a venda de maconha surgem nesse período para financiar a guerra entre clãs.
O surto de violência teria começado no fim da década de 1980 com uma briga de adolescentes dentro de um bar da cidade de Belém de São Francisco. Após uma discussão, um jovem da família Gonçalves foi baleado por um membro da família Benvindo. Na retaliação, quem morreu foi um membro da família Araquan. Depois desses episódios, a matança prosseguiu os anos 1990, vitimando quase cem pessoas. A região entre Belém de São Francisco e Cabrobó foi partilhada em dois clãs.
De um lado, se aliaram os Gonçalves e os Araquan e, do outro, formou-se uma aliança entre as famílias Benvindo, Nogueira, Simões de Medeiros (também chamada de “Russo”) e Gonçalves da Silva (conhecida como “os Cláudios”). A forma que os dois grupos encontraram para municiar o seu conflito foi trocar a maconha por armas que vinham do Rio de Janeiro.
As violentas disputas políticas travadas entre os grandes proprietários de terra da localidade teve início em 1980 (Foto: Polícia Federal)
Outra forma de conseguir dinheiro para continuar a guerra entre os clãs foi a prática de assaltos no sertão. “O pessoal diz que não, mas era crime organizado sim. Naquela época, a própria polícia dizia que não era para as pessoas pegarem a BR de noite porque poderiam ser assaltadas. Os ônibus que vinham de Recife ou de Petrolina tinham que ser escoltados pela PM”, lembra um comerciante da cidade de Cabrobó que preferiu não se identificar.
O conflito só teve fim após um termo de paz assinado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, marcando o encerramento de mais de uma década de ataques violentos. O acordo foi mediado pela Igreja Católica, Ministério Público e Poder Judiciário e fez parte do relatório final da CPI do Narcotráfico em Pernambuco.

A Operação Mandacaru

Foi quando o governo federal abriu os cofres para uma das maiores ações já realizadas no Nordeste brasileiro. A Operação Mandacaru mobilizou cerca de 1.500 agentes do Exército, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, entre novembro de 1999 a janeiro de 2000, tendo um custo total de R$ 7,5 milhões (R$ 27 milhões em valores de hoje) para os cofres públicos.
 “A cidade ficou cheia de gente do Exército. Era policial por todo canto, parando caminhão na estrada e abordando as pessoas. Melhorou muito na questão da segurança aqui em Salgueiro. Botaram até uma delegacia da Polícia Federal aqui, mas a gente sabe que o povo continua plantando maconha aqui na região”, comenta o caminhoneiro Marcos Natalício, entrevistado no posto de gasolina do trevo entre as BR-116 e 232.
Durante a Operação Mandacaru, foram presas 204 pessoas e destruídos 544.424 pés de maconha encontrados em 255 roças. A operação previa também ações estratégicas como a instalação de uma delegacia da PF em Salgueiro e uma unidade do Incra para regularizar as terras na região.
 À época, o custo e a efetividade dessas ações foram alvo de questionamentos, registrados na imprensa. Um ano antes do início da Operação Mandacaru, a Superintendência da Polícia Federal havia planejado uma ação orçada em menos de R$ 695 mil, que teria um ano de duração – a Mandacaru foi feita em dois meses. O Ministério da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso rejeitou o plano. “Nosso projeto previa a permanência de 60 agentes federais na região”, afirmou na época para o jornal Folha de S.Paulo o delegado da Polícia Federal Francisco Martins.
Houve também desentendimentos entre a PF e a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad). Segundo uma reportagem da revista IstoÉ, na época da operação, o pivô dessa briga eram os dólares enviados pelo governo norte-americano através da Drug Enforcement Administration (DEA), órgão de repressão a entorpecentes nos EUA. Segundo a matéria, o dinheiro, que antes era repassado diretamente aos policiais federais, passou a se destinar à Secretaria Nacional de Drogas no período da Operação Mandacaru.
Procurada pela Pública, a Senad declarou que não tem mais nenhuma parceria com órgão norte-americano e trabalha coordenando a atual política brasileira para drogas, incluindo a “prevenção do uso indevido de drogas, a atenção e a reinserção social de usuários”, além de realizar “ações no campo da formação, pesquisa e disseminação de informações” sobre o tema. A Polícia Federal e o DEA foram contatados, mas não quiseram falar sobre as atuais parcerias entre as duas instituições.

