sábado, 26 de maio de 2018

Conheça os candidatos e entenda o que está em jogo nas eleições colombianas


ENTREVISTA

Conheça os candidatos e entenda o que está em jogo nas eleições colombianas

Gustavo Petro, candidato progressista, soube “canalizar aspirações justas do povo colombiano”, afirma professor

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Colombianos vão às urnas neste domingo (27) / AlCortés/Flickr
As primeiras eleições presidenciais após o acordo de paz na Colômbia ocorre neste domingo (27). No pleito que vai eleger o sucessor de Juan Manuel Santos, o campo progressista, pela primeira vez em décadas, possui chances reais de ir ao segundo turno. 
Isso porque Gustavo Petro desponta como um dos favoritos nas pesquisas eleitorais. Petro é ex-prefeito de Bogotá e ex-integrante do M-19, guerrilha urbana que atuou na Colômbia entre os anos de 1970 a 1990.
Brasil de Fato conversou com professor colombiano Pietro Alarcón, docente do departamento de Direito Público da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sobre o contexto político do país vizinho. 
"Petro é um autêntico fenômeno político que se constitui como uma alternativa real de poder. Ele é o candidato que mais pessoas leva às praças públicas", afirmou o professor.
Alarcón traça o perfil dos dois principais candidatos à presidência; analisa o cenário econômico do país; a possibilidade de fraude no processo eleitoral; a forma como a democracia colombiana é fragilizada pela violência e a sobrevivência dos acordos de paz no país. 
Confira a entrevista.
Brasil de Fato: Primeiramente, qual a situação econômica em que a Colômbia realiza esta eleição presidencial?
Pietro Alarcón: A situação econômica é bastante grave. Quero focar em duas questões mais importantes: a primeira é sobre a luta travada por grande parte do povo colombiano, especialmente aqueles que estão nas áreas rurais, contra a grande extração de minerais e hidrocarbonetos na Colômbia. Este extrativismo não apenas tem uma consequência grave no aumento da crise ecológica, como também apenas beneficia as grandes transnacionais, aumentando consideravelmente os níveis de lucro dos capitais estrangeiros. Além disso, ele é feito em detrimento da soberania alimentar colombiana, em detrimento de um modelo produtivo que priorize o camponês e sua maneira de enxergar sua vocação com a terra.
A Colômbia, desde o governo de Álvaro Uribe, se inseriu no marco daquilo que chamamos de  “geopolítica energética”. A participação do investimento estrangeiro no extrativismo mineral na Colômbia passou, entre os anos 2000 e 2009, de 21% à 82% e hoje o investimento desses capitais estrangeiros nesse campo chega praticamente a 85%. Isso representa mais ou menos 75% do território nacional. Tanto Uribe quando o atual presidente Juan Manuel Santos transformaram o setor extrativista no principal setor da economia, deixando o país à mercê da extração de petróleo e carvão. 
Esse extrativismo devora populações, ecossistemas, e cria uma situação de muita desesperança para os colombianos: fica muito pouco aqui, o dano ambiental é enorme e a relação do camponês com a terra obviamente é outra.
A segunda questão que quero frisar tem a ver com a necessidade que temos no país de redefinir o modelo produtivo. Precisamos escolher um que priorize a função social da propriedade, que democratize o acesso à terra e incentive a produção nacional, para termos um desenvolvimento de mais qualidade. Atualmente, temos 3 milhões de hectares ociosos destinados apenas ao gado extensivo. Temos também uma falta de incentivo à indústria nacional. Alguns candidatos querem questionar esse modelo e construir uma Colômbia mais humana, justa e menos desigual, porém outros, como Iván Duque [do Centro Democrático, partido de Uribe], apenas querem aprofundar essa modelo nos marcos daquilo que o capitalismo e a ortodoxia neoliberal propõe.
Dos cinco candidatos, Iván Duque e Gustavo Petro são os favoritos para levar a disputa para o segundo turno. Gostaria que você traçasse um breve perfil de ambos.
Em relação ao Duque, gostaria de reforçar duas questões que me parecem muito graves. A primeira delas é que Duque vem mantendo um relacionamento muito direto com os EUA, em particular com [Donald] Trump, que se visa consolidar a Colômbia como um agente de ações muito agressivas contra seus vizinhos e contra povos que lutam pela sua liberação ou por que tem uma visão diferente daquilo que poderíamos chamar da estrutura hegemônica de poder no mundo, ou seja, percebo que Duque está muito mais comprometido com os interesses alheios a soberania colombiana do que àqueles que podem beneficiar o país ou que nos ajudariam a manter uma postura independente no campo internacional.
O advogado Iván Duque, candidato do Centro Democrático  / Casa de América 
Isso, por exemplo, tem a ver com a manifestação de Duque de que uma das suas ações será criar uma embaixada colombiana em Jerusalém, reconhecendo a cidade como capital de Israel. Isso obviamente é uma questão extremamente difícil, tendo em vista a necessidade que temos de respeitar acordos internacionais e a soberania e a luta palestina. Internamente, Duque reforça a ideia de que é preciso destruir os Acordos de Paz, o que seria um grande retrocesso para o país e para a segurança regional. Para a Colômbia, isso significaria retornar à guerra, o que nos condenaria a anos de persistência dessa absurda desigualdade. Nos condena a que não se consolide uma democracia fundamentada na participação e na abertura de canais de participação para segmentos que historicamente não tem tido a possibilidade de interferir nos destinos nacionais.
Por outro lado, temos a candidatura de Gustavo Petro. Eu tenho dito que Petro consegue canalizar aspirações de vários segmentos da população colombiana que têm sido abandonados, deixados de lado por parte da política tradicional encabeçada nos últimos governos por Uribe e Santos. Ele pode canalizar a luta de setores como o agrário, também a dos afrodescendentes e dos indígenas pelo respeito à sua territorialização, à luta contra o extrativismo ao qual me referia na primeira pergunta e a luta de muitos setores da intelectualidade, das camadas médias da população que enxergam nos Acordos de Paz um instrumento, uma carta de navegação, importante para o presente e para o futuro da Colômbia. 
O ex-guerrilheiro do M-19 Gustavo Petro, do movimento Colômbia Humana / Divulgação
Petro tem sido muito pedagógico na defesa de seu programa de governo e tem se convertido em um autêntico fenômeno político, então por isso digo que as pesquisas apontam a Petro como o segundo colocado, mas o que eu tenho observado e o que me é que Petro é um autêntico fenômeno político que se constitui como uma alternativa real de poder. Ele é o candidato que mais pessoas leva às praças públicas. O encerramento de campanha de Petro nas três maiores cidades — Bogotá, Medellín e Barranquilla — tem sido realmente algo apoteótico. Estamos diante de alguém que soube canalizar aspirações muito justas de diferentes setores do povo colombiano.
