AFP / Miguel SCHINCARIOL O ex-presidente Lula ao chegar ao funeral de seu neto Arthur, em São Bernardo do Campo, em 2 de março de 2019
Lula, em silêncio, comandou com os olhos o espetáculo de dor e esperança do que deveria ter sido apenas um enterro triste, como sempre são devastadoramente tristes os enterros de crianças.
Em silêncio, coroado de cabelos brancos, Lula fez o mundo tremer.
Pois foi o mundo todo que viu os seguranças, as polícias, os soldados, as armas e o rancor mobilizados, todos cagados de medo, sem compreender a força daquele homem.
Aquele homem que os deixou nus.
As pessoas não foram enterrar Arthur, foram levar amor a Lula, foram oferecer seus corações, sua fé, seus olhos para que por eles Lula pudesse chorar também. Vieram pedir Justiça, esperar nem que fosse um milagre.
Em silêncio, Lula falou mais alto do que todos, foi além da roupa de mártir que se recusa a vestir. Cruzou o mar de dor com dignidade. E, no pouco tempo que lhe deram para sofrer, fez o mundo sofrer com ele, cada pessoa decente, cada humano em sintonia com o outro, cada irmão, cada irmã.
Lula enterrou Arthur e, generoso, trouxe calor de novo aos nossos corações. Encheu nossa alma de coragem e se colocou, outra vez, à frente da luta.
De novo, esse homem preso sem provas, vítima de um Judiciário apodrecido, deixou apavorados seus algozes, seus detratores e os dementes que os seguem.
Um velho calado, vestido apenas de coragem e amor, fez toda essa gente tremer.
Preso, Lula nos deu liberdade. Sempre vamos dever isso a ele.
O policial federal com o escudo da S.W.A.T. de Miami
O aparato de segurança montado para transportar Lula até São Bernardo do Campo chamou a atenção pelo número de policiais, o armamento pesado e a vestimenta de alguns policiais. Pelo menos um deles utilizava colete com emblema da S.W.A.T. de Miami.
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Eram agentes da Polícia Federal brasileira, como se notava por outro escudo, o da G.P.I, Grupo de Pronta Intervenção, setor da PF especializado em abordagens de criminosos considerados perigosos.
Ao que tudo indica, a S.W.A.T entrou no colete como recordação de algum curso que o policial brasileiro fez com os agentes de segurança dos Estados Unidos.
Cursos desse tipo são comuns, e os policiais brasileiros os exibem como medalhas.
A PF no Brasil tem uma relação muito próxima com as forças de segurança nos Estados Unidos.
Policiais que fizeram a escolta de Lula precisavam se comportar de maneira tão ostensiva?
Lula já deu prova de que decidiu seguir estritamente as regras do Judiciário e da Polícia Federal desde que a perseguição a ele se tornou nítida.
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Depois da condenação pelo caso do triplex, foi aconselhado por algumas pessoas próximas a deixar o Brasil, já que, segundo a avaliação destes, reverter a sentença de Moro no TRF-4 seria muito difícil, impossível mesmo, dada a indicação de cartelização e blindagem do então juiz de Curitiba.
Se não quisesse sair do país, a alternativa apresentada por esses conselheiros é que procurasse uma embaixada em Brasília e se refugiasse ali, como fez em Londres Julian Assange, do Wikileaks.
Por sinal, Lula e Julian Assange têm o mesmo advogado, Geoffrey Robertson. Este defende Lula no Comitê de Direitos Humanos da ONU.
Lula também preferiu se apresentar à Polícia Federal no dia 7 de abril do ano passado, quando foi preso. Ele se encontrava no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e os militantes fecharam as saídas para que ele não se entregasse.
Alguns conselheiros diziam a Lula que ele deveria permanecer ali, à espera de uma ação policial. “Se querem te prender, que venham te buscar”, teria dito um deles.
Lula considerou que colocaria em risco outras pessoas e também avaliou que, se dificultasse as coisas, teria menos chance de deixar a prisão num curto espaço de tempo.
O ex-presidente decidiu que era preciso honrar o acordo que alguns emissários — entre eles, Sigmaringa Seixas — haviam feito com o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann: se apresentar no dia seguinte ao da chegada ao sindicato.
Na hora marcada, Lula procurou uma saída alternativa do prédio e, contra a vontade de apoiadores, deixou o sindicato e se apresentou aos policiais, no local combinado.
De lá, foi levado para o aeroporto de Congonhas e, dali, para a Superintendência da PF em Curitiba, de onde não saiu mais, exceto para um depoimento à Justiça e hoje para o velório.
O ex-presidente é, portanto, um homem disciplinado, e a PF sabe disso.
E poderia ter levado em conta essa traço do caráter de Lula antes de montar um esquema de segurança que não existiu em casos em que o escoltado é conhecido pela periculosidade.