Novos donos

 Se em um passado não muito distante as famílias poderosas usavam a produção de maconha para financiar suas disputas políticas e territoriais à base da violência, hoje elas dividem esse espaço com grupos organizados, que têm origem fora da Nordeste, e atuam em diferentes práticas criminosas, como assaltos a banco, explosões de caixas eletrônicos e abordagens a carros-fortes.
Desde os anos 2000, a delegacia especializada da PF em Salgueiro centraliza a investigação sobre o tráfico, mas o fato é que a produção de maconha continua firme. Segundo o professor Paulo Fraga, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que estuda a região há quase dez anos, as erradicações das roças feitas pela polícia são compensadas por um aumento na produtividade da maconha, já que os produtores passaram a usar novas técnicas para o plantio.
Para os pequenos agricultores, sobretudo os que sobrevivem com dificuldade na agricultura familiar, a profissionalização do tráfico torna-se oportunidade de emprego, tanto na produção de maconha – que oferece uma remuneração maior do que as roças de mandioca predominantes na região – como na vigilância. Segundo, o professor José Maria Nóbrega, do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade Federal de Campina Grande, o sistema de plantio da cannabis não difere muito de outras culturas feitas na região; a diferença está na rede clandestina de distribuição do produto.

 Tráfico e campanhas políticas

De acordo com Nóbrega, a distribuição só é possível com a ajuda de agentes do Estado. “Sem a participação desses atores dentro do poder legislativo, executivo, na polícia regional, dificilmente há sucesso da prática criminosa”, diz. “Na questão da logística é preciso uma engenharia sofisticada, como a gente encontra com as facções criminosas que atuam dentro dos presídios. Esses grupos oferecem matéria-prima e mão de obra para o tráfico e recebem facilitações de agentes estatais e atores políticos, principalmente do poder legislativo. O dinheiro do tráfico financia campanhas políticas, levando pessoas que participam desses esquemas para dentro do poder público, vindo a facilitar a logística e engenharia desses grupos criminosos. Quando há investigações mais profundas sobre o tráfico, os delegados são pressionados pelos políticos para maneirar suas investigações, havendo até ameaças veladas de transferências”, conta o professor.
Com ele concorda o cientista político Adriano Oliveira. Em sua tese de doutorado na Universidade Federal de Pernambuco, Oliveira demonstra que os agentes estatais recebem diversos tipos de benefícios em troca da proteção oferecida ao crime organizado, que por sua vez tem influência dentro das instituições. “Um sujeito criminal pode favorecer um parlamentar com o ganho de votos ou um delegado com uma promoção. Esses benefícios são os mais visíveis, mas existem outros não tão visíveis. Um magistrado pode conceder a proteção institucional a um comerciário de drogas em troca de uma futura transferência para a capital de Pernambuco”, diz Oliveira.
Ele não se refere apenas à distribuição da maconha brasileira, mas também de drogas que vêm de fora e têm de circular internamente. Segundo um estudo da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão ligado à ONU, 80% da maconha consumida no país em 2012 veio do Paraguai.
Não se sabe exatamente qual o volume de produção local mas a participação do Polígono no mercado nacional é estimada em torno de 30%, por alguns pesquisadores. “Acredito que esteja nesse patamar”, diz Nóbrega. “Porém não é possível cravar isso porque esses dados não existem formalmente. Temos números de operações das polícias e do exército, mas não temos um banco de dados disponível. O que temos é acréscimo do tráfico de drogas em todos os estados nordestinos. Segundo dados que levantei junto Sistema Nacional de Estatística, Segurança Pública e Justiça Criminal, da Secretaria Nacional de Segurança Pública, em Pernambuco, entre 2009 e 2013, houve um crescimento de apreensão de drogas em 56,7% e na Bahia, no mesmo período houve um crescimento 32,4%. Mas isso é um dado geral. Não um detalhamento para saber o quanto disso corresponde a maconha ou a outras substâncias”, explica o professor.
Estima-se que a participação do Polígono no mercado nacional gira em torno de 30% (Foto: Polícia Federal)
O fato é que a maconha prensada do Paraguai já é mais encontrada em cidades no Nordeste onde prevalecia o “soltinho” ou “camarão de Cabrobó”. E circula também na região do Polígono. “A maconha prensada é encontrada na região. Já houve apreensões desse tipo de droga, que varia a forma de distribuição dependendo do grupo de traficantes”, afirma Afonso Marangoni, chefe da delegacia da Polícia Federal em Salgueiro. Segundo ele, nos últimos dez anos a Polícia Federal erradicou 9,4 milhões de pés de maconha no Polígono. Um único pé produz em média três quilos de maconha.

