terça-feira, 3 de outubro de 2017

O filme "O Jovem Marx" e a desmistificação do diabo

O filme "O Jovem Marx" e a desmistificação do diabo

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O filme O Jovem Marx e a desmistificação do diabo
Por Renan Kell
Chega ao Brasil o tão esperado lançamento cinematográfico O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx), dirigido pelo haitiano Raoul Peck, co-escrito com o francês Pascal Bonitzer. Sua primeira exibição foi em fevereiro deste ano no 67º Berlin International Film Festival, e recebe suas primeiras críticas do colunista Peter Bradshaw do jornal britânico The Guardian, que avalia em quatro das cinco estrelas.
Os três pilares que sustenta a película estão no movimento entre a vida, a obra de Marx, Engels e Jenny e o momento histórico que vai desde o fechamento do jornal A Gazeta Renana (1842) até as formulações finais do Manifesto Comunista (1848). O enredo da película data também os anos embrionários do nascimento da Liga dos Comunistas na Europa, e a atuação de August Diehl (Karl Marx) e Stefan Konarske (Friedrich Engels) nos permite um mergulho sem volta na vida, na obra e na cumplicidade de Marx e Engels. A câmera de Peck dispara em direção as contradições enfrentadas pelos filósofos, tanto no que tange a vida singular de cada um, quanto as polêmicas teóricas tendo como interlocutores o francês “pai” do anarquismo, Pierre Proudhon, interpretado por Olivier Gourmet, e também com o filósofo anarquista russo Mikhail Bakunin (Ivan Franek).
A evidência, o esforço e a centralidade que se propõe o diretor em desenhar o enredo buscando a constituição da nova filosofia, a filosofia da classe trabalhadora materializada no Manifesto Comunista e consequentemente na revolução que implodiu por toda Europa em 1848, vai desde as cenas iniciais até a finalização do longa-metragem. A sensibilidade e a justeza do diretor em caracterizar Jenny Marx (Vicky Krieps) constatando sua força, maturidade, responsabilidade e sua contribuição na teoria marxista não pode passar despercebida. O diretor evidencia Jenny diferentemente da costumeira caracterização que a filmografia hegemônica burguesa desenha o gênero feminino, como tendo um papel passivo nas decisões centrais.

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A trama expõe que a constituição da nova filosofia da incipiente classe social operária proposta por Marx e Engels entra em choque, tanto com as propostas idealistas dos hegelianos de esquerda, quanto com as propostas reformistas que vê o salário e o dinheiro como o mal a ser combatido. Marx influenciado por Engels nos estudos de economistas clássicos como Adam Smith e David Ricardo, expõe uma crítica ontológica no âmago do próprio sistema capitalista, sendo estas vinculadas diretamente à categoria do trabalho e consequentemente à constituição da mercadoria (relações de produção). A lealdade do diretor Peck em moldar as críticas que Marx faz a Pierre Proudhon desvinculando uma crítica à individualidade do filósofo e preservando a integridade nas contribuições tão valiosas que perpassa a obra do filósofo francês.
"Ao longo do filme é possível compreender os esforços de Marx e Engels em desferir a crítica ao “velho mundo” e à filosofia ultrapassada, onde aparece excertos de obras como Sobre a Questão Judaica (Crítica da crítica, crítica), Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, A Miséria da Filosofia"
Ao longo do filme é possível compreender os esforços de Marx e Engels em desferir a crítica ao “velho mundo” e à filosofia ultrapassada, onde aparece excertos de obras como Sobre a Questão Judaica (Crítica da crítica, crítica), Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, A Miséria da Filosofia e cenas de Marx esboçando seus famosos manuscritos, o que conhecemos hoje por Grundrisse e os Manuscritos Econômicos e Filosóficos.
Um dos aspectos escritos nas entrelinhas do enredo se encontra na abordagem de caracterizar a genialidade do homem em sua intrínseca vinculação com a natureza (desmistificando). O evidenciar do estranhamento que constitui o imaginário dos marxistas dogmáticos, e a errônea “religião” que foi atribuída ao nome de Marx e Engels, cai por terra em seu regurgitar pelas ruas de Paris, em sua constituição enquanto homem de seu tempo, e não como um Messias que trouxe a salvação à Terra. O que afirmamos está longe de uma caracterização moral das falhas do homem, cabe-nos atribuir-lhe características reais e concretas e caracterizar sua constituição enquanto partícipe e atuante no cerne da composição do ser social, muito mais do que conferir-lhes atributos cristãos dualista endemoninhado ou santificando-o.
O limite de um longa-metragem se faz presente em O Jovem Marx e não poderíamos deixar de salientar que seria necessárias horas e mais horas para constituir uma obra cinematográfica que abarcasse todos os pormenores tanto na vida, quanto na obra de Marx e Engels. Porém os roteiristas e o olhar atento do diretor nos permite compreender o nascimento da filosofia da classe trabalhadora, e como ela se constitui através de mãos humanas e não santificadas ou endemoninhadas como querem alguns. A amizade de Marx e Engels assim como a sublime importância de Jenny nos ensina que é possível a constituição de relações combativas interconectadas umbilicalmente com a constituição mais humana entre as relações, rejeitando ferozmente a tão valorizada individualidade burguesa e possibilitando uma comunhão real e concreta entre a classe trabalhadora pois como afirma Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista: “A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes”.

