quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Aos agressores dos direitos trabalhistas: há juízas e juízes do trabalho no Brasil

10/11/2016 11:37 - Copyleft

Aos agressores dos direitos trabalhistas: há juízas e juízes do trabalho no Brasil

Não é de hoje que parte da grande imprensa considera que a legislação trabalhista 'atravanca o progresso' do país.


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Camila Domingues / Palácio Piratini
 Jorge Luiz Souto Maior
Valdete Souto Severo
Patrícia Maeda
Márcio Túlio Viana
Átila Da Rold Roesler
Hugo Cavalcanti Melo Filho
Luis Carlos Moro





Reginaldo Melhado
Carlos Eduardo Oliveira Dias
Igor Cardoso Garcia
Roselene Aparecida Taveira
Laura Rodrigues Benda
Elinay Melo
Alessandro da Silva
Grijalbo Fernandes Coutinho
Marcus Menezes Barberino Mendes
 
 
“Da dignidade do juiz depende a dignidade do direito. O direito valerá, em um país e em um momento histórico determinados, o que valham os juízes como homens. No dia em que os juízes têm medo, nenhum cidadão pode dormir tranqüilo.” (Eduardo Couture)
 
Não é de hoje que parte da grande imprensa considera que a legislação trabalhista “atravanca o progresso” do país (fala que se representaria melhor pelo bordão “é a ignorança que astravanca o progréssio!”, do personagem de Mário Tupinambá, na Escolinha do Professor Raimundo).
 
Deparando-se com condições de trabalho típicas da escravidão também nas fábricas, os imigrantes que vieram para o Brasil resolveram formar organizações de defesa dos seus interesses e já sofreram fortes enfrentamentos da “imprensa patronal”, conforme destaca Ramatis Jacino: 
 
Restava aos trabalhadores urbanos, que optaram por abandonar o trabalho rural, desistir e empreender o penoso caminho de volta à sua terra ou se organizarem e resistirem como podiam, na perspectiva, ainda, de construção de uma sociedade diferente daquela. Suas organizações, marcadamente influenciadas pelo pensamento anarquista, contudo, desde 1893 eram investigadas pela imprensa patronal e pela polícia...
 
Na Primeira República, os industriais continuaram se valendo da institucionalização de uma “imprensa patronal”, como esclarecem Paltrinieri e Jardim: 
 
Para tanto, a burguesia industrial contava com o apoio da imprensa, que, apesar de aparentemente sensível às mazelas sociais e às péssimas condições de vida do operariado, servia de veículo para disseminação das idéias patronais e defesa das acusações pela responsabilidade das altas dos preços dos produtos. No Rio de Janeiro, destacaram-se os jornais O Paiz, A Razão, o Rio Jornal e, mais tarde, o Jornal do Commercio. Desta formaos industriais desenvolviam uma rede de circulação de informações, que tinha como objetivo manter uma opinião pública que lhes fosse favorável além de uma atuação voltada para a manutenção de um operariado dócil. Paralelamente, o Estado continuava empregando uma política de repressão policial massiva sobre a população.
 
O Jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, desde quando se identificou como “órgão de imprensa que foi inquebrantável bastião dos liberais paulistas por várias décadas e ferrenho crítico de Getúlio Vargas”, sempre ou quase sempre se posicionou criticamente em relação aos direitos dos trabalhadores, aderindo sem qualquer crítica ao discurso empresarial.
 
Quando, em 1957, o professor José Pinto Antunes, na aula de abertura do ano letivo, abordando o tema “O Robô e as conseqüências econômico jurídicas de sua utilização”, após citar vários exemplos de unidades produtivas nas quais os trabalhadores foram substituídos, no todo ou em parte, pelas máquinas, preconizou o fim do Direito do Trabalho, sua fala foi reproduzida, quase que integralmente, na edição de abril do mesmo ano, do Jornal O Estado de São Paulo.
 
Mais recentemente, o “Estadão” se dedicou à campanha pela extinção da Justiça do Trabalho. E quando a Justiça do Trabalho saiu fortalecida na Emenda Constitucional n. 45, de 2004, com a ampliação da sua competência, o Jornal manteve a postura de sempre e publicou, no dia 22 de novembro de 2004, um Editorial com a seguinte reclamação: “Entre as diversas inovações introduzidas pela reforma do Judiciário, a que causou maior surpresa ocorreu no âmbito da Justiça do Trabalho. Em vez de ser esvaziada como se esperava, por ter sido criada há décadas sob inspiração do fascismo italiano e estar hoje em descompasso com as necessidades da economia, a instituição, graças à ação do seu poderoso lobby no Senado, especialmente no decorrer da votação dos destaques, conseguiu sair bastante fortalecida”.
 
Em 2007, quando se debatia a Emenda 3, que impedia a atuação de auditores fiscais do trabalho, nova oportunidade se apresentou ao Jornal para tentar acabar com os direitos trabalhistas. Buscando criar o ambiente político propício à aprovação da Emenda, o Jornal O Estado de S. Paulo publica, na edição de 12 de fevereiro de 2007, a reportagem “O Brasil é campeão em ações trabalhistas”, cuja chamada é feita, inclusive, na primeira página do Jornal. Na reportagem, baseada na posição de “especialistas” (na verdade, dois, um ex-ministro, Almir Pazzianoto, e um economista, José Pastore), procura-se difundir a ideia de que se existem muitas ações na Justiça do Trabalho isso se dá porque a legislação instiga o conflito, gerando um desestímulo às contratações pelas empresas.
 
Mas como a Constituição Federal reluta em sucumbir à vontade do “Estadão” e preserva em vigor o Estado Social Democrático de Direito, com o consequente funcionamento da Justiça do Trabalho, a qual, de forma “insolente” insiste em fazer valer alguns dos direitos dos trabalhadores, o Editorial do Jornal “Estadão”, de 08 de abril de 2009, “Ativismo dos TRT’s pode agravar efeitos sociais”, volta a atacar:
 
...decisões como essas podem produzir efeitos sociais diametralmente opostos aos esperados pela magistratura. Isto porque, ao impedir os empregadores de dispensar pessoal para se adequar à realidade do mercado, as liminares “protetoras” podem comprometer economicamente as empresas, eliminando todos os empregos que elas oferecem. (....) 
 
As demissões da Embraer, por exemplo, decorreram da redução de 30% na demanda de aviões no mundo inteiro. No caso da Usiminas, que tem cerca de 30 mil funcionários e é a maior produtora de aços planos do Brasil, a empresa vinha sendo modernizada tecnologicamente por seus novos controladores, a Votorantim e a Camargo Corrêa, a um custo de R$ 25 milhões, e foi afetada por cancelamento de encomendas, queda nas exportações e oscilações das encomendas das indústrias automobilísticas e de eletrodomésticos, que consomem 23% de sua produção.
 
