terça-feira, 17 de março de 2015


 

16/03/2015 - Copyleft

'Este país está mais forte do que nunca', afirma Dilma após protestos

A presidenta disse que está disposta a dialogar com toda a sociedade e que 'não há setores acima de quaisquer suspeitas.'


Najla Passos
Um dia após os protestos que sacudiram o país e levaram milhares de brasileiros às ruas, a presidenta Dilma Rousseff afirmou, durante a cerimônia de sanção do novo texto do Código de Processo Civil, no Palácio do Planalto, que a democracia pela qual sempre lutou segue firme  no Brasil.

“Ontem quando vi, como ocorreu na sexta, centenas de milhares de cidadãos se manifestando nas ruas, não pude deixar de pensar e tenho certeza que muitos concordam comigo: valeu a pena lutar pela liberdade, pela democracia. Este país está mais forte que nunca”, observou.

Segundo a presidenta, a maturidade democrática garante o direito às manifestações sem violência e sem intolerância, ainda que contrárias ao seu governo. E admitiu que é obrigação do governo ouvir a todos.

“O meu compromisso é governar para os 203 milhões de brasileiros. Sejam os que me elegeram, sejam os que não votaram em mim. Sejam os que participam das manifestações, sejam os que não participam”, acrescentou.

Em coletiva à imprensa, ela adotou um tom humilde e disse estar aberta a dialogar com todos os setores da sociedade. Mas ressaltou que, para dialogar, é preciso que haja disposição também do outro lado.

E não se rendeu à tentativa de alguns jornalistas de insuflá-la a fazer uma espécie de mea culpa pública, admitindo para si a responsabilidade tanto pela crise política quanto pela corrupção no país. Segundo a presidenta, é preciso ter claro que a corrupção no Brasil não nasceu hoje.

“Ela é uma senhora bastante idosa neste país e não poupa ninguém. Ela pode estar em qualquer área, inclusive no setor privado. Não vamos achar que tem qualquer segmento acima de qualquer suspeita", alfinetou.

Dilma reafirmou que irá enviar nos próximos dias ao Congresso o pacote de medidas de combate à corrupção que havia prometido nas eleições, conforme já avia anunciado o ministro José Eduardo Cardoso.

De acordo com a presidenta, esta é a pauta das ruas que está em acordo com as diretrizes do seu governo. O desacordo seria em relação ao ajuste fiscal que, apesar de rejeitado pelos movimentos sociais, ela defendeu com rigor e didatismo jamais vistos.

A presidenta explicou que, nos últimos quatro anos, o governo usou todas as estratégias possíveis para absorver o custo da crise e não repassá-lo à população. Entretanto, lembrou que, como a crise continua e as condições climáticas não favorecem, os recursos estão se esgotando. “É por isso que defendo as medidas fiscais com tanta paixão”, esclareceu.

Ela também ressaltou a necessidade urgente da reforma política tão aclamada pelas ruas. Segundo Dilma, essa ampla reforma política deve ser feita com a participação da sociedade, mas no ambiente institucional correto, que é o congresso nacional.

O chão firme que resta ao governo

O chão firme que resta ao governo


O governo não pode mais negligenciar aqueles que demonstram responsabilidade política e querem renegociar a transição em curso no país.
Saul Leblon

Não há muito tempo, nem são tantas as opções assim. Os dados na mesa estão cada vez mais claros.

Eles exigem opções estruturais e coragem política para adotá-las.

O banho-maria já não alivia a pressão da caldeira.

O governo precisa negociar o futuro do país.

E fazê-lo dentro de certos critérios de bom senso histórico.

É preciso negociar com o país que ainda quer conversar sobre soluções coletivas  para os desafios nacionais.

Com o país que ainda se dispõe a erguer as linhas de passagem racionais e necessárias para a reordenação do seu crescimento e a capacitação da democracia, a quem caberá, afinal, ordenar e escrutinar a transição de ciclo econômico em marcha, determinada substancialmente pela desordem neoliberal reinante no mundo.

