quinta-feira, 2 de novembro de 2017

LULA NA ESTRADA DE NOVO

LULA NA ESTRADA DE NOVO

Na segunda caravana pelo Brasil, o ex-presidente visitou diversas cidades para dialogar com o povo mineiro
Realizar a segunda fase de sua caravana por Minas Gerais, após o grande sucesso da primeira, no mês de agosto, percorrendo todos os estados do Nordeste, parecia ser um feito ousado para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, ele encarou o desafio: foram 1.500 quilômetros rodados em oito dias, de 23 e 30 de outubro.
Pela segunda vez, nós do Brasil de Fato, da Mídia Ninja e dos Jornalistas Livres tivemos a oportunidade de acompanhar esta travessia, que passou por 21 cidades: Ipatinga, Periquito, Governador Valadares, Teófilo Otoni, Catuji, Padre Paraíso, Ponto dos Volantes, Itaobim, Itinga, Araçuaí, Coronel Murta, Salinas, Rubelita, Francisco Sá, Montes Claros, Bocaiúva, Diamantina, Olhos D'água, Couto de Magalhães de Minas, Cordisburgo e Belo Horizonte.
Desta vez, tivemos um reforço na comunicação. Em várias ocasiões, Lula deixou de discursar para entrevistar estudantes, camponeses, pescadores e trabalhadores nos palcos dos atos públicos.
No "talk show", o ex-presidente arrancou risadas e histórias de luta e resistência do povo mineiro, além de ouvir a demanda local dos municípios. Nesses diálogos, ficava nítida a identificação com as pessoas mais pobres, que enfrentam privações absurdas. E também a obsessão de Lula em torno da ideia de que o pobre "só precisa de oportunidade, porque inteligência ele tem".

DISPOSIÇÃO

Mesmo com uma programação mais enxuta em relação a do Nordeste, a caravana em Minas Gerais manteve o ritmo intenso e imersivo. Acompanhamos o trajeto de ônibus com a equipe de comunicação da caravana. Toda manhã, o veículo saia pontualmente junto com a saída do ex-presidente do local onde se hospedava. Certo dia, o disposto Lula é quem foi até nós e concedeu uma entrevista coletiva aos veículos da imprensa popular e alternativa em nosso ônibus.
"Tenho 72 anos, corpinho de 30 e tesão de 20 para a luta", repetiu algumas vezes o ex-presidente nos palanques.
No entanto, em Araçuaí, Lula pareceu cansado, até um pouco irritado. No palco, entrou um rapaz arrumado, levando um papel amassado. Aparentemente, o jovem estava nervoso. Assim que o viu, o ex-presidente mudou o semblante. A sensação era a de que o cansaço arrefeceu. Lula pediu mais um microfone – "Quero conversar com ele, poxa" – e começou mais uma entrevista.

ENCONTROS

Se havia dúvida sobre a recepção calorosa em terras mineiras, ela foi dissipada na chegada ao Vale do Jequitinhonha. Em uma das paradas, a pequena cidade de Itinga foi tomada pela população, em plena terça-feira à tarde.
O local contou, inclusive, com um "camarote". Quem proporcionou isso foi a moradora Thaísa Cordeiro, que abriu as portas e varandas de sua casa para que diversos amigos pudessem ter um bom ângulo para ver e ouvir o ex-presidente. "Faço isso porque somos simpatizantes de Lula e reconhecemos a facilidade que ele trouxe para nós, moradores".
Em frente a uma ponte construída sobre o Rio Jequitinhonha durante o governo do petista, os moradores comemoravam os avanços da região e das políticas públicas para a população. Até então, Itinga era isolada. Lá, Lula reencontrou o balseiro Everaldo Vieira Souza, a quem havia prometido a construção da ponte em 1989, durante sua primeira visita ao local.
Outro encontro forte foi no caminho entre os municípios de Araçuaí e Salinas, no Vale do Jequitinhonha, em que aldeias indígenas da região aguardavam a passagem de Lula num local próximo à cidade de Coronel Murta. Fora do roteiro pré-estabelecido, o ex-presidente reencontrou a cacique Benvina Pankararu e, em um ritual, ela o abençoou pela segunda vez – a primeira havia sido em 2003.

