segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Patrimônio histórico Entenda a origem do desmonte do Museu Nacional

Patrimônio histórico

Entenda a origem do desmonte do Museu Nacional

por Redação — publicado 03/09/2018 12h53, última modificação 03/09/2018 13h09
Desde 2004, há relatos de irregularidade no local. A instituição chegou a fazer uma vaquinha virtual para reabrir uma das salas do acervo
Tânia Rego/Agência Brasil
Museu Nacional em chamas
Instalação elétrica é advertida desde 2004
incêndio no Museu Nacional (MN), no Rio de Janeiro, na noite do domingo 2, que em poucas horas atingiu um imenso patrimônio cultural e cientifico de diversas áreas, é o efeito trágico da sucessão do descaso do poder público pela História, e que levou ao desmonte de um dos mais importantes espaços de conhecimento do País.
Embora recursos para o Ministério da Cultura tenham sido cortados durante a gestão de Michel Temer, não é de hoje que o local apresenta más condições. Há 14 anos, fiscais já atestavam as condições precárias do museu. Entenda abaixo:
Desde quando há notícias de má conservação do museu?
O desinteresse pelo espaço antecede os recentes cortes do investimento público. Já em 2004, o então secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, Wagner Victer, atestou diversas irregularidades durante visita que fez ao MN em novembro daquele ano.
O secretário disse ter ficado impressionado com a situação das instalações elétricas que, segundo ele, já estavam em estado deplorável. "O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico", disse na época o secretário à Agência Brasil.
Victer levou o problema ao Conselho Estadual de Cultura, para que medidas urgentes fossem tomadas. O diretor do museu neste momento, Sérgio Alex Azevedo, reconhece que a situação elétrica já era realmente bastante complicada.
Segundo Alex, a desproteção já durava 40 anos e se agravou nas décadas 1980 e 1990 por causa do descaso e da demora de liberação de verbas.
O laudo de 204 foi encaminhado aos Ministérios da Educação, da Cultura e de Ciência e Tecnologia, que prometeram uma verba de 40 milhões de reais para uma reforma no prédio.
Havia um plano para revitalizar o museu? 
Em junho, a direção do museu tinha garantido um investimento de 21 milhões de reais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a revitalização do prédio histórico, incluindo o acervo e espaços de exposição.
Uma parcela do dinheiro seria liberada antes, para viabilizar a retirada de produtos inflamáveis do prédio, como animais mantidos em frascos como álcool e formol. De acordo com o diretor-adjunto, parte desse acervo inflamável já tinha sido retirado, mas outra parte ainda estava no interior do museu. Procurava-se um local adequado para armazenar esse material até que o prédio fosse reformado.
Qual era o repasse público para a instituição?
Apesar do prestígio, a primeira instituição científica do Brasil vinha sofrendo cortes em seu orçamento nos últimos anos e, desde 2014, não recebia a verba de 520 mil reais anuais necessária para sua manutenção.
Naquele ano, foram repassados apenas 427 mil. Nos anos seguintes, 257 mil em 2015, 415 mil em 2016, 246 mil no ano passado e apenas 54 mil até abril deste ano. Sua estrutura apresentava sinais visíveis de má conservação.
O corte no orçamento resultou em exibições canceladas e infestações de cupins, além de um breve período fechado, em 2015, por atraso de pagamentos aos funcionários.
Em maio deste ano, a instituição deveria receber um repasse anual de R$ 550 mil, o museu, contudo, só vinha recebendo 60% do valor.
Por que o museu abriu uma vaquinha virtual?
A situação levou a instituição a abrir uma “vaquinha virtual” para levantar recursos e reabrir uma das salas de acervo, onde ficava Maxakalisaurus (também conhecido como Dino Prata), o primeiro dinossauro de grande porte montado no Brasil, com esqueleto de 13 metros de comprimento.
Sucesso de público quando ficou aberto para visitas, em 2006, o fóssil acabou relegado quando a exibição foi suspensa em 2017, por um ataque de cupins à estrutura de madeira que o sustentava. Dino Prata acabou desmontado e guardado em caixas.
Alunos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da universidade, que atuam no museu, chegaram a criar memes em que mostravam fósseis à espera de verba, ironizando os cortes, quando, na época, a previsão era a de que só se receberia 25% do Orçamento previsto para pesquisa no ano. 
Em fevereiro deste ano, Alexander Kellner, diretor do museu, reclamou ao jornal O Globoda falta de verba para a manutenção do local. "Felizmente essas pragas [morcegos e gambás] não têm aparecido no acervo, mas ainda podem ser vistas nas áreas comuns. O maior problema são as goteiras. Ficamos preocupados quando cai uma tempestade porque só temos verbas para medidas paliativas de prevenção”, disse.
Que peças integravam o acervo do museu? 
Com 20 milhões de peças e documentos, tratava-se do quinto maior museu do mundo em acervo. Suas obras contavam uma parte importante da história antropológica e científica da humanidade. Talvez o exemplo mais emblemático seja o fóssil com mais de 11 mil anos de Luzia, a mulher mais antiga das Américas, cuja descoberta nos anos 1970 reorientou todas as pesquisas sobre a ocupação da região.
O que diz o Minc?
O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, classificou como “imensa tragédia” o incêndio no Museu Nacional do Rio e disse que o dia é de “luto”. Em nota, ele lembrou que o local é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que reúne um “acervo fabuloso”.
“Tenho procurado ajudar a instituição desde que entrei no MinC. O Instituto Brasileiro de Museus realizou diversas ações”, informa a nota, onde lamenta que "aparentemente vai restar pouco ou nada do prédio e do acervo exposto. A reserva técnica não foi atingida. É preciso descobrir a causa e apurar a responsabilidade”.
O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, classificou como “imensa tragédia” o incêndio no Museu Nacional do Rio e disse que o dia é de “luto”. Em nota, ele lembrou que o local é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que reúne um “acervo fabuloso". 

