quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Por que a ocupação da Palestina por Israel interessa à juventude brasileira?

Por que a ocupação da Palestina por Israel interessa à juventude brasileira?

O mesmo Estado que pratica uma política violenta de segregação no território palestino formou militares no RJ

Belo Horizonte
,
Vista da cidade de Hebron / Leonardo Nogueira
2017 é um ano simbólico para o povo da Palestina. São 50 anos de ocupação e colonização de Israel nas terras palestinas. De 1967 aos dias de hoje, Israel não reconhece a legitimidade do Estado Palestino e promove uma verdadeira política de segregação entre árabes e judeus. Um conflito histórico e muito complexo. A região da Palestina já foi alvo de inúmeras guerras e disputas entre grandes impérios. Na primeira metade do século XX, atendendo aos anseios do sionismo – movimento judaico que reivindicava a criação de um Estado judeu – a Inglaterra se responsabilizou pela “doação de terras” sob o seu domínio no território Palestino. Em 1948, o Estado de Israel foi criado e atraiu judeus de todo o mundo em busca da chamada “terra prometida”. Desde então, os conflitos pela demarcação das fronteiras seguem até os dias atuais, pois Israel avança sobre as terras que fazem parte do território palestino e promove, com isso, um verdadeiro processo de colonização.
É, no mínimo, intrigante que Israel, apesar de ser um Estado tão recente, tenha construído (ou consolidado) um enorme aparato militar voltado em larga medida ao cerceamento do povo palestino no seu próprio território. Israel tornou-se uma referência em assuntos militares ao ponto de prestar assessoria a setores da segurança pública e a comercializar armas a outros países, como é o caso do Brasil. Mas, diante desse quadro, acredito que um elemento em particular motiva-nos, jovens brasileiros/as, a refletir e solidarizar com o povo palestino: a violência desferida pelo Estado israelense contra a juventude em território palestino, assumindo formas tão semelhantes à violência cometida a esse segmento no Brasil. 
Estima-se que 400 crianças foram assassinadas durante os ataques de Israel em 2014 na Faixa de Gaza, após 21 dias de bombardeios ininterruptos. Organizações dos direitos humanos têm denunciado que a expectativa de vida em Gaza é de apenas 17 anos, sendo que 54% da população dessa região têm menos de 18 anos. São mais de 300 jovens palestinos com menos de 18 anos presos em Israel. A população palestina que vive na Cisjordânia tem sua mobilidade restringida. Em cidades como Hebron, não se pode sequer circular por toda a cidade que passou a ser ocupada por forças israelenses. Pequenas bases militares também foram instaladas nas áreas de entrada e saída dos municípios da Cisjordânia, controlando a circulação dos palestinos em suas próprias terras.
O mesmo Estado que pratica uma política violenta de segregação no território palestino atuou, nos últimos anos, formando militares no Rio de Janeiro e forneceu os chamados “caveirões” disponibilizados ao Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar carioca. A polícia militar no Rio de Janeiro (e em todo o Brasil) vem sendo fortemente denunciada pelo seu caráter violento, especialmente com jovens negros das periferias de nosso país. Os dados do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) “assassinatos de jovens” do Senado afirma que das mais de 50 mil pessoas assassinadas anualmente, quase metade das mortes são de jovens, majoritariamente negros. De acordo com este mesmo relatório, dos homicídios cometidos por policiais no Rio de Janeiro durante confrontos, 99% dos casos são arquivados sem investigação, e em 21% dos casos as vítimas tinham menos de 15 anos.
A violência cometida por Israel na Palestina e a violência cometida pelo Estado brasileiro contra a população pobre possuem um aspecto em comum: impactam diretamente a vida juventude. A luta pela desocupação israelense do território palestino também é uma luta do povo brasileiro e da juventude que se solidariza com as incontáveis formas de violação dos direitos humanos na Palestina. É preciso construir um projeto de vida pra juventude no Brasil e na Palestina. Daí a importância fundamental da criação do Estado Palestino. A juventude quer viver para construir uma Palestina livre e um Brasil sem violência!
*Leonardo Nogueira é militante do Levante Popular da Juventude.

