quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PSOL quer acompanhar exercício militar com EUA na Amazônia

Defesa

PSOL quer acompanhar exercício militar com EUA na Amazônia

por André Barrocal — publicado 11/10/2017 09h38
Pedido foi a ministro da Defesa e a chefe do Exército. Na Câmara, cobrança de informações sobre a nebulosa operação
Divulgação
Exército
Infantaria aeromóvel do Exército em treinamento
No início de novembro, o Exército fará um treinamento militar na Amazônia, numa área de fronteira com Peru e Colômbia, países cujas tropas estarão na atividade. As Forças Armadas dos Estados Unidos também vão participar, inédita presença do Tio Sam na Amazônia brasileira. Se os EUA terão portas abertas, por que não abri-las para um deputado? 
É o que quer o líder do PSOL na Câmara, Glauber Braga (RJ). O parlamentar protocolou o pedido no ministério da Defesa na segunda-feira 9. O documento destinava-se ao ministro Raul Jungmann e ao comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas. 
“A observação do exercício in loco poderá contribuir para o acompanhamento da operação com o máximo de transparência”, diz o deputado no ofício. 
No mesmo dia, Braga apresentou na Câmara um requerimento de informações dirigido a Jungmann. Quer detalhes sobre a presença, no treinamento, de militares que não sejam os dos países da tríplice fronteira. São cinco perguntas: 
1) No entendimento do Ministério da Defesa, o que justificaria o convite a militares de países de fora da América do Sul, e particularmente dos Estados Unidos, para participação em exercício militar na Amazônia brasileira? 
2) Quantos militares de outros países participarão do exercício Amazonlog17? Quais os seus nomes, nacionalidades e patentes, e quais funções desempenharão no exercício?
3) De quais outras formas os Estados Unidos participarão do exercício militar na Amazônia? Quais os nomes e funções do conjunto de estadunidenses (inclusive da equipe de saúde e de apoio logístico) que participarão da operação? 
4) O que justificaria o convite aos Estados Unidos para participar da instalação de uma base militar na Amazônia brasileira, ainda que temporária?
5) Segundo o sítio do Ministério da Defesa, empresas do setor de Segurança e Defesa, do Brasil e do exterior, apresentarão, em exposição ou durante o exercício, produtos que possam ser pertinentes à defesa e desenvolvimento sustentável da Amazônia. Quais empresas, brasileiras e estrangeiras, foram convidadas para essa exposição e participação no exercício, com base em quais critérios e segundo quais procedimentos? 
Para o governo ser obrigado a responder as questões, a Câmara precisa aprovar o requerimento. “A defesa da Amazônia é tema da maior relevância para a garantia da soberania e do desenvolvimento sustentável do Brasil, bem como dos direitos dos povos da região”, diz Braga no requerimento.
O deputado tem desconfianças adicionais, além daquelas apresentadas tanto no pedido para participar do treinamento (transparência) quanto para o requerimento de informações (defesa da Amazônia). “As riquezas da Amazônia e a maior reserva de petróleo do mundo estão muito próximas de onde será feito o treinamento”, afirma.
A maior reserva petrolífera do planeta fica na Venezuela, nação distante 600 quilômetros do centro da operação marcada para acontecer entre os dias 6 e 13 de novembro, Tabatinga, cidade de 60 mil habitantes no Amazonas, separada da colombiana Letícia por uma avenida e a uma corrida de barco da ilha peruana de Santa Rosa.
A Venezuela tornou-se um barril de pólvora nos últimos meses, graças a desavenças aparentemente insolúveis entre o governo chavista de Nicolás Maduro e a raivosa oposição direitista. Uma guerra civil não pode ser descartada.
Nesse clima, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse publicamente que considera usar uma ação militar no vizinho do Brasil, o que alimentou fantasmas de uma conflito armado. 
Em reportagem na edição que chegou às bancas em 25 de agosto, CartaCapital tratou desses “fantasmas”. 
Na Venezuela, por exemplo, há chavista crente de que o treinamento é o prelúdio de uma invasão do país por mercenários que os EUA contactariam em novembro e depois incentivariam e abasteceriam. 
A precariedade de informações brasileiras sobre o treinamento é uma das causas dos fantasmas. Jungmann não é lá muito eloquente a respeito. Tocou pela primeira vez no tema em 15 de maio. Bravo, como lhe é peculiar. “Não tem tropa americana aqui, não tem exército americano aqui, nem vai ter.” 
Repetiu o tom em um debate no Senado em 29 de junho, única menção em três horas. “Esse é um caso escandaloso de fake news”, afirmou. “Serão quatro observadores, senhores, quatro observadores num exercício sobretudo voltado para a logística humanitária.” 
Seria um propagador de fake news site oficial do Amazonlog, nome de batismo do evento que se compõe do exercício militar de novembro e de um simpósio e uma feira de negócios em setembro? “Em toda a região serão desenvolvidas ações conjuntas, multinacionais e interagências por tropas e agências brasileiras, colombianas, norte-americanas e peruanas”, diz o site. 
Ao listar os participantes do exercício militar por países, por órgãos brasileiros e por Forças Armadas, inclui entre estas últimas o “Comando Sul dos Estados Unidos”, ao lado de Brasil, Colômbia e Peru. Trata-se de uma instituição sediada em Miami, a olhar em nome do Tio Sam para tudo o que está para baixo dali, encarregada de operações no Caribe e na América do Sul.
Seu comandante, general Clarence Chinn, passou por Brasília em março, para conversar sobre os preparativos dos exercícios. De lá, viajou à Amazônia, a fim de conhecer o principal QG brasileiro na região.
Quatro dias depois da reportagem de agosto de CartaCapital, o comando do Exército publicou em seu site um relato um pouco mais informativo. Dizia que os EUA participarão cedendo uma aeronave de transporte C130, uma cozinha móvel, uma estação de purificação de água e uma equipe de saúde. 
O teor do comunicado foi replicado parcialmente pelo Ministério da Defesa em 26 de setembro, no meio de um texto que abordava o início do simpósio que faz parte do Amazonlog17.

