sexta-feira, 12 de maio de 2017

Temer: um ano de indiferença aos apelos da opinião pública

Governo

Temer: um ano de indiferença aos apelos da opinião pública

por Deutsche Welle — publicado 12/05/2017 10h58, última modificação 12/05/2017 10h59
Para observadores europeus, 12 meses do governo Temer deixam legado de retrocessos no âmbito social e perda de confiança no sistema
Beto Barata / PR
Michel Temer
Temer: de costas para a opinião pública
Por Jean-Philip Struck
Há um ano, o presidente Michel Temer assumiu o cargo interinamente após o Senado ratificar o afastamento temporário de Dilma Rousseff. Na cerimônia de posse, Temer falou em "pacificar a nação" e "unificar o Brasil" e enfatizou que era urgente formar um governo de "salvação nacional". Na ocasião, também aproveitou para anunciar os nomes de seus novos ministros. Ele também citou uma frase que viu em um outdoor: "Não fale em crise, trabalhe."
Nas horas seguintes, as reações aos nomes que iam comandar os ministérios já deram o tom de como o governo Temer seria encarado e analisado. Jornais, ONGs e observadores estrangeiros criticaram a falta de diversidade do gabinete, composto quase que exclusivamente por homens brancos. Pouco antes do anúncio, esperava-se que Temer conseguisse ter um período de lua de mel com a opinião pública. Ela nunca aconteceu.
Em duas semanas seria a vez de Temer perder um de seus "homens brancos", Romero Jucá, para um escândalo que envolveu gravações e a suspeita de que o novo governo tinha uma postura duvidosa em relação à Operação Lava Jato.
Um ano depois, a popularidade de Temer – que já era baixa antes da posse – atinge impressionantes 4% de aprovação, segundo levantamento divulgado no final de abril. A mesma pesquisa mostrou que 92% acreditam que o País está no caminho errado. Ainda assim, o presidente redobrou sua aposta na indicação de nomes controversos para seu ministério, com a entrada de figuras como Osmar Serraglio, ligado à bancada ruralista, para a Justiça, e na proteção de ministros envolvidos nos escândalos revelados pela Lava Jato.
No plano das reformas, o governo continuou a promover mudanças reprovadas pela população, como a trabalhista, já aprovada na Câmara, e a da Previdência, que ainda enfrenta dificuldades no Congresso. Segundo uma pesquisa divulgada nesta semana, apenas 20% dos brasileiros apoiam a reforma da Previdência. A Trabalhista só é bem vista por 19%.
"Estado de exceção sob manto de normalidade democrática"
Para observadores estrangeiros ouvidos pela DW, o desapreço à opinião pública tem sido a característica que resume o governo Temer. "Seus poucos apoiadores, principalmente o empresariado, encaram isso como uma vantagem, já que ele vai tentar passar essas reformas de qualquer jeito, mas isso só minou ainda mais a confiança dos brasileiros no sistema político", afirma Thomas Manz, diretor da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, organização ligada ao Partido Social-Democrata alemão (SPD).
"Este aniversário [de Temer na previdência] marca o fim da Nova República brasileira, baseada na Constituição de 1988. É o primeiro governo que veio depois da redemocratização que não tem os avanços sociais como prioridade", considera Manz.
Para Gerhard Dilger, diretor da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil, ligada ao partido alemão A Esquerda, os 12 meses de governo Temer não devem ser analisados pela clássica fórmula erros x acertos.
"O governo Temer está implementando uma série de medidas neoliberais que atingem os brasileiros mais pobres. Infelizmente, trata-se de uma política deliberada, e não de um 'erro'", diz. Segundo ele, a questão principal continua sendo a falta de legitimidade do presidente. "O Brasil está vivendo uma espécie de estado de exceção sob um manto de normalidade democrática."
