quinta-feira, 16 de abril de 2020

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16 DE ABRIL DE 2020
A Venezuela é um país que importa cerca de 80% de tudo que consome. Com a crise econômica aprofundada pela pandemia da covid-19, a prefeitura de Caracas criou um programa de distribuição de casa em casa, articulando com os movimentos sociais a distribuição de alimentos a preços justos.
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Em meio à pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro demite Mandetta


Em meio à pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro demite Mandetta









Bolsonaro demite Mandetta (Photo by Andre Coelho/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, após divergências no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus no Brasil.

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A decisão foi tomada na tarde desta quinta-feira (16) após uma reunião entre os dois, no Palácio do Planalto, e confirmada por Mandetta em sua rede social.
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Desde o início da crise, o desgaste da relação do dois aumentou e tornou-se insustentável a permanência do ministro no governo, com troca de farpas em público e orientações contraditórias à população.

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A principal discordância entre Bolsonaro e Mandetta era na adoção do isolamento social para controlar a propagação do coronavírus. Enquanto o presidente é a favor de um isolamento vertical, no qual apenas as pessoas que fazem parte do grupo de risco da Covid-19 ficam em casa, o ministro seguia as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) a apoiava medidas de distanciamento social mais amplas.
No último domingo (12), Mandetta cobrou um discurso unificado do governo durante entrevista ao Fantástico, da TV Globo.
“Eu espero que essa validação dos diferentes modelos de enfrentamento dessa situação possa ser comum e que a gente possa ter uma fala única, uma fala unificada. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta”, disse.
Mandetta também fez questão de criticar pessoas que estejam afrouxando as regras de isolamento e mencionou pessoas que frequentam “padarias”, em uma indireta a Bolsonaro. 
“Quando você vê as pessoas entrando em padaria, entrando em supermercado, fazendo filas uma atrás da outra, encostadas, grudadas, pessoas fazendo piquenique em parque, isso é claramente uma coisa equivocada”, afirmou o ex-ministro da Saúde na entrevista.
Dias antes, o presidente havia contrariado as medidas de isolamento social ao sair para cumprimentar apoiadores em Brasília. Um dos locais visitados por Bolsonaro foi uma padaria. Além disso, outra cena que chamou atenção foi quando o presidente, na última sexta-feira (10), esfregou o nariz e deu a mão a uma mulher na sequência, mais um ato que vai contra as recomendações sanitárias em tempos de pandemia.
Outro ponto de divergência entre os dois era em relação ao uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. O medicamento é amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o Ministério da Saúde alerta para a utilização indiscriminada do medicamento, sem acompanhamento médico, já que a cloroquina causa efeitos colaterais. “Ou se baseia na ciência ou fica no 'eu acho'”, declarou Mandetta em entrevista coletiva na quarta-feira (15).

Início da crise

No início da pandemia do coronavírus, o presidente se queixou ao ministro de que ele deveria defender mais o governo e o repreendeu por ter participado de uma entrevista ao lado do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), adversário político de Bolsonaro.
Mandetta até chegou a mudar o discurso, pregando a importância de a atividade econômica não parar. Porém, ele não se dobrou à pressão do presidente contra a medida de isolamento social, o que iniciou o embate entre ambos.

Ameaça de demissão

A primeira ameaça de “usar a caneta” veio no dia 5 de abril. Sem citar o nome de Mandetta, o presidente Jair Bolsonaro disse que integrantes de seu governo “viraram estrelas” e que a hora deles vai chegar.
“Algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, tem provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona”, afirmou Bolsonaro a apoiadores que se aglomeravam diante do Palácio da Alvorada.
Antes, em entrevista à Rádio Jovem Pan, Bolsonaro disse que “falta humildade” a Mandetta e que “nenhum ministro é indemissível”.
“Olha, o Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo. Não pretendo demiti-lo no meio da guerra. Em algum momento ele extrapolou”, afirmou.
Ministros militares foram responsáveis por demover Bolsonaro da ideia de exonerar o titular da pasta da Saúde. O conselho era para que ele fizesse uma mudança apenas em junho, ao término estimado da fase mais aguda da pandemia do coronavírus.
Além do receio de que uma demissão transforme Mandetta em um mártir, Bolsonaro teme também a reação dentro de sua própria base de apoio.
Pesquisa Datafolha divulgada no início do mês mostrou que a aprovação do Ministério da Saúde no combate ao coronavírus subiu e já é mais que o dobro da do presidente da República. A atuação da pasta passou de 55% em março para 76% em abril. Já a aprovação do presidente passou de 35% para 33%.
Com a atitude do ministro da Saúde de aumentar o confronto com Jair Bolsonaro, principalmente após a entrevista ao Fantástico, a cúpula militar do Palácio do Planalto estimulou o presidente a intensificar a estratégia para forçá-lo a pedir demissão do cargo.
Mandetta, no entanto, avisou que só sairia demitido ou doente.

Mandetta dá coletiva no Planalto e comunica demissão

Mandetta dá coletiva no Planalto e comunica demissão

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Bolsonaro exonerou nesta quinta-feira (16/04) o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O oncologista Nelson Teich foi convidado para o posto, mas o anúncio oficial ainda não foi feito. Mandetta confirmou a demissão em post no Twitter às 16h17:
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Logo em seguida, o agora ex-ministro deu entrevista coletiva e cumprimentou os ex-auxiliares, pedindo-lhes que auxiliem o novo ministro como o auxiliaram ao longo de sua permanência na pasta da saúde

Saiba o que revelam as autópsias feitas em vítimas do novo coronavírus


Saiba o que revelam as autópsias feitas em vítimas do novo coronavírus









(Jacob King - WPA Pool/Getty Images)
Sepultados sem velório, em caixão fechado e isolados em seus momentos finais, os mortos pela Covid-19 no Brasil começam a ajudar os médicos a aprender sobre a doença e a impedir que mais pessoas morram. Usando uma estratégia de autópsia minimamente invasiva, para evitar o contágio, cientistas da equipe de Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) se defrontaram com a “enorme agressividade do coronavírus” e encontraram pistas de seus esconderijos.
Ele apresentou os primeiros resultados numa sessão científica virtual na Academia Nacional de Medicina (ANM), da qual é membro. O trabalho foi realizado com as médicas e pesquisadoras da USP Marisa Dolhnikoff e Renata Monteiro.

