segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Greve na RTV Cultura de SP é resistência ao sucateamento da emissora

Greve na RTV Cultura de SP é resistência ao sucateamento da emissora

O desmonte promovido pelo governo de São Paulo é o mesmo pretendido por Temer na EBC
por Intervozes — publicado 16/09/2016 13h33
Divulgação
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Por Ana Claudia Mielke*
A Constituição de 1988 é clara ao estabelecer a necessidade de se garantir a complementaridade do sistema de comunicação no Brasil, que deve ser composto por mídias comerciais, públicas e estatais. Mas o artigo 223 sequer chegou a ser regulamentado, e as poucas experiências de comunicação pública existentes estão em vias de serem desmontadas.
Em São Paulo, uma greve de seis dias jogou luz ao desmonte da RTV Cultura. Entre os dias 8 e 14 de setembro, radialistas e jornalistas da emissora, juntos, promoveram uma greve geral. A reivindicação de emergência? Reajuste dos salários. Afinal estes não foram reajustados conforme acordo coletivo firmado entre as duas categorias – representadas por seus sindicatos – e as empresas de mídia privada.
As perdas, segundo os próprios sindicatos, chegam a 25% no caso dos jornalistas, que tiveram o último reajuste salarial em dezembro de 2013, e a 20% no caso dos radialistas, que tiveram o último reajuste de salário em maio de 2014.
O pano de fundo desta greve – como não poderia deixar de ser – é, no entanto, a resistência para que a comunicação pública não seja totalmente esfacelada. Não se trata de um problema novo. Há pelo menos dez anos, radialistas, jornalistas, entidades de classe e organizações da sociedade civil têm denunciado o sucateamento que vem sendo imposto à RTV Cultura de São Paulo. Estes grupos estão, desde 2015, organizados na campanha “Eu quero a RTV Cultura Viva!
A falta de investimentos em recursos humanos, a consequente a diminuição no número de funcionários e a não realização dos reajustes conforme convenção coletiva das categorias são apenas a ponta do iceberg de um verdadeiro desmonte da comunicação pública que segue em curso no Estado de São Paulo.
A RTV Cultura é gerida pela Fundação Padre Anchieta. Em seus mais de 40 anos de produção e difusão de programação (ela foi criada em 1960 e reinaugurada em 1969), foi inúmeras vezes considerada a melhor emissora do País em qualidade da programação e já figurou entre os melhores canais do mundo em programação educativa.
É também considerada um patrimônio dos paulistas (e dos brasileiros), que cresceram assistindo – até então – sua distinta programação infantil. E, durante um bom tempo, a emissora chegou a se tornar cabeça de rede de outras emissoras estaduais, fornecendo uma vasta programação a estas emissoras, sobretudo, programação infantil.
Hoje, basta sintonizar o canal para perceber que muita coisa mudou. E para pior. Muitos programas originais realizados dentro da própria emissora já não existem mais (o programaViola Minha Viola causou comoção ao ser cancelado em 2015) e a programação tem sido substituída por enlatados, muitos destes voltados às crianças – caso de Paw Patrol(Patrulha Canina), Shimmer e Shine e Winx Club – este último com forte apelo de produtos voltados ao consumo infantil.
O número de funcionários da TV Cultura caiu pela metade nos últimos dez anos. Além disso, o interesse público que deveria orientar a grade, aos poucos, vem sendo substituído pela busca implacável por audiência.
Mesmo com a greve, a direção da Fundação Padre Anchieta sequer apresentou proposta concreta para negociar um acordo coletivo específico com os trabalhadores, demonstrando total descaso com os funcionários e com a própria continuidade do serviço de radiodifusão – houve cancelamento do Jornal da Cultura do horário do meio dia no dia 12 de setembro.
Apesar disso, na primeira audiência de conciliação, realizada no último dia 13, no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-SP), os trabalhadores obtiveram uma importante vitória, já que o caso será levado a julgamento pela Justiça do Trabalho. Os trabalhadores também não terão desconto dos dias parados e terão estabilidade de emprego garantida até o julgamento do dissídio.
Desmonte da EBC
No início de setembro, o governo Michel Temer editou a Medida Provisória 744, acertando em cheio o coração da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), ao extinguir o princípio que afirma a autonomia em relação ao Governo federal para definir produção, programação e distribuição de conteúdo no sistema público de radiodifusão (previsto no parágrafo VIII do art. 2 da Lei nº 11.652/2008). A MP também pôs fim no Conselho Curador da empresa, órgão responsável por garantir a participação social na definição dos princípios que devem reger as emissoras que compõem o sistema.
