segunda-feira, 3 de outubro de 2016

As três infâmias da Operação Lava Jato


As três infâmias da Operação Lava Jato

A regra dos Estados autoritários, em todos os tempos, é sempre a mesma: escolhe-se o inimigo, decidem-se as penas e depois, ‘julga-se’.
por Roberto Amaral — publicado 22/09/2016 18h39, última modificação 22/09/2016 22h01
Ricardo Stuckert/Fotos Públicas
A cidadania e o que resta de consciência jurídica neste país macunaímico, foram agredidos por três infâmias desde sempre anunciadas, como a morte de Santiago Nasar que Gabriel Garcia Márquez tornou simbólica em sua novela genial: a anunciada denúncia dos procuradorescontra Lula, sua anunciada recepção por um juiz irrecuperavelmente suspeito e, finalmente, o esperado despacho do presidente do Senado Federal, condenando ao arquivo das peças mortas dois pedidos de impeachment interpostos contra o inefável ministro Gilmar Mendes.
Sabia-se, sabiam o céu e a terra, que os jovens aprendizes de Torquemada denunciariam Lula, como tudo farão para vê-lo atrás das grades, independentemente de provas, independentemente da ordem jurídica, ferida, agredida, desmoralizada dias após dia.
Denunciariam porque, para a consolidação do golpe (um golpe em processo) é preciso liquidar, no mais rigoroso sentido da palavra, o ex-presidente, que insiste em manter-se à tona; sabíamos, sabiam até as pedras de mármore do STF, que o juizSérgio Moro aceitaria a denúncia.
Sem precisar lê-la (aceitaria mesmo antes de recebe-la), pois essa era sua missão (como é amanhã a de condenar, com provas ou sem provas) em todo esse processo ignominioso, que ficará em nossa História como ficaram para sempre, paradigmas do horror policial-judicial, os processos stalinistas contra os dissidentes soviéticos, como ficaram as perseguições e a violência do macarthismo nos EUA (apoiado no Congresso e aplaudido pela mídia), assim como já faz parte da má história do Judiciário brasileiro a condenação, pelo STF, de Olga Benário à deportação e sabidamente às câmeras de gás da Alemanha nazista.
Todas elas barbaridades perpetradas ‘com amparo da lei’, como o golpe do impeachment, pois o formalismo jurídico jamais foi instrumento de defesa dos direitos individuais, da democracia ou das liberdades. Ao contrario, é frequentemente usado como instrumento de opressão, manipulado pelos senhores da vez.
O celebrado juiz Sérgio Moro (que se julga ‘eleito pelo Senhor’) atua, em um mesmo processo, a um só tempo, como policial, investigador, promotor e julgador, o que, além de injusto para com o acusado, todo e qualquer acusado, viola tanto a legislação processual quanto a garantia constitucional de processo justo.
Não há que se falar em processo justo (e muitos menos legal) se o juiz é injusto. É a hora de repetir, com a ministra Cármen Lúcia, o seu discurso de posse no Supremo Tribunal Federal: “Há de se reconhecer que o cidadão não há de estar satisfeito, hoje, com o Poder Judiciário”. Não, não pode estar satisfeito. Não sei, porém, se nossas insatisfações têm a mesma raiz.
Convicção formada  
Os juízes do Tribunal de Segurança do Estado Novo e os juízes das auditorias militares e do Superior Tribunal Militar da ditadura implantada em 1964, que condenaram centenas de resistentes, não precisaram de ‘provas’; como aos promotores de hoje, bastava-lhes naqueles tempos a mera a ‘convicção’.
Chegavam todos para as sessões com seus votos prontos, convicção firmada.
O resto, era simplesmente a liturgia. Também não precisavam de provas – elas seriam obtidas na tortura – os sicários que atuavam nos porões da ditadura, em dependências das três forças e de todas as polícias estaduais, condenando, para depois julgar, suas vítimas. Eles também se julgavam ‘eleitos’ para a santa missão de ‘livrar o Brasil do comunismo materialista’.
A regra dos Estados autoritários, aqui e agora, como em toda a parte e em todos os tempos, rotineiramente com a conivência ou mesmo a participação do Poder Judiciário, como hoje, é sempre a mesma: escolhe-se o inimigo (e a escolha já implica condenação), decidem-se as penas e depois, ‘julga-se’.
Quem viveu os ‘anos de chumbo’, quem frequentou uma auditoria militar, quem assistiu a uma só sessão do STM sabe de que estou falando.
No caso de Lula, a condenação anunciada (e sabe-se que será condenado pelo juiz Moro, independentemente de sua defesa e da existência ou não de provas) é apenas instrumental, contingente, pois o grande objetivo é a condenação na segunda instância (o Tribunal Regional Federal), já anunciada pela Folha de S. Paulo do último dia 21, para, assim, alcançada a penalidade da Lei da Ficha Limpa, inviabilizar sua eventual candidatura em 2018, no que jogam todas as forças conservadoras deste país.
