sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Evangelho segundo Bolsonaro

O Evangelho segundo Bolsonaro. Por Ricardo Alcântara

 
Jair Bolsonaro. Foto: APU GOMES/AFP
Publicado originalmente no site O Povo
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POR RICARDO ALCÂNTARA, escritor e publicitário
17:1 O erro da ditadura foi torturar e não matar; 17:2 Não vou lhe estuprar porque você não merece; 17:3 Se eu vir homossexuais se beijando na rua, dou porrada; 17:4 Mulheres devem ganhar menos porque engravidam; 17:5 Eu sonego tudo que for possível; 17:6 Nem para procriar [quilombola] ele serve mais; 17:7 O dinheiro do auxílio-moradia, eu usava para comer gente. 17:8 Eu sou favorável à tortura e o povo também; 17:9 Eu não entraria num avião pilotado por um cotista; 17:10 Através do voto não se muda nada neste país; 17:11 Só muda quando a gente terminar o serviço que a ditadura não fez; 17:12 Tem que matar pelo menos uns 30 mil; 17:13 A polícia tem que ter imunidade para atirar. Se morrerem inocentes, que morra; 17:14 Tive quatro filhos homens e na quinta dei uma fraquejada: nasceu uma mulher; 17:15 Fui o único deputado que votou contra direitos trabalhistas para empregadas domésticas; 17:16 Tem mulher que é competente, admito; 17:17 Não aceito outro resultado que não a minha eleição; 17:18 O trabalhador vai ter que escolher: o emprego ou os direitos; 17:19 Gostar de homossexual, ninguém gosta. A gente suporta; 17:20 O Psol é coisa de viado: 17:21 Eu sou favorável à pena de morte; 17:22 Índio que vier falar em reservas que vá comer capim; 17:23 Tem que arrebentar o cara até entregar todo mundo; 17:24 Meninos adotados por gays serão homossexuais; 17:25 Meus filhos foram bem educados e não correm o risco de casar com uma negra; 17:26 Sou preconceituoso com muito orgulho; 17:27 Eu seria incapaz de amar um filho homossexual. Preferia que morresse num acidente; 17:28 Sou capitão do Exército e fui treinado para matar; 17:29 Quem procura osso [de desaparecidos políticos] é cachorro; 17:30 Eles obedecem a nossa lei ou serão todos banidos do nosso país; 17:31 Lula vai apodrecer na cadeia; 17:32 A gente tem que tirar o governo do cangote do empresário; 17:33 Eu sou cristão!
Mas, no evangelho verdadeiro, está escrito (reproduzo como lembro) que, tendo naquele dia lhe perguntado sobre a tradição de jejuar nos dias reservados, Jesus falou e disse: “O mal é o que sai da boca do homem” e, aos seus discípulos, em outro momento os alertou: “A boca fala do que o coração está cheio”.

A censura às universidades quer produzir medo, mas a democracia prevalecerá sobre o fascismo

A censura às universidades quer produzir medo, mas a democracia prevalecerá sobre o fascismo. Por Kiko Nogueira