Quando a CLT completou 70 anos – e muitos viram na data a oportunidade para novamente atacar os direitos trabalhistas, dizendo que a CLT era velha – o “Estadão” não ficou atrás e publicou artigo de Gustavo Ferreira, com o título “Consolidação das Leis do Trabalho de Getúlio Vargas completa 70 anos”. No texto, reverbera-se a ideia de que a CLT foi inspirada na Carta del Lavoro de Mussolini, sugerindo que os direitos trabalhistas têm uma origem fascista. A total falta de conhecimento sobre a história da legislação trabalhista no Brasil, reproduzida na abordagem, já se pode constatar na chamada do texto: “Com a CLT, trabalhadores conseguiram direitos como o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e 13.º salário”. Ora, o FGTS foi inserido na ordem jurídica em 1967, na ditadura militar; e o 13º salário, em 1963, no governo Goulart, não estando ligados, portanto, a Getúlio Vargas ou à criação da CLT.
 
Agora, em 2016, diante da fragilização política da classe trabalhadora, os ataques ficaram ainda mais fortes. No dia 1º de maio, Almir Pazzianoto Pinto, sentindo-se então bem à vontade, publica, no “Estadão”, o artigo intitulado “A velha e anacrônica CLT”, repetindo a velha ladainha de que a CLT foi obra da ditadura de Vargas, com inspiração fascista, por consequência.
 
Consumado o processo de cunho basicamente político que afastou a Presidenta da República e que abalou a ordem constitucional, os ataques à legislação trabalhista passaram a ser quase que diários, até quando, a partir de 14 de setembro de 2016, o STF assumiu o papel de fazer, ele próprio, a reforma trabalhista (na verdade, uma desregulamentação e extinção de direitos).
 
Um dos grandes atores dessa “reforma” tem sido o Presidente do TST, Ives Gandra da Silva Martins Filho, o qual, inclusive, chegou a participar de um Fórum organizado pelo “Estadão”, voltado à “modernização das relações de trabalho”, e de quem a fala, crítica à atuação dos juízes do trabalho que insistem em aplicar o Direito do Trabalho, tem sido reproduzida, com frequência, pelo referido Jornal.
 
Ocorre que a magistratura trabalhista, assim como os demais profissionais ligados ao Direito do Trabalho, notadamente, procuradores do trabalho e advogados trabalhistas, estão reagindo firmemente a esse ataque interno, o que tem, inclusive, feito abalar a legitimidade do Presidente para se manter no cargo.
 
O Editorial do “Estadão”, publicado em 05 de novembro de 2016, com o título “Um novo trabalho”, ao fazer publicamente uma defesa de Ives Gandra Filho, demonstra exatamente essa fragilização do atual Presidente do TST. E considerando o histórico de um Jornal a serviço da classe patronal, declaradamente inimigo dos direitos trabalhistas e da Justiça do Trabalho, a defesa apresentada, que parte da consideração de que o Presidente é um aliado do “Estadão”, em vez de melhorar a situação, só a agrava.
 
Só que o Editorial foi além e apresentou uma grave ofensa à Justiça do Trabalho e aos juízes e juízas do trabalho. 
 
Pelo que se extrai do Editorial, que se baseou nos termos de uma reportagem publicada, em 29/10/16, no próprio Jornal, dando voz aos “especialistas” de sempre, José Pastore e Almir Pazzianoto Pinto, os juízes e juízas do Brasil nada sabem sobre Direito do Trabalho, e quem sabe é apenas o atual Presidente do TST. Mas, obviamente, as coisas não são bem assim.
 
Toda a linha do Editorial está apoiada no pressuposto de que “Há um evidente desajuste no modo como o Estado lida com as relações de trabalho, sendo este um grave entrave ao desenvolvimento econômico e social do País”. 
 
Mas a afirmação é simples frase de efeito, sem correspondência empírica, bastando lembrar que é utilizada no Brasil há décadas, e, tendo sido acatada em diversos momentos, não gerou o efeito proclamado da melhoria da economia; aliás, o que se verificou foi um efeito inverso. Lembre-se, por exemplo, da reivindicação empresarial-midiática pela superação do En. 256 do TST, para o efeito de liberar a terceirização na atividade-meio, como forma de permitir que as empresas se dedicassem à sua atividade-fim, o que aumentaria a eficiência e a competitividade das empresas. Adveio, assim, em 1993, a Súmula 331 do TST e a terceirização foi autorizada, mas a economia não melhorou e agora querem a terceirização da atividade-fim...
 
Na sequência, o Editorial replica, mais uma vez, a versão de que a CLT é velha, de 1943, e defende a sua flexibilização. Diz expressamente: 
 
Criada em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) teve um importante papel na proteção dos direitos do trabalhador, como férias, limites à carga horária, etc. Foi uma legislação altamente eficaz para sua época. Mas as décadas se passaram, sobrevieram profundas transformações na organização do mundo do trabalho e a CLT ficou defasada. Hoje, como lembra a reportagem A flexibilização do trabalho, ‘a CLT atravanca o desenvolvimento dos negócios, os investimentos na produção, o aumento da produtividade e a geração de empregos’.”
 
No entanto, ao contrário do afirmado pela matéria, o direito de férias foi criado em 1925 (Lei n. 4.982, de 23.12.1925) e regulamentado em 1926. Inicialmente, eram 15 dias de férias e somente em 1977, pelo Decreto-lei n. 1.535, foi que se passou ao número de 30 dias. 
 
Assim, a CLT não tem a “culpa” de ter incomodado os empregadores com o direito de férias para os trabalhadores.
 
A limitação da jornada de trabalho, por sua vez, aparece, de forma inaugural, no Decreto n. 23.152/33 e no Decreto-lei n. 2.308/40, estando prevista na Constituição de 1934 (art. 121, “c”). 
 
A regulação atual da limitação da jornada, inclusive, segue o padrão fixado na Constituição Federal de 1988, valendo lembrar que foi fixada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e está prevista em praticamente todos os tratados internacionais que lidam com a questão do trabalho humano.
 
Entretanto, há quem ainda considere que foi a CLT de 1943 que criou a limitação da jornada e que é somente nela que se encontram os fundamentos para garantir aos trabalhadores esse direito humano. 
 
A propósito, cabe indagar: o que se quer com o ataque à limitação da jornada de trabalho, afinal? Deseja-se que as pessoas trabalhem sem limite de horas? Ou será que oitenta horas por semana estaria bom...? 
 
O Editorial do “Estadão” traz também a consideração de que a legislação trabalhista foi “altamente eficaz para sua época”. 
 
Ocorre que as leis trabalhistas têm sido atualizadas a cada ano e, portanto, trata-se de uma legislação da época presente. Ademais, enquanto o modo de sociedade capitalista quiser se apresentar como minimamente viável terá que conviver com limites à exploração do trabalho, pois a escravidão é incompatível com o capitalismo. 
 
Também consta do Editorial a afirmação de que “Ao partir do pressuposto de que todo trabalhador é vítima indefesa do capital – e, portanto, seus direitos necessitariam de uma forte intervenção do Estado –, a CLT engessa as relações de trabalho e deixa pouca margem de manobra, até mesmo para os acordos coletivos. Seu intervencionismo gera, assim, um profundo desequilíbrio nas relações de trabalho, encarecendo desproporcionalmente a mão de obra e desestimulando novas contratações.”
 
Mas, de fato, o trabalhador só não é uma vítima indefesa do capital porque existem o Estado Social e suas instituições, dentre as quais o Direito do Trabalho, o Ministério do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho e a Justiça do Trabalho, além da advocacia trabalhista, que é essencial à administração da justiça. 
 