Um dos elementos centrais nesta campanha é o futuro dos Acordos de Paz com as guerrilhas. A depender do resultado, quais são os cenários que se apontam tanto para o cumprimento do acordo com as Farc quanto para a continuidade dos diálogos com o ELN [Exército de Liberação Nacional]?
Bom, Petro tem sido bastante claro na defesa dos Acordos. Outros candidatos, por exemplo, Humberto de La Calle, candidato do Partido Liberal, participou nas rodadas de Havana como chefe das negociações pelo estado colombiano, foi nomeado pelo presidente Santos para isso, é um candidato que também aposta na necessidade de prosseguir com o cumprimento ou começar a fazer prosseguir de maneira otimista, começar pelo menos a dar vida ao Acordo de Paz. Outros candidatos não têm a mesma postura. Ou porque não acreditam nesses acordos, ou porque acreditam que eles não tem uma possibilidade real de se concretizar ou porque simplesmente, como no caso de Duque, são contrários a tudo aquilo que ali se encontra porque seu interesse de classe aponta que sejam contrários a isso. 
Há uma relação muito estreita entre o processo eleitoral e a continuidade do cumprimento dos acordos e dos diálogo com o ELN. Evidentemente se ganha um candidato como Duque, a possibilidade que nós temos de implementar os Acordos e de  que o diálogo com o ELN continue é zero, é nula.
Fazer a paz na Colômbia implica verificar cada um dos pontos do Acordo e é preciso muita vontade política para torná-los efetivos, para concretizá-los — e concretizá-los implica em confrontar interesses que historicamente se encontram incrustados nos labirintos do poder. É uma questão que é preciso resolver e, para isso, a única maneira é com o povo na rua, com a luta dos colombianos, com mobilização popular permanente e transformadora, que permita que estes pontos do Acordo realmente se tornem reais. E Petro está apostando em toda essa canalização de lutas que ele representa do ponto de vista eleitoral para que, então, possa haver uma mobilização que nos permita gerar uma nova condição para os colombianos. 
A história política da Colômbia sempre foi marcada pela violência, inclusive com assassinatos de candidatos progressistas em campanhas presidenciais. Como esse histórico vai impactar na eleição deste domingo?
Eu posso te dizer que desde que eu era criança e depois, quando comecei a participar de processos eleitorais, o sobrenome dos candidatos tradicionais na Colômbia é praticamente o mesmo. O atual presidente, Juan Manuel Santos, é neto de Eduardo Santos Montejo, que foi presidente em 1938. O candidato Germán Vargas Lleras, do Partido Cambio Radical, é sobrinho de Alberto Lleras Camargo e neto de Carlos Lleras Restrepo, que foram também presidentes da Colômbia.
É uma democracia muito frágil e estrita, que nega a participação de setores que não fazem parte desta oligarquia tradicional. Iván Duque, por exemplo, já não representa a oligarquia tradicional. Ele representa uma camada de oligarcas emergentes resultado, especialmente, da expansão da violência paramilitar e do narcotráfico. Não que aquela primeira tendência oligárquica que mencionei não tenha usado a força e a violência. Mas [o ex-presidente Álvaro] Uribe e Duque são de um setor muito ligado a essas máfias do narcotráfico e muito conectados a uma violência paramilitar fortemente filiada a esse narcotráfico. E isso já foi inclusive denunciado internacionalmente e foi alvo de investigação do Ministério Público colombiano.
É bem verdade que essa democracia tão frágil tem ocasionado que a violência seja um elemento recorrente por parte dessa classe dominante colombiana para sufocar qualquer pretensão de renovar a vida política. Então, candidatos de esquerda, progressistas e democratas têm sido assassinados — Carlos Pizarro Leongómez, na época da aliança democrática M-19, e os inesquecíveis Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo, da União Patriótica, que também constituíam esperanças de renovação desta política.
E não foram somente esses candidatos presidenciais assassinados, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu um autêntico genocídio político contra  a organização União Patriótica, que era uma organização que conseguiu ter um número significativo de prefeitos, senadores e deputados. Infelizmente foram assassinados, por conta dessa violência paramilitar e civil que não permite, na Colômbia, a consolidação da democracia.
Neste momento, nossa grande preocupação, além dessa violência, é a possibilidade de fraude eleitoral. O próprio Conselho de Estado Colombiano falou que, na eleição de 2014, hackers ingressaram no sistema eleitoral e alteraram os resultados de 50 mil mesas de votação. Então, as eleições de 2014 obviamente foram uma grande fraude e um desrespeito à soberania popular. E isso continua sendo uma ameaça também nestas eleições de domingo.
Credibilidade das eleições fica comprometida com possibilidade de fraudes, diz Alarcón / Globovisión
Há muitas possibilidades de fraude, começando pelo fato de que não fica nenhum registro de quem votou e quem não votou. Uma pessoa pode votar duas vezes tranquilamente. E estas questões já vêm sendo denunciadas nacional e internacionalmente. O algoritmo do sistema de votação foi alterado recentemente e a comissão da União Europeia diz que não tem mais tempo para verificar os softwares, que aliás nem é tarefa dela, que faz avaliação política e não técnica. Essas questões realmente comprometem a credibilidade do processo e eu não estranharia que houvesse alguma denúncia com relação a fraude neste domingo.
Você mencionou Gustavo Petro como uma alternativa real. Quais são os limites e avanços que um eventual governo de Petro poderia representar para a Colômbia?
Petro constitui um fenômeno político extremamente importante. Não somente para a Colômbia, mas para a América Latina. Eu acho que ele resume, primeiro, a necessidade de uma política externa pró-ativa, dirigida a um relacionamento respeitoso com os vizinhos, que respeite a autodeterminação e não interfere na política interna dos países vizinhos. Também pode representar uma quebra com o modelo extrativista e apontar para novos caminhos para a Colômbia.
Gustavo Petro é um "fenômeno político"e representaria avanço para a América Latina, diz professor / Edgar Zuniga
Acho que Petro tem toda a possibilidade de, como o slogan de campanha diz, tornar a Colômbia muito mais humana e inclusiva — que parte do reconhecimento das necessidades e das aspirações de segmentos como LGBTI, afrodescendentes, comunidades indígenas, a ideia da igualdade de gênero e a ideia de respeito pela condição de igualdade da mulher é fundamental.
Essa possibilidade de Petro avançar na questão externa, na economia e de uma sociedade muito mais democrática e tolerante me parece extremamente importante.
Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