A ideia da gestão autônoma de governos com participação da sociedade via Conselho Curador era, até então, dois dos principais pilares do projeto de comunicação pública, criado em 2009, para atender ao preceito constitucional da complementaridade. Além destes, outro pilar fundamental era a busca por consolidar um sistema público em rede, que fosse capaz de promover a cultura nacional e ao mesmo tempo estimular a produção regional e independente. 
Para isso, foi criada a Rede de Comunicação Pública, em 2009, que fomentou a distribuição de conteúdos entre as várias emissoras estaduais e a EBC. Uma experiência embrionária de um sistema público de comunicação em nível nacional, cujos rumos neste momento são imprevisíveis.
Embora o sucateamento da RTV Cultura não seja recente, é possível fazer um paralelo entre ele o desmonte pretendido na EBC. Isso porque, ainda que o desmonte da EBC possa parecer um fato isolado na conturbada conjuntura pela qual passa o país, ao que parece, possui, assim como no caso paulista, o mesmo embasamento político: corte de gastos.
Na base deste argumento está a visão de que o Estado não deve ser o garantidor do direito à comunicação, logo, não deve prover o financiamento das emissoras públicas.
Financiamento
O "enxugamento da máquina" está no cerne do argumento utilizado pelos tucanos em São Paulo para dissolver, aos poucos, a RTV Cultura e agora vem sendo utilizado também pelo presidente Michel Temer (PMDB) para desidratar a EBC (desde quando assumiu o posto de interino, em maio passado, Temer já se mostrou inclinado a enfraquecer a comunicação pública do país com uma proposta de enxugamento da empresa).
Diria ainda, que nem mesmo os governos petistas, embora responsáveis pela criação da empresa, em 2009, souberam dar à comunicação pública sua real relevância – em especial num país em que o sistema comercial é bastante concentrado –, limitando ou contingenciando recursos orçamentários para a empresa e, principalmente, promovendo uma nada inocente confusão entre comunicação pública e comunicação de governo.
Em outras palavras, o sucateamento de emissoras públicas é parte de uma agenda política de retrocessos, que se pretende implementada por grupos políticos que não apostam no direito à comunicação como instrumento promotor da participação cidadã e da democracia. Para estes grupos, a comunicação pública é apenas um instrumento utilitário de informação governamental e, ainda, uma fonte inesgotável de desperdício de recursos públicos.
Porém, nem os governos tucanos de São Paulo nem as gestões do governo federal foram capazes de abrir um diálogo com a sociedade para discutir propostas concretas de financiamento da comunicação pública, como aquela que prevê a criação de um Fundo Nacional de Comunicação Pública.
Este fundo, se criado, poderia ser composto por: a) 25% da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública prevista na Lei nº 11.652; b) verbas do orçamento público em âmbitos federal e estaduais; c) recursos advindos de Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), de 3% sobre a receita obtida com publicidade veiculada nas emissoras privadas; d) pagamento pelas outorgas por parte das emissoras privadas; e) doações de pessoas físicas e jurídicas; e f) outras receitas, conforme prevê a proposta de novo marco regulatório para o setor (Projeto de Lei da Mídia Democrática).
Ora, se não avançamos no debate sobre a importância do sistema público de comunicação e sobre a necessidade de prevermos para ele formas concretas e viáveis de financiamento, no frigir dos ovos, o que temos é resistência. Desta forma, fundamental foi a greve dos radialistas e jornalistas da RTV Cultura em São Paulo, que pautaram a importância da comunicação pública para além do reajuste salarial e da garantia de emprego – o que já seria bastante legítimo.
A paralisação, que ganhou amplo apoio também dos funcionários da EBC, terminou no dia 14 de setembro, após audiência de conciliação realizada um dia antes. Mas o estado de greve permanece, assim como continua a luta em defesa da comunicação pública!
*É jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e coordenadora executiva do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