Repressão x produção

Hoje há uma nova estratégia de plantação porque as áreas de cultivo diminuíram e há o monitoramento por satélite”, diz o professor Paulo Fraga. “Por outro lado, houve um aumento de produtividade por conta da utilização de elementos químicos. Uma mostra disso é que se tem diminuído o número de pessoas detidas e aumentado a quantidade de material apreendido”, analisa Fraga.
Grande parte das plantações está localizada nas diversas ilhas do rio São Francisco, e a necessidade de escapar da polícia também levou a produção para o alto de algumas serras. Com o sol do sertão e a água abundante do rio, a planta fica apta para colheita entre 90 e 120 dias após o plantio, mas alguns produtores têm colhido a planta antes da maturação para fugir da vigilância policial, segundo o delegado da Polícia Federal Dário Márcio Sá Leitão, responsável pela área de entorpecentes em Pernambuco.
“A gente acompanha esse crescimento da planta e, quando vemos que elas estão perto de atingir o nível de maturação, fazemos a erradicação quebrando este ciclo. Por isso, a droga plantada no sertão pernambucano não tem mais uma boa qualidade, porque interrompemos esse processo antes do tempo de colheita. Um pé que antigamente atingia 2 metros de altura, hoje não chega a 1 metro e meio”, diz o delegado.
Para dificultarem a localização dos plantios, os produtores da cannabis fazem a rotatividade das plantações, camuflam as ervas nas roças de macaxeira (evitando que sejam identificadas por sobrevoos e imagens aéreas) e usam espantalhos simulando trabalhadores rurais. Também preferem utilizar terras públicas para o plantio – como as ilhas e matas –, evitando perder suas propriedades em caso de flagrante policial; segundo a Lei 11.343, os terrenos utilizados para plantação de maconha devem ser expropriados e destinados à reforma agrária.
Mesmo com a repressão policial, o plantio de maconha continua lucrativo, segundo Nóbrega. “O governo tem que tomar duas posições. Ou ele vai regulamentar o plantio, consumo e comércio da maconha ou ele vai fazer uma repressão mais qualificada, diminuindo os espaços das operações. A região é grande geograficamente, mesmo com o efetivo policial adequado, não tem como está em todos os lugares fazendo ações porque isso tem um custo. Levantar um helicóptero para patrulha em uma determinada região custa uma fortuna para o erário. Então isso não vai ser feito corriqueiramente. Tem que haver a implantação de políticas públicas eficientes, principalmente voltadas para a agricultura familiar ou então a regularização do comércio. Não defendo bandeira nenhuma, mas analiso do ponto de vista prático”, diz.
Mesmo com a repressão policial, o plantio de maconha continua lucrativo (Foto: Polícia Federal)
Para o professor Paulo Fraga, uma eventual legalização da maconha poderia favorecer a região do sertão do São Francisco. “É necessário olhar a questão da cannabis por outro ponto de vista. Hoje ela serve para produção de vários produtos, inclusive para remédios. E seria importante que essa região tivesse o monopólio da produção para ser uma alternativa de renda legal para os agricultores que estão envolvidos”, diz.
 Já o professor José Maria Nóbrega é cauteloso ao avaliar os benefícios que a legalização traria para a região. “Se houver uma regulamentação, a tendência é que as atividades ali fiquem mais transparentes e fáceis de controlar. Mas isso não quer dizer que de uma hora para outra vai se resolver. Isso é arriscado demais afirmar. No Brasil tudo é muito complicado. A regulamentação poderia gerar um novo conflito de terras como há no Norte do país.”
Integrante do movimento antiproibicionista em Pernambuco, a militante Ingrid Faria defende que a regulamentação do uso de entorpecentes seja trabalhada com a questão da propriedade da terra no país. “O projeto de legalização das drogas no Brasil também passa pela reforma agrária. O Estado precisa pensar como será esse cultivo e distribuição da maconha. Se deixar na mão do agronegócio, só quem vai ter acesso à maconha será a burguesia e os jovens de periferia continuarão na margem de tudo isso”, diz.
DAS MARICAS AO TRÁFICO
Os primeiros relatos conhecidos sobre a presença da cannabis no sertão nordestino foram feitos em 1869 pelo explorador inglês Richard Burton no livro Exploration of the highlands of the Brazil. Burton identificou as plantas às margens do São Francisco, mas, de acordo com ele, a fibra do cânhamo é que era utilizada para a confecção de tecidos, o que era comum em boa parte do mundo naquela época.
Gilberto Freyre, em um dos capítulos de Casa-grande & senzala discorre rapidamente sobre o consumo da erva entre os mais pobres no começo do século XX e a repressão policial. “Como o seu uso se tem generalizado em Pernambuco, a polícia vem perseguindo com rigor os seus vendedores e consumidores – os quais fumam-na em cigarros, cachimbos e alguns até a ingerem em chás… Entre barcaceiros e pescadores de Alagoas e Pernambuco verificamos que é grande ainda o uso da maconha.”
Mas a maconha só passou a ser considerada um entorpecente – e proibida – no governo Vargas, com a publicação do Decreto Lei no 891, em 25 de novembro de 1938. Segundo o documento que completa oito décadas no próximo ano, são proibidos a produção, o tráfico e o consumo de “cânhamo cannabis sativa e variedade índica (maconha, meconha, diamba, liamba e outras denominações vulgares)”.
Na década de 1950, em trabalho encomendado pelo governo federal, o sociólogo norte-americano Donald Pierson constatou a existência de plantações clandestinas de maconha na região. Segundo ele, a erva era utilizada pelas populações tradicionais do São Francisco de forma ritualística, fumada em maricas (espécie de narguilé). O pesquisador descreveu também os primeiros indícios de tráfico de maconha no Brasil.
“Depois que as sumidades ou bolotas ficam floridas, são colhidas, secadas, e vendidas em pacotes de 100 gramas. Um barbeiro local recebe-os de um município vizinho, levando-os a uma cidade rio acima onde, segundo se diz, são vendidos nos navios que partem para o Sul a fim de serem revendidos, especialmente em Salvador, Rio e Santos. Como contrabando, as flores são misturadas com os galhos da planta”, relata Pierson em documento publicado em 1972.
Esse texto é resultado do Concurso de Microbolsa de Reportagem Maconha, realizado pela Agência Pública e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes.
Fonte: Pública 