O resto é filigrana, ou, em bom português, ‘conversa para boi dormir’, a que se dedicarão procuradores, juízes e os colunistas da grande imprensa.
Os novos agentes da velha ordem são movidos pela mesma convicção de que se sentiam possuídos os juízes da Santa Inquisição que condenaram Giordano Bruno.
Messiânicos, se atribuem a tarefa, ditada pelos céus, de ‘limpar’ o país da corrupção, e assim, auto escolhidos cruzados modernos, partem para massacrar os ímpios e os hereges e o que fizerem será sempre justo porque terão agido, em nome de Deus.
Cumprindo sua parte num roteiro pré-elaborado, o senador pelas Alagoas (que já nos deu o velho Teotônio Vilela e nos dá insistentemente Fernando Collor), leu, balbuciante, claudicante, o texto tatibate que lhe escreveram, para declarar, sem jamais justificar, o não conhecimento de duas petições justificadas e fundamentadas, firmadas por uma dúzia de juristas brasileiros e eminentes professores de direito constitucional, contra o ministroGilmar Mendes.
Como todo o país sabe, sabe todo o Senado, sabem todos os ministros do STF e do TSE, sabem todos os viventes e até o reino mineral, a atuação judicante desse ministro está comprometida pela sua clara, ostensiva, evidente, inegável filiação partidária, filiação que não precisa de assinatura de ficha na secretaria do PSDB, pois se consagra na comunhão fática, programática, eleitoral e ideológica.
Enfim, na comunhão de interesses.
Essa atuação facciosa, além de jamais negada pelo ministro, foi, exaustiva e documentalmente, demonstrada nas duas peças que o presidente do Senado desconheceu, sem precisar ler, repito, pois rejeitá-las era seu compromisso de vida ou de morte.
Aliás, a rejeição foi previamente anunciada, já antes mesmo do ingresso das peças jurídicas.
E como poderia o senador Renan Calheiros dar provimento a esse pedido de sincera defesa da magistratura, se tem sob seus ombros algo como nove inquéritos e alguns processos já com denúncia, os quais, em função do foro privilegiado a que faz jus, serão jugados pelo STF, onde pontifica seu protegido-protetor?
Também não podia, ainda por força de suas circunstâncias pessoais de eventual réu, arguir sua própria suspeição em face de processo que poderia atingir um de seus prováveis julgadores. Não, não podia, pois, cabia-lhe, era sua parte indescartável nesse jogo de cartas marcadas, tão-só deter no nascedouro qualquer ameaça à judicatura política de Gilmar Mendes. 
Desta feita, Renan Calheiros não enganou. Procurado para marcar data e hora para o ingresso de uma das petições, negou-se a receber seus autores. Indicando-lhes o protocolo do Senado, antecipou, de logo, que determinaria o arquivamento do pedido, como já o fizera, aliás, com cinco outros.
A justificativa, comentam seus colegas no cafezinho do Senado, seriam os muitos favores por ele devidos ao ministro. Agora, talvez, possa dizer, em seu proveito, que a recíproca é verdadeira.
À solta, com a imprensa a reverberar suas declarações, entidades de classe de toda ordem a chamá-lo para palestras sobre tudo, em meio às suas viagens durante a semana de trabalho (que tempo lhe sobra para a judicatura em dois tribunais superiores?), o ministro moureja para que o julgamento do pedido de impugnação das contas da chapa Dilma-Temer, que pode levar à cassação do vice feito presidente, não prospere. No caso, as atribuições ou tratativas do magistrado são várias.
Uma ele já anunciou e reanunciou em suas sucessivas entrevistas; separar a campanha de Dilma daquela de seu lamentável vice, salvando este dos efeitos da cassação da chapa na qual foi eleito sem fazer campanha própria e sem ser votado. Por resguardo e segurança, trata, o ministro, agindo como líder político, de evitar que o processo prospere ou, pelo menos, que seja julgado ainda neste ano.
A razão é simples: nos termos da Constituição Federal (Art. 84) haverá eleição direta (e dela os donos do poder fogem como o diabo da cruz) se a vacância da presidência, no caso a cassação da chapa eleita em 2014, ocorrer antes do fim do mandato (1º de janeiro de 2017). Dando-se a vacância depois dessa data, a eleição do novo Presidente da República far-se-á por eleição indireta, ao encargo do Congresso.
Nessa eleição o PSDB, como demonstraram as votações do impeachment de Dilma Rousseff nas duas Casas, terá todas as condições de eleger um Aécio Neves qualquer, ou, quem sabe, repetindo 2015 nas eleições para a presidência da Câmara, um Eduardo Cunha qualquer. O ministro Gilmar está atento e maquinando.
Temer que se cuide, pois sua garantia vence no final do ano.
A militante periculosidade do juiz partidário se agrava com a cumulação do papel de ministro do STF com o de presidente do TSE, máxime em ano eleitoral.