Segundo o cientista político suíço Rolf Rauschenbach, do Centro Latino-Americano da Universidade de St. Gallen, na Suíça, não se poderia mesmo esperar muito de Temer no governo.
"É preciso dizer algo, havia de fato uma herança maldita deixada pelo governo Dilma, especialmente na economia. Nem mesmo um gênio seria capaz de lidar adequadamente com esse quadro", afirma. "Mas Temer tem muita pouca coisa para mostrar. Tem faltado criatividade, ousadia e ambição para implementar reformas políticas realmente necessárias."
Segundo Rauschenbach, é como se Temer não ligasse para o que vai acontecer depois de 2018. "Que tipo de país ele vai entregar? Seus aliados só promovem reformas que beneficiam a própria classe política. Não surgiu nada que vai garantir uma normalidade institucional depois das próximas eleições", considera.
Rauschenbach destaca como único ponto positivo do governo Temer uma capacidade de ter momentaneamente acalmado um pouco a situação do país, apesar da impopularidade e da série de escândalos. "Apesar de tudo, a situação política, especialmente no Congresso, está um pouco mais calma do que nos últimos meses de Dilma", afirma.
Retrocessos e escândalos
Com a proximidade do aniversário de Temer no poder, algumas publicações brasileiras destacaram números de seu governo. A promessa de que uma nova administração seria capaz de tirar o país do atoleiro foi uma das razões para o sucesso do processo contra Dilma.
Alguns indicadores reagiram, como a inflação, que recuou dramaticamente. Mas o país soma 14 milhões de desempregados, o que significa um índice de 13,7%. O crescimento do PIB não deve passar de 0,2% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas pelo menos deve reverter a tendência de queda dos últimos dois anos.
Para Kai Michael Kenkel, pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo, a forma como Temer lidou com a economia foi só "uma saída de curto prazo", que "não inclui toda a população".
"A meu ver, o maior erro do governo Temer foram os cortes efetivos no financiamento da Educação e da Saúde, e também o abandono de importantes programas de combate à desigualdade", aponta. "O Brasil não possui o tipo de mão de obra que navegará sem danos extensos a um processo de privatização e terceirização sem salvaguardas sociais. Temo também um retrocesso grave na situação das mulheres, dos indígenas, além de outros grupos socialmente marginalizados no país."
Sobre os escândalos que marcaram os últimos 12 meses do governo Temer, Kenkel, afirma que eles eram previsíveis. "Era tudo pré-programado, já que a principal motivação do impeachment continua sendo a de liberar o caminho para a blindagem dos envolvidos com corrupção e o desmantelamento dos avanços sociais alcançados ao longo das últimas duas décadas", diz. "Os escândalos servem para enfraquecer ainda mais a confiança do brasileiro no senso de responsabilidade da classe política."
Ainda para o professor, o legado do governo Temer deve ser "um retrocesso marcante no âmbito social e uma vertiginosa perda de soft power do Brasil no cenário internacional". ​
Sobre algum eventual acerto acerto do governo Temer, Kenkel afirma que ainda ​está "à espera de algum no âmbito da política social". "Fora isso, em termos dos maiores acertos, o creme de avelã Nutella foi uma excelente escolha para o cardápio do avião presidencial", ironizou, citando a licitação nababesca para a compra de alimentos, lançada pela presidência no final de dezembro, criticada por acontecer ao mesmo tempo que o presidente exige sacrifícios da população. Na lista, o governo indicou que queria comprar 42 quilos do produto.