Lembre-se de que o Estado Social foi criado, em todo o mundo, a partir do reconhecimento dos horrores da exploração sem limite do trabalho humano. O que o “Estadão” parece fazer, embora sem dizê-lo, é a apologia da lei do mais forte, pelo menos em termos econômicos.
 
Continuando, o Editorial replica uma recorrente noção de intervencionismo gera desequilíbrio. 
 
Vale, então, perguntar: um trabalhador, que depende da venda da força de trabalho para sobreviver, está em posição de equilíbrio com quem detém os meios de produção? Concretamente, o desequilíbrio está dado em uma sociedade na qual alguns poucos detêm capital, meios de produção e, consequentemente, poder, enquanto a outros é dado apenas vender sua força de trabalho no mercado. O Estado Social é uma tentativa de tornar menos desequilibrada essa relação, sendo que sequer tem sido eficiente nesta tarefa, pois 1% da população global detém a mesma riqueza que os demais 99%.
 
Realizando audiências trabalhistas, quase que diariamente, podemos afirmar que a realidade percebida é a de que os trabalhadores são extremamente frágeis na relação material, sobretudo se considerarmos, na realidade brasileira, o número de mais de 12 milhões de terceirizados. A fala do “Estadão”, assim, faz lembrar a máxima expressa no filme de Sérgio Bianchi, “Cronicamente inviável”, no sentido de que para uma parcela da classe dominante no Brasil não basta explorar, é preciso também espezinhar, humilhar, o oprimido.
 
Na sequência, o Editorial sustenta:
 
“É certo que, ao longo do tempo, a CLT sofreu alterações. Foram, no entanto, mudanças pontuais, que não reverteram seu desequilíbrio nem seus pressupostos teóricos. Por exemplo, continuou incólume a disjuntiva entre o legislado – as disposições legais sobre as relações de trabalho – e o negociado – os termos combinados entre patrão e empregados –, sem uma discussão mais aprofundada sobre a conveniência de a lei detalhar de forma obrigatória todos os aspectos de um contrato de trabalho.”
 
Ocorre que se os trabalhadores no Brasil estivessem em posição superior a dos empregadores, seriam muito mais ricos do que são (aliás, não seriam tão pobres); colocariam seus filhos em ótimas escolas; teriam horas e horas de lazer e as condições precárias de vida nas favelas e periferias das cidades não existiriam. Teriam, inclusive, grandes meios de comunicação a seu serviço, prontos a defender os seus interesses.
 
Então, de que lugar se está cuidando? Da Noruega?
 
Além disso, as alterações legislativas não foram “pontuais”, como sugere o Editorial. Com efeito, dos iniciais 625 artigos da CLT, apenas 188 se mantiveram vigentes até hoje, sendo que apenas alguns poucos conferem, de fato, direitos materiais aos empregados, com o efeito de gerarem custos à produção. 
 
Os direitos aplicáveis nas relações de emprego presentemente, aos quais se acusa de atravancarem o desenvolvimento foram criados, portanto, depois do advento da CLT, sendo que muitos, inclusive, já seguiram a linha da flexibilização. Para citar alguns: Lei n. 605/49 – Repouso semanal; Lei n. 3.207/57 – Vendedores, viajantes ou pracistas; Lei n. 4.090/62 – Gratificação de natal; Lei n. 4.923/65 – Jornada de trabalho; Lei n. 5.811/72 – Trabalho em atividade petrolífera; Lei n. 5.859/72 – Trabalho doméstico; Lei n. 5.889/73 – Trabalho rural; Lei n. 6.019/74 – Trabalho temporário; Lei n. 9.601/98 – Contrato por prazo determinado; Lei n. 9.608/98 – Serviço voluntário; Lei n.10.101/00 – Participação nos lucros; Lei n.10.820/03 – Empréstimo consignado; Lei n 11.788/08 – Estágio; Lei n.12.506/11 – Aviso prévio proporcional...
 
Grande parte desses direitos, ademais, está prevista nas ordens jurídicas de diversos países e nas 189 Convenções da OIT.
 
Depois surge no Editorial a antiga conversa de que a lei é ruim e a convenção é boa. Ora, sabendo-se que o Direito do Trabalho nunca vedou que a supremacia do negociado sobre o legislado quando a negociação melhora as condições de trabalho dos empregados, está no âmago da argumentação reproduzida no Editorial a ideia de que a convenção somente será melhor que a lei se retirar direitos do trabalhador, ficando, então, ao menos, a confissão do que se pretende, efetivamente, com o tal “negociado sobre o legislado”.
 
Para se contrapor a essa argumentação de que redução de direitos gera empregos e alavanca a economia, cumpre fazer menção ao documento editado pela OIT, em 15 de junho de 2015: “Recomendación sobre la transición de la economia informal a la economia formal, 2015” (R204).
 
Nos termos dessa Recomendação, conforme explicitado por Lygia Maria de Godoy Batista Cavalcanti, “a proliferação mundial desse modelo desagregador imposto aos Estados nacionais através das políticas neoliberais adotadas, representa, segundo os experts, grande obstáculo para os direitos dos trabalhadores, incluindo os princípios e direitos fundamentais no trabalho e à proteção social, condições de trabalho dignas e até mesmo, o desenvolvimento inclusivo e do Estado de direito. Os experts da OIT, concluíram que a precariedade no emprego traz conseqüências negativas para o desenvolvimento de empresas sustentáveis, as receitas do governo e o escopo de ação do governo, em particular no que respeita às políticas econômicas, sociais e ambientais, quanto à solidez das instituições e concorrência leal no mercado nacional e internacional, que em outras palavras promove um dumping social”.
 
Aliás, a noção de que “as leis trabalhistas não são responsáveis pela geração de emprego nem pelo desemprego” já fora exposta, em 2003, pelo professor de Direito do Trabalho da Universidade da República do Uruguai e especialista da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Oscar Ermida Uriarte, durante conferência no Fórum Internacional sobre Flexibilização promovido pelo TST.
 
Seguindo a trilha da reportagem publicada pelo Jornal, o Editorial passa a atacar a Justiça do Trabalho, como se o juiz que confere efetividade ao direito do trabalhador cometesse um crime. Aliás, se pensarmos bem, historicamente, a Justiça do Trabalho foi admitida pela classe dominante empresarial brasileira sob a condicionante de frustrar a possibilidade de uma concretização da legislação trabalhista, estimulando-se a prática de conciliações a qualquer custo. 
 
O problema é que a Justiça do Trabalho, que, concretamente, nem se desvinculou completamente desse peso, começou, de 2002 para cá, a aplicar com mais seriedade os direitos trabalhistas, mas nem mesmo uma aplicação mitigada foi aceita pela classe empresarial dominante brasileira, sendo tratada a atitude de fazer valer a letra da lei e da Constituição Federal como uma “postura ideológica”, “profundamente paternalista”, conforme qualifica o Editorial. 
 
