Atilado membro do governo tentou esta semana, em roda de papo no Ponto de Cem Réis, justificar os denunciados exageros no consumo de lagosta, camarão, filé e outras carnes nobres que o contribuinte paraibano paga para saciar o apetite e o requintado paladar dos moradores da Granja Santana.
– Lá não só come a família do governador, não. Tem o pessoal da cozinha, da limpeza, da segurança... São mais de cem refeições por dia! – disse o camarada, indignado diante das críticas às presumíveis comilanças e outras mordomias financiadas com dinheiro público.
Pacato cidadão que ouvia atentamente a defesa da refinada gastronomiada residência oficial do Governador resolveu meter a colher na caldeirada. Com ar de inocência, aparentando ingenuidade pura, levantou uma lebre que deixou o defensor do luxo embatucado, além de aperreado e doido para mudar de assunto.
– Quer dizer então, Doutor, que o pessoal que trabalha na Granja também come lagosta, camarão, mero, filé mignon, lombo de bacalhau do porto, ou seja, tudo do bom e do melhor que é servido ao homem e à sua família, é? – quis saber o inconveniente.
O rapaz do governo não respondeu. Fez de conta que não era com ele. Mas Potinho de Veneno, presente ao debate, não perdeu tempo nem viagem. Cuidou de repreender o curioso na frente de todo mundo.
– Assim não dá, amigão. Tu vem aqui se entrosar no papo da gente e já estreia fazendo pergunta difícil... – disse, com aquele ar de riso quase imperceptível que acompanha suas maldades.
Regime de engorda
A propósito, Potinho de Veneno encontrou-se ontem com Gosto Ruim, que foi logo dando nota dos visíveis quilos a mais na silhueta do amigo.
– Qu’é isso, Veneno, estás dando pra engordar? – perguntou, com indisfarçável malícia. Claro que teve troco, no ato. Assim, no melhor estilo Potinho:
– Dando não, Gosto, mas comendo muito, comendo muito e bem. E tu aí, com inveja, por não ser convidado para comer na Granja. Onde você acha que ganhei peso?
Hino do novo bloco
Recebi de dois diferentes colaboradores duas versões distintas do hino do bloco ‘Quero morar na Granja’. As duas são boas paródias da famosa marchinha ‘Mamãe eu quero’. Uma delas já tem até clipe no Youtube e virou hit na Internet.
Sendo assim, adiante prefiro dar divulgação à letra menos conhecida. Ela será apresentada hoje à noite na Praça do Bispo, durante a concentração do Cafuçu, a mais irreverente das atrações do Folia de Rua da Capital paraibana.
Confiram a seguir, cantem e depois me digam se essa versão é ou não tão boa quanto a primeira.
Mamãe eu quero, mamãe eu quero,
Mamãe eu quero mamar!
Morar na Granja, morar na Granja,
Pois é na Granja que eu vou me esbaldar
Mamãe eu quero, mamãe eu quero,
Mamãe eu quero mamar!
Dá a chupeta! Dá a chupeta! Dá a chupeta
Dá a chupeta pro neném não chorar!
Lá tem muita lagosta e muito camarão
Por conta dos bestas, bota na conta do cão
A Granja é um paraíso que tem vista para o mar
Tem boquinha não, lá também quero morar
Mamãe eu quero, mamãe eu quero,
Mamãe eu quero mamar!
Morar na Granja, morar na Granja,
Pois é na Granja que eu vou me esbaldar
Um bloco concorrente?
Soube que tentaram anteontem à noite, no desfile das Muriçocas, emplacar um bloco contraponto ao ‘Quero morar na Granja’. Conforme me relatou Gosto Ruim, o novo bloco desfilou de camiseta laranja onde se podia ler, bem visível, uma frase dizendo assim: “Deixa o Mago trabalhar”.
“Esse bloco devia ser chamado de A Turma do Contracheque”, comentou Gosto, fazendo alusão aos participantes do tal bloco que seriam em sua maioria aspones e comissionados de determinado governo.
Já Potinho de Veneno, que pulou até cansar na Quarta-Feira de Fogo, garante que não viu o ‘Deixa o Mago trabalhar’ na avenida. Vestindo laranja ele diz que só viu mesmo o pessoal de um outro bloco do qual nem sabia da existência, mas o meu amigo garante que fez tanto sucesso quanto o ‘Quero morar na Granja’.
- E que bloco é esse Potinho? – perguntei.
- O nome é ‘Girassol não é flor que se cheire’ – informou, novamente fazendo aquele arzinho de riso com que diz e comete suas perversidades.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Mauro Santayana
11/01/2013
VIVO CONTRATA RATO E MANDA MAIS DE UM BILHÃO EM DIVIDENDOS PARA A EUROPA
Depois de pegar emprestados bilhões
de reais a juros subsidiados com o BNDES nos últimos anos, a Telefónica Brasil
(VIVO) aprovou, ontem, o pagamento de um bilhão, seiscentos e cinquenta milhões
de reais em dividendos, relativos apenas ao lucro auferido nos três primeiros
trimestres de 2012. Setenta e quatro por cento dessa quantia, ou o equivalente
a quase 500 milhões de euros, vai direto para a matriz, na
Espanha.
Quanto ao cabide de empregos do Conselho da Telefónica - lembram que essa foi uma das desculpas para a privatização das estatais, inclusive Telebras, na década de 90 ? - continua lindo.
Mal saiu Iñaki Undargarin, ex-jogador de basquete e genro do Rei Juan Carlos, o Caçador de Elefantes, acusado de corrupção e contratado por um milhão e quinhentos mil euros (quase 4 milhões de reais) por ano, como "conselheiro" para a América Latina, já entrou Rodrigo Rato, ex-presidente do FMI e sob investigação por fraude no banco estatal espanhol Bankia, que vai receber belíssima soma para atuar como "consultor externo" da multinacional espanhola, que, no Brasil, é comandada, há anos, por um ex-diretor da ANATEL.
Quanto ao cabide de empregos do Conselho da Telefónica - lembram que essa foi uma das desculpas para a privatização das estatais, inclusive Telebras, na década de 90 ? - continua lindo.
Mal saiu Iñaki Undargarin, ex-jogador de basquete e genro do Rei Juan Carlos, o Caçador de Elefantes, acusado de corrupção e contratado por um milhão e quinhentos mil euros (quase 4 milhões de reais) por ano, como "conselheiro" para a América Latina, já entrou Rodrigo Rato, ex-presidente do FMI e sob investigação por fraude no banco estatal espanhol Bankia, que vai receber belíssima soma para atuar como "consultor externo" da multinacional espanhola, que, no Brasil, é comandada, há anos, por um ex-diretor da ANATEL.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
O SUCESSO DO QUERO MORAR NA GRANJA
Coluna Rubens Nóbrega: O sucesso do quero morar na Granja
sexta-feira, 08 de fevereiro, 2013 - 09:05h
Do Informativo Semanal do Prof. Ernesto Germano Pares
• Só 3,7% dos
brasileiros acreditam na Justiça! O judiciário brasileiro vive a sua mais completa
falta de sintonia com a realidade social e com a própria sociedade. Caiu no
mais absoluto descrédito desde que passou a agir como estando acima da
sociedade. Recentes pesquisas de opinião indicam que apenas 3,7% da população
acredita na justiça. Outra pesquisa mostrou que até os advogados (93% dos
entrevistados) não estão contentes com o judiciário.
• Rafael Correa pode vencer no primeiro turno. Rafael Correa pode conquistar seu segundo mandato no
Equador já no primeiro turno, dia 17 de fevereiro. É o que mostra uma recente
pesquisa de opinião realizada pela empresa “Opinión Pública Ecuador”, realizada
entre os dias 26 e 27 de janeiro.
A pesquisa apontou Correa com 56% das intenções de
votos, seguido por Guillermo Lasso, com 13%. Os demais candidatos não chegam a
5% das intenções.
• Chile pede extradição de assassino que está vivendo nos EUA. A Corte Suprema do Chile ratificou nesta semana a
solicitação para que os EUA concretizem a extradição do oficial da reserva
chileno Pedro Pablo Barrientos, acusado de ser um dos autores materiais do
assassinato do cantor Victor Jara, em setembro de 1973. Com votação unânime,
cinco votos a favor e nenhum contra, a Segunda Sala Penal da Corte ratificou a
recomendação da Justiça para o pedido de extradição.