O governo teve entre sexta-feira e domingo um painel vivo do conflito latejante no tabuleiro.

Um conflito que ganha nitidez vertiginosa entre os que ainda querem e os que não parecem ver mais sentido em uma conversa democrática, liderada pela Presidenta reeleita com 54 milhões de votos.


Duas massivas manifestações tiveram lugar no mesmo palco simbólico da luta pelo poder no Brasil.

A plutocrática Avenida Paulista, em São Paulo, tem menos de três quilômetros.

Mas condensa o poder dos bancos e das entidades empresariais, projetando-se, ademais, como um território cultural simbólico da elite derrotada em outubro de 2014.

Na sexta-feira marcharam os rostos do Brasil que vive nas periferias e ocupa os degraus de baixo da pirâmide de renda.

Foram tratados e olhados como marcianos pela mídia e por aqueles que veem em cada passo da iniciativa popular no país – do Bolsa Família, ao Mais Médicos, passando por uma passeata ou greve - as dores do parto de uma nova Cuba irrompendo do asfalto de sua pista de bike.

A crescente intolerância com essa dimensão nova da política brasileira manifesta-se no esforço de manter invisível, ilegítimo e subestimado o peso desse protagonista numericamente majoritário da sociedade.

A dificuldade cognitiva em enxergá-lo exceto nas funções subalternas é tão arraigada e difundida que a cada derrota eleitoral dos candidatos da elite o país vive um terceiro turno virulento dos inconformados.

Não por acaso, a presença desse Brasil invisível na Paulista na sexta, 13, foi reduzida à quarta parte da sua presença real pela Política Militar do governo tucano paulista e pela Globo.

‘Gente paga’, acusou o inconformismo de muitos daqueles que no domingo, tingiram a mesma avenida com uma massa colossal de rosto e demanda distintos.

A mesma dobradinha policial midiática que reduziu a um quarto os 41 mil manifestantes da sexta, segundo o Datafolha, multiplicou por cinco os 210 mil presentes ali no domingo, estimados pelo mesmo instituto de pendores sabidos.

Não se trata apenas de uma casquinha estatística.

Trata-se de criar comoção.

Aquela reação que desautoriza e abastarda a razão, a reflexão e a política e, portanto, qualquer outra opinião em contrário que desafie a ‘unanimidade esmagadora’ da sociedade – conceito que em si choca o ovo da serpente.

Foi o que fez a emissão conservadora durante todo o domingo em flashes desde cedo que rastreavam o país em busca de acepipes para motivar o deslocamento da classe média paulista à praça da apoteose.

O 'vem para a rua' conservador teve a partir da tarde o impulso fundamental do bate-bola entre as redes de televisão e a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Em menos de duas horas, no afã de lotar o palco, a PM de Alckmin e a Globo multiplicaram por quatro o seu próprio exagero: de anunciados 240 mil pessoas na Paulista, por volta das 15h, mais que dobraram o contingente meia hora depois, para 580 mil e, na sequência, em escalada fulminante para dobrar de joelhos qualquer relutância, com perceptível sofreguidão nas vozes de um entusiasmo explicito, saltaram para a marca almejada: ‘mais de um milhão na Paulista nesse momento’.

Só então sossegaram, trocando passes para consolidar o ‘consenso’ em repetições autocomemorativas.

Orson Wells fez algo parecido em 1938, quando os recursos disponíveis eram substancialmente inferiores aos atuais.

Em 30 de outubro a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu a grade musical repentinamente para noticiar uma invasão de marcianos.

A ‘notícia’ transmitida com requintes de realismo assustador era a primeira frase de um radio-teatro de ficção científica ‘A Guerra dos Mundos’.

A CBS manteria o assunto no ar durante 60 minutos como se fosse verdade.

A narrativa tensa entrelaçada de flashes em espiral apavorante informava a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, em Nova Jersey.

A coisa se tornou ‘viral’, como se diz hoje se consolidando como um marco no exercício de manipulação da opinião pública pela mídia – razão pela qual seu poder precisa ser regularizado com o antígeno da pluralidade, que os barões do oligopólio local chamam ironicamente de ‘bolivarianismo’.