Repercussão Imprensa internacional destaca tragédia no Museu Nacional

Repercussão

Imprensa internacional destaca tragédia no Museu Nacional

por Radio France Internationale — publicado 03/09/2018 11h11, última modificação 03/09/2018 11h13
Sites dos principais jornais europeus destacam o incêndio: "200 anos de história do Brasil foram consumidos pelo fogo", lamenta o jornal Le Monde
Tânia Rego/Agência Brasil
dscv.jpg
Acervo contava com cerca de 20 milhões de itens
incêndio que destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, na noite do domingo 2 teve forte repercussão na Europa. TVs e rádios francesas abordam o incidente, destacando que o local - um dos espaços culturais mais importantes do Brasil - contava com 20 milhões de itens.
Na internet, os sites dos principais jornais europeus e franceses também destacam o incêndio em suas principais notícias. "200 anos de história do Brasil foram consumidos pelo fogo", lamenta o jornal Le Monde. A publicação lembrou que o local, aberto em 1818, foi criado pelo rei João VI e possuía mais de “20 milhões de peças de valor”.
A revista Paris Match publicou as “impressionantes imagens do museu destruído pelo fogo” e destacou a “tragédia para a cultura”. O site do canal de TV France 24 também mostrou as cenas do “impactante” incêndio e lembrou que fósseis de dinossauros também faziam parte da coleção do museu.
Indignação é total
O Le Figaro falou de “consternação” ao publicar o vídeo do incêndio. O jornal Libération destacou a indignação de estudantes, professores e pesquisadores que planejam protestos em frente ao edifício destruído.
Na Espanha, o site do jornal El Pais também comentou a tragédia e lembrou que o incendio não causou vítimas por ter começado após o encerramento das visitas. A publicação espanhola destacou também a falta de conservação e divulgou dados da imprensa brasileira sobre a falta de verba dos últimos quatro anos e dos “100 milhões de euros” que eram necessários para a manutenção.
Para o britânico The Guardian o incêndio é uma perda "incalculável" para uma instituição que tinha 200 anos. O jornal lembrou que o museu abrigava peças egípcias, da civilização greco-romana e fósseis encontrados no Brasil.

'A falta de prestígio da História é histórica no Brasil'

Cultura

Entrevista | Mary del Priore

'A falta de prestígio da História é histórica no Brasil'

