quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Fãs de Bolsonaro invadem assembleia de professores: 'Viva Pinochet'

Fãs de Bolsonaro invadem assembleia de professores: 'Viva Pinochet'

A Polícia Militar foi chamada, e o grupo de apoiadores de Bolsonaro deixou o IFC

Fãs de Bolsonaro invadem assembleia de professores: 'Viva Pinochet'
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Um grupo de quatro apoiadores de Bolsonaro invadiu, nesta quarta-feira(31), uma assembleia do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe), que ocorria no Instituto Federal Catarinense (IFC), em Camboriú. O grupo causou tumulto e a PM chegou a ser chamada ao local.
Nas imagens abaixo é possível ver a candidata a deputada federal pelo PSL que não foi eleita, Dileta Corrêa Silva, e o empresário Emilio Dalçoquio, que começa a discutir com os professores e diz: 'Eu defendo Pinochet, porque ele matou quem tinha que matar (...) matamos os índios e a história é essa, a história é pra homem e profissional, não é pra amador'.
A Polícia Militar foi chamada, e o grupo de apoiadores de Bolsonaro deixou o IFC. O Sinasefe informou que, após o ocorrido, a reunião continuou normalmente.
Veja o vídeo abaixo!
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REPORTAGEM
O Exército matou minha mãe e sumiu
A comerciante Raimunda Cláudia Rocha Silva, de 47 anos, foi morta por uma bala que testemunhas dizem ter partido do Exército, durante a ocupação do complexo da Maré

31 de outubro de 2018
Natalia Viana
Não houve inquérito policial-militar e Exército sequer registrou o ocorrido
Agora as suas filhas acionam a União pedindo indenização na Justiça civil
Dona Raimunda Cláudia ouviu a barulheira e correu para a janela da sua casa. Teve tempo de chamar a Camila, que deveria estar atendendo na loja de roupas, do outro lado da rua.

– Camila, você está onde?

– Sai daí!

Só deu tempo disso. Camila, ao escutar o tiroteio, já estava agachada dentro do banheiro da loja Cláudia Modas, mas pela porta entreaberta viu o rosto da patroa que a chamava, no segundo andar da casa em frente. Viu quando ela caiu com o tiro. Acertou do lado direito, na têmpora. Eram cerca de 17 horas do dia 14 de abril de 2015. Ocorreu no número 147 da rua 2, Vila do João. Raimunda Cláudia morreu dentro de casa.

A notícia saiu em todos os jornais: moradora do Complexo da Maré morre em tiroteio em local onde tropas do Exército faziam patrulha.

Entre abril de 2014 e junho de 2015, as Forças Armadas ocuparam o Complexo da Maré, um conjunto de favelas onde moram cerca de 150 mil pessoas, em ação da política de “pacificação” do governo do Rio de Janeiro. A ideia era instalar uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na Maré – o que não se concretizou.

Testemunhas
No depoimento que prestou à Polícia Civil, a vendedora Camila Santos Sales relata que, após dona Raimunda Cláudia ter sido atingida, o tiroteio cessou. Tanto o Exército quando os traficantes foram embora. E declara que, pelo posicionamento entre os soldados do Exército e os traficantes, “o disparo partiu da direção do Exército”. “A declarante acredita nisso porque o Exército se encontrava passando pela rua principal da Vila do João, chamada de Rua 14, quando se depararam com traficantes de drogas na esquina da Rua 2, paralela com a rua principal”, registra o documento da Polícia Civil ao qual a Pública teve acesso.

“O tiro veio e matou minha mãe de imediato, que foi na têmpora que acertou”, lembra Fabíola Rocha Reis, de 27 anos, filha da Raimunda. Ela estava no trabalho quando recebeu uma ligação: sua mãe sofrera um acidente. “Não quiseram me dar a notícia de primeira, e quem estava em casa era minha irmã, que na época tinha 11 anos. Minha irmã viu minha mãe caída, com aquele sangue todo, e pediu socorro. Aí subiram e viram que a minha mãe já estava morta. Não teve nem como ter um primeiro socorro.”

Fabíola chegou na casa, lotada de vizinhos, para tomar as providências. Ouviu de todos a mesma coisa: o tiro deve ter vindo do Exército. Chamou a Polícia Civil, entregou a irmã menor ao pai, acompanhou a perícia no local, que só foi feita às dez da noite. Demorou a desabar. Jamais foi procurada pelo Exército. “Ninguém me procurou. E na época eu tinha 25 anos. Ninguém sabe se a gente tinha renda, se a gente tinha casa, se quem sustentava a casa era minha mãe. Ninguém procurou a gente pra saber de nada. Se a minha irmã precisava de um psicólogo. Se a minha irmã precisava de alguma ajuda de comida, de casa.”

