segunda-feira, 7 de novembro de 2016

'O crescimento do Estado policial está fora de controle' diz presidente da AJD

04/11/2016 16:13 - Copyleft

'O crescimento do Estado policial está fora de controle' diz presidente da AJD

Presidente da Associação dos Juízes para a Democracia comentou sobre as mais de mil ocupações de escolas contra a Reforma do Ensino Médio e contra a PEC 55


Fábio Nassif
Joka Madruga
Em entrevista à Carta Maior, o presidente do conselho executivo da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), André Augusto Bezerra, fez duras críticas ao que classificou como “crescimento do Estado policial”. O juiz comentou sobre as mais de mil ocupações de escolas contra a Reforma do Ensino Médio e contra a PEC do teto de gastos, que, em sua opinião, não poderiam sofrer reintegrações de posse por esbulho. “Quem pratica o esbulho é o Estado, que está impedindo que o estudante exerça seu direito fundamental à educação”, diz. 
 
André acredita que temos sinais evidentes de um maio fechamento do regime político do país. E vai além: estaríamos caminhando para um regime ditatorial.
 
A entrevista foi realizada antes da ação policial na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST. 
 
Leia aqui a nota da AJD sobre as ocupações de escolas e veja abaixo a entrevista completa:




 
Como viu a decisão do juiz de Brasília que autorizou técnicas de tortura contra ocupações de escolas?
A AJD firmou uma posição jurídica a respeito das ocupações como um todo. Nós evitamos falar de outras decisões de juízes quando não conhecemos os autos do processo. A decisão em si não costumamos comentar, ainda mais se a gente não vê o processo.
 
Do ponto de vista jurídico nós entendemos – e discordamos de outras posições jurídicas que se têm a respeito desta questão – é no sentido que o movimento de ocupações dos estudantes como mecanismo de protesto não é esbulho. O que é esbulho? Esbulho do ponto de vista jurídico é você tomar à força a posse ou a coisa de outra pessoa. Ou seja, um prédio público, expulsa outra pessoa, e toma posse. Por que não é esbulho? Porque o estudante não quer ficar naquele prédio público ocupando, possuindo, efetivamente, em definitivo, permanentemente. Ele quer fazer o protesto, chamar a atenção da sociedade, exprimir um ponto de vista, pautar uma determinada política pública ou pautar um determinado tema que nem sempre é colocado pela imprensa empresarial e principalmente pelo Estado nas discussões públicas. Ou seja, o que o estudante quer quando faz a ocupação de uma escola segundo o entendimento da AJD é, em suma, exercer seu direito constitucional a liberdade de expressão e de manifestação.
 
O grande problema é essa natureza de esbulho. O esbulho é outro, na verdade. Quem pratica o esbulho é o Estado, que está impedindo que o estudante exerça seu direito fundamental à educação. O estudante quer pegar para ele porque ele é o titular deste direito. E o direito à educação não implica em um processo passivo do Estado perante ao aluno. O que o estudante quer é também ajudar na construção da efetivação deste direito fundamental. Por tudo isso é que nós entendemos como não passível de reintegração de posse por esbulho esses atos de ocupação. A resposta do Estado ao nosso ver deveria ser pelo diálogo. Chamar a conversa. Em qualquer democracia mínima é a democracia do diálogo permanente da administração pública e dos poderes como um todo com a sociedade. A partir do momento em que o Estado se nega a conversar e começa a impor reformas importantes - que vão durar 20 anos a depender de uma das PECs – sem conversar com a sociedade, limitando-se a conversar com lideranças políticas ou partidárias, o Estado está violando este direito básico constitucional que é do diálogo.
 
Na ocupações, por exemplo no Paraná, vimos movimentos de direita como o MBL que iam para frente das ocupações, em movimentos de desocupações, com argumento de que os estudantes ocupados estariam impedindo os demais de estudarem. Juridicamente como vê essa argumentação?
 