 
Resistência na Faculdade de Direito da UFPR
A censura às universidades busca produzir, na melhor das hipóteses, medo e, na pior, um cadáver. Um novo Cancelier.
O repúdio é necessário. A solidariedade a estudantes e professores é fundamental.
Nos últimos dias, ao menos 35 instituições foram alvos de operações da Justiça Eleitoral para fiscalizar suposta prática de propaganda.
Houve ações em eventos com temas como fascismo, democracia e ditadura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul.
A faixa com os dizeres “Direito UFF Antifascista” teve de ser retirada da escola de direito da UFF, em Niterói.
Na Paraíba, ocorreu uma inspeção do TRE em aulas da Universidade Federal de Campina Grande e apreensão de material. 
É um ataque frontal à liberdade de expressão e à autonomia universitária. 
Noves fora o fato de que ele Jair Bolsonaro veste definitivamente a carapuça de fascista ao buscar reprimir. Um aperitivo do que pode vir.
O Ministério Público Federal se posicionou de maneira firme, declarando que medidas para impedir a livre manifestação são incompatíveis com o regime constitucional.
“É lamentável que, em uma disputa tão marcada pela violência física e simbólica, pelo engano e pela falsificação de fatos, o ataque do sistema de justiça se dirija exatamente para o campo das ideias”, diz a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.
‘Polícia só deve entrar em universidade se for para estudar’, apontou o ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Para seu colega Marco Aurélio Mello, a interferência é “incabível”. A reação é tardia? Pode ser. Mas antes tarde que mais tarde.
Na sexta, dia 26, um corpo foi encontrado dentro de um carro com marcas de tiro na Faculdade de Direito da UFRJ. A vítima estava no banco do carona. 
Uma postagem do centro acadêmico registrava a presença do Sendero branco durante uma aula pública.
O homem não era ligado à faculdade — mas não é esse o ponto. O recado dos bandidos é que pode vir a ser.
A polícia está apurando o caso, mas é evidente que não vai dar em nada.
O bolsonarismo saiu do armário e seus capangas estão agindo à luz do dia.
Em nome de Luiz Carlos Cancelier e dos alunos e mestres brasileiros, é hora de resistir.
Em nome de nós e de nossos filhos, o pensamento livre e a democracia vão prevalecer.

A trajetória política de Fernando Haddad

Eleições 2018

A trajetória política de Fernando Haddad

por Deutsche Welle — publicado 26/10/2018 01h05, última modificação 25/10/2018 13h32
Ex-prefeito de São Paulo e ministro da Educação de Lula e Dilma é o candidato do PT à Presidência da República. Confira no que ele se destacou e em quais polêmicas se envolveu
Nelson Almeida/AFP
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Haddad herdou a rejeição ao PT e a Lula, além da pecha de 'poste' do ex-presidente
Por Hyury Potter
Fernando Haddad, um paulista de 55 anos, se filiou ao PT aos 20 anos, em 1983, ainda nos tempos de estudante de Direito da USP, onde se graduou e depois virou e mestre e doutor, chegando a ser professor. No entanto, a carreira política só começou oficialmente em 2001, quando passou a integrar a equipe de Marta Suplicy (PT), então prefeita de São Paulo. A partir daí, a ascensão dentro dos quadros do partido foi meteórica.