Violência
Chega a notícia de mais uma arbitrariedade, violência e ilegalidade do sempre impune juiz Sérgio Moro, determinando, sem justificativa, a prisão, já relaxada, do ex-ministro Guido Mantega, apanhado em um hospital paulistano quando acompanhava a cirurgia de sua esposa, vitima de um câncer. Os tolos antes nele não acreditavam; hoje só os despidos de caráter podem negar a existência de um Estado autoritário sustentado por uma ‘ditadura constitucional’, a pior delas, a da toga. 

Leia mais em www.ramaral.org
Fonte: Carta Capital

Os desafios das esquerdas fragmentadas

Os desafios das esquerdas fragmentadas

A história mostra que não haverá vitórias particulares no campo progressista e que só a unidade pode gerar resultados efetivos
por Roberto Amaral — publicado 29/09/2016 09h58
Divulgação
Debate no Rio de Janeiro
Debate para a prefeitura do Rio de Janeiro: o que explica quatro candidaturas de esquerda?
Quem não aprende com a História está condenado a repetir seus erros, e esse é o mais eficiente caminho para o suicídio político.
Reporto-me aos erros crassos, táticos e estratégicos das esquerdas brasileiras, erros que vêm, desde lá atrás, e em nossos dias mais do que nunca, alimentando as recidivas da direita autoritária, antidemocrática por natureza e programação genética. O Estado autoritário de hoje, fundado numa ‘ditadura constitucional’ que instalou a exceção jurídica e a ‘lei em movimento’, não é fruto do acaso e precisamos avaliar quanto contribuímos para sua eclosão e agressiva sobrevivência.
No fundo da sequência de erros está a dificuldade das esquerdas orgânicas de compreender corretamente o processo histórico. Sem visão estratégica, muitas vezes apoiados em base doutrinária inconsistente, repetimos trilhas já caminhadas e que levaram a fracassos rotundos.
No plano mais geral, erramos quando, optando corretamente pela via democrática, não compreendemos a gênese das alianças eleitorais e frequentemente saltamos do isolamento anti-aliancista (o PT de ontem eo PSOL de hoje) para a promiscuidade de siglas corruptoras de nossos programas (o PT que aí está), com as consequências que estamos colhendo desde 2005, para desespero de uma generosa militância.
O varguismo pós 1945 investiu na alienação das lideranças sindicais transformadas em funcionários (ocupantes de sinecuras) do Ministério do Trabalho, fenômeno que a direita anatematizou sob o apodo de ‘peleguismo’, e contra o qual o PT se ergueu em seu nascedouro de São Bernardo do Campo. Mas, no governo, o lulismo subsumiu as lideranças sindicais e as de setores significativos do movimento social, chamadas para a burocracia estatal.
Getúlio Vargas conheceu o preço dessa distorção quando se viu ilhado no Palácio do Catete. O reencontro com as multidões, naquele então desesperadas, somente se daria com seu suicídio. Na crise política do lulismo, são os trabalhadores e as grandes massas os elementos de mais difícil mobilização.
É que a opção democrática, sempre correta, levou-nos a um eleitoralismo sem limites, e a disputa da governança a um pragmatismo que rasgou programas e valores. Simplesmente aceitamos sem reação crítica o modelo da política burguesa. Nas coligações eleitorais nossos partidos seguem os padrões e valores da direita, a mixórdia espancando da política as índoles das proposições partidárias. É a ‘lógica’ de um ‘mercado’ especioso, concessão tendente a afastar os partidos e os governos de esquerda da luta na sociedade e refugar o movimento de opinião dos grandes coletivos. 