Segundo notícias da época, a Polícia Civil estava investigando o caso e iria ouvir os militares. No mesmo dia, o comando da ocupação emitiu uma nota em que admitia que houve confronto nessa data, mas negava envolvimento na morte. O texto da assessoria da Força de Pacificação citado por diversos jornais afirmava que os militares estavam em patrulhamento, próximo à travessa 13, quando foram atacados por suspeitos com disparos de fuzil e pistola e revidaram. Depois do confronto, os soldados foram alertados por moradores de que Cláudia teria sido baleada. A vítima estaria “numa posição afastada e à retaguarda da tropa, quando foi atingida”. “A Força de Pacificação tem priorizado, em todas as situações, a segurança da população”, dizia a nota.



Acontece que, segundo a perícia da Polícia Civil, o tiro partiu justamente da rua 14, próximo à esquina com a rua 2 e paralela à travessa 13. A bala percorreu 96 metros e subiu mais de 7 até chegar à janela da dona Raimunda. O que a atingiu era já um estilhaço.

“A bala não pegou no vidro, ela pegou numa haste de alumínio e ficou a marca da entrada da bala, então você vê nitidamente que foi do lado em que estava o Exército. Porque o Exército estava dum lado da rua e o bandido estava na outra ponta”, lembra Fabíola.

laudo foi concluído apenas em 10 de outubro de 2016, quase um ano e meio depois do fato. Quanto ao Exército, não registrou sequer o ocorrido. Procurado pela reportagem, o Comando Militar do Leste, responsável pelas operações de Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro, afirmou: “Não consta registro do envolvimento de tropas federais no caso em tela. Este Comando somente teve conhecimento do suposto fato, por intermédio de uma ação cível proposta pelas filhas da Sra. Raimunda, quase 03 (três) anos após o óbito, objetivando indenização da União”.

O

Nesse meio-tempo, Fabíola teve que assumir a guarda da irmã e largar o trabalho para cuidar dela. “É como se eu tivesse ganhado um filho da noite pro dia. Eu assumi a responsabilidade. Crio minha irmã desde o ocorrido, pago casa, colégio. Eu que trabalho.” Não teve nenhum apoio do Estado. E continua sem ter informações sobre a investigação, que corre na Delegacia de Homicídios da capital fluminense. “Eu já fui atrás, já liguei, só que eles falam que não tem resposta, que ainda está na investigação. Já tem três anos e meio que minha mãe faleceu”, diz.

Como em outros casos envolvendo homicídios praticados por militares apurados pela Pública, o inquérito estancou. Procurada pela reportagem, a Delegacia de Homicídios da Polícia Civil informou apenas que “as investigações estão em andamento”.

“Você fica meio desacreditada”, diz Fabíola.

Descrente do processo penal, ela recebeu a indicação de um conhecido advogado da área cível, João Tancredo, que atua em casos de flagrantes violações de direitos humanos no Rio de Janeiro, incluindo os casos de Amarildo e Marielle Franco. E apenas no começo deste ano a família viu alguns avanços em busca de esclarecer o caso – e buscar reparação.

Nem João Tancredo nem Camila buscam a punição do soldado que atirou em Raimunda Cláudia. “O que nos interessa na justiça criminal é a documentação que gerou o caso: o que aconteceu”, diz João Tancredo, que representa as filhas de dona Raimunda num processo cível contra a União.

Ele explica que, quando a justiça criminal não anda, um processo na Justiça civil funciona até mesmo para trazer à tona mais detalhes do ocorrido, já que se podem arrolar testemunhas e pedir a produção de outras provas. “De porte da documentação mostrando o que aparentemente aconteceu, a gente faz a ação indenizatória.”

Além da reparação por dano moral e material, o advogado defende que a punição cível deve ser “exemplar” para desencorajar novas mortes como essa, cometidas por agentes do Estado. No caso de dona Raimunda, o escritório pede uma indenização de mais de R$ 900 mil para as filhas.

De sua parte, a União é defendida pela Advocacia-Geral da União (AGU), cuja principal tese é que o tiroteio que vitimou dona Raimunda não teve participação dos militares. “Restou constatado que naquele dia ocorreram vários confrontos contra integrantes das facções criminosas em vários pontos do Complexo da Maré, sendo impossível afirmar que o disparo que atingiu o autor se deu no suposto confronto relatado pelo Requerente, ou de um caso isolado, sem a atuação da Força de Pacificação”, diz a AGU na contestação da ação.