Em dois anos foi para Brasília como assessor especial de Guido Mantega no Ministério do Planejamento. Em seguida virou secretário-executivo de Tarso Genro no Ministério da Educação. Durante o escândalo do mensalão, em 2005, Genro deixou a pasta para ser presidente do PT, e Haddad assumiu o MEC, de onde só sairia para ser candidato à Prefeitura de São Paulo.
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Foi como Ministro da Educação que Haddad foi "apresentado" ao país pelo PT. Ele passou seis anos na pasta e teve que enfrentar várias polêmicas. A primeira foi com a ampliação do Enem, que passou a permitir o ingresso direto a várias universidades. Denúncias de provas vendidas em 2009, erro de impressão em 2010, divulgação antecipada de questões num colégio do Ceará em 2011 e ainda redações com receita de miojo tirando nota máxima em 2012 foram algumas das polêmicas com a organização da prova.
Outra polêmica que Haddad teve que enfrentar à frente do MEC, e que rende discussão até hoje, envolve o "kit anti-homofobia" produzido em 2011 por meio de um convênio firmado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O material custou R$ 1,9 milhão e incluía vídeos sobre gênero e sexualidade e boletins informativos, mas não chegou a ser distribuídos nas escolas. O kit, batizado pela ala conservadora do Congresso de "kit gay", foi cancelado pela então presidente Dilma Rousseff após diversas críticas, mas os vídeos vazaram na internet.
O material voltou a cena nesta eleição, quando o candidato Jair Bolsonaro (PSL) mostrou numa entrevista ao Jornal Nacional o livro Aparelho Sexual e Cia. e disse que a obra faria parte do "kit gay" que seria distribuído nas escolas.
No entanto, o MEC emitiu nota informando que nunca produziu ou distribuiu a obra, que também não fazia parte do projeto do kit anti-homofobia. Mesmo assim, Bolsonaro continuou divulgando isso em vídeos no Facebook e no YouTube. No dia 16 de outubro, o TSE determinou que a campanha do candidato do PSL retirasse as críticas do ar, que classificou de fake news.
Com o apoio de Lula, Haddad saiu do MEC para disputar a Prefeitura de São Paulo em 2012. Ele venceu o tucano José Serra no segundo turno. Cidade mais populosa do país, São Paulo sofre com a falta de planejamento urbano e mobilidade. O petista apostou em ciclovias e na redução da velocidade em diversas regiões da cidade, mas as medidas encontraram resistência em grande parte dos moradores.
As polêmicas e a crise de imagem do PT com a Operação Lava Jato prejudicaram a tentativa de reeleição de Haddad em 2016, quando ele perdeu ainda no primeiro turno para o tucano João Dória.
A derrota em São Paulo não impediu que ele fosse alçado por Lula a vice na chapa petista em agosto deste ano. No entanto, com o ex-presidente preso e condenado em segunda instância, portanto enquadrado na Lei da Ficha Limpa, analistas davam como certo que o "plano B" Haddad assumiria a chapa, com Manuela D'Ávila (PCdoB) como vice.
Isso ocorreu em 11 de setembro e Haddad surfou na onda lulista para subir rapidamente nas pesquisas e ir ao segundo turno contra Bolsonaro. Porém, ele herdou também a grande rejeição ao PT e ao ex-presidente, além da pecha de "poste" de Lula.
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A trajetória política de Jair Bolsonaro

