sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"Vida humana não pode se resumir a trabalhar e pagar contas", diz Mujica


JORNADA CONTINENTAL

"Vida humana não pode se resumir a trabalhar e pagar contas", diz Mujica

Jornada Continental pela Democracia contra Neoliberalismo, realizada em Montevidéu, reúne mais de 3 mil militantes

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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No primeiro dia da Jornada, movimentos denunciaram o retrocesso dos direitos trabalhistas no Brasil e na Argentina / JornadaContinental

"A vida humana não pode se resumir a trabalhar, pagar contas e fazer dívidas, como propõe o capitalismo. Defender o tempo livre e a liberdade é uma questão de princípios". A declaração do ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica foi feita nesta quinta-feira (16) durante a Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo.
O mandatário, que participou do painel “Seguimos em luta: desafios frente à onda conservadora e os ataques à democracia”, defendeu a construção de estratégias de luta baseada na solidariedade entre os povos e na sustentabilidade da vida, em contraposição ao modelo proposto pelo capitalismo.
O evento, que termina neste sábado (18), reúne cerca de 3 mil pessoas ligadas a movimentos populares das Américas na cidade de Montevidéu, capital uruguaia.
Também presente no painel, Karin Nansen, presidenta da organização Amigos da Terra, comentou a onda conservadora no continente, ao relembrar os golpes de Estado em Brasil, Paraguai, Honduras e Haiti, além dos ataques sofridos pelo governo do presidente Nicolás Maduro, na Venezuela. Ela ressaltou o papel exercido pelas transnacionais nesses processos.
"Essas empresas são participantes ativas dos golpes de Estado nos nossos continentes, pelo interesse na extração de recursos e é fundamental que formulemos estratégias conjuntas para resistir às transnacionais”, diz Nansen.
Ela também ressaltou o papel desempenhado pela imprensa latino-americana na consolidação desse cenário, ao destacar que "os grandes meios de comunicação, como ferramentas da direita internacional, buscam manipular nossos povos para alcançar seus interesses antipopulares. Somos testemunhas desses processos antidemocráticos impulsionados pela direita, que promove ataques constantes aos trabalhadores, aos camponeses, à população indígena e às mulheres".
Mobilização e paralisação
Nessa quinta-feira (16), participantes do evento se uniram a trabalhadores uruguaios que realizaram uma paralisação parcial em apoio à Jornada.
Durante a manifestação, os movimentos denunciaram o retrocesso dos direitos trabalhistas no Brasil, com a reforma trabalhista do presidente golpista, Michel Temer (PMDB), e na Argentina, com as reformas anunciadas pelo presidente Maurício Macri, do Partido Propuesta Republicana (PRO).
Histórico
A realização da Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo é parte do processo de articulação iniciado em Cuba, em 2015, por ocasião dos dez anos da derrota do projeto de instauração da ALCA (Área do Livre-Comércio das Américas) no continente.
A jornada busca construir alternativas e estratégias para combater o neoliberalismo defender a democracia nos países latino-americanos e caribenhos.
Fazem parte da articulação diversos movimentos sindicais, organizações camponesas, indígenas, feministas, ambientalistas e anti-imperialistas.
Edição: Vanessa Martina Silva | Tradução: Luiza Mançano