Paradigma dessa incapacidade de ler o processo político para nele situar-se corretamente é a divisão das esquerdas no pleito que se travará no próximo domingo, divisão a que se somam opções contraditórias, esdrúxulas, incoerentes, inexplicáveis, que desorientam as massas, contribuem para despolitização e deixam atônicos, e órfãos, militantes e eleitores.
Como explicar que o bravo PCdoB, que teve e tem tido posições tão firmes e corajosas na defesa da legalidade democrática e, por consequência, do mandato  da presidente Dilma Rousseff, esteja, na simbólica Recife (a Recife ‘vermelha’, de Pelópidas da Silveira e Miguel Arraes), apoiando a reeleição do prefeito, candidato de direita e da direita, contra João Paulo, candidato do PT e das esquerdas, em condições de reconciliar-nos com a consagração eleitoral? 
E como explicar que, em Olinda, o PT tenha candidatura própria, dividindo a esquerda e ameaçando a eleição de Luciana Santos, presidente nacional do PCdoB, que concorre com o representante do clã dos Campos?
Como explicar que em João Pessoa os comunistas estejam apoiando o candidato da direita, de Cássio Cunha Lima, de José Maranhão, do PSDB, do PMDB, do DEM do PSD e do PSC do clã Bolsonaro com quem também estão coligados para as eleições proporcionais, contra a candidata da esquerda, Cida Ramos?
Em Fortaleza, está dividida a base de sustentação do governador Camilo Santana (PT), que apoia a reeleição do prefeito Roberto Cláudio (PDT), cujo vice é o deputado Moroni Torgan (DEM), policial mórmon e, acima de tudo, protofascista militante. Em Porto Alegre,Luciana Genro (PSOL), que hesitou em denunciar o caráter golpista da deposição de Dilma Rousseff, é a principal adversária da candidatura de Raul Pont (PT), que assim corre o risco de não ir para o segundo turno.
E que dizer do Rio de Janeiro, onde nossas quatro candidaturas – multiplicidade até aqui sem justificativa política – são a garantia de que estaremos fora do segundo turno?
Em São Paulo, maior centro industrial da América Latina, a esquerda, dividida, se debate entre o quarto e o quinto lugares e assiste à ascensão do que há de mais alienado e reacionário na política paulistana, a que serve de espoleta a ex-prefeita, ex-deputada, ex-senadora e ex-ministra (governo Dilma) do PT – que dele desembarcou para lutar contra a corrupção ao lado de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Romero Jucá e quejandos. E a favor do golpe. 
Qual o discurso dessas coligações que se negam como um paradoxo? O que dizem para o enfrentamento ao golpe em processo, marchando para a alienação de nossa soberania, para a destruição de direitos trabalhistas vigentes há mais de sete décadas e para a destruição de direitos sociais estabelecidos pela Constituição, na sequência de grandes lutas que cobraram de seus atores muito suor e dor, desemprego e prisões, torturas e assassinatos?
Nossas dificuldades não são de hoje. Lembremos 1954, quando o PCB aliou-se faticamente à UDN, e Luís Carlos Prestes aliou-se a Carlos Lacerda e à grande imprensa, na campanha pela renúncia-deposição de Getúlio Vargas. Nas vésperas do suicídio, a Voz Operária, do comitê Central do Partidão, circulava com manchete em que denunciava o presidente como agente do imperialismo norte-americano.
Luiz Carlos Prestes
Luiz Carlos Prestes em 1945: em 1954, ele se aliaria faticamente a Lacerda (Foto: Arquivo / EBC)

