quinta-feira, 1 de março de 2018

Vale tudo: Marcelo Odebrecht entrega supostos e-mails à Lava Jato para tentar reduzir pena.




Vale tudo: Marcelo Odebrecht entrega supostos e-mails à Lava Jato para tentar reduzir pena. Por Kiko Nogueira

 
Os suspeitos de sempre estão esfuziantes com os supostamente novos emails bomba que Marcelo Odebrecht está tirando da manga em casa, depois de ter as contas devassadas nos últimos anos.
A explicação simples: ele tentar reduzir pena. E nesse caso vale tudo.
A (semi defunta) revista Época desta semana traz uma matéria sobre a rotina do empresário na domiciliar. 

Ele “passa o dia em busca de provas que amenizem sua pena, torpedeando executivos da empreiteira da família e esclarecendo as filhas sobre quem diz ser o real vilão do maior caso de corrupção do país”.
Eis a tática do malandro:
Debruçado sobre a escri­va­ninha de madeira onde jazem um exemplar da revista britânica The Economist, duas pilhas pequenas de documentos, um antiquado telefone fixo branco, um porta-canetas e papéis para suas compulsivas anotações, Marcelo Odebrecht, de 49 anos, inicia mais um dia de trabalho.
(…)
Desde 19 de dezembro, quando passou à prisão domiciliar, o empreiteiro — um bilionário que já foi eleito pela revista Forbes o nono homem mais rico do país — esmiúça no laptop os mais de 400 mil e-mails que estavam na sua caixa de mensagens desde 2002. Seu computador fora apreendido pela Polícia Federal no dia de sua prisão, em junho de 2015, mas em novembro os arquivos foram finalmente devolvidos. De lá para cá, ele passa horas debruçado sobre as velhas mensagens, revivendo trivialidades — como os arranjos para um jantar com a família — e momentos mais, digamos, intensos — como quando combinava por escrito pagamento de propinas a parlamentares e ministros.
A amigos, ele está fazendo questão de dizer — contando com que a notícia se espalhe entre seus desafetos rapidamente — que está em uma busca paciente e meticulosa por informações que lhe abram, mais cedo, as portas da rua. E não só isso. Na prática, ele quer dizer que está atrás de provas que incriminem aqueles que ele acha que o deixaram se queimar sozinhoseu pai, Emílio, e outros executivos da empresa.
Marcelo Odebrecht se vê como vítima de uma injustiça, respondendo desamparado pela corrupção na empreiteira que comandava, embora haja outros 76 delatores que admitiram participação na máquina de crimes da Odebrecht. Daí a obsessão pela busca de provas. Pelo acordo de delação premiada que fechou, o executivo tem a obrigação de cumprir dois anos e meio de prisão domiciliar, com permissão para sair de casa apenas em dois períodos de 24 horas. Se conseguir comprovar o que disse à Justiça com novas evidências — e dividir a culpa com outros envolvidos —, pode reduzir a pena para um ano e três meses. Ele só pensa em uma coisa: ser exonerado do cargo simbólico de corruptor em chefe do Brasil.
(…)
Na quinta-feira dia 22, logo depois do almoço, Marcelo Odebrecht chamou a filha mais velha, de 21 anos, para conversar. Naquele dia, vazaram novas mensagens relacionadas à compra de um terreno que abrigaria o Instituto Lula — que ele mesmo entregou à Justiça como parte das tentativas de aliviar sua pena. Mostrou a papelada à moça, que leu com cuidado. Depois, disse:
— Entendeu tudo? Precisa que eu esclareça algo?
Em seguida, apontou os nomes dos ex-funcionários e também delatores da Odebrecht copiados nas trocas de e-mails para convencê-la de que era ele quem estava ajudando a elucidar os fatos, apesar de os outros executivos terem participado das tratativas do pagamento.
Desde que foi preso, ele faz questão de ser a fonte primária de informação para as três filhas e a mulher. Na prisão, relatou seu cotidiano em um diário que chegou a 7 mil páginas. Quando voltou para casa, sua situação jurídica passou a ser pauta dos almoços de família.
Os e-mails relacionados ao Instituto Lula foram só uma parte das mensagens que o empreiteiro encaminhou à PF recentemente. Ele já fez mais de dez petições para incluir novo material. O sistema de senhas e tokens desenvolvidos pela Odebrecht é tão complicado que o acesso ao computador de Marcelo só aconteceu em novembro do ano passado. Um funcionário da empresa passou dois dias em Curitiba no fim de 2017, quando conseguiu, depois de sucessivas tentativas, acessar os dados. É nesse acervo que o empresário mergulha diariamente. Hoje, só ele, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal têm cópias dos e-mails. (…)


Mão leve

As misérias da intervenção

As misérias da intervenção

A segurança pública não pode subsistir sem a segurança econômica como seu fundamento

 
01/03/2018 13:40
Tânia Rego/Agência Brasil
 
Começo a coluna com o último parágrafo do artigo de Benjamim Steinbruch estampado na Folha de S.Paulo na terça feira 20 de fevereiro: “Políticas econômicas irresponsáveis, que provocam desemprego, jogam jovens desocupados nos braços da criminalidade. O País precisa com urgência de crescimento econômico e criação de postos de trabalho. E isso não é tarefa para generais”.

