quinta-feira, 24 de maio de 2018

O que está por trás do aumento dos preços de combustíveis?

Economia

Opinião

O que está por trás do aumento dos preços de combustíveis?

por Eduardo Costa Pinto e Rodrigo Leão* — publicado 24/05/2018 11h09, última modificação 24/05/2018 17h39
Opção da Petrobras é subutilizar refinarias e favorecer importação. Em 2013 a empresa podia atender 90% da demanda, número que caiu para 76% em 2017
Marcelo Casal/Agencia Brasil
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Somente no último mês o preço da gasolina subiu 19%
Nesta semana, os protestos protagonizados pelos caminhoneiros em função dos recorrentes aumentos dos preços dos combustíveis tem tomado conta do noticiário no Brasil. De fato, nos últimos meses, os preços dos derivados vendidos pela Petrobras cresceram de forma intensa e contínua.
Desde 20 de fevereiro, o preço da gasolina vendido pelas refinarias da Petrobras aumentou 35% saindo de 1,52 real o litro para 2,04 reais o litro. Somente no último mês, o aumento foi de 19%.
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Cabe ressaltar que, nesse período, não houve nenhuma mudança estrutural na cadeia produtiva dos derivados de combustíveis (variações nas alíquotas dos impostos ou significativas alterações nas margens dos distribuidores e postos), o que torna muito frágil a tese que enxerga os aumentos dos combustíveis como decorrência dos impostos e dos carteis dos postos. Nesse sentido, a questão central a ser debatida é a atual política de preços da Petrobras e seus efeitos para a empresa e para os consumidores.
Em primeiro lugar, é importante entender que a cadeia de produção do petróleo é bastante oligopolizada nos segmentos de produção, refino e distribuição e, por isso, a formação dos seus preços não obedece somente à lógica da microeconomia clássica de equilíbrio entre oferta e demanda.
Como lembra recente texto de Rubens Sawaya, professor da PUC-SP, “o debate sobre os preços deve tomar o capital como seu nexo central, resultado de sua forma de organização. As empresas (...) são entidades que pensam, planejam e atuam segundo táticas e estratégias muito bem elaboradas, com o objetivo de abocanhar o máximo possível da riqueza (...). Seus métodos de definição de preço seguem estratégias específicas. Como também apontava Kalecki, o mais normal são as grandes empresas operarem com custos marginais constantes, se não decrescente, podendo ofertar qualquer quantidade no mercado sem qualquer alteração do custo unitário”.
Esses aspectos também devem ser observados na determinação do preço, ainda mais por se tratar de um setor oligopolizado dominado por empresas gigantescas e com amplo poder de marcação de preços.
Em segundo lugar, a variação de preços no setor petróleo está relacionado a um conjunto de fatores geopolíticos, como conflitos entre os maiores produtores, embargos realizados pelos grandes consumidores, entre outros. Ou seja, um embargo realizado pelos Estados Unidos ao Irã pode afetar o preço do petróleo no mercado internacional.
Em uma economia aberta e onde há escassez da produção de derivados de petróleo, a política de preços para esse segmento apresenta poucas alternativas. Como essas economias são dependentes das importações de gasolina, diesel etc., o preço doméstico dos derivados obrigatoriamente acaba seguindo os internacionais. Como eles são obrigados a comprar os derivados pelo preço internacional do petróleo, as variações internas obrigatoriamente incorporam para as variações ocorridas no mercado internacional.
No entanto, os países (como o Brasil) que apresentam uma ampla capacidade de produção de derivados não necessitariam recorrer às importações de derivados para abastecer seus mercados. Com isso, os preços podem responder muito mais à estrutura de custos e receitas das empresas produtoras dos combustíveis do que à variação do preço internacional.
No caso brasileiro, essa relação causal entre preço e custos é ainda maior porque o País tem autossuficiência na produção de petróleo cru, ou seja, o Brasil tem uma demanda marginal de importação de petróleo cru para atender a demanda do parque nacional do refino.
Desse modo, a formação dos preços deve estar mais relacionada à capacidade de cobrir os custos variáveis das empresas e gerar um excedente do que aos movimentos dos preços internacionais.
Entre 2013 e 2017, a empresa reduziu o volume de produção de derivados em mais de 300 mil barris/dia, saindo de 2.124 mil barris/dia para 1.800 barris/dia. Nesse período, o consumo de derivados ficou relativamente estável na casa dos 2.400 mil barris/dia.
Com isso, enquanto em 2013 a Petrobras tinha capacidade de atender cerca de 90% da demanda interna de combustíveis, em 2017 esse percentual caiu para 76%, num cenário em que a empresa ampliou seu parque de refino (saiu de 2060 mil barris/dia para 2350 barris/dia). Ou seja, mantida a utilização das refinarias, a Petrobras seria capaz de ofertar ao mercado nacional quase toda a demanda de derivados sem necessitar das importações.
No entanto, a opção da companhia tem sido subutilizar suas refinarias e favorecer a entrada dos importadores. Em 2013, a Petrobras utilizava praticamente 100% do seu parque de refino e, em 2017, esse percentual caiu para 76%. Com isso, uma parcela substancial do mercado interno tem sido suprida com importações.
Com a enxurrada de importações (que já detém por 24% do mercado interno), a Petrobras fica refém de uma política de preço atrelada ao mercado externo. Isso porque, caso a empresa decida controlar os preços, os importadores sairão do jogo e a Petrobras terá de arcar sozinha com o diferencial de preços praticados no mercado doméstico e no exterior.
É evidente que, dado o custo de oportunidade existente em economias abertas, não é possível praticar durante um longo período um preço doméstico tão distante do mercado externo. Todavia, o maior uso do parque de refino daria graus de flexibilidade temporais e de intensidade para o reajuste dos preços.
Não resta dúvida que a atual política de preços da Petrobras tem gerado, por um lado, uma redução do papel da Petrobras no mercado de derivados e no refino e, por outro, tem potencializado o aumento da entrada e expansão de players internacionais. Isso ocorre em virtude da manutenção a “qualquer custo” do preço de paridade internacional mesmo que isso implique a redução das margens de refino (bruta e líquida) com a perda de mercado.
O que causa enorme estranheza é que a Petrobras abdicou de sua posição de price maker(formador de preço) – que lhe possibilitava mantém maiores margens - para adotar uma posição de price taker (tomador de preço) num mercado claramente oligopolizado.
A questão, portanto, não está na política de preços strictu sensu, mas sim na política adotada para o refino como um todo.
Por fim, cabe lembrar que essa política de subutilização do refino, combinada com a política de paridade do preços,visa facilitar a venda desses ativos para as empresas estrangeiras, tornando o mercado de petróleo nacional ainda mais dependente do mercado e do preço internacional.
*Rodrigo Leão é mestre em desenvolvimento econômico (IE/UNICAMP). Atualmente, é diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP) e pesquisador visitante do NEC-UFBA.
Eduardo Costa Pinto é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP)

