quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Requião fala em “canalhice” e lê carta de Vargas para criticar impeachment

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Requião fala em “canalhice” e lê carta de Vargas para criticar impeachment

Senador paranaense também criticou política econômica do presidente interino Michel Temer

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Desde o início do processo do impeachment, Requião posicionou-se contrário ao afastamento de Dilma Rousseff. | Geraldo Magela/Agência Senado
Desde o início do processo do impeachment, Requião posicionou-se contrário ao afastamento de Dilma Rousseff. Geraldo Magela/Agência Senado
O paranaense Roberto Requião (PMDB) foi o quarto senador a fazer seu discurso final sobre o processo de impeachment, pouco depois das 15 horas desta terça-feira (30).
Contrário ao impeachment da presidente da República Dilma Rousseff e a favor da convocação de um plebiscito sobre a antecipação de novas eleições gerais, Requião começou seu discurso avisando que não pretendia “moderar a linguagem” e reprimir “a indignação que me consome”.
Acabou recorrendo à fala de Tancredo Neves na sessão que derrubou João Goulart: “Canalha, canalha, canalha. Assim, Tancredo Neves apostrofou Moura Andrade, que declarou vaga a presidência com Jango ainda em território nacional, consumando assim o golpe de 64”.
Requião também voltou a criticar com veemência a política econômica ensaiada por Michel Temer. Ao final, leu trechos da carta-testamento de Getúlio Vargas.
“Duvido que um só de nós esteja convencido que a presidente Dilma praticou crimes. O próprio acusador [relator Antonio Anastasia] praticou. Só que lá em Minas Gerais não havia um providencial Eduardo Cunha, nem um Centrão salivando por pixulecos. As palavras de Tancredo Neves coçam-me a garganta”, atacou Requião.
O senador afirmou ainda que o julgamento em curso, assim como ocorreu com a sessão de 1964, “deve ser anulado daqui alguns anos”. “E pediremos desculpas à filha e aos netos de Dilma”, discursou.
Mas a maior parte do discurso de dez minutos do senador ficou reservada ao também peemedebista Michel Temer. “Que cada um esteja consciente do que há por vir. Que ninguém alegue ignorância. Porque a intenção do vice, que quer ser titular, é clara. Desvincular o reajuste das aposentadorias ao aumento do salário mínimo para pagar os juros da dívida. Rever direitos e garantias sociais acumulados ao longo dos últimos anos. Eliminar tímidas conquistas na área de igualdade de gênero. Congelar por duas décadas despesas de saúde, educação”, apontou ele.
Para Requião, o “povo brasileiro não retornará submisso à senzala”: “Vocês estão preparados para a guerra civil? O conflito será inevitável”, disse ele.

Dilma diz que sofreu ‘segundo golpe de estado da vida’ e que vai recorrer em todas instâncias


Dilma diz que sofreu ‘segundo golpe de estado da vida’ e que vai recorrer em todas instâncias

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A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) se pronunciou após a decisão do Senado de afastá-la definitivamente da Presidência da República. Ela afirmou que irá recorrer em “todas as instâncias possíveis” contra o “golpe de estado”. O discurso foi mais forte, direto e incisivo do que o de segunda-feira, quando ela ainda lutava pelo mandato. 
“É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis”, disse durante o discurso. “O projeto nacional progressista que represento é interrompido por uma poderosa força reacionária, com apoio da imprensa facciosa”, complementou. 
Dilma estava acompanha dos senadores que a defenderam durante o processo de impeachment, além de membros do seu governo e militantes da juventude. O público a aplaudia e entoava “Fora, Temer”. 
“Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment”, disse Dilma. 
A ex-presidente convocou os movimentos sociais e disse que o movimento para retirá-la do poder é contrário ao povo. “O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções (…) Eu, a partir de agora, lutarei, incansavelmente para construir um Brasil melhor“. 
Leia a íntegra do discurso: 
Ao cumprimentar o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, cumprimento todos os senadoras e senadores, deputadas e deputados, presidentes de partido, as lideranças dos movimentos sociais. Mulheres e homens de meu País.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado.

É o segundo golpe de estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis.

Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história, propiciada por ações desenvolvidas e leis criadas a partir de 2003 e aprofundadas em meu governo, leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.