♦ Renan Kell é estudante de Ciências Sociais da Unesp-Marília e membro do Núcleo de Estudos de Ontologia Marxiana (Neom-Unesp) e ex-membro do Coletivo Cine Ocupa também na universidade

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Jandira Feghali: "Soberania está em xeque nas mãos de golpistas"

3 de outubro de 2017 - 14h29 

Jandira Feghali: "Soberania está em xeque nas mãos de golpistas"


Agência Câmara
  
"No mesmo dia, trabalhadores de todo o país protestam contra a agenda de desmonte do atual governo farsante. A nossa soberania está em xeque, nas mãos de golpistas. O petróleo e a Petrobras são nossos!", reforçou a deputada por meio das redes sociais, se referindo a uma série de atos organizados pelos movimentos sociais de diversos setores, nesta terça-feira (3), para denunciar a privatização e desmonte das empresas e dos serviços públicos brasileiros.

"É bonito ver uma massa trabalhadora ocupando as ruas no Rio em defesa do país, mesmo numa conjuntura tão difícil. E tudo isso no aniversário de criação da Petrobras, 64 anos de soberania. Defender as empresas públicas é defender o comando estratégico de desenvolvimento nas mãos do povo brasileiro", completou Jandira.

“A Petrobras, principal empresa do país, completará 64 anos de existência e resistência à sanha dos entreguistas”, diz a FUP em sua página na internet.

Nesta segunda-feira (2), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro de Minas e Energia de Temer, Fernando Coelho Filho, disse que a privatização da Petrobras é parte da agenda. "Eu acho que isso [privatização da Petrobras] vai acontecer. É um caminho, mas o governo não pode tocar todas as agendas ao mesmo tempo", disse ele.

Enviada por Getúlio, a lei que criou a Petrobras estabeleceu um modelo de empresa de capital misto, aberta à participação minoritária de capital estrangeiro. A defesa da soberania tornou-se ainda mais forte e a campanha "O petróleo é nosso!" ganhou as ruas, fortalecendo o modelo nacionalista. Em 1953, a empresa petrolífera nascia como estatal, com monopólio da exploração, extração e refino do produto, produzindo 2,7 mil barris por dia, e ao longo dos anos se tornou uma das mais importantes petrolíferas do mundo.

Com o golpe, a dilapidação da estatal, com os olhos no pré-sal, se tornou agenda prioritária do governo Temer, contanto com o apoio crucial de seus aliados tucanos, como o senador José Serra (PSDB-SP), autor do projeto que altera o modelo de partilha do pré-sal, medida que abriu caminho para a privatização a preço de banana.

Apenas três meses de governo golpista foram suficientes para colocar o país no caminho  da condição de colônia. Sob a o comando do tucano Pedro Parente, a Petrobras vendeu o primeiro campo do pré-sal, o de Carcará, na baía de Santos, e ofereceu no mercado a BR Distribuidora, a maior do país.

"A Petrobras, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, completa nesta terça-feira (3) 64 anos. Devemos comemorar a data, mas sabendo que hoje, com o governo Michel Temer, a empresa sofre as mais graves ameaças contra sua existência ao longo da história", afirmou o deputado Carlos Zarattini, reforçando que a Petrobras está sendo fatiada e privatizada e "seus ativos são vendidos a preços irrisórios, fazendo a festa de grupos estrangeiros".
 