Para os eternos críticos da legislação trabalhista, o correto é que a contrapartida dos trabalhadores pelos serviços prestados seja apenas o que cada empregador, individualmente, queira dar, mesmo que os pactos internacionais e as normas constitucionais sejam contrários ao tratamento do trabalho humano como mera mercadoria de comércio.
 
Mas o Editorial em questão não se contenta em expressar ataques infundados ao Direito do Trabalho e à Justiça do Trabalho e passa à ofensa aberta, dizendo que as decisões dos juízes do trabalho são de “duvidoso caráter técnico”. Apoiando-se nos “especialistas” que sempre escolhe, considera que é erro técnico dar prevalência aos depoimentos de testemunhas em detrimento de provas documentais. O problema desse falso argumento é que há muito não se tem mais uma valoração quantitativa dos tipos de prova. As provas, todas elas, valem como elementos de convicção, cabendo aos juízes fundamentarem a valoração que delas fazem, sendo que nas realidades de relações desiguais, como se dá nas relações de consumo (art. 6º, VIII, do CDC), a prova documental, constituída em estado de submissão, sucumbe, com maior razão, a outros elementos de prova. Mesmo no novo CPC a questão da prova é tratada dessa forma, como se verifica nos artigos 371 a 373.
 
Cabe registrar que, no Brasil, o número recorde de reclamações trabalhistas, 4 milhões ao ano, não se dá por complicadores da legislação e sim pela prática reiterada e deliberada de descumprimento da legislação, que é favorecida pelo sucateamento a que foi submetido o Ministério do Trabalho desde a década de 60. Hoje, cerca de 2.300 auditores fiscais são responsáveis pela fiscalização do cumprimento das obrigações trabalhistas em todo o país.
 
O que se tem, portanto, é uma realidade de extrema precariedade dos direitos da classe trabalhadora, que favorece ao processo de acumulação de riquezas que se dá no Brasil da forma mais intensa e perversa do que na maioria das regiões do mundo, a tal ponto de mantermos elevados e indecorosos índices de exploração do trabalhador em condições análogas de escravos, de exploração do trabalho infantil, de acidentes do trabalho, de extensas jornadas de trabalho (muitas vezes praticadas inclusive sem remuneração), sobretudo no trabalho terceirizado de limpeza, conservação e vigilância, sem falar, é claro, da precariedade jurídica do trabalho doméstico.
 
Entretanto, para o Editorial do “Estadão”, o grande número de processos na Justiça do Trabalho não é gerado pela prática deliberada de descumprimento da lei trabalhista e sim pela atuação dos juízes que “inventam” direitos, atingindo os pobres empregadores que se esforçam para aplicar todos os direitos trabalhistas. Como dito no Editorial, “mesmo que o empregador se esforce por cumprir todas as obrigações que lhe competem, tudo poderá ser revisto e recalculado pela Justiça, com suas paternalistas presunções”.
 
Trata-se, no entanto, de um esforço retórico ingrato, sem qualquer base empírica, pelo qual se tenta transformar em crime de extorsão o ato de milhões de trabalhadores que são obrigados a recorrer ao Judiciário para verem reconhecidos alguns de seus poucos direitos. A manifestação constante do Editorial é uma afronta à cidadania de milhões de trabalhadores.
 
E para se valer de uma opinião “abalizada” neste propósito de desmoralizar a Justiça do Trabalho, o Jornal traz a palavra de quem? Do Ministro Ives Gandra Filho, claro, o qual teria dito: “Sempre que o trabalhador entra na Justiça, ganha alguma coisa. Na pior das hipóteses, consegue um acordo.”
 
Essa fala é uma enorme ofensa à honra de todos os juízes e juízas do trabalho e torna no mínimo incoerente a permanência daquele Ministro à frente da Instituição que preside – e que acusa de leviana.
 
Acusações do gênero, formuladas pelo próprio Presidente da Corte, sugerem que a ideia é reduzir à inação, pelo medo, todos os juízes que insistem em aplicar o Direito do Trabalho – ou seja, que insistem em cumprir a sua missão constitucional. Felizmente, esses juízes são a maioria, tendo inteira razão o Jornal, neste aspecto, ao dizer que o Ministro Ives Gandra Filho é uma das “poucas vozes” que destoam. E destoam, aliás, não apenas da jurisprudência dominante no Brasil, como dos maiores mestres do Direito do Trabalho em todo o mundo, de Barassi e La Cueva a Baylos, de Catharino a Delgado, para citarmos apenas uns poucos. 
 
O fato é que o erro técnico e a inversão maliciosa de valores e fatos constantes do Editorial em questão só se explicam pela reprodução de uma posição ideológica, de cunho neoliberal, com resquício escravista e autoritário.
 
E nada adianta a ameaça feita pelo “Estadão”, acusando a Justiça do Trabalho de “Justiça parcial”, pois o compromisso da magistratura é com a efetivação da Constituição Federal e dos preceitos internacionais de proteção aos Direitos Humanos.
 
Para não sucumbirem às pressões dos poderosos é que se conferiram aos juízes e juízas as garantias da independência, tidas como fator essencial da proteção dos direitos fundamentais, inserindo-se como importante fator de construção e efetivação dos Direitos Humanos
 
Exatamente por isso é possível verificar a consagração da independência do juiz em diversos dispositivos internacionais ligados aos Direitos Humanos: 
 
Declaração Universal Dos Direitos do Homem, 1948:
 
“Artigo 10: Todo o homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.”
 
Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, 1948:
 
“Artigo XVIII - Toda pessoa pode recorrer aos tribunais para fazer respeitar os seus direitos. Deve poder contar, outrossim, com processo simples e breve, mediante o qual a justiça a proteja contra atos de autoridade que violem, em seu prejuízo, quaisquer dos direitos fundamentais consagrados constitucionalmente.”
 
Pacto de São José da Costa Rica, 1969: 
 
“Artigo 1º - Obrigação de respeitar os direitos.
 
1. Os Estados-partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma, por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social.”
 
“Artigo 8º - Garantias judiciais.
 
1. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou Tribunal competenteindependente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou na determinação de seus direitos e obrigações de caráter civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza.”
 
Em nível supranacional também pode ser citada a Recomendação n. 12, do Comitê dos Ministros do Conselho da Europa, de 13 de outubro de 1994, que trata da independência dos juízes.
 