País está cavando o fundo do poço da depressão

Economia

Opinião

País está cavando o fundo do poço da depressão

por João Sicsu — publicado 24/05/2018 14h50
Com crescimento pífio da economia, Brasil tem hoje características semelhantes àquelas que a economia norte-americana enfrentou durante os anos 1930
Antonio Cruz/Agência Brasil
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'Não há sentido social nas medidas adotadas pelo governo'


O Brasil mergulhou em uma profunda recessão nos anos de 2015 e 2016, perdeu mais de 8% do tamanho do seu PIB. O desemprego disparou, são quase 14 milhões de desocupados. A falta de demanda por produtos e serviços é prolongada. A taxa de crescimento dos investimentos é negativa desde 2014. O país tem características semelhantes àquelas que a economia norte-americana enfrentou durante os anos 1930.
Taxas de crescimento, positivas ou negativas, baixas e voláteis, são também uma característica das economias em depressão. Um pibinho é esperado para ser divulgado na próxima semana. Os viúvos da “recuperação” já estão lamentando o acidente que será anunciado.
crescimento pífio de 1%, de 2017, não pode ser considerado uma recuperação, nem sequer, como querem crer os mais otimistas apoiadores do governo, que foi o início de uma recuperação lenta. Não existe recuperação com taxas pífias associadas a taxas de crescimento negativas do investimento.
Para sair de uma depressão, um país deve buscar a eliminação das causas recessivas primárias e, em paralelo, deve ser lançado um programa de recuperação dos investimentos privados a partir do lançamento de um programa de investimentos públicos. Isso é bem conhecido.
Como disse o Prêmio Nobel, Paul Krugman: “na Grande Depressão, os líderes tinham uma desculpa, ninguém realmente compreendia o que estava acontecendo nem sabia como resolver a situação. Os líderes de hoje não têm essa desculpa. Temos tanto o conhecimento quanto as ferramentas para acabar com esse sofrimento”.
No Brasil, as causas primárias recessivas permanecem. O mix de políticas econômicas contracionistas com contenção/limitação de gastos públicos e juros elevados não mudou. A crise política não dá sinais de arrefecimento, muito ao contrário. A Operação Lava Jato continua contribuindo para a sua manutenção e agudização.
Petrobras e cadeias produtivas associadas entram em nova crise. Ambas já tinham sofrido com ações da Operação Lava Jato e com decisões do governo, como por exemplo, o fim da política de conteúdo nacional para a produção de embarcações, navios e plataformas – o que gerou prejuízos aos empresários e desemprego para milhares de trabalhadores.
Não há sentido social nas medidas adotadas pelo governo. Vejamos. Uma economia sofre choques, por exemplo: climáticos, que quebram safras ou sofre choques na taxa de câmbio e nos preços de produtos internacionalizados devido a movimentos especulativos ou episódios externos que não são possíveis de serem controlados ou, sequer, previstos.
Governos socialmente responsáveis adotam medidas para amenizar choques se e quando ocorrerem. Por exemplo, podem diminuir a velocidade e a intensidade dos movimentos de capitais especulativos para impedir variações abruptas da taxa de câmbio. Podem também aplicar políticas de desenvolvimento tecnológico para a indústria e a agricultura visando à autossuficiência de produtos internacionalizados, como o petróleo.
Nas últimas décadas, o mercado de câmbio de moeda estrangeira se tornou cada vez aberto aos movimentos de especuladores. Isso é grave, mas já estava aí. Contudo, o Brasil fez descobertas extraordinárias de reservas de petróleo. Se tornou potencialmente autossuficiente e, em consequência, poderia administrar no mercado doméstico o preço de um produto internacionalizado.
Em meio a uma grave crise econômica com características de uma depressão, o governo adotou uma série de medidas para tornar a produção e os preços domésticos dos combustíveis comandados pelo preço internacional do petróleo e, portanto, também pelas variações cambiais.
O preço internacional do petróleo subiu e a taxa de câmbio se elevou. Os preços dos combustíveis que são bens-intermediários dispararam. Há inflação de custos que se tornaram insuportáveis. Caminhoneiros estão parando o país. O temor cresce. A crise política se agrava. O governo está paralisado. Não é capaz nem de eliminar as causas primárias da crise econômica nem de lançar um amplo programa de recuperação. A profundidade do poço aumenta e o sofrimento será prolongado.
Leia também: E se Keynes revivesse
Fiquemos com duas lições de J.M.Keynes dadas durante a Depressão dos anos 1930. Ele sentenciou “... todos os governos têm grandes déficits [em uma forte contração econômica].” Portanto, a questão não é a existência de déficits públicos, mas sim onde deveriam ser utilizados os recursos tomados emprestados para cobrir esses déficits. Disse ele: “é muito melhor ... que os empréstimos sejam tomados para financiar obras públicas ... que para o propósito de pagar seguro-desemprego”.
A segunda lição é de ousadia e criatividade. Keynes via nas obras públicas uma atividade que empregava muito trabalho e que melhorava a qualidade de vida da sociedade. Então propôs: “... por que não demolir inteiramente o sul de Londres de Westminster a Greenwich, e fazer um bom trabalho aí – colocando para morar nessa área, próxima do trabalho, uma população muito maior que a atual, em edifícios muito melhores e com todas as facilidades da vida moderna e, ao mesmo tempo, provendo milhares de metros de praças e avenidas, parques e espaços públicos, tendo, quando tudo finalizado, alguma coisa exuberante aos olhos, e ainda conveniente e útil para a vida humana como um monumento do nosso tempo? Isso empregaria homens? Com certeza, empregaria!”