Como Moro ajudou a destruir a agricultura familiar a partir de uma operação no Paraná

Como Moro ajudou a destruir a agricultura familiar a partir de uma operação no Paraná

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Como Moro ajudou a destruir a agricultura familiar a partir de uma operação no Paraná
Por Jornal GGN
O juiz Sergio Moro é acusado por uma entidade de Direitos Humanos que representa agricultores familiares do Paraná de ter ajudado a desmontar nacionalmente o Programa de Aquisição Alimentar (PAA), lançado pelo governo Lula, em 2003. A avaliação, feita pela assessora jurídica do Terra de Direitos, ocorre no momento em que os agricultores celebram publicamente a absolvição de inúmeros trabalhadores presos por Moro na operação Agro-Fantasma, em meados de 2013.
 
A Terra de Direitos é uma organização que surgiu em Curitiba, em 2002, para atuar em situações de conflitos coletivos relacionados ao acesso à terra e aos territórios rural e urbano.
 
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Em nota ao GGN, a instituição informou que agricultores familiares presos por Moro na Agro-Fantasma foram considerados inocentes pela Justiça neste ano, e devem promover uma cerimônia simbólica de absolvição na próxima sexta-feira (6), na Câmara de Vereadores de Irati, a partir das 15h.
 
O evento deve relembrar as investigações da Polícia Federal, que duraram mais de 3 anos com o objetivo de apurar supostos desvios no PAA, vinculado ao Programa Zero. 
 
Em nota, a Terra de Direitos afirmou que as prisões impostas no Moro no caso foram "infundadas" e sustentou que o juiz teve papel importante no esvaziamento do programa em nível nacional.
 
"(...) não é acaso que as prisões preventivas de lideranças de associações e cooperativas de agricultores agroecológicos foram decretadas pelo juiz Sérgio Moro, representando interesses claros na desestruturação de políticas e programas sociais implementados no período político anterior”, destaca Naiara Bittencourt, assessora jurídica da Terra de Direitos.
 
"Além da criminalização e na prisão indevida dos agricultores, a Operação Agro-fantasma também contribuiu para o enfraquecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ação criada pelo governo federal em 2003 para aquisição e comercialização de produtos da agricultura familiar", diz, em nota.
 