MUDANÇAS

Um dos pontos altos da viagem foi o ato cultural em Araçuaí, onde cancioneiros, corais e cantadores se apresentaram. Outro “momento festa” foi em Montes Claros, no Norte mineiro, que recebeu o ex-presidente em seu aniversário de 72 anos.
Gileno da Silva Alves, de 47 anos, de Guanambi (BA), viajou 380km para ver e prestigiar o momento. "O aniversário é dele, mas o presente quem ganha somos todos nós, brasileiros, com sua volta à Presidência”, afirmou ele, durante o ato na praça principal da cidade.
Emocionante também foi a visita de Lula aos agricultores familiares da Associação de Produtores da Região do Pentáurea, em Montes Claros, onde foi possível um encontro mais próximo e caloroso. Lá, os trabalhadores relataram como a vida mudou após os programas dos governos de Lula.
Um dos agricultores, Antônio Borges Pereira, de 51 anos, contou a mudança em sua família, em que seus filhos fizeram faculdade e voltaram para seguir com o trabalho no campo. "Eles se formaram em Direito e Veterinária, mas voltaram para cá. Outra filha fez técnico em Administração e ajuda nas finanças. Esses programas nos deram as condições boas para valorizar cada vez mais o trabalho na roça".

COBRANÇAS

Mas a caravana não ficou só no apoio ao ex-presidente e à sua candidatura nas próximas eleições presidenciais. Os movimentos populares marcaram presença também para pressionar por pautas essenciais em suas regiões e pelo posicionamento do Partido dos Trabalhadores em relação às suas demandas.
Em Governador Valadares, uma das cidades impactadas pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco na cidade de Mariana, os atingidos se organizaram para pedir uma atuação mais concreta do governo do estado, que está sob gestão do também petista Fernando Pimentel.
Já em Diamantina, cidade que abriga um dos campi da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), uma reunião com 17 reitores de universidades e institutos federais mineiros apontou os efeitos do pós-golpe e suas reivindicações atuais.
Os representantes das instituições de ensino tinham uma demanda nítida: a anulação da Emenda Constitucional do Teto de Gastos Públicos, que congela os investimentos públicos, inclusive em educação, por 20 anos.
A Lula coube encorajar os reitores neste momento difícil: "Vocês estão na linha de frente dessa batalha. Não pode entrar nas costas de vocês a herança maldita que o golpe está deixando. Essa reunião nos convoca a uma luta mais séria em relação à educação".

PASSADO E FUTURO

No terceiro dia da caravana, na quarta-feira, 25 de outubro, o ex-presidente parou em seis cidades entre os vales do Mucuri e Jequitinhonha. A cada parada, as falas do povo, ainda que plurais, eram quase uma unanimidade: os governos de Lula e de Dilma foram os primeiros que efetivamente olharam para os pobres.
Em vários lugares, o carinho com a ex-presidenta Dilma Rousseff, destituída do cargo depois de um golpe, era visível e forte.
Ao longo do trajeto, as pessoas também destacavam que sentiam na pele os efeitos do golpe. Os cortes em programas sociais e políticas públicas, como o Bolsa Família e o de construção de cisternas, eram recorrentes entre os relatos do povo.
Chegando ao último dia, na segunda-feira, 30 de outubro, o ato de encerramento levou 40 mil pessoas à Praça da Estação, na capital mineira, Belo Horizonte. Em seu último discurso desta jornada, Lula assumiu dois compromissos, os mesmo que deram o tom político de toda a caravana. O primeiro compromisso é o de chamar um referendo para revogar as medidas implementadas pelo presidente golpista Michel Temer (PMDB), como as reformas trabalhista e da Previdência. Para isso, Lula já havia destacado que era necessário contar com o apoio popular, com a "autorização da sociedade", para que o Congresso Nacional seja pressionado.
Além disso, o ex-presidente agora prometeu que manterá um olhar atento e firme para a democratização da comunicação.
Esse compromisso de ampliar as vozes na mídia se faz urgente e necessário, ainda mais quando nota-se, novamente, que a cobertura feita pela imprensa comercial sobre estes oitos dias pouco focou na diversidade de histórias, relatos e rostos que acompanhavam a caravana.
Por isso, como jornalistas, ativistas e comunicadores populares, ressaltamos a necessidade de cada vez mais mídias independentes, populares e alternativas, que junto com o povo e conectadas em redes colaborativas, são fundamentais para a democracia.
Nós, do Brasil de Fato, dos Jornalistas Livres e da Mídia Ninja, encerramos a cobertura desta segunda caravana de Lula pelo Brasil com a certeza de que colaboramos na luta pela democracia, por um projeto popular de país e pelo povo brasileiro.