por Marina Gama Cubas — publicado 03/09/2018 15h42, última modificação 03/09/2018 17h28
Para historiadora, responsabilidade de incêndio no Museu Nacional é de toda a sociedade brasileira, que não valoriza sua memória
Mauro Pimentel/AFP
museu .jpg
Vista área do Museu nacional, no Rio, após incêndio na noite de domingo, 2
A falta de interesse pela preservação da memória no Brasil, explícita no incêndio que atingiu o Museu Nacional na noite do domingo 2, é uma característica histórica e cultural da sociedade brasileira.
A analise é da historiadora, pesquisadora e professora Mary del Priore, que lista, entre tanto motivos, a falta de investimentos das autoridades públicas na manutenção e valorização do patrimônio, os maus professores de histórias que não transmitem a paixão sobre o passado para seus alunos, os pais que preferem levar seus filhos ao shopping e não a um museu.
A responsabilidade, diz a professora, é de toda a sociedade, que agora se sensibiliza ao ver um patrimônio depredado. "Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa", disse a CartaCapital nesta segunda-feira 3.
"Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica", afirma.
O edifício que abriga o Museu Nacional e mais de 20 milhões de itens, agora carbonizados, foi palco de momentos cruciais na história do País. Para citar apenas dois, nele foi assinada a declaração da Independência do Brasil e, mais tarde, abrigou a reunião dos republicanos que definiram a primeira Constituição, de 1891. O lugar também guardam as histórias do dia-a-dia de dom João VI, Pedro I e Pedro II
Ainda que tamanho descaso esteja tão enraizada na cultura, Del Priore vê espaço para mudanças. Leia a entrevista a seguir.
Mary del Priore
Mary del Priore afirma que o descaso com a memória do País é cultural
CartaCapital: Qual a dimensão do incêndio do Museu Nacional na sociedade?Mary Del Priori: Venho batendo muito tempo nessa falta de total interesse pela preservação da memória, que não é uma característica do Rio, é do Brasil todo. A gente está cansado de saber que em Minas Gerais, por exemplo, destroem casarões do século XVIII para fazer estacionamento, fazer supermercado. Mas no Rio de Janeiro eu diria que isso é mais grave, porque obviamente temos uma política feita por canalhas, por ladrões. Se você imaginar que foi gasto fortunas para fazer o Museu do Amanhã quando havia necessidade de restaurar uma série de salas do Museu Nacional, aí você tem uma dimensão de que a preservação dos bens privados é sempre melhor do que dos públicos.
Nós tivemos antecedentes: o incêndio do MAM [em 1978], que ficou na história; o incêndio da Capela Imperial, que não faz tanto tempo assim. Além disso, temos outros edifícios de patrimônio, como a Santa Casa de Misericórdia, que é um dos edifícios mais antigos da cidade e está totalmente abandonado. A primeira igreja positivista do Brasil, que está sem telhado... Enfim, é a história do descaso não só das autoridades que preferem meter a mão do bolso para roubar, mas sobretudo do cidadão que passa em frente a um monumento, vê o monumento pichado e não se sensibiliza; de roubarem o busto de bronze da praça e não se sensibilizar; de pais que levam os filhos para o shopping no final de semana em vez de fazer uma visita ao Museu. De professores de História - e falo como professora que eu sou - que não transmitem na sala de aula a paixão pela História, pelo passado, pela memória. Tudo isso faz um combustível bastante ruim. Não temos como alimentar a nossa paixão pelo passado.
CC: Qual era a importância histórica do edifício que abrigava o Museu Nacional? 
MP: O caso do Museu Nacional é dramático porque ele é um lugar de memória da história do Império brasileiro. Ele é dado como presente do dia 1º de janeiro de 1819 pelo comerciante Elias Antonio Lopes a dom João, que na época é regente. Mas ele não faz isso gratuitamente. Antonio Lopes, depois, vai receber uma série de títulos: se torna moço-fidalgo da Casa Real, alcaide-mor, também recebe dinheiro.
A partir daí esse espaço vai ter uma função importantíssima. É ali que dom João VI vai receber seus súditos, vai se aproximar de seus súditos brasileiros. Eles vão lá no beija-mão, pedir favores, conhecer aquele que depois será o futuro monarca quando ele ainda é regente. As primeiras transformações arquitetônicas vão sendo feitas também para o casamento do dom Pedro com a Leopoldina, que vai ter nove filhos. É o local onde ela morreu. Na janela desse palácio que dom Pedro vai olhar a casa da marquesa de Santos e vigiar sua amante. É nessa casa que ele vai mandar construir um chafariz enorme, que fosse visto da sala de jantar e também de seus aposentos.
As maiores reformas são feitas em 1866 pelo dom Pedro II. Ele vai reformar os jardins e fazer uma alameda de sapucaia. Também vai repartir o lago em dois para dar um acesso mais imperial, fazendo uma estrada para os políticos que agora se reúnem com o imperador, na casa dele. É nesses jardins que brincaram a princesa Isabel e a princesa Leopoldina, no mesmo lugar que brincaram suas tias, a princesa Francisca, as princesas Paula e Januaria, catando conchas e fazendo, com cacos de louça, a ornamentação do chamado Jardins das Princesas.