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Como é a autópsia minimamente invasiva?

Foi a forma que encontramos de investigar os corpos de vítimas dessa doença altamente contagiosa. As autópsias convencionais estão paradas. Então usamos tomografia, ultrassom e microscopia. Imagens de ultrassom nos guiam para retirar, por meio de punção por agulha, amostras dos órgãos. As amostras são depositadas num biorepositório para análises futuras. Já tínhamos empregado esse método antes.

Em que circunstâncias?

Já usamos essa técnica para analisar o cérebro de vítimas do mal de Alzheimer. Também, por exemplo, em casos de jovens pacientes com câncer, que não sobreviviam ao transplante. E temos o duvidoso privilégio de esta ser a terceira vez em que estudamos doenças infecciosas com autópsias minimamente invasivas.

Quais foram as anteriores?

A primeira foi com o H1N1, em 2009. Fizemos mais de mil autópsias, é a maior amostra do mundo. E estamos observando que o coronavírus é mais agressivo do que o H1N1. Ele promove uma depressão muito grande do sistema de defesa. O corpo fica entregue à própria sorte.

E a segunda vez?

A segunda vez foi com a febre amarela. Fizemos 80 autópsias. As vítimas tinham claros sinais de tempestade imunológica, a chamada tempestade de citocinas. Ainda temos dúvidas sobre as tempestades de citocinas na Covid-19. As autópsias nos mostram informações que de outra forma não acessaríamos. Por isso, as famílias que autorizam as autópsias fazem um gesto fundamental. É uma doença contagiosa, os órgãos não poderiam ser mais usados. Então, essas famílias doam conhecimento.

E o que já aprenderam?

Estamos no início. Mas já observamos enorme destruição, o coronavírus ataca com enorme agressividade.

Em quanto tempo os resultados ficam prontos?

Temos procurado ser os mais ágeis possível. O resultado fica pronto de um dia para o outro. Repassamos os resultados em reuniões regulares com o pessoal que está em atendimento nas UTIs.

Quantas autópsias já realizaram?

Já fizemos 15 autópsias, apresentamos os resultados de dez delas. Mas a nossa meta é chega a cerca de 60. Com elas, queremos dar aos médicos uma chance de ver o que acontece dentro das células dos pacientes.

Qual era o perfil das vítimas?

As dez vítimas da Covid-19 cujos corpos foram autopsiados primeiro tinham entre 33 anos e 83 anos, cinco homens e cinco mulheres. Três deles chegaram ao hospital para morrer. Já vieram muito doentes. Os demais ficaram até 15 dias internados. Com o estudo desses corpos queremos saber por que alguns casos evoluem tão depressa e outros se prolongam tanto até o desfecho fatal. Uma pessoa que passou 15 ou 20 dias internada e faleceu ficou 20 dias doente ou a infecção a afetou por muito mais tempo? Não sabemos.

O que viram?

Estudamos vários órgãos, como o pulmão, o fígado, os rins e o baço. Vimos uma agressividade impressionante do coronavírus. E sinais da resposta imunológica. Mas não sabemos como o coronavírus ilude a resposta imunológica. Queremos descobrir por que o coronavírus ataca com tanta avidez o sistema respiratório. Observamos que 80% das vítimas fatais sofreram microtrombos, principalmente nos pulmões.

O que são esses microtrombos?

São entupimentos dos pequenos vasos sanguíneos. Obstruídos, eles param de levar sangue para os pulmões. O vírus de alguma forma causa trombose, queremos entender como isso acontece. Só assim os médicos poderão deter esse processo com mais eficiência, salvar mais vidas.

E o que mais chamou atenção?

Também vimos muito comprometimento dos músculos, muita inflamação muscular. Isso pode explicar por que alguns doentes reclamam tanto de dores musculares.

Que outros órgãos podem ser afetados?

Vários. Sabemos que o coronavírus se liga às células que revestem o sistema respiratório, esses mesmos receptores presentes nas células epiteliais do pulmão existem em vasos sanguíneos, nos testículos, no cérebro. Ainda precisamos saber como é a ação do vírus em todo o corpo e descobrir se ele se liga também a outros tipos de receptores das células humanas e como ele deixa o sistema imunológico tão fraco.

Por que descobrir esses receptores é tão importante?

Descobrir receptores é importante porque podemos tentar bloqueá-los e fechar a porta para o vírus. É uma forma de deter a infecção. São alvos para tratamentos. Para tudo isso precisamos de dados e as autópsias minimamente invasivas são uma forma de obter esses dados.

O trabalho também envolve análise molecular?

Sim. Planejamos fazer uma cartografia do coronavírus no corpo humano. Faremos isso por exames moleculares de PCR, analisando a carga viral, para saber onde se concentra e também onde se esconde. Achamos que o coronavírus tem reservatórios no corpo humano. Lugares onde ele se esconde. Sabemos que nos homens, por exemplo, vírus gostam de se esconder nos testículos. Estamos em busca de seus esconderijos.
Da AGÊNCIA O GLOBO