Crise na Uerj afeta principalmente estudantes de baixa renda

Crise na Uerj afeta principalmente estudantes de baixa renda

COTIDIANO
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Crise na Uerj afeta principalmente estudantes de baixa renda
Por Jaqueline Deister
Do Brasil de Fato
Pioneira em programas públicos e sociais que transformaram a realidade brasileira, como as cotas raciais que democratizaram o acesso à educação pública e a idealização do Sistema Único de Saúde, o SUS, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Uerj, passa pela sua pior crise de financiamento desde a sua criação em 1950.  
Atualmente, estudantes, servidores e professores lutam para manter as portas da instituição abertas para a sociedade. O Restaurante Universitário da Uerj, no bairro do Maracanã, foi uma conquista dos estudantes que ocorreu em 2009 e que está fechado desde o início do ano por conta de falta verba.  
Jessica Ribeiro é aluna do curso de Pedagogia da Universidade e integra o Diretório Central dos Estudantes da Uerj (DCE). Segundo ela, a não reabertura do Bandejão tem causado um prejuízo para mais de 4 mil estudantes que dependem diretamente do Restaurante Universitário. 
 “O Restaurante Universitário estar fechado prejudica muito as pessoas que passam o dia todo na Uerj, como os bolsistas e também trabalhadores que saem do trabalho e vão direto jantar antes de ir para a aula. Então, é uma política de assistência estudantil que quando está fechada, prejudica muito os estudantes da universidade que são mais populares, como os pobres, negros, cotistas e bolsistas”, explica.
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Jéssica destaca ainda que a saída que os alunos encontraram para lidar com o fechamento do Bandejão foi levar para a universidade a refeição de casa.  
“Almoçar ao redor da Uerj é caro por conta da localização. A média de preço de um prato feito na região está entre 14 e 16 reais, por quilo fica mais caro. Então, a saída dos estudantes têm sido levar marmita” , conta.
Desde o dia 26 de setembro o Restaurante Universitário está ocupado por um grupo de estudantes da Uerj que reivindicam melhores condições de funcionamento para toda a Universidade. 
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Uerj informou que o processo de licitação do Restaurante Universitário ainda está em andamento. De acordo com o comunicado enviado à Radioagência Brasil de Fato, a empresa vencedora assumirá o Bandejão que reabrirá o mais rápido possível. No entanto, a reitoria da Uerj não divulgou um prazo final para a conclusão do processo.