Trabalhador rural poderá receber casa e comida no lugar do salário

Leis trabalhistas

Trabalhador rural poderá receber casa e comida no lugar do salário

por Redação — publicado 02/05/2017 15h09, última modificação 04/05/2017 10h13
Projeto protocolado em novembro na Câmara reduz ainda mais os direitos dos trabalhadores do campo, alterando remuneração e jornada de trabalho
Arquivo ANPr
trabalhador-rural
Jornada de trabalho no campo pode chegar a 12 horas em 18 dias seguidos sem descanso
Se o trabalhador urbano enfrenta uma perda de direitos sem precedentes com o avanço da reforma trabalhista no Congresso, o trabalhador rural está ameaçado inclusive na forma de remuneração, que pode passar a ser permitida na forma de comida e habitação, em substituição ao dinheiro.
Um filhote do Projeto de Lei da reforma trabalhista trata especificamente dos direitos dos trabalhadores rurais: são 192 itens que ficaram de fora do texto principal e foram consolidados no PL 6442/2016, que deve começar a ser debatido em uma comissão especial na Câmara nas próximas semanas. Na prática, a CLT (Consolidação das Leis Trabalho) perde a validade para os trabalhadores do campo.
O principal ponto é a possibilidade do trabalhador rural receber "remuneração de qualquer espécie", o que significa que o empregador rural poderá pagar seus empregados com habitação ou comida, e não com salário. A remuneração também poderá ser feita com parte da produção e concessão de terras.
A perda de direitos não para aí, entretanto. O texto prevê ainda jornadas de até 12 horas e o fim do descanso semanal, uma vez que passa a ser permitido o trabalho contínuo por até 18 dias. Fica permitida, ainda, a venda integral das férias para os trabalhadores que residirem no local de trabalho. Fica permitido também o trabalho em domingos e feriados sem a apresentação de laudos de necessidade.
O texto atinge também a segurança e a saúde dos trabalhadores rurais, uma vez que revoga a Norma Regulamentadora 31, que garante que os empregadores forneçam aos empregados condições salubres para o exercício de suas atividades, de equipamentos de segurança que garantam a integridade física dos trabalhadores ao cumprimento de normas sanitárias para o uso de defensivos agrícolas e fertilizantes.
O texto do PL também reforça pontos já contemplados na reforma trabalhista, como a prevalência do negociado sobre o legislado, a jornada intermitente e a exclusão das horas usadas no itinerário da jornada de trabalho.
O projeto, de autoria do presidente da bancada ruralista na Câmara, deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), foi protocolado em novembro na Casa e foi constituído para não “sobrecarregar” o texto da já polêmica reforma trabalhista.
No texto do PL, o deputado Leitão justifica seu PL afirmando que “as leis brasileiras e, ainda mais, os regulamentos expedidos por órgãos como o Ministério do Trabalho, são elaborados com fundamento nos conhecimentos adquiridos no meio urbano, desprezando
usos e costumes e, de forma geral, a cultura do campo”.
O texto argumenta ainda que a Lei n.º 5.889 – que regula o trabalho rural e que o PL 6442 altera – já tem mais de 40 anos e sofreu poucas alterações. “Nestes termos, no intuito de prestigiar esse tão importante setor da economia brasileiro fomentando sua modernização e desenvolvimento; o aumento dos lucros e redução de custos e; gerar novos postos de trabalho, é que se propõe a alteração da Lei n.º 5.889/73”, conclui texto.

Como é a vida no mercado de trabalho livre, sem CLT?

Reforma Trabalhista

Como é a vida no mercado de trabalho livre, sem CLT?