Fonte: Brasil de Fato

Temer tem razão: há privilégios na Previdência. O dele, por exemplo

Temer tem razão: há privilégios na Previdência. O dele, por exemplo

É tão óbvio que até Renan Calheiros percebeu e gravou vídeo ironizando o texto da campanha de R$ 20 milhões que o Governo Federal pôs no ar hoje para tentar aprovar (ou fingir que tenta) a reforma da Previdência.
“Tem muita gente no Brasil que trabalha pouco, ganha muito e se aposenta cedo”, diz o comercial.
Não há como negar razão, desta vez, a Temer, por ele próprio ser um exemplo disso: aposentado aos 55 anos, tem proventos de R$ 30 mil como procurador do Estado de São Paulo.
Acabar com os privilégios, como diz a peça publicitária? Alguém acredita? Se juízes e promotores sequer aceitam respeitar o teto constitucional de suas remunerações, se arranjam penduricalhos de gratificações como o auxílio-moradia indiscriminado, será que não “topar” uma aposentadoria do INSS que paga R$ 5 mil por mês, no máximo?
Vão é arranjar seus fundos “privados” de previdência, que de privados não terão nada porque a União e os tribunais vão aportar recursos públicos.
Temer faz a sua parte no bailado da hipocrisia mercadista, porque não parece haver chance de ter os 308 votos que precisa, mesmo para aprovar um remendo.
Mas não precisava debochar de si mesmo, não é?

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

PT pede a Dodge que investigue Globo por propina à Fifa

PT pede a Dodge que investigue Globo por propina à Fifa

A Procuradoria Geral da República, tão ágil, rápida e furiosa quando se trata de apurar qualquer pedalinho que ache que pode ser usado para atingir Lula vai ter que se mexer – nem que seja para dizer que “não vem ao caso – diante do escândalo mundial das propinas nas transmissões esportivas, que acerta em cheio a Rede Globo. A direção do PT, em outras épocas preocupada em não quebrar os cristais  com a monopolista da TV brasileira, tomou coragem e vai apresentar à Procuradora Raquel Dodge, uma representação criminal para que seja apurada oficialmente a notícia de que a Globo praticou crime, valendo-se de empresas e bancos em paraísos fiscais, para obter vantagens ilícitas na compra de direitos de transmissão de torneios internacionais de futebol.
A representação tem base nas delações do empresário Alejandro Burzaco a um tribunal norte americano de que a Globo e a Televisa pagaram pelo menos R$ 50 milhões a dirigentes da Fifa para deter a exclusividade de direitos, no Brasil e no México, das Copas de 2026 e 2030.
Ao anunciar a ação, o PT argumenta que o “delator citou nomes, valores, locais de encontro, contratos, configurando sem dúvida os chamados ‘indícios robustos’ de prática criminosa, expressão que os comentaristas da Globo gostam de utilizar, de forma leviana, para se referir às acusações por delações contra o PT e contra Lula.
É inexplicável para o Brasil que o escândalo da FIFA seja investigado judicialmente nos Estados Unidos, na Suíça, na França e em outros países, há três anos, e tudo o que temos aqui seja uma suposta “investigação interna” em que a Globo tenha apurado em silêncio e absolvido a si mesma.
É absurdo, mas não surpreendente. Afinal, o veredito supremo de tudo neste país é deles, do Supremo Tribunal dos Marinho, que é quem pretende governar o povo brasileiro.

Só falta o mpf dizer que Lula recebeu propina de D. Pedro I ou que Lula tem terrenos na lua