É preciso registrar que quem tem contato direto com Lula na carceragem da PF mantém com ele uma relação de cordialidade. Os policiais o tratam por presidente, senhor e, mais de uma vez, mostraram a visitantes a placa do prédio da Superintendência que tem o nome dele como presidente responsável pela obra.
Mas hoje, diante das câmeras e, principalmente, do olhar atento da juíza Carolina Lebbos, a jovem responsável pela execução penal de Lula, eles mostraram um comportamento diferente.
O ex-prefeito Fernando Haddad, que estava no funeral, contou através do Twitter que um policial disse a Lula que ele não poderia ter acenado à multidão.
Que perigo há nesse gesto?
Lula, ainda assim, driblou o policial, se colocando no estribo da viatura, e acenou uma vez mais, por dois segundos, a quem estava ali, para chorar com ele a morte do pequeno Arthur.
“O senhor sabe que eu tinha que fazer isso”, teria dito ele ao policial, segundo o relato de Haddad.
Lula terminou o seu mandato como o presidente mais popular da história — 87% de ótimo e bom –, e na chefia do Executivo respeitou e valorizou as instituições brasileiras como talvez nenhum presidente antes dele, inclusive a PF, e o Judiciário de Carolina Lebbos.
Pela Constituição, não poderia estar preso, mas, uma vez que está lá, poderia ter sido tratado pelo que ele é: um dignitário, pessoa civilizada, que, se algum perigo oferece, é apenas àqueles que têm ferido a democracia brasileira.
Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia - "Lula em velório é larápio posando de coitado", blasfemou a abominável figura de Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do capitão, eleito deputado federal pelo PSL em São Paulo, com votação recorde.
De larápios, o filho Zero Três deve entender bastante, pois vive cercado deles nos laranjais dos gabinetes bolsonarianos, frequentados também por milicianos cariocas homenageados pela família.
Como se fosse um desses milicianos perigosos, Lula chegou ao velório do neto Arthur, de sete anos, escoltado por policiais federais com armas de grosso calibre.
O cemitério do Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo, estava cercado por dezenas de policiais e viaturas da Polícia Militar, como se ali tivesse acontecido um terrível crime, não o velório de uma criança.
O pequeno Arthur, filho dos meus bons amigos Sandro e Marlene, que nunca fizeram mal a ninguém, será lembrado como um mártir da tragédia bolsonariana que se abateu sobre o Brasil neste ano de 2019, em que todos os monstros parecem ter saído do armário.
Conheci Sandro, o segundo filho de Lula e Marisa, quando ele era mais novo do que o Arthur, carregado no colo da mãe orgulhosa, com os mesmos cabelos cacheados.
Era uma família de gente muito simples que vivia numa casa de esquina no bairro da Vila Paulicéia, de onde Lula um dia saiu para ganhar o mundo.
Agora, antes de completar um ano como prisioneiro político em Curitiba, condenado sem provas por "ato indeterminado", Lula já perdeu a esposa Marisa, o irmão Vavá e agora Arthur, o neto que não largava o avô quando se encontravam.
Tem dias que não dá vontade de escrever nada.
As palavras perdem o sentido diante das barbaridades da nova ordem cívico-militar a que assistimos todos os dias.
E, no entanto, é preciso continuar escrevendo todos os dias para, pelo menos, mostrar aos nossos algozes que continuamos vivos.
Estranho governo esse que está mais preocupado com o que acontece na Venezuela e declarou guerra aos brasileiros mais humildes que tinham melhorado de vida nos governos de Lula.
Até dentro da capela do cemitério onde o corpo foi cremado havia policiais fortemente armados em torno do caixão, cercando parentes e amigos, prontos para o combate.
Este é o Brasil que saiu das urnas em nome da "nova política" para combater a corrupção e já vive atormentado por graves denúncias, ao completar apenas dois meses no poder.
A cena kafkiana do velório militarizado ficará certamente para sempre na memória daqueles que, como eu, acompanharam a trajetória do líder metalúrgico do ABC até o Palácio do Planalto.
Nem nos piores pesadelos poderíamos imaginar que o país se degradasse tanto em tão pouco tempo, com o medo vencendo a esperança e a morte derrotando a vida que brotava.
Fico pensando de onde vem tanto ódio, como vimos desde ontem nas redes sociais, a sede de vingança de bestas humanas que não respeitam a dor do próximo.
Juntaram-se nesse bombardeio altos executivos de empresas, políticos corruptos com analfabetos e boçais de toda ordem, que perderam a modéstia e agora se acham empoderados no processo de degradação do país.
Esta noite de sábado, Lula estará mais uma vez na sua cela solitária de Curitiba, em que foi confinado para não disputar a eleição presidencial, e abrir caminho para a vitória do capitão Bolsonaro e seus generais, acolitados pelo ex-juiz Sergio Moro, agora promovido a ministro da Justiça pelos bons serviços prestados.