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Justiça dura; justiça branda. Só mais uma forma de ser política

Justiça dura; justiça branda. Só mais uma forma de ser política

O relator do pedido de denúncia contra Michel Temer pediu seu arquivamento.
Moreira Franco e Eliseu Padilha, de carona, ficam fora do processo.
O Supremo rejeitou a denúncia contra Renan Calheiros. Também lá, Edson Fachin mandou arquivar o inquéritos das gravações do mesmo Renan, de José Sarney e Romero Jucá.
O habeas-corpus do pessoal da Fetransporte foi concedido a Jacob Barata.
Paulo Maluf, condenado em segunda instância, vai aguardar em liberdade. contrariando decisões recentes do STF que manda prender logo após sentença de órgão colegiado.
E Eike Batista volta a ter liberdade, bastando que se recolha à noite, como Aécio Neves.
Tudo isso em um único dia.
Não se trata, aqui, de ser “a favor ou contra” uma, várias ou todas as decisões.
O fato é que existe um evidente, flagrante, chocante descompasso entre o que ocorre nas instâncias supremas  e o que se passa em Curitiba.
Dizer que a lei é aplicada lá e “aliviada” em Brasília não responde a tudo.
Porque Brasília nunca ou quase nunca “alivia” as pesadas decisões tomadas lá quando os alvos são petistas.
Porque existe um ponto comum entre Brasília e Curitiba, e este ponto é a amputação do processo eleitoral brasileira pela via judicial.
O que representa uma usurpação que, com ela, arrasta também a Polícia Federal e, com isso, entrega a sociedade a um meganhismo insano.
A prisão preventiva deixou de ser um recurso contra a “periculosidade” ou o “risco de fuga” e passou a ser uma antecipação de pena. Prende-se, de cara”, “por merecimento” (merecimento subjetivo do juiz e da mídia, claro) mesmo antes do sujeito ser chamado a depor, que dirá ser condenado.
O Estado de Direito foi arruinado no Brasil e se engana quem acha que disso vai resultar alguma “moralidade”.
As ditaduras, militares, judiciais ou midiáticas são sempre, invariavelmente, regimes de injustiças e privilégios.

Campanha da desconstrução da imagem de Lula quer associá-lo às drogas

11 de outubro de 2017 - 11h34 

Campanha da desconstrução da imagem de Lula quer associá-lo às drogas


Reprodução
  
Nesta terça-feira (10), a Polícia Civil do Estado de São Paulo realizou uma ação de busca na casa de Marcos Lula da Silva, filho do ex-presidente, após receber uma "denúncia anônima" que indicava de forma infudada a presença de drogas no local.

O advogado de defesa do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, classificou a ação como abusiva. "A busca e apreensão, feita a partir de denúncia anônima e sem base não encontrou no local o porte de qualquer bem ou substância ilícita, o que é suficiente para revelar o caráter abusivo da medida",rechaçou.

Zanin se baseia no que estabelece a Constituição Federal, tão aviltada atualmente, que em seu artigo 5°, inciso XI, prevê a inviolabilidade do domicílio. A lei define exceções apenas quando violação em virtude do estado de flagrância do cidadão.

A lei é clara: "A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial".

Havia uma decisão judicial, no entanto, autorizada a partir de uma denúncia anônima, o que também viola a lei. De acordo com informações da colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a operação se baseou em uma denúncia anônima feita por telefone. em que a pessoa dizia que drogas poderiam estar sendo consumidas na residência.

A partir disso, a juíza Marta Brandão Pistelli, da 2ª Vara do Foro de Paulínia, determinou a busca e apreensão de "entorpecentes, armas e outros objetos ligados ao crime". Segundo a polícia, nada foi encontrado na vistoria na residência, que fica em Paulínia, no interior do estado de São Paulo. Mas, apesar de não ter encontrado entorpecentes, a operação apreendeu dois notebooks, CDs, DVDs e disquetes, além de vários documentos de Marcos.

Apesar dos fatos, a grande mídia seguiu o roteiro de ataque contra o ex-presidente. O Estadão, por exemplo, noticiou: "Polícia faz busca na casa do filho de Lula e não encontra drogas". A Veja também: "Polícia faz busca por drogas na casa do filho de Lula".

A legislação brasileira estabelece que um delegado de polícia sequer pode instaurar inquérito policial com base denúncia anônima, muito menos poderia violar um domicílio.

Para se ter ideia do absurdo de tal conduta, decisão do Supremo Tribunal Federal, de 2015, autorizou a entrada forçada em domicílio sem mandado judicial desde que amparada em fundadas razões devidamente justificadas posteriormente que indiquem que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade dos atos praticados. Se um policial necessita de tais requisitos para forçar a entrada numa residência, autorizar judicialmente tal ação também deve preencher o mínimo desses requisitos, caso contrário, viola os preceitos constitucionais.