O MBL fazer protesto também é um direito deles. Direito ao protesto não tem ideologia. Cabe ao Estado ser neutro ao direito ao protesto. O problema é que o Estado não está sendo neutro em relação ao direito ao protesto. Estou falando do aparelho estatal como um todo. Ele recebe muito bem um protesto de determinada linha política e recebe com repressão um protesto de uma outra linha política. Ele está fazendo uma opção. O que nos preocupa é quando o Estado faz esta opção em favor de um determinado movimento. O MBL pode fazer o protesto dele. O que se estranha é quando o Estado começa a apoiar um dado movimento em detrimento do outro. O Estado não pode apoiar e nem desapoiar ninguém. 
 
 
E essa argumentação jurídica de que os estudantes que estão ocupando estariam impedindo os demais de estudarem?
 
O estudante que está ocupando está na verdade tentando impedir que se viole o direito à educação dele. Ele quer colocar na pauta o direito à educação. Quer colocar em discussão pública o futuro do ensino do país que pode ser gravemente atingida caso, por exemplo, se congele os gastos públicos por 20 anos. 
 
Por que acha que existe uma ofensiva por meio do Estado especificamente sobre as ocupações de escolas?
 
O que eu vejo é o crescimento do Estado policial como um todo no país. Não é de hoje. É um processo contínuo que têm crescido cada vez mais e que agora mostra-se sem limites. Sem qualquer espécie de limites. Desde o momento em que você começa a enxergar que problemas históricos do país, como a corrupção, sejam tratados exclusivamente como casos de polícia – e a punição penal sempre será seletiva – você começa a permitir o crescimento do Estado policial. E agora esse crescimento do Estado policial está ganhando uma força absolutamente fora do controle. E a gente não sabe onde isso vai parar. Estamos vendo notícia de polícia fazendo desocupação sem mandado judicial. Isso é coisa de ditadura. Ao que parece, determinados agente públicos estão rasgando a Constituição e fazendo “justiça” com as próprias mãos. 
 
 
Diante da crise política que o país vive o Judiciário tem tomado iniciativas, não somente relativas às ocupações de escolas mas outras como a decisão sobre o direito de greve do funcionalismo público. Por que acha que o judiciário toma essa iniciativas e qual a relação entre a crise política do país e essa iniciativas?
 
A crise política do país foi causada por todos os poderes da República. Por setores do Executivo, por setores do Legislativo e por setores do Judiciário. A crise é causada pelo Estado como um todo, que têm colaborado, por exemplo, no fortalecimento deste Estado policial. Ora, se o Brasil hoje tem a quarta maior população carcerária do mundo, quem prende é o Judiciário. Se você tem mandados de reintegração de posse contra índios, que tem por exemplo a seu favor laudos da Funai dizendo que um determinado pedaço de terra deve ser demarcado, isso decorre de uma ação do Judiciário. O Judiciário tem tido uma participação muito grande neste conservadorismo e neste processo de restrição de direitos. Repito: tudo isso faz parte de um processo que não é de hoje mas que tem se ampliado e está saindo totalmente do controle.
 
 
Acha que existem sinais de um maior fechamento do regime? Quais as consequências que isso pode ter para o conjunto da população e para os movimentos sociais?
 
Eu acho. Quando falamos de fechamento do regime falamos basicamente do velho conflito democracia versus ditadura. Democracia como regime aberto, regime do diálogo – muito além de eleição, e ditadura o regime de repressão, o regime onde o Estado se nega a conversar com a sociedade. Ora, o que vemos hoje é cada vez mais o Estado que faz uso de seu aparelho repressor, visando implementar determinadas reformas que interessam a certos grupos econômicos, negando-se por completo ao diálogo com a sociedade. Diálogo não é apenas com a liderança partidária e sim diálogo permanente com a sociedade civil. Democracia brasileira, pelo menos em termos constitucionais, é de alta intensidade, que vai muito além das eleições. É uma democracia, por exemplo, que respeita os direitos humanos – que requer conversa e abertura do Estado. Mas o Estado está cada vez mais fechado e cada vez mais repressor. Então caminhamos cada vez mais para um regime ditatorial. 
 