Também se pode verificar a consignação da idéia da independência dos juízes na Constituição de vários países, além, naturalmente, dos Estados Unidos, que foram os propulsores da garantia: Alemanha: “Os juízes são independentes e somente se submetem à lei” (art. 97); Áustria: “Os juízes são independentes no exercício de suas funções judiciárias” (art. 87); Dinarmarca: “No exercício de suas funções os magistrados devem se conformar à lei.” (art. 64); Espanha: “A justiça emana do povo e ela é administrada em nome do rei por juízes e magistrados que constituem o poder judiciário e são independentes, inamovíveis, responsáveis e submetidos exclusivamente ao império da lei.” (art. 117) - “Toda pessoa tem o direito de obter a proteção efetiva dos juízes e tribunais para exercer seus direitos e seus interesses legítimos, sem que em nenhum caso esta proteção possa lhe ser recusada” (art. 24); França: “O presidente da República é garante da independência da autoridade judiciária. Ele é assistido pelo Conselho superior da magistratura. Uma lei orgãnica traz estatuto dos magistrados. Os magistrados de carreira são inamovíveis.” (art. 64); Grécia: “A justiça é composta por tribunais constituídos de magistrados de carreira que possuem independência funcional e pessoal.” (art. 87-1) - “No exercício de suas funções, os magistrados são submetidos somente à Constituição e às leis; eles não são, em nenhum caso, obrigados a se submeter a disposições contrárias à Constituição.” (art. 87-2); Irlanda: “Os juízes são independentes no exercício de suas funções judiciárias e submetidos somente à presente Constituição e à lei.” (art. 35-2); Itália: “A justiça é exercida em nome do povo. Os juízes se submetem apenas à lei.” (art. 101); Portugal: “Os juízes são inamovíveis. Eles não poderão ser multados, suspensos, postos em disponibilidade ou exonerados de suas funções fora dos casos previstos pela lei.” (art. 218-1) - “Os juízes não podem ser tidos por responsáveis de suas decisões, salvo exceções consignadas na lei.” (art. 218-2)
 
Assim, tem inteira razão Jean-Claude Javillier, quando diz que “não há nenhuma sociedade democrática sem uma independência da magistratura: ela é a garantia de uma efetividade das normas protetoras dos direitos essenciais do homem”.
 
Neste mesmo sentido, conclui Fábio Konder Comparato: “A independência funcional da magistratura, assim entendida, é uma garantia institucional do regime democrático. O conceito institucional foi elaborado pela doutrina publicista alemã à época da República de Weimar, para designar as fontes de organização dos Poderes Público, cuja função é assegurar o respeito aos direitos subjetivos fundamentais, declarados na Constituição.”
 
Em certa medida, fora esta, ademais, uma das principais preocupações dos juízes trabalhistas, reunidos no VIII Congresso Nacional dos Magistrados do Trabalho, no qual se firmou posição no sentido de que: "Os juízes devem lutar pela defesa de suas prerrogativas constitucionais e pelo exercício independente e imparcial da jurisdição, que são garantias da plena cidadania."
 
A defesa de sua independência constitui, como se pode inferir, imprescindível dever do magistrado. 
 
Portanto, além de rechaçar mais esses estapafúrdios e ofensivos ataques desferidos contra o Direito do Trabalho e a magistratura trabalhista, faz-se oportuno deixar bastante claro para todos aqueles que pretendam, pela força ou pelo uso do poder econômico ou midiático, destruir os direitos dos trabalhadores consagrados na Constituição Federal e nas Declarações Internacionais de Direitos Humanos, que há juízas e juízes, procuradores e procuradoras, auditores e auditoras fiscais, advogados e advogadas do trabalho no Brasil!


Créditos da foto: Camila Domingues / Palácio Piratini

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A PEC DA DESTRUIÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

A PEC da destruição da economia brasileira


A PEC-55, caso viesse a ser aprovada, provocaria a mais profunda e prolongada depressão na economia brasileira, maior do que a observada nesses dois últimos anos, tendo em vista a projetada contração de investimentos e gastos orçamentários ao longo de 20 anos. Antes de completar seu tempo, ou o tempo intermediário de 10 anos, o país mergulharia ou na indigência mais absoluta dos pobres ou na guerra civil.
Roberto Requião*

   O Senado da República pode impedir isso. E a forma de impedi-lo é apresentar e aprovar uma alternativa.

É falso que a situação fiscal em que nos encontramos caracteriza uma crise aguda, o que justificaria medidas extremas como a PEC-55. Nossa situação fiscal é melhor, em termos estruturais, inclusive quanto à relação dívida/PIB, do que a maioria dos países. Temos, sim, uma crise conjuntural que resultou em queda aguda de receita devida à contração da economia, o que se deveu, por sua vez, às consequências da Lava-Jato no sistema Petrobras – o maior investidor brasileiro, que reduziu drasticamente seus investimentos – e o chamado “ajuste Levy”, praticamente imposto pelos neoliberais ao Governo anterior, e agora replicado sobre o atual Governo com maior rigor.

Podemos reverter rapidamente esse quadro conjuntural. Não é preciso ir longe. Façamos o que foi feito em 2009 e 2010, em termos macroeconômicos. Na ocasião, caso não se lembrem, depois de drástica contração da economia devida à crise global de 2008, o Governo brasileiro determinou, entre outras medidas – inclusive o aumento do salário mínimo -, que o Tesouro Nacional emprestasse R$ 100 bilhões ao BNDES para que irrigasse a economia. Em 2010 repetiu a dose, agora com R$ 80 bilhões. O resultado foi um espetacular crescimento do PIB de 7,5% em 2010. Um crescimento chinês, não obstante a aguda crise mundial.

Acontece que os neoliberais não se contentam com alegria fácil. Por pressão deles, e de gente muito próxima do Governo da época, o ministro Mantega decidiu contrair a economia com medo de um suposto superaquecimento. Foi nosso azar. Caímos na mediocridade do crescimento do PIB nos anos subsequentes e jamais saímos disso, até o descalabro atual em termos de política econômica. Hoje, constatamos o absurdo de um governo que quer que o BNDES, em vez de promover política anticíclica, pague ao Tesouro os recursos que lhe emprestou no meio de uma crise que, quantitativamente, era menor que a atual.

Qual é a alternativa? A alternativa, senhoras e senhores senadores, já foi inventada há muito tempo, é a velha política anticíclica: na alta do ciclo econômico, o governo promove o equilíbrio orçamentário; na época de baixa do ciclo, o governo investe deficitariamente. É exatamente isso, investimento deficitário. É pelo financiamento do déficit, inclusive monetário, que o governo introduz dinheiro novo na economia de forma a reanimá-la. Esse déficit não gera inflação, já que a economia encontra-se numa situação de demanda baixa, portanto com baixa pressão de consumo.

Diz-se também que é uma política keynesiana, só lembrada em termos de depressão. Em 2008, por exemplo, o conservador Sarcozy proclamou no G-20 que todos haviam se tornado keynesianos. O problema é que, também entre os alemães, políticas keynesianas não são populares. A Alemanha confia em superávits comerciais, o que não deixa de ser uma contribuição efetiva ao crescimento. Acontece apenas que, por uma fatalidade aritmética, não há como todos os países fazerem superávit comercial simultaneamente. Mas foi por essa crença histórica que a Alemanha obrigou a Europa do euro a voltar, depois do breve ciclo inicial de expansão fiscal, ao receituário neoliberal. Isso levou à virtual falência países como Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, e até Itália.

Apoiada no FMI, no Banco Mundial, na OCDE e no Banco Central Europeu, controlados todos pela Alemanha, deu-se o nome de “exit strategy” às estratégias de saída das políticas de expansão na Europa, com influência no mundo inteiro, exceto os Estados Unidos. Neste caso, o neoliberalismo é seletivo: serve para os outros, mas não para os de casa. De fato, os déficits públicos anuais norte-americanos foram, sucessivamente, a partir de 2009, de 1,4 trilhão de dólares, 1,3 trilhão, 1,2 trilhão, 1,1 trilhão, 1,0 trilhão e só baixaram da casa do trilhão de dólares recentemente, caindo para cerca de 600 bilhões e 400 bilhões.