Relações suspeitas Anulação de contrato no Porto de Santos deixa Temer em apuros

Política

Relações suspeitas

Anulação de contrato no Porto de Santos deixa Temer em apuros

por André Barrocal — publicado 24/05/2018 08h26
Irregularidades apontadas pelo TCU em acordo assinado por aliado do presidente com a Libra, financiadora de Temer, devem reforçar inquérito da PF
Marcos Corrêa/PR/Creative Commons
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Temer está no centro de investigação sobre irregularidades em contrato da Libra com o Porto de Santos (SP)
Que semana para Michel Temer. Ele lançou Henrique Meirelles à Presidência por não ter nenhuma chance de ser o candidato do MDB. Disse que quem não apoiasse Meirellesdeveria sair do partido, mas teve de engolir o presidente do Senado, Eunicio Oliveira, reagir: “Não vou sair e ninguém me tira”. Pediu “trégua” a caminhoneiros grevistas e ouviu um sonoro “não”. Viu o Congresso enterrar de vez sua tentativa de privatizar a Eletrobras.
Não bastasse tudo isso, o Tribunal de Contas da União (TCU), órgão auxiliar dos parlamentares, mandou o governo desfazer um contrato assinado, em 2015, pelo ministério dos Portos com uma empresa atuante no Porto de Santos, Libra, cujos donos são financiadores eleitorais de Temer. Dele e de seu velho parceiro Eduardo Cunha, ex-deputado preso por corrupção.
O motivo da anulação? Indícios de irregularidades no contrato, nascido de uma história cheia de digitais do MDB. A ordem é para o governo cancelar o acordo em até 15 dias e começar a tomar já providências para realizar uma licitação da área usada por Libra no porto de Santos. Mais: o TCU vai abrir outro processo, para identificar os responsáveis pelas irregularidades, e mandará a decisão anulatória para alguns interessados, que podem ajudar a desvendar responsabilidades criminais.
A Polícia Federal (PF), por exemplo, já toca uma investigação contra o presidente a devassar a ligação histórica de Temer com o Porto de Santos, e nessa investigação Libra é personagem. O cancelamento determinado pelo TCU pode até ser incorporado a esse inquérito, conduzido pelo delegado Cleyber Malta Lopes.
Uma das assinaturas no contrato anulado é do deputado Edinho Araújo (MDB-SP), nomeado em 2015 para o ministério de Portos por pressão de Temer sobre a então presidente Dilma Rousseff. Uma nomeação essencial para encerrar uma novela iniciada em 2013 graças à dobradinha Temer-Cunha.
O contrato anulado renovou até 2035 três concessões tidas por Libra para atuar no Porto de Santos. Uma das concessões era de 1998 e valia por 20 anos. Logo após assiná-la em 1998, a empresa entrou na Justiça com a alegação de que o Porto não cumpria o que devia. E parou de pagar suas obrigações contratuais. O calote virou uma dívida bilionária, de 2,7 bilhões de reais em valores atuais.
Em 2012, Dilma baixou uma medida provisória (MP), a 595, com uma nova Lei de Portos. Só poderiam ter concessão com o poder público as empresas portuárias sem dívida com órgãos estatais. Como era caloteira, Libra corria o risco de ser enxotada de Santos quando vencesse a concessão de 1998.
Na votação da MP na Câmara em 2013, Cunha, então líder do MDB, derrotou Dilma e emplacou na lei uma brecha salvadora para Libra. Devedor poderia ter contrato de concessão caso o débito fosse negociado em uma arbitragem, longe dos tribunais. Um dispositivo feito sob medida para Libra, única do ramo portuário até hoje a recorrer à arbitragem. 
A negociação arbitral está em curso desde janeiro deste ano e é aí que Libra está sendo cobrada a pagar 2,7 bilhões de reais. Nos últimos dias, houve várias audiências na arbitragem, levada adiante em São Paulo, na Câmara de Comércio Brasil-Canadá. Diante da decisão do TCU, fica a dúvida sobre como as negociações vão correr daqui para a frente.
A brecha aberta por Cunha em 2013 não encerrava, porém, o assunto para Libra. Era preciso que o governo baixasse um decreto complementar à lei. E que topasse renovar o contrato de 1998 da empresa com o Porto de Santos. E aí era com Temer. 
