terça-feira, 24 de maio de 2016

Áustria: Com 50,3% dos votos, ecologista vence extrema-direita em eleições presidenciais


Áustria: Com 50,3% dos votos, ecologista vence extrema-direita em eleições presidenciais

Em discurso, Van der Bellen disse querer dar 'bom futuro' para país; resultado apertado demonstra divisão da população e insatisfação com governos de centro
Com 50,3% dos votos, o ecologista Alexander Van der Bellen, ex-presidente do partido Verde que se lançou como independente, venceu as eleições presidenciais da Áustria nesta segunda-feira (23/05). Seu concorrente, o ultranacionalista Norbert Hofer, recebeu 49,7% dos votos — o equivalente a 31 mil votos a menos.
“Muitas pessoas neste país não se sentem suficientemente representadas, não sentem que são ouvidas. Meu objetivo é ser um parceiro construtivo do governo federal e do Parlamento, para que em seis anos o povo da Áustria se sinta melhor e possa dizer, ‘meus filhos terão um bom futuro’ e ‘eu posso olhar para o futuro com esperança’”, disse Van der Bellen em discurso após sua vitória.

Agência Efe

Com uma vantagem de apenas 31 mil votos, o ambientalista Alexander Van der Bellen venceu as eleições presidenciais da Áustria
Hofer, por sua vez, comentou a derrota em sua conta no Facebook. “É claro que estou triste, mas, por favor, não percam a fé. Os esforços destas eleições não foram um desperdício, mas um investimento para o futuro”, argumentou. Caso Hofer tivesse vencido, ele teria se tornado o primeiro chefe de Estado da extrema-direita populista da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. 
 

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Áustria: com 98% das urnas apuradas, eleições presidenciais têm empate técnico

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O resultado apertado do segundo turno reforçou a divisão entre a população austríaca e sua insatisfação para com os governos de centro que vêm ocupando os principais cargos políticos do país nos últimos 30 anos. Tanto o candidato do partido de centro-esquerda, o Social Democrata — ao qual pertence o presidente Heinz Fischer —; quanto o de centro-direita, do partido do Povo, foram eliminados logo no primeiro turno do pleito.
Para o escritor austro-israelense Doron Rabinovici, que apoiou a candidatura de Van der Bellen, “um resultado de 50% contra 50% não é em si próprio uma divisão, é a democracia”.
“Nós temos sim um problema neste país: a política vem sendo conduzida a nível de imprensa de tabloide em vez de discutida de maneira substancial”, disse ele ao jornal norte-americano New York Times.
Até domingo (22/05), antes da apuração dos mais de 700 mil votos enviados por correio, as projeções iniciais mostravam os dois candidatos empatados.

Em reunião com bispos da A. Latina, papa Francisco diz se preocupar com 'golpes brandos' na região



Em reunião com bispos da A. Latina, papa Francisco diz se preocupar com 'golpes brandos' na região

Pontífice mostrou preocupação com crises políticas na América Latina durante encontro com membros do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano)
O papa Francisco afirmou na última quinta-feira (19/05) que alguns países da América Latina podem estar passando por um “golpe de Estado brando”, durante encontro com membros da presidência do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano).
Agência Efe

Papa Francisco afirmou em encontro que países latino-americanos podem estar passando por “golpe de Estado brando”
Segundo o secretário-geral adjunto da Celam, Leonidas Ortiz L. Pbro, o pontífice mostrou preocupação com os problemas sociais da América Latina, dentre eles os conflitos sociais, econômicos e políticos vividos por países como Venezuela, Brasil, Bolívia e Argentina. 
De acordo com Ortiz, o papa afirmou que algumas nações da região podem estar enfrentando um “golpe de Estado brando”.
 

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Sobre o Brasil, o Arcebispo de São Luís do Maranhão, Dom José Belisário da Silva, disse em entrevista à rádio Vaticano que o papa perguntou sobre a situação do país e mostrou-se preocupado. Neste mês, o papa pediu "harmonia" e "paz" para o Brasil superar "momentos de dificuldade".
Segundo o secretário-geral adjunto da Celam, o pontífice também expressou preocupação com as eleições dos Estados Unidos e com as carências enfrentadas pelas populações do Haiti e da República Dominicana, além de celebrar o avanço do processo de paz na Colômbia.

