segunda-feira, 27 de março de 2017

HISTÓRIA O sítio da tortura

O sítio da tortura

Na zona sul de São Paulo um sítio isolado guarda histórias de terror que podem ajudar a entender um dos pontos obscuros da ditadura, os centros clandestinos de tortura. E a assombrosa colaboração civil
“Você está em poder do braço clandestino da repressão. Ninguém pode te tirar daqui”, é o que você ouve quando chega no sítio, depois de mais de uma hora metido no banco de trás do fusquinha com um capuz quente na cabeça, e a cabeça entre as pernas.
Você foi apanhado na Avenida Brigadeiro Luis Antônio, uma das mais movimentadas de São Paulo. Te enfiaram dentro do carro, dois homens grandes, meteram o capuz. Então você é todo ouvidos e corpo, e cada balanço ou ruído vai se gravando na sua mente tão vivo que você se lembrará deles para o resto da vida.
Minutos depois, pegam a estrada. Tráfego intenso. Saem da cidade, estradinha de terra, passa um trem, devagar. Quando o carro finalmente estaciona, você ouve a frase de boas-vindas e, apavorado, consegue memorizar o chão de cimento, por onde é empurrado antes de ser arremessado por escada que leva a um lugar subterrâneo. Os seus algozes chamam aquilo de “buraco”, com razão. Não há tijolos, nem paredes, o calor é forte, cada vez que você apalpa à volta, caem blocos de terra molhada. O chão é lodoso. Seu cativeiro é úmido e infinito.
Quando te tiram a roupa – você vai ficar assim por muito tempo. Primeiro: o pau-de-arara. Trata-se de um invento simples, bem brasileiro. Uma barra de ferro apoiada sobre cavaletes, onde te penduram enrolado, pesando sobre os braços e pernas. Eles te batem, te chutam, dão choque elétricos; nada de maquininha de Tio Sam, são fios desencapados que chegam diretamente no sovaco, na barriga, na boca.
Se divertem com isso, assim como se divertiram desde sempre aqueles que têm o poder de torturar. Quando você fraqueja, te levam a outra sala – piso de taco – onde perguntam tudo o que sabe, que atordoado você tenta esconder. Eles não vão te deixar em paz.
Você se pergunta: por que está ali?
É 1975. Já se passaram dez anos desde o golpe militar no Brasil. O novo governo dos milicos (general Ernesto Geisel) prometia uma volta pacífica à democracia, com um governo civil.
Depois de prender centenas de opositores, mandar milhares para o exílio e exterminar os grupos de resistência armada, a ditadura começava a querer ser vista como “ditabranda”. É claro que você não acreditava, mas estava em todos os jornais. De qualquer forma, você era conhecido publicamente, não devia temer. Jamais se envolveu na luta armada; advogado, comunista do Partidão (PCB), foi vereador e deputado federal, você sempre acreditou na política. Pela sua atuação, já havia sido preso. Mas torturado, jamais. Até o dia 1 de outubro de 1975.
Você já tinha ouvido falar nesse tipo de lugar. O chachoalhar do carro rumo à zona rural só confirmou que você iria sofrer mais – que iria morrer. Não estavam te levando para uma delegacia, onde bem ou mal alguém poderia te ver e lembrar de você. Estava caindo nos braços clandestinos do horrendo regime militar.
Existiam dezenas de lugares como esse. Eram os centros clandestinos de tortura. Ao mesmo tempo em que o governo militar começava a falar em abertura, os milicos e policiais civis usaram esses lugares para seguir com seu velho método de fazer as coisas. Em meados da década de 70, o governo falava em acabar com as torturas, e os “teatrinhos” foram banidos: aquelas cenas de falso tiroteio armadas para encobrir a morte de gente que fora na verdade morta sob tortura (era assim que os policias chamavam a encenação descarada).
Nos centros clandestinos, torturava-se em segredo, e não raro se sumia com os corpos. Muitos dos desaparecidos da ditadura brasileira passaram por eles.
Ali, fora do aparato oficial, podia-se massacrar ao ar livre. No seu caso, a tortura usava o que o sítio tinha a oferecer: as árvores, o açude, os dois lagos.
Segundo: a sufocação. Eles te levam para um córrego raso, com pedras no fundo. Ali, soltam água de uma espécie de reservatório e você é jogado para baixo, ralando nas pedras as feridas do corpo. Terceiro: a “piscina”, como eles chamam, na verdade um poço lamacento onde te afogam segurando sua cabeça. Quarto: a árvore. Pendurado pelos pés, você recebe socos, choque elétricos. Um químico é jogado sobre seu corpo, arde. Seus gritos se misturam ao de outras pessoas, que você ouve estarem sendo torturadas – homens, mulheres.