Dez anos de ensino médio integrado e os desafios da política pública na educação profissional

Dez anos de ensino médio integrado e os desafios da política pública na educação profissional

ARTIGOS E DEBATES
TYPOGRAPHY
Dez anos de ensino médio integrado e os desafios da política pública na educação profissional
Por Lucas Barbosa Pelissari
Do Brasil Debate
Apesar de prevista no Decreto nº 5.154, emitido em 23 de Julho de 2004, a possibilidade de integração curricular entre o Ensino Médio e a Educação Profissional começa a se consolidar, tanto como política pública quanto a partir das experiências construídas na realidade das escolas, no ano de 2007.
O referido decreto representou importante avanço em relação às formas aligeiradas e mercadológicas segundo as quais a Educação Profissional Técnica de Nível Médio (EPTNM) vinha sendo organizada no Brasil, principalmente como resultado da impossibilidade, prevista em lei, de articular de maneira integrada os conteúdos propedêuticos do Ensino Médio e a formação técnico-profissional. Dois marcos localizados no ano de 2007 e outro no ano de 2008 foram decisivos para que o Ensino Médio Integrado passasse a ser encarado como política pública e como prioridade no que se refere à oferta de EPTNM, sobretudo no âmbito da educação não privada.
Dois são os objetivos desse texto. Em primeiro lugar, comemorar os 10 anos de consolidação da política e das experiências de integração curricular, fazendo-o a partir de dados concretos e de uma retomada histórica que evidenciam os avanços obtidos na Educação Profissional brasileira. Em segundo lugar, tratar essa comemoração como um ato de resistência, evidenciando as ameaças à integração curricular presentes na contrarreforma do Ensino Médio (Lei nº 13.415/2017), imposta autoritariamente por um governo sem legitimidade.
A emissão do Decreto 5.154/2004, cujo conteúdo representava a reivindicação de importantes setores do movimento educacional, foi o marco político de uma ruptura provocada na Educação Profissional brasileira. A partir dali, a dualidade estrutural[i] que sempre caracterizou o Ensino Médio como etapa de ensino passava a ser enfrentada, ainda que as maneiras como os arranjos curriculares absorveriam essa questão ou como se organizaria a materialidade da política nas salas de aula fossem interrogações.
O fato é que, a partir de 2004, iniciou-se um debate importante entre as escolas, entidades e movimentos sociais ligados à educação sobre como seria colocada em prática a perspectiva político-pedagógica, até então proibida, que tem como fundamento a articulação integral entre os conhecimentos científicos historicamente acumulados pela humanidade e a formação técnica para uma profissão.
Muitos foram os eventos organizados pela academia, pelos sindicatos, escolas e coletivos de educadores para debater o tema e encontrar saídas que consolidassem o que estava, então, apenas apontado em um decreto. Vale destacar que esse processo foi construído e vivido no bojo de novas perspectivas que se abriam para a disputa dos rumos de um novo projeto de país. Muitos foram os resultados, desde experiências educacionais muito específicas até marcos legais que fundamentaram o que temos hoje, materializados na oferta de quase 400 mil matrículas na modalidade da EPTNM integrada ao Ensino Médio.
Três desses resultados são especialmente importantes. Em primeiro lugar, o Programa Brasil Profissionalizado, marco político fundamental para garantir a implementação da medida nas escolas e previsto no Decreto nº 6.302, de 12 de dezembro de 2007, portanto exatos dez anos atrás.
O programa previa o estímulo da oferta do Ensino Médio Integrado nos estados e municípios, com recursos do governo federal para infraestrutura e modernização de escolas, formação docente e fomento da oferta de EPTNM nas redes públicas de educação básica. Considerando a condição de estruturação da rede de EPTNM, o Programa Brasil Profissionalizado forneceu parte do substrato legal necessário à garantia de oferta de cursos com laboratórios adequados e professores preparados, finalizando mais de 300 obras em escolas, formando cerca de 2500 docentes e totalizando um investimento de mais de R$ 2 bilhões até o fim de 2016.[ii]