Conspiração revelada em conversa de Jucá 'parece, soa e cheira' a golpe, diz The Intercept

Conspiração revelada em conversa de Jucá 'parece, soa e cheira' a golpe, diz The Intercept

Segundo o site, declarações vazadas do ministro de Michel Temer devem levar imprensa a considerar o uso da palavra 'golpe' na cobertura sobre o caso
Um artigo publicado nesta segunda-feira (23/05) pelo site norte-americano The Interceptsustenta que a divulgação das conversas do ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, Romero Jucá (PMDB-PR), “acendem uma luz” sobre os reais motivos e agentes do processo de impeachment contra a presidente brasileira, Dilma Rousseff, e devem levar toda a imprensa a considerar o uso da palavra “golpe” na cobertura sobre o caso.
“Um golpe parece, soa e cheira exatamente como esta recém revelada conspiração: assegurando a cooperação dos militares e das instituições mais poderosas para remover uma presidente democraticamente eleita por motivos egoístas, corruptos e ilegais, para então impor uma agenda a serviço das oligarquias e rejeitada pela população”, afirma o texto.
Antônio Cruz/ Agência Brasil

Em conversas reveladas pela Folha de S.Paulo, Romero Jucá defende um pacto político para deter o avanço da Operação Lava-Jato
Em reportagem publicada nesta segunda-feira (23/05) pelo jornal Folha de S.Paulo, Jucá aparece em diálogos com o ex-presidente da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobras e alvo da Lava-Jato, Sérgio Machado. Nas conversas, gravadas no começo de março, antes da aprovação do processo de impeachment de Dilma pela Câmara dos Deputados, Jucá defende um "pacto político" para tirar Dilma da Presidência e assim deter o avanço da Operação Lava-Jato.
Segundo o texto do The Intercept, assinado por Glenn Greenwald, Andrew Fishman e David Miranda, as conversas “acendem uma luz a respeito dos reais motivos e agentes do impeachment da presidente democraticamente eleita, Dilma Rousseff”.
“As transcrições contêm duas revelações extraordinárias que podem levar toda a imprensa a considerar seriamente chamar o que aconteceu no país de 'golpe', um termo que Dilma e seus apoiadores vem usando por meses”, diz o artigo.
Uma das revelações, de acordo com o texto, é a afirmação de Romero Jucá de que as Forças Armadas apoiam a “conspiração” contra Dilma. A segunda e “talvez mais significante”, segundo os jornalistas do Intercept, é a do envolvimento de juízes do STF (Supremo Tribunal Federal) no processo para destituir Dilma.
Os jornalistas dizem que as duas primeiras semanas do governo de Michel Temer fornecem “grandes evidências” para os argumentos sustentados pelos “apoiadores da democracia brasileira” de que o objetivo principal do impeachment não era o fim da corrupção ou punição para os envolvidos, e sim o contrário.
Um exemplo, segundo o artigo, foi a nomeação feita por Temer de ministros diretamente envolvidos em casos de corrupção. O próprio presidente interino, aponta o texto, “está profundamente implicado em casos de corrupção” e enfrenta a possibilidade de se tornar inelegível pelos próximos oitos anos devido a irregularidades com a Justiça Eleitoral.
De acordo com o Intercept, “[Michel Temer] está correndo para implementar uma série de mudanças de direita e orientadas para as oligarquias do país, que o Brasil jamais permitiria democraticamente”, como alterações na definição de trabalho análogo à escravidão, reversão de demarcações de terras indígenas e corte no programa Minha Casa Minha Vida.
 

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No entanto, segundo os jornalistas, as conversas de Jucá não são “meras evidências”, e sim "provas de que as principais forças por trás da remoção da Presidente entenderam que removê-la era o único meio de se salvarem e de evitarem que sejam responsabilizados por sua própria corrupção”, indica o artigo.
Eles afirmam que a justificativa de Jucá de que as conversas foram retiradas de contexto “não é minimamente razoável à luz do que ele disse na gravação,  bem como da explícita natureza conspirativa da conversa”.
Os jornalistas indicam também que as transcrições “compelem a um reexame” da decisão editorial do Intercept, que até agora se absteve de empregar a palavra “golpe” para denominar o processo de impeachment de Dilma.
O texto diz também que conteúdos divulgados dificultarão a permanência de Temer no poder caso o impeachment de Dilma se concretize e lembra que, confome pesquisa do Ibope ,62% dos brasileiros querem novas eleições para presidente. 
“Esta opção – a opção democrática – é a solução mais temida pelas elites do Brasil, porque elas estão apavoradas (com bons motivos) com a possibilidade de que Lula ou outro candidato que as desagrade (Marina Silva) possam ganhar”, diz o artigo.
Fonte: Opera Mundi