Por tudo isso, é um espaço que não só tem muito da grande história - porque ali que vai ser assinada a declaração da Independência e depois, mais tarde, a reunião dos republicanos para definirem nossa primeira Constituição de 1891 -, mas também é o lugar da pequena história. Isso que é bacana.
Com o incêndio, também perdemos uma loucura de patrimônio. Inclusive o patrimônio que a Dona Tereza Cristina, quando casou com o imperador Dom Pedro II, trouxe que foram os famosos afrescos do Templo de Ísis, que são comentados até por Lord Byron em sua poesia.
CCÉ possível identificar os responsáveis neste momento?MP: Acho fácil a gente achar culpados. Espero realmente um laudo para poder dizer o que aconteceu. Dizer que a culpa é do governo federal e que a Cultura sangra no Brasil é fácil, porque não há dinheiro nem para a Saúde, nem para a Segurança. Para trazer dinheiro para a Cultura é preciso fazer reformas, e ninguém quer fazer reformas.
Atribuir [a culpa] só as autoridades é muito fácil. Eu conheço muito diretores de museus, todos eles se matam de trabalhar para conseguir verbas. Há um desinteresse profundo da sociedade civil, mesmo das pessoas que podem, e estou falando aqui nos empresários... Tirando a Fundação Roberto Marinho e o Carlos Lessa, quando presidiu o BNDES, a gente nunca viu dinheiro ser dado para patrimônio.
Nos países civilizados você pode contribuir para o museu com um centavo se você quiser para restauração de um quadro, para a restauração de uma sala. Aqui no Brasil falta a participação da comunidade, da vizinhança, das organizações não-governamentais e digo: dos professores, dos historiadores de todos nós, do cidadão comum.
CC: A culpa é de todos?MP: Eu acho. Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa.
CC: O Museu está sob os cuidados da esfera federalMP: O Ministério da Cultura não tem dinheiro e só terá dinheiro se forem feitas as reformas neste País. E antes da Cultura, vem a saúde dos brasileiros que é muito mais importante, obviamente também a questão da segurança. Para nós termos recursos do governo federal é preciso gastar...
CC: Ainda que não se saiba as causas que provocaram o incêndio, era um caso de fazer como o que foi feito no Museu do Ipiranga, em São Paulo? Fechar as portas para reforma?MP: Sim. E até de chamar a comunidade para participar da restauração com doações, com movimentos. Sem dúvida, teria sido uma solução. A questão toda é que o Museu Nacional recebe uma infinidade. Ele tem toda parte de ciências naturais dentro do museu e ele tem milhares de pesquisadores que fazem tese em suas dependências.
CC: Você fez críticas ao ensino de História na escolas. O que poderia ser feito para melhorar?MP: O professor tem que transmitir compaixão à matéria que ele está lecionando. A História é uma matéria que necessita uma forma narrativa, um entusiasmo, passeios e visitas a museus e locais históricos. É preciso transmitir esse amor pela História aos alunos.
Eu digo sempre: o mau professor de história vai fazer um cidadão descomprometido, um cidadão inconsciente. É preciso que o professor de história tenha a consciência também do papel que ele tem na transmissão do conhecimento. Cabe a cada um ser criativo. Vamos inventar maneiras de transmitir o conhecimento histórico de forma séria, porém apaixonado.
CC: Acredita que o incêndio pode ser um divisor de águas nessas questões?MP: Não acho que seja um divisor de águas. O brasileiro precisa ter mais consideração pelo seu passado, mais respeito pelo seu passado. Infelizmente a televisão transformam os personagens históricos em caricatura, isso também não ajuda. Mas eu acho que isso tem que vir realmente de baixo, não de cima. Porque só de cima e com dinheiro não vai resolver o problema, os museus vão continuar vazios. É preciso que as pessoas entendam que é indo ao museu que elas vão adquirir a cidadania, a memória, a história, o passado, valorizar o seu país. É muito importante que isso venha de baixo.
CC: A que se deve essa desvalorização da memória no País?MP: Sempre houve [essa desvalorização]. Nos anos 40, Gilberto Freyre e José Mariano fizeram uma campanha enorme para que houvesse a preservação da memória no momento em estava ocorrendo uma grande renovação em muitos bairros das grandes capitais brasileiras. Naquela ocasião começava-se a substituir bairros inteiros de casas e moradias antigas. Muitos bairros coloniais no Rio de Janeiro, Salvador e Recife foram sendo transformados em bairros de cimento, em um edifício colado ao outro.
Eu, particularmente, acho que o brasileiro gosta do novo pelo novo. Eles querem sempre o novo. Então o velho tem que ser banido, tem que ser jogado fora, tem que ser destruído. Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica.
CC: É um aspecto cultura?MP: Sim, e econômico. O Brasil sempre foi um país paupérrimo e a essas de classe subalterna, entre ter uma casa antiga e que tivesse que ser preservada e dava muito trabalho, e uma casa nova, preferiam a última opção. A gente pode pensar nisso, no conforto, na chegada da água, da eletricidade e nessas transformações tecnológicas todas que fizeram com que essas pessoas que não tinham educação privilegiar o novo pelo novo.
CC: É possível mudar essa característica cultural do brasileiro?MP: Todos nós somos criaturas de cultura, homens e mulheres, e a cultura é uma coisa transformável, não é fixa. Então eu acredito que é possível transformar com muita educação.