MP pede bloqueio de bens de Lula “por convicção”, diz defesa

A defesa do ex-presidente Lula divulgou, há pouco, nota em que diz que o pedido de bloqueio de R$ 24 milhões de bens (quais?) de Lula e do filho”não indica provas” e que parte de “certezas delirantes sobre a “influência” de Lula na compra de caças” da empresa sueca SAAB para  a Força Aérea Brasileira, já no Governo Dilma”.
Os advogados de Lula lembraram que todos os depoimentos dados no processo – inclusive o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da ex-presidenta Dilma Rousseff e do ex-comandante da Aeronáutica, Brigadeiro Juniti Saito – afirmaram que as decisões sobre o equipamento são técnicas, tomadas num processo de análise que leva anos, exclusivamente por especialistas da FAB.
Leia a nota da defesa de Lula, que vai se manifestar ao juiz contestanto o pedido do MPF:
“Não tem qualquer base jurídica e materialidade o pedido de bloqueio de bens formulado pelo Ministério Público Federal contra o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu filho Luis Claudio Lula da Silva nos autos do Processo nº 0076573-40.2016.4.01.3400, em trâmite perante a 10ª. Vara Federal de Brasília.
O pedido foi apresentado em 27/09/2017, quando já tinham sido ouvidas as testemunhas selecionadas pela acusação (22/06) e parte das testemunhas selecionadas pela defesa (18/07, 1º/08, 10/08; 17/08 e 23/08). Como não poderia deixar de ser, nenhum dos depoimentos coletados ao longo das audiências confirmou as descabidas hipóteses acusatórias descritas na denúncia e por isso sequer foram referidos no requerimento.
Não há no pedido apresentado pelo MPF indicação de provas a respeito das afirmações ali contidas, que partem de certezas delirantes sobre a “influência” de Lula na compra de caças pelo País e na ausência de veto em relação a um dos artigos de uma medida provisória (MP 627/2013).
As testemunhas ouvidas, como os ex-Presidentes Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff, os ex-Ministros da Defesa Nelson Jobim e Celso Amorim, o Brigadeiro Juniti Saito, dentre outras, esclareceram (i) que a compra dos caças suecos pelo Brasil em dezembro de 2013 seguiu orientação contida em parecer técnico das Forças Armadas e que (ii) o artigo 100 da Medida Provisória 627/2013 prorrogou incentivos fiscais instituídos durante o governo do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, objetivando o desenvolvimento das regiões norte, nordeste e centro-oeste.
As provas existentes nos autos, portanto, mostram com absoluta segurança que o ex-Presidente Lula e Luis Claudio não tiveram qualquer participação da compra dos caças suecos, tampouco na sanção presidencial do artigo 100 da Medida Provisória 627/2013. Mostram, ainda, que Luis Claudio prestou os serviços de marketing esportivo contratados pela empresa Marcondes e Mautoni e tinha expertise na área, adquirida em trabalhos realizados em algumas das maiores equipes de futebol do País e, ainda, na organização e implementação de um campeonato nacional de futebol americano. Lula jamais recebeu valores da Marcondes e Mautoni ou de terceiros por ela representados.
Essa ação penal integra o rol de ações propostas contra Lula e seus familiares sem qualquer materialidade, com o objetivo de perseguição política.

Crise de sinceridade de Sardenberg: “compra-se a reforma”

Crise de sinceridade de Sardenberg: “compra-se a reforma”

Algo aconteceu ontem  para levar o ultramercadista  Carlos Alberto Sardenberg, onipresente membro da equipe econômica da Globo , a uma crise de sinceridade em seu artigo de hoje.
Diz que a reforma da previdência não tem 308 votos sinceros de que precisa para aprovar – sinceridade não tem nem 100 votos para coisa alguma por lá.
Diz que “a proposta só passa com votos fisiológicos. E esse tipo de voto se compra,” dando como exemplo o Ministério das Cidades e as verbas do “Minha Casa, Minha Vida”.
Quantos votos pela reforma da Previdência vale uma carta dessa?
É esse tipo de conta que o presidente Temer e seu time da política estão anotando.
Dirão: realismo pragmático. O importante é que o cara vote, não interessando se é por consciência ou por negócio
É também o que pensa o mercado. Vai até mais longe: o governo Temer tem corrupção? Passa projetos no balcão de negócios? Compra votos?
Sim, mas entrega as reformas ou ao menos parte delas? Se entregar, tal é o pragmatismo do mercado, está bom. É feio, não ajuda o saneamento das instituições, mas, segue o pragmatismo, pode-se deixar isso para mais tarde.
Como é o mercado o que importa, o “saneamento das instituições” já não vem ao caso e a compra de votos passa a ser o jeito de salvar o país, na visão do mercado. Mais especificamente, de ganhar muito.
Diz que o “centro” político pode se beneficiar disso, mas reconhece que a coisa está difícil pelo lado de lá, “porque o presidente pode adquirir o voto de um deputado, mas não o dos eleitores desse deputado”.
Diz que a crise interna do PSDB o partido “atrapalha o país”, diz que Henrique Meirelles pode se tornar um candidato viável (para  o mercado pu para o eleitor?) “se arranjar partidos e coligações”, o que , para Luciano Huck, “é difícil”.
Difícil? Quem fala é “a casa”? Mas “a casa” não tinha verbalizado,por Merval Pereira, que quem tinha chances era justamente Huck, porque podia fazer uma “campanha populista” porque “conserta carro e distribui casa”?
Some isso às sugestões, sopradas para jornalistas, de que a mulher de Huck, Angélica, estaria resistindo à aventura, porque ficaria também fora do ar e dos negócios de publicidade e é possível imaginar que se esteja articulado o “minha mulher não deixa” como saída para buscar outro nome.
Joaquim Barbosa voltou ao mercado.
Onde, diz Sardenberg, na sua espantosa sinceridade, temos  um “balcão de negócios, de votos e papéis da Bolsa.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Perdeu o Festival 3i?