Em primeira visita oficial ao exterior, José Serra é recebido com protestos em Buenos Aires


Em primeira visita oficial ao exterior, José Serra é recebido com protestos em Buenos Aires

Concentrados em frente à embaixada brasileira na capital argentina, manifestantes atiraram bolinhas de papel contra os carros que levavam o chanceler e sua equipe
A Frente Argentina pela Democracia no Brasil e o Coletivo Passarinho realizaram um protesto na noite deste domingo (22/05) em Buenos Aires, na Argentina, contra o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que está em visita ao país.
Concentrados em frente à embaixada brasileira na capital argentina, os manifestantes atiraram bolinhas de papel contra os carros que levavam Serra e sua equipe. O ato fez referência a um episódio da campanha presidencial de 2010, quando o então candidato pelo PSDB reclamou de agressão após ter sido atingido por uma bolinha de papel.
Os manifestantes, que prometem mais protestos nesta segunda-feira (23/05), também colaram cartazes pelas imediações da embaixada com a foto do ministro e a inscrição “Procurado - José Serra chanceler impostor do Brasil golpista”.

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A viagem à Argentina é a primeira de Serra desde que assumiu o cargo no governo interino de Michel Temer na semana passada. No país, ele terá encontros com o presidente Mauricio Macri,  com a ministra das Relações Exteriores, Susana Malcorra, e com o ministro das Finanças, Alfonso Prat-Gay.
Em seu discurso de posse, Serra afirmou que uma das prioridades da diplomacia brasileira em curto prazo será a intensificação das relações com a Argentina, com a qual o Brasil passou a “compartilhar referências semelhantes para a reorganização da política e da economia”.

Fonte: Opera Mundi

TRISTE FIM DE CRISTÓVÃO BUARQUE



TRISTE FIM DE CRISTÓVÃO BUARQUE

As portas do inferno das explicações estapafúrdias sempre estiveram abertas quando o assunto é política. Depois que alguém lembrou (corretamente) que impeachment não é só um julgamento jurídico, mas político também, as portas abriram um bocado a mais. O predicado deixou de existir, o sujeito virou a ação em si e o motivo central deixou de importar. Aliás, parece que nunca importou.

Alexandre Marini*

Um olhar mais atento aos seus motivos possibilita ver, com preocupação, que o que se desenha à sua frente é um cenário de articulação para uma volta ao passado. Um olhar mais atento aos seus motivos possibilita ver, com preocupação, que o que se desenha à sua frente é um cenário de articulação para uma volta ao passado.  Portanto, nada mais natural ouvirmos quase quatrocentas vezes, daqueles que nos representam na Câmara dos Deputados, “pelo meu pai”, “pela minha mãe”, “pelos meus filhos”, “por deus”. Só o diabo não precisou ser lembrado, dizem as más línguas, pois presidia a sessão.

Agora no Senado, mais explicações. Num outro nível, claro, mas de pouca efetividade diante do caráter exclusivamente político em que se transformou esse processo, com pouco espaço para a prevalência da razão, ambiente propício para que razões pessoais se sobreponham, espúrias ou não.

Em recente artigo publicado em seu próprio portal e no Correio Braziliense, o senador Cristovam Buarque, do PPS, com o peso que a autoridade lhe dá para participar e decidir sobre o processo de afastamento da presidenta da República, e que já há muito se declarou a favor da abertura do processo de impeachment no Senado, diz estar agoniado e elenca diversos motivos para tal.

Os motivos da agonia

Um olhar mais atento aos seus motivos possibilita ver, com preocupação, que mesmo políticos mais progressistas têm dificuldades em vislumbrarem que o que se desenha à sua frente é um cenário de articulação para uma volta ao passado, devido ao caráter retrógrado dos setores e agentes políticos que se colocam como ponta-de-lança para corrigir as falhas da política atual.