FILOSOFIA INDÍGENA Contra "desenvolvimento" elitista, equatoriano defende "Bem Viver"

FILOSOFIA INDÍGENA

Contra "desenvolvimento" elitista, equatoriano defende "Bem Viver"

Economista equatoriano fala sobre o conceito que nasce no seio das comunidades tradicionais no mundo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
,
Alberto Acosta foi ministro de Minas e Energia do Equador e participou do processo de constituinte do país / Fotos: Divulgação
Em passagem pelo Brasil na última semana, Alberto Acosta – economista, professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e espécie de "porta-voz" da filosofia do "Bem Viver" –, falou à reportagem do Brasil de Fato sobre a construção desse novo matiz de pensamento político, que compreende todas as formas de vida sob o mesmo conjunto de direitos fundamentais. 
Em 2016, Acosta lançou o livro "O Bem Viver - Uma oportunidade para imaginar outros mundos", no qual faz duras críticas à ideia de "desenvolvimento" criada pelas elites burguesas e perseguida inclusive por movimentos que se consideram progressistas ou de esquerda, e apresenta o conceito do "Bem Viver" como única alternativa possível para a superação do neoliberalismo. Para o autor, "seguimos presos à ideia do desenvolvimento".
Acosta presidiu o processo Constituinte do Equador que incluiu o conceito do Bem Viver na Constituição do país. Nascido em berço andino, o "Bem Viver" propõe o combate ao capitalismo e suas relações de opressão a partir de outro modelo de sociedade, com base comunitária.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato – Professor, no seu livro podemos perceber que o Bem Viver é um conceito em construção e em disputa. Pode falar sobre isso?
Alberto Acosta – É construção porque podemos fazer algo novo, mas simultaneamente podemos reconstruir e recuperar todo esse conhecimento que vem de uma memória antiga. Porque as ideias do Bem Viver não aparecem recentemente. Não são ideias que foram construídas na academia, nas universidades ou partidos políticos, são ideias e valores, experiências e muitas práticas existentes em muitas comunidades.
Quando falamos em Bem Viver nos remetemos a origens andinas. Porém, no seu livro, o senhor fala sobre 'correspondência' com outras culturas como a guarani e a africana. Como é isso?
Naturalmente o que mais conhecemos são as origens da indigeneidade amazônica e andina, mas há outras formas de ancestralidade em diversas partes do planeta. O Bem Viver também tem origens africanas. Se você estudar um pouco mais o movimento negro e o mundo negro vai encontrar elementos do Bem Viver. Nós encontramos por volta de 2004, mas o Bem viver já estava no mundo indígena. Encontramos isso [Bem Viver] buscando alternativas ao neoliberalismo.
Quando se fala em comunidades tradicionais e seu legado, qual cuidado é necessário termos?
Não podemos idealizar o mundo indígena, nem tudo que vem dele é necessariamente transformador. Os mundos indígena e africano têm mais de 500 anos de conquista e colonização que não terminou. A colonização segue presente na República, não acabou quando os portugueses e espanhóis foram embora. No mundo afro e indígena, isso [a ideia do Bem Viver] está se perdendo rapidamente, por conta do individualismo, alimentado pelo produtivismo, consumismos, o afã de lucro que vai destruindo as raízes comunitárias.
O senhor apresenta alguns problemas estruturais da sociedade como o racismo como manifestação dos resultados dessa colonização, como isso se relaciona com a sociedade neoliberal?
A matriz do capitalismo, de onde surge o capitalismo, é o racismo e o patriarcado. Essas são as raízes. Não se trata apenas de acabar com a exploração dos seres humanos e da natureza, temos que terminar com o patriarcado e colonialidade. Não há nenhuma ideia com tanta potência como a do racismo, a da raça, para dominar o mundo.
Além da universalização dos valores eurocêntricos, a ideia de branqueamento faz parte da deterioração de outros valores civilizatórios, como os indígenas e africanos?
Me parece que é fundamental uma aproximação do processo de branqueamento existente na sociedade, que se manifesta em múltiplos mecanismos. O que significa branquear a sociedade, é negar os valores das culturas e línguas indígenas e afro. E esse é um ponto forte, por isso é uma ferramenta de dominação, as raças, a ideia de raça. É a ferramenta de dominação mais poderosa na história da humanidade. Os brancos justificavam os processos de dominação não só na América, mas em outras partes, por meio da sua supremacia branca. Viam como normal matar africanos depois que mataram milhões de indígenas.