Podemos afirmar, neste termos, que caminhamos cada vez mais para um regime ditatorial?
 
Eu não tenho dúvida. Está caminhando em sentido contrário à democracia. E o sentido contrário à democracia é ditadura. Não sei como será esta ditadura no século XXI... as coisas têm mudado, os golpes de Estado têm sido mais sutis, as ditaduras ou não têm sido mais sutis... De repente a gente pode continuar tendo eleições, pode continuar a ter liberdades formais, mas cuja aplicação não exista. 
 
Quais as consequências do ponto de vista ideológico e subjetivo deste crescimento do Estado policial para o conjunto da sociedade? Como isso impacta a forma como as pessoas se enxergam na sociedade?
 
O que não tem sido muito sentido pela sociedade é esse crescimento do Estado policial e esse fechamento do Estado. A crise econômica que chegou no Brasil com tudo talvez tenha colaborado para essa não percepção. Mas em um momento ou outro a sociedade vai perceber isso. Os próprios agentes do Estado, muitos deles bem intencionados, vão perceber isso. Juízes, membros do Legislativo, pessoas da administração pública vão perceber isso: que a coisa fugiu completamente do controle. E a sociedade vai sentir isso porque em um determinado momento ela vai se ver perdendo direitos sem poder reivindica-los, sob pena de ser presa ou tomar uma agressão por parte dos agentes do Estado. 
 
O que a aprovação da Lei Antiterrorismo influenciou no que está acontecendo agora?
 
A Lei Antiterrorismo está no processo que envolveu todos os poderes. Ela faz parte disso, tendo iniciativa do Executivo que sofreu um golpe de Estado. Veja a ironia da coisa: o próprio Executivo que foi derrubado fez aprovar esta lei, junto com parte do Legislativo. O que nós esperamos é que o Judiciário julgue uma série daqueles dispositivos como inconstitucionais. Vamos aguardar e cobrar do STF. Esperamos que o Judiciário também não legitime mais essa ação repressora do Estado brasileiro. 
 
Créditos da foto: Joka Madruga




Volkswagen vai investigar papel da empresa na ditadura no Brasil

04/11/2016 15:19 - Copyleft

Volkswagen vai investigar papel da empresa na ditadura no Brasil

A fabricante de automóveis contratou historiador para clarificar o seu passado durante a ditadura militar brasileira.


AFP
Wikipedia
O fabricante automóvel Volkswagen anunciou esta quinta-feira que vai confiar a um historiador independente a investigação sobre o seu papel na ditadura brasileira, na qual a empresa alemã é acusada de ter colaborado.
 
“Queremos lançar luz sobre o período sombrio da ditadura militar [de 1964 a 1985], assim como dos responsáveis da época [da Volkswagen] no Brasil e, possivelmente, também na Alemanha”, afirmou através de um comunicado a directora jurídica do grupo, Christine Hohmann-Dennhardt.
 
Os responsáveis da empresa escolheram o historiador Christopher Kopper, professor da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, para o fazer.
 
“Vamos estabelecer o papel da empresa durante a ditadura militar no Brasil, com a perseverança e a consistência necessárias, da mesma maneira que fizemos de maneira célere e exaustiva em relação a temas como o passado nazi e à utilização de trabalho forçado”, afirmou Hohmann-Dennhardt.





 
Antigos funcionários e activistas apresentaram uma queixa em Setembro de 2015 no Brasil, acusando a Volkswagen de permitir a perseguição e tortura aos trabalhadores opositores do regime militar. De acordo com a acusação, 12 trabalhadores foram presos e torturados na fábrica de São Bernardo do Campo, localidade dos subúrbios de São Paulo. A empresa é também acusada de ter criado “listas negras” de opositores.
 