Um dia, te tiram dali, apressadamente. Dizem que seu sumiço foi denunciado no congresso nacional e na assembléia do Rio de Janeiro. Vão ter que te liberar. Seu martírio acaba numa casa, na periferia de uma cidade. Um médico o visita diariamente, para assegurar que você estará “apresentável” quando for solto. No dia 22 de outubro de 1975, finalmente você tira o capuz.
O seu nome é Affonso Celso Nogueira Monteiro. Em 2011, aos 89 anos, os olhos ainda ficarão opacos quando lembrar daqueles dias e o seu corpo, envelhecido, guardará ainda todas as marcas. Você é o único prisioneiro que saiu com vida da Fazenda 31 de Março – nome do sítio clandestino de tortura, uma homenagem à data do golpe militar de 1964.
Quarenta anos depois, a fazenda continuará lá, com a mesma cara, esquecida pelo tempo, escondida numa estrada de terra no bairro de Parelheiros, na zona sul de São Paulo, bem na divisa com Itanhaém e Embu-Guaçu.
Muitos não tiveram a mesma sorte. Antônio Bicalho Lana e sua companheira Sônia Moraes, ambos da guerrilha Ação Libertadora Nacional (ALN), foram assassinados no sítio em 1973. Depois, foram levados até o bairro de Santo Amaro, onde se encenou um tiroteio – mais um dos “teatrinhos”. Foram enterrados em vala comum. Ali também mataram o líder estudantil Antonio Benetazzo, em 1972, preso na Vila Carrão, norte de São Paulo. A versão oficial, veja, é depois de preso ele teria se jogado sob as rodas de um caminhão. Foi enterrado como indigente.
Fagundes, o “pacificador”
O sítio 31 de março é a prova de que existia uma rede de locais clandestinos de tortura no Brasil nos anos 70. Mas, como grande parte da história da ditadura militar brasileira, jamais se investigou como e quando foram usados.
No Brasil, diferente de países vizinhos como Chile e Argentina, jamais um único militar foi punido pela tortura sistemática adotada pela ditadura. Naqueles países, lugares como esse viraram museus, memoriais às vítimas, marcos históricos para que o passado não volte.
Os sítios da tortura só eram possíveis por causa do apoio de civis, gente endinheirada que apoiava a ditadura e emprestava seu imóveis para a repressão. Nenhum deles jamais foi levado à justiça.
O “dono” do sítio 31 de Março era um empresário mineiro, Joaquim Rodrigues Fagundes. Acusado de grileiro, ele se apossou da terra nos primeiros anos da década de 70. Chegou tocando o terror: junto com capangas, exibiam armas de uso exclusivo das Forças Armadas, invadiam a casa de moradores, chegaram a surrar um deles para que “desse o fora”, como se dizia na época.
Fagundes se gabava de ser amigo do “pessoal do Doi-Codi”, a central mlitar que comandava a repressão. Seu caseiro na época, Alcides de Souza, reconheceu que ele emprestava o sítio para os milicos fazerem treinamento. “Tem vez que chegam aqui dois mil homens – acampam, correm pra cá, pra lá, dão tiros, cortam a mata”, disse.
Fagundes era dono da Transportes Rimet Ltd, na Moóca. Sua empresa não fazia muita coisa. Tinha um único cliente, a estatal Telesp – Telecomunicações de São Paulo, que na época controlada pelos militares do governo paulista. Ali na Moóca, era sempre visto acompanhado pelos bravos amigos de farda, como o coronel Erasmo Dias, conhecido por tere invadido a universidade católica (PUC) e metido ferro nos estudantes. Ele mesmo ia uma vez por semana até a sede do Doi-Codi, na rua Tutóia. “Ele tinha autoridade, andava com os milicos”, lembram os vizinhos.
Quando não tinha ninguém gemendo ou sufocando, a turminha de Fagundes usava o sítio para churrascos e almoços festivos. Vinham nomes como mesmo Erasmo Dias, bem como o Coronel Brilhante Ustra, cujo comando do Doi-Codi foi marcado por mais de 500 denúncias de tortura, e o delegado da policia civil Sérgio Paranhos Fleury, que comandava esquadrões das morte antes da diutadura, e o massacre dos opositores depois. Só a nata da repressão. “O Fleury era amigão da gente” lembra Alcides, o caseiro.
A ajuda de Fagundes foi reconhecida. Em 30 de junho de 1977, recebeu a Ordem do Mérito do Pacificador, por “serviços prestado ao país”. O mineiro tinha tanto orgulho da sua ligação com o exército que, logo abaixo da placa com o nome da fazenda 31 de Março colocou outra, dizendo: “proprietário: pacificador Fagundes”.
Jamais foi militar, jamais teve um cargo oficial. E jamais foi chamado a prestar contas pela sua atuação.
Pelo contrário. Em 1984, recebeu uma comenda do Exército, tornando-se, oficialmente, “comendador”, título que consta ainda hoje na sua lápide no Cemitério da Quarta Parada, zona leste de São Paulo. O país agradece.
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Fonte: Pública

