quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Projeto de lei quer proibir agricultores de produzir, distribuir e armazenar sementes NÃO É COISA DE PAÍS SÉRIO

SEMENTES

Projeto de lei quer proibir agricultores de produzir, distribuir e armazenar sementes

PL em tramitação no Congresso quer estabelecer royalties para agricultores que plantem as chamadas cultivares

Brasil de Fato | Belém (PA)
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O Projeto de Lei 827/2015 propõe o pagamento de royalties sobre espécies de plantas que foram alteradas, como as híbridas / Lilian Campelo
A troca, a livre distribuição e o armazenamento das melhores sementes é uma das práticas mais comuns das comunidades tradicionais, mas esta herança cultural do cultivo corre sérias ameaças. Isso porque o Projeto de Lei (PL) 827/2015, conhecido como Projeto de Lei de Proteção aos Cultivares, quer passar para grandes empresas o controle sobre o uso de sementes, plantas e mudas modificadas.
De acordo com o projeto, a comercialização do produto que for obtido na colheita dependerá da autorização do detentor das chamadas cultivares, que são plantas que tiveram alguma modificação pela ação humana, como as híbridas, por exemplo.
Para o educador popular da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, Lourenço Bezerra, do Programa Amazônia, o projeto prejudica práticas ancestrais: “Com essas sementes, o agricultor tradicional não precisa utilizar fertilizantes sintéticos e não precisa utilizar os defensivos agrícolas, que são os agrotóxicos, que eles chamam de defensivos agrícolas".
Bezerra ressalta que a medida tem como objetivo beneficiar as grandes empresas que comercializam agrotóxicos: "Então, as empresas querem obrigar, além do agricultor comprar a semente, mas também de comprar os insumos, os agrotóxicos fertilizantes sintéticos e isso vai beneficiar quem? Vai beneficiar as empresas”.
O projeto é de autoria do deputado ruralista Dilceu Sperafico (PP-PA) e tem a proposta de alterar a Lei de Proteção de Cultivares, que regulamenta a propriedade intelectual referente às cultivares.
Para o deputado federal e presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara, Nilto Tatto (PT-SP), a proposta ameaça a segurança alimentar e também a segurança nacional do país, ao transferir para as grandes empresas o controle de quais sementes plantar e do volume. Ele ressalta ainda que o projeto apresenta um discurso que visa desenvolver a pesquisa nacional sobre as cultivares, mas, na opinião dele, amplia o controle das grandes empresas no domínio da política da agricultura brasileira.
“Então você joga na mão da iniciativa privada a definição da relação do que cobre e do que não cobre de royalties da agricultora. Talvez a questão mais grave e conceitual que está por trás desse relatório é tirar o papel do Estado sobre determinada parte da política da agricultura brasileira”, diz o parlamentar.
Diferença entre sementes:
O projeto de lei, caso aprovado, também irá aumentar o número de cultivares protegidas, isto é, aquelas que não podem ser utilizadas livremente. Até 2015 foram feitos pedidos 3.796 pedidos de proteção de cultivar e foram concedidos títulos para 2.810 cultivares. Segundo informações no site, que estão atualizadas, a última modificação data de novembro de 2017 e para acessar a lista completa de quem solicitou os pedidos clique aqui.
Na Câmara dos Deputados, em Brasília, o PL segue em tramitação ordinária. No dia 5 deste mês, estava marcada votação do parecer do relator do deputado federal Nilson Aparecido Leitão (PSDB-MT), mas a pauta dividiu a bancada ruralista e o relatório não foi votado.
Entenda:
Cultivar é o nome dado a uma nova variedade de planta, ou seja, são espécies de plantas que foram modificadas devido a alteração ou introdução feita pelo homem, desenvolvida do cruzamento entre duas espécies puras e diferentes. Elas apresentam características específicas de outras variedades da mesma espécie de planta por sua homogeneidade, estabilidade e novidade, logo, não é encontrada no meio ambiente. 
As novas espécies desenvolvidas em território nacional e caracterizadas como novas cultivares são cadastradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)  pelos criadores para conferir proteção aos direitos de propriedade intelectual. O prazo de proteção de um cultivar vigora a partir da data de concessão do Certificado Provisório de Proteção, que dura 15 anos, com exceção das videiras, árvores frutíferas, árvores florestais e árvores ornamentais. Após esse prazo, a cultivar cai em domínio público e seu uso passa a ser livre de pagamentos de royalties. 
De acordo com o projeto, a comercialização do produto que for obtido na colheita dependerá da autorização do detentor da cultivar. Assim, a proposta irá limitar os agricultores familiares de produzir, armazenar, distribuir, comercializar e trocar as suas sementes. 
Edição: Vanessa Martina Silva

