O ex-assessor de Gilma Mendes tentou emplacar a
fundação, sem licitação, no Tribunal Superior do Trabalho. Foto: Carlos Humberto
/ SCO / STF
Renato parente é um assessor especialmente influente nos tribunais
superiores. Foi fiel escudeiro de Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal e
até pouco tempo ocupava a chefia da comunicação do Tribunal Superior do
Trabalho, presidido por João Oreste Dalazen. Por uma questão formal, Dalazen
rebaixou Parente de função, mas manteve seus poderes, que consistem basicamente
em administrar as verbas do setor no TST, naco de um filão milionário do Poder
Judiciário onde reina a Fundação Renato Azeredo, de Minas Gerais. Trata-se de um
eficiente sorvedouro de dinheiro público comandado pelo PSDB.
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Criada em 1996, a fundação leva o nome de um falecido deputado federal do
antigo PSD mineiro, pai de outro parlamentar, Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O hoje
senador, quando governador, criou a fundação para auxiliar projetos de pesquisa
da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Em pouco tempo, a entidade de
direito privado e sem fins lucrativos renegou as origens acadêmicas e passou a
ganhar um dinheirão.
Apenas em Minas Gerais, entre 2003 e 2011, a Fundação Renato
Azeredo faturou 212,1 milhões de reais de verbas repassadas diretamente do
governo de Minas, graças a contratos firmados em gestões tucanas, duas de Aécio
Neves e, desde o ano passado, a de Antonio Anastasia. A fundação é presidida
pelo farmacêutico Aluísio Pimenta, ex-assessor especial de Aécio. Sob pretexto
de notória especialização, a fundação sempre foi contratada pelos governos
tucanos sem licitação. Na primeira gestão de Neves, por exemplo, a entidade
recebeu cerca de 20 milhões por ano, limpos, dos cofres estaduais, para serviços
em área de comunicação social.
Somente da tevê estatal mineira, a Rede Minas, a Fundação Renato Azeredo
recebeu, por transferência direta, 17,6 milhões de reais, também em quatro anos.
Uma investigação ainda em curso no Ministério Público Estadual detectou, em
2008, uma transferência de 23,3 milhões de reais. Mas nada comparado ao ano
eleitoral de 2010, quando a Renato Azeredo levou uma bolada de 51,7 milhões de
reais, 35,9 milhões dos quais apenas no primeiro semestre, às vésperas das
eleições. Os promotores suspeitam que a fundação possa ter substituído o esquema
de caixa 2 montado por Eduardo Azeredo com o publicitário Marcos Valério de
Souza, mais tarde importado pelo PT e revelado no chamado “escândalo do
mensalão”.
Ao contrário dos promotores mineiros, os procuradores da
República em Brasília ainda não atinaram para o mesmo esquema montado no Poder
Judiciário Federal, com verbas da União. Desde 2010, a Fundação Renato Azeredo
passou a substituir outro baluarte do tucanato, a Fundação Padre Anchieta,
responsável pela TV Cultura, de São Paulo, até então dona das contas de
comunicação social do Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Superior Tribunal de
Justiça (STJ). Sem aviso e sem justificativa, naquele ano eleitoral, a fundação
do tucano paulista decidiu abandonar os tribunais e abrir espaço para a coirmã
mineira, num esquema de revezamento pouco sutil.
Em pouco tempo, estava tudo dominado. No STJ, a Fundação Renato Azeredo
ganhou, sem licitação, em 2010, um contrato de 10,5 milhões de reais por ano
(depois reduzido para 6,6 milhões de reais). Foi beneficiada por decisão do
ex-presidente do tribunal César Asfor Rocha, amigo dileto do ministro Gilmar
Mendes, do STF , fundamental para garantir a presença de Renato Parente na
história.
No CNJ, a Fundação Renato Azeredo foi contratada também sem licitação, em 8
de março de 2010, durante a gestão de Gilmar Mendes, por um prazo de seis meses.
O valor desse primeiro contrato foi de 1,6 milhão de reais. Em 22 de setembro de
2010, o contrato passou a ser renovado automaticamente por um ano, pelo valor de
4,2 milhões de reais, situação que se mantém até agora.
No STF, depois da saída da Fundação Padre Anchieta, o presidente Cezar
Peluso, substituto de Mendes, ordenou a realização de uma licitação. Feita em
julho de 2010, a disputa foi vencida pela Fundação LBV, de Brasília, logo
desqualificada por não conseguir preencher os requisitos técnicos para a
produção de noticiários para a TV e a Rádio Justiça, mantidas pelo Supremo.
Classificada em segundo lugar, a Fundação Renato Azeredo levou o contrato de 15
milhões de reais.
