quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

YURI MARTINS FONTES
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Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo
Por Yuri Martins Fontes
A partir do final dos anos 1960, quando os imensos lucros que aqueceram o capitalismo por duas décadas (advindos da destruição promovida pela II Guerra) começam a dar sinais de arrefecimento, o tão louvado “Estado do bem-estar social” inicia sua queda – e daí o motivo central das manifestações que chacoalhariam o mundo já em 1968. Desde então, a opção por reformas sociais seria paulatinamente riscada do leque de discursos pretensamente “éticos” ou de “humanização” do capitalismo, com que as mentes patronais tentaram por algum tempo convencer ao mundo – e a si mesmas e a seus filhos – de que a mesquinhez de suas práticas não era assim tão degenerada, e que em se “trabalhando firme” (o outro trabalhando firme, obviamente) se vence qualquer “crise”.
Crise estrutural do capitalismo
A crise que então apenas principiava, contudo, se mostraria não mais meramente “cíclica”, mas “estrutural”, e isto segundo um aspecto “interno” e outro “externo” – ainda que não se possa deixar de atentar à inter-relação de ambos os fatores.
Do lado “interno”, ocorre que com a automação exponencial dos processos fabris (em especial nas últimas décadas do século XX), o trabalhador assalariado passaria a ser cada vez menos requerido pelo sistema produtivo, levando o capitalismo a um paradoxo, ou seja: no processo concorrencial, o capitalista tende a diminuir seus postos de emprego, o que, todavia, leva a que ele logicamente tenha menos gente a ser explorada (menos trabalhadores para produzir “valor”, o qual constituirá seu lucro). Este fato pode ser facilmente percebido, desde o ângulo mais concreto da dinâmica social, pois é patente que, na medida em que populações imensas são marginalizadas, o capitalista perde público capaz de comprar suas mercadorias, situação que por conseguinte leva à queda da taxa de lucro (“tendência” aliás já aventada por Marx, há um século e meio).
Do lado “externo”, contribui à crise estrutural, a face econômica do problema socioambiental – parte do desequilíbrio gritante do metabolismo entre o homem e a natureza, ou seja: o rápido esgotamento dos recursos materiais necessários à produção, cujos aspectos mais visíveis são a escassez energética e das próprias matérias-primas usadas na confecção de produtos (com o agravante do desperdício irracional da obsolescência programada), além da diminuta oferta de água que se aproxima de seu limite (problema tanto para a produção, como para a própria sobrevivência), e do avanço das fronteiras capitalistas (tática que adia a queda do lucro, mas que atinge assim as últimas terras agrícolas e florestas, acirrando o problema climático e as lutas de classes à medida que piora o martírio da fome no mundo “moderno”, denotando o fracasso talvez mais “fundamental” dessa tão propagada ilusão que é o atual modelo “progresso”).
Guerra de baixa intensidade
Com o início deste cenário de crise, os Estados Unidos passariam a intensificar a promoção de guerras pelo mundo (e assim a “destruição criadora”, de acordo com a lógica capitalista voltada não à utilidade dos produtos, mas a seu preço) – conflitos naturalmente centrados em nações não-alinhadas ou opositoras, segundo a perspectiva da Guerra Fria.