Cristovam Buarque se diz agoniado. Pelo desemprego atual, não pela terceirização e um futuro provável de perda de direitos trabalhistas.

·         Pela economia parada, não pelo projeto neoliberal a ser adotado com restrições econômicas ainda mais violentas, afetando sobretudo os mais pobres.

·         Pelos hospitais, não pelo projeto de privatização do SUS desenhado pelo PMDB.

·         Pela falta de assistência aos mais pobres, não pela intenção de um futuro governo em acabar com os parcos projetos sociais de hoje.

·         Pelos bolsistas universitários sem o apoio prometido, não pelo projeto que quer restringir ainda mais os repasses de apoio ao ensino superior, acelerando o desmantelamento da universidade pública e sua gratuidade.

·         Por Cunha ser presidente da Câmara dos Deputados, não pelo fortalecimento político que o processo de impeachment, como vem sendo desenhado, deu a ele mesmo diante de seu afastamento pelo STF.

·         Com os desvios na Petrobras, não pela evidente intenção política de entregar o controle do seu patrimônio ao capital estrangeiro.

·         Com a ciência e tecnologia, mas ignora o sinal de gravidade quando um pastor passa a ser seriamente sondado para assumir esse ministério.

·         Por fim, agoniado por romper com 53 milhões de votos num processo democrático, parecendo ignorar outro 1 milhão e meio, já que o pleito vencedor teve com 54.501.118 votos.

Com uma miopia dessas, é para ficar agoniado mesmo. 

*É sociólogo e professor

Economista desmonta crise da Previdência e aponta ‘fraude contábil’

Economista desmonta crise da Previdência e aponta ‘fraude contábil’

O superávit da Seguridade Social foi significativamente maior: R$ 72,2 bilhões. No entanto, boa parte desse excedente na Previdência vem sendo desviada para cobrir outras despesas