A política preconizada pela PEC-55 é algo parecida, porém de consequências muito mais drásticas, do que a matriz imposta pela Alemanha na Europa. Seus efeitos no setor público seriam devastadores, mas igualmente devastadores, talvez com consequência ainda mais drásticas, seriam os efeitos devidos à relação entre setor público e setor privado. Basta um exemplo: tome-se o investimento público em construção. Se ficar congelado por 20 anos, como quer o Governo, seriam congelados os investimentos privados conectados em cimento, ferro, tijolos, móveis, telhas. Ao mesmo tempo, ou seriam perdidos, ou seriam deixados de criar centenas de milhares de empregos. Na verdade, parte substancial da economia brasileira seria destruída.
A alternativa a esse processo de destruição é particularmente simples, e indolor para a cidadania. Diz-se que não há almoço grátis. É falso. O almoço dos banqueiros, ou seja, a contrapartida da criação de moeda por eles, é inteiramente grátis. Quando se fala em investir deficitariamente o que se quer é fazer com que o Estado se aproprie de pelo menos parte desse dinheiro de graça – receita de senhoriagem – para colocar a economia na trilha do crescimento rápido, vencendo uma depressão que já dura dois anos e provavelmente, se nada for feito em termos de investimento, se estenderá para os próximos.

Concordamos que para enfrentar a crise fiscal conjuntural é fundamental tomar as medidas seguintes, que substituiriam as propostas inconsequentes da PEC-55:

1.      Política macroeconômica anticíclica, centrada em gastos em serviços públicos e na retomada de investimentos em energia e logística;

2.      Retomada imediata dos investimentos da Petrobras ao nível de 2014, tendo em vista seu efeito imediato na própria cadeia produtiva e no resto da economia;

3.      Renegociação em níveis razoáveis das dívidas dos Estados junto ao Governo federal, de forma a liberar recursos de investimento em nível local.

*Roberto Requião e senador pelo PMDB do Paraná


CANDIDATA DO 1%

candidata do 1%

JOHN PILGER entrevista Julian Assange

E-mails vazados pelo Wikileaks revelam: todo o establishment está com Hillary Clinton – em especial a oligarquia financeira e o complexo industrial-militar. Veja por quê.

Julian Assange concedeu uma de suas entrevistas mais incendiárias, num encontro com John Pilger, na qual resume o que lhe parece mais crucialmente importante das dezenas de milhares de e-mails distribuídos por WikiLeaks este ano.

John Pilger, australiano como Assange, realizou a entrevista, de 25 minutos, na Embaixada do Equador, em Londres, onde Assange está confinado desde 2012, por medida de segurança, para evitar ser extraditado para os EUA. Mês passado, a conexão de internet de Julian Assange foi cortada, alegadamente por “interferência” na eleição presidencial dos EUA, pelo trabalho de seu website.

·         John Pilger: O que significa a intervenção do FBI nesses últimos dias da campanha eleitoral dos EUA, desta vez contra Hilary Clinton?

Julian Assange: O FBI tornou-se efetivamente a polícia política dos EUA. Demonstrou isso ao provocar a demissão do ex-diretor da CIA, general David Petraeus, porque passara informação secreta para a amante. Quase ninguém é intocável. O FBI está sempre tentando demonstrar que ninguém consegue resistir a ele. Mas Hillary Clinton resistiu muito acintosamente contra a investigação do FBI, o que gerou muita ira, porque fez com que a instituição aparecesse em posição de fraqueza aos olhos da opinião pública. Nós publicamos cerca de 33 mil e-mails de Hillary Clinton, de quando era secretária de Estado. São parte de mais de 60 mil e-mails, dos quais Hillary Clinton conservou cerca da metade, 30 mil. E nós publicamos a outra metade.

Depois, estamos publicando os “Podesta e-mails“. John Podesta é principal coordenador de campanha de Hillary Clinton, portanto há um fio que percorre todos esses e-mails; há muita “negociação” do tipo “pague para jogar”, pay-for-play, como eles dizem, muito acesso liberado a estados, indivíduos e empresas, em troca de dinheiro. Esses e-mails combinam com o encobrimento dos de Hillary Clinton, de quando foi secretária de Estado, que gerou um ambiente no qual aumenta a pressão sobre o FBI.


·         A campanha de Hillary Clintoin disse que a Rússia está por trás dos vazamentos, que Moscou manipulou a campanha e que é fonte de onde WikiLeaks recebe seus e-mails.

O campo de Hillary Clinton conseguiu projetar esse tipo de histeria neo-macartista: a Rússia sempre é culpada por tudo. Hilary Clinton disse inúmeras vezes, mentindo, que 17 agências de inteligência dos EUA teriam concluído que a Rússia seria a fonte de nossas publicações. É mentira. Posso dizer, porque é absoluta verdade, que nossa fonte não é o governo russo.

WikiLeaks publica já há dez anos. Publicamos 10 milhões de documentos, vários milhares de publicações individuais, vários milhares de diferentes fontes, e ninguém jamais encontrou informes falsos no que publicamos.

·         Os e-mails que provam que se vendiam acessos a autoridades, que se trocava acesso por dinheiro, e o modo como a própria Hillary Clinton beneficiou-se desse “mecanismo” e como ainda se beneficia politicamente. São documentos realmente extraordinários. Penso no representante do Qatar, que comprou e pagou com um cheque de 1 milhão de dólares, o “direito” de falar diretamente com Bill Clinton, por cinco minutos.

Do Marrocos, cobraram 12 milhões.

·         Exatamente, 12 milhões do Marrocos, é mesmo

...para que Hillary Clinton comparecesse a uma festa.

·         Em termos da política externa dos EUA, e nesse setor os e-mails são especialmente reveladores, porque mostram a conexão direta entre Hillary Clinton e o surgimento do jihadismo, do Estado Islâmico (ISIS), no Oriente Médio. Você poderia comentar o modo como os e-mails demonstram essa conexão? Afinal, os que deveriam estar combatendo contra os jihadistas do ISIS, são, na verdade, os que ajudaram a criá-lo.

Há um e-mail do início de 2014, de Hillary Clinton, pouco tempo depois de ela ter deixado o Departamento de Estado, dirigido ao coordenador geral de sua campanha, John Podesta. Hillary diz que o ISIS fora criado pelos governos de Arábia Saudita e Qatar. Esse é o e-mail mais significativo de toda a coleção, e talvez seja o motivo pelo qual há dinheiro saudita e qatari em todos os cantos da Fundação Clinton. O governo dos EUA até admite que algumas figuras sauditas tenham apoiado o ISIS. Mas a fantasia que se criou sempre foi a de que seria dinheiro de alguns príncipes “do mal”, usando o dinheiro que lhes cabe do petróleo para fazer o que quisessem, mas que a ação seria desaprovada pelo governo saudita.

O que aquele e-mail diz é que não. Quem pagava naquele momento para manter o ISIS eram os próprios governos saudita e qatari.

·         Os sauditas, qataris, marroquinos, bahrainis, particularmente os sauditas e os qataris, estão enchendo de dinheiro a Fundação Clinton, no exato momento em que Hilary Clinton é secretária de Estado, e o Departamento de Estado aprova negócios maciços de venda de armas, particularmente para a Arábia Saudita.