O programa ainda enfatiza a “educação científica e humanística, por meio da articulação entre formação geral e educação profissional no contexto dos arranjos produtivos e das vocações locais e regionais”[iii], dando o pontapé necessário à elaboração pedagógica e curricular que deveria conformar a política de Ensino Médio Integrado nas escolas.
Foi, entretanto, no Documento Base da EPTNM integrada ao Ensino Médio[iv]que os princípios e diretrizes do Ensino Médio Integrado foram explicitados. O documento tornou-se, a partir de 2007, ferramenta essencial para a implementação da política, subsidiando a formação docente, o desenho dos currículos e, de maneira geral, a materialização da proposta nas escolas.
Como ideia geral, o documento assenta as bases pedagógicas do Ensino Médio Integrado na perspectiva da formação humana integral. Compreende, assim, a articulação entre os conhecimentos técnicos e científicos como elemento fundamental da superação do “ser humano dividido historicamente pela divisão social do trabalho ou entre a ação de executar e a ação de pensar, dirigir ou planejar.”[v] Nesse sentido, o trabalho, ontológica e criticamente concebido, é o princípio educativo da concepção contida na proposta, além de se articular às categorias da ciência, cultura e tecnologia conformando o eixo curricular central do Ensino Médio Integrado.
O Documento Orientador da EPTNM integrada ao Ensino Médio é, como se pode perceber, um marco histórico da Educação Profissional brasileira. Além de absorver reivindicações históricas, fruto não somente de pesquisas acadêmicas sobre a realidade da escola de nível médio brasileiro, mas também de formulações construídas no seio das lutas populares, o documento demarca politicamente o conteúdo da Educação Profissional a partir de 2007, apontando no sentido oposto ao que se tinha até então.
Todo esse contexto de intensas transformações acaba por ser absorvido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB nº 9.394/1996), no ano de 2008. A Lei nº 11.741, sancionada em 16 de julho daquele ano, impõe alterações decisivas na LDB, incorporando o conteúdo do Decreto 5.154/2004. Obviamente, os marcos de 2007 foram condições necessárias para essa incorporação.
Como resultados gerais, ainda que com inúmeras dificuldades, tanto de implementação na materialidade das escolas, quanto de efetivação dos princípios da integração e formação integral, o Ensino Médio Integrado representou um avanço muito importante na política educacional brasileira. Os princípios aqui expostos fincaram os pés da Educação Profissional Técnica de Nível Médio numa perspectiva pública de qualidade, impondo dificuldades ao grande capital na disputa dos rumos e dos objetivos da formação técnica de trabalhadores ofertada pelo Estado.
Desde 2007, o número de matrículas no Ensino Médio Integrado quase quadruplicou, num crescimento superior ao das outras modalidades (subsequente e concomitante). É também naquele ano que a relação entre o número de matrículas na esfera pública e na esfera privada sofre uma reversão: em todos os anos, desde 2007, a maioria das matrículas passou a se concentrar na rede pública. Sem dúvida nenhuma, esse impacto se deve ao Ensino Médio Integrado, modalidade que chegou a concentrar, nas escolas públicas federais e estaduais, 93% das matrículas em todo o país.[vi]
PUBLICIDADE
Se os dados que discutimos evidenciam importantes razões de comemoração dos 10 anos de consolidação da política de Ensino Médio Integrado, por outro lado, a conjuntura brasileira atual exige que essa comemoração seja, ao mesmo tempo, um ato de resistência.