Perdeu o Festival 3i?

Saiba o que aconteceu no evento que expôs a ousadia, as polêmicas e as boas ideias que estão renovando o jornalismo brasileiro
Gente muito diferente subiu ao palco na primeira edição do Festival 3i – Jornalismo inovador, inspirador e independente, que ocorreu nos dias 11 e 12 de novembro no Rio de Janeiro. Articulistas, repórteres, podcasters, executivos de plataformas e diretores de sites inovadores compartilharam suas angústias, reflexões e discordâncias. E também brindaram o público com ousadia, sonhos e soluções adotadas no dia a dia das redações independentes. No fundo, todos tinham uma coisa em comum: sabem que o jornalismo está vivíssimo.
Foi a primeira vez que oito organizações nativas digitais – Agência PúblicaNexoPonteLupaBrioRepórter BrasilNova Escola e Jota – se uniram ao Google News Lab para fazer um festival a fim de discutir questões que rondam quem está montando novas iniciativas jornalísticas.
A mesa que encerrou a noite de sábado resume esse espírito. Um ator, um jornalista tradicional e duas mulheres negras, que têm orgulho de ser ativistas, discutiram os limites do engajamento na produção de notícias. Pedro Dória, colunista do Estadão e da CBN e editor da newsletter “Meio”, abriu o papo se dizendo “o mais radical de todos”. Para ele, jornalismo e ativismo “são duas coisas absolutamente distintas”. Ele chamou à “responsabilidade” quem escreve artigos: “Quando se opta pelo ativismo, o jornalista torna-se um ator político, atuando politicamente em nome de algum objetivo. É preciso ouvir todos os lados, com ceticismo, mas todos os lados”. O pior, para ele, é que esse tipo de comunicação não é eficaz em uma sociedade polarizada como a brasileira. “Você não convence ninguém. Jornalismo ativista é um jornalismo que alimenta a polarização.”
Dríade Aguiar, do Mídia Ninja (José Cícero da Silva/Agência Pública)
Dríade Aguiar, do coletivo Fora do Eixo, subiu ao palco declarando-se “um pouco diferente dos outros que vieram aqui falar” e afirmando que o Mídia Ninja faz, sim, jornalismo. “É tecnicamente impossível que um veículo seja imparcial. Todo jornal, mídia, tem uma parcialidade.” Para ela, o papel do Mídia Ninja é dar visibilidade a pessoas que, na cobertura da imprensa tradicional, são invisíveis. Sua fala foi pontuada de aplausos da plateia. Cecília Oliveira, do The Intercept Brasil, concordou: a pauta nunca é imparcial. “Todos somos jornalistas ativistas. A pergunta é de que lado você está? Se você está em silêncio, você tem um lado também.”
A mesa esquentou quando o assunto foi a cobertura dos protestos de 2013 e 2014. Pedro Dória lembrou a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Bandeirantes, atingido por um rojão em 2014. Naquele ano, Dória era editor executivo de O Globo, jornal que estampou na capa a manchete “Lei mais dura leva 70 vândalos para presídios”, duramente criticada por organizações de direitos humanos. Para Cecília, grande parte da animosidade contra jornalistas foi alimentada pela própria imprensa, que defendeu a repressão policial contra manifestantes. A resposta de Pedro foi contundente: “O que bateu no meu ouvido foi uma profunda relativização. Não podemos esquecer que houve incitação real de violência contra jornalistas”. Silêncio na plateia.
Gregório Duvivier, do Greg News (José Cícero da Silva/Agência Pública)
Gregório Duvivier, ator e colunista que comanda o primeiro jornal televisivo satírico do país, ponderou, ao final, que não acredita no “mito da imparcialidade”. “Mas tenho medo que a gente jogue fora o bebê junto com a água da bacia. E, junto com esse mito, a gente jogue fora fact-checking, jogue fora os fatos. É o que o MBL faz.” (assista aqui)

