sábado, 19 de maio de 2018

Para quem é contra os programas sociais.

Ex-catador de lixo se torna professor e doutor em Linguística em SC

Dorival Gonçalves Santos Filho, de 35 anos, conta que passou no vestibular lendo livros que encontrava no lixão

Ex-catador de lixo se torna professor e doutor em Linguística em SC
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Oex-catador de lixo Dorival Gonçalves Santos Filho, de 35 anos, defendeu a tese de doutorado em Linguística na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, no dia 10 de maio. Atualmente trabalhando como Professor da rede pública da capital catarinense, ele sempre ajudou no sustento da família coletando resíduos em um lixão de Piedade (SP) e lia livros achados no lixo.
“Eu contrariei minha mãe, a enfrentei e parei de estudar depois da 8ª série. Não tinha como continuar, chegava ao fim do dia exausto, com as mãos cortadas, de tanto recolher lixo e separar, meu caderno ficava manchado de sangue. Eu ficava tão cansado que às vezes dormia sem jantar”, contou Dorival ao G1.
O professor vem de uma família com cinco filhos, que sempre ajudaram a complementar a renda da mãe trabalhando no lixão.
“Meu trabalho era uma fonte de renda importante para minha família. A maioria da nossa alimentação vinha do lixão, vinha de pacotes de comida que as pessoas descartavam, frutas que podiam ter a parte podre cortada. Eu tomava café da manhã no lixão, disputava a comida com centenas de corvos e cães. A gente usava cabos de vassoura para espantá-los”, recordou.
Além de alimento, Dorival encontrava livros no lixão, que formaram um acervo de até três mil publicações.
Eu avisava meus colegas: ‘quando vocês encontrarem um livro, passem para mim’, eu sempre amei ler. Eles preferiam sapatos, então, fazíamos essa troca. Foi assim que ainda na adolescência li quase a obra completa de Machado de Assis e alimentei o sonho de criar uma biblioteca comunitária, o que acabou não acontecendo.”
Dorival voltou a estudar aos 21 anos. “Eu acordava de madrugada para trabalhar no lixão e atividade era subumana. Quando minha mãe começou a receber o Bolsa Família, já não estava mais sozinha para sustentar a gente, então pude voltar a estudar. Esse pode parecer um discurso político, mas não é, foi o que aconteceu na minha vida.”
Ele decidiu fazer vestibular quando uma equipe da Universidade Estadual Paulista (Unesp) visitou a escola onde ele estudava para divulgar o processo seletivo e sorteou dois alunos para fazerem a prova de graça. Dorival foi um dos contemplados.
O vestibular era em outra cidade e durava três dias, minha mãe conseguiu dinheiro emprestado para a passagem, mas a gente não tinha para alimentação, eu fui fazer a prova com fome mesmo. Tinha me preparado com os livros do lixão e passei."
Graduado em Letras Português/Francês, atualmente, Dorival é professor do ensino fundamental da prefeitura de Florianópolis. "Agora, é minha vez de devolver para a sociedade o investimento que foi feito em mim, com programas sociais e bolsas de estudos. Este é o momento de compartilhar o que aprendi e as vivências que tive desde a experiência com a família, na universidade e ainda a pessoa que me tornei”, afirmou.
Apesar da conquista, Dorival prefere que a sua vida não sirva de exemplo para os que acreditam em meritocracia. “Eu tive oportunidade. Sem os programas sociais, as bolsas de estudo, nada teria sido possível", concluiu.

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