No TSE, a fundação mineira também venceu a concorrência e
abocanhou dois contratos. Um, de junho de 2010 a junho de 2011, de 4,2 milhões
de reais. Outro, a vencer em junho próximo, de 3,1 milhões. A diferença de 1,1
milhão de reais é parte de uma regra do tribunal que garante valores maiores
para contratos firmados em anos eleitorais.
O protagonismo de Parente nesse processo revelou-se apenas no ano passado,
graças a dois eventos distintos. Primeiro, quando a burocracia interna do TST
descobriu que, desde 1992, ele ocupa cargos comissionados de nível superior
dentro do Poder Judiciário sem nunca ter-se formado em nada, apesar de se
apresentar como “jornalista e publicitário”. Mesmo sem diploma, ele
disponibilizou currículos fraudulentos nos quais constava a seguinte informação:
“Graduado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)”, de São Paulo.
Há seis meses, uma ligação do TST para a direção da famosa escola paulista
bastou para desmontar a farsa.
Técnico judiciário de nível médio do Tribunal Regional do
Trabalho (TRT) de São Paulo, Parente foi assessor de imprensa do juiz Nicolau
dos Santos Neto, o “Lalau”, responsável por desvio de dinheiro das obras do
tribunal em 1998. Em 2001, sempre montado na história do falso diploma, foi
levado pelo ministro Marco Aurélio Mello para o STF, para assumir a Secretaria
de Comunicação Social. Em 2006, ainda pelas mãos de Mello, passou a ocupar o
mesmo cargo no TSE. Nas duas oportunidades, contratou, sem licitação, a Fundação
Padre Anchieta, subordinada ao tucanato paulista.
Em 2008, Parente tornou-se o braço midiático do então presidente do STF,
Gilmar Mendes, de quem passou a zelar como se fosse um capataz. A um repórter,
no Acre, que ousou perguntar se Mendes era pecuarista, Parente ofereceu um pisão
no pé. Em 2009, a pedido do chefe, conseguiu censurar temporariamente um
programa da TV Câmara, no qual o autor desta matéria fazia críticas ao seu
padrinho e patrão.
Parente alega não ocupar, desde 7 de janeiro de 2012, a função de secretário
de Comunicação Social do TST. Na verdade, de acordo com registro do Diário
Oficial da União, ele foi exonerado “a pedido”, em 29 de dezembro de 2011. Foi
uma tentativa desesperada de evitar o vazamento da informação sobre a fraude
funcional. No mesmo ato, Parente virou chefe de um “Núcleo de Comunicação
Institucional”, que, como o nome indica, não significa nada. Na verdade, a
solução interna achada pelo ministro Dalazen (lembrete: presidente do Tribunal
Superior do Trabalho!) foi fazer com que um subordinado de Parente, o jornalista
diplomado Alexandre Gomes Machado, passasse a assinar os papéis da secretaria e
a responder, jurídica e administrativamente, por um cargo que não exerce.
O assessor tentou fixar o dia 7 de janeiro como data de exoneração porque há
ao menos um documento interno assinado por Dalazen, datado de 6 de janeiro, para
emissão de passagens aéreas e diárias para o “secretário de Comunicação Social”
Renato Parente. O texto, ao qual
CartaCapital teve acesso pelo site do
TST, refere-se à emissão de passagens e diárias relativas a uma viagem a Caucaia
(CE).
O segundo evento diz respeito à tentativa de Parente de
levar a Fundação Renato Azeredo para o TST, sem licitação, no fim de 2011. Foi
barrado pela burocracia, que o obrigou a realizar um pregão eletrônico no mês
passado. Tropeço do acaso, algum funcionário da fundação tucana não conseguiu
apresentar a proposta da entidade a tempo, pela internet. A solução encontrada
foi a de melar o processo e impedir que a empresa vencedora, a AP Comunicação,
de Brasília, ganhasse o contrato, orçado em 8,8 milhões de reais por ano, por
cinco anos.
A agência vencedora foi enganada: um informe enviado pela internet depois do
expediente deu 15 minutos a ela e a quatro outras classificadas para apresentar
um plano de execução de serviços de produção de vídeo. Na manhã seguinte, os
concorrentes souberam que tinham sido retirados do processo. A AP, contudo,
entrou com um mandado de segurança para permanecer no páreo, mas Parente nem deu
bola. Revogou o pregão sob a justificativa de que a proposta da agência
vencedora era muito alta. Outra mentira: o edital publicado pelo tribunal
estabelecia o valor do contrato em 10 milhões de reais.
No site do TST, Parente ainda é apresentado como titular do cargo, fato que
ele reputa a um descuido do pessoal da área de informática da Casa. Na
sexta-feira 2, ainda entronizado no cargo que a lei o impede de ter, ele viajou
com o ministro Dalazen para o Rio de Janeiro, onde a dupla pretendia realizar um
evento a favor da prevenção de acidentes de trabalho no canteiro de obras do
Estádio do Maracanã.