A peça radiofônica de 1938, que gerou comoção e fuga em massa para locais não ‘atacados’, induzidos pela CBS, ficou conhecida como a ‘radiofonia do pânico’ ou a ‘emissão do pânico".

O que esse episódio evidenciou com notável realismo é que a emissão do pânico não torna uma sociedade vulnerável apenas a marcianos.

O peso político dos consensos manipulados pode ter efeitos desastrosos na trajetória de uma Nação.

A história do Brasil mostra isso.

O acervo do Ibope guardado no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, reúne pesquisas de opinião pública feitas às vésperas do golpe de 1964.

Os dados cuidadosamente ocultados naqueles dias assumem incontornável atualidade cotejados com a ação do aparato midiático nas horas que correm.

Enquetes levadas às ruas entre os dias 20 e 30 de março de 1964, quando a democracia já era tangida ao matadouro pelos que bradavam em sua defesa e contra a corrupção, mostram que:

a) 69% dos entrevistados avaliavam o governo Jango como ótimo (15%), bom (30%) e regular (24%); b) apenas 15% o consideravam ruim ou péssimo, fazendo eco do que afirmavam os jornais; c) 49,8% cogitavam votar em Jango, caso ele se candidatasse à reeleição em 1965; d) 41,8% rejeitavam essa opção; d) 59% apoiavam as medidas anunciadas pelo Presidente na famosa sexta-feira, 13 de março  (em comício que reuniu 150 mil pessoas na Central do Brasil Jango assinaria decretos que expropriavam as terras às margens das rodovias para fins de reforma agrária, nacionalizara  refinarias de petróleo e cogitara plebiscitos para autorizar o voto dos analfabetos, ademais de promover uma reforma política – ele que, como Dilma, era refém de um Congresso conservador).

As pesquisas sigilosas do Ibope formam o contrapelo estatístico de um jornalismo que ocultou elementos da equação política, convocou, exortou, manipulou, orientou e criou a comoção necessária à legitimação da derrubada violenta do Presidente da República, em 31 de março de 1964.

Em editorial escrito com a tintura do cinismo, um dos centuriões daquelas jornadas, o diário O Globo, fez recentemente a autocrítica esperta de sua participação na ficção política em que os marcianos eram os comunistas cubanos.

O Globo lamenta agora o apoio explícito ao golpe de Estado, mas justifica a violência institucional: era inevitável, afirma, diante do quadro caótico e extremado vivido então.

O editorial da família Marinho omite a sua decisiva participação na semeadura do pânico caótico e extremado vivido então.

A comoção inoculada  no imaginário  brasileiro  nesse momento - leiam as manchetes de qualquer jornal e listem a coluna das perdas e danos - é anterior ao consenso estatístico criada pela invasão de ‘mais de um milhão’ na Paulista - troco arredondado para ‘Milhões contra Dilma e a corrupção’, no site do Globo nesta 2ª feira.

Dilma e o PT não tiveram o apoio da classe média da Paulista nas urnas de outubro.

Não há razão para acreditar que o teriam agora em um quadro em que, sem a neutralidade do horário eleitoral para argumentar, o governo se resigna a entrevistas de ministros convocadas na verdade pela mídia para repercutir suas manchetes do dia anterior.

O agravamento da crise, com a escalada do dólar que atingiu o nervo não negligenciável de um segmento cuja pátria é o turismo internacional, ademais de elevar o custo de vida e o risco do desemprego, tudo isso foi habilmente martelado pela mídia para desaguar na catarse anticorrupção que energizou o milhão de domingo e os milhões da segunda-feira ‘contra Dilma’. 

Em time que está ganhando em saltos de mil para milhão e de milhão para milhões em um átimo de tempo, não há razões para se acreditar em mudança.

Quem precisa mudar é o governo.

Sua margem de manobra se estreita, ou melhor, ganha a nitidez prática que o bom senso político já advertia antes das eleições.