Por Redação – do Rio de Janeiro
Com argumentos insofismáveis, Denise Gentil destroça os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previdência Social no Brasil. Em primeiro lugar, uma gigantesca farsa contábil transforma em déficit o superávit do sistema previdenciário, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilhões em 2006, segundo a economista.
Mestre em Economia pela UFRJ, Denise Gentil aponta fraude nas contas da Previdência
Mestre em Economia pela UFRJ, Denise Gentil aponta fraude nas contas da Previdência
O superávit da Seguridade Social – que abrange a Saúde, a Assistência Social e a Previdência – foi significativamente maior: R$ 72,2 bilhões. No entanto, boa parte desse excedente vem sendo desviada para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira – condena a professora e pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ, pelo qual concluiu sua tese de doutorado “A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005” (clique e leia a tese na íntegra).
Em entrevista ao Jornal da UFRJ, neste sábado, Gentil ainda explica por que considera insuficiente o novo cálculo para o sistema proposto pelo governo e mostra que, subjacente ao debate sobre a Previdência, se desenrola um combate entre concepções distintas de desenvolvimento econômico-social.
Leia, adiante, à íntegra da entrevista:
— A ideia de crise do sistema previdenciário faz parte do pensamento econômico hegemônico desde as últimas décadas do século passado. Como essa concepção se difundiu e quais as suas origens?
— A ideia de falência dos sistemas previdenciários públicos e os ataques às instituições do welfarestate (Estado de Bem- Estar Social) tornaram-se dominantes em meados dos anos 1970 e foram reforçadas com a crise econômica dos anos 1980. O pensamento liberal-conservador ganhou terreno no meio político e no meio acadêmico. A questão central para as sociedades ocidentais deixou de ser o desenvolvimento econômico e a distribuição da renda, proporcionados pela intervenção do Estado, para se converter no combate à inflação e na defesa da ampla soberania dos mercados e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos. Um sistema de seguridade social que fosse universal, solidário e baseado em princípios redistributivistas conflitava com essa nova visão de mundo. O principal argumento para modificar a arquitetura dos sistemas estatais de proteção social, construídos num período de crescimento do pós-guerra, foi o dos custos crescentes dos sistemas previdenciários, os quais decorreriam, principalmente, de uma dramática trajetória demográfica de envelhecimento da população. A partir de então, um problema que é puramente de origem sócio-econômica foi reduzido a um mero problema demográfico, diante do qual não há solução possível a não ser o corte de direitos, redução do valor dos benefícios e elevação de impostos. Essas idéias foram amplamente difundidas para a periferia do capitalismo e reformas privatizantes foram implantadas em vários países da América Latina.
— No Brasil, a concepção de crise financeira da Previdência vem sendo propagada insistentemente há mais de 15 anos. Os dados que você levantou em suas pesquisas contradizem as estatísticas do governo. Primeiramente, explique o artifício contábil que distorce os cálculos oficiais.
— Tenho defendido a idéia de que o cálculo do déficit previdenciário não está correto, porque não se baseia nos preceitos da Constituição Federal de 1988, que estabelece o arcabouço jurídico do sistema de Seguridade Social. O cálculo do resultado previdenciário leva em consideração apenas a receita de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benefícios pagos aos trabalhadores. O resultado dá em déficit. Essa, no entanto, é uma equação simplificadora da questão. Há outras fontes de receita da Previdência que não são computadas nesse cálculo, como a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e a receita de concursos de prognósticos. Isso está expressamente garantido no artigo 195 da Constituição e acintosamente não é levado em consideração.
— A que números você chegou em sua pesquisa?
– Fiz um levantamento da situação financeira do período 1990-2006. De acordo com o fluxo de caixa do INSS, há superávit operacional ao longo de vários anos. Em 2006, para citar o ano mais recente, esse superávit foi de R$ 1,2 bilhões.
O superávit da Seguridade Social, que abrange o conjunto da Saúde, da Assistência Social e da Previdência, é muito maior. Em 2006, o excedente de recursos do orçamento da Seguridade alcançou a cifra de R$ 72,2 bilhões.
Uma parte desses recursos, cerca de R$ 38 bilhões, foi desvinculada da Seguridade para além do limite de 20% permitido pela DRU (Desvinculação das Receitas da União).
Há um grande excedente de recursos no orçamento da Seguridade Social que é desviado para outros gastos. Esse tema é polêmico e tem sido muito debatido ultimamente. Há uma vertente, a mais veiculada na mídia, de interpretação desses dados que ignora a existência de um orçamento da Seguridade Social e trata o orçamento público como uma equação que envolve apenas receita, despesa e superávit primário. Não haveria, assim, a menor diferença se os recursos do superávit vêm do orçamento da Seguridade Social ou de outra fonte qualquer do orçamento.
Interessa apenas o resultado fiscal, isto é, o quanto foi economizado para pagar despesas financeiras com juros e amortização da dívida pública.