O decreto regulamentador foi discutido pessoalmente por ele ao menos uma vez. Foi no segundo semestre de 2013, em uma reunião no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente. Participaram Temer, Cunha e um dos dirigentes de Libra, Gonçalo Borges Torrealba, membro do Conselho de Administração e do Comitê de Relações Institucionais.
Na montagem do segundo governo de Dilma, após a eleição de outubro de 2014, Temer exigiu da petista que o ministério dos Portos fosse dado ao MDB. Até então, a pasta estava com outro partido, o PR. Para o cargo, Temer indicou um fiel escudeiro, Edinho Araújo. 
O então ministro antecipou em três anos a renovação do contrato com Libra. Assinou o novo em 2 de setembro de 2015. Ao mesmo tempo, concordou que a dívida dela com o Porto fosse discutida em uma arbitragem. Entre as pré-condições da arbitragem, empresa e governo aceitaram retirar da Justiça todas as ações sobre a dívida. Um mês depois, Araújo deixava o cargo.
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Família dona do grupo Libra, os Torrealba, foi doadora de campanha de Temer e Cunha
Em 23 de agosto de 2016, três semanas após CartaCapital contar em detalhes o rolo de Libra em Santos, o Ministério Público Federal atuante no TCU pediu o cancelamento do contrato renovado. 
Para o MPF, o interesse público tinha sido deixado de lado. Libra não pagou nada pela renovação, nem mesmo um naco de sua bilionária dívida. Apenas prometeu investir 750 milhões de reais em 20 anos, proposta que Edinho Araújo aceitou. 
A relatora do processo no TCU, Ana Arraes, concordou com o MPF. Por essa razão, votou por desfazer o contrato, uma posição endossada pelo plenário da corte de contas nesta quarta-feira 23. 
E qual seria a razão de o interesse público ter sido ignorado? Grana é um bom palpite. 
Na eleição de 2014, a família Torrealba, dona de Libra, foi generosa com quem tinha lhe socorrido no ano anterior. Os irmãos Rodrigo, Ana Carolina e Celina deram oficialmente quase 1 milhão de reais a Temer e outros 750 mil ao MDB fluminense, então comandado por Cunha. A matriarca Zuleika Torrealba deu 1 milhão de reais à direção do MDB, controlada por Temer na ocasião.
A relação financeira da empresa com Temer vinha de longe. Quando Libra assinou com o Porto de Santos, em 1998, o contrato prorrogado em 2015, o presidente do Porto era um apadrinhado de Temer, Marcelo Azeredo. Este foi processado por uma ex-mulher, Érika, que queria uma pensão maior e, nos autos do caso, surgiu uma planilha a registrar propina. 
Nessa planilha, vê-se que Libra pagou uma caixinha de 1,280 milhão de reais por dois contratos, entre eles, aquele de 1998. Metade da grana, 640 mil reais, foi para alguém identificado como “MT”, provavelmente Michel Temer. A outra metade era para “MA”, possivelmente Marcelo Azeredo, e “Lima”, provavelmente João Batista Lima Filho, o coronel Lima, amigão de Temer.
A planilha foi ressuscitada pela PF e agora faz parte do inquérito conduzido pela delegado Lopes. O inquérito corre sob a supervisão do juiz Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 7 de maio, Barroso prorrogou-o por 60 dias, a pedido do delegado.
Quando a investigação terminar, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, terá de decidir se denuncia Temer criminalmente. A apuração começou em setembro de 2017 com foco na seguinte suspeita: houve dinheiro por trás de um decreto baixado pelo presidente a permitir a renovação de um contrato tido por outra empresa atuante no Porto de Santos, a Rodrimar?
De lá para cá, porém, o escopo aumentou. A investigação passou a abranger os desdobramentos da MP 595, aquela que deu origem à salvação de Libra e ao contrato que acaba de ser anulado. Terá a “xerife” Raquel Dodge disposição para agir contra o presidente que a indicou para chefe da PGR?