A relação entre o homem e a natureza ganha outra dimensão com o Bem Viver. O senhor poderia falar sobre esse ponto?
Para as pessoas do mundo indígena, a natureza não existe como a vemos. Nós vemos a natureza fora e distante. Nos colocamos à margem da natureza a partir de uma visão judaico-cristã de que a natureza está aí para ser dominada. Deus, quando expulsou Adão e Eva do paraíso, foi para que se multiplicassem e dominassem a natureza. No mundo indígena não há isso, os indígenas entendem que são natureza. Não há separação entre natureza aqui e os seres humanos lá, nós somos a natureza.
O discurso de defesa da natureza, embora pertinente, é muitas vezes corrompido por não pontuar as questões de classe embutidas ou por ser relativizado pelos próprios governos…
Seguimos presos à ideia do desenvolvimento. Não podemos dizer para o povo proteger a natureza tolerando a miséria, a pobreza. Se sai em defesa da natureza, puramente pela natureza, podemos cair num ecologismo que pode ser imperialista. Tenho visto e ouvido propostas que os países ricos têm que proteger a Amazônia, porque é boa para todos. Não senhores, nós [países empobrecidos] que vamos proteger a natureza, mas gerando condições para que haja justiça social. Não vai haver justiça ecológica sem justiça social e nem justiça social sem justiça ecológica. Tudo precisa vir junto, direitos humanos e direitos da natureza, que não são os mesmo, mas são complementares, os dois se potencializam.
Aqui no Brasil está cada vez mais forte o debate do quanto as esquerdas precisam incorporar pautas diversas. Como essa discussão dialoga com o Bem Viver?
Uma esquerda que não vê o racismo é uma esquerda colonial. Uma esquerda que ignora o feminismo é uma esquerda patriarcal. Uma esquerda que ignora a ecologia é marrom [termo usado para designar governos progressistas que defendem uma pauta desenvolvimentista e ignora impactos socioambientais]. A esquerda tem que ser simultaneamente socialista, feminista, ecologista e decolonial. Eu creio que isso é fundamental para as esquerdas: aprender a recuperar as diversidades.
O seu livro apresenta como um dos desafios do Bem Viver saber construí-lo dentro das cidades, aliado à lógica urbana. Essa tarefa é bem complexa, tendo em vista que as cidades estão cada vez potencializando as individualidades e não o comunitário…
Creio que isso seja uma grande tarefa, identificar o comunitário, a vida em comunidade. Outra prática muito importante é como se tomam decisões nas comunidades. Claro que não é fácil. Não se pode pensar em uma participação de todos os habitantes de São Paulo em um teatro tomando decisões, mas sim, podemos pensar em nível mais local, as comunidades tomando decisões. Esse é um ponto chave e o segundo é sobre a relação com a natureza, isso é fundamental. No campo é relativamente mais fácil, o comunitário no campo está mais presentes, nas cidades não.
Hoje vivemos um momento de queda dos governos progressistas, e no Brasil, um golpe que retira cada vez mais direitos e extermina o saldo positivo deixado nas gestões democráticas anteriores. No entanto, houve uma dignidade que foi fragilmente conquistada pela via do consumo, como vê isso?
Políticas sociais e de transferência de recursos, como o Fome Zero, que combateu a fome e reduziu a pobreza de 30 milhões de pessoas, são muito boas, mas não afetaram os mecanismos de acumulação de capital. Com muito dinheiro, pelos alto preços da matéria-prima, dinheiro terminou com os ricos. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres deixaram de ser tão pobres.
O senhor está dizendo que embora tenha caído a pobreza, a concentração de riqueza também subiu, ou seja, não se afetou a modalidade econômica?
Se vermos o Produto Interno Bruto do Brasil antes do governo do PT e agora, veremos que a indústria, que tem uma participação importante, tem menos agora, porque aumentou a venda de matérias-primas. Então isso explica porque para muita gente foi bom, mas para os ricos foi muito melhor. Porque não se afetou a lógica de acumulação.
Com esse cenário pós-golpe, onde as forças progressistas tentam se rearticular, está mais favorável falar em Bem Viver?
Lamentavelmente não, porque estão ganhando forças os governos neoliberais.
Edição: Diego Sartorato