Donos da mídia têm atuação direta em outros setores da economia, aponta estudo

RAIO-X

Donos da mídia têm atuação direta em outros setores da economia, aponta estudo

Pesquisa mostra ainda alta concentração dos meios e pouca transparência por parte dos 26 maiores grupos do país

Brasil de Fato | Brasília (DF)
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Ouça a matéria:
No Brasil, quatro grupos - Globo, SBT, Record e Band - controlam 70% da audiência da TV aberta, principal meio de comunicação do país / Valter Campanato/Agência Brasil
A maior parte dos grandes grupos de comunicação no Brasil tem relação direta com outros setores da economia. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa feita pela organização Repórteres sem Fronteiras em parceria com o coletivo de comunicação Intervozes. Entre 26 grupos mapeados no país, o estudo mostra que 21 deles possuem negócios em áreas como educação, agropecuária, mercado imobiliário, setor financeiro e saúde.
O raio-x reforça a preocupação da sociedade civil organizada no que se refere ao conflito de interesses que domina essas relações, com ressonância direta na cobertura dos veículos.
"É um conflito de interesses muito grande quando, por exemplo, um grupo de comunicação que tem um grande conglomerado de educação privada vai discutir a questão da educação pública no Brasil. É importante que a gente consiga trazer transparência pra essas relações para as pessoas saberem quais interesses estão por trás dos grupos que estã se comunicando com elas", afirma o cordenador do estudo pelo Intervozes, André Pasti.
A pesquisa, já realizada em outros dez países, mapeou 50 veículos dentro dos 26 grupos selecionados, englobando os segmentos de TV, rádio, mídia impressa e internet. Eles foram selecionados com base na audiência e no potencial de influência sobre a opinião pública.
Concentração
Entre outras coisas, o levantamento mostra a concentração da audiência. Para se ter uma ideia, na televisão aberta, que é considerada o principal meio de comunicação no país, quatro grupos respondem por uma fatia de 70% do total. São eles: Globo, SBT, Record e Band.
O estudo também mostra que a concentração midiática tem um recorte regional: 73% das matrizes dos grupos pesquisados estão localizadas na Região Metropolitana de São Paulo. Um aspecto que se comunica diretamente com os interesses de grupos hegemônicos da economia, localizados, na maioria das vezes, na região Sudeste.
Transparência
De acordo com os organizadores, todas as empresas pesquisadas foram procuradas para prestar informações a respeito do tema, mas nenhuma delas respondeu. Os dados utilizados no estudo foram obtidos a partir de informações do Ministério das Comunicações, da Anatel e da Junta Comercial de São Paulo.
Patrícia Cornills, da ONG Repórteres sem Fronteiras, critica a falta de transparência dos veículos e a importância da pressão social para que a prestação de dados seja permanente.
"Que cidadão comum vai poder ter acesso a essas informações se nao for com esse nível de mobilização, de conhecimento anterior? Essa informação tem que estar nas mãos dos cidadãos do país", defende.
Por conta disso, o estudo ganhou uma plataforma digital que será constantemente atualizada, de forma a favorecer o monitoramento da mídia no país. O material pode ser acessado no link http://brazil.mom-rsf.org/br/
Edição: Vanessa Martina Silva