JUDICIÁRIO Rio sedia seminário internacional de juristas nesta quinta


JUDICIÁRIO

Rio sedia seminário internacional de juristas nesta quinta

Entre os dias 24 e 26 de maio, juízes, advogados, professores e alunos se reúnem na PUC-Rio para em defesa da democracia

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)
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Mesa compromisso com a democracia na América Latina com a participação do embaixador Celso Amorim durante a tarde de hoje / Magda Mariotini
Começou hoje (24), na PUC-Rio, o Seminário Internacional em Defesa das Garantias e dos Direitos Fundamentais. O evento traz para o Brasil, juristas renomados da América Latina e da Europa. Entre eles estão confirmados o advogado argentino e reitor da Universidad para lá Educacion Trabajo, Nicolas Trotta e  a juíza e desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Kenarik Boujikian.  
O evento vai reunir juristas de todo o Brasil e também do exterior para debater temas como "o sistema de justiça e o compromisso com a democracia na America Latina" e "cenários de resistência democrática na Europa e na América Latina". Além de personalidades do meio jurídico, as mesas receberão nomes como o do economista português Francisco Anacleto Louça e a antropóloga e pesquisadora em Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz.
Carol Proner, professora de Direito Internacional da UFRJ e uma das organizadoras do evento afirma que "a realização de um Seminário como esse, no momento em que o Brasil vive um golpe de estado, é simbólico, é um ato de resistência". Para ela, "as cenas que assistimos desde o impeachment da ex-presidenta Dilma ferem o estado de direito democrático brasileiro e é mais que necessário a organização dos juristas brasileiros que defendem a democracia".
O Seminário é organizado pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), entidade recém constituída que atua por um sistema de justiça coerente e em defesa dos direitos constitucionais. A ABJD teve um importante papel na denúncia das arbitrariedades jurídicas que culminaram na injusta prisão do ex-presidente Lula e também e pressionaram pela abertura de investigação contra a desembargadora acusada de cometer crimes de ódio contra a vereadora Marielle Franco. Durante o Seminário Internacional, no dia 26  às 9h acontecerá o Ato de Lançamento oficial da Associação, no mesmo local. 
Programação Completa
24 DE MAIO