Para seu opróbrio, o jornal comunista, no dia 24 de agosto, anunciado o desfecho trágico, foi, com a Tribuna da Imprensa, de Lacerda, empastelado pelas massas revoltadas, no momento em que eram incendiados os caminhões dos veículos d'O Globo, que então já era o que é hoje.
A tragédia de Getúlio começou a ser escrita quando lhe faltaram forças para impedir a instalação da ‘Republica do Galeão', assim como a deposição de Dilma Rousseff começa a efetivar-se quando a presidente se descobre sem forcas para nomear Lula seu ministro da Casa Civil.
Em 1964, na famosa conferência no auditório da ABI, Prestes garantia a inviabilidade de um golpe de Estado contra Jango. Para uma plateia de jovens militantes discorria sobre a "tradição legalista das Forças Armadas", desmentida pela história pretérita e pelos fatos seguintes que não soube ver.
Meses antes, o mesmo Prestes e o PCB, mais Leonel Brizola e Miguel Arraes, a UNE (presidida por José Serra, que acusava João Goulart de comandar um ‘governo de conciliação’), Oswaldo Pacheco, dirigente do Pacto de Unidade e Ação Sindical, unem-se à reação, aos grandes jornais, e, de novo, à UDN e a Lacerda, contra o pedido de decretação de Estado de Sítio apresentado pelo presidente ao Congresso para enfrentar a sedição fomentada pelos governadores Carlos Lacerda e Ademar de Barros. O governo Jango, isolado, recua. Começava a cair. 
A concepção de Frente Ampla como instrumento de unidade de ação da esquerda, experimento vitorioso em 1961, quando impediu o ensaio do golpe que se materializaria em 1964, fôra abandonada, com as consequências conhecidas (21 anos de ditadura), para ser retomada apenas nos anos 1970/80, para aí então, com o povo nas ruas, conduzir a redemocratização assinalada pela implosão do colégio eleitoral, em 1984. Por incompreensão do processo, ou oportunismo eleitoral, o jovem PT se recusaria a votar em Tancredo Neves e assinar a Constituição de 1988. 
A Frente, necessariamente ampla, costurada na sociedade a partir de pontos programáticos e assimilados é, não o melhor, mas certamente o único instrumento de luta das forças populares sempre que o processo histórico lhes impõe, como agora, momentos de inflexão ou lhe cobra o enfrentamento a regimes de exceção. Se uma grande e ampla Frente – reunindo democratas e comunistas, civis e militares, estudantes e trabalhadores e mesmo liberais –, teve papel marcante na derrubada do Estado Novo, nossa divisão em 1954 deixou Vargas à míngua e assim à mercê da República do Galeão.
Foi uma Frente democrática que assegurou, em 1955, a posse de Juscelino e Jango; e uma frente ainda mais ampla que garantiu, na crise de 1961, a posse de Jango. Em contraste, nossas divisões e o voluntarismo (e o personalismo) de setores da esquerda facilitaram o golpismo que tomaria o poder em 1964.
Nossa crise de hoje caminha para além do desarranjo organizacional e abarca questões ideológicas, clamando pela necessidade de uma ampla e corajosa releitura da História recente. A luta concreta revela que não haverá entre nós ‘vitórias particulares’, que nenhum partido de nosso campo sobreviverá alimentando-se da carcaça de outro.
A alternativa imposta pela realidade é a construção da unidade como ponto de partida de uma política de Frente, e a semente pode ser a vitoriosa Frente Brasil Popular, a partir das bases sociais, sem hegemonismos, num movimento de convergência para o qual não contribui a dilaceração partidária dessas eleições. Que as derrotas de hoje nos mostrem o caminho de vitórias futuras!
Leia mais em www.ramaral.org 