• Na Guatemala, julgamento
por genocídio e crime lesa humanidade. Começou nesta semana, na Guatemala, o
primeiro julgamento de sua história por genocídio e delitos de lesa humanidade.
Estão sendo julgados os ex-militares Efraín Ríos Montt e Mauricio Rodríguez,
acusados pelo Ministério Público de assassinar 1.771 indígenas da etnia maya
ixil.
“A sociedade guatemalteca
hoje é testemunha de um fato histórico, pela primeira vez em nosso país, é aberto
a julgamento o genocídio e os delitos contra a humanidade”, diz um comunicado
da Associação para a Justiça e Reconciliação (AJR) e o Centro para a Ação Legal
em Direitos Humanos (Caldh).
• França está em bancarrota! O anúncio foi feito pelo ministro Michel Sapin, ministro do Trabalho da
França! Ele fez o comentário em um programa de rádio e deixou o presidente
François Hollande em uma difícil situação para tentar desmentir o seu ministro
e acalmar o mercado.
“Há um Estado, mas um Estado que está em bancarrota.
Por isso tivemos que por em prática um plano de redução do déficit e não
podemos nos afastar disto”, teria dito Sapin.
• Na França, trabalhadores públicos param! Mais de cinco milhões de trabalhadores do setor público participaram do
movimento convocado pelas principais centrais sindicais francesas na quinta-feira
(31). Em comunicado oficial, as centrais sindicais dizem que os trabalhadores
já perderam mais de 10% do poder de compra na última década.
ACE - Acordo Coletivo Especial
Acordo Coletivo Especial: um “neocorporativismo”
Por IHU On-Line
“O sindicalismo combativo deixou de ser combativo quando assumiu uma postura
propositiva. Prioriza a luta econômica e corporativa – e é bem sucedido nessa
matéria – mas do ponto de vista político, não confronta o governo, nem o
patronato”, constata a socióloga.
Confira a entrevista.
“O sindicalismo propositivo e ‘cidadão’ é frágil justamente por isto: porque substitui a legislação universal pela legislação focalizada ou pelo ‘contrato entre as partes’ e porque assume a prestação de serviços relegados pelo Estado: intermediação de mão de obra, qualificação profissional etc.” É a partir dessa declaração que a socióloga Andréia Galvão comenta a iniciativa do sindicato dos metalúrgicos do ABC, que propõe um Acordo Coletivo Especial – ACE. Na avaliação dela, o ACE “constitui a retomada dos projetos de prevalência do negociado sobre o legislado, pois autoriza os sindicatos a negociar com as empresas acordos coletivos cujas cláusulas derrogam a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT”. Andréia Galvão, autora do livro “Neoliberalismo e reforma trabalhista no Brasil” (Rio de Janeiro: Revan, 2007), critica o argumento de que o ACE “promove a valorização da negociação coletiva e estimula a organização no local de trabalho”. Para ela, a argumentação “desconsidera que as próprias empresas podem aceitar e, até mesmo, estimular a organização no local de trabalho caso vislumbrem a possibilidade de utilizar os comitês sindicais para negociar e rebaixar os direitos trabalhistas”. O ACE expressa um “neocorporativismo”, que tem como característica um “comportamento diferenciado e exclusivista dos trabalhadores de setores mais fortes e organizados, que se destacam de um coletivo mais amplo (no caso, a categoria profissional) em defesa de seus interesses específicos”, frisa. Apesar de apontar a retomada das greves como um fator positivo do movimento sindical, a pesquisadora é enfática ao analisar a atuação sindical hoje. “O sindicalismo não luta efetivamente pela reversão do processo de flexibilização de direitos verificado nos anos 1990, não luta contra a lógica mercantil e individualizante propagada pelo neoliberalismo; assume a heterogeneização dos trabalhadores e a segmentação do mercado de trabalho como um dado e, com exceção da política de valorização do salário mínimo e da campanha pela redução da jornada para 40 horas semanais, não aproveita a conjuntura econômica favorável para pressionar o governo a consolidar e ampliar os direitos universais”, lamenta, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.
Andréia Galvão é graduada em Ciências Sociais pela Unicamp, possui mestrado em Ciência Política com a dissertação “Participação e fragmentação: a prática sindical dos metalúrgicos do ABC nos anos 90”, e doutorado em Ciências Sociais pela mesma universidade. Leciona no Departamento de Ciência Política da Unicamp, e é editora da revista Crítica Marxista. Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual é o balanço que faz dos dois mandatos do governo Lula e da primeira metade do governo Dilma para o conjunto dos trabalhadores?
Andréia Galvão – Essa pergunta tem que ser colocada em perspectiva histórica para que possa ser respondida. Quando comparados aos governos que lhes precederam, isto é, aos governos Collor e FHC, que introduziram e consolidaram o neoliberalismo no Brasil, o balanço é positivo no que se refere aos indicadores do mercado de trabalho. Os governos do PT empreenderam uma política de valorização do salário mínimo; retomaram a contratação de funcionários públicos – especialmente através da criação e ampliação de universidades federais, que também aumentaram a oferta de vagas no ensino superior para os jovens –; promoveram medidas para aumentar o crédito – ainda que por mecanismos questionáveis, como o crédito consignado, que interfere no princípio da intangibilidade dos salários –; aumentaram o montante de recursos e de beneficiários de políticas sociais, como o programa Bolsa Família. Esse conjunto de medidas contribuiu para a redução do desemprego e da informalidade, e para que as negociações empreendidas pelos sindicatos resultassem em ganhos reais de salário e em acordos coletivos com cláusulas favoráveis aos trabalhadores, como mostram os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese.
Diante da deterioração do mercado de trabalho e do combate aos direitos sociais e trabalhistas verificada na década de 1990, esses resultados não são desprezíveis e constituem uma das razões do apoio popular aos governos de Lula e Dilma. Mas, do ponto de vista dos direitos, os sinais são contraditórios: a defesa aberta da flexibilização de direitos deu lugar a uma defesa parcial e a uma reforma pontual da legislação trabalhista, voltada para públicos-alvo (primeiro emprego para jovens, contratação de serviços via “pessoa jurídica”, condições diferenciadas para trabalhadores de micro e pequenas empresas). Não se trata mais de uma medida geral, a exemplo de alterações no artigo 7º da Constituição ou da derrogação da lei pela negociação, apesar do recente projeto de Acordo Coletivo de Trabalho com Propósito Específico. Por outro lado, a terceirização continua a ser praticada, inclusive por órgãos governamentais; a reforma da previdência representou uma perda de direitos para os funcionários públicos, e as greves dos funcionários públicos recolocam em discussão propostas de limitação do direito de greve, o que produz impactos sociais e políticos negativos.
IHU On-Line – Para esse mesmo período, qual é o balanço que faz do movimento sindical, das centrais sindicais?
Andréia Galvão – Essa pergunta também requer a consideração de uma série de elementos para evitar uma resposta maniqueísta, que se reduza às alternativas positivo ou negativo. O governo Lula produziu uma maior divisão organizativa das organizações sindicais de cúpula, algumas das quais criadas devido a discordâncias com a política do governo e com a posição assumida pela CUT nesse contexto; outras, para se aproveitar dos benefícios, sobretudo financeiros, assegurados pela lei de reconhecimento das centrais. Esse dinamismo organizativo, porém, foi acompanhado por um processo de acomodação política, uma vez que as seis centrais sindicais que alcançaram o índice de representatividade entre 2008 e 2011 (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central Sindical de Trabalhadores e CGTB) apoiavam o governo.
Esse sindicalismo participa de órgãos tripartites; de mesas de negociação com o governo e, até mesmo, de ministérios (basta lembrar a participação de ex-dirigentes da CUT e da Força no Ministério do Trabalho); dedica-se à defesa dos interesses imediatos dos trabalhadores, tarefa facilitada pelas condições econômicas mais favoráveis a que me referi acima, mas, a despeito de uma certa recuperação dos indicadores de greve, pouco mobiliza sua base. É um sindicalismo que, a meu ver, prioriza a ação institucional. O sindicalismo de oposição (representado fundamentalmente pela CSP-Conlutas e pelas duas organizações intituladas intersindicais), por sua vez, tem dificuldades para organizar e mobilizar os trabalhadores devido aos indicadores positivos do mercado de trabalho e à consequente popularidade do governo.