IRRESPONSABILIDADE Gestão Covas ignora contaminação de creche por metais pesados e mantém aulas


IRRESPONSABILIDADE

Gestão Covas ignora contaminação de creche por metais pesados e mantém aulas

Passada uma semana da denúncia da RBA, crianças continuam frequentando o local, pais não foram informados e prefeitura não respondeu ao Ministério Público
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 25/05/2018 11h06
RBA
cei
Creche segue tendo aulas normalmente, apesar de o MP ter reiterado o pedido para que a prefeitura transfira as crianças
São Paulo – Uma semana depois de a RBA revelar que o Centro de Educação Infantil (CEI) Ponte Pequena, que atende 151 bebês e crianças até três anos no Bom Retiro, região central da capital paulista, está com o solo contaminado por “altas concentrações de mercúrio e chumbo”, a gestão do prefeito da capital paulista, Bruno Covas, não tomou nenhuma atitude. Os pais não foram comunicados, as aulas seguem normalmente e a prefeitura não respondeu aos ofícios do Ministério Público (MP) exigindo providências. Segundo relatório da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) entregue ao MP “as concentrações de mercúrio no solo indicam riscos potenciais à saúde” de crianças e funcionários.
“Na área da creche, os resultados das análises químicas de solo apresentados no segundo relatório indicaram altas concentrações de mercúrio e chumbo. As concentrações de mercúrio no solo indicam riscos potenciais à saúde para a via de exposição de inalação de vapores em ambientes abertos e fechados, havendo necessidade de adoção de medidas de intervenção adicionais às já adotadas, além de implantação de poços de monitoramento de gases em toda a área da creche, em ambientes abertos e fechados e determinação da concentração de VOCs (compostos orgânicos voláteis, na sigla em inglês) e mercúrio no ar ambiente”, diz o documento.
A reportagem da RBA esteve ontem na saída das aulas da unidade e conversou com pais de alunos. Todos disseram não saber da contaminação. Ao perceber a reportagem, funcionários da escola fecharam o portão e passaram a autorizar a entrada de familiares individualmente. “Não estou sabendo de nada. Teve uma reunião recentemente, mas não tocaram nesse assunto. Acho que nem as professoras sabem”, disse a atendente Ivanize Ribeiro de Oliveira, mãe de Gabriel, de 3 anos, que está há dois anos no CEI Ponte Pequena. “É muito complicado isso. Uma coisa perigosa assim e ninguém fala nada, não toma uma atitude?”, questionou Ivanize.
“A gente fica em uma situação difícil, porque não se sente segura, mas não tem opção. A prefeitura tinha que fazer alguma coisa, mudar as crianças de escola. Eu não tenho pra onde levar minha filha”, explicou a operadora de caixa Claudete Barreiros. Ela disse que as crianças reclamam do cheiro vindo da estação de transbordo da concessionária de limpeza urbana Loga, que fica ao lado da unidade. “A gente não tem noção se as crianças sentem alguma coisa por causa disso. Aqui não é lugar de ter creche. Os professores são muito bons, mas o lugar não”, afirmou.
A prefeitura de São Paulo foi notificada em novembro, quando o prefeito ainda era o atual pré-candidato ao governo estadual João Doria (PSDB). No ofício, o MP determinava que a gestão atuasse para eliminar os riscos à saúde ou transfira a unidade de lugar. Apesar disso, as aulas seguiram normalmente na unidade. O Grupo de Atuação Especial de Educação (Geduc) do MP oficiou o secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, em 7 de dezembro. A gestão municipal respondeu apenas em 11 de janeiro, e rejeitou o pedido do MP, alegando que não há depósitos de lixo no entorno da unidade escolar.
Em 23 de março, o Geduc encaminhou ofício diretamente ao ex-prefeito, reafirmando o pedido encaminhado a Schneider. Doria deixou a prefeitura em 6 de abril, sem responder ao MP. A promotoria reiterou o ofício ao atual prefeito Bruno Covas (PSDB) e aguarda resposta. O CEI é administrado pela Associação Grupo Missão Divina. Até o momento, os pais dos alunos não foram informados dos riscos que o terreno da escola apresenta. Toda a área externa foi pavimentada, por ação da Loga, mas isso não impediu que o vapor de mercúrio continue contaminando o ar.
RBAlaudo