A Lei nº 13.415/2017, que organizou a chamada contrarreforma do Ensino Médio, fornece todas as bases para a destruição dessa política. A lei prevê que a oferta de Ensino Médio seja estruturada a partir de uma Base Nacional Comum Curricular e por uma “parte diversificada”, que inclui diferentes itinerários formativos a serem escolhidos pelo estudante. Obviamente, essa escolha não será feita dentre opções iguais em todas as escolas, mas a depender das condições de cada realidade escolar de ofertar um ou outro itinerário.
Dentre os possíveis itinerários formativos, está a “formação técnica e profissional” e o governo já sinalizou a forma como essa opção existirá: mediante a oferta hegemônica de cursos a distância e com profissionais contratados através de vínculos precários de trabalho, como tutoria, bolsas e contratos temporários. Há, inclusive, uma opção bastante concreta: o famigerado programa MedioTec, que estabelece parcerias entre a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e as redes estaduais.
Com repasses vultosos de recursos às instituições que compõem a rede, as parcerias são firmadas de maneira a delegar às escolas federais a seleção de tutores e a gestão da política, criando uma aparência de oferta em massa que dificilmente será executada com qualidade ou, no mínimo, com as mesmas diretrizes dos cursos técnicos ofertados na Rede Federal.
Com isso, o governo cumpre, de uma vez, uma série de objetivos: finge que financia a Rede Federal, implementa a contrarreforma do Ensino Médio e enterra a perspectiva da formação humana integral presente no Ensino Médio Integrado. Como saldo político, ainda coopta dirigentes federais que dependem de recursos para seguir construindo os campi dos Institutos Federais e CEFETs e veem os repasses desses recursos serem diminuídos a cada mês. Trata-se de um ataque sem precedentes, que recoloca a dualidade estrutural na ordem do dia da educação brasileira.
Por fim, é fundamental que a defesa do Ensino Médio Integrado não seja feita de maneira descolada da realidade política mais geral. Os avanços e as possibilidades de retrocessos que discutimos no texto evidenciam a necessidade da construção de um projeto consolidado de país, que tenha como princípios o desenvolvimento, a soberania e a participação popular.
Sem esses pilares, cujos eixos e fundamentos devem emergir dos debates, das lutas e da resistência aos ataques impostos pelo projeto privatista e antipopular em curso, não só as políticas de formação da classe trabalhadora ficam ameaçadas, mas toda a política social e os direitos conquistados historicamente com muito sofrimento. Nesse sentido, convidamos ao debate e à reflexão os atores que vivenciam diariamente o Ensino Médio e a Educação Profissional, encontrando saídas coesas para um período que exige muita resistência.
Notas
[i] A história da educação de nível médio no Brasil é condicionada, desde suas origens, pela divisão social do trabalho e, consequentemente, pela maneira dicotômica de conceber os sistemas de ensino: educação científica, propedêutica, de caráter geral para as classes dominantes, fundamentando a preparação para a continuidade nos estudos; e ensino técnico, manual, de educação profissional para as classes populares. A respeito desse tema, ver KUENZER, A. Z. Ensino Médio: construindo uma proposta para os que vivem do trabalho. 6 ed. São Paulo: Cortez, 2009.
[ii] BRASIL. MEC. SETEC. Processo de contas anuais – relatórios de gestão exercícios 2004-2015. Brasília, 2017. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/auditorias?id=14945>.
[iii] BRASIL. Decreto nº 6.302 de 12 de dezembro de 2007. Institui o Programa Brasil Profissionalizado. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 dez. 2007.
[iv] BRASIL. MEC. SETEC. Educação profissional técnica de nível médio integrada ao ensino médio: documento base. Brasília, 2007b. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf/documento_base.pdf>.
[v] Idem, p. 41
[vi] BRASIL. MEC. INEP. Sinopse estatística da educação básica, 1995-2016.Brasília, 2017. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/guest/sinopses-estatisticas-da-educacao-basica>.