IHU On-Line – O sindicalismo combativo do ABC dá sinais de esgotamento? Há uma prioridade na pauta economicista e corporativista em detrimento a uma pauta que incorpore conteúdo político?
Andréia Galvão – O sindicalismo combativo deixou de ser combativo quando assumiu uma postura propositiva. Prioriza a luta econômica e corporativa – e é bem sucedido nessa matéria – mas do ponto de vista político, não confronta o governo, nem o patronato: limita-se a reivindicações viáveis e críticas pontuais, e, por substituir a perspectiva de classe por uma perspectiva de cidadania muito frágil, adota uma perspectiva reformista superficial e conservadora.
Não é que sua pauta não incorpore um conteúdo político. O conteúdo político é dado por aquilo que cabe no projeto neodesenvolvimentista do governo: um neodesenvolvimentismo que revaloriza o papel do Estado e do investimento público, mas que é profundamente marcado pelo neoliberalismo. Assim, o sindicalismo não luta efetivamente pela reversão do processo de flexibilização de direitos verificado nos anos 1990, não luta contra a lógica mercantil e individualizante propagada pelo neoliberalismo, assume a heterogeneização dos trabalhadores e a segmentação do mercado de trabalho como um dado e, com exceção da política de valorização do salário mínimo e da campanha pela redução da jornada para 40 horas semanais, não aproveita a conjuntura econômica favorável para pressionar o governo a consolidar e ampliar os direitos universais. O sindicalismo propositivo e “cidadão” é frágil justamente por isto: porque substitui a legislação universal pela legislação focalizada ou pelo “contrato entre as partes” e porque assume a prestação de serviços relegados pelo Estado: intermediação de mão de obra, qualificação profissional etc.
IHU On-Line – A que atribui a mudança no sindicalismo, que assume uma postura mais negocial e menos confrontativa?
Andréia Galvão – Essa mudança vem se instituindo desde os anos 1990, devido a diversos fatores, dentre os quais gostaria de destacar dois: a intensificação dos processos de restruturação produtiva nas empresas e a vitória do projeto político neoliberal, contra o projeto democrático-popular então representado por Lula nas eleições de 1989. Essa derrota fez com que o PT e a CUT passassem por um processo de reconversão política e ideológica que levou ambas as organizações a assumir uma postura mais negociadora e a assimilar aspectos da ideologia neoliberal. Mas naquele momento a negociação esbarrava na oposição ao governo Collor e, mais intensamente, ao governo FHC. Com a vitória de Lula, essa perspectiva da negociação, da conciliação e da parceria entre capital e trabalho se aprofunda, já que o sindicalismo cutista passa a ter no governo um aliado.
IHU On-Line – Nesse contexto, como vê o Acordo Coletivo Especial – ACE, sugerido pelo sindicato dos metalúrgicos do ABC? Em que contexto esse acordo surge e por que ele é aceito por determinados sindicatos?
Andréia Galvão – O ACE constitui a retomada dos projetos de prevalência do negociado sobre o legislado, pois autoriza os sindicatos a negociar com as empresas acordos coletivos cujas cláusulas derrogam a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Para obter tal prerrogativa, os sindicatos devem demonstrar que representam mais da metade da categoria (em número de trabalhadores filiados) e manter um comitê sindical no interior da empresa com a qual pretendem negociar. Ora, segundo estimativas as mais otimistas, há 200 empresas com comitê sindical instalado em todo o país, o que mostra que apenas alguns sindicatos estariam em condições de se valer desse tipo de acordo. O sindicato dos metalúrgicos do ABC, que o elaborou, alega que o projeto promove a valorização da negociação coletiva e estimula a organização no local de trabalho. Esse argumento desconsidera que as próprias empresas podem aceitar e, até mesmo, estimular a organização no local de trabalho caso vislumbrem a possibilidade de utilizar os comitês sindicais para negociar e rebaixar os direitos trabalhistas. Ou seja, é grande o risco de precarização para os trabalhadores. Os sindicatos que defendem esse projeto são justamente aqueles que têm uma tradição de negociação estabelecida e força para eventualmente rever direitos que tenham sido negociados num contexto de crise. Mas e os demais?
IHU On-Line – Em que medida o Acordo Coletivo Especial – ACE aponta para um novo modelo de luta sindical?
Andréia Galvão – Não se trata exatamente de um novo modelo, uma vez que o sindicalismo propositivo vem sendo praticado desde o início da década de 1990, quando da assinatura dos primeiros acordos das câmaras setoriais no ABC. Esse sindicalismo constitui a expressão do neocorporativismo que, na tradição sindical brasileira, coexiste com o corporativismo estatal, na medida em que a unicidade sindical na base e as contribuições compulsórias garantidas por lei permanecem vigentes. O neocorporativismo exprime um comportamento diferenciado e exclusivista dos trabalhadores de setores mais fortes e organizados, que se destacam de um coletivo mais amplo (no caso, a categoria profissional) em defesa de seus interesses específicos. Consagra-se, dessa forma, a negociação por empresa, numa perspectiva de colaboração de classe.
IHU On-Line – Há novidades na luta sindical brasileira?
Andréia Galvão – Sim, há novidades. Destaco as greves em setores em que as condições de trabalho e a própria organização sindical são muito difíceis, como a construção civil; as greves deflagradas e mantidas a despeito da posição das lideranças, como as recentes greves dos professores das universidades federais, onde uma parte dos sindicatos é da base do Proifes, organização criada pelo governo Lula para se contrapor à Andes.
Retirado do site IHU On-Line.
“O sindicalismo propositivo e ‘cidadão’ é frágil justamente por isto: porque substitui a legislação universal pela legislação focalizada ou pelo ‘contrato entre as partes’ e porque assume a prestação de serviços relegados pelo Estado: intermediação de mão de obra, qualificação profissional etc.” É a partir dessa declaração que a socióloga Andréia Galvão comenta a iniciativa do sindicato dos metalúrgicos do ABC, que propõe um Acordo Coletivo Especial – ACE. Na avaliação dela, o ACE “constitui a retomada dos projetos de prevalência do negociado sobre o legislado, pois autoriza os sindicatos a negociar com as empresas acordos coletivos cujas cláusulas derrogam a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT”. Andréia Galvão, autora do livro “Neoliberalismo e reforma trabalhista no Brasil” (Rio de Janeiro: Revan, 2007), critica o argumento de que o ACE “promove a valorização da negociação coletiva e estimula a organização no local de trabalho”. Para ela, a argumentação “desconsidera que as próprias empresas podem aceitar e, até mesmo, estimular a organização no local de trabalho caso vislumbrem a possibilidade de utilizar os comitês sindicais para negociar e rebaixar os direitos trabalhistas”. O ACE expressa um “neocorporativismo”, que tem como característica um “comportamento diferenciado e exclusivista dos trabalhadores de setores mais fortes e organizados, que se destacam de um coletivo mais amplo (no caso, a categoria profissional) em defesa de seus interesses específicos”, frisa. Apesar de apontar a retomada das greves como um fator positivo do movimento sindical, a pesquisadora é enfática ao analisar a atuação sindical hoje. “O sindicalismo não luta efetivamente pela reversão do processo de flexibilização de direitos verificado nos anos 1990, não luta contra a lógica mercantil e individualizante propagada pelo neoliberalismo; assume a heterogeneização dos trabalhadores e a segmentação do mercado de trabalho como um dado e, com exceção da política de valorização do salário mínimo e da campanha pela redução da jornada para 40 horas semanais, não aproveita a conjuntura econômica favorável para pressionar o governo a consolidar e ampliar os direitos universais”, lamenta, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.
Andréia Galvão é graduada em Ciências Sociais pela Unicamp, possui mestrado em Ciência Política com a dissertação “Participação e fragmentação: a prática sindical dos metalúrgicos do ABC nos anos 90”, e doutorado em Ciências Sociais pela mesma universidade. Leciona no Departamento de Ciência Política da Unicamp, e é editora da revista Crítica Marxista. Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual é o balanço que faz dos dois mandatos do governo Lula e da primeira metade do governo Dilma para o conjunto dos trabalhadores?