A nitidez mostra um governo sem canal de comunicação com a sociedade sendo encostada na parede por uma parte dela, para ‘atender’ a uma demanda de natureza difusa, irracional e de ultimato.

A agenda da comoção cobra de Brasília uma plataforma que não reserva outro espaço ao exercício da política que não a derrubada do governo.

Se não, vejamos.

A reforma política proposta para atacar a corrupção pela raiz, com o fim do financiamento privado de campanha, é tratada como ‘embromação’, no douto dizer de um ‘analista’ isento do jornal Valor nesta 2ª feira.

A austeridade ortodoxa – exigida pelo conservadorismo — e concedida pelo governo é diuturnamente classificada como ‘insuficiente’, ao mesmo tempo em que se difunde o terror diante das consequências negativas que as medidas já tomadas acarretam à sociedade (desemprego com inflação em alta, dólar mais caro e juros siderais).

Mas não, ‘Dilma não assumiu o ajuste’ e, ao mesmo tempo, ‘ as medidas do ajuste já sinalizam a recessão’, regurgitam colunistas do glorioso jornalismo de economia, auto mandatados para o exercício militante da incoerência.

As tímidas tentativas do Planalto de fazer o que o PT deveria ter  providenciado imediatamente após as eleições ou, melhor ainda, durante a campanha, ou seja, uma repactuação do país para a transição rumo a um novo ciclo de desenvolvimento são respondidas de forma peremptória pelo PSDB.

‘Não é hora de afastar Dilma nem de pactuar’, sentenciou o pavão Fernando Henrique Cardoso, assessorado pelo galo de briga das caçarolas de cobre, Aloysio Nunes Ferreira, ‘Eu quero sangrar a Dilma (para evitar Lula em 2018)’.

O que sobra, então, para traduzir as ruas em exercício político da democracia?

O impasse criado por quem insufla um milhão, ou ‘milhões’, mas não oferece alternativas críveis, exceto o sangramento de sua conveniência, costuma ser resolvido na história latino-americana da forma que sabemos.

Os selfies multiplicados na Paulista neste domingo no reencontro idílico entre uma classe média de sabidas tradições e integrantes da tropa de choque de Alckmin, evidenciam o terreno fértil à prática dessa lavoura regional.

Voltamos assim ao preâmbulo da nota publicada neste espaço na sexta-feira, após a manifestação do ‘tostão’, segundo a mídia, no mesmo palco do ‘milhão’ de domingo.

O que se dizia ali é que, se há aprendizado em política, o governo não poderia mais  ignorar o que ali se evidenciou.

O que se evidenciou ali é que existe – ainda - uma base social maior talvez do que o próprio governo supõe,  que transgrediu todas as dificuldades impostas (não só pela mídia, mas pelo PT, que se omitiu, e por Brasília, que titubeou e ficou distante) para ir ao templo das elites e ali promover uma passeata dos 50 mil tostões, antes da blitzkrieg estatística do domingo.

No altar do dinheiro e da elite paulistana, rostos, roupas e vidas de recorte predominantemente humilde - tudo muito distinto da bem nutrida alegoria do domingo - deixariam ali um recado que nem o temporal copioso do dia, nem o aluvião midiático posterior conseguiriam apagar: ‘Temos críticas, temos restrições, temos exigências e temos propostas. Mas queremos negociar com o governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma’, diziam as faces de seriedade algo apreensiva debaixo da chuva inclemente.

Ainda há tempo de Brasília ouvir o recado.

O governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma necessita, de forma urgente, negociar a repactuação do país com o futuro.

Até para tornar compreensível e tolerável as restrições do presente, que são reais.

Precisa ter um interlocutor credenciado para construir essa ponte em nome da Presidenta, com legitimidade e força política incontestável.

E precisa começar procurando quem quer conversar.

Mas, sobretudo, quem demonstra responsabilidade e discernimento político para se oferecer como um chão firme alternativo à ‘emissão do caos e do pânico’.

Esse que, infelizmente, não leva apenas a um domingão de selfies com centuriões da tropa de choque na Avenida Paulista.