O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social.

Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment.

Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.
Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes.

Falo principalmente aos brasileiros que, durante meu governo, superaram a miséria, realizaram o sonho da casa própria, começaram a receber atendimento médico, entraram na universidade e deixaram de ser invisíveis aos olhos da Nação, passando a ter direitos que sempre lhes foram negados.

A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta.

Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.

Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, em 2003, chegamos ao governo cantando juntos que ninguém devia ter medo de ser feliz. Por mais de 13 anos, realizamos com sucesso um projeto que promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso País.

Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.

Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.

Saio da Presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer ato ilícito; sem ter traído qualquer de meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar lutando pelo Brasil.

Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi de minhas responsabilidades. Me emocionei com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade.

Travei bons combates. Perdi alguns, venci muitos e, neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles.

Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, a machismo e a misoginia mostraram suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero. Nada nos fará recuar.

Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”.

Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski:

“Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”
Um carinhoso abraço a todo povo brasileiro, que compartilha comigo a crença na democracia e o sonho da justiça.

Para Monteiro, impeachment é “embalado” por motivação política

Para Monteiro, impeachment é “embalado” por motivação política

Senador e ex-ministro de Dilma avalia que golpe foi motivado por aqueles que “não se conformaram com o resultado do último pleito eleitoral”
 30/08/2016 22h21 - atualizado às 22h37
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Armando Monteiro
O senador Armando Monteiro (PTB-PE) reiterou, em seu discurso no plenário nesta terça-feira (30), seu posicionamento contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, “legitimamente eleita pelo voto popular”.
Para ele, a denúncia contra Dilma está “embalada em motivação política” daqueles que “não se conformaram com o resultado do último pleito eleitoral”.
“Não podem restar incertezas ou dúvidas para afastar uma presidente legitimamente eleita pelo voto popular. E estou convencido que as denúncias são frágeis e não há interpretação inequívoca ou inquestionável”, completou.
Armando Monteiro ainda destacou que desde 2015 o Congresso estava mais interessado em fazer avançar o processo de impeachment contra Dilma, do que votar as matérias que poderiam ajuda o País a sair da crise.
E finalizou: “Não há nada a se comemorar com esse processo hoje”.

Por Luana Spinillo, da Agência PT de Notícias

PMDB será pedra no caminho do ajuste fiscal de Temer. Já começou a desentendimento entre os golpistas

PMDB será pedra no caminho do ajuste fiscal de Temer

Publicado em Economia
POR ROSANA HESSEL

Michel Temer já se prepara para vestir a faixa presidencial, mas o partido dele, o PMDB, vem se movimentando para tornar a trajetória do governo mais complicada. Parte relevante da legenda está disposta a dificultar o andamento do ajuste fiscal elaborado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Com as eleições municipais se aproximando, muitos peemedebistas não querem nem ouvir falar na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita o aumento de gastos à inflação do ano anterior. Alegam que o discurso de que o governo pode cortar despesas com saúde e educação tende a jogar contra candidatos do partido com chances de saírem vitoriosos das urnas.

Os mesmos peemedebistas trabalham pesado para aprovar, no Senado o aumento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que a equipe econômica quer segurar. Meirelles já disse a Temer que o reajuste, agora, será terrível para a imagem do ajuste fiscal, pois elevará o teto do funcionalismo e funcionará como um efeito cascata nas contas de estados e municípios. “Será um desastre”, diz um auxiliar de Meirelles. “É difícil entender o porquê de o PMDB estar jogando contra, quando deveria estar fechado com o governo, como faz o PSDB”, acrescenta.

Esse mesmo técnico lembra que os peemedebistas já criaram problemas durante a tramitação do projeto de renegociação das dívidas dos estados. Parte da legenda pressionou para que pontos importantes, como a proibição de reajustes a servidores nos próximos dois anos e a não realização de concursos públicos no mesmo período, fossem abortados. Com isso, Meirelles, que havia defendido esses pontos até o fim, acabou tendo a imagem arranhada entre os agentes econômicos. Muitas dúvidas foram levantadas pelo mercado sobre o real compromisso do Planalto com a arrumação das contas públicas.

Brasília, 18h36min