Uruguai registra aumento de 1,5% do PIB em 2016 e tem 14º ano seguido de crescimento econômico

Uruguai registra aumento de 1,5% do PIB em 2016 e tem 14º ano seguido de crescimento econômico


Economia uruguaia acelerou no último ano, já que em 2015 a expansão do PIB foi de 1%; país se distancia de problemas econômicos enfrentados por vizinhos Brasil e Argentina
A economia uruguaia alcançou em 2016 seu 14º ano consecutivo de crescimento, com o aumento do PIB (Produto Interno Bruto) registrado no ano de 1,5%, chegando a US$ 55,266 bilhões, informou na quinta-feira (23/03) o Banco Central do Uruguai (BCU).
A cifra indica a aceleração da economia uruguaia no último ano, já que em 2015 a expansão do PIB foi de 1%, assim como o distanciamento do Uruguai dos problemas econômicos enfrentados por seus vizinhos – em 2016, o PIB do Brasil teve redução de 3,6%, enquanto o da Argentina caiu 2,3%.
Segundo a consultora econômica CPA Ferrere indicou ao jornal uruguaio El País, Montevidéu registrou crescimento médio de 1,7% nos últimos três anos, enquanto Buenos Aires e Brasília tiveram contração de -2,3% e -0,8%, respectivamente.
Danilo Astori, ministro de Economia e Finanças do Uruguai, declarou na última semana que o país “se sobrepôs a este impacto” regional e “agora esperamos começar lentamente a recuperar níveis de crescimento maiores do que os que temos tido nos últimos dois anos”.
Matt Rubens / Flickr CC

Brasileiros e uruguaios terão mais facilidade para obter visto de residência no dois países

Inflação sobe 2,5% na Argentina em fevereiro; em 12 meses, índice atinge 25,4%

G20 não cita luta contra protecionismo e mudanças climáticas, refletindo posição dos EUA

Venezuela, Peru, Canadá e mais 10 países se unem a banco de desenvolvimento liderado pela China

 
Como indicou o BCU, “o incremento no nível de atividade em 2016 se explica pelas taxas positivas na maioria dos setores, destacando-se por sua incidência os aumentos em transporte, armazenamento e comunicações, como resultado do crescimento das telecomunicações e do fornecimento de eletricidade, gás e água (de 15,6%), devido à maior proporção de energia elétrica gerada a partir de fontes renováveis”.
A instituição afirmou também que o aumento nestes setores “foi parcialmente neutralizado por quedas na construção e em comércio, reparos, restaurantes e hotéis, explicado pela queda na atividade comercial”. As exportações tiveram queda de 1,4%, assim como as importações, de 2,9%, o que determinou “que o volume do saldo comercial com o exterior resultasse menos negativo do que o do ano anterior”, disse o BCU.
Consultoras financeiras ouvidas pelo El País expressaram seu otimismo e colocaram sua previsão de crescimento para a economia do Uruguai em 2017 entre 2% e 3%.

Chilenos saem às ruas em 'maior marcha da história' contra sistema de previdência


Chilenos saem às ruas em 'maior marcha da história' contra sistema de previdência


Ato pede substituição do atual sistema, privatizado em 1981 por Pinochet, por sistema tripartite; mais de 90% dos aposentados do Chile recebe pensões inferiores a 154 mil pesos mensais (233 dólares)
Atualizada às 18h45
O movimento No+AFP (Não mais Administradora de Fundos de Pensões) convocou para este domingo (26/03) um novo ato contra o sistema previdência do Chile, privatizado em 1981. Atos em todo o país, apoiados por diversas organizações sociais e trabalhistas, fazem da manifestação “uma das marchas históricas, talvez a maior da história”, afirmou Luis Mesina, porta-voz do movimento, durante entrevista coletiva neste sábado (25/03).
Segundo os organizadores, cerca de 800 mil pessoas participaram do ato em Santiago, totalizando mais de 2 milhões em todo o país. A polícia chilena, por sua vez, cifrou em 50 mil o número de participantes. No ano passado, cerca de 1,3 milhão de pessoas saíram às ruas em todo o país em agosto, e 750 mil manifestantes participaram da marcha anterior, de 24 de julho. 
“Chamamos todas as famílias trabalhadoras do Chile para marchar massivamente este domingo para deixar claro que não queremos mais AFP, nem privada nem estatal, e não toleraremos reformas cosméticas que não dão solução real às baixas pensões nem à farsa permanente das quais os trabalhadores chilenos têm sido vítimas há mais de 36 anos”, declarou Mesina. O dirigente ainda afirmou que espera “que isso gere um impacto e vençamos esta indolência de parte das autoridades políticas que não querem escutar este clamor que pede a restituição de um direito fundamental”.
Reprodução/Twitter NoMasAFP

Chilenos protestam por aposentadoria digna

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Reforma da Previdência de Temer levaria a 'mexicanização' do Brasil, alertam especialistas

Chile alivia restrição total à carne brasileira e suspende importação apenas de frigoríficos investigados

 
No ano passado, a presidente Michelle Bachelet propôs um projeto de lei de reforma do sistema previdenciário, mas que não eliminaria o regime privado, agregando a este uma espécie de AFP estatal. “Deveremos realizar mudanças dos parâmetros utilizados para avaliar as pensões e assegurar que o sistema não só seja justo como também sustentável”, afirmou Bachelet. “Iremos criar uma administradora de fundos estatais que acolha os trabalhadores que hoje carecem de cobertura previdenciária”, acrescentou.
As AFPs, empresas dedicadas a gerir o dinheiro dos contribuintes reservados à aposentadoria futura, surgiram durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, que buscava uma forma de superar a crise econômica investindo as contribuições dos trabalhadores no mercado de capitais. Em poucos meses, surgiram no país 14 novas companhias dedicadas a este mercado, que prometiam uma aposentadoria de luxos e extravagâncias.
O movimento No+AFP propõe a substituição das administradoras por um sistema de distribuição com caráter tripartite e solidário, com financiamento por parte do empregador, Estado e trabalhador. Atualmente, mais de 90% dos aposentados do Chile recebe pensões inferiores a 154 mil pesos mensais (233 dólares), quase a metade do salário mínimo legal. O valor da aposentadoria que os trabalhadores recebem é determinado pela flutuação do mercado e o rendimento dos fundos alimentados pelos assalariados que depositam mensalmente nas AFP 10% de seu salário bruto.

Projeto coordenado pelo MST alfabetiza mais de 7 mil pessoas com método cubano


Projeto coordenado pelo MST alfabetiza mais de 7 mil pessoas com método cubano


Processo aconteceu ao longo de todo o ano de 2016; segunda etapa pretende dobrar o número de pessoas alfabetizadas
O Maranhão tem cerca de um milhão de analfabetos, quase 20% de sua população, segundo os mais recentes dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A situação se agrava no meio rural, onde o índice sobe para aproximadamente 40%. Estes números deixam o estado atrás apenas do Piauí e Alagoas na taxa de analfabetismo no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013. Porém, foi sob este cenário que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) coordenou um curso de alfabetização de jovens e adultos no estado do Maranhão ao longo de todo o ano de 2016, desenvolvido por meio de uma parceria com o governo do estado a partir de uma proposta do próprio MST, tornando-se a principal referência da Jornada de Alfabetização desenvolvida pelo governo Flávio Dino (PCdoB).
Ao longo desse período, mais de 7 mil pessoas foram alfabetizadas por meio do método do cubano “Sim, eu posso!”. O projeto se propôs a atuar nos 30 municípios com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do Maranhão. A parceria com o MST se deu inicialmente em oito destes municípios: Aldeias Altas, Água Doce do Maranhão, Santana do Maranhão, Governador Newton Bello, São João do Caru, São Raimundo do Doca Bezerra, Jenipapo dos Vieira e Itaipava do Grajaú.
Em termos absolutos, foram muitas as pessoas alfabetizadas nesse processo. Mas quase nada em termos percentuais, já que representa menos de 1% da demanda maranhense. Por isso, a meta é dobrar a quantidade de pessoas alcançadas no estado em 2017, já que no final de fevereiro os representantes do governo do Maranhão garantiram essa ampliação.
“Eu nunca tinha estudado, nunca tinha tido a oportunidade, agora eu quero mais”, afirma Manoel Vieira de Sousa, 67 anos. Seu Manoel, com os olhos iluminados, entre feliz e orgulhoso, fez questão de escrever algumas palavras para demonstrar o seu recente aprendizado. Porém até chegar a este momento, muito esforço teve que ser empenhado. “No começo, a dificuldade foi grande, eu não sabia nada, não conhecia as letras”, explica o camponês, falando das primeiras aulas, comentando também sobre a alegria de sua esposa, ao vê-lo lendo. “Ela ficou muito, muito animada”, conta.
Essa foi apenas a segunda vez que a experiência do Sim, eu posso ocorreu no Brasil fora dos assentamentos do MST. A primeira foi no Ceará, na periferia da cidade de Fortaleza. Segundo Simone Silva Pereira, dirigente do MST no estado, esse tipo de trabalho, fora das bases do movimento, “é um passo num processo de emancipação da classe” como um todo.
Simone explica que o programa não se resume apenas ao processo de alfabetização. “As pessoas discutem sobre alimentação saudável, o problema da violência contra a mulher, a necessidade de todos continuarem estudando. No processo foi construído toda uma pauta de reivindicações”, destaca. Para ela, as pessoas envolvidas “vencem uma descrença e recuperam uma esperança”.
É o que conta, por exemplo, a educadora Alexandrina Silva Lima, do município de Santana do Maranhão, que neste processo alfabetizou a mãe de 65 anos, uma tia, além de outras 13 pessoas. Alexandrina diz que o sentimento de vergonha é comum entre as pessoas que não sabem ler e escrever, e esse é um dos primeiros obstáculos a ser superado. “É o medo de virar chacota”, explica. No seu caso, ela montou a sala de aula em casa, com mesas e cadeiras que não estavam sendo utilizadas por uma escola. Isso facilitou o acesso das pessoas de sua família. “Em casa eles ficaram mais à vontade”, disse a educadora.
Para a execução do projeto foram contratadas 702 alfabetizadores e 71 coordenadores, que formaram 628 turmas e trabalharam sob o comando político pedagógico do MST. Na parceria realizada, o governo entrou com a estrutura e a logística, enquanto o movimento garantiu o método, a mobilização e a coordenação geral. Em cada um dos oito municípios havia, permanentemente, dois representantes do MST, acompanhando de perto cada detalhe do processo.
Juliana Adriano/MST

Educadora contribui na alfabetização no Povoado de Três Lagoas, no município de São Raimundo (MA)

MST celebra arroz orgânico como exemplo de projeto popular para a agricultura brasileira

Professora haitiana que vive no Brasil faz 'vaquinha' na internet para construir escola no país caribenho

Milhares de professores voltam às ruas de Buenos Aires em defesa da educação pública argentina

 
Dificuldades
No entanto, nem tudo caminhou conforme o planejado. Alguns obstáculos colocaram maiores desafios no desenvolvimento do programa, como a própria dificuldade de se chegar aos povoados. Em alguns casos só é possível chegar por meio de moto ou carro traçado, o que dificultava inclusive o transporte dos aparelhos de TV, utilizados nas aulas. Soma-se a isso as chuvas, estradas ruins, ausência de local adequado para instalar salas de aula, a necessidade dos educandos de conciliar o estudo com o trabalho, os filhos pequenos de alguns, o cansaço pelo ofício na roça, a descrença generalizada no serviço público, a desmotivação inicial de muitos, entraves burocráticos e, no caso de alguns indígenas, até a comunicação entre educadores e educandos por conta do idioma.
O relato de algumas educadoras aponta que alguns tinham dificuldade até para segurar o lápis. Além da dificuldade de ler e escrever, muitos têm problemas de vista. O planejamento previa começar as aulas somente após a chegada dos óculos. Houve atraso na entrega, por parte do poder público. Em alguns casos, a espera durou quatro meses, e algumas aulas tiveram que começar sem os óculos, com os alunos reclamando de dor nos olhos ao forçar a vista durante os estudos.
Todavia, o saldo positivo superou as dificuldades enfrentadas das mais diversas formas. Em Itaipava do Grajaú, por exemplo, o pedreiro Emanoel Alves dos Santos, de 37 anos, conta que sua alfabetização serviu de grande estímulo para seus dois filhos que estão cursando o ensino médio e fundamental.
A intenção central do programa, porém, é que essa política de educação, somada à políticas de saúde e geração de trabalho dê mais qualidade de vida à população local. “Se o agricultor estiver alfabetizado, melhor ele aprenderá a usar as tecnologias e terá maiores condições de aumentar sua produtividade e melhorar sua renda”, explica o secretário de estado de agricultura familiar, Adelmo Soares.
Metodologia
Em geral, é preciso apenas quatro meses para que a pessoa aprenda a ler a escrever pelo método de alfabetização “Sim, eu posso!”. Num primeiro momento, os educandos têm a ajuda de vídeo aulas por meio de uma teledramaturgia (telenovela).
Após os quatro meses o projeto avança para os chamados “Círculos de Cultura”, uma metodologia de educação popular baseada nas propostas do educador Paulo Freire. Nessa fase, há quatro temas básicos que orientam o aprendizado: cultura, trabalho, participação política e história.
As salas de aula são instaladas onde é possível. Além de escolas públicas, clubes, associações, sindicatos, terreiros de cultos afros, salões de igrejas cristãs, espaços comunitários de aldeias indígenas, casas de educandos e de educadores e até bares viram salas de aula. Em Santana do Maranhão, por exemplo, a educadora Maria do Socorro Costa Saraiva, entre idas e vindas, pegava alguns dos seus educandos de moto e levava até o local onde faziam o processo de formação.
Para Lizandra Guedes, militante do MST e uma das coordenadoras da jornada, tem ocorrido um verdadeiro mutirão com este processo. “Essa tem sido a realidade em todos os municípios onde acontece o programa. A Jornada de Alfabetização virou uma jornada de solidariedade pelo ato de ler e de escrever. Muitos sujeitos têm se somado”, aponta.
Juliana Adriano/MST

Salas de aula são instaladas onde é possível, desde escolas públicas até espaços comunitários e bares
No município Jenipapo dos Vieiras, por exemplo, que tem o 6º pior IDH do estado, a jornada atingiu 30% da população analfabeta. Lá foram formadas 72 turmas, sendo que 24 delas em aldeias indígenas. Em algumas, parte dos habitantes nem sequer sabiam falar português. Dessa forma, o “Sim, eu posso” foi um curso para aprender a falar, ler e escrever em um novo idioma. Tereza Paiva, assistente social e militante do MST, explica que o papel dos educadores neste caso era “dar acesso ao saber sem alterar a cultura”.
Era comum nas aldeias indígenas de Jenipapo dos Vieiras a busca dos caciques pelas aulas, já que várias desses locais não têm ensino regular. Segundo Tereza, em uma turma de 15 alunos matriculados, mais de 20 pessoas assistiam às aulas, entre adultos e crianças indígenas. Na Aldeia Kriuli, o pequeno Hamilton Guajajara, de 10 anos, que nunca tinha ido à escola e que começou a frequentar as aulas apenas para acompanhar seu pai, em quatro meses já passou a escrever seu nome e o dos colegas.
Entre uma história e outra, Teresa Paiva avalia que “no método convencional o indivíduo aprende a ler e escrever num período médio de um ano de atividade escolar. No método utilizado no Maranhão em cinco meses se atinge esse patamar, estudando apenas duas horas por dia.”
Dos 9.492 educandos matriculados no "Sim, Eu Posso!", aproximadamente 75% foram efetivamente alfabetizados, o que totalizou os mais de 7 mil jovens, adultos e idosos que tiveram a oportunidade de enfrentar o desafio de vencer o analfabetismo.
Um exemplo desse sucesso é contado pela Tereza, quando num Povoado de Lagoa do Coco, em Jenipapo dos Viera, uma professora foi às lágrimas ao ver um pai, recém-alfabetizado, muito emocionado, conseguindo escrever a primeira carta para seu filho, que mora fora do Maranhão. No mesmo município, uma das 72 turmas pediu beca para a formatura do programa. Embora não houvesse orçamento para isso, a festa aconteceu do mesmo jeito. Com poucos recursos levantadas pela turma, os alunos improvisaram os chapéus a partir de borracha de EVA e fizeram as becas com o tecido TNT. Após a formatura, os educandos, já sabendo ler e escrever, realizaram o desejo de jogar os chapéus para cima, seguindo uma tradição de escolas e universidades pelo mundo a fora.
Próximos passos
Os próximos dois meses serão de mobilização e preparação de educadores e coordenadores para mais uma etapa do programa. O Secretario de Educação, Felipe Camarão, afirmou que o processo para a próxima etapa do programa já estão bem avançadas.
Segundo ele, alguns dos municípios que participaram da primeira etapa também podem ter como meta a superação real do analfabetismo. Um deles, segundo o Secretário, é Aldeias Altas - que na primeira Jornada reduziu em 35% o número de analfabetos.
Edição: Luiz Felipe Albuquerque

Texto publicado originalmente no site Brasil de Fato

Guila Flint, jornalista brasileira colaboradora de Opera Mundi em Israel, morre aos 62 anos


Guila Flint, jornalista brasileira colaboradora de Opera Mundi em Israel, morre aos 62 anos


Expatriada em 1969 pela ditadura militar no Brasil aos 14 anos, Guila Flint viveu em Israel e cobria assuntos relacionados ao Oriente Médio, em especial o conflito israelense-palestino
A jornalista brasileira Guila Flint, expatriada em Israel em 1969, morreu na madrugada deste domingo (26/03), às 2h, em consequência de uma doença. O enterro ocorreu às 10h, segundo informações do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo, onde foi sepultada. Guila, que aos 14 anos foi viver em Israel por medo da família de que ela sofresse com a ditadura militar, descobriu uma doença no ano passado e decidiu voltar ao Brasil.
Autora dos livros “Miragem de Paz” e “Israel Terra em Transe – democracia ou teocracia?”, da editora Civilização Brasileira, Guila cobria o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos, tendo colaborado com Opera Mundi em diversas matérias e reportagens desde 2010, além de atuar como correspondente da BBC Brasil, rádio CBN, Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo e o Correio Braziliense durante sua carreira.
Leia algumas reportagens escritas por Guila Flint para Opera Mundi:
“Guila, apesar de ser judia e cobrir um tema tão difícil, sempre teve a habilidade e o profissionalismo de se manter absolutamente isenta e correta em relação ao tema que ela estava cobrindo, nunca esquecendo de localizar muito bem em diversos momentos quem era o oprimido e o opressor, com um senso de justiça muito aguçado”, afirmou Marina Terra, ex-editora-chefe de Opera Mundi. “Cada conversa com ela era muito enriquecedora, existia muito carinho e reconhecimento, não só como profissionais, mas como seres humanos. Sentimos muito a sua partida”, acrescentou.
Arquivo pessoal

Jornalista brasileira Guila Flint morreu na madrugada deste domingo (26/03)

'Redwashing': discursos de 'esquerda' para limpar os crimes do Estado de Israel

Regularização de assentamentos em território palestino terá 'consequências legais para Israel', afirma ONU

A normalização de um crime: quando Duvivier, Bolsonaro, Wyllis e Crivella estão no mesmo campo