"Quero evitar o desmonte da EBC"

Entrevista - Ricardo Melo

"Quero evitar o desmonte da EBC"

Alvo de ofensiva do governo Temer, jornalista promete manter a luta para seguir no comando da Empresa Brasil de Comunicação
por Renan Truffi — publicado 19/09/2016 09h49, última modificação 19/09/2016 09h51
Lula Marques / AGPT
Ricardo Melo
Ricardo Melo: Temer é quem está aparelhando a EBC
Quando recebeu CartaCapital para esta entrevista, na quarta-feira 7, Ricardo Melo ainda era presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Naquele momento, Melo ainda contava com o respaldo do Supremo Tribunal Federal na batalha jurídica que travava com o governo Michel Temer.
No dia seguinte, entretanto, o ministro José Antonio Dias Toffoli mudou seu entendimento sobre o caso e confirmou a remoção de Melo. Toffoli argumentou que demissão poderia ocorrer diante da edição da Medida Provisória 744 por Temer, que alterou a estrutura da EBC.
O jornalista promete seguir com a disputa judicial e, em nota divulgada na segunda-feira 12, afirmou que entende permanecer "no comando da EBC até que seja formal e regularmente exonerado pelo Presidente da República".
Com passagens pelas principais redações do País, Melo luta na Justiça para continuar no cargo para o qual foi nomeado pela ex-presidenta Dilma Rousseff, em maio deste ano. Mais importante ainda do que o cargo, afirma Melo, foi a extinção do Conselho Curador da EBC, feita a por Temer na MP 744.
Para o jornalista, a canetada de Temer representa o fim da independência da emissora estatal. Isso em um País em que a imprensa está nas mãos de algumas poucas famílias que ditam um “monopólio de opinião”. “Meu papel institucional é importante neste momento: evitar o desmonte da EBC”.
CartaCapital: Como o senhor avalia a extinção do Conselho Curador da EBC?
Ricardo Melo: A Medida Provisória praticamente fere de morte a tevê pública. A EBC foi criada, em 2008, com o objetivo de fazer cumprir a Constituição. E esta prevê a complementaridade entre comunicação pública, privada e estatal. A que serve a comunicação pública? A comunicação pública serve a interesses que o mercado não atende. A comunicação do mercado é aquela que rende dinheiro: publicidade, retorno, ibope. E a comunicação pública responde justamente a interesses que não são cobertos por essa gama do mercado.
O objetivo da comunicação pública é dar voz a quem não tem voz. A EBC não foi uma ideia que saiu da cartola, foi feita com base em exemplos de outros países. A BBC é o exemplo mais comentado porque tem quase 100 anos, mas há a NHK (Japão), a RAI (Itália), RPT (Portugal).
Agora para manter esse modelo de independência editorial, você precisa ter mecanismos. Um desses instrumentos era o Conselho Curador, composto de representantes indígenas, negros, jovens, sindicalistas, LGBT. Ou seja, o conselho procura ser um espelho da sociedade. A dissolução do Conselho Curador é um ataque frontal à proposta de ser um veículo de comunicação pública. O objetivo é acabar com esse viés social e público da emissora.
CC: O governo Temer tem falado em aparelhamento da EBC para justificar sua exoneração e a extinção do Conselho Curador.
RM: A MP é o contrário do desaparelhamento. A medida aparelha completamente a EBC. Hoje, 95% dos funcionários são concursados. Como é que você aparelha uma empresa dessa? É uma bobagem completa. Eu, por exemplo, vim para EBC em agosto do ano passado como diretor de jornalismo. Eu nunca recebi um telefone do ministro da Secom [Edinho Silva], do Américo [Martins], que era presidente da EBC, ou da presidenta da República, a qual eu não conheço. Não conheço a Dilma, nunca vi.
Tudo que foi feito foi da minha cabeça e do Conselho Curador. Sempre respondi ao Conselho Curador, então esse negócio de aparelhamento é uma bobagem completa. Na época que a Lava Jato estava no auge, nunca deixei de dar uma matéria sobre isso. Nunca deixei de dar uma notícia sobre a Operação Lava Jato. Inclusive casos relativos a Edinho Silva, ex-ministro da Secom, a Dilma Rousseff, ao Lula. O que ocorreu é que muitas das pessoas convidadas não apareciam nos nossos programas. Convidamos o Aécio Neves, o José Serra, o próprio Michel Temer, e eles nunca quiserem, talvez para não legitimar a TV Brasil. A gente nunca teve um viés. 
CC: Integrantes do governo Temer também falam em má gestão para justificar a troca de comando da EBC. Qual é a situação da estatal do ponto de vista econômico?
RM: Como é uma empresa que foi concebida como uma empresa pública, ela não pode ser independente do governo. Então, junto com a lei de criação da EBC, foi criada uma contribuição para a comunicação pública, que não foi uma CPMF [Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras] nem nada. Simplesmente foi uma realocação de arrecadação do Fistel [Fundo de Fiscalização das Telecomunicações], que é um fundo pago pelas empresas de telecomunicação. Mas as operadoras que deveriam pagar essa contribuição entraram na Justiça, em 2008, contestando esse pagamento.