No mesmo comunicado, o fabricante alemão informou que procura um novo director para o departamento de comunicação histórica, depois de a recente saída do último responsável ter causado polémica na Alemanha. Manfred Grieger, historiador especialista em trabalho forçado durante o período nazi, trabalhou na Volkswagen durante quase 20 anos, tendo apresentado a sua demissão no final de Outubro.
 
Grieger criticou publicamente um estudo interno sobre o passado nazi da Audi, que faz parte do grupo Volkswagen, afirmando que o mesmo era incompleto e que minimizava os factos. Segundo a agência de notícias alemã DPA, a sua saída esteve ligada a um reprimenda da direcção pelo facto de o historiador ter feito declarações públicas sem autorização.
 
Na passada terça-feira, vários historiadores de renome na Alemanha atacaram a Volkswagen acusando o grupo de divulgar uma história tendenciosa sobre o seu passado. Uma crítica rejeitada pelo fabricante automóvel que, numa resposta por escrito enviada esta quinta-feira à AFP, diz “lamentar a má interpretação”.
 
A Volkswagen esclarece ainda que Grieger “não foi demitido” nem “forçado a sair da empresa. “O facto é que a Volkswagen tem, ao longo do tempo e de maneira decidida e honesta, lançado luz sobre a história da empresa e continua a fazê-lo”, refere.


Créditos da foto: Wikipedia




Senadores e movimentos sociais propõem substitutivo e emendas à PEC 55

04/11/2016 15:26 - Copyleft

Senadores e movimentos sociais propõem substitutivo e emendas à PEC 55

Governo se omitiu de mandar representantes para debater tema. Representante da CUT disse que proposta é 'declaração de guerra contra trabalhadores'.


Hylda Cavalcanti, da RBA
Pedro França
Brasília – Acadêmicos, estudantes, economistas e representantes de movimentos sociais e apresentaram hoje (3), no Senado, sugestões que possam levar à rejeição daProposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 – que congela os gastos públicos por 20 anos –  ou a uma modificação da matéria, que consideram prejudicial para o país. Uma delas é a solicitação, com o máximo de urgência, de uma perícia na dívida pública brasileira para contestar as justificativas apresentadas pelo Executivo ao propor a PEC.
 
Outra ideia é a elaboração de um texto substitutivo, amplamente discutido, que compile tudo o que tem sido tratado em audiências públicas, para se contrapor à proposta do governo Michel Temer. A terceira é a elaboração de um conjunto de emendas a serem apresentadas ao relatório referente à proposta, o que já está sendo providenciado.
 
A audiência chamou a atenção, mais uma vez, por não contar com nenhum representante do Executivo, apesar dos convites feitos pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), e por poucos parlamentares que integram a base de apoio do governo Temer. A economista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Esther Dweck, que foi secretária de Orçamento no governo Dilma Rousseff, afirmou que o Brasil precisa rediscutir sua regra fiscal, mas não nos termos dessa proposta.
 
Segundo Esther Dweck, da forma como se encontra, a matéria vai causar impacto sobre as classes baixa e média, que compõem a base da pirâmide social do país, e as medidas a serem adotadas não representam que haverá estabilização da economia.





 
Já o professor Júlio Miragaya, presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), destacou nota da entidade, segundo a qual, embora acredite que os ajustes são necessários, entende que tais mudanças não podem ser realizadas de afogadilho como o Executivo tem tentado.
 
De acordo com o economista, é preciso a conscientização, pelos senadores que apreciam a matéria, de que se “congelar os gastos públicos sem levar em conta desafios como crescimento e envelhecimento da população e necessidade de acesso de mais crianças às escolas, os serviços públicos serão precarizados e será impedida a universalização de serviços essenciais como saúde e educação, ciência e tecnologia”.
 