Andréia Galvão – Essa pergunta tem que ser colocada em perspectiva histórica para que possa ser respondida. Quando comparados aos governos que lhes precederam, isto é, aos governos Collor e FHC, que introduziram e consolidaram o neoliberalismo no Brasil, o balanço é positivo no que se refere aos indicadores do mercado de trabalho. Os governos do PT empreenderam uma política de valorização do salário mínimo; retomaram a contratação de funcionários públicos – especialmente através da criação e ampliação de universidades federais, que também aumentaram a oferta de vagas no ensino superior para os jovens –; promoveram medidas para aumentar o crédito – ainda que por mecanismos questionáveis, como o crédito consignado, que interfere no princípio da intangibilidade dos salários –; aumentaram o montante de recursos e de beneficiários de políticas sociais, como o programa Bolsa Família. Esse conjunto de medidas contribuiu para a redução do desemprego e da informalidade, e para que as negociações empreendidas pelos sindicatos resultassem em ganhos reais de salário e em acordos coletivos com cláusulas favoráveis aos trabalhadores, como mostram os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese.
Diante da deterioração do mercado de trabalho e do combate aos direitos sociais e trabalhistas verificada na década de 1990, esses resultados não são desprezíveis e constituem uma das razões do apoio popular aos governos de Lula e Dilma. Mas, do ponto de vista dos direitos, os sinais são contraditórios: a defesa aberta da flexibilização de direitos deu lugar a uma defesa parcial e a uma reforma pontual da legislação trabalhista, voltada para públicos-alvo (primeiro emprego para jovens, contratação de serviços via “pessoa jurídica”, condições diferenciadas para trabalhadores de micro e pequenas empresas). Não se trata mais de uma medida geral, a exemplo de alterações no artigo 7º da Constituição ou da derrogação da lei pela negociação, apesar do recente projeto de Acordo Coletivo de Trabalho com Propósito Específico. Por outro lado, a terceirização continua a ser praticada, inclusive por órgãos governamentais; a reforma da previdência representou uma perda de direitos para os funcionários públicos, e as greves dos funcionários públicos recolocam em discussão propostas de limitação do direito de greve, o que produz impactos sociais e políticos negativos.
IHU On-Line – Para esse mesmo período, qual é o balanço que faz do movimento sindical, das centrais sindicais?
Andréia Galvão – Essa pergunta também requer a consideração de uma série de elementos para evitar uma resposta maniqueísta, que se reduza às alternativas positivo ou negativo. O governo Lula produziu uma maior divisão organizativa das organizações sindicais de cúpula, algumas das quais criadas devido a discordâncias com a política do governo e com a posição assumida pela CUT nesse contexto; outras, para se aproveitar dos benefícios, sobretudo financeiros, assegurados pela lei de reconhecimento das centrais. Esse dinamismo organizativo, porém, foi acompanhado por um processo de acomodação política, uma vez que as seis centrais sindicais que alcançaram o índice de representatividade entre 2008 e 2011 (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central Sindical de Trabalhadores e CGTB) apoiavam o governo.
Esse sindicalismo participa de órgãos tripartites; de mesas de negociação com o governo e, até mesmo, de ministérios (basta lembrar a participação de ex-dirigentes da CUT e da Força no Ministério do Trabalho); dedica-se à defesa dos interesses imediatos dos trabalhadores, tarefa facilitada pelas condições econômicas mais favoráveis a que me referi acima, mas, a despeito de uma certa recuperação dos indicadores de greve, pouco mobiliza sua base. É um sindicalismo que, a meu ver, prioriza a ação institucional. O sindicalismo de oposição (representado fundamentalmente pela CSP-Conlutas e pelas duas organizações intituladas intersindicais), por sua vez, tem dificuldades para organizar e mobilizar os trabalhadores devido aos indicadores positivos do mercado de trabalho e à consequente popularidade do governo.
IHU On-Line – O sindicalismo combativo do ABC dá sinais de esgotamento? Há uma prioridade na pauta economicista e corporativista em detrimento a uma pauta que incorpore conteúdo político?
Andréia Galvão – O sindicalismo combativo deixou de ser combativo quando assumiu uma postura propositiva. Prioriza a luta econômica e corporativa – e é bem sucedido nessa matéria – mas do ponto de vista político, não confronta o governo, nem o patronato: limita-se a reivindicações viáveis e críticas pontuais, e, por substituir a perspectiva de classe por uma perspectiva de cidadania muito frágil, adota uma perspectiva reformista superficial e conservadora.
Não é que sua pauta não incorpore um conteúdo político. O conteúdo político é dado por aquilo que cabe no projeto neodesenvolvimentista do governo: um neodesenvolvimentismo que revaloriza o papel do Estado e do investimento público, mas que é profundamente marcado pelo neoliberalismo. Assim, o sindicalismo não luta efetivamente pela reversão do processo de flexibilização de direitos verificado nos anos 1990, não luta contra a lógica mercantil e individualizante propagada pelo neoliberalismo, assume a heterogeneização dos trabalhadores e a segmentação do mercado de trabalho como um dado e, com exceção da política de valorização do salário mínimo e da campanha pela redução da jornada para 40 horas semanais, não aproveita a conjuntura econômica favorável para pressionar o governo a consolidar e ampliar os direitos universais. O sindicalismo propositivo e “cidadão” é frágil justamente por isto: porque substitui a legislação universal pela legislação focalizada ou pelo “contrato entre as partes” e porque assume a prestação de serviços relegados pelo Estado: intermediação de mão de obra, qualificação profissional etc.
IHU On-Line – A que atribui a mudança no sindicalismo, que assume uma postura mais negocial e menos confrontativa?
Andréia Galvão – Essa mudança vem se instituindo desde os anos 1990, devido a diversos fatores, dentre os quais gostaria de destacar dois: a intensificação dos processos de restruturação produtiva nas empresas e a vitória do projeto político neoliberal, contra o projeto democrático-popular então representado por Lula nas eleições de 1989. Essa derrota fez com que o PT e a CUT passassem por um processo de reconversão política e ideológica que levou ambas as organizações a assumir uma postura mais negociadora e a assimilar aspectos da ideologia neoliberal. Mas naquele momento a negociação esbarrava na oposição ao governo Collor e, mais intensamente, ao governo FHC. Com a vitória de Lula, essa perspectiva da negociação, da conciliação e da parceria entre capital e trabalho se aprofunda, já que o sindicalismo cutista passa a ter no governo um aliado.
IHU On-Line – Nesse contexto, como vê o Acordo Coletivo Especial – ACE, sugerido pelo sindicato dos metalúrgicos do ABC? Em que contexto esse acordo surge e por que ele é aceito por determinados sindicatos?
Andréia Galvão – O ACE constitui a retomada dos projetos de prevalência do negociado sobre o legislado, pois autoriza os sindicatos a negociar com as empresas acordos coletivos cujas cláusulas derrogam a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Para obter tal prerrogativa, os sindicatos devem demonstrar que representam mais da metade da categoria (em número de trabalhadores filiados) e manter um comitê sindical no interior da empresa com a qual pretendem negociar. Ora, segundo estimativas as mais otimistas, há 200 empresas com comitê sindical instalado em todo o país, o que mostra que apenas alguns sindicatos estariam em condições de se valer desse tipo de acordo. O sindicato dos metalúrgicos do ABC, que o elaborou, alega que o projeto promove a valorização da negociação coletiva e estimula a organização no local de trabalho. Esse argumento desconsidera que as próprias empresas podem aceitar e, até mesmo, estimular a organização no local de trabalho caso vislumbrem a possibilidade de utilizar os comitês sindicais para negociar e rebaixar os direitos trabalhistas. Ou seja, é grande o risco de precarização para os trabalhadores. Os sindicatos que defendem esse projeto são justamente aqueles que têm uma tradição de negociação estabelecida e força para eventualmente rever direitos que tenham sido negociados num contexto de crise. Mas e os demais?
IHU On-Line – Em que medida o Acordo Coletivo Especial – ACE aponta para um novo modelo de luta sindical?
Andréia Galvão – Não se trata exatamente de um novo modelo, uma vez que o sindicalismo propositivo vem sendo praticado desde o início da década de 1990, quando da assinatura dos primeiros acordos das câmaras setoriais no ABC. Esse sindicalismo constitui a expressão do neocorporativismo que, na tradição sindical brasileira, coexiste com o corporativismo estatal, na medida em que a unicidade sindical na base e as contribuições compulsórias garantidas por lei permanecem vigentes. O neocorporativismo exprime um comportamento diferenciado e exclusivista dos trabalhadores de setores mais fortes e organizados, que se destacam de um coletivo mais amplo (no caso, a categoria profissional) em defesa de seus interesses específicos. Consagra-se, dessa forma, a negociação por empresa, numa perspectiva de colaboração de classe.