Ou o governo reconhece esse interlocutor e mexe no tabuleiro do xadrez com as peças que se dispõem a permanecer no jogo democrático, e de lance em lance altera a rigidez das demais, ou o governo será tomado ele próprio por uma rigidez cadavérica.
 
Aquela a partir da qual o xeque-mate é uma questão de tempo.


A dúvida conservadora: sangrar o Brasil até onde?

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A DÚVIDA CONSERVADORA: SANGRAR O BRASIL ATÉ ONDE?
A elite sangrou a reforma agrária, sangrou a Vale do Rio Doce, sangrou o salário mínimo, sangrou a CPMF, agora promete travar as mandíbulas na jugular de Dilma.
Saul Leblon
Os que hoje se avocam depuradores da nação entendem do riscado. Eles sangraram Getúlio em 54; sangraram a reforma agrária em 1964; sangraram a Petrobras em 1997; sangraram a Vale do Rio Doce; sangraram o salário mínimo por décadas; sangraram o BNDES; sangraram a Lei de Remessa de Lucros; sangraram a CPMF em 2006; sangrariam Lula em 2005 (se ele não reagisse). Sangram até hoje a Constituição de 88 que, no capítulo das comunicações, por exemplo - artigo 220, parágrafo 5º - determina que os meios de informação não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.
Agora prometem travar as mandíbulas na jugular da Presidenta Dilma Rousseff, envolvendo o Brasil em uma longa noite dos chupa-cabras.
‘Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma’.
A proclamação ‘cívica’ foi expressa didaticamente por um dos mais buliçosos soldados da ofensiva zumbi, o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, cujas credenciais no ramo da sucção podem ser conferidas com o amigo do peito, Paulo Preto.
Ex-Dersa, caixa 2 da campanha de Serra em 2010, ‘Paulo afro’, como corrigiu o então candidato, abduziu uma fatia do dízimo colhido junto às empreiteiras do Rodoanel em caridade própria. Antes, adiantara R$ 300 mil para Aloysio quitar o apartamento, em cuja varanda a família Nunes Ferreira bateu panela contra o ‘governo corrupto’ do PT no último domingo.
‘Não é hora de afastar a Dilma, nem de pactuar’, reforçou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em um colóquio de cirurgiões especialistas em ‘agonizar uma nação’, realizado 24 horas após o ‘caçarolaço chique, no Instituto iFHC.
Lá estava também o indefectível Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Itaú, o mesmo que, junto com o Bradesco, sangrou o país em R$ 200 milhões em impostos, declarando lucros em paraísos fiscais em 2009.
Prestativo, Goldfajn pontuou o plano com sugestões sobre o momento mais adequado para se transformar um sangramento em golpe hemorrágico.
Segundo o jornal Valor Econômico, o economista-banqueiro fez minuciosa exposição para demonstrar que a equação buscada pelo governo Dilma baseia-se em um tripé ajuste fiscal-aperto monetário-apoio político, que não fecha.
Diante da dúvida de FHC sobre a pressão a ser exercida na jugular presidencial, Ilan palpitou: quando a escalada do desemprego e do endividamento das famílias atingir o ponto de fervura, aí sim, haverá lenha suficiente para uma fogueira hemorrágica.
A plateia de traje executivo e disposição carbonara, pelo que se depreende do relato do jornal, não parecia entender onde os cirurgiões queriam chegar: ‘Se não é pelo impeachment por que vamos sair à rua no dia 15?’, indagou uma moça de tailleur estilo ‘mercado financeiro’.
Ao final do colóquio, Aloysio Trezentinha esclareceria dúvidas.
Um governo petista sangrando em fogo brando, explicou, inviabiliza as chances do PT em 2018. ‘Já um país sob o comando do PMDB (com Dilma afastada por impeachment) e uma economia em frangalhos’, advertiu Trezentinha, ‘poderia devolver ao petismo liderado pelo ex-presidente Lula as chances eleitorais então’.
Busca-se, portanto, um corte com precisão suficiente para sangrar Dilma e ferir Lula de morte.