'Declaração de guerra'



 
O diretor-executivo da CUT Ismael José Cesar chamou a proposta de “uma declaração de guerra contra a classe trabalhadora” e afirmou que as categorias estão se mobilizando para a greve geral a ser realizada no próximo dia 11 e para vários atos de protesto contra a PEC. “Se o governo não quer debater a matéria, que também não espere de nós rendição. Estamos na luta para impedir que essa proposta venha a cabo”, ressaltou.
 
A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) defendeu a importância de todas as entidades discutirem as consequências da aprovação da proposta, sobretudo diante da negativa do governo em participar desse debate. “Os efeitos do congelamento de gastos públicos não serão sentidos necessariamente agora, mas se farão sentir por muito tempo”, afirmou.
 
A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) lembrou trechos de gravação de conversa entre o ex-senador Sérgio Machado e o senador Romero Jucá (PMDB-RR), durante negociação de delação premiada de Machado para a força-tarefa da operação Lava Jato. “Na conversa, o senador Jucá deixou bem claro que era preciso o afastamento da presidenta para que um governo sem votos pudesse adotar medidas impopulares de impacto no país. Este é o golpe do golpe, que foi ardilmente planejado”, afirmou.
 
O diretor de Relações Institucionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, que também é estudante da Universidade Federal de Goiás (UFG), disse que a luta dos alunos é intensa, tende a continuar e que eles só foram para as ruas diante da falta de diálogo por parte do governo para discutir as propostas apresentadas nos últimos tempos.
 
Iago destacou que foi a partir da mobilização dos estudantes na ocupação das escolas e universidades que se conseguiu chamar a atenção da sociedade para o caráter polêmico das propostas – tanto a PEC 55 como a da reforma do ensino médio, que tramita no Congresso por meio da Medida Provisória 746. “Continuaremos com a luta, porque sabemos que é uma luta para evitar retrocessos em todo o país e não apenas para a educação”, acrescentou.
 

Emendas



 
Esta semana, além de emenda apresentada por Gleisi Hoffmann pedindo que seja realizado um plebiscito para consulta popular sobre o congelamento de gastos, também o senador José Pimentel (PT-CE) apresentou sete emendas à PEC 55. A intenção é evitar redução de recursos nos setores de saúde, educação e previdência social.
 
Na primeira emenda, o parlamentar propôs que as despesas com ações e serviços de saúde e educação, além do pagamento dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social sejam excluídas do limite imposto pela proposta. Ele explicou que o “congelamento da despesa, com sua correção somente pela inflação, resultará, em curto prazo, em valores inferiores àqueles determinados pela Constituição – 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) para a saúde e 18% para a educação”.
 
Em outra emenda, Pimentel propôs a exclusão do teto de despesas públicas a política de valorização do salário mínimo e destacou que essa limitação “prejudica não só os aposentados e pensionistas da Previdência Social, cujo piso de benefícios está vinculado ao salário mínimo, mas grande parte da população brasileira”.
 
As demais emendas tentam evitar o congelamento dos salários dos servidores públicos, imposto pela PEC 55; excluir do limite de gastos as despesas com aumento de capital de estatais e limitar a 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para o pagamento de juros e encargos da dívida pública.
 
O senador apresentou, como alternativa ao congelamento, a cobrança de Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos originários da distribuição de lucros e dividendos de empresas e a redução do prazo de vigência do teto de despesas públicas para cinco anos, renovável por igual período, por lei complementar.


Créditos da foto: Pedro França




Prisão de ator é 'retorno a 100 anos atrás', diz professora da USP

04/11/2016 15:13 - Copyleft

Prisão de ator é 'retorno a 100 anos atrás', diz professora da USP

'Daqui a pouco vamos ver espetáculos na clandestinidade', afirma Maria Cristina Castilho. Para Adriano Diogo, polícia tem hoje papel de censurar e julgar.