"O corte orçamentário para o PAA em 2018 anunciado pelo atual governo federal é de 99%, com a destinação de apenas R$ 750 mil reais para todo o território nacional, o que significa praticamente a extinção do programa", destaca.
 
"Após a deflagração da operação, os requisitos para quem acessa ao PAA se tornaram ainda mais inflexíveis e mais distantes da realidade dos produtores rurais, que passaram a ter mais dificuldade em ingressarem no programa", alerta.
 
Os produtores rurais foram acusados de crimes de falsificação de documento público, falsidade ideológica, estelionato e associação criminosa. Além das associações e cooperativas de agricultores individuais, a Agro-Fantasma indiciou funcionários da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) por peculato e prevaricação.
 
A alegação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal era de que estariam ocorrendo ilegalidades no momento da entrega dos alimentos às entidades da rede socioassistencial conveniadas ao PAA, como hospitais, restaurantes populares, bancos de alimentos, creches e cozinhas comunitárias.
 
Segundo as regras, para entrar no Programa toda associação ou cooperativa deveria desenvolver um plano detalhado sobre tipos de alimentos, quantidades e recebimentos dos produtos, formato que desconsidera a sistema de diversidade alimentar da agroecologia.
 
"Esse modelo duro e burocrático foi um obstáculo para diversas famílias agricultoras e as diferenças apontadas entre o plano apresentado e a real entrega dos produtos deve-se a questões ligadas à terra, como safra e mudanças climáticas", afirma a Terra de Direitos.
 
Para Naiara, a Agro-Fastasma representa um retrocesso. “O PAA é uma das políticas públicas de maior fomento à produção agroecológica e da agricultura familiar, possibilitando um escoamento certo do alimento saudável, o que beneficia tanto pequenos agricultores quanto a população urbana pobre que consome com qualidade e segurança nutricional os produtos levados nas entidades sociais”, aponta. 
 
Segundo argumenta, a operação não ocorreu em um contexto isolado, mas serviu com o objetivo de desmontar o Programa para acabar com as ainda singelas políticas de desenvolvimento da agricultura familiar. "Se os agricultores familiares deixaram de escoar seus produtos para as entidades sociais antes beneficiárias, esse vácuo foi preenchido pela produção de grandes empresas alimentícias e por conglomerados do grande agronegócio brasileiro."
 
Ainda, a advogada ressalta os efeitos que a criminalização gerou na vida e comunidades dos trabalhadores acusados. “A absolvição de todos os investigados no Paraná após a desarticulação das organizações de agricultores e da produção, a humilhação e degradação moral que a prisão injusta, representou o esfacelamento em termos orçamentários e a rigidez dos requisitos para o acesso ao PAA corrobora para visualizarmos o objetivo inicial das investigações”, explica.
 
Uma das pessoas criminalizadas em Irati, o agricultor agroecológico Gelson Luiz de Paula, acredita que a ação foi pensada para prejudicar os produtores rurais. “O objetivo dessa operação foi criminalizar cooperativas e associações de agricultores familiares e os próprios agricultores, executores do Programa de Aquisição de Alimentos, o PPA”, afirma. 
 
“Leva tempo e dá muito trabalho para os movimentos sociais desfazerem os danos que uma ação de criminalização como essa causa na luta política, no direito de quem planta e colhe o que a cidade janta", defende o assessor jurídico da Terra de Direitos, Fernando Prioste. Segundo ele, "criminalizar é a tentativa de fazer quem luta contra injustiças ser visto como criminoso, e que suas pautas políticas, como a luta por um modelo agroecológico de agricultura, sejam vistas como luta de bandidos”, completa.
 

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"Sistema de justiça é adversário maior do que Temer", diz Pedro Serrano