Do lado de fora do presídio, o Brasil pandeiro pula mais um Carnaval, mas não tenho ânimo nem para sair de casa ou ver os desfiles na televisão.
Escrevo apenas porque não sei fazer outra coisa, na esperança de que um dia estes dias trágicos tenham fim.
Não era essa a velhice com que eu sonhava quando o povo se levantou para reconquistar a democracia, nem faz tanto tempo.
Vai em paz, pequeno Arthur. Tenham mais uma vez forças sertanejas, vovô Lula, Sandro, Marlene e todos os Silva, que nos devolveram o orgulho de ser brasileiros.
Eles, os vingadores de araque, um dia passarão, e nós ficaremos velando nossos mortos, enquanto houver vida para ser vivida.
Uma sociedade em que as pessoas comemoram a morte de uma criança é doente, não tem vergonha na cara, não tem caráter.
Isso nada tem a ver com política, mas com caráter.
CartaCapital calculou o que muda para seis perfis bastante afetados pela proposta de Bolsonaro
A Reforma da Previdência apresentada pelo governo de Jair Bolsonaro promete cortar privilégios e cobrar mais de quem paga mais. O discurso é bonito, mas o que será que ocorrerá se o texto enviado à Câmara for aprovado?
Fato: ela corrige algumas distorções. Um exemplo é a aposentadoria dos funcionários públicos. Um servidor que ganha 25 mil reais, por exemplo, hoje contribui com 2,7 mil reais à Previdência (alíquota de 11%). Com a alíquota da reforma, de 15%, teria que pagar todo mês 3,7 reais a mais.
Mas a proposta é ainda mais dura com os mais pobres. No caso de um trabalhador que recebe salário mínimo, essa taxa caiu de 9% para 7,5%. A economia, no fim das contas, é pouca: cerca de 15 reais por mês. Sem falar nas mudanças para os idosos e deficientes miseráveis.
CartaCapital calculou o que muda para seis perfis bastante afetados pela proposta de Bolsonaro. Os dados são da calculadora do Dieese, criada em 2016 sob a proposta de Temer e adaptada pela redação às regras da Previdência de Bolsonaro.
Estudante de 20 anos ingressando no mercado de trabalho
Prepare o guaraná em pó: será uma vida com pelo menos cinco anos a mais na labuta
Regra atual de aposentadoria: 65 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 15 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova de aposentadoria: 65 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 20 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição. A idade pode aumentar quando a expectativa de vida dos brasileiros subir
Quando receberá aposentadoria integral?
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Proposta do governo: 40 anos de contribuição e estará com, pelo menos, 65 anos
Trabalhadora rural de 43 anos com 5 anos de contribuição
Você precisaria de mais trinta anos de trabalho para conseguir aposentadoria integral
Regra atual de aposentadoria: 55 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 10 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova de aposentadoria: 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, 15 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 68 anos, caso contribua por mais 25 anos
Proposta do governo: aos 78 anos (limite para aposentadoria compulsória), caso contribua por mais 35 anos
Mulher de 37 anos com 13 anos de contribuição
Pode se preparar para trabalhar seguidamente até os 64 para ter aposentadoria integral
(FOTO: CAUÊ GOMES)
Regra atual de aposentadoria: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 2 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova de aposentadoria: aos 62 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 7 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição.
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 57 anos, caso contribua por mais 20 anos (considerando o fator previdenciário)
Proposta do governo: aos 64 anos, pelo menos, caso contribua por mais 27 anos
Homem de 60 anos com trinta anos de contribuição
Quase uma vida de trabalho. O governo acha pouco e pede mais dez anos de contribuição
Regra atual de aposentadoria: aos 65 anos. E receberá 100% da média do salário de contribuição
Regra nova de aposentadoria: aos 65 anos. E receberá 80% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 65 anos, caso contribua por mais 5 anos
Proposta do governo: aos 70 anos, caso contribua por mais 10 anos
Professora de 43 anos com vinte anos de serviço público
Hoje você se aposenta com 100% dos vencimentos aos 56 anos. Irá para 63 anos
Regra atual de aposentadoria: aos 50 anos. E receberá 90% da média do salário
Regra nova de aposentadoria: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 10 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 56 anos, caso contribua por mais 13 anos
Na proposta do governo: aos 63 anos, caso contribua por mais 20 anos
Funcionário público de 32 anos com 7 anos de serviço
O governo quer você por mais 33 anos, com 33 anos de contribuição
Regra atual de aposentadoria: aos 60 anos, depois de ter contribuído por, pelo menos, mais 5 anos. E receberá 85% da média do salário de contribuição
Regra nova de aposentadoria: aos 65 anos, caso contribua por mais 18 anos. E receberá 60% da média do salário de contribuição
Quando receberá aposentadoria integral?
Regra atual: aos 61 anos, caso contribua por mais 28 anos
Proposta do governo: aos 65 anos, caso contribua por mais 33 anos.