IHU On-Line – Há novidades na luta sindical brasileira?
Andréia Galvão – Sim, há novidades. Destaco as greves em setores em que as condições de trabalho e a própria organização sindical são muito difíceis, como a construção civil; as greves deflagradas e mantidas a despeito da posição das lideranças, como as recentes greves dos professores das universidades federais, onde uma parte dos sindicatos é da base do Proifes, organização criada pelo governo Lula para se contrapor à Andes.
Retirado do site IHU On-Line.
IHU On-Line é um jornal da web
UM EXEMPLO DE COMO DEVE SER UM BISPO
90 anos de transformações na Igreja
Por IHU On-Line
“Num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são
florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de
fronteira estão empobrecidas”, declara bispo emérito de
Goiás.
Dom Tomás Balduíno, pertence a uma geração de bispos brasileiros que identifica na missão da Igreja uma transformação social. Ele esteve à frente da criação da Comissão Pastoral da Terra – CPT e do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, onde, ainda hoje, atua com bastante entusiasmo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Dom Tomás recorda sua trajetória na Igreja e enfatiza que a “CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín”. Para ele, tanto a CPT quanto o Cimi “trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia – na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs – para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles”. E conclui: “Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica”.
Poucos dias antes de completar 90 anos de idade, Dom Tomás Balduíno diz se sentir “livre”. “Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor”.
Depois de ter presenciado momentos difíceis na Igreja, como o período militar, Dom Tomás gosta de pensar o futuro da Igreja numa perspectiva de “esperança”. “O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei”, conclui. Dom Tomás Balduíno nasceu em 31 de dezembro de 1922 e no final do ano passado completou 90 anos. É teólogo católico, bispo emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem Dominicana.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quando e por que decidiu seguir a vida religiosa e entrar na Ordem Dominicana?
Dom Tomás Balduíno – Desde menino eu já tinha vontade de ser padre. Talvez por influência familiar dos tios padres por parte da minha mãe, ou de um tio padre por parte do meu pai. Na cidade onde morava, Formosa-GO, havia uma comunidade de religiosos dominicanos franceses. Admirava estes monges pela vida missionária deles, pelo sacrifício de rodar boa parte do estado de Goiás a cavalo. Então, me engajei na Igreja, e quando era adolescente fui encaminhado para o seminário, depois para o noviciado em Uberaba. Mais tarde estudei em São Paulo e cursei Filosofia; na França, mais tarde, estudei Teologia, porque faltam professores no Brasil. Nessa época tivemos uma influência interessante dos precursores do Concílio Vaticano II. Fui ordenado padre na França e, ao voltar ao Brasil, depois de um certo tempo de lecionar nas faculdades de Filosofia, meu provincial me designou para a missão indigenista. Esse foi o início de uma nova etapa. Não que eu escolhesse, mas fui levado a isso pelas circunstâncias, porque eu era o superior da missão e, a partir de um certo momento, na década de 1960, fui procurado pelos lavradores que estavam sendo pressionados pelos proprietários da terra no estado do Pará. Acabei me envolvendo com esse mundo. Depois também trabalhei com os povos indígenas. Tive mais contato com o povo Xikrin, do Alto do Itacaiúnas; aprendi a língua convivendo com eles.
Injustiça social
O que me marcou profundamente foi a questão da injustiça social no sentido de o governo do estado do Pará vender terras sem levar em conta a população que estava dentro daquele território. Houve conflitos e eu participei deles no início, porque depois fui transferido para Goiás, como bispo diocesano, onde fiquei durante 31 anos. Lá me deparei novamente com a questão da terra, porque é uma região de muito latifúndio, de dominação da elite dos Caiados. Nesse tempo que vivi em Goiás, ajudei a inaugurar duas fundações importantes para a Igreja e para a sociedade: o Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que foi substituindo pouco a pouco as antigas missões de caráter paternalista; e a Comissão Pastoral da Terra, que surgiu graças a Medellín e ao Concílio Vaticano II, nos anos de 1972 e 1973. O Cimi surgiu como opção pelos pobres, mas considerando os pobres como sujeitos, autores e destinatários de sua própria caminhada, como protagonistas de sua própria luta.
Quer dizer, mudou, naquele tempo, completamente a postura da Igreja com relação aos povos indígenas e com relação aos camponeses. As experiências que se tinham eram de criar organizações, confrarias de operários, trabalhadores rurais ligados religiosamente à Igreja. Na posição da Comissão Pastoral da Terra, que nasceu em 1975, houve uma revolução Copernicana, assim como houve no universo indígena Pastoral Indigenista de respeitar a condição de sujeito dos trabalhadores rurais e não objeto de nossa ação caritativa.
IHU On-Line – O senhor foi cofundador do Conselho Indigenista Missionário em 1972 e seu segundo presidente. Como avalia a questão indígena no país 40 anos depois?
Dom Tomás Balduíno – Houve avanço no sentido das organizações indígenas. O próprio Conselho Indigenista Missionário tem numa nova política de tratamento aos povos indígenas. Em vez de querer confiná-los em um determinado lugar pastoral, como era antigamente, sugeriu uma proposta – que no início nos chocou e depois se viu que era o “ovo de Colombo” – de favorecer assembleias de chefes de tribos diferentes. Tínhamos receio, porque eram tribos muitas vezes hostis entre si, mas constatamos que eles atenderam ao convite para se reunirem. Passamos a reunir chefes indígenas em assembleias, e eles saíam convictos de que o inimigo do índio nunca era outro índio, e que precisavam recuperar sua cultura e, consequentemente, as terras. Para isso, eles começaram a se organizar em diversas articulações, associações regionais e nacionais. Assim, do lado dos índios houve avanço e eles continuam avançando.
O retrocesso foi do lado do governo que, aliado aos grupos capitalistas do agro e hidronegócio, se negou a demarcar as terras indígenas e enfraqueceu o próprio organismo da Funai, sucateando, de outro lado, o Incra. A mesma falta de vontade para com os povos indígenas é a falta de vontade para com os camponeses em relação à reforma agrária.
IHU On-Line – Como começou seu trabalho na Comissão Pastoral da Terra – CPT? Em que contexto histórico e político ela surgiu e como vê sua atuação nos dias de hoje?
Dom Tomás Balduíno – A CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín. Havia um clima geral de entusiasmo dentro da própria igreja, na diocese, sobretudo nas congregações religiosas. Portanto, a CPT nasceu com a aceitação da Igreja, e tanto ela quanto o Cimi são pastorais de fronteira, diferentemente das outras pastorais litúrgicas, ecumênicas, bíblicas, de formação catequética ou presbiteral de seminaristas. A CPT e o Cimi trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles. Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica.
Mas essas pastorais mudaram no governo de João Paulo II. Houve um retrocesso dentro da Igreja, no sentido de desconfiança com relação a este mundo externo, essas pastorais, a própria Teologia da Libertação, que é fruto dessas duas pastorais. Então, a Igreja acompanhou um pouco, nesse movimento pendular, o fechamento das pastorais. A CPT chega a ser proibida em determinadas dioceses e isso mostra um pouco o clima que nós vivemos hoje.
Com relação ao seu trabalho, foi um trabalho samaritano, eu diria. O que fez o samaritano? Ele se inclinou diante do caído. Mas ela não criou uma instituição para recolher aquele caído e outros caídos; o levantou e no dia seguinte aquele caído já podia levantar outro caído. A CPT criou vários instrumentos. Quer dizer, na evolução da pastoral, percebeu que direitos humanos, terra e água são três prioridades. Para ajudar o pessoal da terra, ela criou um corpo de advogados, porque ela luta contra o latifúndio, contra o próprio Judiciário, contra todas as forças da elite para garantir o status quo, ao passo que os camponeses vinham trazer uma transformação, por exemplo, contra o latifúndio. Eles ocupavam a terra e o que fazia a CPT diante de toda a aula de legalidade da propriedade? Ela simplesmente apoiava as ocupações de terras numa nova perspectiva que, aliás, é constitucional de prioridade à função social da terra. Isso não era muito bem aceito, nem dentro da Igreja nem dentro da sociedade. O próprio poder Judiciário era muito preso às normas antigas de direitos absolutos à propriedade privada. Isso foi sendo quebrado. A CPT, em um tempo mais remoto, ajudou com agrônomos, porque muitas vezes o pessoal recuperava a terra, mas não sabia mais trabalhar.