Desde então, essa contribuição tem sido depositada judicialmente. Então a EBC tem 2 bilhões de reais detidos, à espera de uma decisão sobre o destino da contribuição. Na primeira instância, ganhamos em duas questões: no mérito, se o fundo pode ser cobrado, e sobre a liberação dos recursos para a EBC. Agora isso está em segunda instância. Agora você sabe como o Judiciário demora para resolver. Pode demorar um ano, dois, dez anos.
Afora isso, algumas operadoras voltaram a depositar esse dinheiro. A TIM, por exemplo, desistiu de recorrer e voltou a depositar normal. Essa parcela já representa 800 milhões de reais. Mas como não está regulamentado, esse dinheiro é retido pelo governo para fazer superávit primeiro. Então, na verdade, o nosso [da EBC] superávit é de 2,8 bilhões de reais. E esse ano nós estamos prevendo um déficit de 30 milhões em função da manutenção do serviço mínimo da empresa.
A EBC não é só a TV Brasil, é uma rede de rádios, NBR e Agência Brasil, que fornecem conteúdo para agências do Brasil inteiro. Então o fato é que nós não temos déficit. Bastava uma canetada para esse dinheiro ser transferido. E isso não é esse governo, o governo anterior também já fazia isso. Então, essa história de déficit de 30 milhões de reais é uma bobagem. É como dever 30 mil reais e ter patrimônio de 2 bilhões de reais. Perto do que está sendo liberado para outras coisas, pelo atual governo, isso não quer dizer nada.
CC: O que pode e pretende fazer pelo seu mandato?
RM: Tenho de seguir o que a lei diz. Sou contra essa MP, mas não posso transformar a EBC num bunker para derrubá-la. Sempre que for convidado, vou falar que essa MP é um ataque frontal à comunicação pública. Agora, na posição institucional de presidente da EBC, não posso reconvocar o conselho. Estou numa situação difícil. Tenho o Conselho de Administração comandado por pessoas nomeadas pelo Temer. Mas queria destacar que minha convivência com as pessoas têm sido da mais absoluta civilidade.
Eu não transformei a EBC em aqueles que são a favor do Temer e aqueles que são contra o Temer. Eu trabalho lá como um executivo, mas com convicções: em defesa da comunicação pública. Posso ser voto vencido várias vezes, todo mundo vai saber disso. Mas eu acho que estar lá nesse momento é um símbolo da defesa da comunicação pública. Meu papel institucional é importante neste momento: evitar o desmonte da EBC, sem desrespeitar a legalidade.
CC: Como o senhor avalia as medidas que foram tomadas pelo jornalista Laerte Rimoli no primeiro período em que ele assumiu seu cargo?
RM: Eu achei um absurdo terem cancelados os contratos de jornalistas, achei uma perseguição. Isso foi um aparelhamento. As pessoas foram demitidas sem nenhum motivo profissional. Eram pessoas que sempre trabalharam em grandes empresas, então foi uma medida de uma brutalidade absurda. Eu fui exonerado [na primeira vez] e nunca ninguém me ligou. Fiquei sabendo pelo Diário Oficial.
Tomaram posse clandestinamente. Às 8h da manhã, montaram uma cerimônia de posse. Uma falta de civilidade, de convívio democrático absurda. Quando eu voltei, eu poderia ter anulado todos os atos deles. Mas eu não fiz isso. Pelo contrário, aliás, vários diretores indicados por ele vieram me pedir para indicar pessoas e eu nunca fiz nenhuma restrição.
CC: Sobre a primeira gestão de Rimoli, os funcionários da EBC citam abusos como um suposto caso de censura em uma matéria que teria sido publicada pela Agência Brasil. O senhor tem conhecimento desse episódio?
RM: O episódio aconteceu quando eu estava fora. Eu acho errado retirar notícias. Isso é uma conduta errada e que não contaria, de maneira nenhuma, com a minha orientação. E realmente parece que houve isso. Acho que foi um erro. E se é um tipo de censura? Claro que é. Mas como eu não acompanhei o episódio...sob minha administração, isso não vai acontecer.
CC: O senhor acredita que esse episódio de censura pode ser um sinal do que deve ser a EBC na gestão do governo Temer?
RM: Sim. Acho porque a MP como ela está montada transforma a EBC em uma agência do governo. Nomeia todo mundo, tira todo mundo. Então a Medida Provisória coloca em risco a autonomia que a EBC deve ter. Tem duas coisas que garantem a autonomia: a manutenção do Conselho Curador e o financiamento. Sem isso, a EBC vai viver sempre ao sabor do governo de plantão
CC: O senhor conversou com Temer desde o início dessa disputa?
RM: O único com quem me encontrei foi Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, quando fui reconduzido ao cargo pelo STF. Ele falou que a presidência da EBC era um cargo estratégico para o governo e perguntou minha opinião. Eu falei: “Posso conversar com o senhor, ministro, em 2020. Meu mandato é de quatro anos”. Ele me tratou muito bem, falou que entendia minha oposição e disse que continuaria a tentar mudar o presidente. Eu disse: “Ministro, vou continuar lutando pelo mandato”, fruto de uma lei aprovada pelo Congresso, inclusive com o voto do Temer.
*Esta é uma versão ampliada de entrevista publicada originalmente na edição 918 de CartaCapital. Assine CartaCapital.