"Absolutamente inconstitucional , ilegal e contra jurisprudência truística, a realização de busca e apreensão com base em denúncia anônima", enfatizou o professor de Direito Constitucional e jurista Pedro Serrano, que classificou a "persecução" a Lula e sua família como estarrecedora.

Serrano tem razão. A proteção constitucional contra a violação de domicílio foi uma garantia advinda após o período da ditadura militar, como forma de proteger o cidadão do arbítrio do Estado. Tanto é que tal violação só está previsto em casos excepcionais como Estado de Defesa, Estado de Sítio e a existência de flagrante de delito.

"Pelo que conheço de história, tudo que o Sistema de Justiça fez de bom nas ultimas décadas não deixará registro significativo. Ficará a imagem de persecução a um líder politico relevante e sua família. Se Lula é culpado, seus algozes, com esses abusos, vão inocentando o ex-Presidente . Colocando-o como vítima, o que, de fato, tem sido", frisou.
 

Do Portal Vermelho

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Nota deste blogueiro: e o "pequeno" carregamento com 450 kg de cocaína, do qual se tem filmagens? Depois de tanto tempo, já se sabe de quem é a droga? O conteúdo de uns saquinhos com um pó branco, exibidos por um senador em plena sessão do Senado, era farinha de trigo ou de mandioca?

O julgamento da “prisão” de Aécio: várias vergonhas num dia só

Será hoje, afinal, o insólito julgamento no qual não ninguém é inocente e do qual ninguém sairá absolvido: nem Aécio Neves, nem o Senado, nem o STF.
Porque parte de um evento inexplicável: o de não ter sido decretada a prisão em flagrante – legal e constitucional – quando vieram à tona as gravações de Aécio Neves achacando Joesley Batista e de seu primo apanhando as malas de dinheiro.
Todos os elementos para o estado de flagrância estavam presentes: o suposto crime estava em curso e havia evidência até de que uma ação parcial poderia ser muto perigosa, uma vez que Aécio aventava, de maneira nada velada, até a possibilidade de assassinar o “apanhador” do dinheiro caso este resolvesse falar.
Era mais grave, até, que o Delcídio do Amaral, onde se falava em dar dinheiro e fuga a um prisioneiro, mas não havia, ao que se sabe, atros criminosos em curso, que fossem além da ideia ou desejo.
Não fizeram  como com Delcídio por uma única razão: Aécio é tucano, líder dos tucanos, presidente (até agora) do partido tucano.
Cinco meses depois, óbvio, não se pode falar na prisão em flagrante prevista na constituição como única alternativa para deter parlamentar.
Parte-se então, para as chamadas “medidas alternativas à prisão” simplesmente para “fingir que prendem”, diante de uma opinião pública que foi, persistentemente, ensinada que processo judicial se faz com o acusado preso ou será “marmelada”.
As medidas restritivas à prisão tem uma lógica que nada tem a ver com o recolhimento domiciliar noturno, a não ser que o vagar pela noite possa ter relação com o crime que lhe é imputado: um “Jack, o estripador”, por exemplo, que se servisse da noite para assassinar.
É o que diz a lei ao condicional sua aplicação à “necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações penais”.
Por tudo, justifica-se o previsto ali: afastamento do cargo público onde possa interferir no processo – por exemplo, usar o mandato de senador  para negociar/votar/aprovar medidas que o beneficiem um simplesmente impeçam a aplicação da lei penal. Idem para proibi-lo de frequentar o Senado ou até de manter contato com outros senadores e agentes políticos através dos quais pudesse faz-elo, assim como a entrega do passaporte e o comparecimento periódico ao Juízo.
Mas é evidente que o “recolhimento domiciliar noturno”, salvo como justificada medida cautelar, caso antes mencionado, em tudo se confunde com a prisão em regime aberto, que prevê o mesmo recolhimento noturno como privação de liberdade, que é o ponto essencial da prisão.
Tanto é assim que é pacífico que a privação preventiva, total ou parcial, de liberdade – inclusive o recolhimento domiciliar noturno – é considerada pela jurisprudência brasileira como tempo a ser “descontado” no cumprimento de pena derivada de sentença.
Ninguém aqui duvida dos crimes praticados por Aécio Neves. Ao contrario, ele se evidenciaram de forma tão flagrante que nada – senão a histeria “pega-Lula” – o diferenciam do episódio Delcídio do Amaral.
E o Senado? Dele, não é preciso dizer nada quando, depois do escândalo, simplesmente engavetou um processo ético contra Aécio. Abriu mão de sua autojurisdição e decretou a impunidade do senador que, como só pode ser processado com autorização da casa, ganhava ali o direito de não sê-lo, por mais grave fosse o que tivesse feito.
Vamos, portanto, ao impensável julgamento de hoje, onde o Supremo terá de escolher se atropela a Constituição em nome da moralidade ou se passa por cima da moralidade e respeita a Constituição.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