"Sistema de justiça é adversário maior do que Temer", diz Pedro Serrano

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"Não se pode banalizar denúncias contra o presidente como foi feito pelo ex-procurador-geral", diz Serrano
Por Eduardo Maretti
Da Rede Brasil Atual
O presidente da República, Michel Temer, apresentou nesta quarta-feira (4), na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, sua defesa contra a segunda denúncia do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Temer é acusado de obstrução de Justiça e organização criminosa. Os ministros Moreira Franco (Secretaria Geral) e Eliseu Padilha (Casa Civil) também estão envolvidos nas denúncias. Na opinião do advogado de Temer, Eduardo Carnelós, a peça acusatória é “uma tentativa de golpe no Brasil”. 
Para Pedro Serrano, jurista e professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, embora Temer ocupe a Presidência da República de modo ilegítimo, o ambiente de banalização de denúncias desse tipo é mais preocupante do que o próprio Temer no cargo. “Acredito firmemente que o impeachment da presidente Dilma foi uma medida de exceção, totalmente inconstitucional, com o fim de interromper a democracia. Portanto, não acho legítimo, no plano político e jurídico, o presidente estar no cargo em que está. Mas, de qualquer forma, ele é o presidente em exercício e não se pode banalizar denúncias contra o presidente como foi feito pelo ex-procurador-geral”, diz Serrano.
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Em sua opinião, as denúncias deveriam ter sido melhor investigadas. “Meu medo não é o caso do Temer, mas que se banalize a ideia de que a toda hora se pode entrar com denúncia contra presidente da República, que só deve ser feita com um nível de provas e argumentação mais intensas e convicção muito grande, formada por provas e investigação sólidas, o que não há nas duas denúncias."
Para Serrano, a democracia corre risco no país com a ameaça a direitos básicos por parte do sistema de Justiça. “É um desejo legítimo o de tirar Temer, o desejo de que ele não permaneça fazendo as coisas que tem feito contra a democracia e a Constituição. Mas não podemos permitir que esse desejo ocasional se dê pelos mesmos meios autoritários com que estão atacando líderes políticos, pessoas, obras de arte, decisões científicas etc. Inclusive matando gente, como o caso do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina.”
O reitor Luiz Carlos Cancellier suicidou-se na segunda-feira (2), após ser preso, acusado de participar de desvio de dinheiro público.
“O grande inimigo hoje são as medidas de exceção produzidas pelo sistema de justiça. Nem o Temer é adversário maior do que isso. Estão criminalizando o presidente da República sem base jurídica concreta e probatória. A Constituição prevê, mas não pode ser banalizado”, diz Serrano. “Mesmo quando alguém que não simpatizo politicamente sofre esse tipo de política, eu tenho que apontar.”
Em nota, a defesa do presidente afirma que a denúncia é “forjada em narrativa confusa e inverossímil”, além de ser "inepta". “Trata-se de uma farsa em forma de acusação. Está amparada única e exclusivamente em declarações prestadas por delatores que se revelaram malfeitores confessos e em documentos que não trazem nem sequer indício da participação do sr. Michel Temer nos fatos descritos”, afirmam os defensores. “O golpe que visava à deposição do presidente precisa ser novamente frustrado.”

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E se fosse Lula no lugar de Obama, Dr. Moro?

E se fosse Lula no lugar de Obama, Dr. Moro?

Lula, no período final de seus mandatos, era uma personalidade mundial que – embora não como poder – como prestígio internacional, rivalizava com Barack Obama, o qual, até, disse que “Lula é o cara“.
Então, para a famosa “cognição sumária” do Dr. Sérgio Moro, vale a pena ler um trecho da cobertura feita pela Folha sobre a palestra de 20 minutos- com patrocínio do Grupo Globo, aliás – proferida hoje pelo ex-presidente americano, hoje, em São Paulo, seguida de um debate de outros 40 minutos.
Uma hora, portanto, apenas:
“O ex-presidente cercou sua visita de segredos. O cachê, estimado num evento recente nos EUA em US$ 400 mil, não pôde ser violado sob risco de não-comparecimento —o que ocorreu na Europa este ano. A plateia pagou até R$ 7.500 por um ingresso. Havia na plateia empresários e celebridades, mas nenhum político de peso.
Na tarde desta quinta, Obama receberá 11 jovens escolhidos pela fundação que leva seu nome para discutir temas como sustentabilidade, empreendedorismo e mudança climática.
Uma das pessoas contou que teve de assinar um termo de confidencialidade sobre o encontro.
Obama chegou a São Paulo na quarta (4), e está hospedado no hotel Hilton (zona sul). Ele veio com 12 pessoas de sua fundação, e seguirá nesta sexta para a Argentina.”
US$ 400 mil compra, fácil, o tal triplex do Guarujá. Um único ingresso paga dois meses do aluguel do apartamento de São Bernardo.
Se der uma passadinha na Argentina, onde fica, para os americanos, a nossa capital, Buenos Aires, leva o sítio de Atibaia, também.
Será possível que isso não dê vergonha a juízes que se sentem capazes de condenar Lula por uma suposta “corrupção”  por “vantagens” que ele seria capaz de comprar em uma semana com sua atividade de palestrante-celebridade?
Ah, e com um detalhe: Lula venceu a eleição de sua sucessão; Obama perdeu.