Neste espaço, já aborreci o leitor de CartaCapital com o tema da violência no Brasil. Mas vou insistir. Com raras e pontuais interrupções, o Estado oligárquico brasileiro ocupa-se há séculos da produção da insegurança: omite-se diante das tragédias do desemprego, da falta de saúde e de moradia e recua diante da violência dos criminosos.

Como é do conhecimento geral, os ferrados morrem como moscas, sem atendimento médico, sem oportunidades na vida ou pelas armas dos assassinos à solta. Tal descaso é cúmplice da violação sistemática dos códigos da cidadania moderna, que foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista e reacionário dos que se imaginam com mais direitos e poderes.

Estes, no Brasil, invariavelmente imaginam uma sociedade sem a presença de um Estado democrático capaz de corrigir as desigualdades, mas se aprestam a reclamar um Estado autoritário, capaz de intimidar os que pretendem reivindicar os direitos da maioria.

A praga da violência dissemina-se nas grandes cidades brasileiras e atesta que a crise de segurança não é apenas uma questão de polícia, mas, sobretudo, escorre como uma gosma negra e purulenta da omissão do Estado diante do desemprego e das calamidades, como o colapso da saúde pública e da educação. Nas sociedades contemporâneas permeadas pela divisão do trabalho – e, portanto, submetidas à interdependência dos trabalhos e atividades dos indivíduos cidadãos urbanizados –, a segurança pública não pode subsistir sem a segurança econômica como seu fundamento.

Não é possível uma política de segurança pública apenas aumentando o poder repressivo das polícias ou mobilizando as Forças Armadas para misteres que escapam à sua competência. É ridículo, não fosse trágico, o projeto da intervenção militar no Rio de Janeiro, quando um contingente imenso de brasileiros deambula tragicamente entre a insegurança econômica e o crime.

Para escapar de arroubos anarquistas, vou relembrar O Processo Civilizador, de Norbert Elias. Ele considera a monopolização do uso da força pelo Estado como uma das invenções sociotécnicas mais importantes da espécie humana. Elias não imagina como a sociedade civilizada possa sobreviver sem a ação permanente da polícia, destinada a inibir os impulsos violentos de alguns indivíduos sobre os outros, com o propósito do domínio ou do aniquilamento físico.

No fervilhar da crise de segurança, chovem acusações de corporativismo e corrupção desferidas contra os policiais. Destreinados, mal apetrechados, despreparados, desmotivados e mal remunerados, os policiais foram incluídos no rol dos inimigos públicos pela tecnocracia econômica. As classes dominantes e dirigentes do Brasil Varonil não se cansam de surpreender os habitantes do País. Em sua inesgotável e feérica imaginação, insistem em homenagear Nietzsche e brindar os cidadãos com o “eterno retorno do mesmo”. 

Ah, a democracia! Essa palavra circula nas rodas nada circunspectas dos Senhores da Terra Brasilis com a mesma desfaçatez que os perpetua no privilégio e no exercício da demofobia. Ocorreu-me relembrar que a vitória na Constituinte não conseguiu eliminar as consequências da derrota na campanha pelas Diretas.

arranjo social do atraso preconiza uma sociedade submissa ao rentismo, refém da estagnação, prisioneira da defesa da riqueza estéril alimentada por fluxos de hot dollars. Imobilizados nos pântanos do parasitismo, os bacanas e sabichões acovardam-se diante dos azares da incerteza, avessos aos riscos de construção da nova riqueza. Aí está desvelado, em sua perversidade essencial, o “segredo” das reivindicações antissociais dos vassalos do enriquecimento sem esforço. 

Alguns mais ousados celebram o aumento do desemprego como arma para combater a inflação e proclamam a necessidade de mais “sacrifícios”. Quem viveu 75 anos ouvindo essa patuscada dos que sonegam impostos, fogem para os paraísos fiscais e se orgulham de resolver tudo com dinheiro sabe que o sacrifício vai ser arrancado dos que sempre “pagaram o pato”. Esse é o alto preço que o presente agrilhoado ao passado cobra do futuro.