EXCELENTE ENTREVISTA: Conservadorismo impede que militares identifiquem reais inimigos do país, diz coronel




ENTREVISTA

Conservadorismo impede que militares identifiquem reais inimigos do país, diz coronel

Em entrevista, Sued Castro Lima avalia que eventos recentes têm potencial de gerar conflitos no seio da cúpula militar

Brasil de Fato | Brasília (DF)
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Sued Lima, coronel aviador reformado, traça panorama do pensamento de militares brasileiros / Agência Brasil

Manifestações de altos oficiais das Forças Armadas brasileiras tomaram o noticiário recentemente, gerando uma polêmica em torno das posições e do papel dos militares no atual cenário político nacional. 
Sued Castro Lima é coronel-aviador reformado da Força Aérea. Com 5.500 horas de voo, deixou o serviço em 1998. Ele fez parte do grupo inicial que compôs o Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), entre 1992 e 1993, e é membro fundador do Observatório das Nacionalidades, vinculado à Universidade Estadual do Ceará (UEC).
Em entrevista ao Brasil de Fato, o coronel falou sobre diversas temáticas relacionadas às Forças Armadas e ressalta as condições históricas que levam os militares brasileiros a manifestarem agora o mesmo padrão de comportamento do passado: “Os governos chamados progressistas que dirigiram o Brasil nos últimos anos não esboçaram qualquer movimento para mudar esse quadro de predomínio total do ideário conservador, que bloqueia na oficialidade a capacidade de identificar os reais inimigos do país”.
“Não é temerário afirmar que o pensamento político do militar brasileiro, com pontuais exceções, está estacionado na década de 1960”, complementa. Confira a íntegra da conversa: 
Brasil de Fato: Recentemente, foi noticiada a presença de militares dos EUA em treinamento na Amazônia. Do ponto de vista histórico, isto é usual? Esse tipo de "manobra" representa algum risco para nossa soberania em termos bélicos?
Cel. Sued Lima: Alguns treinamentos de manobras militares conjuntas já vinham ocorrendo há anos: cito a Unitas, que envolve forças navais, e outras com unidades da Força Aérea Brasileira. 
Já essas operações de treinamento que se desenvolveram recentemente na Amazônia, em parceria com forças norte-americanas, guardam pelo menos dois ineditismos e uma vistosa contradição: os ineditismos decorrem da região agora escolhida: a Amazônia brasileira e da presença da força terrestre nas manobras. A contradição vem do visível choque com a posição explicitada em documento que passou a vigorar há apenas oito anos, aprovado pela Presidência da República, de nome Estratégia Nacional de Defesa, que aponta a Amazônia como região “a ser priorizada nos estudos de defesa nacional, por seu grande potencial de riquezas minerais e de biodiversidade, que atraem o foco (leia-se cobiça) da atenção internacional”. Não é por outro motivo que as três Forças Armadas vêm transferindo suas unidades operacionais de outras regiões do país para a Amazônia. 
Pessoalmente, tenho imensa dificuldade em entender esse movimento ambíguo: aumentam-se as defesas e abre-se o espaço à participação da mais ameaçadora das potências.
A discussão sobre a Base de Alcântara voltou à tona em 2016/2017. Há pouca cobertura noticiosa sobre o programa espacial brasileiro. A concessão da unidade a estrangeiros não poderia ser um instrumento de dinamização do programa? 
Depende de quem venha a ser o estrangeiro. A Ucrânia, parceiro até recentemente, era detentora de importantes conhecimentos sobre tecnologia aeroespacial e, inicialmente, dispunha-se a nos transferir parcela desses conhecimentos. Há mais de vinte anos que aquele país é capacitado a lançar satélites utilizando seu próprio veículo lançador. 
Já os Estados Unidos, quando se candidataram para ocupar o mesmo espaço, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, estabeleceram um rol de exigências que praticamente transformavam a base em enclave no território brasileiro, algo como Guantánamo, em Cuba. Coerentes com sua posição internacional de vetar acesso de qualquer país aos conhecimentos sobre lançamento de foguetes, não se dispunham e jamais se disporão a promover qualquer nível de transferência de tecnologia na área espacial.
Conforme revelou o site Wikileaks, em 2011, o governo estadunidense tentou impedir o desenvolvimento de um programa de produção de foguetes espaciais brasileiros e, nesse sentido, pressionou explicitamente a Ucrânia, o que foi registrado em telegrama enviado pelo Departamento de Estado a sua embaixada em Brasília, onde declarava com todas as letras não apoiar o nosso programa de lançamento veículos espaciais e considerar indesejável que a Ucrânia favorecesse a transferência de tecnologia com relação à matéria.
Lamentável é ver agora as atuais autoridades brasileiras voltarem à negociação para ceder a Base de Alcântara para tão abominável parceiro. Notícias bem recentes dão conta de que as tratativas encontram-se em fase final de ajustes. Deplorável!. 
A privatização do primeiro satélite brasileiro e da rede de comunicações da Aeronáutica - assim como dos próprios aeroportos civis - está na ordem do dia. O que justificariam medidas como essa? O que o país perde com as possíveis privatizações desses serviços e equipamentos?
Desconheço a existência alguma potência que adote o modelo de rede de comunicações militares operada por empresas privadas. Além do nível de segurança exigido para o trânsito de mensagens de segurança de Estado, o porte de investimentos envolvidos em produção de satélites, veículos lançadores e infraestrutura de apoio é muito elevado. Não identifico empresa nacional capaz de assumir tal tarefa e a entrega às estrangeiras significaria o fim da soberania nacional. Fosse uma atividade simples, não se configuraria como tecnologia restrita a poucos países. As grandes potências estrangeiras detentoras dessa capacidade jamais depositaram tal tarefa nas mãos de empresas privadas.
No caso das privatizações brasileiras, no sentido mais amplo, vivemos um descalabro. O Estado investe conhecimentos e capitais na montagem de estruturas de grande porte em empresas de diversas áreas, enfrenta os prejuízos operacionais do início da atividade e depois, com as empresas já lucrativas, repassa-as por valores irrisórios à iniciativa privada, como vem ocorrendo com a infraestrutura aeroportuária. Usando o caso da Eletrobras como referência, há informações indicando que o atual governo tenciona vender a empresa por valor 13 vezes inferior ao capital real nela investido. 