INCÊNDIO Pesquisadores do Museu Nacional e museólogos temem pelo futuro da pesquisa no país


INCÊNDIO

Pesquisadores do Museu Nacional e museólogos temem pelo futuro da pesquisa no país

Especialistas denunciam desmontes e negligência pública que levou ao incêndio do museu no domingo (2)

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
,
Bombeiros tentam apagar o incêndio que atingiu o Museu Nacional no domingo (2) / Tânia Rego/Agência Brasil
Décadas de austeridade sobre o orçamento do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, instituição científica mais antiga do país, tiveram como consequência o incêndio que destruiu seu acervo, o maior de história natural e antropologia da América Latina, neste domingo (2). Indignados, pesquisadores e museólogos denunciam a negligência do poder público e temem pelo futuro da ciência e pesquisa no país.
Desde 2013, o valor repassado à instituição, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vem caindo consistentemente. De já ínfimos R$ 531 mil em 2013, o museu terminou 2017 com o repasse de R$ 346 mil e recebeu, até abril deste ano, apenas R$ 54 mil. De acordo com a direção do Museu, que chegou a fechar as portas em 2016 por incapacidade de pagar seus trabalhadores terceirizados, as verbas eram apenas suficientes para cumprir medidas paliativas.
A direção destacou também que o Museu esperava há três anos a efetivação de um contrato de restauração de R$ 21,7 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), aprovado finalmente em abril deste ano, quando a instituição completou a efeméride de 200 anos. O Museu receberia em outubro a primeira parcela do contrato, um total de R$ 3 milhões. Entre as exigências do contrato, estava a implantação de um projeto de combate a incêndios. Para a antropóloga Adriana Facina, pesquisadora e professora do Museu, a tragédia era anunciada.
"O que acontece é que com as verbas sempre insuficientes as administrações apenas atendiam o que era mais urgente, um teto caindo, um vazamento, coisas mais imediatas. Para essa questão do incêndio necessitava uma mudança estrutural, e essa verba nunca foi conquistada. Não só os trabalhadores, mas o próprio público percebia. A manutenção do Museu não é rentável e a gente é conduzido pelos interesses do capital rentista. Isso não é transformável em dinheiro, em nada que interesse a eles. Então realmente não tem incentivo", pontuou.
O Museu Nacional chegou a realizar inclusive um financiamento coletivo virtual para possibilitar a reabertura daquela que era uma das salas mais importantes de seu acervo, onde ficava a instalação do dinossauro Dino Prata. Para o pesquisador Antônio Carlos de Souza Lima, desde 1975 integrante do Programa de Pós-graduação em Antropologia Visual do Museu Nacional, foram os próprios técnicos do Museu que seguraram seu funcionamento por tanto tempo.
"Nós, técnicos, demos o sangue por isso aqui. Fomos nós que mantivemos isso, levantando financiamento, buscando recursos, nada disso veio de graça. Nada disso veio orçamentarizado dentro do orçamento da UFRJ. Os reitores sequer receberam esse recurso. Isso todo nós conseguimos produzindo, trabalhando. São amarras burocráticas, ausência de financiamento, confusão entre órgãos públicos. Eu vi muitas tentativas de muitas direções e vi sempre as pessoas planejarem, criarem, proporem, e isso não dar em nada, por cair justamente. Para mim, que estou aqui há 38 anos, é mais da metade da minha vida que foi embora", afirmou.
De acordo com o museólogo André Andion Angulo, técnico do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2014, os servidores da cultura realizaram uma greve que tinha como pauta a questão da precariedade e segurança nos aparelhos públicos de entretenimento e cultura, no contexto dos megaeventos que foram hospedados no país, e na exigência de que esses aparelhos continuassem abertos para suportar o público visitante, independentemente das condições necessárias. Ele afirma que a mobilização levou a um levantamento alarmante: a maioria dos museus federais do país pode estar em risco.