Fonte: Carta Capital

Mas esta é ditadura


Mas esta é ditadura

A marcha acelerada da insensatez avança sobre terra arrasada, a prepotência escala e a Justiça politiza-se com ardor e desfaçatez
por Mino Carta — publicado 03/10/2016 04h27
Latinstock
Marcha sobre Roma
A Marcha sobre Roma entrou na capital e o rei entregou de graça a Itália à ditadura fascista
E me vem à mente um largo período da história italiana do século passado. A Itália é Estado nacional há menos de meio século e em 1918 acaba de sair de uma guerra, a primeira mundial, que matou 600 mil cidadãos ainda incertos quanto à sua nacionalidade.
Um ex-socialista, cabo da infantaria durante o conflito, funda um jornal em Milão e inventa ofascismo, movimento destinado a se tornar partido com grande rapidez, ao explorar, sobretudo, recalques e ambições pequeno-burguesas. À sombra de uma ideologia aparentemente nova, de fato vetusta por ser própria das almas complexadas, forma-se aos poucos a Marcha sobre Roma, que levaria Mussolini ao poder.
Dino Risi, um dos grandes cineastas do neorrealismo, realizou um filme extraordinário intitulado, justamente, La Marcia su Roma, interpretado por Vittorio Gassman no papel de um pretenso espertalhão, malogrado no seu oportunismo, e Ugo Tognazzi, campônio bronco, embora capaz de instantes de lucidez. Ambos representantes de uma humanidade provinciana e ignorante, pronta a se agregar à Marcha na busca de uma espécie de revanche, a ocasião de ouro da afirmação.
Não faltará, ao longo da rota a partir dos mais diversos recantos na direção da capital, a passagem pela casa de campo de ricos senhores, os quais, em relação à Marcha, mantêm uma posição cautelosa sem deixar de ficar clara sua adesão, se conveniente. Saio do cinema e entro na história.
A Marcha alcança as portas de Roma e os generais cercam o rei, querem barrar a entrada da turba. “Basta um canhonaço para botá-los em fuga”, afirma o general Facta, comandante do exército. “Deixe-os entrar”, diz o soberano. E este, daí em diante, não seria o único pecado de Vitor Emanuel III.
A malta desfilou pelas ruas da Cidade Eterna, e na frente vinham Mussolini e seus três lugares-tenentes, os quadrunviri, a incluir o chefe. Trilussa, poeta romano, escrevia fábulas morais em dialeto, muitas delas traduzidas para o português com extrema felicidade por Paulo Duarte, que tinha Trilussa como um La Fontaine moderno. De fato, vercejava a respeito de animais que agem como o bicho-homem. No caso, entretanto, falou doMussolini, e o viu de fraque, polainas e as meias furadas.
O rei não hesitou em nomeá-lo primeiro-ministro e o escolhido assumiu com a maioria parlamentar ao jurar sobre a Constituição que rasgaria depois de dois anos, em 1924. Antes ordenara o assassínio de Matteotti, líder socialista e seu principal opositor. Em seguida, fechou o Parlamento, fundou a ditadura do partido único, o Fascista, e passou a se chamar Duce, o dux da antiga Roma.
Nos seus discursos, referia-se a si próprio na terceira pessoa, mais ou menos como Pelé, impôs o uso da camisa preta, a preferida de Sergio Moro, ao menos aos sábados, censurou a imprensa e obrigou os militantes do partido a vestirem uniforme de feitio discutível, de vago gosto circense, em proveito das gargalhadas dos lordes londrinos.
No poder por 23 anos, absoluto por 21, a se incluir o estertor da República de Salò, Mussolini foi fuzilado em meados de 1945 por guerrilheiros comunistas quando fugia a caminho da Suíça em companhia da amante.
Os cadáveres de ambos, juntamente com mais 11 de chefões fascistas, acabaram pendurados de cabeça para baixo em uma bomba de gasolina de uma praça milanesa. Por que me ocorre relembrar esse passado?