Aconteceu durante o mandato de Hillary Clinton o maior negócio de armas de toda a História, com a Arábia Saudita, num total de mais de 80 bilhões de dólares. De fato, durante o mandato dela como secretária de Estado, o valor total em dólares, das exportações de armas dos EUA, dobrou.

·         Claro, o outro lado dessa moeda é que o grupo terrorista conhecido como ISIS foi criado, em grande medida, com o dinheiro do mesmo pessoal que sustenta também a Fundação Clinton.

É.

·         É espantoso.

É verdade que, no plano pessoal, Hillary Clinton me inspira muita pena, porque vejo uma pessoa que está sendo devorada ao longo da vida pelas próprias ambições, literalmente tão atormentada a ponto de adoecer. Ela desmaia, como resultado doentio das próprias ambições. Ela representa toda uma rede de pessoas e uma rele de relacionamentos com Estados determinados. A questão é determinar o modo como Hilary Clinton está encaixada nessa rede mais ampla. Ela é como um eixo de articulação que centraliza e distribui as “energias”. Há várias alavancas distintas em operação, desde os grandes bancos como Goldman Sachs e elementos importantes de Wall Street, e da inteligência, e pessoal no Departamento de Estado e os sauditas.

Ela é o eixo de articulação-distribuição que interconecta todos esses diferentes braços. É como a representação central de tudo isso; e “tudo isso” é mais ou menos o que se vê hoje na posição de mais poder nos EUA. É o que chamamos de establishment ou de “o consenso da capital” Outro importante e-mail de Podesta, que já distribuímos, foi sobre como se formou o gabinete de Obama; como mais da metade dos nomes que constituíram o gabinete Obama foram basicamente nomeados pelo CityBank. É impressionante.

·         CityBank é aquele que mandou uma lista…

Esse mesmo.

·         … com praticamente todo o gabinete Obama.

É.

·         Quer dizer que Wall Street decide quem fica e quem sai do gabinete do presidente dos EUA?

Quem acompanhava de perto a campanha de Obama naquela época, percebeu o quanto a campanha rapidamente se aproximou dos interesses dos bancos. Da mesma forma, ninguém pode compreender adequadamente a política externa de Hillary sem compreender a Arábia Saudita. As conexões com a Arábia Saudita são tão íntimas!



·         Por que Hillary manifestou-se tão entusiasticamente deliciada com a destruição da Líbia? Pode falar um pouco sobre o que os e-mails informam – sobre o que dizem a vocês –, do que realmente aconteceu na Líbia? Porque a Líbia é quase diretamente a fonte de muito do que hoje acontece na Síria: o ISIS, o jihadismo e tudo mais. E foi praticamente a invasão construída por Hillary Clinton. O que os e-mails nos contam sobre isso?

A Líbia é a guerra de Hillary Clinton, sim, mais do que de qualquer outra pessoa. Barak Obama inicialmente se opôs. Quem promoveu, sempre incansavelmente, aquela guerra? Hillary Clinton. Está claramente documentado nos e-mails dela. Ela pôs seu agente preferido, Sidney Blumenthal, nessa tarefa. São mais de 1.700 e-mails dos 33 mil e-mails de Hillary Clinton que publicamos até agora, só sobre a Líbia. Não porque a Líbia significasse petróleo barato. Mas porque ela viu a importância de derrubar Gaddafi e destruir o Estado líbio –, importante para ela mesma, porque viria a servir-se desse “feito” para concorrer à eleição geral para presidente.

No final de 2011 apareceu um documento interno chamado “Tick Tock On Libya” que foi produzido para Hillary Clinton, e é a descrição cronológica do que ela fez como figura central na destruição do Estado líbio, que resultou em cerca de 40 mil mortos na Líbia; então os jihadistas mudaram-se para lá, o ISIS instalou-se lá, as populações residentes foram expulsas, o que gerou o fluxo de refugiados e a crise dos migrantes para a Europa.

Não apenas gerou-se ali um fluxo de pessoas obrigadas a deixar a Líbia, a deixar a Síria, e a desestabilização de outros países africanos, por efeito direto do fluxo de armas para a região, mas o próprio Estado líbio foi desmontado e perdeu a capacidade de controlar os fluxos de migrantes que passaram a cruzar o país. A Líbia está diante do Mediterrâneo e sempre funcionou como a rolha que continha a pressão do resto da África. Por isso, pode-se dizer que a destruição do Estado líbio é a origem de todos os problemas, problemas econômicos e a guerra civil na África. Porque antes, os problemas não eram canalizados diretamente para a Europa: a Líbia operava como guardiã do Mediterrâneo.

Exatamente o que, naquela época, início de 2011, dizia o coronel Gaddafi: “O que esses europeus pensam que estão fazendo, tentando bombardear e destruir o Estado líbio? Haverá inundação de migrantes e jihadistas saídos da África, que entrarão diretamente na Europa.” Foi precisamente o que aconteceu, efeito direto da guerra de Hillary Clinton.

·         Você ouve reclamações de pessoas que dizem “O que é isso que WikiLeaks está fazendo? Estarão tentando colocar Trump na Casa Branca?”

Minha resposta é que Trump não será “autorizado” a vencer. Tudo farão para que ele não vença. Por que digo isso? Porque Trump tem contra ele todo establishment, todos os vários campos do establishment. Não há uma única área ou setor do establishment a favor de Trump. Talvez só, no máximo, os evangélicos, se se pode dizer que sejam um establishment. Bancos, inteligência, empresas fabricantes de armas, dinheiro de fora etc. todos esses apoiam Hillary Clinton. E a mídia-empresa comercial, claro. Os proprietários das empresas comerciais de mídia e, também, os próprios jornalistas seus empregados.


·         Há também a acusação de que WikiLeaks estaria associado com os russos. Há quem diga “Ora, por que WikiLeaks não investiga nem publica e-mails sobre a Rússia?”

Publicamos cerca de 800 mil documentos de vários tipos, relacionados à Rússia. Muitos deles são criticamente importantes; e a partir do que publicamos surgiram vários livros sobre a Rússia, muitos deles de crítica à Rússia. Nossos documentos sobre a Rússia já foram usados em inúmeros processos judiciais, dentre outros de refugiados, de pessoas que fogem de algum tipo de declarada perseguição política de que seriam vítimas na Rússia. Em vários desses casos, nossos documentos foram citados em tribunais, como prova.

·         Como você, pessoalmente, vê as eleições nos EUA? Tem alguma preferência? Clinton ou Trump?

Falemos para começar, de Donald Trump. O que ele representa na mente dos norte-americanos e europeus? Representa o “lixo norte-americano branco” que Hillary Clinton chamou de ‘deplorável e imperdoável’. De um ponto de vista de um establishment letrado cosmopolita urbano, são pessoas que eles classificam como “lixo norte-americano branco”; são intratáveis, é impossível confiar neles. Porque Trump representa muito claramente – por suas ações e palavras, e pelo tipo de gente que participa dos comícios dele – gente que não está “no meio”, que claramente não é a classe média alta educada. Por isso, há esse medo de se aproximarem daquelas pessoas, um medo social que degrada o status de classe de quem quer que seja “acusado”, seja como for, de ajudar Trump — inclusive criticando Hillary Clinton. Se você analisa o modo como a classe média obtém o poder econômico e social que tem, aquele medo que afasta de Trump faz absoluto sentido.