8h – Credenciamento

9h Abertura
9h15 - O Sistema de Justiça e o Compromisso com a Democracia na América Latina

Com Maria José Fariñas Dulce, 

Nicolas Trotta, Juan Martín Mena, 

Mediação: Carol Proner
14h às 18h – Movimentos Antidemocráticos e Defesa das Garantias Jurídicas e Políticas

Com Mariao Elena Rodríguez, Romina Zarate, Carlos Amauri Chamorro, Manuel Gándara Carballido.
25 DE MAIO

9h às 12h – Desconstrução do Estado Democrático de Direito, das Reformas Inconstitucionais à Intervenção Federal-Militar em plena Democracia;

com Jacqueline Muniz, Gisele Cittadino, Martonio Mont`Alverne Barreto Lima
14h às 15:30h – Cenários de Resistência Democrática na Europa e na América Latina

Flávio Dino, Matín Granovsky, Francisco Anacleto Louça
16h às 18h – O Papel da ABJD na Resistência às Rupturas e Retrocessos Democráticos

Afranio Silva Jardim, Beatriz Vargas, André Luís Machado: Defensor Público, Jessy Dayane Silva Santos, Kenarik Boujikian, Cezar Britto
26 DE MAIO - 9h - PLENÁRIA ABJD
Edição: Brasil de Fato RJ

DEMOCRACIA Café de proprietário petista resiste contra boicote nas redes sociais


DEMOCRACIA

Café de proprietário petista resiste contra boicote nas redes sociais

Espaço no bairro do Bixiga, em SP, ostenta bandeiras, bonecos, livros e cartazes em homenagem ao ex-presidente Lula

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Segismundo Bruno é proprietário do Café Sabelucha há mais de 20 anos / Reprodução/ Youtube
A polarização da sociedade brasileira por conta da política tem causado discordâncias em diversos espaços coletivos. E o local da vez é o Café Sabelucha, em São Paulo, que nas últimas semanas sofreu uma tentativa de boicote por causa da atuação e engajamento de seu proprietário.
O simpático Segismundo Bruno defende a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que permanece na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, desde o dia 7 de abril.
Localizado no bairro do Bixiga, região boêmia do centro de São Paulo, o café existe no mesmo endereço há 25 anos e ostenta bandeiras petistas, bonecos, livros e cartazes do ex-presidente Lula; e uma série de homenagens à ícones ligados ao campo progressista.
"As pessoas pensam que vão entrar aqui e pegar o 'vírus da esquerda' ou da 'consciência', conta Bruno, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.
Militante petista, Bruno se orgulha de sua atuação partidária desde a eleição da prefeita Luiza Erundina, em 1989, na cidade de São Paulo. Ele garante ter feito a defesa dos candidatos da sigla na cidade e no estado, mesmo com pequenas reclamações do Tribunal Eleitoral por campanha indevida.
"Eu não me preocupo com as pessoas que não vem. Porque eu não faço nada que justifique isso. Se elas não concordam, elas não estão sendo democráticas", afirma Bruno.
Nascido no Bixiga, o proprietário não tem sossego sequer para dar entrevistas. Conta que se tornou uma marca de seu café o bate-papo com os clientes. E não são poucos os frequentadores que, no período em que a reportagem esteve no local, entraram apenas para um rápido café e uma longa conversa.
"A minha militância tem sido aqui no café, todos os dias, o ano todo. Eu tive participações de outra forma, mas aqui a minha atuação é mais contundente", explica.
Confira o vídeo:

Edição: Juca Guimarães