Em resposta, a defesa defende a tese de que, mesmo que não se comprove que o tiro saiu da arma do Exército, o tiroteio com a participação das Forças Armadas no local colocou em risco a vida da população. A AGU contesta. Uma primeira audiência foi marcada para 22 de novembro. Será a primeira vez que três testemunhas, além das filhas, serão ouvidas pela Justiça brasileira.

Fabíola tem o que dizer. Antes da ocupação da Maré, ela, que se tornou chefe de família por conta de uma ação do Exército, tinha respeito pelas Forças Armadas. Agora, considera-as “despreparadas”. “São garotos de 18 a 24 anos, então são pessoas que se alistaram agora, que não tiveram um curso de tiro. São pessoas que não tiveram um preparo, não tiveram um conhecimento.” “Se você pegar o nosso Exército aqui e mandar lá para uma guerra da Síria, do Afeganistão, morre todo mundo. Acho que no primeiro dia.”

No começo do ano, quando veio o Decreto da Intervenção Federal, conta, sua primeira reação foi mudar-se da Maré. Desde pequena, e até hoje, ela tem muito medo de levar um tiro. “Deve doer muito”, diz.

Hoje longe da Maré, ela diz que quer evitar que morram outras Raimundas Cláudias.

“A desfeita foi enorme contra a gente. Foi como se fosse um ratinho de laboratório que morreu. ‘Ah, morreu um rato, vamos pegar outro rato ali e vamos ver o que acontece…’ Eles não viram que foi um erro, no que poderia ter sido feito pra mudar, quais as melhorias, nada. Simplesmente foi só mais um”, diz.


Foto de Raimunda Cláudia com a família, constante no processo indenizatório.
A história de Raimunda Cláudia faz parte de 32 mortes causadas por militares em operações de segurança púbica desde 2011. Saiba mais aqui (LINK).

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REPORTAGEM Exército é acusado de matar inocentes em operações de segurança pública

REPORTAGEM
Exército é acusado de matar inocentes em operações de segurança pública
Investigamos o “efeito colateral” das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO); Forças Armadas estão ligadas a morte de pelo menos 32 pessoas desde 2010

31 de outubro de 2018
Texto: Natalia Viana | Fotos: Noah Friedman-Rudovsky
Há casos de mortes não registradas nem investigadas
Ministério da Defesa e Comando do Exército não têm lista completa de casos nem fazem acompanhamento
Familiares e vítimas reclamam de falta de socorro e acesso à Justiça
Controversa entre os próprios militares, a atuação das Forças Armadas em operações de segurança pública tem deixado um rastro ainda pouco perceptível, mas que tem aumentado à medida que ela se torna mais frequente: dezenas de brasileiros foram mortos por membros do Exército e da Marinha desde 2010.

Ao longo de seis meses a reportagem da Pública registrou casos através de entrevistas com familiares e advogados das vítimas, reportagens de imprensa e pedidos de Lei de Acesso à Informação aos Comandos do Exército e da Marinha – que responderam prontamente às demandas de informação.

O levantamento contabilizou pelo menos 32 mortes em que há fortes indícios de envolvimento de militares. Entre elas, 29 envolvem membros do Exército e três, membros da Marinha. Muitas mortes foram causadas em confronto com criminosos. Mas há alguns casos em que inocentes foram confundidos com criminosos ou atingidos em meio a tiroteios; e também há casos de mortes após uso excessivo da força pelos soldados.

A investigação procurou entender como as vítimas e familiares são tratados pelas Forças Armadas e pela Justiça – seja ela comum ou militar – após o ocorrido. Todos os que foram localizados relatam terem sido abandonados à própria sorte. Muitas das vítimas são cidadãos comuns, moradores de favela e trabalhadores.

Os sobreviventes e as famílias ficaram sem socorro, sem auxílio legal, financeiro ou psicológico. Até por isso, os casos não são de conhecimento público. O Ministério da Defesa e o Comando do Exército não fazem um acompanhamento sistemático das mortes causadas em operações de GLO. E os dados enviados pelo Comando do Exército à Pública são contraditórios ou incompletos.

No levantamento foram descartados todos os casos em que os soldados participavam de operações conjuntas com a PM, mas em que há evidências que os tiros foram disparados pela força estadual. O próprio Comando Militar do Leste (CML) foi consultado, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), e apontou alguns desses casos.

Todas as mortes de civis, com exceção de uma, ocorreram na região metropolitana do Rio de Janeiro.

No mesmo período, houve cinco mortes de membros das Forças Armadas em GLOs – duas delas em acidentes.