Por trás da metáfora cirúrgica, na verdade, há uma operação ainda mais complexa que atormenta os estrategistas conservadores e alimenta sua ambiguidade.
Trata-se, como admitiu FHC no mesmo colóquio, de substituir o bloco de governabilidade atual - que se esfrangalhou, com a crise internacional - por outro que sustente a restauração neoliberal no Brasil.
O pulo do gato consiste em usar as ruas para isso.
Sem se deixar atropelar por elas.
Ou seja, sem o risco de extravasar a transição para as mãos da turba, quando tudo pode acontecer e por isso não pode acontecer. Caso de uma reforma política para valer, por exemplo, capaz de extirpar o peso do financiamento privado na democracia brasileira.
Eis o dilema dos bisturis a desenhar dúvidas no ar.
Sangrar o Brasil, paralisar a economia, aleijar o governo, levar o conjunto em coma induzido até 2018, sem que tudo vire uma hemorragia desatada e as elites percam o controle das variáveis em jogo?
O que se teme já aconteceu antes.
Na véspera do fatídico 24 de agosto de 1954, quando Vargas mudou a história do país com um único tiro, a animosidade contra o seu governo parecia disseminada e de forma irreversível.
A rejeição havia extravasado do núcleo emissor da elite para as ruas graças a uma bem orquestrada doutrinação midiática que reduzira a luta pelo desenvolvimento no seu governo a um enredo de incompetência, anacronismo e assalto sistêmico aos cofres públicos.
Dezenove dias antes do suicídio de Vargas, um obscuro atentado a Carlos Lacerda, envolvendo círculos próximos ao Presidente, fechara o cerco.
O tiro no pé de Lacerda na rua Toneleros acertou o coração do governo, servindo de espoleta ao ultimato definitivo das forças golpistas.
No dia 23 de agosto, rumores de que a cúpula das Forças Armadas levaria ao presidente uma carta renúncia vinham acompanhados de um sentimento de quase de alívio nas ruas: o sangramento que os interesses conservadores impunham a Vargas maltratava todo o país, paralisando a economia e a sociedade em uma espiral de crise, incerteza, decepção e fatalismo.
Cevado para a derrubada de Getúlio desde a sua posse, o Brasil agora parecia estar no ponto.
Ponto de saturação.
O governo que reordenara as bases do desenvolvimento com soberania e industrialização - sem o que não existe desenvolvimento -, que criou o BNDES em 1952, a Petrobras em 1953, dobrou o salário mínimo em maio de 1954, fora massificado no imaginário social como um campo indiviso de corruptos, ineptos e criminosos.
O fim inevitável e humilhante contrastava com as vivas esperanças que haviam levado Vargas de volta ao poder, aos 67 anos de idade, carregado por esmagadora maioria de quatro milhões de votos, contra dois milhões dados ao candidato das elites, Brigadeiro Eduardo Gomes.
Foi então que o imprevisto se fez ouvir na madrugada de 24 de agosto de 1954 no Palácio do Catete, no Rio.
Com um gesto estudado, e uma carta testamento memorável, Vargas transformou seu sangramento em uma hemorragia de revolta aberta nas ruas.
A experiência da tragédia abalaria o cimento da resignação cotidiana: rompeu-se a blindagem.
Consternado com a notícia que ecoava pelas rádios, o povo perseguiu e escorraçou porta-vozes da oposição virulenta ao Presidente.
No Rio, a multidão foi precisa em eleger seu alvo: cercou e depredou a sede da rádio Globo que saiu do ar. A emissora do jovem udenista Roberto Marinho cumpria o mesmo papel de âncora do diretório midiático que hoje desempenha o Jornal Nacional da mesma cepa.
Carros de entrega do diário da família Marinho foram caçados, tombados e incendiados nas vias públicas. Prédios de outros jornais que haviam aderido ao ultimato pela renúncia conheceram a força da indignação popular.
Morto, Vargas conduziu a alça do próprio caixão até o futuro da história. E ali perpetuou uma influência ainda inexcedível no imaginário brasileiro.