Lucas Barbosa Pelissari é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS) e doutorando em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ

Artigos Relacionados

 O alto preço de negar a luta de classesO alto preço de negar a luta de classes
ANÁLISE O crescimento do populismo dos dois lados do Atlântico está sendo investigado sob os...
Lula, PT e CUT: outra hora da verdadeLula, PT e CUT: outra hora da verdade
ANÁLISE É forçoso constatar que as esquerdas brasileiras têm sido refratárias em aprender...
Um Um "abacaxi" no STF chamado Gilmar Mendes
QUEM DESCASCA? Reprovado por 83%, colecionador de brigas com colegas, na mira de impeachment,...

Artigo | 50 anos da invasão de Israel à Palestina



ORIENTE MÉDIO

Artigo | 50 anos da invasão de Israel à Palestina

Em 5 de junho, completaram-se 50 anos desde que Israel, após a Guerra dos Seis Dias, invadiu os territórios palestinos

Brasil de Fato | Recife (PE)
,
Jéssica Barbosa é feminista, advogada, assistente da equipe de direito das mulheres da Actionaid Brasil / Celia Peterson/ActionAid

A resistência é local, mas a solidariedade é internacional. O mês de junho tem um significado importante para os palestinos. No dia 5 de junho completaram-se 50 anos desde que Israel, após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, invadiu os territórios palestinos e iniciou a política de expansão dos seus assentamentos ilegais. Junto com essa expansão em territórios palestinos para além das fronteiras determinadas em 1948, há também uma crescente militarização da vida nesses territórios, que inclui a criminalização de crianças a partir dos seus 12 anos.

Para se ter uma ideia, nessa época a cidade de Jerusalém, que em 1948 foi declarada território sob administração internacional, foi paulatinamente sendo controlada pelos israelenses até que, em 1980, uma lei israelense a declarou como sendo a capital do Estado de Israel, a despeito da resolução do Conselho de Segurança da ONU que informa que a “Lei de Jerusalém” era nula e não deveria ser reconhecida. Infelizmente, até hoje a cidade continua dividida em lados oriental e ocidental e é controlada pelo Estado de Israel, que condiciona a concessão do status de residente a palestinos e palestinas do lado oriental da cidade à sua permanência no mesmo lugar de moradia e trabalho. Caso se mudem, perdem sua permissão de residência.

Nesse sentido, é impossível falar da vida nesse território sem falar das diversas privações que essa situação causa às pessoas de nacionalidade palestina. A situação da gritante diferença com que são tratados cidadãos e cidadãs de Israel e da Palestina no território é hoje entendida como um Apartheid, dada tamanha semelhança com o sistema de segregação imposto na África do Sul que diferenciava pessoas brancas e negras em seu direito à cidade e serviços públicos como moradia, transporte, saúde e, principalmente, acesso aos bens comuns como água. Para uma pessoa palestina, hoje, uma simples ida ao trabalho necessita diversas permissões israelenses para deslocamento, longas horas de espera em diversos postos de revista (os famosos check-points), isso tudo sem levar em consideração o alto nível de repressão que rege todas essas relações.

Essa situação ainda é agravada com o tensionamento gerado a partir da expulsão de centenas de milhares de palestinos e palestinas de suas casas por conta da violência do conflito desde 1948. Hoje são mais de 5 milhões de refugiados que são atendidos pela UNRWA, um organismo de assistência especializado da ONU direcionado exclusivamente para tratar do caso dos refugiados palestinos. São cerca de 60 campos de refugiados espalhados pela região do Oriente Médio. São vidas, famílias repartidas, histórias que se interromperam e que até hoje aguardam uma situação definitiva sobre seus retornos para suas casas.

Quando falamos do território da Faixa de Gaza a situação é ainda pior. O lugar é considerado uma prisão ao ar livre. Com a atual política israelense de bloqueio da Faixa de Gaza, a taxa de pobreza aumentou para 65%. Hoje, 80% de sua população depende de ajuda humanitária internacional para necessidades básicas diárias, como alimentação. Além disso, as crises elétricas são crônicas na região e, nos melhores dias, só se tem luz por 4 horas seguidas. Isso afeta a vida de cerca de 2 milhões de pessoas, pois não há eletricidade para o funcionamento de hospitais, escolas e sequer para o abastecimento de água.

Recentemente, inclusive, após desentendimentos sobre as taxas pagas pela autoridade palestina relativas ao fornecimento de energia (que chegam a mais de 10 milhões de euros por mês por energia elétrica para uma faixa de terra de 365km²), o governo de Israel anunciou a redução do fornecimento de energia. Essa decisão liga o alerta de emergência para o fornecimento de já sofridos serviços vitais para a população, principalmente o serviço de saúde. Estima-se que a redução será para apenas duas horas de energia elétrica por dia.

