Do caminhão de som onde fez um discurso de apenas oito minutos, Lula pode assistir a uma manifestação inédita em suas caravanas pelo país, ao chegar à Unipampa (Universidade Federal do Pampa), criada em seu governo.
Logo na primeira parada da Caravana do Sul, em Bagé, na manhã desta segunda-feira, o ex-presidente encontrou militantes contrários à sua visita com camisas e adereços de Jair Bolsonaro, o segundo colocado nas pesquisas.
Com o apoio de entidades de produtores rurais e de lojistas, o ato de protesto contou com um boneco de Lula trancado numa cela, uma amostra do que o espera ao longo dos nove dias em que vai passar pelos três estados da região Sul, percorrendo 2,7 mil quilômetros por 26 cidades e prevê uma visita ao mausoléu de Getúlio Vargas. A viagem termina em Curitiba no dia 28.
Em seu discurso, Lula afirmou que “não esperava que nossa passagem por Bagé fizesse com que a direita fascista reclamasse junto ao Ministério Público para impedir de fazer um ato na universidade”.
Como tem feito em todas as suas manifestações nas últimas semanas, o ex-presidente defendeu seu direito de ser candidato:
“Nós queremos democracia. E democracia pressupõe eleição. E se eles estão preocupados com o fato de eu ser candidato, eles podem saber que nós vamos ganhar”.
O clima hostil foi exatamente o oposto das recepções calorosas que Lula encontrou nas caravanas do Rio de Janeiro para cima, no Nordeste e em Minas Gerais, mostrando a profunda divisão Norte-Sul do eleitorado, como se viu nas últimas eleições e é confirmado nas pesquisas presidenciais de 2018.
Uma hora depois, Lula seguiu para Santana do Livramento, na fronteira do Brasil com o Uruguai, onde se reuniria com o ex-presidente José Mujica.
A macrorregião da fronteira é um reduto da bancada ruralista, que prepara novas manifestações para os próximos dias, com bloqueios nas estradas por onde a caravana de Lula vai passar.
Temendo conflitos, o presidente do PT no Rio Grande do Sul, Pepe Vargas, reuniu-se na véspera com o secretário de Segurança, Cezar Schirmer. “Em caso de incidentes, será fácil identificar os responsáveis”, disse Vargas.
A Câmara Municipal de Bagé já tinha aprovado no início do mês uma mensagem de repúdio à passagem de Lula pela cidade.
O DCM apresenta o documentário sobre a Lista de Furnas que prometemos entregar em mais um projeto de crowdfunding.
A direção é do talentoso documentarista e produtor Max Alvim e as reportagens são de Joaquim de Carvalho — um dos melhores jornalistas investigativos do Brasil, colaborador dileto do Diário.
Está ali toda a gênese e as imbricações de um dos grandes escândalos do país — e um dos que mais sofreram tentativas de ser abafado.
O momento do lançamento é oportuno. No sábado, 27 de fevereiro, ficou-se sabendo que o ex-deputado federal Roberto Jefferson e mais seis pessoas foram indiciados pela Delegacia Fazendária (Delfaz) por crime de corrupção ativa e lavagem de dinheiro na estatal mineira.
O Ministério Público Estadual (MPE) levou dez anos para se mexer. Entre os envolvidos estão empresários, lobistas e políticos. Ficou faltando muita gente. Entre as ausências, a de Dimas Toledo, ex-presidente da empresa indicado por Aécio. Dimas não foi indiciado por ter mais de 70 anos e, portanto, contar com o benefício da prescrição.
O que o documentário do DCM traz:
. O que é, para que servia e quem produziu a Lista: os 156 políticos e os respectivos valores recebidos na campanha eleitoral de 2002 do caixa 2 de empresas que prestaram serviços para Furnas.
. Os principais nomes do esquema: gente como José Serra, então candidato a presidente, Geraldo Alckmin, candidato a governador de São Paulo, Aécio Neves, candidato a governador de Minas Gerais, e Sérgio Cabral, candidato a senador pelo Rio de Janeiro, além de candidatos a deputado, como, Alberto Goldman, Walter Feldman e Gilberto Kassab por São Paulo; Eduardo Paes, Francisco Dornelles e Eduardo Cunha pelo Rio de Janeiro; Dimas Fabiano, Danilo de Castro e Anderson Adauto por Minas Gerais.
. O protagonismo de Aécio: além de receber diretamente para sua campanha R$ 5,5 milhões (13,1 milhões em valores corrigidos pelo IGP-M), há outros dados que confirmam seu papel central no caso.
São antigas as relações de sua família com as empresas públicas na área de energia. O pai, Aécio Cunha, depois de integrar durante seis anos a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, se tornou conselheiro de Furnas, ao mesmo tempo em que era conselheiro da Cemig, a estatal de energia de Minas Gerais.
“Furnas sempre foi território de Minas no governo federal”, afirma José Pedro Rodrigues de Oliveira, ex-coordenador do Programa Luz para Todos.
O doleiro Alberto Youssef, em delação premiada, falou de Aécio. O lobista Fernando Moura detalhou que era “um terço (PT) São Paulo, um terço nacional, um terço Aécio”.
. A batalha para desacreditar a Lista de Furnas: quem divulgou que ela poderia ser falsa foi o PSDB de Minas Gerais, com base em pareces de peritos contratos e num laudo da Polícia Federal feitos em cima de uma das cópias divulgadas por Nilton Monteiro, o homem que confessou atuar como operador do caixa 2.
Uma matéria na Veja, plantada por Aécio, deu força para a ideia da falsidade. Quando essa tese prosperava, o lobista Nílton Monteiro entregou à Polícia Federal o documento original, que foi periciado. A conclusão foi a de que se tratava de um documento autêntico, assinado por Dimas Toledo e sem indício de montagem.
Esperamos, com esse documentário, ter conseguido jogar luzes sobre uma história que caminhava para o esquecimento. Agradecemos a todos os leitores que contribuíram para que ele pudesse ser realizado.
A brutal execução da vereadora Marielle Franco provocou uma onda de choque emocional que atingiu praticamente todo o Brasil. O choque despertou forças anímicas de indignação, revolta, tristeza, compaixão, solidariedade e dor nos mais diversos setores sociais. Fora algumas manifestações hipócritas é de se crer na sinceridade dessas diversas manifestações sentimentais com o ocorrido.
Com o início da nova semana, contudo, a onda de choque perde poder de propagação e as forças anímicas se enfraquecem e tudo voltará ao trágico-normal da sociedade brasileira. Claro, Marielle será uma heroína no PSol e inspirará dezenas de ativistas em torno das causas das mulheres e negras, dos jovens pobres e negros das periferias, dos direitos humanos e assim por diante. Mas o trágico-normal será mais forte com o passar dos dias e a dor silenciosa e persistente ficará apenas na alma dos familiares de Marielle e de seus amigos e amigas mais próximos.
O que é o trágico-normal? É a tragédia naturalizada no Brasil, integrada ao nosso cotidiano de violência, que entra em nossas mentes pela TV, pela Internet, pelo noticiário. A aceitamos como algo normal em nossas vidas, como algo constitutivo da paisagem social, cultural, política e mental do nosso dia-a-dia. O trágico-normal é a morte do menino Benjamin de apenas um ano, atingido na Favela do Alemão. O trágico-normal são as mulheres grávidas baleadas e os ainda não nascidos atingidos por balas perdidas no ventre das mães.
O trágico-normal são as milhares de mulheres espancadas no silêncio do lar ou nas ruas e, muitas delas, assassinadas pelos seus companheiros ou ex-namorados. O trágico-normal são os jovens pobres e negros assassinados todos os dias, muitas vezes pela própria polícia que deveria protegê-los. São mortos simplesmente por serem jovens pobres e negros.
O trágico-normal são os mortos e torturados da ditadura, é a execução de Chico Mendes é o assassinato de líderes indígenas, sem terra e ativistas ambientais e dos direitos humanos. Nos últimos 5 anos foram quase duzentas assassinatos documentados de líderes e ativistas. Só nos lembramos deles nos momentos de ondas de choque emocional. É até por isso que não devemos alimentar muito a ilusão de que Marielle se tornará uma heroína nacional estampada em estandartes, cartazes e bandeiras seguidos por milhões de negras e negros, de jovens, trabalhadores, estudantes e intelectuais a desfraldarem as suas insígnias na praça dos Três Poderes, no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal. Seria a suprema e merecida homenagem a essa lutadora corajosa. Mas não somos capazes de glorificá-la a este ponto. Seria também a suprema homenagem aos outros bravos lutadores que tombaram pelas balas covardes dos sempre atocaiados contra a justiça e a igualdade.
Diga-se, ainda, que o trágico-normal são os 174 assassinatos diários, os quase 62 mil assassinatos anuais, fora as outras formas de violência. Em oito anos de guerra na Síria, com superpotências envolvidas e com uma brutalidade inominável, morreram de 511 mil pessoas – cerca de 62,8 mil por ano. No silêncio do nosso trágico-normal matamos, praticamente, tanto quanto.
PUBLICIDADE
Os assassinos de Marielle, tenham sido eles milicianos, policiais ou traficantes, foram apenas executores das ordens emanadas de um sistema criminoso e corrupto. Note-se que há o assassinato seletivo de líderes e ativistas em todo o Brasil: são assassinados aqueles ativistas que estão lá na ponta, aqueles que têm a coragem de enfrentar e denunciar os males e a brutalidade do sistema lá em baixo, onde nós, intelectuais, parlamentares, líderes partidários, estudantes, advogados, não chegamos.
Marielle não foi morta por ser vereadora do PSol, mas porque era vereadora do PSol que enfrentava o sistema onde ele manifesta a sua face mais criminosa: lá onde estão os pobres, onde estão as periferias. Pode-se ser radical nos parlamentos, nas universidades, mas não nas periferias. Não junto aos pobres.
Milicianos e organizações criminosas são o Estado operando na ilegalidade, são expressão desse Estado e desse sistema criminosos. Não nos iludamos quanto a isso. Milicianos e crime organizado são males que precisam ser combatidos. Mas será como enxugar gelo se forem combatidos apenas em si mesmos, sem mudar esse sistema.
Em todos os lugares, o Estado ilegal e violento só é possível enquanto operador do Estado legal quando este se tornou presa de esquemas e quadrilhas de corruptos e criminosos. Quadrilhas governamentais corruptas e criminosas são cúmplices e avalistas do Estado ilegal delinquencial e violento. O Estado legal é prisioneiro de grupos particularistas, que o saqueiam sistematicamente para auferir renda e riqueza, transferindo recursos dos pobres para os ricos. Foi este sistema que matou Marielle e tantos outros ativistas, escolhidos para morrer de forma seletiva.
Os líderes progressistas precisam assumir uma responsabilidade maior
A forma brutal com que Marielle foi ceifada e os emblemas de suas lutas conferiram-lhe grande reputação e poder simbólico. Para combater estas significações, desencadeou-se uma guerra pérfida na Internet, eivada de mentiras monstruosas, contra a sua reputação, contra a sua dignidade e contra a sua memória. Essa guerra é assimilada por pessoas das classes médias baixas e pessoas pobres. Eles têm em seus celulares vídeos, que foram produzidos às dezenas pelos centros de operação dessa guerra, para mostrar que Marielle “defendia bandidos”, simplesmente por combater a morte de jovens negros e pobres. Essas pessoas, enganadas em sua boa fé, amedrontadas com a falta de segurança e de perspectivas, simpatizam com Bolsonaro. Trata-se de um enorme problema para as esquerdas porque as esquerdas ficam indignadas contra essas canalhices, o que é justo, mas as esquerdas não sabem fazer esta guerra.
As esquerdas precisam acordar de seu sono entorpecedor e perceber que estamos imersos numa guerra de vastas proporções, travada em várias frentes e de forma sofisticada, envolvendo valores e interesses. Aqueles que avaliam que a batalha está vencida porque o governo está desmoralizado e porque Lula lidera as pesquisas e, se não puder ser candidato elegerá um ungido, enganam-se. Assim como agem para impedir e silenciar Lula, agirão para desmoralizar qualquer substituto seu. O fato é que as esquerdas não estão preparadas e nem aparelhadas para enfrentar a guerra em curso, cuja última instância é o assassinato.
Passada a onda de choque, a tendência natural das esquerdas é a de se voltarem para embate eleitoral. Uns defenderão Lula, outros o Boulos, terceiros a Manuela e quartos o Ciro Gomes. Esta é a realidade posta. Mas, neste momento, é preciso um freio de arrumação em tudo isso. A realidade cobra uma responsabilidade maior dos líderes. Esses candidatos deveriam sentar-se numa mesma mesa, não para buscar uma unidade que não virá, mas para definir um manifesto à nação, ao povo brasileiro, traçando uma linha divisória, um risco no chão, para dizer que não admitirão que ele seja cruzado pelas forças corruptas e criminosas que mandam no país e que têm seus braços operacionais no Estado ilegal e violento. Esse manifesto deveria ser uma diretriz de luta de todos os partidos e movimentos progressistas.
Estes lideres, de forma conjunta, precisam dizer que lutarão por uma democracia que não existe para a imensa maioria dos brasileiros. Precisam dizer que não admitem mais o desmantelamento de direitos. Precisam dizer que os brasileiros não suportam mais a desigualdade, a injustiça e a violência contra o povo e os pobres. Precisam dizer que não aceitarão mais a violação da ordem constitucional pelo próprio Judiciário. Se fizerem isto, estarão prestando a homenagem que Marielle merece.
A professora Débora Seabra de Moura respondeu à desembargadora Marília Castro Neves, que a ridicularizou no Facebook.
“Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!! Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social… Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem?”, escreveu Marília.
Débora Seabra tem 36 anos e trabalha há 13 como assistente em um colégio particular e tradicional de Natal, a Escola Doméstica.
É autora de livro infantil chamado “Débora Conta Histórias” (Alfaguara Brasil, 2013) e já recebeu convites para realizar palestras em várias partes do Brasil e no exterior.
Em 2015, por ser considerada exemplo no desenvolvimento de ações educativas, recebeu o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação em Brasília.
Na imagem transformada em exemplar referência de resistência, Hawking enfrentava e desafiava o sistema embora caminhasse com dificuldade, com duas muletas e a Rolleiflex pendurada no pescoço
Esta imagem, uma imagem rara, preciosa, dizem amigos europeus que militaram intensamente nos anos finais da década dos ’60, foi feita, eles garantem, no dia 18 de março de 1968 defronte da embaixada americana, em Londres. Trata-se de um instantâneo (como se dizia na época) de uma das mega manifestações e dos fortes protestos nas ruas daquela década elétrica – muitas vezes reprimidos com força e brutalidade pelos poderes políticos e policiais do momento.
Em várias das grandes capitais do mundo ocidental, pressionava-se para o fim da guerra no Vietnã e a convocação forçada de combatentes no sudeste da Ásia – o que acabou ocorrendo cinco anos depois.
Nesta foto, nada de mais especial haveria se não fosse o personagem que se encontra à direita do então estudante de Oxford, Tarik Ali, um paquistanês de 25 anos e ativista de primeira hora, e ao lado dele, a atriz que já era uma estrela internacional - Vanessa Redgrave, filha do ícone do cinema e do teatro britânico, Michael Redgrave.
É comovente a imagem desse personagem de óculos, ao lado de Ali. Um jovem cientista, já então doutor, em Cambridge, Stephen Hawking aos 25 anos, se valendo de muletas porque tinha sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, a rara doença que paralisaria todos os seus músculos, não atingiria o seu cérebro, mas lhe destinava poucos anos de vida – o que não ocorreu.
Na imagem transformada em exemplar referência de resistência, Hawking enfrentava e desafiava o sistema embora caminhasse com dificuldade, com duas muletas e a Rolleiflex pendurada no pescoço.
Impossível não relembrar a atuação de combatente das causas humanas, nas ruas, desse que foi um dos mais importantes cientistas que o mundo já conheceu, e relacioná-la com a gigantesca manifestação de homenagem e indignação, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, à vereadora do PSOL, Marielle Franco, assassinada um dia depois da morte de Hawking, aos 76 anos de idade.
E também aos crescentes protestos de estudantes americanos, em diversas partes dos Estados Unidos, contra o decreto insano que permite professores armados dentro de salas de aula de escolas e universidades.
Talvez estejamos assistindo a reinauguração de uma era novamente vibrante na qual nos libertamos da solidão, do isolamento esquizóide determinados pela Internet – o viés negativo da comunicação, no século 21 – e semelhante àquela de cinquenta anos atrás, dos corajosos protestos públicos nos quais os indivíduos se expõem por inteiro; uma geração histórica da qual Hawking fez parte ativa.
O legado humano de Stephen Hawking, além do seu descomunal desempenho na área da Cosmologia e da Relatividade e da sua força e vontade invencíveis de continuar vivendo e produzindo, é o da fidelidade aos seus princípios.
Ele sempre criticou os debates provocados artificialmente (por interesses econômicos) dos que negam o aquecimento do planeta. Alertava para um futuro semelhante ao de Vênus, caso o homem não tome providências para proteger a Terra. Um planeta encharcado permanentemente de chuvas de ácido sulfúrico.
O doutor de Cambridge, que ocupou a mesma cadeira que um dia pertenceu a Isaac Newton no Instituto de Física da universidade, criticava a saída dos Estados Unidos do grupo da Conferência do Clima de Paris, de 2015, e a possibilidade nefasta, no seu entender, de ingressarmos na era da inteligência artificial; e reforçava a ideia de boicote a Israel por ser contra a política do país em relação aos palestinos.
No seu livro best seller, Uma breve história do tempo (Ed. Intrínseca), com dez milhões de cópias vendidas apenas nos anos 80, ele se declara ateu e escreve: "Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do universo devido a uma série de avanços no campo da física".