Eleições 2018

A trajetória política de Jair Bolsonaro

por Deutsche Welle — publicado 26/10/2018 01h01, última modificação 25/10/2018 13h06
Ex-vereador no Rio e deputado federal por quase 30 anos lidera as pesquisas para o segundo turno. Confira no que ele se destacou em sua carreira política e em quais polêmicas se envolveu
Mauro Pimentel/AFP
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Outro elemento da política 'velha' em Bolsonaro é o apoio sem fundamentação ideológica a outros políticos
Por Hyury Potter
O capitão Jair Messias Bolsonaro (PSL), de 63 anos, entrou para a reserva do Exército em 1989 para ingressar na política como vereador na cidade do Rio de Janeiro. Dois anos depois, ele se elegeu para a Câmara dos Deputados, onde ficou até se candidatar à Presidência da República, este ano.
São, portanto, quase 30 anos de vida política, período em que Bolsonaro construiu, no Congresso, uma imagem de defensor da caserna. Fora dali, ele ficou famoso sobretudo pelas polêmicas em que se envolveu, relacionadas aos direitos humanos, mas também aos governos petistas.
O discurso de que vai acabar com privilégios na política não combina exatamente com o seu histórico parlamentar. Em 2010, o capitão votou pelo aumento salarial de 61% dos deputados, por exemplo.
Ele também não ficou famoso por algum projeto de lei que tenha apresentado e lutado pela aprovação. Dos 172 que apresentou em 26 anos de vida parlamentar, nenhum teve destaque e apenas dois foram aprovados. Entre os projetos apresentados está um para incluir o ex-deputado Enéas Carneiro na relação dos heróis da pátria.
Bolsonaro começou a ganhar notoriedade na década de 1980, ainda como capitão do Exército, quando escreveu um artigo para a revista Veja no qual reclamava do soldo dos militares. O texto lhe rendeu uma punição por indisciplina.
Eleito vereador e depois deputado federal, manteve o discurso de defensor dos militares, com vários pronunciamentos pedindo aumento salarial e mais investimentos nas Forças Armadas. O maior número dos projetos que apresentou na Câmara, 53, atendem a interesses dos militares. Outra área com grande número de projetos apresentados é a segurança pública, com 44. Mas nenhum foi aprovado.
O homem que hoje se apresenta como "o novo" na política nacional teve, na verdade, um comportamento já "velho" e bem comum na trajetória de vários políticos brasileiros: ele passou por inúmeros partidos (PPB, PDC, PPR, PFL, PTB, PP e PSC) até desembarcar no PSL, no começo de 2018.
Outro elemento da política "velha" em Bolsonaro é o apoio sem fundamentação ideológica a outros políticos. Bolsonaro, que hoje ataca o PT com toda a força, já discursou a favor de Lula, por exemplo. Em 2002, ele subiu à tribuna da Câmara para manifestar apoio aos então candidatos à Presidência Ciro Gomes e Luiz Inácio Lula da Silva e se posicionar contra José Serra, que era apoiado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
"O governo Fernando Henrique Cardoso, ao longo de oito anos, não fez outra coisa senão entregar a soberania nacional. Por isso, estamos empenhados, de corpo e alma, na eleição do ex-governador Ciro Gomes para a Presidência da República. Se ele não chegar ao segundo turno, apoiaremos Lula, porque temos certeza de que o candidato do governo, José Serra, dará continuidade àquela política", falou o ex-militar em 28 de agosto de 2002.
O que se manteve constante no militar foi o discurso contra as políticas de gênero, o deboche dos direitos das mulheres e a defesa da ditadura militar, e em alguns momentos até mesmo a defesa pública da tortura. Nessa lista estão seu ataque à deputada Maria do Rosário, a quem ele disse que "jamais estupraria porque você não merece"; declarações sobre homossexuais ("se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater"); e sua homenagem a Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador durante a ditadura militar.
Já o discurso antipetista ganhou força mesmo nos últimos anos do governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro votou a favor do impeachment e depois aproveitou o impacto das revelações da Operação Lava Jato para viajar pelo país e se apresentar como um político que combate a corrupção e defende o conservadorismo brasileiro.
Ele também reforçou as bandeiras religiosas e de defesa da família e do porte de armas pela população. Bolsonaro também se declarou a favor da licença para matar a policiais. "Vou trabalhar para aprovar o excludente de ilicitude, para que os policiais possam atirar em quem atira neles", declarou.
Líder com folga nas pesquisas para o segundo turno, paira sobre Bolsonaro a suspeita de ter recebido ajuda ilegal de empresários que patrocinaram envio de mensagens a favor dele e contra o adversário, o petista Fernando Haddad, pelo WhatsApp. A Polícia Federal abriu um inquérito para apurar o caso, exposto pelo jornal Folha de S. Paulo.
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As ameaças de Bolsonaro ao papel central do Brasil no meio ambiente