Juíza diz que trabalhadores resgatados da escravidão são “viciados” ABSURDO: é essa a Justiça que queremos?

Repórter Brasil

Juíza diz que trabalhadores resgatados da escravidão são “viciados”

Magistrada catarinense diz que trabalhadores eram “viciados em álcool e em drogas ilícitas” e poderiam “praticar crimes” quando libertados
por Piero Locatelli — publicado 19/09/2016 17h39, última modificação 19/09/2016 19h07
SRTE/SC
“[Os] Trabalhadores são, em sua maioria, viciados em álcool e em drogas ilícitas, de modo que […] gastam todo o dinheiro do salário, perdem seus documentos e não voltam para o trabalho, quando não muito praticam crimes.”
O comentário acima parece ter sido feito há mais de 100 anos, nos primórdios do mercado de trabalho assalariado no Brasil, mas foi proferido por uma juíza do Trabalho em Santa Catarina, neste ano.
A juíza Herika Machado da Silveira Fischborn se referia a 156 trabalhadores que não recebiam salários há pelos menos dois meses e tiveram seus documentos retidos pelos donos da fazenda onde colhiam maçãs, em abril de 2010.
Por lei, o empregador é obrigado a devolver a carteira de trabalho de um funcionário em até 48 horas após a assinatura do documento. Porém, segundo a juíza, a infração resultou em um suposto “benefício à sociedade”.
“O fato de reter a CTPS [carteira de trabalho] somente causa, na realidade, benefício à sociedade. É cruel isto afirmar, mas é verdadeiro. Vive-se, na região serrana, situação limítrofe quanto a este tipo de mão de obra resgatada pelos auditores fiscais do trabalho que, na realidade, causa dano à sociedade,” escreveu a juíza na sentença.
Sem dinheiro, documentos e transporte, os trabalhadores não conseguiam voltar para suas casas no interior do Rio Grande do Sul, de onde haviam saído com promessas de emprego. Eles sequer conseguiam chegar à cidade mais próxima, São Joaquim, a 40 quilômetros da fazenda onde trabalhavam, por estrada de chão.
Diante do caso, auditores fiscais do trabalho constataram o cerceamento de liberdade, suficiente para caracterizar trabalho análogo ao escravo, como define o artigo 149 do Código Penal.
A juíza, porém, anulou parte dos autos de infração registrados pelos auditores. Segundo a magistrada, eles agiram “de forma cruel” ao permitir que os trabalhadores voltassem “ao ciclo vicioso de trabalho inadequado, vício, bebida, drogas, crack, crime e Estado passando a mão na cabeça”.
Juíza pede que Polícia Federal investigue auditores fiscais
A magistrada não só anulou parte da operação dos auditores fiscais do trabalho, mas também pediu que a Polícia Federal os investigasse. Segundo Fischborn, eles “praticaram crime” porque “forçaram, inventaram e criaram fatos inexistentes”.
Ao negar os problemas encontrados no local, a juíza citou o procurador Marcelo D’Ambroso, que, durante a fiscalização, questionou a existência de trabalho escravo na fazenda.
O procurador, hoje juiz do trabalho, teria dito que “não foi constatada a presença de barracos de lona ou choupanas para acomodação dos trabalhadores, uma das características típicas do trabalho escravo contemporâneo”.
Procurado, D’Ambroso não atendeu ao pedido de entrevista da Repórter Brasil.
As cenas descritas pelos auditores fiscais e as fotografias tiradas na fazenda, porém, mostram que os alojamentos não se encaixam nos padrões mínimos determina dos pelo Ministério do Trabalho, que devem nortear o trabalho dos auditores nessas fiscalizações.