Porque a tibieza de Vitor Emanuel III entregou a Itália a uma ditadura longeva e amiúde celerada, capaz de aliar-se a Hitler, a introduzir as leis raciais, empregar gás na guerra colonial da Etiópia, prender em campos de concentração os opositores que não conseguiram se asilar no exterior.
O golpe em andamento no Brasil de 2016 tem suas peculiaridades, adequadas a um país de 500 anos que padeceu três séculos e meio de escravidão e no qual a casa-grande e a senzala continuam de pé. Vale acentuar que o fascismo era nacionalista, enquanto o governo imposto pelo golpe é francamente entreguista.
Quadro
O indivíduo acima não é da PF, mas seria se vestisse roupas de hoje (Foto: Latinstock)
De todo modo há similitudes. Em primeiro lugar, a tibieza, que assim chamo para não recorrer a palavras mais fortes. Faltou quem se dispusesse a convocar a sua artilharia. Por que não o fez? Em nome de quais conceitos e princípios? Em nome de um bom comportamento que os inimigos repudiam?
Insisto na minha convicção de que Dilma Rousseff, no lance final do impeachment, ao falar em sua defesa no Congresso que a desrespeitava, e com ela seus eleitores, em lugar de expor o óbvio deveria manifestar seu desprezo pelos golpistas e passar a ler, a bem do povo brasileiro, a ficha criminal de cada um dos seus acusadores.
Lula, então. No momento busca contato esclarecedor junto às populações nordestinas. Entendo que teria de zarpar muito antes, começo do ano passado, desde o momento em que a estratégia golpista estava perfeitamente desenhada e definido seu objetivo final: adestruição do Partido dos Trabalhadores e de seu líder.
Tratava-se de deter a marcha da nossa burguesia, mínima de tão pequena do ponto de vista moral e intelectual, dos oportunistas e dos beócios. Não houve quem o fizesse. Creio que a artilharia de Lula tenha muito mais poder de fogo do que ele próprio imagina.
Vivemos agora o marasmo que talvez pudesse ter sido evitado. Vivemos a ditadura da casa-grande, certa da sua hegemonia absoluta, e por ora satisfeita com o serviço prestado por uma quadrilha no comando do País à deriva. A maioria dos brasileiros é a vítima ignara de tanto descalabro. Impotentes os cidadãos em condições de se aterem aos ditames da razão.
Sofremos uma espécie de neofascismo, sem dux e sem outro projeto senão aquele de assegurar a supremacia incontestável de quem de fato manda há 500 anos. Neste barco reacionário faltam timoneiro e uma tripulação capazes de escapar ao naufrágio. Mas não basta para alimentar esperanças democráticas.
Como observa Fábio Konder Comparato, entrevistado nesta edição, a crise econômica recrudesce e o desastre da marcha dos insensatos precipita com ela. A razão, no entanto, não avaliza o “quanto pior, melhor”. E não adianta, está claro, confiar na compreensão do mundo.
Sabe-se perfeitamente nas grandes capitais o que acontece no Brasil de hoje, e um jornal alemão chega a recomendar aos seus leitores que deixem de assistir seriados policiais dos EUA para acompanhar, com diversão bem maior, o desenrolar do golpe brasileiro.
O mundo, quando muito, nos considera exóticos e peculiares, primitivos, e ali alguns poderosos se agradam com as benesses ofertadas aos seus bolsos pelos astronômicos juros aqui praticados. É a farra prometida ao capital estrangeiro e aos rentistas nativos, fabricantes de dinheiro em espécie.
Os ativistas do neoliberalismo se regozijam com a perspectiva, e nem se fale de Tio Sam, muito mais presente por trás do golpe do que se supõe. Envolvido até a cartola listrada.
Além de tudo, os nossos graúdos gostam de ser súditos do império. Onde assenta um resquício de esperança democrática? Haveria de ser a Justiça. Pois no Brasil fascistoide a Justiça simplesmente não existe. 