ESPECIAL | REVOLUÇÃO RUSSA 100 ANOS

ESPECIAL | REVOLUÇÃO RUSSA 100 ANOS

A relação com a classe trabalhadora, o protagonismo das mulheres, entre outros pontos, estão no novo especial do BdF
Um país assolado pelas agruras da guerra. A fome era disseminada entre uma população marcada pelo maior conflito bélico já ocorrido até então: a Primeira Guerra Mundial. O número de órfãos, viúvas e mutilados crescia conforme o tempo do confronto se estendia. É neste cenário que a primeira experiência bem sucedida de tomada do poder pela classe trabalhadora se deu: a Revolução Russa!
O resgate deste período, que completa seu centenário neste outubro de 2017, é o ponto chave deste especial do Brasil de Fato. Sua importância, sua relação com a classe trabalhadora de ontem e de hoje, o protagonismo das mulheres revolucionárias na luta; bem como curiosidades sobre seu ciclo histórico fazem a trança deste conteúdo. Confira!

PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA, A CLASSE TRABALHADORA NO PODER

CURIOSIDADES DA REVOLUÇÃO PARTE 1

AS MULHERES NA LINHA DE FRENTE

CURIOSIDADES DA REVOLUÇÃO PARTE 2

SÍMBOLOS

Laerte | A Revolução triunfou

EDITORIAL

Revolução de 1917 mudou história do século 20 e é referência para ações políticas das organizações de esquerda

ENTREVISTA

Independentemente de divergências ideológicas, a importância histórica da Revolução Russa é incontestável. Para o historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP), Angelo de Oliveira Segrillo, a União Soviética praticamente "balizou o século XX".
Segrillo é considerado um dos principais teóricos do tema no Brasil, tendo cursado seu mestrado pelo Instituto Pushkin de Moscou, durante os últimos anos da antiga URSS. Sua tese de doutorado - posteriormente publicada no livro "O Declínio da União Soviética: um estudo das causas" - foi a primeira na historiografia brasileira a utilizar pesquisas diretas nos antigos arquivos soviéticos.
Confira a videorreportagem completa!

Por que a Venezuela provoca tanta ira em Donald Trump?

ENTREVISTA

Por que a Venezuela provoca tanta ira em Donald Trump?

O Brasil de Fato conversou com o ministro de Comunicação venezuelano, Ernesto Villegas, para debater os rumos do país

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)
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Ernesto Villegas, ministro de Comunicação e Informação da Venezuela / AVN
Por que um país de apenas 30 milhões de habitantes, localizado à beira do Caribe, provoca tanta ira na principal potência do mundo? É a pergunta que muitos fazem quando escutam o mandatário estadunidense, Donald Trump, dizer que os Estados Unidos "sofrem a opressão do socialismo do regime de Nicolás Maduro", presidente venezuelano.
A declaração foi feita por Trump após a vitória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Nicolás Maduro, nas eleições regionais no último dia 15 de outubro. Quando muitos achavam que o chavismo havia chegado ao seu limite histórico, eis que surge um novo triunfo eleitoral que surpreendeu à Venezuela e ao mundo.
Para debater a relação com os Estados Unidos e os desafios do chavismo – campo surgido a partir da Presidência e do pensamento de Hugo Chávez – frente ao atual cenário, o Brasil de Fato realizou uma entrevista exclusiva com o ministro do Poder Popular para a Comunicação e a Informação da Venezuela, Ernesto Villegas.
"Como alguém pode imaginar que o governo venezuelano ou o país inteiro pudesse, hoje, oprimir os Estados Unidos? Pelo amor de Deus, a Venezuela não tem disposição, nem a capacidade de oprimir os Estados Unidos, em nada. O que temos, sim, é a autoridade moral, o exemplo de dignidade", afirmou o ministro.
Confira a entrevista.
Brasil de Fato: O governo de Maduro manteve algum tipo de diálogo com a oposição sobre a questão dos resultados eleitorais?
Ernesto Villegas: José Martí, um apóstolo da Revolução Cuba, tem uma frase que diz: "Na política, a única coisa verdadeira é aquilo que não se vê". O jornalismo, claro, tem o trabalho de buscar e trazer à luz essas questões. O presidente Maduro tem afirmado publicamente que mantém contato com a oposição venezuelana. O diálogo é inevitável. A negativa ao diálogo também faz parte do diálogo, é uma postura que gera uma resposta e logo conduz a uma série de reações. É uma forma de expressar uma postura.