Condições de trabalho em SC
Colchões não tinham cobertores e pregos estavam aparentes
Em uma das regiões mais frias do Brasil, os trabalhadores da fazenda moravam em um barracão de alvenaria, em camas com pregos expostos, sem lençóis ou cobertores, e em colchões de espumas desgastadas.
Segundo a descrição feita à época, “os banheiros não possuíam portas e eram integrados aos quartos, fazendo com que a água do banho escorresse por debaixo das camas e aumentasse a umidade do local.” Ali, também não existiam sequer vassouras e outros equipamentos de limpeza.
Lilian Rezende, a auditora fiscal que coordenou a ação, diz que não inventou fatos, e que sequer foi ouvida pela juíza, que teria extrapolado as suas funções. “[É um processo] que desde o início me condena de pronto, sem permitir minha defesa.”
Neste mês de setembro, a auditora levou o caso – cuja sentença foi proferida em março – ao Conselho Nacional da Justiça, responsável pela supervisão dos juízes em todo o país, e à Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), vinculada à Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça.
Em sua defesa, a auditora lembra que o dono da fazenda foi governador de Santa Catarina e deputado federal em 1988. Henrique Córdova esteve à frente do governo entre 1982 a 1983, pelo então Partido Democrático Social (PDS), criado a partir de ex-integrantes da Arena, partido de sustentação da ditadura militar.
O empregador hoje é defendido por Ângela Ribeiro, ex-juíza da Justiça do Trabalho em Santa Catarina.
Procurada, a advogada não respondeu às ligações e e-mails da reportagem. A assessoria de imprensa do Tribunal Regional do Trabalho também afirmou que a juíza Herika Fischborn não iria se pronunciar, pois estava afastada do tribunal.
Outra juíza já havia derrubado autos de infração
A decisão de Herika não é a primeira a favor do empregador. O trabalho de fiscalização já havia sido derrubado por outra juíza do trabalho de Santa Catarina, em 2012. Na ocasião, a magistrada anulou a caracterização de trabalho análogo ao de escravo.
O caso chegou ao Tribunal Superior de Trabalho, que devolveu o processo novamente para as instâncias inferiores, em Santa Catarina. O tribunal pediu que os 24 problemas encontrados pelos auditores fossem analisados separadamente, e que os juízes não entrassem no mérito do que definia ou não o trabalho escravo.
Diante dessa sequência de decisões judiciais, o empregador não responderá na Justiça pelo crime de redução de pessoas a trabalho análogo ao de escravo. Já os auditores fiscais são os únicos que continuam a ter que se defender nesse caso.

* Reportagem publicada originalmente no site da Repórter Brasil 

"O que foi vendido como salvação é rapinagem"

Entrevista | Jogo de Carta

"O que foi vendido como salvação é rapinagem"