O gesto desassombrado obrigaria o golpismo a adiar por uma década a chegada ao poder (depois de sangrar Jango, em 1964) e, mesmo assim, sem erradicar integralmente o legado de Vargas.
Não por acaso, ao ser eleito em 1994, o tucano Fernando Henrique Cardoso afirmou, em discurso ao Congresso: ‘(minha tarefa histórica) é eliminar um pedaço do nosso passado que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da era Vargas, ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista’.
Ontem, como hoje, para a inteligência tucana, o padrão de direitos sociais e trabalhistas esboçado por Vargas, ampliado na Carta de 1988 e praticado no ciclo petista é incompatível com o desenvolvimento no Brasil.
‘Isso encarece o custo do investimento privado’, afirmam; ‘o conjunto rebaixa a poupança do setor público, impulsiona o endividamento do Estado, pressiona a taxa de juros e impede o círculo virtuoso do investimento’.
Nenhuma palavra sobre justiça fiscal, por exemplo, capaz de reordenar o fluxo da riqueza para as demandas e o investimento da sociedade.
Do ponto de vista de quem acredita que as conquistas dos últimos 12 anos devem ser corroídas – a exemplo das tarifas protecionistas da economia – para melhor credenciar o Brasil no ‘rating’ global, não importa o custo em termos de qualidade do emprego e da sociedade.
Dos escombros, assegura-se, brotará uma nova matriz de crescimento ‘mais leve, ágil e competitiva’, sem o fardo de direitos legados por Vargas, pela Carta de 1988 e turbinados pelo ciclo do ’lulopetismo’.
É desse sangramento, na verdade, que tratam as cabeças pensantes no iFHC e que elegeram Dilma a personificação frágil do que pretendem destruir.
Quem acredita que o entrave ao desenvolvimento brasileiro decorre, exclusivamente, dos equívocos cometidos – e foram inúmeros - pelos governos do PT toma, portanto, a nuvem por Juno.
Do PT pode-se – deve-se - cobrar um reencontro com o engajamento criativo de suas bases, traço indissociável da centralidade que elas já ocuparam na vida do partido.
Pode-se, deve-se, igualmente, desafiá-lo a resgatar o desassombro político original, anestesiado pela responsabilidade do poder e só restituível com amplas doses de democracia interna e humildade política para se recolocar ao lado dos movimentos sociais.
Tudo isso é imperioso e urgente.
Mas a parede contra a qual se esbarra hoje, na disputa pelo passo seguinte brasileiro, não pode ignorar o fio de continuidade que liga 1954 a 2015.
Ela reflete o mesmo conflito que na Constituinte de 1988 – como hoje – interditou a reforma política, o financiamento público de campanha, a justiça fiscal, a reforma agrária, o controle sobre o mercado financeiro e postergou a democratização pluralista da mídia.
Dissociou-se assim o núcleo duro do capitalismo, do espírito progressista e cidadão que embalou a reordenação constitucional ao final da ditadura.
O conflito entre mercado e democracia parece ter chegado agora ao seu nível máximo.
As ruas – naquilo que revelam de insatisfação real – são a expressão de contradições que já não cabem nos limites da institucionalidade disponível.
Diante da transição da economia mundial (cuja retração inviabiliza a acomodação dos conflitos via importações baratas e saldos comerciais elevados) é forçoso romper limites e interditos para repactuar as bases do desenvolvimento.
Não é obra apenas para o PT.
É tarefa para um mutirão histórico, organizativo e constitucional, que exige uma articulação progressista maior, mais sólida e mais coerente do que aquela que emergiu ao final da ditadura e a que elegeu Lula em 2003.
É essa hemorragia que os cirurgiões tucanos temem.
É ela que o campo progressista deve perseguir – especialmente o PT, se quiser sobreviver.
Porém, mais que apenas subsistir: se quiser ter relevância na tarefa de construir o muito que o Brasil ainda deve aos brasileiros.
www.cartamaior.com.br 12/03/2015
O Portal de Esquerda
cartamaior.com.br|Por Carta Maior