Segundo o prof. Ildo Sauer, da USP, ex-diretor da Eletrobras, até mesmo os governos petistas se empenharam em enterrar uma das maiores empresas de eletricidade do planeta.
A alegada eficiência das empresas privadas pode ser medida no exemplo da privatização da Companhia Vale do Rio Doce e sua venda à Samarco Mineração SA, responsável por um dos maiores desastres ambientais vividos pela humanidade. A volta ao comando do país de um governo verdadeiramente democrático necessariamente representará a denúncia dos processos espúrios de privatização ora em curso e o retorno do patrimônio espoliado ao controle do Estado brasileiro.
O programa do submarino nuclear brasileiro enfrenta uma série dificuldades no presente momento. Qual era sua importância para as Forças Armadas e para o país? É necessário retomá-lo com vigor? 
A construção de um submarino com propulsão nuclear foi classificada como prioritária pela Estratégia Nacional de Defesa, de 2008. A Marinha considerava o equipamento ferramenta fundamental para emprego na defesa da costa brasileira, a chamada Amazônia Azul, com ênfase nas reservas do pré-sal.
Trata-se de um projeto arrojado, com elevado nível de complexidade tecnológica e de custos em desenvolvimento e fabricação estimados em R$ 32 bilhões, dos quais pouco menos da metade já consumidos. Mas os benefícios operacionais como arma de dissuasão são incomparáveis.
A estimativa é de conclusão em 2027, o que já representa um atraso de seis anos em relação à projeção inicial. Todavia, a crise que desabou sobre o país afetou a construção do submarino de duas formas: pelo contingenciamento de recursos e pelo afastamento do principal cientista envolvido em sua execução, o Almirante Othon Silva, condenado a surpreendentes 43 anos de prisão. 
Não é ocioso considerar que há algo de escabroso por trás dessa pena absurda. Não se descarte a possibilidade de que tais ações façam parte da estratégia da grande potência mundial no sentido de eliminar o surgimento de dificuldades que se contraponham a alguma futura intervenção imperialista em nosso país.
Entendo que é necessário dar andamento ao que foi planejado, com a retomada do projeto inicial, por tudo que esse empreendimento representa em termos de segurança estratégica, por sua capacidade de dissuadir eventuais aventuras usurpadoras.
Até mesmo a compra de novos caças para a FAB tendo sido alvo de investigações e contestações. Qual a necessidade de reforçar a aviação militar nacional?
Pelas mesmas razões que justificam a construção do submarino nuclear. Não se imagina combater e vencer uma grande potência. O que se pretende é dispor de algum poder dissuasório, definido como a capacidade de um país em promover danos importantes às forças que o ataquem militarmente, levando o atacante a sopesar cuidadosamente sua disposição de solucionar “manu militari” seus litígios internacionais.
A Argentina foi derrotada pelo Inglaterra na Guerra das Malvinas, em 1982, mas sua Força Aérea impôs danos de monta às forças britânicas, resultantes de 6 modernos navios de guerra afundados, 9 navios de apoio danificados, 35 aeronaves destruídas e cerca de 260 combatentes mortos. Mesmo assim, seu poder de dissuasão não foi suficiente para conter o impulso colonialista do decadente império.
O Brasil, por sua posição geopolítica, deveria dispor de uma melhor capacidade dissuasória, que é efetivamente irrelevante. A Coreia do Norte e o Irã optaram por amamento nuclear como recurso de defesa. Não por casualidade, os EUA ainda não julgaram saudável invadir ambos os países, como fizeram no Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria, dentre outros.
A última desse bloco, um pouco distante das outras: no contexto de crise da segurança pública, as Forças Armadas vem sendo demandadas para atuação na área em algumas cidades. Como o senhor vê isso? 