O tamanho, o tempo e as consequências desse conflito não podem deixar esquecer o quão importante é para as grandes potências ocidentais terem, dentro de um espaço tão valioso em recursos naturais como o Oriente Médio, um Estado com uma política tão aliadas a eles, como é o caso de Israel. Além disso, as táticas israelenses de policiamento, investigação, desrespeito aos direitos individuais e coletivos em nome da segurança têm servido como modelo para repressões a manifestações populares em todo mundo. O Brasil, por exemplo, tem diversos acordos de compra de armamentos e treinamentos militares com empresas israelenses, e, segundo o BDS (campanha civil internacional Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel), o país era o quinto maior importador de armamentos israelenses em 2011.

Dentro desse contexto, não há como negar que repressões, como as sucessivas investidas de expansão do território israelense, a política de Apartheid contra o povo palestino, embora tão distantes geograficamente, trazem consequências que refletem diretamente no nosso cotidiano.

Por fim, é importante ressaltar que, como todo lugar do mundo, o território ocupado palestino tem seus problemas internos. Divergências políticas e desigualdade social, de gênero, entre outras. Em poucos lugares do mundo, porém, talvez exista uma resiliência tão grande. Por esses e tantos motivos é preciso falar sobre essa ocupação. É preciso devolver a dignidade a essa população e sua liberdade para decidir seus próprios rumos.
Edição: Vinícius Sobreira

Análise | Retrospectiva 2017: um ano com mais derrotas do que vitórias na Lava Jato

Análise | Retrospectiva 2017: um ano com mais derrotas do que vitórias na Lava Jato

Período foi marcado por ofensiva contra Lula, mudanças no comando da operação e tentativas de "estancar a sangria"

Brasil de Fato | Curitiba (PR)
,
Ouça a matéria:
Reputação do juiz Sérgio Moro foi atingida no segundo semestre por denúncias de Tacla Durán, ex-advogado da Odebrecht / José Cruz - Agência Brasil
O ano que está prestes a terminar teve mais derrotas do que vitórias para os operadores da Lava Jato.
Em janeiro, ficou claro que Michel Temer (PMDB) estava disposto a “estancar a sangria”. Após a morte do relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, o presidente golpista indicou Alexandre de Moraes para a Corte. Moraes era ministro da Justiça, e precisou se desfiliar do PSDB para assumir o cargo.
Temer também mudou o comando da Procuradoria-Geral da República(PGR) e da Polícia Federal (PF). Em nenhum dos casos, escolheu o profissional mais votado pelos colegas. Pelo contrário, colocou dois nomes de sua confiança: Fernando Segóvia, na Polícia Federal, e Raquel Dodge, na PGR. Para completar, o golpista distribuiu emendas bilionárias no Congresso Nacional e conseguiu barrar duas denúncias que poderiam derrubá-lo.
No segundo semestre do ano, o resultado desastroso da operação Ouvidos Moucos chamou a atenção para o risco das violações popularizadas pela República de Curitiba. Luiz Carlos Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, se suicidou após a prisão arbitrária ordenada por uma ex-delegada da Lava Jato, Érika Marena.
Em seguida, explodiu a “bomba” de Tacla Durán: o ex-advogado da Odebrecht que acusou Carlos Zucolotto Jr., amigo pessoal do juiz Sérgio Moro, de cobrar propina para negociar acordos de delação.
De nada adiantou o lançamento de um filme sobre a Lava Jato, nem o apoio diário da mídia comercial. A ofensiva contra o ex-presidente Lula e os sinais cada vez mais evidentes de partidarização da operação custaram caro. Nas duas passagens do petista por Curitiba, para prestar depoimento, os gritos de ódio foram abafados por manifestações de solidariedade.
Condenado por Moro sem provas no “caso triplex”, Lula termina o ano como favorito para as eleições presidenciais, e com julgamento em segunda instância marcado para o dia  24 de janeiro em Porto Alegre.
A queda de braço continua em 2018, e é cada vez mais difícil estabelecer previsões. O que não se pode negar é que, para bem ou para mal, a Lava Jato respira por aparelhos.
Edição: Camila Salmazio
Fonte: Brasil de Fato

Relembrando: Analistas atribuem 'paralisação' do ensino técnico no país a ministro de FHC