Governo do PMDB é o mais nocivo aos trabalhadores desde o início da Nova República, pois não tem compromisso com eleitorado, diz Boulos
por Mino Carta e Rodrigo Martins — publicado 19/09/2016 05h03
Roberto Parizotti / CUT
Guilherme Boulos
Boulos: "não é possível separar golpe do linchamento de Lula"
O ressurgimento dos movimentos sociais deve muito à militância de Guilherme Boulos, o lúcido e bem-articulado líder da Frente Povo Sem Medo, que trocou as confortáveis opções de egresso da classe média por uma combativa atuação no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Convidado do último Jogo de Carta, transmitido ao vivo no site de CartaCapital e no Facebook na noite da quarta-feira 14, Boulos não titubeia: a recente denúncia contra Lula é  “a consumação de uma farsa preparada há algum tempo”.
Para ele, o ex-presidente é vítima de um linchamento, mas não hesita em apontar seus erros. O mais grave deles: apostar numa impossível conciliação com as elites. O governo Temer, afirma, é o mais nocivo aos trabalhadores desde o início da Nova República, por não ter compromisso com o eleitorado. “O movimento pelas Diretas Já é a única forma de interromper essa ameaça”.
CartaCapital: O que representa a nova denúncia contra Lula?Guilherme Boulos: A consumação de uma farsa preparada há algum tempo. Depois de meses de investigação, um procurador da República apresenta-se para dizer que o ex-presidente é o comandante máximo da corrupção no País e, para respaldar essa afirmação, cita a reforma de um apartamento. Vai mal a corrupção no Brasil, não? Pior: não conseguem provar. Não tem conteúdo probatório. O que está em jogo é um verdadeiro linchamento de Lula, que não é julgado por seus erros. Naturalmente, haverá reação.
JC: Você acredita que essa reação pode vingar?GB: A farsa está bem montada, eles têm recursos muito poderosos. Mesmo assim, acredito na reação. Começa a cair a ficha. Não se pode separar o golpe do linchamento e tentativa de destruição de Lula. As pesquisas mostram uma queda de apoio ao impeachment.
Os cidadãos começam a perceber o que de fato está em jogo nesse processo, sobretudo quando entram na agenda política projetos que destroem a rede de proteção social, com retirada de direitos trabalhistas e previdenciários. O que foi vendido como salvação nacional, contra a corrupção, é, na verdade, uma rapinagem. O clima está mudando.
CC: Por que você tem essa percepção?GB: Eu andava pelas ruas e cheguei a ser hostilizado em São Paulo, em Brasília e nos aeroportos. Agora, aqueles que enchiam o peito para defender esse processo estão mais envergonhados. Aqueles que se juntaram por convicção estão desconfiados. Os que já estavam desconfiados começam a se voltar contra.
CC: Há pouco você mencionou os erros de Lula. Quais foram?GB: O principal foi ter apostado na conciliação com os de cima, os mesmos que promoveram o golpe. Ao chegar ao governo em 2003, Lula propôs um grande pacto nacional. Dizia: "no meu governo, todos podem ganhar". Então chamou todos à mesa. Deu voz aos movimentos sociais, mas manteve o diálogo com empresários e o setor financeiro.
Construiu-se uma habilidosa engenharia que por um período permitiu a todos ganhar. Os bancos tiveram lucros recordes nos últimos 13 anos. O agronegócio, as empreiteiras, o setor da construção civil, mineração. Os trabalhadores também ganharam alguma coisa, gotejou algo para a senzala. Por um período, isso deu certo.
CC: Por que deu certo no início e desandou depois?GB: Deu certo por causa do crescimento econômico relevante que permitia esse ganha-ganha, permitia sustentar uma política de crédito popular, aumentar o consumo dos trabalhadores, criar programas sociais, colocar os mais pobres e os negros nas universidades. Isso ocorreu sem o enfrentamento de nenhum privilégio. Faltou perceber que se tratava de uma política com prazo de validade. Isso tem a ver com o acesso dascommodities e o crescimento da China. Depois, teve a crise de 2008 e uma tentativa de política anticíclica, mas os níveis de crescimento baixaram consideravelmente.
Lula
'O maior erro de Lula foi acreditar que sentaria à mesa da Casa Grande' (Foto: Ricardo Stuckert)
Isso reduziu a margem de manobra para fazer o ganha-ganha. Seria preciso cortar de algum lado. Além disso, os governos petistas apostaram em uma governabilidade estritamente parlamentar, em aliança com as forças conservadoras, sem mobilização nas ruas. Não se incluiu a massa nesse acordo político.
CC: Houve desmobilização dos sindicatos e movimentos sociais?GB: Sim, e hoje paga-se o preço. Criou-se uma crença de que o governo resolveria, não eram mais necessárias grandes mobilizações. Isso enferruja as engrenagens dos sindicatos e movimentos sociais. O movimento social, de forma geral, não consegue mobilizar, pois deixou de fazer trabalho de base. E a postura da Dilma após 2014 foi muito ruim. Ela adotou o programa do adversário.