Apontado como mentor intelectual da intervenção federal no Rio de Janeiro, cujo comando é militar, o general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), demonstrou em 2017 ter clareza das consequências do empenho militar em tarefas de segurança. “Existem dois fatores críticos para o sucesso disso: a adesão da sociedade no Rio de Janeiro e a compreensão que a mídia terá do que será feito. Isso é fundamental porque vamos ter insucesso, vamos ter incidentes. Estamos numa guerra. Vai acontecer, é previsível que aconteçam coisas indesejáveis, inclusive injustiças. Mas ou a sociedade quer ou não quer”, afirmou durante uma palestra no Encontro Brasil de Ideias, em 1o agosto do ano passado.

Por outro lado, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, demonstrou ser crítico do emprego das Forças Armadas na segurança pública. “Eu quero deixar bem claro que nós não gostamos de participar desse tipo de operação”, afirmou ele à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados em 5 de julho de 2017. “Então, reconheço como positivo o governo estar repensando esse tipo de emprego das Forças Armadas, porque ele é inócuo e, para nós, é constrangedor.”

O general ilustrou seu descontentamento com uma cena que presenciou em 2015, durante a ocupação do complexo de favelas da Maré. Era um dia de semana, ele acompanhava as tropas que passeavam numa rua cheia de mulheres e crianças. Segundo ele, cada soldado estava “muito atento, muito preocupado, muito crispado e armado”. “Falei: somos uma sociedade doente. O Exército está apontando armas para brasileiros. Isso é terrível.”

A Pública pediu uma entrevista ao comandante do Exército, mas a assessoria afirmou que ele não está dando entrevistas no momento.


Militares fazem operação na Rocinha durante a intervenção federal (Foto: : Noah Friedman-Rudovsky/ Agência Pública)
Mortes
Após a fala contundente do general Villas Bôas na Câmara, o número de operações de GLO apenas aumentou. O governo Temer usou essas operações como nenhum governo anterior.

Excluindo-se eleições e visitas de mandatários estrangeiros, em 2010 houve uma operação de GLO; em 2011, 4; em 2012, 3, incluindo a segurança da Rio+20; em 2013, 1, para a Copa das Confederações; em 2014, 6, entre elas a segurança da Copa do Mundo em 12 cidades-sede; em 2015, 3; em 2016, 2, incluindo as Olimpíadas do Rio. Em 2017, foram 18. Três operações e mais 15 etapas da Operação Furação em diversos pontos do Rio de Janeiro, que seguem o Decreto de Garantia da Lei e da Ordem assinado por Michel Temer em 28 julho de 2017, ainda em vigor. Em 2018, com a intervenção federal, o número explodiu. Foram 43 operações até o final de setembro, segundo o Comando do Exército, ainda sob a permissão legal da GLO do ano passado.

A intervenção permitiu que o governo federal indicasse um interventor no Rio de Janeiro para comandar a Segurança Pública. Foi escolhido um militar, o general Walter Souza Braga Netto, que por sua vez escolheu como secretário de Segurança Pública outro militar, o general Richard Nunes. Porém, mesmo com a intervenção, o emprego das Forças Armadas em operações só é permitido através do decreto de GLOs, que tem vigência até dezembro deste ano.

Após o decreto de julho do ano passado, o general Villas Bôas voltou a alertar sobre o custo de usar os soldados como policiais. “A própria possibilidade de ocorrência de danos colaterais envolvendo civis inocentes deve ser avaliada atentamente pela sociedade. Vale ressaltar que o Exército é vocacionado para uma situação de conflito armado. A Força é equipada com armas e munições com alto grau de letalidade, alcance e capacidade de transfixação, e vem sendo empregada em áreas civis urbanas, densamente povoadas”, afirmou em entrevista ao Uol em outubro de 2017.

Entre as 32 mortes computadas pela reportagem, 12 ocorreram em um dos mais longos e catastróficos empregos de GLO, a ocupação da Maré, que durou de abril de 2014 a junho de 2015. Inicialmente, o plano era estabelecer uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela, cujo controle é dividido entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. A ideia foi abandonada. A operação terminou com um soldado morto, o cabo Michel Augusto Mikami, de 21 anos, uma redução temporária no índice de homicídios e dezenas de trocas de tiros entre criminosos e as Forças Armadas.

“Gastamos R$ 400 milhões, e devo dizer que foi um dinheiro absolutamente desperdiçado”, disse o general Villas Bôas na mesma seção da Câmara dos Deputados. À época ministro da Defesa Celso Amorim partilha da mesma visão: “Militar não é policial, e, quando acaba, volta tudo de qualquer maneira. Para essa finalidade, acho que hoje eu não faria [a ocupação] na Maré”, disse em entrevista à Pública este ano.