Eduardo Maretti - Rede Brasil Atual
reprodução
São Paulo – A intervenção da Polícia Militar na peça Blitz - O império que nunca dorme e a prisão do ator Caio Martinez Pacheco, no sábado (29), em Santos (litoral sul de São Paulo), mais do que uma volta ao período da ditadura iniciada em 1964, “é um retorno a 100 anos atrás”. A opinião é da professora Maria Cristina Castilho Costa, titular em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.
 
“É um absurdo o que acontece. Voltamos à época após proclamada a República, em que a polícia estava autorizada a entrar em salas de exibição de filmes e em teatros, interromper a seção, apreender filmes, prender as pessoas, se elas falassem mal da bandeira nacional, falassem o português chulo e outras coisas”, diz. “Estamos voltando ao ponto em que daqui a pouco vamos ver espetáculos e assistir a filmes na clandestinidade.”
 
A opinião é compartilhada pelo ex-deputado federal Adriano Diogo, ex-presidente da Comissão da Verdade "Rubens Paiva", da Assembleia Legislativa de São Paulo. “As forças militares e policiais têm hoje o papel de censurar e fazer julgamento. O julgamento é sumário e a partir daí já sai a condenação, que é a prisão. Daqui a pouco vão invadir salas de cinema, shows de música e outros eventos. É só não concordar com eles”, afirma Diogo.
 
O plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo registrou hoje (3) um bate-boca entre o deputado Carlos Giannazi (Psol) e os deputados Coronel Camilo (PSD) e Coronel Telhada (PSDB), que defenderam a ação da PM em Santos. O contexto foi a presença dos atores, inclusive Caio Martinez Pacheco, que Giannazi levou à Casa “para prestar apoio e solidariedade”. “Telhada e Camilo criticaram bastante a peça, dizendo que é um ‘lixo’, e que a encenação ofendeu os símbolos nacionais”, conta o deputado.





 
Giannazi entrou, na segunda-feira (31), com um requerimento à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia pedindo a convocação dos responsáveis pelo Comando da Polícia Militar em Santos (6º BPM/I), para prestar esclarecimentos sobre a repressão à peça. Ele também acionou o Ministério Público Estadual e a Corregedoria da PM, à qual pede investigação sobre o fato.

 


 

Como 1968



 
O parlamentar do Psol diz que pretende realizar um ato de desagravo aos atores, ainda sem data definida. Para ele, a intervenção da PM e prisão do ator em Santos “lembra 1968, quando invadiram o Roda Vida do Chico Buarque de Holanda e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) espancou os atores”. “Até o Alckmin disse que a peça é de mau gosto mas que a liberdade de expressão tem que ser preservada. A Folha de S.Paulo soltou editorial defendendo os atores. Até os mais reacionários estão com cautela em relação a isso.”
 
Adriano Diogo também associa a repressão à peça Blitz a 1968. “Da mesma forma que o CCC invadiu o teatro Ruth Escobar, prenderam Marília Pêra, dando cacete nos atores, a PM age nas manifestações, nas passeatas, dá tiro de bala de borracha. E, agora, também fazem interpretação de texto. Como não tem censura prévia, fazem censura no local”, ironiza. Diogo vê na conjuntura atual “uma transformação do golpe em ditadura”. “As pessoas não estão entendendo que o golpe já está em outra fase. Que a realidade já é outra. Estamos num Estado de exceção.”
 
Para a professora da USP, de um ponto de vista histórico mais amplo, o Brasil parece estar “em plena restauração, no sentido da Revolução Francesa”. Ela se refere ao período após a Revolução Francesa (1789), quando foi restaurada a monarquia em benefício dos herdeiros de Luís XVI, em 1814.
 
“Estamos vivendo no Brasil um retrocesso enorme, em relação à concepção da liberdade de expressão. É a ideia de que a polícia pode fazer isso, de que tem direito, que está autorizada. São atividades que historicamente precederam a regulamentação da censura feita com Getúlio Vargas”, diz Maria Cristina. “Faz parte da nossa cultura autoritária reprimir a arte, especialmente.”