por Pedro Paulo Zahluth Bastos e Carlos Pinho — publicado 05/05/2017 09h53, última modificação 05/05/2017 09h53
Os percalços do cientista político Carlos Pinho, compartilhados neste texto, resumem as agruras de quem é obrigado a aceitar empregos sem as proteções legais
Valter Campanato/Agência Brasil
Vendedor ambulante
A caminho da informalidade
Os economistas que defendem a reforma trabalhista alegam que o livre mercado aumenta a oferta de emprego e assegura o salário justo. Os empresários reclamam da legislação trabalhista há décadas, mas a reclamação aumentou muito depois do aumento dos salários e da queda do desemprego até 2014.
O salário mínimo real cresceu 70% entre 2004 e 2014, com impacto na escala de salários (dada a maior formalização) e nas pensões e aposentadorias. Além do seguro-desemprego, o conjunto de transferências sociais foi ampliado, notadamente o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada e o bônus salarial. A correlação de forças tornou-se favorável aos trabalhadores, levando a aumentos do salário real e dos direitos trabalhistas.
A crítica é que o excesso de proteção das leis, dos fiscais e da Justiça trabalhista, assim como o aumento do salário mínimo e da formalização do emprego, prejudicaria os lucros e demoveria os empresários de contratar. Com o fim da política de valorização do salário mínimo e a reforma trabalhista, os lucros aumentariam e o emprego também.
O problema óbvio do argumento é que o desemprego caiu até 2014 enquanto os salários aumentaram. Como os trabalhadores tendem a gastar o que ganham, seus salários são itens de custo para alguns empresários, mas fonte de receita para outros. O que vale para uma empresa não vale para a macroeconomia.
Quando uma empresa paga menos salários, por sua vez, a demanda por bens e serviços vendidos por outros empresários diminui. Isto pode aumentar a capacidade ociosa das empresas e, portanto, diminuir a necessidade de investimentos. Quando os empresários investem menos, eles lucram menos como classe e podem ter problemas para pagar suas dívidas com os bancos.
É por isso que o que parece bom para o empresário egoísta não é necessariamente bom para os empresários como um todo. É também por isso que os economistas que defendiam a queda de salários para assegurar uma rápida recuperação em 2015 apenas mostravam seus parcos conhecimentos de economia e seus preconceitos sociais.
Em outubro de 2015, Samuel Pessoa afirmou em debate que “quanto mais os salários reais caírem, mais rápido e indolor o ajuste vai ser. Em maio, junho, fiquei superfeliz porque as expectativas estavam mostrando uma queda de salário real de 5%”.
John Maynard Keynes e Michal Kalecki mostraram na década de 1930 que a hipótese neoclássica de que a queda de salários gera mais empregos não tem consistência teórica. Vários mostraram depois que não tem consistência empírica. Para além da confusão entre micro e macroeconomia, há algo que explique o fetiche dos empresários por salários menores?
Em um texto celebre de 1943, Kalecki argumentou que a manutenção de uma situação de pleno emprego asseguraria altos lucros agregados para os capitalistas, mas colocaria em risco a disciplina social ao aumentar o poder de barganha dos trabalhadores e diminuir seu medo da demissão. Por isso, contra a preservação do pleno emprego, os capitalistas tenderiam a se alinhar aos rentistas e pressionar o governo para realizar políticas austeras que levariam a uma recessão, enfatizando a desinflação de preços e salários.
Isso explica em boa medida porque o ministro Joaquim Levy afirmou, em junho de 2015, que havia gente que não queria entrar mais no mercado de trabalho, mas voltaria com a recessão a procurar emprego, o que seria bom, pois “não existe crescimento sem aumento da oferta de trabalho.”
Como era a vida no mercado de trabalho entre 1990 e 2004, quando o baixo crescimento pontuado por recessões gerou grande “aumento da oferta de trabalho”? Com a palavra, o cientista político Carlos Pinho:
Sou nascido e criado na favela Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, filho de uma paraibana de Campina Grande. Trabalho desde os dez anos de idade e estudei a vida inteira em escola pública. Trabalhei como boleiro de tênis no Marina Barra Clube, fui cobrador de vãs, office-boy, lavador de pratos em cozinha (fervendo) em Ipanema, faxineiro, atendente e recepcionista de casa de festas. Meu último emprego antes de ser aprovado para o curso de Ciências Sociais na UFRJ em 2004 após três tentativas.
Naquela época não havia cotas para estudantes de escolas públicas e negros nem bolsas aos estudantes pobres. Como o curso era integral, fiz um acordo com o proprietário da casa de festas, que me demitiu e me contratou como freelancer, no segundo semestre de 2014. Trabalhava sábados, domingos e feriados das oito e meia da manhã às onze da noite. Ganhava 60 reais para trabalhar por 29 horas cada fim de semana.
Fiquei dois anos sem curtir o fim de semana para arcar com os custos de ônibus e xerox de textos. O sonho de ingressar na universidade pública era maior que tudo. A marmita eu levava de casa (e ainda levo). Mesmo com esse “bico”, eu não tinha dinheiro para me deslocar. Até para pagar a inscrição do rigoroso vestibular da UFRJ eu pedi emprestado.
Não vi outra saída a não ser pedir um aumento de ao menos 20 ou 30 reais para o dono da casa de festas. Ele me disse uma frase que jamais saiu da minha cabeça: “Tem muita gente lá fora querendo fazer o que você faz, por muito menos”. Sabia que era tratado quase como um escravo, mas não tinha opção.
Ou melhor, tive: os recursos para apoio aos estudantes pobres aumentaram em 2006. Com boas notas, consegui uma bolsa de monitoria no laboratório de informática do IFCS. Como precisava, trabalhei até o quarto período da faculdade na casa de festas, quando consegui uma bolsa de iniciação científica no IPPUR/UFRJ. Também obtive uma bolsa na Divisão de Assistência ao Estudante (DAE), o que me fez abandonar o “bico” na casa de festas e me dedicar com mais calma e profundidade às incontáveis leituras.
Sem o apoio incondicional de minha amada mãe, Josefa dos Santos, a Dona Zefinha, não estaria hoje no meu segundo pós-doutorado e próximo do primeiro aniversário como Doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ (antigo IUPERJ). Ela trabalhou como empregada doméstica para me criar com muito sacrifício e dignidade.
Minha mãe teve seus direitos vilipendiados por patrões. Durante os anos 1990, ela trabalhou como faxineira para uma estadunidense e ganhava em média 30 reais por cada faxina, incluindo passagem. Durante as suas crises de dores de coluna, ficava impossibilitada de trabalhar e, como precisávamos da grana para comprar comida e pagar as contas, eu fazia a faxina no lugar dela. Fiz isso umas três vezes. A patroa era inflexível, avarenta e não dava aumento. Um amigo de minha mãe, morador da Cidade de Deus, trabalhou para ela por mais de 20 anos e não recebeu quaisquer direitos trabalhistas, pois a patroa viajou e não voltou mais.
Foi uma luta imensa para minha mãe se aposentar com salário mínimo. Como não tinha o costume de olhar a carteira de trabalho, a advogada a que recorremos descobriu que as “casas de família”, as redes de hotéis e uma empresa vendedora de automóveis em que minha mãe trabalhou violaram os seus diretos, reduzindo pela metade (ou muito menos) os anos efetivamente trabalhados. Ela trabalhou para um ator global por um ano e seis meses. Ele “prendeu” sua carteira e, quando a demitiu, a entregou assinada contendo somente um mês de serviço. Ela quase não se aposentou, tendo em vista as inúmeras depreciações de seus direitos. Após mais de dois anos de luta, enfim se aposentou.
Não tenho nada a acrescentar ao que escreveu meu colega Carlos Pinho. Tirem suas próprias conclusões sobre porque associações de empresários, economistas neoliberais, o Jornal Nacional e os editoriais dos jornalões defendem as reformas trabalhista e da previdência.