 
Marina ainda lembrou que, como colaboradora do site, Guila teve a oportunidade de explorar temas que não aparecem na grande imprensa, “justamente por essa característica de Opera Mundi de dar voz ao que não é da mídia tradicional”, como o texto em que conta, em primeira pessoa, sua trajetória desde a militância no Colégio de Aplicação, em São Paulo, à expatriação em Israel, após a instauração da ditadura militar no Brasil.
Breno Altman, jornalista fundador do site Opera Mundi, também lamentou a morte de Guila Flint, destacando sua competência e profissionalismo em temas relacionados ao Oriente Médio. “Mulher corajosa e estudiosa, profundamente crítica ao Estado de Israel, onde vivia desde os anos 60, são de sua autoria algumas das reportagens e livros mais esclarecedores sobre a transformação do sionismo em uma doutrina colonialista e antidemocrática”, escreveu.
Caio Quero, editor-chefe da BBC Brasil, veículo de comunicação com que Guila colaborava, afirmou que a jornalista descobriu uma doença no último ano e decidiu voltar ao Brasil. " Viveu intensamente os últimos meses ao lado de novos e antigos amigos. Tratava-se no SUS e nunca deixava de lembrar o orgulho que tinha de termos um sistema de saúde universal que, apesar dos problemas, está aberto a todos os brasileiros. Guila morreu brigando por suas convicções. Mesmo no hospital, lia, escrevia, discutia, ensinava e aprendia. Tudo, sempre, intensamente", escreveu Quero no Facebook, lamentando a morte da jornalista.

Caracas chama de 'servis' declarações de chanceler mexicano, que disse ser 'hora de agir' contra Venezuela


Caracas chama de 'servis' declarações de chanceler mexicano, que disse ser 'hora de agir' contra Venezuela


Venezuela "rechaça insólitas e servis declarações do chanceler do México, Luis Videgaray", disse ministra Delcy Rodríguez, por ter ficado "suficientemente demonstrado combinado entre Departamento de Estado dos EUA e direita regional"
A chanceler da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou no Twitter, na noite desta quinta-feira (23/03) que o país considera “insólitas e servis” a declaração do ministro das Relações Exteriores do México, Luis Videgaray, de que era “hora de agir” na OEA (Organização dos Estados Americanos) contra Caracas.
“A República Bolivariana da Venezuela rechaça as insólitas e servis declarações do chanceler do México, Luis Videgaray. Ficou suficientemente demonstrado o combinado entre o Departamento de Estado dos EUA e a direita regional para agredir e atacar a Venezuela”, disse Rodríguez.
“O chanceler Videgaray constrói muros com a América Latina no lugar de defender e atender os interesses e direitos soberanos de seu povo. O chanceler agride a Venezuela para se congraçar com seus donos imperiais. Crê que, assim, o povo mexicano esquecerá sua traição. A Venezuela é um país com tradição anti-imperialista, de povo nobre e valente que jamais negociará sua independência e soberania”, afirmou a ministra.
O secretário-geral da OEA, o uruguaio Luis Almagro, impôs uma série de condições a Caracas – entre elas, a convocação eleições gerais em um prazo de 30 dias – para evitar que a Venezuela fosse suspensa da entidade. Em um documento de 75 páginas, o secretário-geral exigia "a libertação dos presos políticos, a validação das leis que foram canceladas, assim como a eleição de um novo Conselho Nacional Eleitoral e um novo Tribunal Supremo de Justiça conforme os procedimentos estabelecidos na Constituição".

Peru pede ativação de Carta Democrática contra Venezuela na OEA devido a 'quebra do Estado de Direito'

Embaixadora da Venezuela protesta contra Almagro durante entrevista coletiva de secretário-geral da OEA

Organizações de direitos humanos denunciam Brasil à OEA por superlotação e violência em presídios

 
Agência Efe

Chanceler venezuelana Delcy Rodríguez chamou de 'servis' declarações de ministro mexicano Videgaray
Na quinta-feira, no entanto, 14 países-membros da OEA – Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Peru e Uruguai – assinaram um documento em que colocavam a suspensão venezuelana como “último recurso”, em resposta às declarações de Almagro.
Mesmo com a carta, Videgaray afirmou ao Wall Street Journal que seria “hora de agir” em relação à Venezuela na instituição – o que levou à reação de Rodríguez.
Protestos
Na segunda-feira (20/03), a embaixadora da Venezuela na OEA, Carmen Velásquez, interrompeu uma conferência de imprensa de Almagro com Lilian Tintori e Patricia de Ceballos, esposas de opositores políticos venezuelanos na sede da organização, em Washington, nos EUA.
A representante do governo de Nicolás Maduro tomou tal atitude em protesto ao que classificou como “proselitismo político” de Almagro na OEA. “Viemos protestar energicamente a esta conferência de imprensa. O senhor Almagro sabe que isto viola toda a normativa da organização: não se podem realizar atos proselitistas”, disse a embaixadora.