O povo contempla, entre perplexo e cada vez mais desencantado, o espetáculo da mudança sem esperança ou, como dizia um crítico de Adorno, “a realização das esperanças do passado”. Assim os senhores da terra concebem o progresso.




Créditos da foto: Tânia Rego/Agência Brasil

SEM CONDENAÇÃO, PARENTE CORRE PARA PAGAR R$ 10 BI AOS ESTADOS UNIDOS

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O PSICOPATA


O PSICOPATA ( atendendo a pedidos)(postagem original:27/01/2013)


O PSICOPATA

Glauco dos Santos Gouvêa *

A médica psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva lançou em 2008 um livro muito importante, oportuno e de grande utilidade, cujo título é MENTES PERIGOSAS, com subtítulo O PSICOPATA MORA AO LADO.

Logo na orelha da citada obra encontramos um perfil do psicopata, tão preciso, que reproduzo a seguir:

“Os psicopatas são frios, calculistas, insensíveis, inescrupulosos, transgressores de regras sociais e absolutamente livres de constrangimentos ou julgamentos morais internos. Nas diversas esferas do relacionamento humano, eles são capazes de passar por cima de qualquer pessoa apenas para satisfazer seus próprios interesses. Mas, ao contrário do que pensamos, não são considerados loucos, nem mesmo apresentam qualquer tipo de desorientação. Eles sabem exatamente o que estão fazendo e não sofrem nem um pouco com isso.

Podemos dizer que são verdadeiros “predadores sociais”, e às vezes seus atos são tão chocantes que nos recusamos instintivamente a reconhecer sua existência. Mentes Perigosasnos mostra em linguagem fluida e acessível quem são essas pessoas que estão por aí, ao nosso lado, e que desafiam a própria natureza humana. Conhecer essas mentes perversas é a melhor forma de nos proteger do efeito devastador de sua presença em nossas vidas.”

À medida que eu lia o livro me convencia da necessidade de divulgá-lo. Mais que necessidade: um imperativo de consciência para ajudar minimamente as pessoas a identificar um psicopata e se proteger do mesmo. O perigo maior reside em que o psicopata jamais revela sua verdadeira personalidade, seu verdadeiro pensamento. Ele “constrói” uma armadura e se protege; mente sempre e com tanta habilidade que acreditamos em suas mentiras; procura mostrar que é um entendido em qualquer assunto (embora não o seja) e que sua opinião é superior a qualquer outra; visa convencer as pessoas de que é um altruísta ( mas, na verdade, é incapaz de qualquer forma de amor ); impulsivo, irresponsável, insensível. Todo o cuidado é pouco ao lidarmos com um psicopata, pois ele é capaz de qualquer coisa sem nenhum sentimento de remorso. Cuidado...

Livros como o da psiquiatra Ana Beatriz precisam ser divulgados, pela sua importância para a vida das pessoas. Quanta perversidade, quanta injustiça, teriam sido evitadas se soubéssemos identificar um psicopata !

  • Engenheiro Civil e Auditor Fiscal Tributário Estadual (aposentado)


P.S.

Tendo em vista a relevância do tema tratado e de outros correlatos, listamos, a seguir, outras obras publicadas pela Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva:

Mentes Inquietas: TDAH - desatenção, hiperatividade e impulsividade [Publicação revista e ampliada]
Mentes e Manias: TOC - transtorno obsessivo-compulsivo [Publicação revista e ampliada]
Sorria, você está sendo filmado (em parceria com o publicitário Eduardo Mello)
Mentes Insaciáveis: anorexia, bulimia e compulsão alimentar
Mentes Ansiosas: medo e ansiedade além dos limites [Publicação revista e ampliada de Mentes  com Medo]
BULLYING: Mentes Perigosas nas Escolas
Mentes Peligrosas: un psicópata vive al lado [Publicado na Argentina e México]

Os psicopatas são capazes de ter a perspectiva dos outros?



Os psicopatas são capazes de ter a perspectiva dos outros?

Estudo que incluiu 106 homens detidos nos EUA concluiu que os psicopatas falham na tarefa de perceber automaticamente a perspectiva dos outros, uma característica típica da cognição humana.