Comissão da Verdade de MG questiona anistia e põe morte de JK sob suspeita

ESTADO DE EXCEÇÃO

Comissão da Verdade de MG questiona anistia e põe morte de JK sob suspeita

Texto chama atenção para atual esvaecimento da memória histórica e práticas autoritárias nos três Poderes

Segundo relatório, morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek pode ter ocorrido "devido a um atentado político" / AP
No dia em que o AI-5 completa 49 anos, nesta quarta-feira (13), a Comissão da Verdade em Minas Gerais finalizou quatro anos de pesquisas e divulgou o seu relatório final. Resultado de 222 depoimentos e várias audiências públicas e diligências, com quase 1.800 páginas divididas em cinco volumes, o texto traz entre suas recomendações uma série de ações de promoção da memória, abertura de arquivos oficiais ao público e revisão do entendimento, pela Justiça estadual, sobre a aplicação da Lei de Anistia (6.683, de 1979), que deve considerar sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 2010, segundo a qual crimes de lesa-humanidade não prescrevem. O documento aponta 125 torturadores e quase 100 locais usados para tortura e repressão.
Outro ponto que chama a atenção no relatório refere-se às mortes, em 1976, do ex-presidente Juscelino Kubitschek e do motorista Geraldo Ribeiro. Segundo o texto, "é plausível, provável e possível que as mortes tenham ocorrido devido a um atentado político". Os dois morreram após acidente na via Dutra, em viagem do Rio de Janeiro para São Paulo. A Comissão Nacional da Verdade não teve essa conclusão, enquanto a comissão da Câmara Municipal paulistana afirma que a morte não foi acidental. 
O coordenador da Comissão, Robson Sávio Reis Souza, diz no início do documento que "a falta de punição aos perpetradores da tortura, das graves violações de direitos humanos e do arbítrio fizeram com que esta prática se institucionalizasse em muitos setores, transformando-se em políticas de Estado que ainda persistem nos dias atuais".
"O momento da edição deste Relatório não podia ser mais apropriado. A distância no tempo e a tendência natural ao esquecimento facilitam a criação de um ambiente de pouco rigor em relação à agressão, à intolerância e ao preconceito", diz o governador mineiro, Fernando Pimental, no texto de apresentação. "O esvaecimento da memória não inibe o surgimento, aqui e ali, de manifestações absurdas em defesa de intervenções militares, práticas autoritárias nos três Poderes da República, abusos de poder, atos flagrantemente fascistas, censura às artes e à livre circulação das ideias, intolerância e discursos grosseiros em redes sociais."
Segundo ele, o relatório "é nosso aliado na luta contra a violência do Estado, contra a repressão e o desrespeito aos direitos humanos, e contra o flerte irresponsável que um certo tipo de político ou ativista faz com o Estado de Exceção". "Estamos dizendo ainda que, hoje, a leniência com ideias ditatoriais e golpistas devia ser tratada como efetivamente é – um crime contra a democracia, o Estado de Direito e a Constituição brasileira."
No prefácio, o coordenador da Comissão acrescenta: "Nesses tempos sombrios que vivemos, quando vozes agourentas clamam pelo passado de arbítrio e exceção; quando governos ilegítimos assumem o poder; quando o discurso da violência, da intolerância e do ódio prevalece em segmentos poderosos da sociedade é preciso rememorar as lutas e os ideais democráticos daqueles que tombaram e dos que foram violentados lutando pelas liberdades democráticas. Enquanto o Estado brasileiro não dizimar, de vez, qualquer tipo de afronta à dignidade humana praticada por agente público; enquanto os poderes públicos não implantarem mecanismos institucionais de prevenção e combate às violações de direitos praticadas também pelos civis, não podemos dizer que somos um País democrático".
O primeiro volume fala de mortes e desaparecimentos, violência institucional e locais de repressão e tortura no estado. O segundo trata da violação aos direitos humanos no campo e o terceiro, da repressão ao mundo do trabalho e ao movimento sindical. 
Nos dois últimos volumes, os sete integrantes da Comissão se debruçam sobre temas como posição da Igreja, violação a direitos dos povos indígenas, terrorismo de extrema-direita, censura aos meios de comunicação e artes, cassação de políticos e perseguição a servidores públicos, repressão ao movimento estudantil e nas universidades e o impedimento da convivência entre crianças e seus pais devido a prisão, morte ou desaparecimento.
Confira aqui a íntegra do documento. 
Edição: Rede Brasil Atual