A extensão do fiasco da chamada Operação São Francisco, no entanto, ainda não é plenamente conhecida pelas Forças Armadas. A contagem do Exército trata como “APOPS”, ou agentes perturbadores da ordem, aqueles que são mortos por membros da força durante operações de GLO. Questionado através de LAI, o Comando do Exército enviou um documento em que afirma terem havido oito APOPs na Maré.

Em meses de apuração, a Pública localizou pelo menos seis mortes com envolvimento do Exército naquela época que não têm registros no CML. Veja a lista completa.

OPERAÇÃO MORTOS
FORÇA DATA
Operação Arcanjo 1 Exército (26/12/2011)
Operação São Francisco 12 Exército e Marinha (4/2014-6/2015)
Operação Capixaba 1 Exército (11/2/2017)
Operação Carioca 1 Marinha (15/2/2017)
Operação de Reforço ao Arsenal de Guerra 2 Exército (28/11/2017)
Chacina do Salgueiro 8 Exército (11/11/2017)
Primeira morte da intervenção 1 Exército (12/5/2018)
Operação Cidade de Deus e mais diversas favelas 1 Exército (7/6/2018)
Mortos no Complexo do Alemão, Penha e Maré 5 Exército (20/8/2018)


É o caso de Raimunda Cláudia Rocha Silva, de 47 anos, que morreu dentro da sua casa no dia 4 de abril de 2015. Ao ouvir uma troca de tiros entre o Exército e criminosos, ela foi à janela alertar uma funcionária que trabalhava na sua loja de roupas, do outro lado da rua. “Eram 4h30, 5h da tarde, do nada começou um tiroteio, e a minha mãe foi falar com a menina da loja: ‘Camila, vai se esconder. Abaixa a porta’. E foi nesse exato instante, com receio da menina se machucar, que a minha mãe acabou tomando um tiro”, diz Fabíola Rocha Brito Reis.

“Minha mãe estava sem nada na mão, pra não falarem que estava com algo que parecia uma arma, não, minha mãe estava só a minha mãe, a cabecinha da minha mãe.” O tiro, vindo de uma rua lateral onde estavam os soldados do Exército, pegou na esquadria de alumínio. Um estilhaço acertou-a na cabeça. “Aí teve que esperar o tiro [acabar]. Todo mundo viu que houve um acidente, aí o Exército se recolheu e foi embora. Não prestaram socorro, não foram oferecer ajuda, simplesmente deram as costas e foram embora, e eles sabiam, sim, que um morador tinha sido baleado”, conta Fabíola. A morte foi noticiada pelos principais jornais, entre eles a Agência Brasil, do governo federal.

Porém, o CML afirmou que só ficou sabendo do caso três anos depois. “Não consta registro do envolvimento de tropas federais no caso em tela. Este Comando somente teve conhecimento do suposto fato, por intermédio de uma ação cível proposta pelas filhas da Sra. Raimunda, quase 03 (três) anos após o óbito, objetivando indenização da União”, escreveu para a reportagem.

Leia também: O Exército matou minha mãe e sumiu

Leia também: Os soldados não têm o direito de atirar no meu neto

Há outros casos que não constam dos documentos enviados à Pública pelo Exército. Entre eles está a morte do adolescente Abraão da Silva Maximiano, de 15 anos, durante a Operação Arcanjo, em 26 de dezembro de 2011, que gerou revolta no Complexo do Alemão durante a ocupação que precedeu a instalação da UPP. Na época, a família disse que o menino estava em uma praça quando foi atingido e que foi ameaçada por protestar.

O Comando do Exército não registra também nos seus relatórios a morte do jovem Matheus Martins da Silva, de 17 anos, morto com um tiro na cabeça no município de Cariacica, no Espírito Santo, durante a Operação Capixaba, em 11 de fevereiro de 2017, embora o caso seja notório e tenha sido investigado pela Polícia Civil e pelo próprio Exército.

Procurado pela reportagem, o Exército afirmou que “o acompanhamento sistemático é feito por meio de IP (Inquérito Policial) ou por IPM (Inquérito Policial Militar), conforme o caso, e os dados são consolidados pelo Ministério Público Militar (MPM)”. Mas o MPM registra apenas os casos que foram efetivamente investigados. Foram 9 mortes, segundo o MPM, e um total de 8 procedimentos abertos. Cinco foram arquivados por “reconhecimento de legítima defesa”. Três casos continuam sob investigação.

Em resposta aos pedidos de informação pela reportagem, o Comando do Exército lembrou que “no caso de emprego de tropa federal em Operações de Garantia da Lei e da Ordem, o uso da força é progressivo e regulado por Regras de Engajamento definidas, entre outros princípios, pelo da proporcionalidade”.