Créditos da foto: reprodução

Atingidos apoiam estudantes em escola ocupada de Mariana (MG)

04/11/2016 15:08 - Copyleft

Atingidos apoiam estudantes em escola ocupada de Mariana (MG)

Encontro ocorreu na Escola Estadual Dom Silvério, ocupada há três dias por secundaristas contra a PEC 241


Maíra Gomes - Brasil de Fato
Maxwell Vilela
Nesta quinta-feira (3), atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco (Vale/BHP Billiton), visitaram a Escola Estadual Dom Silvério, em Mariana (MG), ocupada há três dias em protesto contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241. O ato de apoio e solidariedade aos estudantes secundaristas fez parte da programação do Encontro dos Atingidos “1 Ano de Lama e Luta”.
 
Anunciada pelo governo de Michel Temer em meados de agosto, a PEC 241 congela os investimentos em saúde e educação pelos próximos 20 anos, o que compromete futuro dos serviços à população. Conhecida como “PEC do Fim do Mundo”, a medida gerou uma série de ocupações de escolas e universidades, que já somam mais de mil em todo o país.
 
“Vocês são guerreiros, estão dando uma aula de luta e cidadania para o povo brasileiro, para garantir que a gente não retroceda nos direitos já conquistados com muito suor”, parabeniza Pablo Dias, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Ele reforça que a luta dos atingidos é a mesma que a dos estudantes, pois ambos os grupos estão sendo afetados pelas medidas de retirada de direitos do governo de Temer.
 






Solidariedade
 
Professora de língua portuguesa Cláudia de Oliveira está surpresa com a experiência da ocupação e com o apoio do corpo de trabalhadores da escola. “Isso aqui é muito bom. Muitos alunos ficavam apáticos durante as aulas. Agora, você vê os estudantes coordenando toda uma estrutura de ocupação da escola e percebe como não conhecemos nossos alunos. A gente percebe como eles se envolvem quando eles acreditam em uma coisa”, reflete.
 
Durante o bate papo com os 50 estudantes presentes na escola, trabalhadores da educação decidiram em assembleia apoiar a iniciativa dos jovens. Será elaborada uma carta pública, para esclarecer à sociedade que os estudantes estão comprometidos com a manutenção do espaço. “A coordenação pedagógica da escola está sob o comando dos estudantes. Cabe a nós apoiar no que podemos”, afirma Cláudia. O grupo de professores definiu a composição de comissões de comunicação, infraestrutura e diálogo com os pais.
 
Organização
 
A coordenação da ocupação é composta por estudantes e professores. Do lado dos alunos, as comissões são divididas em saúde, segurança, comunicação e alimentação. Os jovens realizam reuniões de coordenação pela manhã e oficinas ao longo do dia, como forró, skate, atividades culturais e debates. “É preciso que fique claro que não estamos aqui para ficar sem aula, mas para lutar pelos próximos 20 anos da educação. Tem gente querendo nos derrubar, mas podem ter certeza que a gente não vai cair”, afirma uma das estudantes, que prefere não ser identificada.
 
A atingida do Vale do Jequitinhonha Liliane do Barros Nascimento acompanhou a visita na ocupação e disse estar emocionada. “No nosso tempo, estudar era muito difícil. Hoje, essa juventude já tem maior facilidade, mas com essa PEC 241 do Temer vai acabar com tudo no nosso país. É por isso que essa ocupação é muito boa, os jovens de hoje são o futuro do país”, anima-se.
 
Uma estudante do primeiro ano, que também não quer ser identificada, afirma que a relação dos estudantes com a escola irá mudar após a ocupação. “A gente já valorizava a escola antes, mas agora, com a gente correndo atrás de tudo aqui pra dentro e tendo a consciência do tamanho da responsabilidade, acho que a gente se sente mais sensibilizada com a escola depois disso”, comemora.




Créditos da foto: Maxwell Vilela