Fonte: Vermelho

Não foi fraqueza, foi fascismo. Por José Sardá*

Não foi fraqueza, foi fascismo. Por José Sardá*

Durante o velório do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, no final da tarde de hoje (ontem), no hall da Reitoria da UFSC, uma dedução predominou: nem durante a ditadura militar a Universidade foi tão chacoteada como agora pela justiça federal e Polícia Federal. A vice-reitora Alacoque Erdmann, resumiu a tragédia: “Luiz Carlos Cancellier deu seu sangue pela UFSC”.
Sim, claro. Na entrevista que concedeu há cerca de uma semana, Luiz Carlos afirmou a Moacir Pereira: nunca fui tão humilhado.
Vamos refletir. O reitor foi preso e conduzido à penitenciária da Agronômica, igualado a bandidos e corruptos, sob a acusação de ter obstruído a investigação judicial. Nenhum reitor foi sequer admoestado durante a ditadura e hoje estamos assistindo à prepotência do judiciário, que se acha no direito de governar a Nação pela imposição de julgamentos pessoais ou de grupos de circunstâncias sociais e políticas brasileiras.
O que é obstruir a justiça? Ora, há bandidos governando dentro de penitenciárias o tráfico de drogas no Brasil, e a justiça entende que o reitor pode obstruir as ações de investigação dentro da UFSC. Cinematográfico ou circense?
Conheci Luiz Carlos em 1981, quando foi iniciar sua vida jornalística em O Estado. A sua jornada foi brilhante. Paralelo ao jornalismo, cursou Direito e ingressou na carreira de professor, crescendo como diretor do Departamento Jurídico e diretor do Centro de Ciência Jurídicas da UFSC. Há cerca de dois anos, em um encontro casual, ele me confessou: “vou trabalhar por um candidato a reitor que recupere a dignidade da UFSC”. O seu movimento culminou com uma decisão consensual de apoio ao seu nome. E ele se elegeu com sinais vitoriosos de mudanças.
Aos poucos, ao lado da professora Alacoque Erdmann, Luiz Carlos restaurou o clima de diálogo, reciprocidade de confiança e de relações com a sociedade.
De repente, é preso, como em uma situação de guerra, de ditadura. Levado à Penitenciária da Agronômica, Luiz Carlos perde-se na agressão a um mandato que deveria ser, sobretudo, considerado pela autonomia e respeitabilidade de uma universidade. Mas, não. Dane-se a instituição! O que vale são os novos princípios da justiça e da Polícia Federal, que poderiam ter exigido de Luiz Carlos o comparecimento a uma audiência, prestação de provas, etc.etc. Mas, não. Preferiram humilhá-lo, ou seja, dizer-lhe que a justiça e a PF estão bem acima das instituições de ensino. Ou seja, uma caça a bruxas como se toda a Nação precisasse provar que não é corrupta. Do geral para o particular, todo o brasileiro é por natureza corrupto. E viva a autoridade judicial e policial que tem os holofotes e aplausos populares.
Até que prove o contrário, Luiz Carlos, o Cao, não suportou a humilhação, tanto a ele quanto à UFSC.
Sintam-se como Cao: a imprensa dizendo que ele estava sendo acusado de desvio de recursos. Aliás, os jornais Folha de S. Paulo e O Globo, e seus sites de hoje, repetem isso ao anunciar a sua morte.
Não se trata de fraqueza humana, mas, sobretudo, de uma defesa – quem sabe frágil – da sua moral, dignidade e do direito que a PF e a justiça não lhe concederam, de provar a sua inocência antes de ser jogado numa prisão, na mesma vala de Eduardo Cunha, Joesly Batista, etc.etc.etc.
A ditadura de hoje não é militar. É judiciária. O desembargado Lédio Rosa tem razão: “Mataram meu amigo Cao. E não haverá responsável. Isso é fascismo da pior espécie”.
* Laudelino José Sardá é jornalista e professor da Unisul, Universidade do Sul de Santa Catarinae publicou o texto em seu Facebook.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Morre Afonso Alves da Cruz, sertanista ícone do Xingu