Fonte: Carta Capital

CAINDO A MÁSCARA: E NÃO ERAM A P A R T I D Á R I O S ?

MBL elegeu oito de seus 45 candidatos

 

Integrantes do movimento que se dizia "apartidário" conquistaram a prefeitura de Monte Sião (MG) e sete vagas de vereador, quatro delas pelo PSDB
por Redação — publicado 03/10/2016 10h26
Divulgação
Renan Santos, Kim Kataguiri, Fernando Holiday e Bruno Covas
Renan Santos, Kim Kataguiri, Fernando Holiday e Bruno Covas durante campanha
Movimento Brasil Livre, um dos grupos que liderou os protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff desde 2015, conseguiu eleger oito dos 45 candidatos que apoiou naseleições municipais de 2016. Para obter esse aproveitamento, de 17%, o grupo elegeu um prefeito no interior de Minas Gerais e sete vereadores, sendo três no estado de São Paulo, dois no Paraná e outros dois no Rio Grande do Sul.
Durante todo o ano de 2015 e o início deste ano, o MBL vendeu sua imagem como a de uma entidade apartidária, que estava nas ruas "contra a corrupção". O avanço do processo de impeachment e aproximação das eleições mostraram que não era bem assim. 
Ainda em 2015, começaram as conversas para integrantes do grupo se lançarem ao pleito municipal por partidos estabelecidos. Em abril, três integrantes do grupo – Kim Kataguiri, Renan Santos, que responde a diversos processos judiciais, e Rubens Nunes – conseguiram acesso à Câmara para acompanhar a votação do impeachment na Casa. 
Os três foram credenciados pela Mesa Diretora da Câmara, sob as ordens de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deputado cassado. Réu duas vezes por corrupção no Supremo Tribunal Federal (STF), Cunha jamais foi alvo do MBL. Após sua cassação, integrantes do movimento buscaram se afastar dele. 
Em maio, reportagem do portal UOL mostrou que manifestações do MBL eram financiadas por partidos. No grupo estavam DEM, PSDB, SD e PMDB, todos opositores do PT. No mesmo período, o movimento confirmou que lançaria candidatos e abandonou o rótulo de apartidário, passando a se dizer "suprapartidário". Na busca por alterar sua imagem, o grupo apagou postagens em suas redes sociais nas quais se definia como "apartidário".
Nas eleições municipais, o grupo lançou 45 candidatos, um a prefeito e 44 a vereador. Os partidos com mais filiados do MBL eram o PSDB e o DEM, com dez cada um. Havia ainda candidatos por PP, PSC, Novo, PEN, PHS, PMDB, PPS, PRB, Pros, PSB, PTB, PTN, PV e SD.
Zé Pocai (PPS), do MBL, se tornou no domingo 2 o novo prefeito de Monte Sião (MG), após obter 5,9 mil votos e derrotar João Paulo (PROS), que teve 4,8 mil e Paio (PSDB), que ficou com 2,9 mil. O município não tem segundo turno. 
A vitória mais significativa do MBL é a de Fernando Silva Bispo, o Fernando Holiday, eleito vereador em São Paulo pelo DEM com pouco mais de 48 mil votos. Estudante negro de 20 anos, Holiday se notabilizou por vídeos nos quais criticava o sistema de ações afirmativas e cotas raciais. Aos poucos, foi ganhando relevância no MBL e passou a liderar alguns dos protestos do grupo.
Holiday integrará a base de João Doria Júnior (PSDB), eleito em primeiro turno como prefeito de São Paulo. Durante a campanha, Holiday e seus colegas de MBL fizeram campanha para Doria e seu vice, Bruno Covas.
Em Porto Alegre, outra capital, o MBL elegeu Ramiro Rosário pelo PSDB, com 4,6 mil votos. Além deles, foram eleitos pelo grupo Filipe Barros (PRB), em Londrina (PR); Leonardo Braga (PSDB), em Sapiranga (RS); Caroline Gomes (PSDB), em Rio Claro (PSDB); Marschelo Meche (PSDB), em Americana (SP); e Homero Marchese (PV), em Maringá (PR).