Horas antes, o festival foi aberto com uma mesa sobre modelos de gestão e negócio diferentes do tradicional. Paula Miraglia, diretora do Nexo, contou que no jornal digital a lógica é outra; a publicidade não faz sentido quando o número de cliques no conteúdo não importa. O foco ali é explicar e contextualizar as reportagens, e, por isso, viram como melhor forma de financiamento o plano de assinatura para os leitores. No Nexo, os jornalistas não sabem a audiência do veículo e quantos cliques recebem. “Não queremos que esse seja um modelo de pressão”, disse. Já Federico Amigo, do semanário Tiempo Argentino, uma cooperativa tocada pelos próprios jornalistas, que elegem a sua direção e os editores, explicou que o modelo de negócios surgiu depois de uma crise na empresa. Hoje, o Tiempo Argentino trabalha com assinaturas e venda em bancas: são 30 mil assinantes e 15 mil exemplares vendidos avulsos toda semana. (assista aqui)

Facebook explica por que está derrubando o alcance de páginas

“A gente começou a cercear esses sites dentro da plataforma para que um conteúdo de mais autenticidade, mais qualidade pudesse ter mais visibilidade”, disse Cláudia Gurfinkel, líder de parcerias de mídia para a América Latina no Facebook e Instagram. Ela respondia ao filósofo Pablo Ortellado sobre a queda abrupta de alcance de páginas como Folha Política e O Cafezinho.
Cláudia Gurfinkel, do Facebook (José Cícero da Silva/Agência Pública)
Cláudia explicou que a ideia é derrubar páginas que usam a plataforma como caça-cliques. “O principal incentivo deles é econômico”, explicou. “Estamos trabalhando em três pilares, um deles é cortar os incentivos econômicos, mudar o sistema de anúncios para que possam rodar dentro da plataforma. O segundo pilar é o desenvolvimento de produtos, para que esses sites tenham mesmo uma performance pior dentro da plataforma. O que a gente vê é que muitos desses sites são de baixa qualidade, têm uma quantidade enorme de anúncios dentro da página. A gente começou a diminuir o alcance desses sites. E o terceiro pilar é trabalhar com a comunidade para que as pessoas possam identificar uma notícia falsa.” Cláudia garantiu ainda que o Facebook vai permitir que todos os usuários vejam os anúncios comprados por todas as páginas e que as páginas de políticos trarão também quem pagou por cada anúncio.
Marco Túlio, do Google News Lab, reconheceu que um dos problemas que a empresa vê para o futuro da comunicação são as notícias falsas, as bolhas de comunicação e o deserto de notícias em várias localidades do Brasil. Ele apresentou algumas iniciativas da corporação para ajudar jornalistas através do laboratório capitaneado por ele no continente, como o Projeto Credibilidade, realizado pelo Instituto Projor e os selos de fact-checking, que priorizam checagem de fatos nas buscas do Google News – o “Truco”, da Pública, é um dos parceiros. Também houve novas medidas para desestimular a monetização de notícias enganosas, como o AdSense. O Google vê o jornalismo de qualidade como essencial para o seu negócio e sua missão – afinal, ele melhora a qualidade das informações organizadas via buscas, diz ele.
O professor da UFABC e membro do Comitê Gestor da Internet Sérgio Amadeu criticou o poder das duas plataformas. “Concentração não é bom para a democracia em nenhum lugar do mundo”, alertou. “Para ‘melhorar nossa experiência’, o algoritmo quer retirar o inesperado, o incômodo, o oposto. Algoritmos não são neutros”, disse. “Como que a democracia pode sobreviver, sendo que antes a gente lutava pela liberdade de opinião expressão e agora temos que lutar pela liberdade de visualização? Eu tenho que escolher o que eu quero ver!”.
Sérgio Amadeu resumiu sua visão sob aplausos: “O debate público está acontecendo dentro de uma empresa privada e tem mais visualização quem paga. Precisamos ter o direito de visualizar livremente informações de interesse público dentro da plataforma”.
Na plateia, o jornalista Martín Pellecer, da Guatemala, que comanda o site Nómada – uma iniciativa que pretende fazer jovens gostarem de política através do seu “jornalismo cool” –, dividiu sua experiência. Pellecer tomou a palavra para encerrar a mesa com uma angústia compartilhada com jornalistas do mundo todo: por que o Facebook retirou as páginas de notícias do feed dos usuários? O controverso experimento começou recentemente em seis países. Segundo Pellecer, derrubou em 70% os leitores de alguns sites da Guatemala. “Isso não vai acontecer em outros países”, garantiu Cláudia, dizendo que o Facebook faz periodicamente testes para “melhorar a experiência do usuário”. (assista aqui)