Morre Afonso Alves da Cruz, sertanista ícone do Xingu

por Felipe Milanez — publicado 02/10/2017 16h48
A tristeza índia e a morte do sertanista Afonsinho
Juvenal Pereira
Afonso A Silva.jpg
Convalescendo, Afonsinho decidiu entrar em um jejum espiritual, como sabem fazer os mais fortes indígenas
Faleceu no dia 28 de setembro, em Altamira (PA), o sertanista Afonso Alves da Cruz. Ele tinha 82 anos, sofria de Parkinson e teve um AVC. Poucos dias antes, havia caído em sua casa e fraturado um fêmur.
Nas últimas semanas, segundo relata sua filha Elba, ele andava sonhando constantemente com seus antigos amigos indígenas, já falecidos. Vinham visitá-lo nos seus sonhos, conversar com ele em Kayapó, chamá-lo para juntar-se a eles no mundo espiritual.
Os sonhos haviam se tornado constante e Afonsinho falava deles, como os indígenas contam no centro das aldeias, com detalhes. Nos últimos dias de vida, ele preferiu não fazer a cirurgia que os médicos diziam que deveria ser feita para salvar-lhe o fêmur quebrado.
E Afonsinho, convalescendo numa cama no hospital, decidiu entrar em um jejum espiritual, como sabem fazer os mais fortes indígenas. Ele decidiu jejuar, não aceitar alimentos nem água, e ficar em silêncio, falando muito pouco, aguardando a passagem.
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Essa morte corajosa me lembra uma descrição feita por Darcy Ribeiro relatando o fim de Kosó, um índio kaapor, muito amigo seu, que entrou em depressão pela morte de seu filho, ouviu, então, seu pai falecido chamá-lo em um sonho e foi encontrar-se com ele. "Deitou-se na rede e, em vez de dormir, se fez morrer. Este é um talento índio extraordinário, registrado mais de uma vez", descreveu o antropólogo brasileiro no livro Confissões.
Como a passagem de Kosó, em 2009 descrevi em uma reportagem na revista RollingStonea morte de Ururu, velha mulher indígena sobrevivente do genocídio do povo Akuntsu, em Rondônia, que também trancou-se em si mesma, até a alma abandonar o frágil corpo. Nesse caso, decidiu uma das últimas seis sobreviventes - hoje são apenas três mulheres - deixar-se morrer em sua própria terra, longe dos hospitais. Já que a vida e a cultura do seu povo havia sido destruída, ao menos a morte ela decidira guardar para si.
Para compreender esse "talento extraordinário" e raro dos indígenas, segundo Darcy Ribeiro, e essa força espiritual que Afonso Alves da Cruz aprendeu, deve ser buscada na sua longa trajetória de luta e defesa dos povos indígenas na Amazônia, sobretudo, na região do rio Xingu, onde ele sempre viveu.
Afonsinho, como era conhecido, foi um ícone do indigenismo. Sertanista, ele se especializou no trabalho de localização e contato de povos indígenas em isolamento, uma tarefa difícil e com alto risco de vida.
A sua trajetória de vida, com mais de 50 anos de trabalho para o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), inicialmente, e a partir de 1967, na Funai, se confunde com a história do indigenismo, e da contradição da violência do Estado brasileiro contra os povos indígenas com a luta de verdadeiros heróis que deram a vida em sua defesa.
Nasceu no Seringal Flor de Ouro, no rio Xingu, no Estado do Pará já próximo ao Mato Grosso. Sua família mudou-se depois para o Seringal Belo Horizonte, onde seu pai produzia o alimento do seringal com plantações de mandioca e cuidava da roça.
Com seis anos de idade, viu seu pai morto, atingido por uma flechada dos indígenas Assurini. Em seguida, a família mudou-se para Altamira. Suas lembranças dessa época descrevem uma brutal violência dos patrões seringalistas contra os seringueiros e contra os povos indígenas: ele recordava a história de que o patrão Inácio Silva havia organizado um ataque que matou, ao menos, nove indígenas kayapó.
Cerca de dez anos depois, ainda menor de idade, Afonsinho foi trabalhar  com os kayapó no posto Gorotire, do SPI, a convite do sertanista Cícero Cavalcanti - seu cunhado trabalhava nesse mesmo posto. Fez uma espetacular transição, que para ele sempre foi tranquila: de uma família seringueira, cujo pai foi atacado por índios, ele escolheu como profissão justamente a defesa dos índios. Cavalcanti teve que refazer o registro, aumentando dois anos a sua idade para Afonsinho poder trabalhar formalmente.
Após alguns meses servindo no Gorotire, foi deslocado para ajudar com a situação de recente contato com os temidos kayapo do grupo Kubenkranken. Os Kubenkranken atacavam constantemente seringueiros, e haviam sido vítimas de um massacre ordenado pelo seringalista do  Seringal Porto Seguro, numa expedição punitiva com mais de 25 homens (não se sabe quantos indígenas foram mortos).