Trecho do laudo da Cetesb, com destaque à contaminação da CEI
O Ministério Público informou que ainda aguarda resposta da prefeitura. “Foi reiterado ofício citado solicitando à prefeitura, comprovação, mediante laudo técnico, da solução dos problemas indicados pela Cetesb, ou providencie a transferência imediata das crianças para outro equipamento de educação infantil. Também foi reiterado ofício a Cetesb para que esta informe acerca da conclusão do plano de intervenção para a área do CEI Ponte Pequena e seu entorno, e comprove a solução dos problemas de contaminação do solo e do ar. Ainda, foi encaminhado ofício à Secretaria Municipal de Educação pedindo informações quanto a quando será concluído o processo de transferência de todas as crianças”, diz a nota.
O CEI Ponte Pequena fica ao lado de uma estação de transbordo da concessionária de limpeza urbana Loga. Os documentos da Cetesb e do MP indicam que o trabalho atual de transbordo desenvolvido no local não apresenta risco à população. O problema é remanescente de um sistema de incineração que havia no local antes de a empresa ser contratada. Toda a área de atuação da empresa e o terreno da escola estão contaminados, conforme relatou a Cetesb em documento encaminhado ao MP em 14 de setembro de 2017.
O Inquérito Criminal 20/12 foi instaurado em 2012, a partir da denúncia da existência de lixão ao lado da unidade. Desde 2014 estão sendo feitos estudos, análises e monitoramentos da área da unidade escolar e da central de transbordo. Problemas burocráticos de acesso à unidade e de autorização para realização das análises atrasaram por meses as conclusões do inquérito.
A contaminação por mercúrio pode decorrer do contato direto com o metal, da ingestão de alimentos ou da inalação de vapores. Entre os sintomas de intoxicação, estão fraqueza muscular, falta de coordenação, dormência nas mãos e pés, erupções da pele, ansiedade, problemas de memória, problemas na fala, problemas de audição e dificuldade para enxergar.
No caso do chumbo, a contaminação em adultos pode causar mudança de personalidade, dores de cabeça, sabor metálico na boca, perda de apetite e incômodos abdominais. Em crianças, pode ocorrer irritabilidade e perda de interesse por brincadeiras. Em casos graves pode haver vômitos, confusão mental e sonolência.
A Secretaria Municipal da Educação informou no dia 15 de maio que estava “organizando a mudança das crianças para outros locais, de forma que os alunos e as famílias tenham a sua rotina alterada o mínimo possível”. Procurada nesta semana para apresentar prazos e o plano de transferência das crianças, a pasta não respondeu.

Pedro Parente é representante dos EUA no Brasil, diz embaixador


NO TUTAMÉIA

Pedro Parente é representante dos EUA no Brasil, diz embaixador

Samuel Pinheiro Guimarães diz ainda que Henrique Meirelles é o candidato de Wall Street nas eleições. Para ele, o próximo alvo dos interesses do Estados Unidos, depois de destruir a Petrobras, são os bancos
por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, do Tutaméia publicado 25/05/2018 19h35
WILSON DIAS/ABR
Samuel Pinheiro Guimarães
Samuel Pinheiro: 'Golpe em curso efetuou um ataque às grandes empresas brasileiras e nenhum ataque a empresa estrangeira'
O Brasil é um país ocupado, cujo governo faz tudo que o estrangeiro quer. É um governo estrangeiro no Brasil. O capital externo está forte em todos os setores, exceto no dos bancos. Agora, o último ataque –que já está em curso– é contra os bancos, que são, na maioria, brasileiros. A análise é do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto em entrevista ao Tutaméia.
Na visão dele, Henrique Meirelles é o candidato de Wall Street nas eleições. Já Pedro Parente, presidente da Petrobras, é o representante dos interesses do Estado norte-americano no Brasil –daí seu empenho em destruir a Petrobras.
Ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo Lula e Alto-Representante Geral do Mercosul (2011-2012), Pinheiro Guimarães é autor de livros essenciais para a compreensão do Brasil no contexto mundial, como Quinhentos Anos de Periferia (UFRGS/Contraponto, 1999) e Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes (Contraponto, 2006) –com este último, ganhou o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores.

Espionagem e destruição de concorrente

Para o embaixador, o golpe em curso no Brasil efetuou um “ataque às grandes empresas brasileiras e nenhum ataque a empresa estrangeira. Pegaram as grandes construtoras, porque na área industrial é tudo estrangeiro” –com exceção de empresas menores nos setores têxtil, de calçados. Diz Pinheiro Guimarães:
“Pegaram alguns setores que tinham uma certa prevalência de capital nacional, que eram empresas de engenharia. Foram em cima delas. Os processos contra as empresas são todos irregulares, as delações, advogados [de defesa] que não têm acesso, juiz que divulga seletivamente. A delação premiada é uma forma de tortura. Instrumentado de fora, o “lawfare”. Montaram [esse roteiro] não só contra o Brasil. Prenderam o presidente da Samsung na Coreia, na França”.
De acordo com o embaixador, “é uma estratégia americana de luta contra a corrupção dos outros, não a deles” que visa “destruir os concorrentes usando esses acordos de cooperação judiciária”. Assim usam todo o sistema de espionagem. “Espionaram a Petrobras, espionam tudo, inclusive essa gravação agora”. O objetivo é “ a destruição das empresas, dos instrumentos de capitalismo nacional”.
Ele afirma que esse processo de “destruição do que sobrou do capital nacional” atingiu não só as empreiteiras –que estão prejudicadas em uma futura reforma da infraestrutura brasileira, abrindo espaço para as estrangeiras–, mas outros setores. “Esse negócio da JBS é uma parte também disso, destruir a JBS que concorre no mundo”.
Febraban não é Fiesp
As mudanças vão sendo feitas com o discurso de que a empresa privada é capaz de resolver todos os problemas da sociedade e o que atrapalha é o Estado, aponta o embaixador. Por isso, a alardeada necessidade de privatização. Mais do que isso, os defensores dessas ideias acham que “a empresa privada estrangeira é melhor do que a brasileira”.
“Daí a ideia de que se pode permitir o capital estrangeiro na educação, na saúde. Vai entrar no setor de advocacia, onde já entrou disfarçadamente. Entrou em tudo, exceto os bancos. O último ataque é contra os bancos, que são na maioria brasileiros. O ataque já está em curso. Estão dizendo que o problema da economia brasileira são os juros altos. Por quê? Porque não há competição. Como aumenta a competição? Com os bancos estrangeiros, não vai ser com banco brasileiro. Não tem nenhum grupo capaz de criar um banco brasileiro”.
Para o embaixador, “os bancos já perceberam isso. A Febraban já deve ter percebido que agora é com eles. Tem havido artigos frequentes contra os bancos, juros altos, spreads altos. (Dizem): o BC reduz os juros mas os juros não caem para o consumidor porque falta competição. E a competição vai vir de fora, só pode ser. Mas aí terão embate muito difícil. Ali não é a Fiesp; é a Febraban. É o último grande setor que não está (predominantemente em mãos estrangeiras)”.
Forças de ocupação
Pinheiro Guimarães trata do contexto da política mundial que explica o golpe no Brasil. E discorre sobre a destruição promovida pelo governo golpista em vários aspectos –na desorganização no mercado de trabalho, na privatização desenfreada, na redução dos bancos públicos, no enxugamento do Estado. E resume:
“Vamos supor que o Brasil tivesse sido invadido por uma potência estrangeira. O que as forças de ocupação fariam? Iriam reduzir o Estado, destruir as empresas daquele país que está ocupado. Com fizeram na Alemanha, no Japão. Iriam dar todo o favorecimento aos vencedores. É o caso que estamos vivendo. Estamos vivendo um governo estrangeiro no Brasil. O que é um governo estrangeiro no Brasil? É o que favorece o estrangeiro”.

Candidato de Wall Street e representante dos EUA

Pinheiro Guimarães afirma que o governo Temer “é um fracasso extraordinário” e comenta os cenários para a eleição. Defende a candidatura Lula e avalia alguns dos candidatos. Para ele, Wall Street tem candidato: “Chega de intermediários, Meirelles para presidente”. Segundo ele, Henrique Meirelles “representa os interesses do mercado internacional”.
Já o “representante dos interesses do Estado norte-americano é (Pedro) Parente”. E declara; “No Brasil, o que interessa muito aos EUA é destruir a Petrobras. Vai vendendo, parcelando. Para os EUA, é essencial o abastecimento de energia”. Ele lembra que os Estados Unidos se abastecem um pouco na Venezuela e no Oriente Médio, que é uma zona de conflito. Daí a vantagem de se Brasil, que está próximo, não está numa zona de conflito e que está dando todo acesso às companhias estrangeiras”.
Na análise do embaixador, “o que os EUA querem é que o Brasil fique na sua posição de país subdesenvolvido, exportador de produto primário, soja, minérios, nióbio, algum processamento, como suínos e frangos, mas não produto manufaturado”.
Pinheiro Guimarães debate na entrevista democracia, desenvolvimento, justiça social e soberania –pontos essenciais para o país. Para avançar rumo a esses objetivos, o primeiro passo é a luta pela libertação do presidente Lula.
Assista

https://youtu.be/h6fba_Pw_BQ?t=77

FUTEBOL Pênalti! Pênalti? O sofrimento do ponto de vista de quem vai cobrar


FUTEBOL

Pênalti! Pênalti? O sofrimento do ponto de vista de quem vai cobrar

Estudo feito na USP analisa ansiedade dos jogadores encarregados da cobrança da chamada penalidade máxima do futebol. Até Pelé errou
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 26/05/2018 11h39, última modificação 26/05/2018 11h40
FIFA
Roberto Baggio perde pênalti
O italiano Roberto Baggio jogou por cima do gol de Taffarel o pênalti que poderia adiar o penta, em 1994
São Paulo – Se na música Divina Comédia Humana, Belchior – corintiano, mas não fanático por futebol, lembra o jornalista e biógrafo Jotabê Medeiros – contou estar "mais angustiado que um goleiro na hora do gol", ainda falta a descrição de um jogador no instante que antecede a cobrança de um pênalti. Mesmo o cineasta alemão Wim Wenders dirigiu em 1972 um filme, diga-se assim, do ponto de vista do defensor: O Medo do Goleiro diante do Pênalti, inspirado em romance do escritor austríaco Peter Handke. 
"O pênalti pertence ao futebol, mas não é o futebol", escreveu recentemente o cineasta Ugo Giorgetti, diretor do filme Boleiros, que está completando 20 anos, em sua coluna semanal no jornal O Estado de S. Paulo. "É outra coisa, é uma suspensão do jogo, um outro jogo, com outras regras e forma." Ele mesmo, no filme citado, incluiu uma cena que se tornou famosa, de um árbitro que "inventa" um pênalti para beneficiar uma equipe ameaçada pelo rebaixamento. E manda repetir a cobrança duas vezes, até que o time consegue marcar e se safar.
O pênalti, ou a ansiedade que a chamada penalidade máxima provoca, foi tema de uma tese de doutorado aprovada em 2017 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP). A redução do estado de ansiedade dos cobradores de pênalti no futebol é o nome da tese defendida pelo professor e psicólogo Daniel Donadio de Mello, que atende diversos atletas em consultório e observa que a ansiedade está sempre presente na vida dos jogadores.

Ninguém escapa

"O pênalti é uma situação bastante isolada, de grande responsabilidade do cobrador, em que muitos vezes vejo os atletas sofrerem e lutarem contra esta ansiedade", diz Daniel, que pensou em um método combinando técnicas da psicologia, "alinhadas propositadamente" para ajudá-lo naquele momento crucial em que a bola está na marca, a 11 metros do gol.
Perder pênalti não é "privilégio" de perna de pau. Por melhor que seja, jogador algum está livre de errar. Atletas consagrados como Zico e Sócrates, por exemplo, perderam cobranças decisivas contra a França na Copa de 1986, o primeiro no tempo normal e depois na disputa por pênaltis. Os franceses se classificaram, mas o principal jogador do time, Platini, que havia marcado no jogo, perdeu sua cobrança.
A lista é longa. Maradona perdeu nas quartas de final de 1990, contra a antiga Iugoslávia, mas a Argentina se classificou. O italiano Roberto Baggio chutou para fora na decisão de Copa de 1994, garantindo o título para o Brasil. Foi a primeira decisão por pênaltis na história das Copas. A segunda, em 2006, envolveu novamente a Itália, que desta vez triunfou sobre a França.
Na Copa América de 2012, a seleção brasileira perdeu nada menos que quatro pênaltis e foi eliminada. A relação de penalidades perdidas inclui ainda celebridades como Messi, Beckham, Raí, Marcelinho Carioca, Edmundo, Pato – e até estrelas atuais, como Gabriel Jesus e Neymar. Causando frustração ou, muitas vezes, fúria do torcedor.
Daniel conta que os resultados de sua pesquisa foram animadores. "Mesmo em um período tão curto de treinamento já conseguimos observar mudanças significativas na ansiedade do cobrador", conta. "Tive um feedback bem positivo dos atletas. Qualquer atleta que já tenha cobrado um pênalti sabe o quanto a ansiedade pode atrapalhar, então eles levaram o treinamento bastante a sério, fazendo todas as recomendações."
Para o estudo – em que se aplica a técnica chamada biofeedback – antes de uma sequência de cobranças de pênalti, os atletas usavam jogos de computador especialmente adaptados, ligados a aparelhos que captavam sinais como respiração e batimento cardíacos. O objetivo era dar retorno aos jogadores na medida em que conseguissem reduzir a ansiedade. O jogo podia ficar mais fácil ou mais difícil, conforme a reação de cada um. Os testes foram feitos com 34 amadores, ainda jovens (15, 16 anos) mas o psicólogo e pesquisador acredita que as técnicas também podem e devem ser aplicadas em competições profissionais.
FIFAZico
Um dos maiores especialistas do Brasil, Zico marcou durante as cobranças após o empate com a França, em 1986. Mas perdeu no decorrer do jogo o gol que poderia ter evitado o empate

Pressão

"A pressão externa, seja ela do público composto pelos amigos e pais desses atletas, como a de um estádio lotado, pode causar uma ansiedade que muitas vezes interfere no resultado das cobranças", afirma Daniel. O treinamento mental, de forma geral, deve sempre ser incorporado como parte do trabalho no dia a dia dos atletas, como parte básica da pirâmide de treinamentos composta por aspectos tático-técnicos, físicos e emocionais."
Mas ele observa que reduzir a ansiedade não garante uma cobrança de pênalti mais eficiente. "Para obter o resultado esperado – o gol –, há muitas variáveis que influenciam", diz Daniel. "A técnica do atleta, a estratégia da cobrança, horas de treino, estado físico, experiência, ansiedade, além de todas as qualidades do goleiro. Por isso mesmo que é importante que o atleta consiga estar no melhor fisicamente, taticamente, tecnicamente e emocionalmente neste momento, e o treino de redução de ansiedade melhora um desses aspectos, não deixando o estado emocional a sorte, destino, pressão externa ou humor momentâneo do atleta."
Ao contrário do mito que se espalhou, até Pelé perdeu. Mais de um. Chutando para fora, na trave, ou para defesa do goleiro. Como em 1969, em um jogo entre Santos e Portuguesa Santista, cujo goleiro era o célebre Cabeção, que fez história no Corinthians (leia mais abaixo).
O milésimo gol de Pelé, por sinal, também saiu de um pênalti, em 19 de novembro de 1969, contra o Vasco, no Maracanã. O goleiro argentino Andrade quase pegou. Chegou a tocar na bola, mas não conseguiu evitar o gol e, furioso, socou várias vezes o chão.
Qualquer jogador pode sentir a responsabilidade. Nas decisões por pênaltis das Copas, o aproveitamento é de 71%. Ou seja, quase 30% das cobranças foram desperdiçadas. No último campeonato brasileiro, 30,5% foram perdidas.
Daniel sempre gostou de futebol. Torce desde pequeno – prefere não revelar para qual time. Teve um avô treinador de jogadores (Firmo de Mello), "que depois viraram grandes treinadores também". E inclusive jogou, como amador. "Era um goleiro razoável", lembra, rindo. E até cobrou pênaltis. "Mas principalmente estive do outro lado, como goleiro."

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Pelé era o batedor oficial do Santos. Na falta dele, Pepe mandava o canhão

'Não quero fazer feio'

Durante a pesquisa com os jovens atletas de base, uma percepção foi de que o medo de "fazer feio", errando o pênalti, era maior que um possível reconhecimento por uma cobrança bem feita. "Com todos os grupos de atletas, após o pesquisador mencionar que as cobranças seriam filmadas e os cinco melhores cobradores poderiam ser mostrados na USP, poucos atletas se manifestaram de maneira verbal ou não verbal, a não ser com mudanças na sua expressão facial. Porém, quando em seguida foi mencionado que os cinco piores também poderiam ser mostrados, houve risos de maneira generalizada", relata Daniel Mello no texto da tese.
"O público a que eles poderiam ter seus vídeos apresentados seria o mesmo, porém a reação de ter algo ruim sendo mostrado sobre ele superou a expectativa de ter algo bom sendo mostrado", observa o pesquisador. Em uma das fases da experiência, um grupo passou a treinar fora do horário habitual. Um disse que "não queria fazer feio", enquanto outro respondeu: "Como errei na primeira vez, vou treinar um pouco mais para ter certeza que acerto na segunda". 
Já alguns que marcaram na primeira mostraram-se mais displicentes depois. Um deles chegou a dizer: "Não vou aparecer lá na USP como um dos piores com certeza, porque cobrei bem o primeiro pênalti, e já teve muita gente que cobrou mal". 
"Vale também ressaltar que apesar de vários atletas mencionarem o fato de não quererem aparecer no vídeo errando um pênalti, nenhum deles citou o desejo de aparecer como um dos melhores cobradores de pênalti do grupo, mesmo que os cinco melhores, assim como os cinco piores, também apareceriam nos vídeos", observa Daniel. E marcar na primeira não torna mais fácil a tarefa seguinte, como ele constatou ao ser abordado pela mãe de um dos jogadores, já na saída do treino: "Meu filho é o X. Ele marcou o gol, mas ele está nervoso com o outro pênalti. Está com medo de ir mal e passar vergonha".

GAZETAPRESS (1965) E SITE MEU TIMÃO (DETALHE)Goleiro Cabeção
Cabeção, perto de completar 88 anos, recebeu placa do Corinthians em sua homenagem

Pepe era o 'canhão'. E Cabeção parou Pelé

Era 16 de novembro de 1963. No Maracanã, diante de 120 mil torcedores, Santos e Milan, da Itália, faziam o tira-teima e decidiam o título mundial de clubes, depois de uma vitória para cada lado, ambas por 4 a 2. O árbitro argentino Juan Brozzi marca pênalti para o time brasileiro, que já era campeão mundial e queria o bicampeonato. Sem Pelé em campo, o cobrador deveria ser Pepe. Mas o lateral Dalmo disse ao técnico Lula: "Deixa comigo!". Foi lá e marcou o único gol da partida, que deu o bicampeonato aos santistas.
José Macia, o Pepe, diz que ficou feliz com a decisão de Dalmo (que morreu em 2015). Seria o pênalti de maior responsabilidade de sua carreira. Antes de Pelé, ele era o cobrador oficial do time. Até que o camisa 10 começou a treinar as famosas "paradinhas", aprendendo com... Dalmo.  
Pepe tornou-se conhecido pela potência de seus chutes. "Eu tinha uma maneira de chutar. Batia forte, sempre do lado esquerdo do goleiro. Largava brava no canto esquerdo. No canto direito eu não tinha muita confiança", recorda o ex-jogador e ex-técnico, hoje com 83 anos, completados em fevereiro.
"A responsabilidade (de cobrar) é muito grande", diz Pepe. "E jogo do Santos quase sempre tinha pênalti. No Pelé, em mim, no Coutinho..." Ele conta que perdeu algumas cobranças. "Com o tempo, fiquei observado. O goleiro já pulava (no mesmo canto)." Mesmo assim, não era fácil para o defensor alcançar a bola, chutada por aquele que ficou conhecido como "canhão da Vila", que disputou 750 jogos pelo Santos e marcou 405 gols, ficando atrás apenas de Pelé na artilharia da equipe praiana, que defendeu durante 15 anos.
Foi exatamente na Vila Belmiro, campo do Santos que Luiz Morais, o Cabeção, defendeu um pênalti cobrado por Pelé, em jogo entre Santos e Portuguesa Santista, em 1969, seu último ano como profissional. "Ele cobrou dois. Um eu defendi, outro ele marcou", recorda Cabeção, perto dos 88 anos. Ele foi o quarto goleiro que mais vestiu a camisa do Corinthians: 326 partidas. Foi ultrapassado pelo atual titular, Cássio, em fevereiro.
Modesto, Cabeção diz que defender um pênalti é questão de sorte. "Você marca um canto. Se ele (cobrador) chutar naquele canto, tudo bem", diz o goleiro, que conta ter defendido "umas três ou quatro" cobranças.
Ele vê maior dificuldade para os cobradores no futebol atual. "Hoje, os goleiros são muito altos, têm 2 metros. Dificulta um pouco para os atacantes."

Mino Carta: Ciro tem de denunciar assassinato político de Lula

Mino Carta: Ciro tem de denunciar assassinato político de Lula

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Imperdível e lúcido como sempre, o editorial de Mino Carta na edição de hoje da CartaCapital.
Sou amigo velho de Ciro Gomes e do irmão, o ex-governador Cid. Estiveram ambos à mesa do lançamento do meu penúltimo livro, O Brasil, em 2013. Ciro cuidou de me apresentar ao público de Fortaleza, de forma afetuosa, ao se superar em generosidade. Considero sua candidatura à Presidência da República além de legítima, baseada em uma atuação política coerente na ideologia e irrepreensível moralmente. 
Inúmeras vezes CartaCapital apoiou-o em s eus lances políticos e o teve por longo tempo entre seus mais preciosos colunistas. Não posso aprovar, entretanto, seu comportamento em relação ao ex-presidente Lula. Meu excelente companheiro André Barroca!, ao analisar a pré-candidatura de Ciro Gomes, observa que a inspiração em boa parte vem do desempenho de Leonel Brizola, candidato em 1989. O líder do PDT, de quem a reforma partidária do general Golbery surrupiara a sigla que por direito lhe pertencia, PTB, criticava o adversário Lula e seu PT, ao acusá-los de não representarem a autêntica esquerda. Foi Brizola quem apelidou Lula de “Sapo Barbudo”. Outros eram os tempos, contudo. Começava a chamada redemocratização.
À época, a despeito das acusações, a plataforma do PT era bem mais avermelhada do que se deu em seguida com o crescimento do partido. Brizola, no entanto, enxergava em Lula um quadro em formação, ainda atado às lições de negociação apreendidas na qualidade de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, e partia à conquista de um território que entendia exclusivamente seu. Mesmo assim, Lula foi para o segundo turno, derrotado ao cabo por uma história hedionda, destas que só no Brasil podem prosperar, a da filha Lurian, nascida de uma relação mantida quando viúvo. Inestimável a contribuição da Globo. O próprio Roberto Marinho manipulou o debate final entre o líder petista e o “Caçador de Marajás”, para alegria de Veja e dos editoriais dos jornalões. O Sapo Barbudo punha medo.
Hoje vivemos o estado de exceção precipitado por um golpe de Estado perpetrado, antes de mais nada, para alijar de vez Lula da disputa eleitoral, condenado a 12 anos e um mês de prisão sem a mais pálida sombra de provas. Se o ex-presidente cometeu erros políticos depois da reeleição de Dilma Rousseff, se demorou demais para reagir, nada disso cancela a sacrossanta verdade factual: o único líder brasileiro de dimensão nacional é a grande vítima de uma manobra tipicamente verde-amarela, impensável em um país civilizado e democrático. Resultado: sem Lula, a eleição, se houver, é fraude. E o próprio Brasil está enjaulado, embora, aparentemente, não se dê conta de sua deplorável situação.
Ciro Gomes sabe perfeitamente disso tudo, daí a minha certeza de que não é hora de bater no ex-presidente, o qual, aliás, sempre teve pelo seu ex-ministro notável apreço. Daí a mágoa funda que colhe Lula neste exato instante em relação a quem prezava. A recusa de Gleisi Hoffmann a qualquer conversa com o presidenciável do PDT nasce de um desabafo do líder aprisionado. Dirá Ciro que pretendeu ser sincero, ao se referir à inconveniência da candidatura de Lula, declarada há tempo, antes da condenação. Hoje soa, porém, como se um pedido de graça tivesse sido atendido pelos inquisidores de Curitiba e Porto Alegre com a bênção de uma corte que se diz alta, enquanto fica abaixo do nível do mar.
Nesta moldura cabem certas andanças do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, disposto a se reunir com Ciro e Bresser-Pereira no escritório do professor Delfim Netto, para definir “um programa de centro-esquerda”. Trata-se de um interessante desafio à minha manquitolante imaginação. Mas, confesso, gostaria muito de saber o que o preso de Curitiba pensa disso tudo. Quanto ao amigo Ciro, em nada diminuiria sua candidatura denunciar o assassínio político de Lula, imolado no altar da casa-grande. Pelo contrário, a reforçaria na defesa do Estado Democrático de Direito, demolido pelo golpe de 2016. •
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