Analistas atribuem 'paralisação' do ensino técnico no país a ministro de FHC

por suzanavier publicado 28/10/2010 12h34, última modificação 28/10/2010 19h04
São Paulo – Duas legislações implementadas pelo ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2002), paralisaram o ensino técnico no Brasil, de acordo com especialistas ouvidos pela Rede Brasil Atual. As iniciativas do economista teriam levado ao empobrecimento da educação profissional e seriam a causa da atual falta de quadros qualificados em diversas áreas como a construção civil e de tecnologia de ponta.
O tema foi central durante toda a campanha eleitoral à Presidência da República. Desde o início, o candidato atualmente de oposição, José Serra (PSDB), aponta o ensino técnico como uma prioridade em um eventual governo comandado por ele. A visão de críticos contrasta com essa declaração, especialmente porque Paulo Renato foi secretário de Educação da gestão de Serra no governo de São Paulo.
Com o argumento de que a educação profissional brasileira, o antigo segundo grau, atendia a interesses elitistas, o então titular do MEC assinou o Decreto 2.208 de 1997, que separou o ensino médio da educação técnica e, segundo profissionais da educação, empobreceu os currículos na educação profissional. “Praticamente destruiu, naquele momento, as escolas técnicas”, aborda Rubens Barbosa de Camargo, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
A iniciativa atendia a diretrizes do Banco Mundial e fortaleceu o conceito de que o mercado de trabalho deveria definir o conteúdo  para a formação dos jovens. “A percepção que se tem é de que quem analisa o que é necessário para a formação dos jovens trabalhadores é o empresário e não mais os profissionais da educação”, afirmam as pesquisadoras e professoras universitárias Angela Salvadori e Maria Ignês Mancini, no estudo "A reforma da educação profissional nos anos 90: uma análise sobre as propostas e práticas no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso".
O decreto também dava a entender que a educação profissional poderia ser ensinada em qualquer lugar, desde que se cumprisse a carga horária exigida pelos parâmetros curriculares, segundo as autoras do estudo.
Na visão do presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Franklin de Leão, não se pode confundir mundo do trabalho com mercado de trabalho, como aconteceu na gestão de Paulo Renato. “Não se pode ter uma educação que atenda única e exclusivamente as demandas do mercado de trabalho. Até porque essas demandas aparecem e desaparecem ao sabor de elementos sobre os quais não se têm controle”, descreve.

Sem expansão

Por meio de outra legislação, a Lei 9.649/1998, no artigo 47, foi praticamente interrompida a expansão do ensino técnico federal. “A expansão da educação profissional, mediante criação de novas unidades de ensino por parte da União, somente poderia ocorrer em parceria com estados, municípios, Distrito Federal, setor produtivo ou ONGs, que seriam responsáveis pela manutenção e gestão dos novos estabelecimentos de ensino”, avaliam Angela Salvadori e Maria Ignês Mancini, no estudo.
Do ponto de vista da qualidade, as professoras universitárias detectaram que o currículo fragmentado e dissociado empurrou a educação tecnológica de natureza integral para o nível superior, empobrecendo os cursos técnicos. “O modelo de educação profissionalizante sugerido foi a busca de cursos com curta duração, baixo custo, e que atinjam a maior quantidade de alunos, desvinculados da pesquisa e da extensão”, resumem.
Ainda em 1997, Paulo Renato lançou o Programa de Reforma da Educação Profissional (Proep) com o objetivo de modernizar e expandir o sistema da educação profissional. O programa estabeleceu parcerias com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Entretanto, o Proep atuou muito mais na expansão de vagas do ensino técnico privado que na criação de vagas públicas, ao se propor a financiar entidades gerenciadas de forma comunitária e que mais tarde foram incorporadas pela iniciativa privada.
“Houve um aumento significativo de escolas técnicas particulares. Isso se deve a dos motivos: criação da Lei federal 9.649, de 1998, que proíbe a criação de unidades da rede federal, a não ser em parcerias com o setor privado, estados, municípios ou Ongs e as escolas do segmento comunitário que nunca funcionaram e nunca ofertaram a quantidade de vagas previstas pelo Proep”, diagnosticaram as pesquisadoras.
Para a professora universitária Lúcia Maria Wanderley Neves, na prática as medidas implementadas durante o governo de FHC favoreceram a “exclusão social”. “O estudante pode vir a ter acesso à escola, mas não terá, necessariamente, acesso ao conhecimento”, cita a pesquisadora.