Nos Kubenkranken Afonsinho foi criado e cuidado pelo cacique Tikiri, que lhe ensinou a falar fluentemente kayapó - ele viria a tornar-se posteriormente irmão do grande líder kayapó Paulinho Payakã, que disse estar muito triste com a notícia do falecimento. Nesse momento, também aproximou-se do sertanista Chico Meireles, de quem tornou-se  principal braço direito nas expedições de contato com indígenas isolados que resistiam ao avance dos seringais, das fazendas e dos garimpos.
Participou da longa de expedição de contato com os Mekragnoti, em 1958. Ficou preso na aldeia por mais de dez dias, e recorda-se que por pouco os integrantes da expedição não foram mortos — no entanto, após mais de um mês sem noticias, haviam sido dado como mortos pela base do SPI onde estava Chico Meireles.
Em 1965, participa do contato com os Kararaô, outro grupo Kayapó. Os Kararao haviam sofrido um massacre ordenado pelo seringalista Frizan, e corriam risco de extermínio. Contata-los era a possibilidade, pensavam na época, de evitar que revidassem o ataque e fossem completamente exterminados pelos seringalistas.
Mas após o contato, acabaram quase sendo extintos em razão de epidemias e falta de atenção pelo Estado. A descrição precisa desse crime da ditadura contra os Kararaô está relatada no excepcional livro Os Fuzis e as FlechasCia das Letras, 2017, do jornalista Rubens Valente, a partir de documentos da época e das memórias de Afonsinho relatadas ao jornalista em longas entrevistas.
O sertanista liderou uma pequena equipe na expedição de contato com os Xikrin do Bacajá, em 1959, um povo que fala uma língua muito próxima aos Kayapó e também se autodenominam Mebengokrê. Os indígenas xikrin haviam atacado um garimpo de ouro na Ilha da Fazenda (onde hoje pretende-se instalar uma mineradora canadense com o projeto Belo Sun), e os garimpeiros organizavam uma expedição para massacrar os indígenas. Tentando evitar esse mal pior, uma grande expedição foi formada por Chico Meireles, mas que não conseguiu encontrar os Xikrin. No entanto, poucas semanas depois, um pequeno grupo, liderado por Afonsinho junto de seus amigos  kayapó do Gorotire, chegou até os xikrin antes dos garimpeiros que queriam exterminá-los. Mas tal como sucederia com os Kararaô, pouco tempo depois, o descaso do Estado com a saúde indígena também iria produzir uma mortandade absurda.
Os relatos de Afonsinho, que constam no livro Memórias Sertanistas (Sesc, 2015), são desesperadores. Não havia medicamento nem enfermeiros, e o SPI informou que não havia dinheiro para comprar remédio. Após o contato, Afonso foi deixado desamparado sem condições de garantir a integridade dos Xikrin. Tentava salvar vidas com o que tinha em mãos, que era nada, ou quase nada. Em poucas semanas, ele recorda terem morrido 55 indígenas.
Relata Afonsinho (página 129), uma cena desesperadora: "Eu fui na aldeia e vi uma criança mamando numa mulher morta. Tirei a criança e levei para o acampamento onde nós estávamos." A criança foi salva, adotada, e hoje vive no Rio de Janeiro. Os Xikrin, que vivem hoje na Terra Indígena Trincheira Bacajá e somam quase oitocentas pessoas, são severamente impactados por Belo Monte, pois o rio Bacajá desagua justamente na área da Volta Grande do Xingu. 
A partir de 1970, Afonsinho foi utilizado pela Funai para acompanhar os trabalhos da construção da Rodovia Transamazônica, e utilizado pelos militares para tentar "pacificar" os Arara que resistiam à construção da estrada, que havia cortado seu território, inclusive atingindo diretamente uma aldeia.
Por anos os Arara desviaram de qualquer aproximação, até que, no final da década, atacam os funcionários da Funai, e Afonsinho é flechado duas vezes, sendo atingido no pulmão e no rim. Outros três colegas também foram feridos. Passou meses se recuperando em Belém, e em seguida, voltou a trabalhar nas frentes da Funai.
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Em 1989, operação de retirada da missão novas tribos do Cuminapanema. Da direita para a esquerda, os sertanistas Afonso, Fiorello, Sidney Possuelo e João Carvalho (arquivo pessoal)
Passou então a ser um companheiro necessário nas equipes de campo do sertanista Sydney Possuelo. O contato com os Arara, da região do Laranjal, acontece em 1980, e a despeito das tentativas de controle epidêmico, muitos morrem numa epidemia de gripe. Em razão do ataque sofrido, Afonso não participou desse processo.