Política

Eleições 2018

As ameaças de Bolsonaro ao papel central do Brasil no meio ambiente

por Natália Silva — publicado 26/10/2018 00h30, última modificação 26/10/2018 09h17
Candidato do PSL avança e recua em temas como o Acordo de Paris e a fusão de ministérios, além de defender visão entreguista sobre Amazônia
Ana Cotta
meio ambiente
Especialistas mostram preocupação com discurso de Bolsonaro em relação ao setor
Em editorial publicado na quarta-feira 24, o jornal britânico The Guardian alertou que o planeta não suportará mais líderes populistas como Jair Bolsonaro, à frente nas pesquisas de intenção de voto na disputa presidencial.
O texto foi assinado por Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do jornal, que tem vasta experiência na cobertura de políticas ambientais de países em desenvolvimento, como Brasil e China.
Watts insere a ascensão de Bolsonaro em um fenômeno global, caracterizado por países que, em um contexto de crise econômica, preferem líderes autoritários a pragmáticos.
Segundo o editorial, o Brasil ficaria ao lado de países ditatoriais como China, Rússia e Arábia Saudita, além das “jovens democracias” Turquia e Filipinas, hoje sob governos autoritários, caso o candidato do PSL seja eleito.
A preocupação da comunidade internacional com as medidas propostas por Bolsonaro em relação ao meio ambiente, contidas no editorial do The Guardian, é crescente.
A cada declaração feita pelo candidato e seus possíveis ministros - como Luiz Antonio Nabhan Garcia, cotado para agricultura e meio ambiente - acirram-se os ânimos de quem se preocupa com os possíveis danos causados pela chapa não só ao país, mas ao planeta.
Retirada do Acordo de Paris
Em 2015, após aprovação do Congresso Nacional, o Brasil tornou-se signatário do Acordo de Paris ao lado de 195 países. O compromisso internacional tem como objetivo minimizar as consequências do aquecimento global.
Na época, ficaram de fora apenas Síria, por conta dos conflitos no país desde 2011, e Nicarágua, que em 2017 voltou atrás e aderiu ao compromisso em “solidariedade” à nações afetadas por problemas climáticos.
Bolsonaro e Nabhan criticaram o Acordo de Paris em diversas ocasiões. O possível ministro, que é presidente da União Democrática Ruralista, comparou o acordo internacional com um papel higiênico.
Após diversas críticas, Bolsonaro afirmou que não vai retirar o Brasil do Acordo de Paris, em entrevista dada na quinta-feira 25. As mudanças constantes de posicionamento, no entanto, despertam incertezas.
Caso o movimento seja concretizado e aprovado pelo Congresso Nacional, o Brasil passaria a ser exceção, ao lado apenas dos Estados Unidos, que deixou o acordo em 2017, e a Síria, que nunca o integrou.
Marcio Alvarenga Junior, membro do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a saída do Brasil do Acordo de Paris seria uma “perda decisiva para as pretensões climáticas globais”.
De acordo com um levantamento feito pelo pesquisador, entre 2005 e 2016 o Brasil evitou a emissão de 6,3 gigatoneladas de carbono equivalente através da redução do desmatamento da Amazônia Legal. “Essa foi a maior contribuição de um país para o clima global no período.”

O conceito de "carbono equivalente" foi criado para que as emissões de diversos gases do efeito estufa pudessem ser expressos em uma única unidade, explica o pesquisador.
Pedro Roberto Jacobi, o coordenador do Grupo de Estudos do Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP, classifica as declarações de Jair Bolsonaro como “desastrosas” e, assim como Alvarenga, lembra que o compromisso faz parte da “agenda global da sobrevivência da espécie humana”.
“Eu espero que, se ele vier a ser eleito, haja capacidade de demovê-lo dessa visão absurda, alimentada pelo Donald Trump”. Jacobi afirma que o candidato e o presidente dos EUA são “figuras que fazem muito mal à vida democrática na sociedade global”.
Alvarenga também apontou que a saída do Acordo de Paris está atrelada a uma visão de integração econômica da Amazônia através de um modelo intensivo de desmatamento. Isso trará efeitos para além das questões climáticas, como por exemplo, o recrudescimento da violência no campo. 