Implicações

O presidente da CNTE acredita que as mudanças implementadas pelo ex-ministro Paulo Renato seguiram à lógica de importação de tecnologia e hoje, como conseqüência, o país sofre com a falta de profissionais em diversas áreas. “Temos uma falta muito grande profissionais porque o país não crescia. A lógica era: se é preciso tecnologia, importe-se do exterior e não se produza aqui”, detecta. Por isso, na visão de Leão, justificava-se a ausência de investimentos em educação tecnológica e formação de profissionais.
O enfoque dado ao ensino técnico por Paulo Renato também é alvo de críticas do deputado federal Carlos Abicalil (PT-MT), membro da comissão de educação e cultura da câmara dos Deputados. “Hoje temos uma situação de contradição. Nós temos a economia em expansão, com franca oferta de empregos e até na construção civil o diagnóstico é de que não há mão de obra qualificada. Sem falar na indústria de ponta...”, destaca o parlamentar.
Abicalil condenou o fato de o ensino técnico de qualidade, que fazia parte do antigo segundo grau, ter sido substituído pelos "cursinhos de qualificação de 40 horas". Essa modalidade resultou, segundo o parlamentar, em baixa capacidade de melhorar a qualidade de vida e a renda das famílias. "(Esses cursos) foram aplicados aos milhões”, critica.
Além da “curtíssima duração”, os cursos de qualificação oferecidos pelo governo Fernando Henrique  pecaram por não elevar a escolaridade e habilitar apenas para ocupações temporárias, acusa Abicalil. “O próprio Serra comete o ato falho de dizer que os cursos técnicos têm duração de um ano, um ano e meio, quando na verdade, os técnicos são de três a quatro anos”, aponta o parlamentar sobre as propostas do candidato do PSDB à Presidência da República.
O parlamentar também aponta incoerências na proposta de Serra de criar o Protec, uma espécie de Universidade para Todos (ProUni) do ensino técnico. "Serra não explica que o Protec não é oferta de curso. é oferta de bolsa. É a multiplicação desses cursinhos breves, temporários para ocupações precárias", condena.
Os cursos técnicos antes das alterações implantadas por Paulo Renato eram referência de qualidade, analisa o professor Camargo, da USP. “Sempre foi referência de qualidade, inclusive para entrar no vestibular. Alunos saíam e entravam direto em cursos concorridos”, destaca.
Segundo o pesquisador, em 2004, o Decreto 5.154, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recompôs o ensino técnico, voltando a reuni-lo ao ensino médio. A legislação permite tanto que se curse de forma separada, como de forma conjunta. “A lei do Lula recoloca a questão do ensino médio e do ensino técnico juntos”, diz Camargo. Em 2005, o Projeto de Lei Complementar nº 70, alterou a lei  9.649/1998 e permitiu à União criar escolas técnicas e agrotécnicas federais e unidades descentralizadas.

Ensino superior

A principal recordação do pesquisador da USP Rubens Camargo sobre a política do governo FHC para o ensino superior é de recursos escassos, falta de professores e longas greves. Ele foi professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) de 1993 a 1998. "As recordações são muito ruins", declara. "Deixou muito tempo sem recolocar professores. Os recursos eram escassos e às vezes só chegavam no final do ano, a ponto de não poder utilizar e serem devolvidos para o Tesouro (Nacional)", diz o especialista.
Para Leão, da CNTE, a gestão de Paulo Renato no MEC privilegiou o viés das escolas particulares e investiu pouco nas universidades públicas, que estavam sucateadas. "É a política do quem puder mais chora menos", define.
O deputado federal Carlos Abicalil cita que na época houve "a explosão das instituições privadas" no ensino superior, em oposição à qualificação das instituições públicas. "Ele incentivou indiretamente o ensino privado no país, à medida que restringiu a ação pública e ofereceu meio de expansão da oferta privada, sem contrapartida que hoje tem do ProUni", analisa o parlamentar.
Fonte: RBA