O cérebro de um psicopata funciona de forma diferente
Foto
O cérebro de um psicopata funciona de forma diferente

Quando se discursa perante uma plateia será impossível ignorar as pistas dos ouvintes, seja um bocejo ou um olhar atento. Este é um processo de reconhecimento automático da perspectiva dos outros e uma característica típica da cognição humana. O exemplo é dado por Arielle Baskin-Sommers, investigadora da Universidade de Yale (EUA) e uma das autoras de um artigo científico publicado recentemente na revista norte-americana Proceedings  of  the National Academy of Sciences (PNAS) onde se concluiu, após testes realizados em 106 homens detidos numa prisão de alta segurança no Connecticut (EUA), que os psicopatas têm uma “diminuição da propensão automática para assumir a perspectiva dos outros”.
“Há muito tempo que os investigadores se intrigam com o facto de os psicopatas – que se caracterizam por um comportamento anti-social e fracas emoções interpessoais – conseguirem um desempenho normal em testes clássicos para avaliar a capacidade de ter a perspectiva dos outros”, começa por explicar ao PÚBLICO Arielle Baskin-Sommers.



Esse terá sido o gatilho para o estudo que incluiu a avaliação de 106 homens detidos entre os 21 e os 67 anos. Desta vez, os testes psicológicos – com tarefas especialmente orientadas para a análise desta característica cognitiva – revelaram que “psicopatas e não psicopatas são capazes de ter a perspectiva dos outros quando isso lhes é explicitamente solicitado, mas os psicopatas são menos capazes de se envolver automaticamente neste processo”. Os resultados, diz a investigadora, sugerem que “estes indivíduos não possuem um aspecto típico da cognição humana, o que poderá contribuir para o seu comportamento anti-social implacável”.
O título do artigo publicado na PNAS (“Psicopatas falham em perceber automaticamente a perspectiva de outros”) faz claramente a distinção entre esta percepção automática do outro e um outro processo controlado e deliberado. Apesar de notar que estes indivíduos exibem um desrespeito “crónico e notório” pelo bem-estar de outros com um comportamento insensível e manipulador, os autores lembram que este perfil dos psicopatas tem sido associado a défices nos processos sociais e afectivos. “No entanto, com este estudo mostramos que alguns dos comportamentos psicopáticos podem ser originados num défice cognitivo, especificamente uma incapacidade de automaticamente reconhecer a perspectiva do outro”.

Os estudos anteriores, adiantam os cientistas, basearam-se apenas em testes numa vertente controlada da teoria da mente (ToM, na sigla em inglês) e que também é conhecida como perspectiva cognitiva, consistindo precisamente na capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e, dessa forma, prever o seu comportamento.
Neste caso, os investigadores quiseram testar o processo de ToM automático e perceber se os psicopatas mantinham o bom desempenho normal observado em estudos anteriores com o processo controlado e deliberado. “Com os processos de ToM automáticos, um indivíduo representa os pensamentos ou sentimentos de outra pessoa sem pretender fazê-lo, mesmo nos casos em que tal processamento seja irrelevante para a tarefa em questão”, descreve o artigo na PNAS. E, conclui-se, os psicopatas falham nesta acção imediata.
“É como falar numa aula: a atenção não deve estar na audiência, mas é impossível ignorar as pistas sociais, como um bocejo. Posso adaptar o que estou a dizer ou a forma como estou a falar para reagir a essas dicas. Isso reflecte o nosso processo automático de considerar os pensamentos dos que nos rodeiam. Não preciso deliberadamente ter a perspectiva dos meus alunos, isso simplesmente acontece automaticamente”, exemplifica Arielle Baskin-Sommers.


Os limites da cognição

Esta perspectiva automática e aparentemente involuntária, que os psicopatas parecem não conseguir alcançar, e a perspectiva controlada e deliberada são uma parte fundamental da cognição humana. Os investigadores também demonstram neste artigo que a magnitude desta interferência no processo automático de ter a perspectiva dos outros “está correlacionada com os comportamentos insensíveis no mundo real”, como, por exemplo, o número de ataques de que são acusados. No caso das tarefas que exigiam uma ToM controlada, os psicopatas responderam com um desempenho normal.
Os autores lembram ainda que os psicopatas têm sido descritos como “almas esvaziadas” e sem escrúpulos e que alguns clínicos consideram a psicopatia como uma síndrome de insanidade moral. Isso quer dizer que estas “almas esvaziadas” podem ter a perspectiva de outros (não mostrando défice nas capacidades de ToM em processos controlados), mas que, simplesmente, não se importam? “Não penso que seja justo dizer que não se importam. Eles mostram uma diminuição da propensão automática para assumir a perspectiva dos outros, que é um processo cognitivo. Não é necessariamente consciente. Quando são convidados a entender explicitamente a perspectiva dos outros, conseguem fazê-lo”, responde Arielle Baskin-Sommers, adiantando que o seu laboratório está a realizar “vários estudos sobre a identificação e especificação dos limites da cognição em indivíduos psicopatas”.