A democracia é ameaçada por um governo que está na margem de erro


5 de outubro de 2017 - 11h23 

A democracia é ameaçada por um governo que está na margem de erro


Foto: Reprodução/Flickr
  
“Nós precisamos ter soberania na economia, precisamos ter soberania nos instrumentos estratégicos de desenvolvimento, nós precisamos ter respeito à liberdade, à democracia dos seres humanos, à liberdade de expressão, à liberdade de viver, e à liberdade da arte e da criatividade”, defendeu a parlamentar em discurso no dia 3 de outubro, por ocasião dos 64 anos da lei que criou a Petrobras.

“Uma lei de Getúlio Vargas, de nº 2004, fundou a empresa, apesar de muitas opiniões em contrário, que diziam – obviamente por interesses que não eram brasileiros, não eram nacionais –, que o Brasil não tinha petróleo. Esse era o discurso predominante de muitos para impedir que o Brasil tivesse a estratégica possibilidade de ter a sua fonte energética de desenvolvimento, que seria exatamente o petróleo”, lembrou Jandira.

E acrescentou: “Vejam que hoje, em 2017, nós não temos apenas o petróleo, mas somos líderes mundiais em tecnologia de águas profundas, descobrimos o pré-sal – e aqui vai uma homenagem ao geólogo Guilherme Estrella, que é o responsável maior por essa descoberta durante o governo Lula – e hoje somos referência em petróleo e muito cobiçados no mundo pelo volume das reservas que temos no Brasil”.

Para a deputada, a soberania é, antes de tudo, “um direito do povo brasileiro, porque somos uma Nação, não somos colônias das grandes potências, não temos que abaixar a cabeça para o império americano, nem para império nenhum”.

Jandira destacou ainda as manifestações realizadas no Rio de Janeiro e em diversas cidades do país em rechaço à agenda entreguista de Temer. Citando particularmente os atos realizados no Rio de Janeiro, que reuniram mais de 50 mil pessoas, a deputada comunista afirmou que as manifestações são “uma profunda demonstração de brasilidade, de patriotismo e, ao mesmo tempo, de vinculação com a soberania popular”.



Crise política

Sobre a crise política, Jandira defendeu a formação de uma ampla frente em defesa da democracia, que está em xeque após o golpe de 2016, que afastou a presidenta Dilma Rousseff.

“Uma democracia que todo dia é ameaçada pelo autoritarismo de um governo que está na margem de erro, que está na lona, que não tem legitimidade nem apoio popular; uma democracia ameaçada por uma hipertrofia de poderes do sistema de Justiça, que acha que determina, por fora da política, os rumos da política brasileira; uma democracia ameaçada por militares que se insinuam falando em intervenção; uma democracia ameaçada por retirada de direitos; uma democracia ameaçada por manifestações fascistas contra a arte brasileira, dentro dos museus, onde prefeitos, falando em nome do poder público, querem proibir manifestações de arte, como de São Paulo e do Rio de Janeiro”, enfatizou.

“Nós não podemos admitir que o conservadorismo e o fascismo vençam!”, conclamou Jandira, salientando que, na atual conjuntura, as divergências não podem estar acima da democracia. Rebatendo o discurso da criminalização da política insuflado pela mídia, Jandira reforçou a importância dos partidos políticos para a democracia e repeliu a proposta de candidatura avulsa, que é tema de uma ação que será debatida no Supremo Tribunal Federal.

“Aqui, nós temos divergências, sim, e várias, em vários aspectos. Mas com democracia não se brinca, com partidos políticos que têm representação não se brinca. Se eles têm representação, é porque tiveram votos. Se tiveram votos, é porque parcela da sociedade se enxerga nesses partidos. Os partidos têm que ser respeitados. O que é isso agora na pauta do Supremo Tribunal Federal, candidatura avulsa? Não cabe candidatura avulsa!”. Advertiu.

E segue: “Precisamos respeitar a representação dos partidos, precisamos respeitar a institucionalidade brasileira. Que se resolva isso pela soberania do voto popular, por regras democráticas, mas não por intervenção de Poderes”.


Fonte: Vermelho