Vejo como medida inócua e desmoralizante. A crise de segurança no Brasil exige dois tipos de ação: social e policial. Uma não funciona sem a outra e para nenhuma delas as Forças Armadas estão preparadas. 
Como a confirmar o que acima está dito, a coluna do jornalista Jânio de Freitas, do dia primeiro de outubro de 2017, lembra que em 1992, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, a Rio 92, em que foram empregadas tropas do Exército no policiamento da cidade, carros de combate foram dispostos em via pública apontando seus canhões para a Rocinha, como se houvesse disposição dos militares para disparar obuses contra a população favelada. A situação teria sido qualificada pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, presente ao evento, como ridícula.
As últimas operações indicam que, ao longo dos anos, pouco mudou na qualidade e efetividade de tais intervenções. Vão os militares, passam alguns dias em ação midiática, o ministro da Defesa apregoa vitória, retiram-se os soldados e tudo volta a 'ser como dantes no quartel de Abrantes'.
O governo e o Parlamento debatem a questão de uma maior abertura a estrangeiros na aquisição de terras. Do ponto de vista da integridade do território nacional, isso apresenta algum risco?
Não me julgo suficientemente informado para tratar desse assunto. Sei apenas que há interesse do governo Temer em aprovar uma legislação que facilite a venda de terras a estrangeiros. Por trás das tratativas estão o ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil, e o deputado federal Newton Cardoso Júnior, do PMDB- MG, o que torna a ideia inteiramente suspeita de ser contrária aos interesses nacionais. 
Existe uma reorientação da política externa brasileira no último período. Ela impacta na atuação da Defesa? De que forma?
Mais do que de equipamentos bélicos, a defesa de um país tem relação direta com seu posicionamento em termos de política externa. Sob a gestão do ministro Celso Amorim, o Brasil atuou com inegável brilhantismo na aproximação de novas parcerias estratégicas. 
Já em 2006, o Brasil passara a formar o bloco econômico de nome BRIC (depois BRICS), constituído pela Rússia, Índia, China e África do Sul.
Em 2010, passou a priorizar relações com países do continente, liderando a criação da União de Nações Sul-Americanas, que congregou 12 países da região. Para desenvolver os laços na área de segurança, foi criado o Conselho de Defesa Sul-Americano, que prevê a realização de exercícios militares conjuntos, a participação em operações de paz das Nações Unidas, troca de análises sobre os cenários mundiais de defesa e integração de bases industriais de material bélico, que compõem medidas de fomento de confiança recíproca.
Assim, a política externa brasileira deixou de orbitar em torno dos interesses estratégicos dos Estados Unidos, gerando evidente desconforto e antagonismo da potência ianque, que vê nesses movimentos sintomas de rebeldia em região onde consideram consolidado seu domínio.
Com o golpe de 2016, essas medidas vêm sendo esvaziadas, num movimento profundamente antipatriótico. 
Há muita especulação sobre o sentimento das Forças Armadas na atual conjuntura e teorias sobre a possibilidade de uma nova atuação direta dos militares, com muitos exageros, volta à tona. Qual o real sentimento do Exército em relação ao momento em que o país vive e qual sua posição sobre isso?
Eu fiz carreira na Força Aérea, como oficial aviador, e estou fora do serviço ativo desde 1998. Mas passei 35 anos na caserna e tiro minhas avaliações sobre o assunto proposto nesta questão da experiência que vivi e de reflexões com colegas que deixaram a ativa mais recentemente ou que continuam atuando de alguma forma no âmbito do Ministério da Defesa. Também coleto subsídios através da participação em debates acadêmicos e da leitura de textos relativos ao tema.