 

No dia da eleição foi surpreendente como países como Espanha mantiveram uma postura ainda mais radical que a da oposição venezuelana. No final da tarde, enquanto um porta-voz da opositora Mesa da Unidade Democrática, Jesus Chúo Torrealba, dava uma entrevista coletiva dizendo que a oposição estava satisfeita com o processo, o governo espanhol divulgava suas primeiras declarações com críticas às eleições.
Alguns países assumem a pose que está estabelecida no roteiro. É um roteiro destinado a criar as condições para a desestabilização e a derrubada da Revolução Bolivariana. Tem uma antiga série de televisão dos Estados Unidos que se chama Perdidos no Espaço. Nessa série, tinha um personagem que era um robô. Quando escutava alguma frase que não podia processar em sua memória começava a dizer: "não é computável, não é computável". Bom, esses resultados eleitorais, democráticos estavam fora do roteiro dos países que querem por fim à Revolução, portanto não aceitam a realidade, "não é computável".
A administração de Donald Trump surpreendeu o governo venezuelano? Por que em sua campanha política ele não mencionou a Venezuela e agora tem dado muitas declarações sobre o governo Maduro?
Penso que ele nos ignorou, porque ele estava fazendo uma campanha da "porta para dentro". Inclusive questionou ao [ex-presidente Barack] Obama por ocupar-se de conflitos fora de suas fronteiras. Dizer que nos surpreendeu seria passarmos por ingênuos. Havia duas possibilidades, uma delas é que Trump se dedicara a governar da "porta para dentro" e a outra que pudesse impulsionar uma política intervencionista nos cinco continentes, que é o que estamos vendo.
Trump é praticamente um prisioneiro de um discurso e de uma história de ingerência. Trump nem conhece direito a Venezuela. Tem alguém o instruindo sobre as coisas que ele anda falando publicamente. Como alguém pode imaginar que o governo venezuelano ou o país inteiro pudesse, hoje, oprimir os Estados Unidos? Pelo amor de Deus, a Venezuela não tem disposição, nem a capacidade de oprimir os Estados Unidos, em nada. O que temos, sim, é a autoridade moral, o exemplo de dignidade. Isso, sim, poderia ser o que Trump descreve como uma suposta opressão. Com que capacidade nós oprimimos a principal potência econômica e militar do planeta Terra? 
Quem pode estar orientando o presidente Trump nessas questões?
O presidente Nicolás Maduro tem sinalizado que o senador Marcos Rubio (do Partido Republicano dos Estados Unidos) como o chefe, de fato, da política exterior estadunidense em relação à América Latina e, em particular, à Venezuela. Por isso o presidente Maduro o convidou publicamente para vir à Venezuela.
Marcos Rubio é filho de cubanos, certo?
Ele pertence à ala mais extremista das famílias integrantes da comunidade anticastrista e contrarrevolucionária nos Estados Unidos. E o discurso de Trump está associado ao setor mais extremista do lobby político, a direita mais obstinada. Talvez Trump calcule que isso vai gerar algum tipo de benefício interno, mas a verdade é que isso não tem nenhuma justificativa e nem necessidade de uma potência como os Estados Unidos, adotar esse tipo de política em relação à Venezuela. Sobretudo, porque mantivemos uma relação histórica de respeito bilateral, que vai mais além da política. No período do comandante Chávez, tivemos momentos de muita tensão, inclusive de retirada de embaixadores, mas nunca chegou aos níveis de perseguição aberta, do ponto de vista econômico e financeiro, à República Bolivariana da Venezuela e à nossa empresa de petróleo, a PDVSA.
Entre as quatro maiores empresas de petróleo dos Estados Unidos apenas a Exxon não atua na Venezuela. 
Exxon Mobil não está, mas temos grande empresas multinacionais que operam na Faixa Petrolífera do Orinoco [localizada no noroeste da Venezuela, onde se encontra a maior reserva certificada de petróleo do mundo]. Além disso, temos contratos no setor de gás que estamos desenvolvendo com empresas como a Shell. Mantemos uma relação comercial que vai além da questão da política. Mas essas empresas terminam sendo vítimas também desses planos que tentam impor a partir dos Estados Unidos.