IHU On-Line – Quais são as dificuldades de manter a CPT no Brasil e também dentro dos atuais rumos que a Igreja vem seguindo?
Dom Tomás Balduíno – Com relação à manutenção, a CPT está “ralada”, sem recurso. Ela sofre disso, porque desde o início foi apoiada com recursos externos da Europa. Mas devido à crise econômica e à diminuição no contingente católico, os recursos diminuíram. Outro fenômeno é que essas entidades entraram em convênio com o governo, e passaram a se deparar com exigências capitalistas. Então, a CPT está com esse desafio para resolver. Não se trata do fim ou da dissolução da CPT por faltas de recursos. Mas num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas.
IHU On-Line – Como o senhor se tornou bispo? Que aspecto destaca da sua atuação como bispo de Goiás?
Dom Tomás Balduíno – Eu era prelado – um padre com direitos de bispo – numa prelazia, que é uma área confiada a uma ordem religiosa. Fui parar em Goiás porque sou goiano. O povo cuidadosamente foi atrás do núncio e disse: “Nós queremos um bispo goiano!”. Ele olhou assim, no elenco deles, e me achou lá no sul do Pará. Eu fui então nomeado o bispo de Goiás, o bispo diocesano por pedido do povo. Muitos se arrependeram. (Risos)
IHU On-Line – Será?
Dom Tomás Balduíno – Eles queriam um goiano, mas de outro tipo.
IHU On-Line – Por quê?
Dom Tomás Balduíno – No meu episcopado, iniciado em 1967, propus fazer uma caminhada na linha do Concílio do Vaticano II. Foi interessante, porque era um momento de muito entusiasmo na Igreja como um todo, e eu comecei a receber voluntários de diversas partes do país, que iam para lá colaborar com esse trabalho. Temos um hospital na diocese, e médicos que tinham um futuro promissor em outras áreas deixaram suas carreiras para vir trabalhar aqui. Com isso, houve um fortalecimento da caminhada. Desde o início valorizamos a participação popular na Igreja, não a Igreja Clerical, reservada aos padres, aos religiosos, mas a Igreja Comunhão e Participação.
Iniciei meu episcopado no final de 1967, e no início de 1968 tivemos a convocação da Primeira Assembleia Diocesana. A maioria dos membros da Assembleia já era de leigos e pessoas das comunidades eclesiais de base. Então, você vê o que isso significa como revolução, como transformação. Claro que houve problemas, sobretudo em Goiás, onde há muita tradição das celebrações tradicionais. Eu esclareci que assumiria aquela pastoral do jeito que o povo queria.
Bispos
Como era um momento propício dentro da Igreja, nos ligamos a bispos de outras dioceses, com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Fernando Gomes dos Santos. Além das assembleias da CNBB, nós tínhamos um grupo informal de bispos, que tinha muita liberdade de sentar e chamar a assessoria, coisa que era muito difícil naquele tempo na assembleia dos bispos. Esse grupo informal se reunia com muita cautela, porque tudo era vigiado naquele tempo. Facilmente a polícia e o DOPS entravam em alguma reunião. Então, fazíamos as reuniões às sombras das assembleias da CNBB, que eram muito respeitadas. Isso ajudou a cada um de nós na nossa diocese, e ajudou a própria CNBB, até na escolha de seus presidentes. Não pensem que a aparição de Dom Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter caiu do céu; foi trabalho desse grupo.
IHU On-Line – Quais as dificuldades de atuar no período da ditadura? A Igreja esteve bastante dividida nesse período.
Dom Tomás Balduíno – Houve até apoio ao golpe, “porque nos livrou do comunismo sem derramamento de sangue”, diziam os próprios bispos. O sistema ditatorial tem muita tensão com a Igreja; um coronel inclusive declarou: “Nós conseguimos barrar os estudantes, silenciar a imprensa, está faltando só o púlpito das igrejas”. Nós sabíamos da resistência militar às nossas propostas, porque eram propostas não apenas de aprimoramento da pastoral interna da Igreja, mas de apoio às organizações populares. Segundo José de Souza Martins, o Golpe Militar de 1964 foi dado não exclusivamente, mas principalmente, para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas. Os militares achavam que através delas o comunismo internacional entraria no Brasil.
IHU On-Line – Como o senhor se sente hoje sendo bispo emérito depois de toda a sua atuação na Igreja?
Dom Tomás Balduíno – Me sinto muito livre. O bispo tem um grande espaço em que pode atuar dentro da Igreja. Isso é tradição, desde Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Irineu. Há bispos que eu reconheço, são tímidos, que, aliás, foram ordenados porque são mais piedosos, às vezes, medíocres. Então, depois de emérito, podemos dizer: “Ah, o bispo agora é general de pijama e não tem mais problemas”. Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal, sou membro do Concílio Ecumênico. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor.
Sou conselheiro da CPT nacional, e assessor do Cimi. Então, sou convidado a participar das assembleias, dos encontros, de maneira que estou presente. Quando mudei de Goiás e vim morar na casa de dominicano, trouxe minhas caixas, meus pertences de serviços, de utilidades, livros etc. Levei quatro meses para começar a abrir aquilo. Eu era chamado para todo o canto. Por isso muitas vezes eu digo, lembrando a palavra de Mandela: “Eu preciso aposentar da aposentadoria”. Mas, por outro lado, isso me estimula.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a situação de Dom Pedro Casaldáliga? E de outros bispos, como Dom Erwin, que também são ameaçados de morte pelo trabalho que desenvolvem?
Dom Tomás Balduíno – O Pedro para mim é um ícone. Ele me considera como padrinho, porque no dia em que ele ia responder a carta desistindo de ser bispo, conversou comigo e mudou de ideia. Ele me chamou no quarto e mostrou aquela carta. Eu falei na cara dele: “Olha, Pedro, eu não entendo você! Você aceitou ser prelado, pastor dessa Igreja como presbítero, e na hora de receber o sacramento, a consagração desse pastoreio, você recusa?”. Aí ele pensou um pouco mais, reuniu o pessoal, conversou e a resposta foi favorável. Por causa desse incidente, ele me considera como padrinho. Eu o considero como um verdadeiro irmão e exemplo para a minha vida. É um homem de uma vida extraordinária, uma profunda vida espiritual, mística, um profeta e também um poeta da melhor estirpe.
Pedro ultimamente deu apoio à entrada dos Xavantes na antiga fazenda Suiá-Missu, que estava ocupada por inúmeros fazendões. Mas graças a Deus o Judiciário deu ganho de causa aos Xavantes. Dom Pedro deu apoio, estímulo, e sempre cutucou o governo para não retroceder. O processo está caminhando firmemente. O que fizeram então? Ameaçaram Dom Pedro: “Esse aqui tem poucos dias para ser eliminado”. Então, Pedro está refugiado.
IHU On-Line – Que perspectiva vislumbra para a Igreja brasileira a partir de agora?
Dom Tomás Balduíno – A Igreja depende 99,9% do Papa. Então, o Concílio e o Pós-Concílio aconteceram graças primeiro a um papa, um homem extraordinário que foi colocado ali como transição. Ele revirou a igreja de pernas para o ar. O Concílio Vaticano II foi uma coisa notada não só nas Igrejas, mas também no mundo não cristão. Depois Paulo VI aplicou pacientemente o Concílio Vaticano II, e o papa João Paulo II trouxe outra perspectiva. Então, quando muda o Papa, muda tudo. Não tudo, porque a Igreja é plural. Mesmo com toda a perspectiva de unidade, ela é plural.
O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei. O futuro a Deus pertence. Mas tem potencial. E o potencial, a meu ver, aponta para outro rumo, não na linha da hierarquia, do clero, do masculino. Mas na linha do leigo e na valorização da mulher.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?
Dom Tomás Balduíno – Acho importante, com relação a esse conjunto que eu falei, a perspectiva de esperança diante de uma situação de muito sofrimento, de angústia e tristeza.