Em 1987, chefiando uma frente da Funai, ele fez o contato com um outro grupo Arara, da Cachoeira Seca do Rio Iriri, diferente daquele que o havia atacado. Nesse processo não morreu nenhum indígena sequer, decorrente de epidemia posterior, e a experiência serviu para a Funai mudar a política para índios isolados, nesse mesmo ano de 1987, com a prerrogativa do "não-contato". Essa mudança institucional foi liderada por Sydney Possuelo, e teve o apoio de Afonso.
Até o fim da sua vida, foi visto como um pai pelos Arara da Cachoeira Seca, tamanha era a sua dedicação em ajudar esse povo no difícil relacionamento com o avanço do colonialismo. Era extremamente dedicado em auxiliar os indígenas a construírem um modo de vida com autonomia, fazendo uso de novas ferramentas e mantendo a força de sua organização social e territorial. Mas sem apoio político, a terra indígena passou a ser cada vez mais invadida por madeireiros e grileiros, até ser homologada no limiar do golpe que derrubou Dilma Roussef, em 2016, como uma das condicionantes da construção de Belo Monte.
Nessa longa vida de dedicação a salvar os povos indígenas, Afonsinho sofreu com eles a violência do Estado. E, para ele, os piores momentos desse meio século de indigenismo e de invasão da Amazônia por projetos de desenvolvimento, foram justamente aqueles do final de sua vida, quando veio a construção da Usina Belo Monte, e uma autoritária reestruturação (talvez devesse chamar desestruturação) da Funai que o excluiu de qualquer atividade indigenista.
Nos últimos dias de 2009 ele foi demitido da Funai, justamente quando estava no posto Arara da T.I. Cachoeira Seca. Recebeu a notícia no início de 2010, quando retornava para Altamira de férias. Entrou em depressão profunda.
Sua demissão fazia parte de um plano de reestruturação, levado a cabo pela mesma gestão da Funai que liberou a construção de Belo Monte. Essa medida de desestruturação do órgão indigenista serviu ao menos para dois objetivos na região: ajudar a desarticular a resistência indígena ao projeto de construção da usina, e abrir espaço para uma ONG paulista, a qual a então diretora da Funai havia sido presidente, controlar o trabalho com povos indígenas isolados.
Chegaram então na Funai jovens formados em São Paulo, autointitulando-se modernizadores, que desde o alto de suas prepotências humilharam e isolaram Afonsinho, que entrou em depressão profunda. Ele nunca mais pode sequer voltar a visitar o posto que havia construído nos Arara — mas era constantemente visitado pelos indígenas que vinham a Altamira.
Em outubro de 2010, por ocasião do centenário do indigenismo no Brasil, um grupo de destacados sertanistas, reunidos em São Paulo, escreveu uma Carta de Protesto contra a demissão de Afonso Alves da Cruz, considerada por eles "injusta e desrespeitosa".
Na época, estive com Afonsinho em Altamira e escrevi também um artigo pedido a recontratação do experiente e extraordinário sertanista. O então presidente da Funai havia dito, numa comunicação direta a mim, que não poderia retroceder nenhum passo na "reestruturação" (ele estava pressionado por um gigante acampamento indígena, que durou mais de seis meses, em frente ao Ministério da Justiça, enquanto a Funai estava ocupada por indígenas contrários à medida).
Posteriormente, novas críticas de sertanistas experientes pediram mudanças na área de índios isolados, alertando para o pior. Eles denunciavam a "deterioração da política de proteção aos índios isolados" desde mudanças na gestão da área, em 2011, por nomeações políticas sem respaldo técnico. O resultado dessa deterioração, agravada pelos cortes orçamentários, tem sido constantes massacres, alguns reportados nessa coluna como as mortes dos Korubo, em 2015, e o mais recente Massacre dos Flecheiros no rio Jandiatuba. Dezenas de indígenas em isolamento podem ter sido mortos nos últimos três anos.
No prefácio do livro Memórias Sertanistas, a antropóloga Betty Mindlin escreveu: "A vida de Afonso e suas realizações são excepcionais. Nada quebrantou sua lealdade aos índios, com os quais ficou até ser, injustamente, dispensado da Funai em 2009. O Brasil deve-lhe homenagens."
A casa onde ele vivia com sua família, no centro antigo de Altamira, foi destruída por Belo Monte, e o quintal onde ele adorava passar tempo admirando a mata foi levado pela usina.
Se faltou, em vida, reconhecimento pelo Estado brasileiro, este é apenas uma mostra da contradição da vida do sertanista: ele não servia ao Estado, mas sim aos povos indígenas.
Afonsinho teve o reconhecimento daqueles para quem se dedicou a vida toda: seus amigos Kayapó e Arara foram chorar por ele e seu espírito em seu leito de morte. E com eles aprendeu o caminho para realizar a passagem a um mundo espiritual, onde deve estar hoje na companhia daqueles com quem lutou lado a lado.