“Há uma correlação muito forte entre desmatamento e homicídio por conflito no campo, expressa na disputa pela propriedade da terra. E é sempre bom lembrar que o Bolsonaro tem um discurso extremamente agressivo contra a parte mais precarizada desse processo, como os índios, os quilombolas e os sem terras.”
Fusão de Ministérios
Em 19 de outubro, a equipe técnica do PSL rejeitou a fusão das pastas do Meio Ambiente e da Agricultura, bem como a retirada do Acordo de Paris. Dois dias depois, no entanto, Bolsonaro reafirmou a ideia de unificação em entrevista a Rede Record. "Até o momento está garantida esta fusão. O ministro será indicado pelo setor produtivo, logicamente que a bancada do agronegócio terá seu peso nessa indicação", afirmou.
Nabhan esteve com o candidato no dia 24 de outubro e, após a reunião, afirmou que a fusão poderá ser revista, caso seja essa a “vontade da maioria da sociedade brasileira".
Fabio de Castro, antropólogo especializado em meio ambiente e professor da Universidade de Amsterdã, acredita que a fusão de ministérios faz parte de uma narrativa “simplista” que caminha para o “desmantelamento institucional total das questões ambientais e de movimentos sociais”.
“Nós éramos felizes e não sabíamos. Nós criticamos muito os problemas dos governos anteriores, mas as instituições democráticas e os sistemas de proteção, mesmo que o governo tivesse ações que levassem a algum problema, não tinham sido tocados.”
Mauricio Torres, professor da Universidade do Pará, pontua que setores da agricultura ligados à exportação não irão apoiar a medida. “Eu não consigo acreditar que o agronegócio que não esteja ligado ao crime organizado da grilagem queira algo assim”.
O descompasso entre o discurso do candidato e de seu partido são fruto de críticas dos setores do agronegócio que dependem do mercado externo. “Ter um desastre em políticas ambientais vinculado ao agronegócio criaria uma resistência, se não um boicote. Essa frase não é só uma imbecilidade em termos de política, é burra comercialmente”, afirma Torres.
Jacobi acredita que, caso a fusão seja concretizada, os assuntos relacionados ao meio ambiente serão colocados em segundo plano, além de ficarem aliados a interesses do setor ruralista. Castro afirma que a medida seria o equivalente a colocar “a raposa no galinheiro”.
Demarcação de terras, movimentos sociais e ativismo
Jair Bolsonaro prometeu que, caso seja eleito, interromperá a demarcação de terras indígenas. Em entrevista dada à rádio Jovem Pan em 2017, o deputado afirmou que “as reservas [indígenas] sufocam o agronegócio e levam o caos ao campo.”
As promessas da campanha foram recebidas pelo Ministério Público Federal (MPF) com “tranquilidade democrática”, de acordo com a declaração feita pelo subprocurador-geral da República Antonio Carlos Alpino Bigonha. Ele salientou, no entanto, que se Bolsonaro for eleito, será obrigado a respeitar os limites constitucionais, que acabarão por inviabilizar sua narrativa.
A Constituição de 1988 reconhece o direito dos índios sobre as áreas que ocupam. Ainda que terras demarcadas pertençam à União e não possam ser vendidas, o usufruto de recursos naturais é exclusivo para os povos tradicionais. “Eu espero que órgãos como o MPF coloquem um limite para a postura demencial”, afirmou Torres.