Sucedeu uma coisa na região da Serra da Mesa onde estão os Avá-Canoeiro: nasceu uma criança chamada Pantio. Fazia 22 anos que não nascia nenhuma criança naquela etnia, que é um grupo destinado à extinção. E, de repente, nasce o Pantio, uma linda criança. Isso tem um sabor de Natal, você não acha? Uma estrela que aponta um caminho bonito, um caminho de esperança, um caminho da boa nova, como aconteceu para os magos. Isso que eu queria colocar aqui como perspectiva. De onde se esperava a morte nasceu a vida. E essa vida não é só para os povos indígenas, não é só para o grupo Avá-Canoeiro, mas para todos nós, para o mundo todo. Amém!
Retirado do site IHU-OnLine.
Dom Tomás Balduíno, pertence a uma geração de bispos brasileiros que identifica na missão da Igreja uma transformação social. Ele esteve à frente da criação da Comissão Pastoral da Terra – CPT e do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, onde, ainda hoje, atua com bastante entusiasmo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Dom Tomás recorda sua trajetória na Igreja e enfatiza que a “CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín”. Para ele, tanto a CPT quanto o Cimi “trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia – na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs – para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles”. E conclui: “Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica”.
Poucos dias antes de completar 90 anos de idade, Dom Tomás Balduíno diz se sentir “livre”. “Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor”.
Depois de ter presenciado momentos difíceis na Igreja, como o período militar, Dom Tomás gosta de pensar o futuro da Igreja numa perspectiva de “esperança”. “O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei”, conclui. Dom Tomás Balduíno nasceu em 31 de dezembro de 1922 e no final do ano passado completou 90 anos. É teólogo católico, bispo emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem Dominicana.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quando e por que decidiu seguir a vida religiosa e entrar na Ordem Dominicana?
Dom Tomás Balduíno – Desde menino eu já tinha vontade de ser padre. Talvez por influência familiar dos tios padres por parte da minha mãe, ou de um tio padre por parte do meu pai. Na cidade onde morava, Formosa-GO, havia uma comunidade de religiosos dominicanos franceses. Admirava estes monges pela vida missionária deles, pelo sacrifício de rodar boa parte do estado de Goiás a cavalo. Então, me engajei na Igreja, e quando era adolescente fui encaminhado para o seminário, depois para o noviciado em Uberaba. Mais tarde estudei em São Paulo e cursei Filosofia; na França, mais tarde, estudei Teologia, porque faltam professores no Brasil. Nessa época tivemos uma influência interessante dos precursores do Concílio Vaticano II. Fui ordenado padre na França e, ao voltar ao Brasil, depois de um certo tempo de lecionar nas faculdades de Filosofia, meu provincial me designou para a missão indigenista. Esse foi o início de uma nova etapa. Não que eu escolhesse, mas fui levado a isso pelas circunstâncias, porque eu era o superior da missão e, a partir de um certo momento, na década de 1960, fui procurado pelos lavradores que estavam sendo pressionados pelos proprietários da terra no estado do Pará. Acabei me envolvendo com esse mundo. Depois também trabalhei com os povos indígenas. Tive mais contato com o povo Xikrin, do Alto do Itacaiúnas; aprendi a língua convivendo com eles.
Injustiça social
O que me marcou profundamente foi a questão da injustiça social no sentido de o governo do estado do Pará vender terras sem levar em conta a população que estava dentro daquele território. Houve conflitos e eu participei deles no início, porque depois fui transferido para Goiás, como bispo diocesano, onde fiquei durante 31 anos. Lá me deparei novamente com a questão da terra, porque é uma região de muito latifúndio, de dominação da elite dos Caiados. Nesse tempo que vivi em Goiás, ajudei a inaugurar duas fundações importantes para a Igreja e para a sociedade: o Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que foi substituindo pouco a pouco as antigas missões de caráter paternalista; e a Comissão Pastoral da Terra, que surgiu graças a Medellín e ao Concílio Vaticano II, nos anos de 1972 e 1973. O Cimi surgiu como opção pelos pobres, mas considerando os pobres como sujeitos, autores e destinatários de sua própria caminhada, como protagonistas de sua própria luta.
Quer dizer, mudou, naquele tempo, completamente a postura da Igreja com relação aos povos indígenas e com relação aos camponeses. As experiências que se tinham eram de criar organizações, confrarias de operários, trabalhadores rurais ligados religiosamente à Igreja. Na posição da Comissão Pastoral da Terra, que nasceu em 1975, houve uma revolução Copernicana, assim como houve no universo indígena Pastoral Indigenista de respeitar a condição de sujeito dos trabalhadores rurais e não objeto de nossa ação caritativa.
IHU On-Line – O senhor foi cofundador do Conselho Indigenista Missionário em 1972 e seu segundo presidente. Como avalia a questão indígena no país 40 anos depois?
Dom Tomás Balduíno – Houve avanço no sentido das organizações indígenas. O próprio Conselho Indigenista Missionário tem numa nova política de tratamento aos povos indígenas. Em vez de querer confiná-los em um determinado lugar pastoral, como era antigamente, sugeriu uma proposta – que no início nos chocou e depois se viu que era o “ovo de Colombo” – de favorecer assembleias de chefes de tribos diferentes. Tínhamos receio, porque eram tribos muitas vezes hostis entre si, mas constatamos que eles atenderam ao convite para se reunirem. Passamos a reunir chefes indígenas em assembleias, e eles saíam convictos de que o inimigo do índio nunca era outro índio, e que precisavam recuperar sua cultura e, consequentemente, as terras. Para isso, eles começaram a se organizar em diversas articulações, associações regionais e nacionais. Assim, do lado dos índios houve avanço e eles continuam avançando.
O retrocesso foi do lado do governo que, aliado aos grupos capitalistas do agro e hidronegócio, se negou a demarcar as terras indígenas e enfraqueceu o próprio organismo da Funai, sucateando, de outro lado, o Incra. A mesma falta de vontade para com os povos indígenas é a falta de vontade para com os camponeses em relação à reforma agrária.
IHU On-Line – Como começou seu trabalho na Comissão Pastoral da Terra – CPT? Em que contexto histórico e político ela surgiu e como vê sua atuação nos dias de hoje?
Dom Tomás Balduíno – A CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín. Havia um clima geral de entusiasmo dentro da própria igreja, na diocese, sobretudo nas congregações religiosas. Portanto, a CPT nasceu com a aceitação da Igreja, e tanto ela quanto o Cimi são pastorais de fronteira, diferentemente das outras pastorais litúrgicas, ecumênicas, bíblicas, de formação catequética ou presbiteral de seminaristas. A CPT e o Cimi trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles. Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica.
Mas essas pastorais mudaram no governo de João Paulo II. Houve um retrocesso dentro da Igreja, no sentido de desconfiança com relação a este mundo externo, essas pastorais, a própria Teologia da Libertação, que é fruto dessas duas pastorais. Então, a Igreja acompanhou um pouco, nesse movimento pendular, o fechamento das pastorais. A CPT chega a ser proibida em determinadas dioceses e isso mostra um pouco o clima que nós vivemos hoje.
Com relação ao seu trabalho, foi um trabalho samaritano, eu diria. O que fez o samaritano? Ele se inclinou diante do caído. Mas ela não criou uma instituição para recolher aquele caído e outros caídos; o levantou e no dia seguinte aquele caído já podia levantar outro caído. A CPT criou vários instrumentos. Quer dizer, na evolução da pastoral, percebeu que direitos humanos, terra e água são três prioridades. Para ajudar o pessoal da terra, ela criou um corpo de advogados, porque ela luta contra o latifúndio, contra o próprio Judiciário, contra todas as forças da elite para garantir o status quo, ao passo que os camponeses vinham trazer uma transformação, por exemplo, contra o latifúndio. Eles ocupavam a terra e o que fazia a CPT diante de toda a aula de legalidade da propriedade? Ela simplesmente apoiava as ocupações de terras numa nova perspectiva que, aliás, é constitucional de prioridade à função social da terra. Isso não era muito bem aceito, nem dentro da Igreja nem dentro da sociedade. O próprio poder Judiciário era muito preso às normas antigas de direitos absolutos à propriedade privada. Isso foi sendo quebrado. A CPT, em um tempo mais remoto, ajudou com agrônomos, porque muitas vezes o pessoal recuperava a terra, mas não sabia mais trabalhar.
IHU On-Line – Quais são as dificuldades de manter a CPT no Brasil e também dentro dos atuais rumos que a Igreja vem seguindo?