Confio que eles vão fazer uma reflexão, inclusive, que poderia ser estritamente numérica. Que façam as contas. Será que realmente interessa aos Estados Unidos assumir os custos dessa política hostil em relação a um país como o nosso, que tem uma influência importante no continente? Não somos um país grande, temos uma população de 30 milhões de habitantes, nada mais. Porém, há setores sociais em toda a América Latina que têm a Venezuela como referência.
Qual é o desafio do chavismo de agora em diante?
Toda a conjuntura pela qual tem passado a Venezuela tem sido muito dura. No entanto, é um muito interessante analisar o que dizem alguns dirigentes da oposição a partir do resultado eleitoral do dia 15 de outubro. Alguns deles, lucidamente, começam a reconhecer o chavismo como uma realidade política, que tem sido subestimada historicamente por seus adversários locais e internacionais. É bom e saudável que se reconheça as características profundas e arraigadas desse fenômeno político. Que não tratem como se fosse um acidente na história, um fenômeno passageiro.
Chávez despertou algo impressionante. Somos um país que tem raízes nacionalistas, patrióticas, independentistas e rebeldes muito profundas, que teve um grande impacto na nossa história. Aqui, surgiu a faísca que incendiaria a parreira da independência no resto do continente. Essa é a carga histórica que nós carregamos. Temos como histórico um Exército que saiu de suas fronteiras para levar liberdade a outros países. Chávez despertou essa raiz, resgatou o projeto bolivariano [em referência a Simón Bolívar, quem conduziu a independência da Venezuela e outros países da região, e que propôs um projeto de unidade e soberania para a América Latina]. A conduta de nossos adversários mostra que Chávez tinha razão e não nos resta outra alternativa além de resistir e vencer.
O presidente Nicolás Maduro declarou que o triunfo eleitoral do chavismo abre um novo ciclo de vitória progressista no continente. O que o senhor pensa sobre esse tema?
O processo constituinte da Venezuela em 1999 conduziu a um novo ciclo de vitória para os povos da América Latina. O processo constituinte de 2017 também deve ter como consequência um número maior de vitórias para os povos. Tivemos formas de participação popular que pode servir de inspiração.
O fato de que na Venezuela estamos elegendo representantes dos aposentados, estudantes, trabalhadores, camponeses em um órgão como a Assembleia Nacional Constituinte pode servir para corrigir algumas distorções que a política tradicional cometeu. Essas distorções acontecem no domínio do capital sobre as campanhas políticas. 
O Poder Legislativo, representado pela Assembleia Nacional da Venezuela, e o Poder Executivo, tendo como representante o presidente da República, partiram para o enfrentamento político com os setores opositores, e avalia-se que a oposição, que controla a Assembleia Legislativa, perdeu o embate. Hoje, esses dois poderes são incompatíveis na Venezuela?
Acontece que a Assembleia Nacional há muito tempo nem sequer realiza sessão. Eles [parlamentares] abandonaram o cargo, assim como, em algum momento, acusaram o presidente. Faz muito tempo eles não se reúnem, não discutem leis. Permanecem em desacato. Temos que recordar que eles aprovaram o abandono do cargo do presidente da República [tentativa de retirar o presidente ocorrida em janeiro de 2017]. Isso é uma declaração de guerra política. O presidente da Assembleia Nacional à época, Henry Ramos Allup, quando assumiu, estabeleceu o prazo de seis meses para derrubar o presidente. 
E Maduro aceitou a declaração de guerra?
As declarações de guerra não se aceita ou não, se responde em defesa própria. 