Segundo variados pesquisadores, dentre os quais Francisco Pineda (“¿Qué es la guerra de baja intensidad?”), o conflito de “baixa intensidade” – embate prolongado visando o desgaste gradual do inimigo – ganha protagonismo na derrota estadunidense contra o Vietnã entre os anos 1960 e 1970 (embora caiba notar que o embargo contra Cuba já fora um simbólico início desta prática, desde 1960). A este evento histórico se seguiriam uma série de levantes populares triunfantes em várias nações da periferia do capitalismo, casos de: Laos, Camboja, Moçambique, Angola, Etiópia, Iêmem (do Sul), Granada e Nicarágua.
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Em 1981, com Ronald Reagan na presidência, os EUA se dedicariam decididamente aos embates periféricos, passando a aplicar esse novo modelo de conflito contra insurgências anticoloniais, bem como em “operações de manutenção da paz” (ou sem eufemismos, manutenção de governos sob o jugo do Ocidente capitalista). Sua função essencial é a de minar o máximo possível as possibilidades de reformas e a aprovação popular de um governo revolucionário ou mesmo daquele que simplesmente se oponha em alguma medida aos desígnios da política imperialista (caso dos reformistas do século XXI dos quais aqui trataremos).
Essa doutrina tem lugar quando a “guerra convencional” – a ação militar aberta – não pode ser praticada convenientemente, seja por motivo de grande aprovação popular de um determinado governo, seja pelo desgaste que uma intervenção armada possa causar na chamada “opinião pública internacional” (note-se que o conceito de “opinião pública” é restrito quase sempre à “opinião” europeia de classe média, em geral os autodeclarados “humanistas” ou “democratas” dedicados ao que consideram “direitos humanos”). É aí que entra a sutil tática da “baixa intensidade”, que passaria a ser o modus operandi essencial da OTAN, a partir da derrota da União Soviética.
Na análise do quebequense Jules Dufour (vide Mondialization), geógrafo e presidente da Associação Canadense para as Nações Unidas, no fim do século XX, os membros da OTAN foram os principais semeadores do terror pelo Planeta, diretamente ou por procuração, em uma constante e cuidadosa defesa de seus interesses geoestratégicos e comerciais. Assim, a guerra de baixa intensidade viria a tomar o protagonismo geopolítico, com suas ações mais lentas de “decomposição institucional e social”, ocupando o lugar das guerras entre Estados que passam a um segundo plano. Em sua atualização para o século XXI, para satisfazer os escrúpulos cada vez maiores da “opinião pública”, a OTAN passaria a tomar algumas precauções, de modo que, segundo o professor, a construção e massiva difusão da imagem do país “alvo” como se tratando de um “Estado vilão” viria a ser o cerne e princípio de cada intervenção.
Tal método pode ser assim resumidamente descrito, segundo suas características mais usuais e intensidade:
i) dimensão golpista inicial (econômico-cultural e legal interna): ação inicialmente sociopsicológica, a partir de intensa campanha reacionária da mídia corporativa tradicionalmente aliada a interesses externos, seguida de pontuais agressões econômicas (sanções, sonegações de produtos, paralisações patronais), em que se reitera (e assim, aprofunda) cotidianamente a condição de “crise socioeconômica” do país, justificando à opinião pública interna as ações de perseguição e golpe institucional (legitimadas pelos poderes estruturalmente corruptos parlamentar e judiciário); neste processo, se destaca a ênfase publicitária dada às “atitudes desumanas” e “antidemocráticas” do governo reformista (que reage), o que se dá com o apoio dos chamados “think tanks”, organizações multinacionais que patrocinam a difusão de