Primeiramente, importa lembrar alguns fatos históricos ocorridos nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, quando eram intensos os embates políticos que se produziam entre as correntes políticas dominantes do ambiente castrense de então.
Um desses grupos era composto por militares que defendiam, entre outras questões, o alinhamento incondicional com os Estados Unidos, incluindo a participação do Brasil na guerra da Coreia, promovida pelos norte-americanos. Entre outras posições antinacionais, atacavam a criação da Petrobras e defendiam a cessão da infraestrutura do país a corporações estrangeiras. Na Força Aérea, oficiais que seguiam essa linha de pensamento pugnavam até pela entrega da manutenção de aeronaves militares a empresas não nacionais. Eram os chamados entreguistas.
Com o golpe militar de 1964, esse grupo ascendeu ao poder e determinou um vigoroso expurgo nas Forças Armadas que, segundo alguns estudos, atingiu mais de sete mil militares do grupo oponente, que se qualificava como legalista e nacionalista.
A par desse processo, cuidou-se de higienizar as escolas militares para que nelas não fossem mais gerados “desvios políticos”. Diferentemente do que ocorreu na Espanha, Argentina, Uruguai, Venezuela e Equador, os governos chamados progressistas que dirigiram o Brasil nos últimos anos não esboçaram qualquer movimento para mudar esse quadro de predomínio total do ideário conservador, que bloqueia na oficialidade a capacidade de identificar os reais inimigos do país. Não é temerário afirmar que o pensamento político do militar brasileiro, com pontuais exceções, está estacionado na década de 1960. 
Todavia, entendo que os acontecimentos políticos que ora se sucedem têm potencial de gerar conflitos no interior da cúpula militar. Não é surpreendente que o general Sérgio Etchegoyen se coloque favorável à venda de empresas estatais a estrangeiros, pois tal postura é coerente com sua linhagem familiar, que vem assim desde a década de 1940. Com ele, alinha-se o general Hamilton Mourão, conforme deixou claro na palestra proferida na casa maçônica de Brasília. 
Por seu lado, surge em recente palestra o general Edson Leal Pujol, Comandante Militar do Sul, que também parece buscar lugar no time de oficiais da ativa adeptos da autonomia para expressar opiniões políticas, embora isso lhes seja vedado por regulamentos pelos quais lhes cabe zelar. Informa-nos ele que, após a queda da Presidente Dilma, o Partido dos Trabalhadores teria feito uma autocrítica no Congresso realizado em 2016, admitindo como pecados de sua experiência no poder o fato de não ter dominado totalmente a imprensa, não ter alterado os currículos das escolas militares e não ter promovido oficiais simpatizantes com as posições do partido.
É de se duvidar da capacidade cognitiva de Pujol, pois o documento citado por ele fala de deliberações bem diferentes: democratização dos meios de comunicação, de que somos claramente carentes, e cumprimento das recomendações da Comissão Nacional da Verdade acerca de direitos humanos e de currículos das escolas de oficiais, dos quais se fazia necessário expurgar valores antinacionais e antidemocráticos, como o elogio ao golpe de 1964 e ao regime militar que então se estabeleceu.  
De qualquer modo, os quadros da ativa do Exército contam com 15 generais de quatro estrelas. Temos ouvido pronunciamentos de parcela correspondente a um quinto do total. Se não houver dissidência no alto comando em relação a esse conservadorismo tão retrógrado, é de se lamentar pelas nossas Forças Armadas. 
Edição: Vanessa Martina Silva
Fonte: Brasil de Fato