Polarização e eleições

Um tema que perpassou o festival – polarização do debate público – foi o centro do debate de encerramento. O pesquisador Pablo Ortellado, que dirige o Monitor do Debate Político no Meio Digital, do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP explicou que o Facebook é, no Brasil, a segunda fonte de informação jornalística, atrás apenas da televisão. Segundo ele, há 5 milhões de usuários de esquerda e 7 milhões de direita – entre os 120 milhões de brasileiros na plataforma – que postam e compartilham conteúdo como se estivessem em uma batalha política. “É ‘Toma, coxinha’, ‘Toma, petralha’. As pessoas compartilham isso como um ato de guerra.”
Claire Wardle, do Cross Check (José Cícero da Silva/Agência Pública)
Já a americana Claire Wardle, diretora do think tank First Draft Media, apelou para que as pessoas não usem mais o termo “fake news” – que tem sido usado para denegrir conteúdos jornalísticos verdadeiros por políticos como Donald Trump. O termo não dá conta de explicar o fenômeno que ela chama de “poluição informacional”. Para ela, é preciso que a imprensa reconheça o seu papel nessa poluição – quando uma manchete é escrita para caçar cliques, por exemplo – e incluir também sites satíricos e conteúdos distorcidos. Uma das soluções é mais colaboração entre veículos diferentes. Foi o que o First Draft fez nas eleições francesas, capitaneando uma iniciativa que reuniu 37 sites para fazer o Cross Check, checando conjuntamente mais de 60 conteúdos mentirosos sobre os candidatos. (assista aqui)

Outras vozes

Nos dois dias, o palco do Festival 3i recebeu dezenas de projetos que estão trazendo novos atores para o jornalismo brasileiro. Como Caíque Dalapola, ainda estudante, que é repórter do site Ponte. Seu depoimento trouxe muita gente às lágrimas. Caíque contou como conseguiu, com uma reportagem sua, tirar um inocente – um ambulante – da cadeia, acusado falsamente de ter roubado um tablet em um bairro nobre de São Paulo. O repórter apurou que a suposta vítima era casada com o policial que realizou a detenção. Após manifestações e 32 dias preso, ele foi inocentado. “Jornalismo de impacto é o que tá na quebrada, falando pra quebrada, sobre a quebrada.” Nervoso – foi a primeira vez que ele falou para jornalistas –, Caíque terminou sua palestra lendo um rap do grupo Facção Centro: “O que eles fazem com o rap eu quero fazer com o jornalismo”, disse.
Projetos inovadores foram também apresentados em palestras do tipo “Lightning Talks”, um formato inspirado nas conferências TED. No palco, seis sites latino-americanos e dez brasileiros – estes, eleitos pelo público. O espanhol José Luis Vieiras, do En Malos Pasos, contou que vem viajando por dois anos pelos sete países mais violentos da América Latina para fazer reportagens. Estão na sua rota Brasil, Venezuela, Colômbia, Honduras, El Salvador, Guatemala e México. “Na América Latina, não contamos histórias, contamos mortos.”
A jornalista carioca Gabriele Roza, do Coletivo Nuvem Negra, relatou como através de um jornal o grupo questiona a participação de profissionais negros em diferentes áreas – seja na universidade, seja nas escolas, seja na produção de notícias. Gabriele fez um apelo: “Não dá pra falar de inovação sem incluir a pauta racial, sem incluir negros na conversa”. Outra jornalista negra, Regiany Silva, do Nós Mulheres da Periferia, coletivo de jornalistas paulistanas, deixou claro que a atuação premiada do site veio para ficar. “Nós, mulheres periféricas, ocupamos esse lugar, e isso não tem volta.”
Kátia Brasil, diretora do site Amazônia Real, em Manaus, enumerou os prêmios que o canal tem ganhado ao fazer jornalismo sobre a cidade e a floresta em um local totalmente desatendido pela imprensa tradicional. “A gente resolveu falar de um lado mais especial dessas populações ribeirinhas e indígenas.” Com essa proposta, o site já chegou a mais de 1,5 milhão de leitores em mais de 170 países apenas este ano.
Para encerrar, o jornalista Bruno Torturra apresentou um projeto de monetização de iniciativas independentes que desenvolveu junto com a Open Knowledge Foundation, o Libre. A ferramenta permite que assinantes possam fazer microdoações a uma variedade de organizações apenas clicando o botão do “Libre” nesses sites. “Doar tem que ser tão fácil quanto dar um like”, resume Torturra. (assista aqui)

Fonte: Pública

Eleição virou corrida de cavalos?

Eleição virou corrida de cavalos?

Leonel Brizola sempre repetia que eleição “não é corrida de cavalos”, onde se coloca competidores e se aposta de acordo com as conveniências. Ou, como dizem os gaúchos sobre as corridas “de cancha reta” que se faz por lá, não é a simples vontade de “pôr o petiço na penca”.
Mas está virando isso, no Brasil, infelizmente.
Candidatos de si mesmos, partido escolhido no cardápio de siglas que não representam nada – a redução de um ano para seis meses do prazo de filiação foi feita, deliberadamente, para esta loteria.
Se nos afastarmos um pouco que seja e raciocinarmos, veremos que tudo está se passando assim, com “pré-candidatos” se exibindo como cavalos fazem no canter, aquele passeio que dão na frente dos apostadores.
O Huck vai ou não vai? Por onde, ninguém sabe e não importa. E o Joaquim Barbosa, que ninguém sabe se, como o folclórico Dadá Maravilha, que fez que ia, não foi e acabou “fondo“? E, para ” viajar num lance de ficção política”, como sugere hoje Elio Gáspari,  Sérgio Moro vem candidato? Se vier, por onde?
O estreante Doria quis correr antes da hora e tropeçou; o xucro Bolsonaro procura dominar os coices, mas os solta, incontrolável, como fez ontem com Miriam Leitão.
O processo político brasileiro, que os arautos da mídia proclamam a cada dez minutos precisa ser moralizado e desenvolvido com espírito público e transparência, pode ser sadio se for praticado assim, com chicanas, negócios e conversas obscuras, indefinições oportunistas?
Quem mente e se aproveita das sombras para ser candidato será diferente como governante?
A elite brasileira e grande parte dos políticos que a servem não trata a eleição como a escolha dos caminhos que o país deve seguir, porque isso não lhes importa, importa apenas manter seus privilégios e seu mundo de riqueza, de  hipocrisia e de segregação.
Como são minoria, dependem desesperadamente de algo que possa iludir as pessoas simples, de uma figura qualquer que lhes desvie a atenção do que de fato se disputa: não um cargo, mas um destino para o Brasil.
Eles, os donos da verdade, procuram desesperadamente uma mentira que funcione.
Como não acham, terão de apelar para que três senhores bem pagos, no silêncio de seus gabinetes no tribunal, decidam por mais de 100 milhões de brasileiros.