·         Queria falar sobre o Equador, o pequeno país que lhe deu abrigo e asilo político na embaixada em Londres. Agora, o Equador cortou a internet aqui, no prédio da embaixada, onde estamos fazendo essa entrevista, pela clara, óbvia razão de todos terem medo de que você intervenha na campanha eleitoral dos EUA. Você pode falar um pouco sobre por que tomaram essa medida e o que pensa do apoio que o Equador lhe dá?

Voltemos há quatro anos. Pedi asilo ao Equador, nesta embaixada, por causa do processo de extradição dos EUA. Um mês depois recebi resposta favorável ao meu pedido. Desde então, a embaixada tem estado cercada pela polícia: é uma operação policial muito cara, na qual o governo britânico admite que está gastando mais de 12,6 milhões de libras. Admitiram, faz mais de um ano. Agora, há policiais disfarçados e vigilância por câmeras robôs de vários tipos. Significa que tem havido confusão grave bem aqui, no coração de Londres, entre o Equador, país com 16 milhões de habitantes, contra o Reino Unido e os EUA, que colaboram com os britânicos. A ação do Equador é ação de coragem, na defesa de princípios morais.

Agora, está aí a campanha eleitoral nos EUA. No Equador, haverá eleições em fevereiro do próximo ano. E a Casa Branca sente a pressão política resultante da informação verdadeira que estamos publicando.

O WikiLeaks nada publica de dentro de território ou jurisdição do Equador, nada publica de dentro desta Embaixada; publicamos da França, da Alemanha, da Holanda e de vários outros países. Assim sendo, a tentativa de chantagear o Equador se faz em torno do meu status de refugiado; e isso, sim, é absolutamente intolerável. Significa que os EUA estão tentando atacar uma organização de mídia, uma organização que publica documentos. Estão tentando impedir a publicação de informação verdadeira, de alto interesse para o povo dos EUA e outros povos, relacionada ao processo eleitoral.

·         Diga-nos o que aconteceria se você saísse a pé desse prédio onde estamos.

Seria imediatamente preso pela polícia britânica e, imediatamente extraditado para os EUA ou para a Suécia. Na Suécia nada há contra mim, já fui liberado pela Procuradora Geral de Estocolmo, Eva Finne. Não temos muita clareza sobre o que poderia acontecer na Suécia, mas sabemos que o governo sueco recusou-se a garantir que não me extraditaria para os EUA. Sabe-se que os suecos extraditaram 100% das pessoas cuja extradição foi requerida algum dia pelos EUA, desde no mínimo 2000.  Nos últimos 15 anos, todos que os EUA quiseram extraditar da Suécia foram extraditados. Os suecos recusam-se a garantir que não me extraditarão.

·         Muitas pessoas me perguntam como você consegue superar o isolamento, dentro desse prédio.

Ora… uma das melhores qualidades dos seres humanos é que são adaptáveis; uma das piores qualidades dos seres humanos é que são adaptáveis. Pessoas adaptam-se e passam a tolerar todos os tipos de violência e abuso, adaptam-se e começam a se envolver, elas mesmas, nos abusos, adaptam-se à diversidade e seguem adiante. Quanto à minha situação, sinceramente, já praticamente me institucionalizei – aqui a embaixada é o mundo. Visualmente, é o mundo para mim.

·         Mundo sem luz do sol, para ficarmos só nisso, não é?

É o mundo sem sol, mas faz tanto tempo que não vejo o sol, que já nem me lembro.

·         É.

É. Você se adapta. Para mim o que realmente me irrita é que meus filhos pequenos também se adaptam. Adaptam-se à vida sem o pai deles. É adaptação muito terrível, que eles nada fizeram para ter de suportar.

·         Você está preocupado com eles?

Sim. Preocupo-me com eles, preocupo-me com a mãe deles.

·         Alguns diriam “Ok, nesse caso por que não põe fim a isso tudo, sai pela porta desse prédio e se deixa extraditar para a Suécia?”

A ONU, o Grupo de Trabalho da ONU contra Detenção Arbitrária,  examinou detidamente toda essa situação. Passaram 18 meses em discussão, fizeram minha defesa formal, nos tribunais formais. Hoje, somos a ONU e eu, contra a Suécia e o Reino Unido. Quem está certo? A ONU concluiu que estou sob detenção arbitrária ilegal, privado de liberdade e que o que ocorreu não foi feito segundo as leis que Reino Unido e Suécia são obrigados a respeitar. Sou vítima de abuso e de prática ilegal. Quem pergunta formalmente é a ONU: “O que está acontecendo aqui?” “Qual a explicação legal pra o que está acontecendo aqui?” “Assange já requereu que todos reconheçam sua situação de asilado.” E o que se vê é...

A Suécia já respondeu formalmente aos EUA para dizer que “Não reconheceremos o que a ONU determina”. Essa reação deixa sempre ativa a capacidade da Suécia para promover minha extradição.

Estranho muito que a narrativa real de toda essa situação não seja exposta na mídia. Mas sei que esses fatos não combinam com a narrativa do establishment ocidental. A verdade é que, sim, há presos políticos no Ocidente. Existem. Essa é a realidade, e não sou só eu, há muitos outros.

Prisioneiros políticos no Ocidente. Pois é. Há. Mas nenhum Estado ocidental aceita chamar de prisioneiros políticos as pessoas que esses Estados prendem ou detêm por motivos políticos. O Estado chinês não fala de prisioneiros políticos na China, o Estado do Azerbaijão não fala de prisioneiros políticos no Azerbaijão, e o Estado norte-americano, o Estado no Reino Unido, o Estado sueco tampouco admitem que também mantêm prisioneiros políticos. São absolutamente incapazes de se verem como realmente são.

Temos aí o caso da Suécia, país no qual jamais fui condenado por qualquer crime, onde fui processado pela Procuradora Geral em Estocolmo e absolvido, onde a suposta “vítima” declarou que tudo não passou de encenação criada pela polícia; onde a ONU declarou formalmente que todo o processo é nulo, porque é ilegal. O Estado do Equador também examinou exaustivamente o caso e concluiu que devia me conceder asilo. OK, os fatos são esses. Mas… e a retórica, qual é?

·         Sim, é diferente.

A retórica só faz mentir e repetir a mentira segundo a qual eu teria sido acusado de praticar um crime… sem jamais esclarecer que já fui absolvido naquele processo. Sem jamais dizer que a suposta vítima, naquele caso, já confessou que toda aquela ação foi urdida na e pela polícia sueca.

A retórica tenta encobrir a verdade evidente de que a própria ONU já reconheceu formalmente que toda essa história é ilegal. Sem jamais esclarecer, sem sequer mencionar, que o Equador avaliou formalmente todo o processo e concluiu que, sim, sou vítima de perseguição política pelo Estado norte-americano.


www.outraspalavras.com.br Publicado em 07/11/2016