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Como a criminalização do ativismo enfraquece a democraciaArranjo econômico de Bolsonaro só beneficia quem já ganha dinheiro
Castro, no entanto, afirma que o discurso “já é um problema seríssimo”, mesmo que as medidas não se concretizem. Segundo o professor, as falas de Bolsonaro dão legitimidade para uma violência que assola o Brasil. “A elite agrária vai se sentir ainda mais empoderada para fazer as barbaridades, que já estavam fazendo, com apoio de um governo nacional.”
Em seu discurso transmitido na Avenida Paulista no último domingo, Bolsonaro chamou o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) de bandidos. “As ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou às cidades.”
O MST e o MTST são movimentos que surgiram em 1984 e 1997, respectivamente, com objetivo de lutar pela reforma agrária e pela reforma urbana. A concentração fundiária e, posteriormente, a especulação imobiliária, são problemas históricos do Brasil, responsáveis por aumentar os índices de violência e morte no campo e na cidade.
Em entrevista dada à rádio Brasil de Fato em julho de 2018, Gilmar Mauro, da direção nacional do MST, avaliou os dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE. “Apenas 2.400 fazendas acima de 10 mil hectares ocupam um tamanho de terra maior do que a maioria das terras na mão do povo que produz alimento e que emprega a maior parte da mão de obra no campo, que são as pequenas propriedades até 50 hectares.”
De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, o número de mortes em conflitos agrários em 2017 cresceu 15% em comparação com o ano anterior. Foram registrados 70 assassinatos, o maior número desde 2003.
Jacobi classifica a declaração de Bolsonaro em relação a movimentos sociais como a pior possível. 
“É uma argumentação de quem realmente não vê a desigualdade do país e a forma que a sociedade se organizou para reduzi-la”, apontou.
Além dos movimentos sociais, órgãos de fiscalização ambiental também foram alvo das falas do candidato. Ele afirmou que acabará com o “ativismo xiita ambiental” e com a “indústria da multa” no Brasil, citando órgãos como IBAMA e o ICMBio, responsáveis pela fiscalização do uso de recursos naturais no país.
Alvarenga afirma que essa visão negativa dos órgãos está atrelada a uma parcela específica da população, que ganha dinheiro com a “exploração desenfreada de recursos naturais”. O pesquisador acredita que esse discurso, no entanto, não traduz a visão da sociedade brasileira.
“Eu não sei se a população consegue relacionar a atuação do ICMBio em uma unidade de conservação para a melhoria ou manutenção do bem estar da sociedade. Mas, a atuação desses órgãos é fundamental para isso.”
Trabalho escravo e propriedade privada
Ainda no evento no Rio Grande do Sul, o candidato declarou que pretende pedir a revogação da Emenda Constitucional 81. Em uma publicação no Twitter, Bolsonaro afirmou que a EC “relativizou a propriedade privada e potencializou invasões de terra”.
A emenda, aprovada em 2014, alterou o artigo 243 da constituição e prevê que “propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular”.
De acordo com Ariovaldo Umbelino, professor de Geografia Rural da Universidade de São Paulo, a mudança na emenda não se concretizará. “Não tem como ele fazer uma mudança na constituição de modo a implantar esse tipo de coisa. Ele não teria apoio do congresso, é uma coisa gravíssima.”
“Dá para dizer que a Amazônia é nossa?”
Durante um evento para o setor rural realizado em julho no Rio Grande do Sul, Jair Bolsonaro dirigiu essa pergunta a plateia. Em seguida, respondeu a si mesmo dizendo que com tantos recursos naturais disponíveis na região, não era possível deixar esse “espaço vazio” de lado.
Jacobi reforça a visão de que os discursos do candidato demonstram seu desconhecimento sobre o assunto. “É um discurso que não entende absolutamente nada e está sendo manipulado por aqueles que veem na Amazônia apenas um espaço para usufruto econômico e não usufruto da proteção da sociedade global. É um espaço que precisa ser preservado.”
Alvarenga destaca que Bolsonaro descreve políticas de conservação como um entrave econômico e não como uma oportunidade de desenvolvimento nacional. “A intenção é integrar a Amazônia em um modelo predatório de desenvolvimento rural, que intensifica o desmatamento e a emissão de gases do efeito estufa.”
A temporalidade e o impacto de Jair Bolsonaro
A ex-ministra da meio ambiente Marina Silva declarou apoio crítico a Fernando Haddad no dia 22 de outubro. Em suas justificativas, destacou que Bolsonaro se apoia em “argumentos grotescos, tecnicamente insustentáveis e desinformados” em relação do meio ambiente.
No mesmo dia, foi publicado pela Folha de São Paulo o artigo "Não podemos desembarcar do mundo", assinado por José Sarney Filho - atual ministro do Meio Ambiente - e outros sete ex-ministros da pasta, incluindo Mariana Silva. No texto, é destacada a importância da manutenção dos Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, além do Acordo de Paris.
Castro avalia que os movimentos sinalizados por Jair Bolsonaro terão impacto a nível local, nacional e global. Aumentando a violência no campo, mudando leis e instituições e retirando o Brasil da lógica da governança global, respectivamente. “São três escalas de ação que vão destruir um trabalho de 30 anos.”
Jacobi não vê pares históricos para os discursos do candidato. “O Brasil nunca teve qualquer outra pessoa que se aproxime da baixíssima qualidade democrática e de entendimento do que significa ser um estadista em um país do tamanho do Brasil”.
Torres, no entanto, encaixou a mentalidade do candidato no século XVI. “É um exemplo de uma mentalidade colonialista, que reduz a uma vala comum os camponeses, os quilombolas, as comunidades tradicionais e acaba com o direito à vida desses grupos. Não é nada diferente do pior aspecto da mentalidade colonialista do século XVI.”