A resposta foi a Constituinte?
Sim, em defesa própria do povo venezuelano. Porque estávamos à beira de um conflito político de maiores proporções. Foi em defesa própria da vida.
Escutei de colegas jornalistas que fizeram a cobertura da Constituinte que muitos opositores também saíram para votar na Constituinte. O que motivou esse setor a também votar?
Candidataram-se muitos candidatos de muitos setores em cada município do país, e cada um desses tem uma esfera de influência. Tem candidatos à Constituinte que eram da oposição, como é o caso de Marco Torres, que aparece em imagens de 2002 aplaudindo os golpista no Palácio Miraflores [sede presidencial]; um opositor que respaldou o golpe de Estado contra Chávez. Ele seguramente tem seus seguidores e sua família que deve ter votado por ele. Assim como ele, há infinitos casos.
A outra razão é a chantagem da direita. O fato de terem ameaçado os cidadãos para que não votassem, por terem queimado vivas as pessoas, por terem criado e lançado algo chamado 'puputov' [coquetel molotov de fezes], por terem usado nos protestos artefatos explosivos que causaram mortes, tudo isso tem um custo político. Ninguém deve recorrer a esses métodos macabros impunemente. O custo [disso] estão pagando agora. Tem muita gente que está consternada com essas práticas.
Quando Henrique Capriles perdeu as eleições para Hugo Chávez, em 2012, houve "guarimbas" [trancaços de ruas e protestos violentos]. Quando ele perdeu as eleições para Maduro, em 2013, novamente houve "guarimbas". E, este ano, a oposição manteve quatro meses de protestos violentos. Por que não teve nenhum tipo de protesto depois da derrota da oposição nas eleições regionais?
É um fenômeno muito interessante. Creio que a violência chegou a um clímax tão alto que isso gerou um nível de frustração digno de estudo. Existe uma grande decepção dos jovens que foram utilizados pelos políticos opositores. Muitos deles tiveram um encontro ingrato com a política. Acreditaram em um conto épico que não tinha fundamento. Acreditaram que eram libertadores, os fizeram acreditar nisso. Se Trump se sente oprimido segue a mesma lógica do conto épico dos libertadores, que em nome da liberdade retiram a liberdade de todos de sair e caminhar nas ruas. 
Por que as pessoas continuam votando no chavismo?
Porque há vários fatores que confluem. Um deles é que o chavismo é uma identidade sociopolítica. Chávez construiu uma comunidade política. Não é um fenômeno artificial e passageiro. Existe uma identidade em torno dos valores, das propostas, dos símbolos do chavismo.
Outro fator que influencia é a direita que temos. Por mais desencanto que haja em um chavista, quando olha para calçada de frente e vê uma direita fascista, "guarimbeira", neoliberal, ultracatólica, demagógica, frívola; então essa pessoa que está desencantada tem grandes possibilidades de votar no chavismo, ainda que esteja descontente, ainda que esteja esperando que se cumpram muitas das metas que não foram cumpridas. Mesmo assim esse chavista sente que é parte de algo. Como na família, quando estamos chateados com o irmão, com o pai, um primo, mas mesmo assim se apoiam quando se sentem em perigo…
E se reúnem no Natal…
Como a família que se reúne no Natal, nós nos encontramos na festa eleitoral. Mas, esse chavismo está votando também com esperança de derrotar a guerra econômica, o cerco imperialista, e alcançar as metas sociais e políticas. O chavismo tem uma tradição que é o exercício democrático. Aqui, estamos acostumados a votar. Chávez nos acostumou a votar. As pessoas sentem que isso é um direito. Passamos por momentos muito duros, como em 2015, quando perdemos a maioria da Assembleia Nacional, a abstenção do chavismo foi determinante nesse caso, mas não deixaram de ser chavistas por isso.
Essas pessoas que haviam deixado de votar voltaram ao chavismo?
Sim, os chavistas voltaram.
Edição: Vivian Neves Fernandes