"Tivemos a greve, e ela foi judicializada, decretada ilegal pelo Supremo Tribunal de Justiça. Na época ganhamos no mérito e conseguimos configurar que os museus do Ibram, com exceção de dois, não têm alvará de funcionamento nem licenciamento do Corpo de Bombeiros. Estou falando de 28 dos maiores museus do Brasil: o Museu da República, o Belas Artes, o Museu Imperial, o Villa Lobos. O Ibram criou um plano de gestão de riscos e isso acabou sendo engavetado", denunciou.  
Desmontes
Para muitos especialistas, o incêndio no Museu Nacional representa um ápice do contexto de desmonte da cultura, da pesquisa, e da ciência brasileira, que vem sendo colocado em prática principalmente após o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) em 2016. Uma das primeiras ações do presidente Michel Temer (MDB), por exemplo, foi o fechamento do Ministério da Cultura (MinC), amplamente criticado em uma grande mobilização nacional.
Logo em dezembro de 2016, a aprovação da Emenda Constitucional 95 congelou os investimentos públicos do país pelos próximos 20 anos. Já em 2017, o orçamento para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foi reduzido a R$ 2,8 bilhões, menos que um terço do valor destinado à pasta em 2010 e menos da metade do valor destinado em 2005.
Há exatamente um mês, o conselho superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal e Nível Superior (Capes), principal instituição responsável pela bolsa de pesquisadores no país, afirmou que 200 mil bolsas podem ser suspensas a partir de agosto de 2019, entre as quais 93 mil de pós-graduação, caso o orçamento para o próximo ano não seja discutido.
Na opinião de André, o incêndio no Museu Nacional foi praticamente um retrato dessa situação. "As ciências surgem no âmbito dos museus no país, e a gente ter a primeira instituição científica e museológica do país ardendo em chamas ontem é praticamente um retrato do que está sendo legado ao país em relação à pesquisa, à ciência, à tecnologia e à educação, e por conseguinte, à cultura. Perdemos 200 anos de processos científicos e museológicos, mas os acervos mais antigos ali tinham 12 mil anos. Parte da história da humanidade foi extinta ontem naquele incêndio", destacou.
Segundo João Brant, ex-Secretário-Executivo do Ministério da Cultura no governo Dilma, não há projeto a longo prazo por trás dos cortes nos investimentos que o país vem sofrendo.
"Os cabeças de planilha que acham que cortando o gasto público o Brasil recupera a capacidade econômica deixam de reconhecer, justamente, todos os efeitos negativos imediatos e os de longo prazo deste corte de recurso. Nós perdemos acervos de uma forma que é completamente irrecuperável. Quando a gente fala de corte de gasto, por exemplo, todos os museus têm um mínimo de manutenção que se você corta não existe de onde tirar", afirmou.
Na opinião de Adriana Facina, a tendência é que se agrave cada vez mais a situação das pesquisa no país.
"A gente tem uma elite que se encanta com os museus em Paris e não dá a mínima para o que tem aqui. A falta de investimentos é histórica e vem de antes da PEC. Nós vamos sentir essa PEC daqui a um tempo e a tendência é se agravar, o impacto na saúde, na educação e na ciência serão sentidos em breve. A pesquisa brasileira já faz muito com muito pouco, a pesquisa brasileira é referência internacionalmente em diversas áreas, com condições muito inferiores de recursos e estruturas que existem em outros países com nível parecido de produção científica. Aprofundar essa precariedade é matar essa produção de conhecimento. É o desmonte total", concluiu.
A UFRJ publicou, na tarde desta segunda-feira (3), uma nota pedindo ao Governo Federal uma mudança no sistema de financiamento das universidades federais do país. "A matriz orçamentária existente no Ministério da Educação não aloca nenhum recursos para os prédios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e para os museus universitários. Esse momento devastador deve ser um alerta para as forças democráticas do país, no sentido de preservação do patrimônio cultural da nação", afirmou o texto. 
Em nota pública divulgada também nesta segunda-feira, o Ministério Público Federal (MPF) informou que já requisitou a instauração de um inquérito policial para apurar as causas e responsabilidades pelo dano causado ao Museu Nacional e seu acervo. Na tarde desta segunda-feira (3), ocorreu um grande ato na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em homenagem ao Museu. 
Edição: Diego Sartorato