Dom Tomás Balduíno – Com relação à manutenção, a CPT está “ralada”, sem recurso. Ela sofre disso, porque desde o início foi apoiada com recursos externos da Europa. Mas devido à crise econômica e à diminuição no contingente católico, os recursos diminuíram. Outro fenômeno é que essas entidades entraram em convênio com o governo, e passaram a se deparar com exigências capitalistas. Então, a CPT está com esse desafio para resolver. Não se trata do fim ou da dissolução da CPT por faltas de recursos. Mas num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas.
IHU On-Line – Como o senhor se tornou bispo? Que aspecto destaca da sua atuação como bispo de Goiás?
Dom Tomás Balduíno – Eu era prelado – um padre com direitos de bispo – numa prelazia, que é uma área confiada a uma ordem religiosa. Fui parar em Goiás porque sou goiano. O povo cuidadosamente foi atrás do núncio e disse: “Nós queremos um bispo goiano!”. Ele olhou assim, no elenco deles, e me achou lá no sul do Pará. Eu fui então nomeado o bispo de Goiás, o bispo diocesano por pedido do povo. Muitos se arrependeram. (Risos)
IHU On-Line – Será?
Dom Tomás Balduíno – Eles queriam um goiano, mas de outro tipo.
IHU On-Line – Por quê?
Dom Tomás Balduíno – No meu episcopado, iniciado em 1967, propus fazer uma caminhada na linha do Concílio do Vaticano II. Foi interessante, porque era um momento de muito entusiasmo na Igreja como um todo, e eu comecei a receber voluntários de diversas partes do país, que iam para lá colaborar com esse trabalho. Temos um hospital na diocese, e médicos que tinham um futuro promissor em outras áreas deixaram suas carreiras para vir trabalhar aqui. Com isso, houve um fortalecimento da caminhada. Desde o início valorizamos a participação popular na Igreja, não a Igreja Clerical, reservada aos padres, aos religiosos, mas a Igreja Comunhão e Participação.
Iniciei meu episcopado no final de 1967, e no início de 1968 tivemos a convocação da Primeira Assembleia Diocesana. A maioria dos membros da Assembleia já era de leigos e pessoas das comunidades eclesiais de base. Então, você vê o que isso significa como revolução, como transformação. Claro que houve problemas, sobretudo em Goiás, onde há muita tradição das celebrações tradicionais. Eu esclareci que assumiria aquela pastoral do jeito que o povo queria.
Bispos
Como era um momento propício dentro da Igreja, nos ligamos a bispos de outras dioceses, com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Fernando Gomes dos Santos. Além das assembleias da CNBB, nós tínhamos um grupo informal de bispos, que tinha muita liberdade de sentar e chamar a assessoria, coisa que era muito difícil naquele tempo na assembleia dos bispos. Esse grupo informal se reunia com muita cautela, porque tudo era vigiado naquele tempo. Facilmente a polícia e o DOPS entravam em alguma reunião. Então, fazíamos as reuniões às sombras das assembleias da CNBB, que eram muito respeitadas. Isso ajudou a cada um de nós na nossa diocese, e ajudou a própria CNBB, até na escolha de seus presidentes. Não pensem que a aparição de Dom Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter caiu do céu; foi trabalho desse grupo.
IHU On-Line – Quais as dificuldades de atuar no período da ditadura? A Igreja esteve bastante dividida nesse período.
Dom Tomás Balduíno – Houve até apoio ao golpe, “porque nos livrou do comunismo sem derramamento de sangue”, diziam os próprios bispos. O sistema ditatorial tem muita tensão com a Igreja; um coronel inclusive declarou: “Nós conseguimos barrar os estudantes, silenciar a imprensa, está faltando só o púlpito das igrejas”. Nós sabíamos da resistência militar às nossas propostas, porque eram propostas não apenas de aprimoramento da pastoral interna da Igreja, mas de apoio às organizações populares. Segundo José de Souza Martins, o Golpe Militar de 1964 foi dado não exclusivamente, mas principalmente, para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas. Os militares achavam que através delas o comunismo internacional entraria no Brasil.
IHU On-Line – Como o senhor se sente hoje sendo bispo emérito depois de toda a sua atuação na Igreja?
Dom Tomás Balduíno – Me sinto muito livre. O bispo tem um grande espaço em que pode atuar dentro da Igreja. Isso é tradição, desde Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Irineu. Há bispos que eu reconheço, são tímidos, que, aliás, foram ordenados porque são mais piedosos, às vezes, medíocres. Então, depois de emérito, podemos dizer: “Ah, o bispo agora é general de pijama e não tem mais problemas”. Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal, sou membro do Concílio Ecumênico. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor.
Sou conselheiro da CPT nacional, e assessor do Cimi. Então, sou convidado a participar das assembleias, dos encontros, de maneira que estou presente. Quando mudei de Goiás e vim morar na casa de dominicano, trouxe minhas caixas, meus pertences de serviços, de utilidades, livros etc. Levei quatro meses para começar a abrir aquilo. Eu era chamado para todo o canto. Por isso muitas vezes eu digo, lembrando a palavra de Mandela: “Eu preciso aposentar da aposentadoria”. Mas, por outro lado, isso me estimula.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a situação de Dom Pedro Casaldáliga? E de outros bispos, como Dom Erwin, que também são ameaçados de morte pelo trabalho que desenvolvem?
Dom Tomás Balduíno – O Pedro para mim é um ícone. Ele me considera como padrinho, porque no dia em que ele ia responder a carta desistindo de ser bispo, conversou comigo e mudou de ideia. Ele me chamou no quarto e mostrou aquela carta. Eu falei na cara dele: “Olha, Pedro, eu não entendo você! Você aceitou ser prelado, pastor dessa Igreja como presbítero, e na hora de receber o sacramento, a consagração desse pastoreio, você recusa?”. Aí ele pensou um pouco mais, reuniu o pessoal, conversou e a resposta foi favorável. Por causa desse incidente, ele me considera como padrinho. Eu o considero como um verdadeiro irmão e exemplo para a minha vida. É um homem de uma vida extraordinária, uma profunda vida espiritual, mística, um profeta e também um poeta da melhor estirpe.
Pedro ultimamente deu apoio à entrada dos Xavantes na antiga fazenda Suiá-Missu, que estava ocupada por inúmeros fazendões. Mas graças a Deus o Judiciário deu ganho de causa aos Xavantes. Dom Pedro deu apoio, estímulo, e sempre cutucou o governo para não retroceder. O processo está caminhando firmemente. O que fizeram então? Ameaçaram Dom Pedro: “Esse aqui tem poucos dias para ser eliminado”. Então, Pedro está refugiado.
IHU On-Line – Que perspectiva vislumbra para a Igreja brasileira a partir de agora?
Dom Tomás Balduíno – A Igreja depende 99,9% do Papa. Então, o Concílio e o Pós-Concílio aconteceram graças primeiro a um papa, um homem extraordinário que foi colocado ali como transição. Ele revirou a igreja de pernas para o ar. O Concílio Vaticano II foi uma coisa notada não só nas Igrejas, mas também no mundo não cristão. Depois Paulo VI aplicou pacientemente o Concílio Vaticano II, e o papa João Paulo II trouxe outra perspectiva. Então, quando muda o Papa, muda tudo. Não tudo, porque a Igreja é plural. Mesmo com toda a perspectiva de unidade, ela é plural.
O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei. O futuro a Deus pertence. Mas tem potencial. E o potencial, a meu ver, aponta para outro rumo, não na linha da hierarquia, do clero, do masculino. Mas na linha do leigo e na valorização da mulher.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?
Dom Tomás Balduíno – Acho importante, com relação a esse conjunto que eu falei, a perspectiva de esperança diante de uma situação de muito sofrimento, de angústia e tristeza.
Sucedeu uma coisa na região da Serra da Mesa onde estão os Avá-Canoeiro: nasceu uma criança chamada Pantio. Fazia 22 anos que não nascia nenhuma criança naquela etnia, que é um grupo destinado à extinção. E, de repente, nasce o Pantio, uma linda criança. Isso tem um sabor de Natal, você não acha? Uma estrela que aponta um caminho bonito, um caminho de esperança, um caminho da boa nova, como aconteceu para os magos. Isso que eu queria colocar aqui como perspectiva. De onde se esperava a morte nasceu a vida. E essa vida não é só para os povos indígenas, não é só para o grupo Avá-Canoeiro, mas para todos nós, para o mundo todo. Amém!
Retirado do site IHU-OnLine.
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