*Carlos Pinho é doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), ex-IUPERJ e pós-doutorando no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), sediado no IESP/UERJ

A corrupção da Operação Lava Jato e o tríplex do Guarujá


A corrupção da Operação Lava Jato e o tríplex do Guarujá

por Pedro Paulo Zahluth Bastos — publicado 12/05/2017 13h21
Em nome do combate a malfeitos, agentes públicos têm desrespeitado as leis. Acuso o procurador Deltan Dallagnol de corromper a inteligência
Rodolfo Buhrer/La Imagem/Fotoarena
Deltan Dallagnol
Dallagnol: o Power Point subiu à cabeça
O que é corrupção política? Muito se fala a respeito sem sequer a conceituar. Defino-a como o desvio de finalidade da conduta definida em lei para agentes públicos e privados, em razão de motivos econômicos e políticos que não deveriam influenciar a conduta. No caso de agentes públicos, desrespeitam objetivos e limites de sua atuação na esfera pública em razão de motivos extrínsecos a ela. No caso de agentes privados, mobilizam recursos políticos e econômicos para corromper a conduta de agentes públicos para obter vantagens indevidas nas relações com o poder público.
Toda corrupção política, portanto, envolve uma espécie de privatização da esfera pública: a tomada de decisões que não respeitam a lei que regula a conduta, em razão da busca de objetivos exteriores, políticos ou econômicos. Ela é diferente de outras formas, como a corrupção do gosto artístico ou a corrupção do amor, por exemplo, porque nem a arte nem o afeto são regulados em lei ou têm padrões consensuais de normalidade.
Usando este critério, pode-se dizer que a Operação Lava Jato é corrupta? Sem dúvida. Sob pretexto de investigar a corrupção, a conduta de agentes públicos que deveriam respeitar a lei (ao investigar o desrespeito da lei) foi corrompida impunemente.
Tal corrupção não é eventual, mas sistemática. Informações protegidas pelo sigilo do processo judicial foram e ainda são sistematicamente vazadas para grandes grupos privados de comunicação, como a revista Veja ou uma concessionária pública como a Rede Globo, que não disfarçam a seletividade da perseguição política ao PT e a Lula, se a medirmos pela ênfase e tempo destinados a essas denúncias quando comparadas a outras.
Basta lembrar que alguns integrantes do aparelho judicial e coercitivo fizeram campanha política na internet por Aécio Neves em 2014, em favor da qual vazaram a suposta delação de Alberto Yousseff usada pela revista Veja como panfleto eleitoral do PSDB a três dias da eleição. Aliás, um dos delegados da PF envolvidos na campanha eleitoral de 2014, Márcio Anselmo, foi responsável pelo indiciamento de Lula em agosto e em dezembro de 2016.
Em 2016, o timing dos vazamentos, da condução ilegal de Lula ou de Guido Mantega e, em particular, da divulgação ilegal das conversas entre Lula e Dilma pelo juiz Sérgio Moro, além de sua convocação de protestos de massa para o dia 20 de março de 2016, também evidenciam o uso político do processo judicial: animar as ruas ocupadas por militantes políticos que defendiam a “luta contra a corrupção” e, principalmente, queriam o impeachment de Dilma Rousseff.
Quem pode negar que houve corrupção da conduta de neutralidade esperada de um juiz, que serviu como animador político de uma parte envolvida em disputas políticas que nunca estiveram preocupadas com a busca da verdade e a reforma de um sistema político propício à corrupção?
Não há maior corrupção política do que usar o combate à corrupção para ajudar a derrubar um governo que contribuía para as investigações e colocar no poder um grupo político corrupto e interessado em barrar as investigações.
Quando questionado sobre os vazamentos impunes, Moro declarou que não podia evita-los ou puni-los porque precisava respeitar o sigilo de fonte dos jornalistas. Como assim? Em que democracia um juiz pode declarar impunemente que agentes públicos que deveriam zelar pela fiscalização da lei e punição dos desviantes podem vazar informações sigilosas e não serem investigados, muito menos punidos, porque o sigilo da fonte dos jornalistas acoberta seu ato corrupto?
A rapidez dos vazamentos das denúncias que inflamaram o processo de impeachment contrasta, por sua vez, com o vazamento tardio das informações sobre a compra de votos parlamentares pela Odebrecht, que prejudicaria os políticos que comandavam o impeachment no Congresso Nacional.
Até as pedras de Brasília sabiam que Eduardo Cunha cobrava de Dilma Rousseff proteção contra investigações de corrupção que ela não podia nem queria oferecer a ninguém. Ele rompeu com Dilma em 17 de julho de 2015, quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ofereceu denúncia contra ele, e acolheu o pedido de impeachment em 2 de dezembro de 2015, quando deputados do PT resolveram votar pela abertura de processo contra ele no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.
Um corrupto corrompeu o processo de impeachment para proteger-se de punição. O desvio de finalidade do processo de impeachment era evidente a qualquer calouro em direito, mas vários juízes do Supremo Tribunal Federal autorizaram o desvio afirmando que o processo era “político”, ou seja, não precisava respeitar as condutas definidas em lei. Na prática, podia corromper-se.
Depois de conduzir à vontade um processo corrompido, Cunha foi afastado pelo STF atendendo a uma ação protocolada muito antes do impeachment. Como dizia Rui Barbosa, “justiça que tarda é sempre falha”.
Não há espaço para listar todos os nomes da galeria dos hipócritas que subiram ao plenário do Congresso Nacional para apoiar o impeachment clamando lutar contra a corrupção. Data venia, contudo, j´accuse o procurador Deltan Dallagnol de uma corrupção gravíssima: a corrupção da inteligência.
Não me refiro à sua explicação da corrupção brasileira pelo perfil dos supostos “degredados e criminosos portugueses” que nos colonizaram, ao contrário do “outro perfil de colono... pessoas religiosas, cristãs” que teriam ido aos Estados Unidos, o que não impediu os descendentes ianques de cometer desvios escandalosos, desestabilizar democracias altivas (como o Brasil em vários momentos) e apoiar ditaduras predadoras mundo afora.
Refiro-me ao PowerPoint. Imagino, hoje, o tríplex do Guarujá, que Lula quis comprar, mas não comprou, no centro. Ao seu redor, setas saem de quadros ocupados pelo valor das propinas para seus adversários: Aécio (vulgo mineirinho), 50 milhões; Jucá (vulgo Caju), 22 milhões; Serra (vulgo Careca), 23 milhões; Alckmin (vulgo Santo), 13 milhões; Agripino Maia (vulgo Gripado), 15 milhões; e assim vai.
Será que, para o bem da pureza de princípios “religiosos, cristãos”, Deltan Dallagnol não poderia nos presentear com um PowerPoint deste tipo?