Por isso o debate torna-se acirrado. De um lado, estão os que advogam a redução dos gastos financeiros, via redução mais acelerada da taxa de juros, para liberar recursos para a realização do investimento público necessário ao crescimento. Do outro, estão os defensores do corte lento e milimétrico da taxa de juros e de reformas para reduzir gastos com benefícios previdenciários e assistenciais. Na verdade, o que está em debate são as diferentes visões de sociedade, de desenvolvimento econômico e de valores sociais.
— Há uma confusão entre as noções de Previdência e de Seguridade Social que dificulta a compreensão dessa questão. Isso é proposital?
— Há uma grande dose de desconhecimento no debate, mas há também os que propositadamente buscam a interpretação mais conveniente. A Previdência é parte integrante do sistema mais amplo de Seguridade Social.
É parte fundamental do sistema de proteção social erguido pela Constituição de 1988, um dos maiores avanços na conquista da cidadania, ao dar à população acesso a serviços públicos essenciais. Esse conjunto de políticas sociais se transformou no mais importante esforço de construção de uma sociedade menos desigual, associado à política de elevação do salário mínimo. A visão dominante do debate dos dias de hoje, entretanto, frequentemente isola a Previdência do conjunto das políticas sociais, reduzindo-a a um problema fiscal localizado cujo suposto déficit desestabiliza o orçamento geral. Conforme argumentei antes, esse déficit não existe, contabilmente é uma farsa ou, no mínimo, um erro de interpretação dos dispositivos constitucionais.
Entretanto, ainda que tal déficit existisse, a sociedade, através do Estado, decidiu amparar as pessoas na velhice, no desemprego, na doença, na invalidez por acidente de trabalho, na maternidade, enfim, cabe ao Estado proteger aqueles que estão inviabilizados, definitiva ou temporariamente, para o trabalho e que perdem a possibilidade de obter renda. São direitos conferidos aos cidadãos de uma sociedade mais evoluída, que entendeu que o mercado excluirá a todos nessas circunstâncias.
— E são recursos que retornam para a economia?
Denise Gentil: É da mais alta relevância entender que a Previdência é muito mais que uma transferência de renda a necessitados. Ela é um gasto autônomo, quer dizer, é uma transferência que se converte integralmente em consumo de alimentos, de serviços, de produtos essenciais e que, portanto, retorna das mãos dos beneficiários para o mercado, dinamizando a produção, estimulando o emprego e multiplicando a renda. Os benefícios previdenciários têm um papel importantíssimo para alavancar a economia. O baixo crescimento econômico de menos de 3% do PIB (Produto Interno Bruto), do ano de 2006, seria ainda menor se não fossem as exportações e os gastos do governo, principalmente com Previdência, que isoladamente representa quase 8% do PIB.
— De acordo com a Constituição, quais são exatamente as fontes que devem financiar a Seguridade Social?
— A seguridade é financiada por contribuições ao INSS de trabalhadores empregados, autônomos e dos empregadores; pela Cofins, que incide sobre o faturamento das empresas; pela CSLL, pela CPMF (que ficou conhecida como o imposto sobre o cheque) e pela receita de loterias. O sistema de seguridade possui uma diversificada fonte de financiamento. É exatamente por isso que se tornou um sistema financeiramente sustentável, inclusive nos momentos de baixo crescimento, porque além da massa salarial, o lucro e o faturamento são também fontes de arrecadação de receitas. Com isso, o sistema se tornou menos vulnerável ao ciclo econômico. Por outro lado, a diversificação de receitas, com a inclusão da taxação do lucro e do faturamento, permitiu maior progressividade na tributação, transferindo renda de pessoas com mais alto poder aquisitivo para as de menor.
— Além dessas contribuições, o governo pode lançar mão do orçamento da União para cobrir necessidades da Seguridade Social?
— É exatamente isso que diz a Constituição. As contribuições sociais não são a única fonte de custeio da Seguridade. Se for necessário, os recursos também virão de dotações orçamentárias da União. Ironicamente tem ocorrido o inverso. O orçamento da Seguridade é que tem custeado o orçamento fiscal.
— O governo não executa o orçamento à parte para a Seguridade Social, como prevê a Constituição, incorporando-a ao orçamento geral da União. Essa é uma forma de desviar recursos da área social para pagar outras despesas?
— A Constituição determina que sejam elaborados três orçamentos: o orçamento fiscal, o orçamento da Seguridade Social e o orçamento de investimentos das estatais. O que ocorre é que, na prática da execução orçamentária, o governo apresenta não três, mas um único orçamento chamando de “Orçamento Fiscal e da Seguridade Social”, no qual consolida todas as receitas e despesas, unificando o resultado. Com isso, fica difícil perceber a transferência de receitas do orçamento da Seguridade Social para financiar gastos do orçamento fiscal. Esse é o mecanismo de geração de superávit primário no orçamento geral da União. E, por fim, para tornar o quadro ainda mais confuso, isola-se o resultado previdenciário do resto do orçamento geral para, com esse artifício contábil, mostrar que é necessário transferir cada vez mais recursos para cobrir o “rombo” da Previdência. Como a sociedade pode entender o que realmente se passa?