ideologias neoliberais e fascistas, frequentemente por meio de grupos de jovens lideranças populistas conservadoras (veja-se o caso do Instituto Millenium, ou do arrivista capo do “Movimento Brasil Livre”, “jornalista” da Folha de S.P.); tal prática de intensidade ainda leve é a que vem ocorrendo no Brasil, com seu “golpe-de-novo-tipo” (de que nos fala o professor Paulo Arantes, em entrevista à Revista Mouro, 2017), viabilizado em uma conjuntura de crise econômica mundial, mediante acusações de “corrupção” eleitoral (em última instância referentes ao incontornável caixa-dois, sem o qual não se chega ao poder no capitalismo), um novo modelo de golpe “ativo” ou mesmo “preventivo” também presente na Argentina, Peru, Honduras, Paraguai e em tantos outros países da América cujos governantes centro-reformistas, com o agravamento da crise, passariam a ser perseguidos midiática, parlamentar e judicialmente pelas elites não dispostas a dividir os prejuízos sistêmicos com as populações marginalizadas;
ii) dimensão golpista intensificada (inclui a esfera geopolítica e, discretamente, a militar): acusações de que o país oponente não respeita os direitos humanos, ou que cometeu “crimes de guerra” ou mesmo “contra a humanidade”, com consequente apoio à composição (muitas vezes no estrangeiro) de governos ou lideranças paralelos (alinhados e reconhecidos formalmente como legítimos), e pressão para a aprovação em instâncias como a ONU, e em caso da impossibilidade (por veto), da própria OTAN, de sanções amplas ou autorizações de embargos econômicos desestabilizadores, e de ações militares iniciais (criação de zonas de exclusividade aérea, bombardeios – sem corpo a corpo – por drones, apoio logístico e de inteligência a atentados e violência civil, etc.); é o que se vê atualmente acontecer na Venezuela, por exemplo;
iii) dimensão de intervenção externa suavizada (em que mais abertamente atua a esfera militar): políticas de patrocínio para a organização e o armamento das oposições ao governo inimigo, com apoio, caso seja necessário e possível, de ataques militares pontuais que facilitem a ação de seus mercenários (caso do apoio estadunidense aos Talibãs contra a URSS, ou ao Estado Islâmico contra a Síria, ou mesmo de várias das revoltas “alinhadas” ao Império e por ele promovidas, que foram sofisticamente incluídas nas chamadas “primaveras árabes”, caso da Líbia).
Com a recente prisão do nacionalista Ollanta Humala no Peru, a perseguição policialesca que vem sofrendo Cristina Kirchner, e a condenação sem provas de Lula pelo juiz tucano de baixa instância – após anos de intensa campanha midiática e de uma espetacularização sem-vergonha do nosso desavergonhado “judiciário” nacional (e isto apesar das tão tênues reformas levadas a cabo pelo lulismo) –, o modelo de guerra de baixa intensidade na América Latina ganha visibilidade e contornos particulares, que diferem daqueles em geral usados contra nações africanas ou asiáticas, nas quais os conflitos étnicos e religiosos são mais facilmente aproveitáveis pelo imperialismo.
No próximo artigo veremos como desde o intento de golpe contra Chaves em 2002, a América Latina, com seus governos reformistas neodesenvolvimentistas, que afloraram no início do século, após a “década perdida” neoliberal, vem sofrendo sistematicamente com a guerra de baixa intensidade – aqui normalmente sob o adorno “democrático” que com criatividade formatou essa aberração legal dita “golpe-de-novo-tipo” –, o que se agravaria em 2008, quando vem à tona, para quem queira ver, a crise exposta do capitalismo.