Fonte: Carta Capital

István Mészáros: “Capitalismo ameaça o futuro da humanidade”

István Mészáros: “Capitalismo ameaça o futuro da humanidade”

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Um dos principais intelectuais marxistas, Mészários morreu neste domingo (1) aos 86 anos
Por Igor Felippe e Miguel Stedile
Da Revista Sem Terra
Em entrevista exclusiva concedida no ano de 2007, István Mészáros ataca capital financeiro e governos, e enfatiza papel da educação rumo ao socialismo.
A articulação do capital financeiro com os países mais poderosos de toda a história da civilização ocidental ameaça o futuro da humanidade pelo nível de exploração da natureza. O motor do desenvolvimento que sustentava a superioridade do capitalismo sobre os outros modos de produção, o conceito de “destruição produtiva” criado pelos economistas neoliberais, sofreu uma mudança estrutural que o deixou do avesso. Atualmente, o sistema capitalista avança por meio de uma “produção destrutiva”.
“A maneira como o sistema capitalista opera hoje, sob o domínio do capital financeiro destrutivo e com apoio de poderosos governos, está nos levando à destruição. Temos que nos opor fundamentalmente a isso”, defende o pensador húngaro István Mészáros, professor emérito da universidade de Sussex, na Inglaterra, designado o principal intelectual marxista da atualidade.
Leia mais:
Nascido em Budapeste, em 1930, o autor de “A teoria da alienação em Marx” (1970), “O poder da ideologia” (1989) e de “Para além do capital - Rumo a uma teoria da transição” (1995), publicados no Brasil pela editora Boitempo, visitou a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), na cidade de Guararema (SP), em novembro de 2007.
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Mészáros recebeu uma homenagem do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) pela importância da sua obra para a compreensão da sociedade contemporânea e pela contribuição na luta socialista. Na escola, ele plantou uma árvore de mogno para deixar a marca da sua visita.
“Considero o Movimento Sem Terra muito importante para o futuro por uma característica particular. Eu escrevo muito sobre a necessidade de uma aliança substantiva, não formal, e o movimento é uma manifestação muito clara e importante dessa aliança, que é o futuro”, declarou o pensador na cerimônia.
A seguir, trechos de seu depoimento. Leia a versão integral da entrevista exclusiva de István Mészáros na Revista Sem Terra.
Capital e governos 
O capital financeiro tem o poder de governos e os governos poderosos apóiam o grande capital. Se você olhar ao redor do mundo, todos os governos neoliberais estão do lado do grande capital. A única saída é resistir por meio de um modelo que garanta o futuro, preserve o meio ambiente e a terra, em vez da destruição do planeta onde vivemos. Temos que nos opor fundamentalmente a isso. O MST é diferente disso, não causa destruição e está construindo. Não envenena a terra e respeita o ciclo de produção natural.
Agricultura
“O grande capital domina o agronegócio e produz destruição, porque a sua única razão é o lucro. Destrói florestas e tantas outras coisas, inclusive com o uso de venenos químicos que se coloca na terra. O futuro e a sobrevivência humana dependem da resistência ao poder financeiro do grande capital nesse campo”.
Circulo vicioso
“Nunca houve um sistema de produção na história da terra que possa remotamente ser comparado ao desperdício da economia capitalista. Não há futuro nisso, que só pode durar por um curto período”.
Movimento de massa
“Precisamos de um grande movimento de massa. Não pequenos movimentos e movimentos que brigam entre si, por pequenas divisões sectárias que não conseguem nada. É preciso um grande movimento de massa, educação e modelo viável de produção, uma forma de vida sustentável”.

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