CC: E chamou para a Fazenda um fanático do apocalipse.GB: É verdade (risos). De toda forma, erro fundamental dos governos petistas, do Lula e da Dilma, foi acreditar que sentaria à mesa da Casa Grande, com o pacto de não tocar nenhuma das reformas estruturais, como a agrária, a urbana e a tributária.
CC: Como você qualifica essa postura?GB: Acho que houve falta de coragem para o enfrentamento, mas também uma ilusão sobre a vocação histórica da burguesia brasileira. Acharam que a burguesia os toleraria, mas ela tem uma natureza própria da Casa Grande. Esses avanços sociais do governo Lula foram graduais e limitados, um reformismo frágil, como definiu o economista André Singer. Para a elite, foram demasiadamente intensos, geraram pânico e terror. Bolsa Família, para eles, é bolivariano. Preto na universidade, pobre viajando de avião, eles não engolem. É uma questão visceral.
CC: No Brasil, parece só ser possível a conciliação entre as elites, jamais com a ralé.GB: É isso. Essa é a natureza da burguesia brasileira. As elites toleraram os governos petistas por algum tempo não apenas porque continuaram ganhando, mas também porque essas gestões tinham algum respaldo popular. O que deu condições e base social para o golpe foi o ajuste fiscal de Dilma. Quando ela se volta contra a base que a elegeu, dá a oportunidade para a burguesia dar o bote, dá força a essa direita rançosa e atrasada.
CC: O rapper Mano Brown observou que a periferia virou as costas para Dilma. Você concorda?GB: Concordo, a constatação dele está correta. Se olhar o perfil das manifestações de 2015 para cá, tanto nos atos de verde-amarelo, convocados ardentemente pela Globo e financiados pela Fiesp, quanto nas manifestações contra o golpe, em nenhuma delas estava presente a grande massa das periferias urbanas. A periferia assistiu a tudo aquilo com indiferença, entendeu que tudo não passava de uma briga de políticos, “que se comam, que se matem”. O grande desafio, hoje, é trazer esse grande protagonista social para as ruas novamente.
CC: Como a esquerda pode fazer isso?GB: Não há mágica. A esquerda passou um longo período sem fazer trabalho de base. Aquele trabalho de porta em porta, de acolher, de buscar entender os problemas. Hoje, quem faz isso nas periferias são as igrejas evangélicas. Não à toa elas cresceram tanto nos últimos anos.
CC: Por que a esquerda deixou de lado o trabalho de base?GB: A esquerda voltou-se demais para a política institucional. Estava preocupada em eleger vereadores, prefeitos, deputados, governadores, para depois chegar à Presidência da República.
CC: A esquerda se acomodou nos gabinetes.GB: Exatamente. Aquele que pisava no barro nos anos 1980 virou assessor parlamentar na década seguinte.
CC: Isso não revela uma profunda falta de crença?GB: Na verdade, acho que reflete outro tipo de fé: o de que a política institucional, isoladamente, é capaz de resolver as coisas, e não é. O PT chegou à Presidência e ficou lá por 13 anos. Mas sem o respaldo da mobilização popular ficou refém das negociatas de sempre. Aos poucos, o projeto perdeu a capacidade de dialogar com o povo.
CC: Muito antes de o Senado concluir o julgamento de Dilma, sabia-se que a presidenta não teria a menor chance de salvar o mandato. A esquerda, contudo, demorou a chegar a um consenso. Mesmo a bandeira das "Diretas Já" foi rejeitada por muitos.GB: A gente vive um momento de fim de ciclo na esquerda brasileira, com a ausência de um guarda-chuva capaz de aglutinar. Nesse cenário, é quase inevitável a fragmentação. Temos tentativas de criar uma nova esquerda. O PT ainda é forte no movimento social e sindical, mas não tem mais autoridade política e moral para assumir a hegemonia. Em relação às “Diretas Já”, não entendo como essa bandeira possa legitimar o golpe, que está legitimado pelo Congresso, pelo Supremo.
CC: E por que Lula vai à posse de Carmen Lúcia?GB: Achei um gesto desnecessário, que expressa certa crença em novos pactos e conciliações. Por isso, é equivocado.
CC: As Diretas são possíveis objetivamente?GB: Acredito que sim. Temos um presidente ilegítimo, que desrespeitou a vontade manifestada pelo voto. Isso, por si só, justificaria a convocação de novas eleições para restituir a soberania popular. Os caras do outro lado conseguiram destituir uma presidenta eleita com argumento de pedalada fiscal, rasgando a Constituição e com o beneplácito do STF. Romero Jucá foi clarividente em suas declarações para Sergio Machado.
Estava tudo combinado, só não vê quem não quer. Mas tem gente na esquerda que acredita que o frágil governo Temer pode ser mais interessante que um eventual governo tucano eleito pelas urnas. Na minha opinião, o governo Temer é o mais perigoso para os trabalhadores desde o início da Nova República.
CC: Por quê?GB: Por conta de sua própria fragilidade. Temer não foi eleito, não pretende a reeleição, não tem compromisso algum com o eleitorado. Não precisa prestar contas a ninguém. Pode tocar um programa de terra arrasada.