As regras de engajamento para operações de GLO estabelecem que o uso da força seja “escalonado”, “gradual” ou “gradiente”. Ou seja, o soldado, assim como o policial, deve sempre usar a menor força possível para alcançar o objetivo pretendido. O primeiro passo é a ordem verbal, depois o uso da força física sem emprego de armas, disparos de advertência com balas de borracha e, em último caso, o uso de arma de fogo.

Quando há uma morte, conforme informou o CML à Pública, os casos deveriam sempre ser investigados através de um Inquérito Policial Militar (IPM). “Haverá instauração de IPM se na Operação de GLO que o Exército participar a conduta de um de seus integrantes der causa a eventual óbito, tendo em vista que atualmente a Força Terrestre atua com agentes da Polícia Civil e militares da Polícia Militar, em apoio aos órgãos de Segurança Pública na Intervenção Federal no Estado do Rio de Janeiro”. Os IPMs são sigilosos, inquisitórios e preparatórios e sempre presididos por uma autoridade militar.

“O inquérito consiste em uma peça preparatória, informativa, constituído de um conjunto de diligências investigatórias com intuito de apurar ocorrência, cujo aspecto criminal seja de competência da Justiça Militar da União, com o objetivo de fornecer elementos de informação para que o Ministério Público Militar, titular da ação, possa requerer o arquivamento, novas demandas ou formular a denúncia”, completou o CML.

Mas não é sempre o caso. Fabíola passou mais de três anos sem saber a quem recorrer, após ter sido ouvida pela Polícia Civil no caso da sua mãe e não ter nenhuma informação desde então. Há alguns meses, foi encaminhada para um advogado especialista em ações cíveis. Por isso, apenas agora o Exército diz tomar conhecimento do caso, embora ele tenha sido registrado na imprensa à época.

Se era difícil aos familiares obter justiça contra militares, especialistas temem que ficará ainda mais difícil com a Lei 13.491/2017, aprovada em outubro passado, que transferiu para a Justiça Militar o julgamento de casos em que militares cometem crimes contra civis nas operações de GLO – antes, os poucos casos que iam adiante eram tratados pela Justiça Federal. A lei procura dar respaldo aos militares em meio à explosão de operações durante o governo Temer.


Membro do Exército durante intervenção no Rio de Janeiro. (Foto: : Noah Friedman-Rudovsky/ Agência Pública)
Mudança de tática para a intervenção
Alguns dos membros-chave do Exército durante a ocupação da Maré foram escalados para a intervenção. Richard Fernandez Nunes, que comandou a Força de Pacificação na Maré entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, é hoje secretário do Rio de Janeiro, indicado diretamente pelo interventor, o general Walter Souza Braga Netto. Seu braço-direito até junho deste ano era o general Mauro Sinott Lopes, que foi o segundo comandante da Força de Pacificação na Maré, entre maio e agosto de 2014. Sinott coordenou o Grupo de Trabalho para elaborar o plano da intervenção federal.

No entanto, a estratégia de emprego dos militares na intervenção não é uma repetição da operação na Maré. Os membros do Exército fazem majoritariamente tarefas de cerco afastado, bloqueio e revista, enquanto policiais militares e civis entram nas comunidades.

“A ordem é não entrar em favela”, diz a especialista em segurança pública e coordenadora do Observatório da Intervenção, Sílvia Ramos. “Aqui ainda não está acontecendo o que aconteceu no México ou o que aconteceu na Colômbia, aquela ideia de que entram as Forçadas Armadas [no combate ao crime] e piora a violência.” No entanto, ela lembra que, ao mesmo tempo, o número de mortes por policiais aumentou este ano e deve bater o recorde da série histórica. Entre fevereiro e setembro, o aumento foi de 42% em relação ao ano passado. Mais de mil pessoas foram mortas pela polícia fluminense. “A presença das tropas no Rio deveria estar contribuindo – não contribuíram, pelos números –, mas deveria estar contribuindo para conter a matança.”

Leia também: Número de mortes causadas por PMs no Rio de Janeiro deve bater recorde com a intervenção, diz pesquisadora

Há dois casos recentes que fogem da regra de não emprego do Exército dentro do terreno. Uma operação até agora nebulosa no morro do Salgueiro, em São Gonçalo, em novembro do ano passado, que acabou em uma chacina com oito mortos, hoje sob investigação do Ministério Público Militar e do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro; e uma megaoperação nos complexos da Penha, do Alemão e da Maré, no dia 20 de agosto, que acabou com cinco civis – apontados como membros do crime organizado – e três militares mortos. Participaram 4,2 mil militares e 70 policiais civis, 20 blindados e três aeronaves.