— Agora, o governo pretende mudar a metodologia imprópria de cálculo que vinha usando. Essa mudança atenderá completamente ao que prevê a Constituição, incluindo um orçamento à parte para a Seguridade Social?
— Não atenderá o que diz a Constituição, porque continuará a haver um isolamento da Previdência do resto da Seguridade Social. O governo não pretende fazer um orçamento da Seguridade. Está propondo um novo cálculo para o resultado fiscal da Previdência. Mas, aceitar que é preciso mudar o cálculo da Previdência já é um grande avanço. Incluir a CPMF entre as receitas da seguridade é um reconhecimento importante, embora muito modesto. Retirar o efeito dos incentivos fiscais sobre as receitas também ajuda a deixar mais transparente o que se faz com a política previdenciária. O que me parece inadequado, entretanto, é retirar a aposentadoria rural da despesa com previdência porque pode, futuramente, resultar em perdas para o trabalhador do campo, se passar a ser tratada como assistência social, talvez como uma espécie de bolsa. Esse é um campo onde os benefícios têm menor valor e os direitos sociais ainda não estão suficientemente consolidados.
— Como você analisa essa mudança de postura do Governo Federal em relação ao cálculo do déficit? Por que isso aconteceu?
— Acho que ainda não há uma posição consolidada do governo sobre esse assunto. Há interpretações diferentes sobre o tema do déficit da Previdência e da necessidade de reformas. Em alguns segmentos do governo fala-se apenas em choque de gestão, mas em outras áreas, a reforma da previdência é tratada como inevitável. Depois que o Fórum da Previdência for instalado, vão começar os debates, as disputas, a atuação dos lobbies e é impossível prever qual o grau de controle que o governo vai conseguir sobre seus rumos. Se os movimentos sociais não estiverem bem organizados para pressionarem na defesa de seus interesses pode haver mais perdas de proteção social, como ocorreu em reformas anteriores.
— A previdência pública no Brasil, com seu grau de cobertura e garantia de renda mínima para a população, tem papel importante como instrumento de redução dos desequilíbrios sociais?
— Prefiro não superestimar os efeitos da Previdência sobre os desequilíbrios sociais. De certa forma, tem-se que admitir que vários estudos mostram o papel dos gastos previdenciários e assistenciais como mecanismos de redução da miséria e de atenuação das desigualdades sociais nos últimos quatro anos. Os avanços em termos de grau de cobertura e de garantia de renda mínimapara a população são significativos. Pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), cerca de 36,4 milhões de pessoas ou 43% da população ocupada são contribuintes do sistema previdenciário. Esse contingente cresceu de forma considerável nos últimos anos, embora muito ainda necessita ser feito para ampliar a cobertura e evita que, no futuro, a pobreza na velhice se torne um problema dos mais graves. O fato, porém, de a população ter assegurado o piso básico de um salário mínimo para os benefícios previdenciários é de fundamental importância porque, muito embora o valor do salário mínimo esteja ainda distante de proporcionar condições dignas de sobrevivência, a política social de correção do salário mínimo acima da inflação tem permitido redução da pobreza e atenuado a desigualdade da renda.
Cerca de dois milhões de idosos e deficientes físicos recebem benefícios assistenciais e 524 mil são beneficiários do programa de renda mensal vitalícia. Essas pessoas têm direito a receber um salário mínimo por mês de forma permanente.
Evidentemente que tudo isso ainda é muito pouco para superar nossa incapacidade histórica de combater as desigualdades sociais. Políticas muito mais profundas e abrangentes teriam que ser colocadas em prática, já que a pobreza deriva de uma estrutura produtiva heterogênea e socialmente fragmentada que precisa ser transformada para que a distância entre ricos e pobres efetivamente diminua. Além disso, o crescimento econômico é condição fundamental para a redução da pobreza e, nesse quesito, temos andado muito mal. Mas a realidade é que a redução das desigualdades sociais recebeu um pouco mais de prioridade nos últimos anos do que em governos anteriores e alguma evolução pode ser captada através de certos indicadores.
— Apesar do superávit que o governo esconde, o sistema previdenciário vem perdendo capacidade de arrecadação. Isso se deve a fatores demográficos, como dizem alguns, ou tem relação mais direta com a política econômica dos últimos anos?
— A questão fundamental para dar sustentabilidade para um sistema previdenciário é o crescimento econômico, porque as variáveis mais importantes de sua equação financeira são emprego formal e salários. Para que não haja risco do sistema previdenciário ter um colapso de financiamento é preciso que o país cresça, aumente o nível de ocupação formal e eleve a renda média no mercado de trabalho para que haja mobilidade social. Portanto, a política econômica é o principal elemento que tem que entrar no debate sobre “crise” da Previdência. Não temos um problema demográfico a enfrentar, mas de política econômica inadequada para promover o crescimento ou a aceleração do crescimento.


 Fonte: Correio do Brasil