A implantação da nova ditadura civil brasileira

A implantação da nova ditadura civil brasileira

YURI MARTINS FONTES
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A implantação da nova ditadura civil brasileira
Por Yuri Martins Fontes
Enquanto há meio século, em meio à crise econômica que se agravava, os golpes de Estado na América se deram com violência aberta e pelo rompimento direto das instituições (dada a autonomia de que dispunham os militares por motivo da Guerra Fria), agora, no turbilhão da nova crise (reiniciada em 2008 com a socialização forçada dos prejuízos do capitalismo central com as economias dependentes), os golpes de novo tipo têm se dado com o mínimo de violência, e sempre que possível no rigor das leis (leis aliás construídas pelos mesmos segmentos dominantes golpistas).
Hoje, como se vê pela América afora, a ditadura não precisa mais ser “militar”, mas pode se sustentar bem apenas enquanto “civil”, inclusive se permitindo discursos inflamados em “defesa da democracia” que estaria sendo agredida por recorrentes “governos eleitos antidemocráticos”. O pouco protagonismo das Forças Armadas se dá mesmo em casos como o de Honduras, onde milicos sequestraram o presidente eleito, pois em um só ato imediatamente entregaram a chave do palácio aos colegas da elite civil.
Mas deixemos este tema do golpismo latino-americano de modo geral para um próximo texto, e fiquemos agora pelo Brasil.
A implantação da ditadura civil no Brasil em 2016
Vivemos no Brasil não apenas um golpe de Estado, mas uma ditadura cleptocrática (Jucá, Aécio, Temer, Gilmar e cia) e cada vez mais autoritária (Escola Sem Partido, fim das proteções trabalhistas, resolução policialesca de problemas sociais, etc). Uma ditadura organizada pelas classes patronais no Brasil: e isto qualquer pato verde-amarelo com um mínimo, nem digamos de “sensibilidade”, mas de vergonha na cara, admite.
Logicamente, tal processo contou com o apoio massivo das classes intermediárias formadoras de opinião – notadamente da classe média “formada” em seus sofás e poltronas dos finais de dia, ao regresso do serviço (que mesmo sendo bem pago frente à realidade geral, é a desculpa para seu “honesto descanso” frente à telinha – a também chamada “preguiça mental”). Uma classe de pouca leitura, mas de muita televisão, com seu vasto “instrumental teórico” advindo das manchetes de jornais que comprovadamente limitam as funções psíquicas (Globo, Estadão, Folha), ou das capas de revistas racistas e xenófobas (se não as idiotizantes Caras ou Istoé's, aquelas Vejas que já não se escondem em sua louvação do fascismo – ainda que sob discursos mais “suaves”).
Nos dias de hoje, em que a crise aperta, e a ameaça de pauperização bate à porta dessas classes médias – conservadoras, inseguras e cruéis (embora cristãs nas horas vagas), de pouco estudo e menos ainda reflexão, cultivada na informação difusa e fragmentada que não ela não compreende sem a simplória e cheia de interesses “moral da história” (oferecida pelo âncora) –, não foi difícil para a poderosa mídia promover, através destas pobres ricas salas-de-estar precarizadas pela crise, a atual ditadura civil brasileira.
Leia mais:
Consolidaram-se com o golpe as históricas quadrilhas no poder (“esquemas” provenientes do regime militar), para em seguida se vender as incalculáveis riquezas da Amazônia e o petróleo nacional, tudo bem blindado pelos super-salários de juízes (sócios do golpe que condenam sem a necessidade de provas governos minimamente populares, enquanto engavetam ilegalidades explícitas de aliados donos do mundo, cuja dimensão do rombo é incomparável).
Um governo golpista representante do 1% que se torna mais autoritário e violento à medida que se vê incapaz de superar o caos econômico e social – esse caos que ele mesmo criou a partir da crise econômica mundial, disseminando o medo social com o apoio milionário de organizações chauvinistas (como o nazi Tea Party dos EUA, ou a pedófila Opus Dei) que financiam a “inteligência” de grupelhos reacionários locais, em um ato sempre coordenado com as pautas da “fábrica midiática de verdades”.
Promoveu-se assim o suposto “movimento de massas da sociedade civil” (inflado pelo metrô grátis e chamadas da Globo para a festa) que levou tantos patos incautos – ora arrependidos – à Avenida Paulista, abalando perante a “comunidade internacional” o “antidemocrático” governo eleito, e justificando assim, previamente, sua derrubada.
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Um golpe que serviu para se enfrentar a crise de um modo “mágico” (sem que a classe patronal nada perdesse no jogo que adora), depauperando portanto ainda mais a saúde pública e os direitos parcos de quem vive de seu trabalho, e congelando miseráveis verbas sociais, além de bolsas da educação e pesquisa brasileira (pensar é muito perigoso).
Manteve-se assim intacto cada um dos privilégios das elites: da sonegação fiscal “tolerada” (que arromba os cofres públicos mais de que a corrupção), às pequenas corrupções – como os “jatinhos” bacanas que são isentos (pasmem!) de impostos.
Um golpe que (ainda) não precisou – ao menos no caso brasileiro – da casta militar nativa (cuja “formação” se deu com os manuais de tortura da Escola das Américas dos EUA, fato bem divulgado, e mesmo “sentido” na pele).
Assim, os militares, na atual conjuntura – tempos que detêm baixa popularidade (dadas as barbaridades que cometeram mesmo contra as próprias classes dominantes que lhes deram o poder nos anos 1960), continuam quietinhos em seus quartéis. Isso, claro, quando não estão nas favelas ou fronteiras na perseguição de traficantes que não “colaboraram”, ou em funções mais cotidianas como aterrorizar lares civis e matar trabalhadores nas quebradas, onde (segundo a pérola de um capo milico paulista da vez) o trato “tem de ser diferenciado daquele dos Jardins”. Obviamente.
Impostos, mensalão e os primórdios do golpe
E eis que então, alguém que exerce a reflexão mais cotidianamente, se pergunta: mas por que cargas d’água as tentativas de golpe começaram já em 2005 (época em que as primeiras “convicções” da Veja plantaram o jamais provado “mensalão”)?
O golpe de 2016, que derrubou o governo eleito de Dilma, oferece a quem queira ver nitidamente seus motivos fundamentais: manutenção de lucros (mesmo em tempo de forte crise mundial), e a consolidação do crime institucionalizado, cujo esquema formado na ditadura militar perambula especialmente entre o Congresso (da Bala-Bíblia-Boi) e as intocáveis corporações sonegadoras, passando pelos Tribunais e a meia-dúzia de “grandes irmãs” que monopolizam os meios de comunicação.
Entretanto, algo que até há pouco não parecia tão claro é: por que a tentativa de desestabilização do lulismo foi começada já em 2005, durante um primeiro governo Lula surpreendentemente conservador, quando o então presidente adulava as elites com a manutenção da austeridade neoliberal e um intenso crescimento de ganhos?
Muito embora Lula tenha passado a investir em programas sociais – como nunca antes na história –, este valor, contudo não dispendia quase nada do PIB: de fato, não passou de uma quantia ínfima, a verba pública que logrou diminuir, segundo a FAO-ONU, em 75% a “extrema-pobreza” no País; e isto enquanto, em tempos de bonanças, grandes empresas e bancos subtraiam do povo lucros récordes.
Na próxima coluna, vejamos alguns elementos que podem apoiar uma reflexão mais aprofundada sobre esse tema.
"Uma hipótese que emerge com novos estudos econômicos e socioculturais (o que aqui se defende como um dos pilares do golpismo construído cuidadosamente entre 2005 e 2016), é a de que a revolta das classes abastadas neste período não foi das 'classes altas', e nem das classes propriamente 'médias' (cujo poder de compra aumentou), mas das poderosas 'classes médias-altas'"
Uma hipótese que emerge com novos estudos econômicos e socioculturais (o que aqui se defende como um dos pilares do golpismo construído cuidadosamente entre 2005 e 2016), é a de que a revolta das classes abastadas neste período não foi das “classes altas”, e nem das classes propriamente “médias” (cujo poder de compra aumentou), mas das poderosas “classes médias-altas” (por exemplo industriais de médio porte, mas sem sua própria instituição financeira), parcelas das elites de gostos refinadíssimos, as quais, aproveitando menos as vacas gordas (dirigidas aos altos escalões), indignaram-se com o aumento dos impostos que Lula promoveu sobre os “produtos industrializados” de modo geral, e sobre os “importados”, em particular.
Por outro lado, e isso preocupava e preocupa as “classes altas”, é um tempo em que mesmo organizações próximas ao lulismo (caso da CUT), nos ares renovados daquele que parecia um “novo tempo”, voltam a levantar o debate sobre o mais justo imposto constitucional: aquele sobre as grandes fortunas – jamais debatido, mas previsto na Constituição (uma lei aliás recorrente em países europeus de elites menos “antinacionais”).
Como a popularidade de Lula no período não era das mais altas (e logo se previa que crescesse, como de fato cresceu), foi o momento certo para desestabilizá-lo, afastando o “perigo” da justiça social, por menor que fosse com o lulismo.
A isto se some a lenta disputa pela hegemonia ideológica – o que se faz em médio e longo prazo através dos investimentos em educação e democratização da mídia. Lula fez muito pouco pela educação, é certo, e quase nada pela comunicação alternativa ao pensamento único. Mas no Brasil em que juiz ganha salários mensais de R$ 200 mil e ainda esbraveja por “auxílio-educação” para seus filhinhos de até 24 anos, um País em que um panfleto do baixo nível da Veja (e não só político, mas cultural) é a leitura mais disseminada nas escolas e consultórios médicos e escritórios executivos desta seminação, convenhamos: o lulismo não foi assim tão pouco.


 Yuri Martins Fontes é doutor em  História Contemporânea (USP/CNRS), com formação em Filosofia e Engenharia; exerce atividades como pesquisador e jornalista, além de coordenar os projetos de educação popular do Núcleo Práxis-USP.

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QUERO A PROIBIÇÃO DO FILME "POLÍCIA FEDERAL:A LEI É PARA TODOS", ATÉ QUE SEJA REVELADO QUEM O FINANCIOU E QUAL O MOTIVO DO SIGILO

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                                                    RAPINAGEM

"O presidente FHC  incluiu no dicionario oficial do seu governo a expressÃo "RAPINAGEM" para determinar furto nos serviços publicos. Até ai tudo bem. Mas é bom lembrar que os projetos anunciados por seu governo e a equipe econômica que trouxe dos EUA, vai promover uma imensa rapinagem no patrimônio publico do pais com a entrega do petroleo às companhias norte americanas, das telecomunicações às multinacionais e ainda abrir a exploração aos estrangeiros das riquezas do sub-solo brasileiro, empobrecendo e tornando o pais submisso de interesses externos. Essa sim é que é a GRANDE RAPINAGEM  que o  presidente  vai promover impunemente contra o pais." (12/01/1995)

                           ODUVALDO BATISTA, jornalista (de O NORTE, na época, jornal diario atualmente fechado)

Marajá, juiz brasileiro vale 40 cidadãos

Desigualdade

Marajá, juiz brasileiro vale 40 cidadãos

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Gláucio Dettmar/Agência CNJ/Fotos Públicas
Sessão do CNJ
Em meio à crise, salário dos togados crescia 3,3% e chegava a 47,7 mil reais mensais em média, segundo o relatório do CNJ. Na foto, sessão do CNJ em fevereiro
Os juízes andam na berlinda devido a seus salários de marajá e terão de lidar com mais holofotes após a divulgação do relatório anual do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta segunda-feira 4.
Enquanto a economia encolhia mais de 3% e milhares perdiam o emprego, em 2016 o salário dos togados crescia 3,3% e chegava a 47,7 mil reais mensais em média, segundo o relatório.
Os ganhos mensais dos magistrados correspondem a 40 vezes a renda per capita brasileira de 2016, de 1,2 mil reais, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, é como se cada um dos 18 mil juízes brasileiros valesse 40 cidadãos.
A remuneração média dos juízes supera em 40% a quantia máxima que poderia ser paga pelo setor público, de 33,7 mil mensais, valor do vencimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O teto é uma ordem da Constituição desde 1998, mas nunca foi aplicado até agora.
Uma lei para fazê-lo valer de verdade foi aprovada no fim de 2016 pelo Senado, mas repousa desde então na Câmara dos Deputados. Em 29 de agosto, a Câmara instalou uma comissão especial para examinar a lei, sinal de que a votação talvez avance em breve.
O salário de marajá dos juízes é uma das razões para o Brasil ter a Justiça mais cara do mundo em termos relativos. Em 2016, o Judiciário consumiu em dinheiro público 1,4% do PIB, que é a soma das riquezas produzidas pelo País durante um ano.
Na Alemanha, por exemplo, o Judiciário consome 0,3% do PIB. No Chile e na Colômbia, 0,2%. Na Argentina e nos Estados Unidos, 0,1%. Números descobertos por um estudo de 2015 feito por um professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luciano da Ros.
O gasto com o Judiciário em 2016, de 1,4% do PIB, subiu em relação ao ano anterior (era de 1,3%), apesar da recessão econômica. Motivo: aprovação de uma lei de reajuste salarial.
Além dos togados, os funcionários de tribunais também embolsam gordas quantias. O salário médio dos servidores em 2016 foi de 13 mil mensais, segundo o relatório Justiça em Números, do CNJ, o equivalente a dez vezes a renda per capita. No total, a Justiça brasileira emprega 442 mil pessoas.
Apesar da grande quantidade de dinheiro investido no Judiciário, o estoque de processos é alto, 80 milhões no fim de 2016, aumento de 3% em relação a 2015.
Além de seu relatório anual, o CNJ tem outra arma engatilhada para expor a vida boa salarial dos juízes prestes a ser disparada.
Uma decisão de meados de agosto manda todos os tribunais enviarem ao Conselho um relatório detalhado da folha salarial com juízes. Estes dados são divulgados – quando são - pelos tribunais na web, mas de forma pouco clara e transparente, o que impede os cidadãos de terem uma noção adequada da situação.
A decisão do CNJ cobrava informações sobre o período de janeiro a agosto e que, a partir de setembro, fossem enviadas automaticamente até cinco dias depois de pagarem o salário dos magistrados.

O ESTRONDOSO SILÊNCIO SOBRE MORO

O estrondoso silêncio sobre Moro

Bob Fernandes, falando tudo o que a mídia silencia, vergonhosamente.

Em texto e, ao final, em vídeo:

O silêncio pode ser arma poderosa. Pode condenar adversários ou inimigos ao esquecimento. E pode proteger amigos ou aliados.

O silêncio é eficaz nas disputas de Poder. O silêncio se torna arma quando imposto pelos que noticiam sobre Poder, Política e seus atores.

Há anos a Lava-Jato, seus personagens e alvos, são tema central no debate político. Na coluna Radar, da revista Veja, foi publicada informação sobre a Lava-Jato.

Com exceção das redes sociais, há 48 horas impera estrondoso silêncio midiático sobre essa informação.

Maurício Lima afirmou: a Força-Tarefa da Lava-Jato oculta, há pelo menos dois anos, importante informação da Receita Federal.

O advogado Zucolotto é grande amigo de Moro. Foi padrinho do casamento do juiz com Rosangela. Que foi sócia de Zucolotto. Onde estão a informação e o problema?

O problema é: o escritório de Zucolotto, amigo do casal Moro, foi correspondente, colaborador, do escritório do advogado Tacla Duran. Depois investigado pela Lava-Jato.

A informação da Receita Federal, ocultada pela Lava-Jato, é: Tacla Duran, investigado na Lava-Jato, fez pagamentos para o escritório de Zucolotto e Rosangela Moro.

Duran é acusado de lavar dinheiro e integrar organização criminosa. À época dos fatos Rosangela ainda estava no escritório de Zucolotto, segundo relato da Veja, documentado.

Há uma semana, na Folha, Monica Bergamo informava: Zucolotto, advogado amigo de Moro, acusado de intermediar negociações com a Lava-Jato.

O acusador, esse mesmo Tacla Duran. E o que ele diz? Que Zucolotto tentou negociar para “melhorar” os termos da sua delação.

Tacla Duran, ex-advogado da Odebrechet, tem dupla cidadania. Não fez delação e refugiou-se na Espanha. Onde está livre.

Há dias, antes dessa informação acrescentada por Veja, Moro respondeu: “Zucolotto é profissional sério e competente”. E Tacla Duran “um acusado pela justiça brasileira”.


O que esperar sobre essas informações e história? Apuração e respostas. Sem imposição do estrondoso silêncio.