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Má reputação
O uso prolongado das Forças Armadas, sem a resolução dos índices de criminalidade, pode atingir a reputação das próprias Forças Armadas, dizem especialistas. Pesquisa do Datafolha em julho deste ano indicou as Forças Armadas como a instituição em que os brasileiros mais confiam: 37% dizem confiar muito, e 41%, pouco. Porém, para quem conviveu de perto com os militares em um período prolongado, a percepção é outra.

Um relatório produzido pela ONG Redes da Maré em parceria com a Universidade Queen Mary, publicado este ano, demonstrou que os moradores da Maré não veem a ocupação com bons olhos. Para 69,2%, a presença dos militares não aumentou a sensação de segurança. O grau de aprovação da atuação do Exército também foi baixo: 4% avaliaram como ótima e menos de 20% como boa. Do outro lado, 13,9% avaliaram como péssima e 11,9% como ruim. O restante – a resposta mais frequente – avaliou como regular. Indagados se consideraram a ocupação positiva, menos da metade – 47,2% – concordou total ou parcialmente com a afirmação.

“Uma vez que o Exército vai para o território e não soluciona o problema da violência, a população começa a vê-lo como mais do mesmo. Isso foi constatado por muita gente que mora na Maré. As pessoas viam o Exército como uma esperança. E é uma das impressões que a gente tá tendo com relação à intervenção no Rio de Janeiro”.”, diz Thales Arcoverde Treiger, defensor público da União no Rio de Janeiro que acompanha casos de violação de direitos humanos.

Órfã de mãe, Fabíola Rocha Reis se diz profundamente decepcionada com os militares. “Eu achava o Exército muito mais sério, porque você vê ‘as Forças Armadas que saem para proteger o Brasil contra as guerras’, você imagina, né?, uma força, ponderada, uns rapazes com uma postura, uma seriedade, um trabalho bem-feito. Não é nada disso”, diz a jovem, que garante que não espera vingança, apenas uma atitude do Exército.

“Por mim eu não cobraria assim: “Quem matou Raimunda Cláudia?”. Eu queria, sim, “o que faremos pra que não morra mais uma Raimunda Claudia?”.

Ao longo dos próximos dias a Pública vai trazer essas histórias, elucidando como funcionam hoje os Inquéritos Policiais Militares, como os casos são tratados na Justiça Militar e como os familiares das vítimas lutam por justiça.

Moro prendeu Lula para eleger Bolsonaro

Moro prendeu Lula para eleger Bolsonaro

Agora está tudo explicado. O convite ao juiz Sérgio Moro para ser o que quiser no futuro governo Bolsonaro é o reconhecimento público pelos bons serviços prestados ao candidato da extrema-direita e que foram decisivos para sua eleição. Talvez mais que as fake news impulsionadas por WhatsApp.
Moro foi seu grande cabo eleitoral não só por centrar fogo no PT desde o início da Lava Jato – se a apuração fosse imparcial as investigações na Petrobrás deveriam ter começado pelos governos do PSDB - mas por tirar das eleições o seu principal adversário.
Como se vê agora, só Lula era capaz de derrotar o capitão. Estivesse solto, a julgar pelo ritmo das pesquisas, venceria no primeiro turno, de lavada.
O empenho de Moro em prender Lula sem provas, num processo que não resiste a uma análise jurídica séria, quando liderava as pesquisas eleitorais, depois impedir a concretização do habeas corpus que o libertaria e finalmente divulgar trechos de uma delação de Antônio Palocci com acusações genéricas a Lula sem provas às vésperas do primeiro turno tinham o objetivo que somente agora ficou explícito: eleger Bolsonaro.
Muita gente achava que ele só queria destruir Lula, mas não era apenas isso: ele queria eleger, pela primeira vez na história do Brasil, um candidato que reza pela mesma cartilha política que ele, enquanto vendia ao distinto público a ideia de que era uma cruzada pela honestidade na política, pela salvação nacional, pela esperança de um novo sol raiar no horizonte.
As camisas pretas que costuma usar não deixam dúvidas quanto às suas preferências políticas.