Comitês internacionais vão analisar abusos da Lava Jato; entenda o que está em jogo


Comitês internacionais vão analisar abusos da Lava Jato; entenda o que está em jogo

Advogados citam caso Lula e aguardam respostas da ONU e da OEA sobre possíveis violações de direitos humanos na operação

Brasil de Fato | Curitiba (PR)
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Cristiano Zanin (esq.) e Geoffrey Robertson (dir.) em frente ao Comitê da ONU, em Genebra / Ricardo Stuckert
Dois meses atrás, o advogado Rubens Francisco desembarcou em Washington, nos Estados Unidos, acompanhado da colega Cibele Braga. Por entre bandeiras a meio mastro, em homenagem aos 16 anos do atentado de 11 de setembro, eles se dirigiram à sede da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para um pedido de socorro.
O requerimento, assinado pela dupla e entregue à Comissão, contém uma série de denúncias sobre a operação Lava Jato no Brasil. Segundo o texto, o sistema judiciário pós-Lava Jato é “uma afronta direta aos preceitos fundamentais do Pacto de San José da Costa Rica”, e os processos em questão “esvaziam as garantias constitucionais da Carta Magna brasileira de 1988”.
Criada em 1959, a CIDH é um órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA) e está composta por sete membros independentes, que não representam nenhum país em particular e são eleitos por uma assembleia.
O Pacto a que o advogado se refere é um tratado assinado pelos 35 países membros da OEA, que entrou em vigor em 1978 na Costa Rica. Entre os direitos civis e políticos previstos no tratado, estão o direito à liberdade pessoal, às garantias judiciais e à proteção da honra.
Buraco sem fundo
De volta ao Brasil, Rubens Francisco cita a condenação do ex-presidente Lula (PT) em primeira instância no “caso triplex” como símbolo dos abusos da Lava Jato. Segundo ele, uma eventual prisão do petista pode comprometer o direito de defesa dos cidadãos – particularmente, dos mais pobres.
“Se condenarem o Lula nesses moldes, qualquer pessoa em território nacional pode ser levada à prisão, apodrecer lá e acabou. Não há quem tire, porque não tem defesa válida, não tem processo válido”, alerta o advogado, em entrevista ao Brasil de Fato. “Se o Lula cair no buraco, vai levar junto o país inteiro”, completa.
A preocupação do jurista foi expressa na segunda página no texto protocolado em Washington: “A vítima da operação Lava Jato não é só o ex-presidente Lula, mas diversos brasileiros anônimos que estão completamente à mercê de um Poder Judiciário mercenário, que objetiva salários e ganhos estratosféricos, muito acima da remuneração mensal mundial para servidores públicos, além de práticas de crime e corrupção”.
Entre os pedidos listados ao final do documento, os advogados sugerem a intimação da ministra Cármen Lúcia, presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF) – ao qual se atribui a função de “zelar pela Constituição”.
Lula na ONU
Cibele Braga e Rubens Francisco não foram os primeiros juristas a acionar órgãos internacionais para denunciar excessos da Lava Jato. Cristiano Zanin e Valeska Zanin Martins, advogados do ex-presidente Lula, protocolaram uma petição no Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, na Suíça, no dia 27 de julho de 2016.
De acordo com uma nota divulgada pela defesa do petista, o objetivo é fazer com que o comitê se posicione sobre possíveis “arbitrariedades praticadas pelo juiz Sérgio Moro contra Lula, seus familiares, colaboradores e advogados". Em última instância, a petição sugeria que Moro fosse impedido de julgar o ex-presidente, porque teria perdido “de forma irreparável sua imparcialidade”.
As arbitrariedades reunidas até julho do ano passado dizem respeito à condução coercitiva de Lula, na 24ª fase da operação, ao vazamento de materiais sigilosos para a imprensa e à divulgação ilegal de conversas telefônicas. Ao recorrer à ONU, os advogados também ressaltaram o “papel de acusador” assumido por Sérgio Moro, “imputando crime a Lula por 12 vezes, além de antecipar juízo de valor”. Em relação aos demais investigados, os juristas também questionam o uso ilegal das prisões preventivas e a violação do direito de presunção de inocência, previsto na Constituição Federal de 1988.
Toma-lá-dá-cá
O advogado contratado pela defesa de Lula para representá-lo em Genebra é o australiano Geoffrey Robertson, de 71 anos, conhecido por defender na Justiça o ciberativista Julian Assange, fundador do Wikileaks, e o ex-boxeador Mike Tyson. Em maio, ele voltou ao Comitê para atualizar a lista de possíveis abusos cometidos pela operação.
Dois meses depois, o ex-presidente foi condenado em primeira instância por Sérgio Moro, na ação penal conhecida como “caso triplex”. Robertson declarou à imprensa que não ficou surpreso com a decisão, e que espera a confirmação da sentença em segundo grau – “apesar da falta de provas”.
O governo brasileiro foi chamado pela ONU a se defender das acusações reunidas na petição de 2016. O próprio Moro foi quem assinou a defesa, e afirmou que Lula não teria razões para recorrer a cortes internacionais, visto que sequer havia sido julgado em segunda instância.
Questionado sobre o assunto em 30 de agosto, durante um jantar em sua homenagem em São Paulo, o advogado australiano foi taxativo: “A Justiça do Brasil é totalmente parcial. Temos de ir às instâncias internacionais, onde há uma Justiça verdadeira”.
Na prática
Além da Comissão fundada em 1959, a OEA possui uma Corte Interamericana de Direitos Humanos, criada dez anos depois. A ideia do advogado Rubens Francisco, ao fazer um requerimento à CDIH, em Washington, é que aquele pedido chegue à Corte – em San José, na Costa Rica. Como não é um representante do Estado, ele não poderia recorrer diretamente à Corte.
Mesmo que o plano se concretize e o Brasil seja “condenado”, não há garantias de que as decisões judiciais tomadas em âmbito nacional serão revertidas. De qualquer forma, o país seria obrigado a prestar esclarecimentos, perante os demais membros da OEA, sobre as supostas violações de direitos humanos.
Até hoje, o Estado brasileiro foi “réu” em nove casos que tramitaram na Corte da OEA, mas não costuma cumprir as recomendações de organizações internacionais. Em 2010, por exemplo, o STF foi criticado por manter a anistia a crimes políticos cometidos durante a ditadura civil-militar (1964-1985), e mesmo assim decidiu não alterar o texto da Lei 6683, de 1979, conhecida como Lei da Anistia.
No caso da ONU, o mais provável é que os 18 especialistas independentes do Comitê analisem a petição, apreciem se houve ou não desrespeito aos direitos humanos, e recomendem a adoção de políticas públicas para evitar novas violações. O Comitê não é uma instância de julgamento, mas apenas indica se a Justiça dos países-membros age de acordo com o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos – aprovado em dezembro de 1966 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, e assinado pelo Brasil em 1992.
O que esperar
O avanço da operação Lava Jato em 2016, em consonância com o jogo parlamentar que levaria ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), abriu os olhos de juristas vinculados à OEA para possíveis abusos de poder no Brasil. O posicionamento assumido por eles permite supor que haverá medidas drásticas.
Luis Almagro, secretário-geral da Organização, divulgou uma nota oficial em março de 2016 e se posicionou contra o golpe que estava em curso. Sobre a Lava Jato, Almagro chamou atenção para as arbitrariedades do Poder Judiciário e finalizou: “Nenhum magistrado está acima da lei”.
Em entrevista à Folha de S. Paulo em outubro deste ano, o juiz presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas, criticou o uso das conduções coercitivas na operação. “Está se queimando etapas, como que para mostrar força e um poder arbitrário. O Estado tem de exercer seu poder com a devida parcimônia”, acrescentou Caldas, ao citar como exemplo as investigações contra o então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier – que cometeu suicídio após ter sua reputação destruída pela operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal (PF).
Um ano e meio antes, em entrevista ao jornal argentino Página 12, Caldas havia criticado a divulgação ilegal de conversas telefônicas do ex-presidente Lula: “Vemos situações típicas de um Estado de exceção”.
Em relação à ONU, não houve nenhum posicionamento explícito do Comitê contra a Lava Jato ou contra as violações de garantias constitucionais no Brasil. No ano passado, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos informou à imprensa que o caso Lula não era considerado urgente e seria debatido em 2017. A petição não entrou na pauta do colegiado até o final desta edição, e a próxima reunião ordinária está marcada para março de 2018.
Retaliação?
Os advogados de Lula alegam que os membros da força-tarefa da Lava Jato reforçaram a perseguição contra o ex-presidente após a petição entregue à ONU – conforme descrito em nota divulgada por eles em agosto de 2016:
“Desde que denunciou os abusos da Lava Jato à corte internacional de Genebra, em 28 de julho, Lula e sua família sofreram retaliações por parte dos operadores da Lava Jato. Sem nenhuma justificativa razoável, a esposa de Lula, Marisa Letícia, e seu filho Fábio Luís foram intimados a depor pela Polícia Federal, que também incluiu outro filho, Luís Claudio, em investigações que não lhe dizem respeito, sem nenhuma base em fatos (…).
Por meio de seus porta-vozes na imprensa, os operadores da Lava Jato ampliaram a campanha de propaganda opressiva contra Lula. Na edição desta semana, a revista Época, do grupo Globo, informa que os procuradores da Força Tarefa estão “irritados” com o que chamam de “tentativas de intimidação”. Na verdade, o recurso de Lula à ONU é um direito de todos os cidadãos dos países que firmaram o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, do qual o Brasil é signatário desde 1992”.
Dois pedidos em um
Rubens Francisco e Cibele Braga, responsáveis pelo requerimento entregue em 11 de setembro em Washington, atuam como advogado de defesa de Jeremias Casemiro – descrito por eles no documento como um “sindicalista, negro e pobre”.
Jeremias Casemiro (Solidariedade) é ex-presidente da Câmara Municipal de Resende-RJ, filiado ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas e Mecânicas (Sindmetal), e autor de um pedido de habeas corpus entregue a Moro em junho, para reivindicar a liberdade de Lula e dele próprio.

No pedido enviado à 13ª Vara Federal de Curitiba, Casemiro afirma que ambos são alvos de um processo “que busca sentença condenatória a qualquer preço, negligenciando o Tribunal, tanto do Rio [de Janeiro] como do Paraná, os direitos e garantias do devido processo legal, e mesmo o Pacto de San José da Costa Rica”. Acusado de fraudar licitações em Resende, Casemiro teve um pedido de prisão expedido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) no ano passado
O caso Jeremias Casemiro também é citado no requerimento protocolado em Washington, em que são denunciadas as supostas violações da Lava Jato. Rubens Francisco e Cibele Braga explicam no documento que o sindicalista é “vítima de abuso de Poder Judiciário brasileiro”, porque o STF se recusa a mais de um ano a julgar o mérito do habeas corpus: “À luz do Pacto de San José, o sistema jurídico brasileiro não cumpre o tratado internacional que prevê nulidade de decreto prisional por autoridade incompetente, sem o devido processo legal, e sem recurso rápido eficaz para a reversão das ilegalidades praticadas”.
Os advogados pretendem que a Corte Internacional de Direitos Humanos julgue o caso Jeremias Casemiro e condene o Brasil pelas violações cometidas a partir da operação Lava Jato.
Esta reportagem faz parte da cobertura especial do Brasil de Fato sobre a Lava Jato. Clique aqui para ter acesso a outros materiais sobre a operação.
Edição: Ednubia Ghisi

Jovens protestam contra presença de Sergio Moro no Rio de Janeiro

Jovens protestam contra presença de Sergio Moro no Rio de Janeiro

Cerca de 300 jovens, militantes do Levante Popular da Juventude e de outras organizações políticas, promoveram o ato

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)
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Os manifestantes realizaram uma conferência, que foi transmitida ao vivo na página do Facebook do Levante / Divulgação
Cerca de 300 jovens, militantes do Levante Popular da Juventude e de outras organizações políticas, fizeram um protesto contra a presença do Juiz Sérgio Moro na sede da Petrobras, no centro do Rio, nesta sexta-feira (8). A ação aconteceu durante uma conferência do magistrado aos funcionários da estatal como parte da programação do dia Internacional de Combate à Corrupção, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Os manifestantes realizaram uma conferência, que foi transmitida ao vivo na página do Facebook do Levante, para apresentar um discurso de oposição ao que estava sendo feito por Moro na Petrobras e veiculado ao vivo em uma plataforma de WebTv. “A ideia foi fazer o contraponto ao que representa a presença de dele na empresa”, disse Nataly Santiago, militante do Levante.
Durante a manifestação, os jovens também fizeram intervenções para denunciar a atuação de Moro e demonstrar como ela é parte de uma articulação de outros atores, que eles chamaram “Liga da Injustiça”. A ação ainda pediu o afastamento e investigação de Moro. 
“A Mídia, as empresas estrangeiras e o Ministério Público são alguns anti-heróis que buscam acabar com a soberania brasileira entregando riquezas, como a Petrobras, para o capital internacional”, explicou Jessy Dayane, militante do Levante e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).
De acordo com a nota divulgada pelo Levante, a organização é contrária à presença de Moro porque acredita que a condução da operação Lava Jato “fere o devido processo legal e também o aparecimento de evidências de corrupção do magistrado, como no recente escândalo do depoimento do advogado espanhol Tacla Duran que apresenta provas de negociação de propina para as delações premiadas”.
Edição: Mariana Pitasse

Marun é o sinal do “é dando que se recebe” do final do período Temer

Marun é o sinal do “é dando que se recebe” do final do período Temer

Quem se lembra da frase de Roberto Cardoso Alves, o Robertão,  líder do “Centrão” do Governo Sarney não pode deixar de associá-la à insólita nomeação, hoje, do brucutu Carlos Marun na Secretaria de Governo da Presidência.
Embora a versão imunda da oração de São Francisco, nestes tempos, esteja praticamente invertida – “é recebendo que se dá” –  a ida de Marun para o Planalto é o retrato do aprofundamento do lamaçal que será o ano final do governo Temer.
Não se espere que o governo “sossegue” e se limite a administrar seu período final.
O tempo será de jogadas desesperadas para conservar a ficção da recuperação econômica num cenário que começa a mostrar sinais de que a ligeira estabilização que se alcançou deve ser fugaz: os juros mundiais começam a subir, a inflação está “pendurada” em dois fatores instáveis (dólar e preço dos alimentos) e as dificuldades fiscais devem levar a uma crescente paralisia da máquina pública.
A única resposta que o Governo ensaia a isso é vender, mais e mais rápido.
E, para isso, terá de oferecer mais generosas “comissões” ao mundo político.
Afinal, é dando que se recebe e recebendo é que, talvez, se dê.
No caso da Previdência, porém, os bilhões de favorecimentos não bastaram.
Caberá a Marum promover a remarcação – para cima – dos preços do “mercado” político.

Ataque à universidade pública é herança da Lava Jato?

Análise | Ataque à universidade pública é herança da Lava Jato?

Prisões de reitores sem provas comprometem a autonomia universitária e são um caminho sem volta

Brasil de Fato | Curitiba (PR)
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Jaime Arturo Ramirez, reitor da UFMG, foi preso em uma operação cinematográfica, a exemplo do que aconteceu com Cancellier em Florianópolis / Evandro Parreiras
O ataque à universidade pública é uma obra que pode ser assinada em conjunto pelos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. O golpe parlamentar de 2016 derrubou a presidenta eleita Dilma Rousseff. O Legislativo tratou de aprovar cortes orçamentários e mudanças na Constituição, como a PEC 241, que congelou os investimentos em educação. Coube ao Poder Judiciário e à Polícia Federal continuar esse desmonte no segundo semestre deste ano.
Não é exagero dizer que as prisões de dois reitores de universidades federais, em Minas Gerais e Santa Catarina, seguem a cartilha da operação Lava Jato. Ambas foram abordagens cinematográficas, com ampla repercussão midiática e nenhum respeito pela chamada autonomia universitária.
No caso da operação Ouvidos Moucos, em Florianópolis, as coincidências vão além. A delegada Érika Marena, que mandou prender o então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier, trabalhou mais de um ano na Lava Jato e era muito próxima de Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa em Curitiba. Cancellier cometeu suicídio, tamanha humilhação que sofreu naqueles dias.
A expressão “lavajatismo” começa a se tornar sinônimo de um Estado autoritário e policialesco. Os alvos dessa cruzada estão cada vez mais claros, e também não é difícil entender quem sai ganhando.
O desmonte da universidade pública, assim como a maior parte das decisões tomadas no âmbito da Lava Jato, agrada o capital estrangeiro. Afinal, atende a uma orientação recente do Banco Mundial para os países em desenvolvimento – na semana passada, a instituição financeira publicou mais um relatório recomendando o fim da gratuidade no ensino superior.
Ou o país se propõe a frear o lavajatismo, ou o ensino público sofrerá uma trágica destruição, como aquela que acabou com parte significativa da produção industrial brasileira e deixou milhões de desempregados.
O Judiciário precisa olhar para dentro, e não para fora do Brasil. Acabar com a gratuidade nas universidades federais não é democratizar o ensino público, mas sim, devolvê-lo a quem sempre encarou o Estado e a educação como privilégio dos mais ricos. Tudo em nome do pretenso combate à corrupção, com as bênçãos da mídia corporativa e do capital financeiro.
Edição: Camila Maciel