Faixa para dois

Faixa para dois. Por Vitor Teixeira

 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Para FENAJ, eleição de Bolsonaro provoca “futuro incerto para a democracia, o jornalismo e os jornalistas”

30 DE OUTUBRO DE 2018, 16H18

Para FENAJ, eleição de Bolsonaro provoca “futuro incerto para a democracia, o jornalismo e os jornalistas”

Principal representante da categoria dos jornalistas no Brasil divulgou nota em que expressa preocupação com a postura de Bolsonaro e seus seguidores com relação à imprensa; "O político de ultra-direita é avesso a críticas e não admite ser questionado publicamente"
Foto: Reprodução
A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), principal entidade que representa a categoria dos jornalistas no Brasil, expressou preocupação com a democracia diante da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para presidente do Brasil. Em nota elaborada na segunda-feira (29) e divulgada nesta terça-feira (30), a Federação aponta os inúmeros casos de violência contra jornalistas observados durante a campanha eleitoral e chama a atenção para a postura intolerante de Bolsonaro e seus apoiadores diante das críticas.
“Os muitos casos de agressões contra jornalistas ocorridos durante a campanha eleitoral e a indiferença de Bolsonaro diante dos ataques reforçam o que a trajetória política dele já demonstrara: o político de ultra-direita é avesso a críticas e não admite ser questionado publicamente, mesmo quando as questões dizem respeito à sua atuação como homem público”, diz a nota.
Além dos casos citados pela FENAJ, o presidente eleito, por mais de uma vez, ameaçou grandes empresas de jornalismo do Brasil, como a Folha de S. Paulo, por conta da matéria que denunciava um suposto esquema de caixa 2 em sua campanha. O capitão da reserva chegou a dizer que “esse jornal acabou” e prometeu fazer prevalecer a “mão pesada” de seu futuro governo contra o veículo.
“Ainda que Bolsonaro tenha assumido o compromisso de respeitar a Constituição brasileira, é de conhecimento público suas ideias autoritárias, como a defesa da ditadura militar, e até mesmo criminosas, como a apologia à tortura. Resta saber como vai se comportar a partir de agora, e se vai se submeter às regras democráticas, entre elas a do respeito às liberdades de expressão e de imprensa”, alerta a federação.
Confira, abaixo, a íntegra da nota.
A Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ, representante máxima da categoria no Brasil, expressa sua preocupação com o futuro da nação brasileira, após a eleição da chapa formada pelo capitão reformado Jair Bolsonaro e pelo general Mourão, também reformado, para governar o país a partir de 1º de janeiro de 2019.
A FENAJ repudia a violência contra jornalistas e, em especial, as declarações do assessor de Bolsonaro, Eduardo Guimarães, que apenas esperou a divulgação, no início da noite de ontem (28/10), das pesquisas de boca de urna indicando a vitória de seu assessorado para enviar mensagem ofensiva a diversos jornalistas de diferentes veículos de mídia. Também ontem, jornalistas foram agredidos enquanto faziam a cobertura das comemorações da vitória de Bolsonaro em mais de um Estado brasileiro.
Os muitos casos de agressões contra jornalistas ocorridos durante a campanha eleitoral e a indiferença de Bolsonaro diante dos ataques reforçam o que a trajetória política dele já demonstrara: o político de ultra-direita é avesso a críticas e não admite ser questionado publicamente, mesmo quando as questões dizem respeito à sua atuação como homem público.
Ainda que Bolsonaro tenha assumido o compromisso de respeitar a Constituição brasileira, é de conhecimento público suas ideias autoritárias, como a defesa da ditadura militar, e até mesmo criminosas, como a apologia à tortura. Resta saber como vai se comportar a partir de agora, e se vai se submeter às regras democráticas, entre elas a do respeito às liberdades de expressão e de imprensa.
A FENAJ e os Sindicatos de Jornalistas não aceitam qualquer tipo de violência contra a categoria e categoricamente afirmam que não há justificativa admissível para as agressões que vêm ocorrendo e que cresceram no ambiente virtual no decorrer da campanha.
Igualmente, FENAJ e Sindicatos não aceitam a retirada de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e estarão nas trincheiras da resistência, para evitar mais prejuízos. Como deputado, Bolsonaro votou sempre contra os interesses da classe trabalhadora. Estaremos firmes e alertas para impedir que os retrocessos iniciados por Temer se aprofundem ainda mais.
Diante das incertezas do futuro, a FENAJ e seus Sindicatos filiados reafirmam seu compromisso com a democracia, com o Estado Democrático de Direito, com as liberdades individuais e coletivas e com os direitos humanos, trabalhistas e sociais. E lembram que o Jornalismo e os jornalistas têm papel fundamental para a democracia e a constituição da cidadania e que governantes democráticos submetem-se à crítica e, principalmente, à vontade da maioria que, no Brasil e no mundo, é constituída pela classe trabalhadora.
Em defesa da democracia!
Em defesa das liberdades de expressão e de imprensa!
Em defesa do Jornalismo e dos jornalistas!
Em defesa dos direitos da classe trabalhadora!
Brasília, 29 de outubro de 2018.
Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ.