quarta-feira, 27 de setembro de 2017

“Cura gay”: uma questão de política

“Cura gay”: uma questão de política

RAPHAEL FAGUNDES
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“Cura gay”: uma questão de política
Por Raphael Silva Fagundes
Poucos sabem, mas a amizade era uma maneira que se adotava na Antiguidade Clássica para a manutenção da relação homoafetiva entre um homem e um jovem. Enquanto este ainda era um estudante, o termo que se empregava era pederastia, pederasti, pais, jovem, e erastiés, amante.[1] Observa-se que a relação entre homens era vista como mais viril que uma relação com uma mulher. Podemos ver que alguns resquícios dessa cultura existe até hoje, pois entre as pessoas mais antigas ronda a ideia de que uma amizade entre um homem e uma mulher é impossível.
Mas a relação entre dois adultos nunca foi bem vista. Por mais que a idade média tenha reprimido o homossexual, na Florença do século XV, somente os sodomitas adultos eram reprimidos. Em 1542, punia-se com a pena capital as ações desses indivíduos de mais de vinte anos.

O livro V das Ordenações Filipinas de 1604, adotado no Brasil colonial, previa punições para os que cometessem o pecado da sodomia, com a justificativa do desperdício do esperma. O antropólogo e historiador Luiz Mott mostra que havia uma “perseguição àqueles que ousassem ejacular fora do vaso natural da fecundação”.[2]Logo, a própria masturbação era considerada pecaminosa em uma sociedade baseada no “crescei e multiplicai-vos”.
Mais tarde, a medicina ocidental após Samuel-Auguste-David Tissot adotou o mesmo critério cristão, “com a de perda de substância, prejudicial ao indivíduo e à sociedade toda”.[3] Em entrevista ao Roda Viva, o caricato político Enéas, no qual se inspira o famigerado Jair Bolsonaro, disse exatamente a mesma coisa. Apoiando-se em sua formação médica condena a homossexualidade como um risco a humanidade justamente porque a relação entre dois homens não há reprodução.
O mercado usa a moral contra a esquerda
A questão é que em outros tempos o homossexualismo não era um movimento de subversão simbólica. Eram atitudes privadas, vigiadas pela polícia da moral, mas os gays não pretendiam mudar a ordem simbólica, isto é, a dominação masculina. Hoje, há um interesse não apenas em se tornar visível (embora a grande mídia divulgue apenas o homossexualismo que se resume a visibilidade), mas de alterar a questão do gênero, vista como “uma construção social, uma ficção coletiva da ordem ‘heteronormatica’, que se construiu, aliás, em parte contra o homossexual”.[4]
Hoje cresce um movimento, principalmente o queer, que luta por uma nova ordem sexual em que a distinção entre os diferentes estatutos sexuais seja indiferente
Hoje cresce um movimento, principalmente o queer, que luta por uma nova ordem sexual em que a distinção entre os diferentes estatutos sexuais seja indiferente, colocando-se contrários à doxa “direita e de direita que impõe todo tipo de domínio simbólico (branco, masculino, burguês)”, afirmando que uma discriminação histórica não é natural.[5]O próprio movimento queer se posiciona contra a “assimilação da cultura gay masculina a um sistema capitalista e excludente através do chamado ‘pink money’”. O primeiro ilustre a ser chamado de “queer” foi Oscar Wilde[6] autor de “A alma do homem sob o socialismo”.
A terceira via, uma opção que se apresentou para além da esquerda e direita, como nos mostra Anthony Giddens, perdeu o espaço dos movimentos identitários de rua. O PSDB que apoia causas como a legalização da maconha e do casamento gay, não tem espaço em meio às manifestações populares. Essas pautas fazem parte hoje dos partidos à esquerda. Sem dúvida, é o PSOL o partido que participa das diversas manifestações de gênero, questões raciais, sobre drogas etc., mas também vemos a presença do PCdoB e até mesmo do PT nas ruas em defesa das liberdades individuais.
O crescimento da direita está trazendo consigo o ódio a esquerda e a tudo o que ela representa. Desta forma, as pautas liberais defendidas pela nova esquerda que surgiu nos anos 1990 tornou-se o alvo principal da direita, inclusive, a liberdade de expressão no tocante do projeto do “escola sem partido”, ou da proibição do aborto até mesmo em caso de estupro.
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A dita “cura gay”, isto é, a terapia de “reversão sexual” liberada pelo juiz Waldemar Cláudio de Carvalho representa nada mais que os “novos” ares de uma sociedade que caminha em direção ao passado, ao retorno a uma moralidade que acreditava garantir a ordem. As classes dominantes estão com medo do fortalecimento das causas sociais porque estas, cada vez mais, tendem à  esquerda, e para solucionar esse problema que as afeta, deixa crescer as forças ideológicas conservadoras, que se pautam, inclusive, no fanatismo.
É uma questão muito mais de política que de psicologia. A psicóloga Rosangela Alves Justino, que entrou com a ação na Justiça para a promoção do projeto da “cura gay”, é assessora de um deputado do DEM-RJ, apadrinhado pelo pastor Silas Malafaia. Já Marisa Lobo, outra psicóloga que entrou com a ação, articula seu fundamentalismo com parlamentares como Marco Feliciano e trabalhou na imagem de Marcela Temer na campanha da mulher “bela, recatada e do lar”.[7]
As esquerdas estavam cooptando parte da classe média para seus setores através destas causas e, desta forma, as fileiras dos grandes defensores do espírito capitalista estavam diminuindo o seu comprimento. As classes dominantes, que não prezam pela moral, mas pela moralidade dos que consomem para que reproduzam as relações sociais que ossificam o desejo pela mercadoria, querem evitar o crescimento das esquerdas deixando a direita ganhar corpo na mídia e nas redes sociais. Tratando com negligência o amadurecimento dos discursos radicais conservadores, os grupos dominantes mantêm o controle impedindo o avanço das esquerdas em um momento em que precisam enrijecer o mercado.

[1] HOYSTAD, Ole Martin. Uma história do coração. Petrópolis: Vozes, 2015. p. 60.
[2] MOTT, Luiz. Por que os homossexuais eram perseguidos? Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, n. 73, out. p. 22, 2011.
[3] MUCHEMBLED, Robert. O orgasmo e o Ocidente. São Paulo: Martins Fintes, 2007. p. 295.
[4] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. p. 146.
[5] Id. p. 147.

Raphael Silva Fagundes é Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí. 

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A democra$$ia dos liberais, comprados a bom preço

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Paulo Henrique Amorim chama a atenção para uma nota – sem trocadilho – na coluna de Lauro jardim, em O Globo.
Trata-se de um fundo que, pelo número de deputados e senadores que pretende eleger, vai substituir o patrocínio da Odebrecht e da JBS na “caixinha eleitoral” de deputados que, aos donos do dinheiro, parecem “adequados”.
À testa da montanha de dinheiro, segundo Jardim, “Eduardo Mofarej (Tarpon), Nizan Guanaes, Arminio Fraga e Luciano Huck, entre outros benfeitores da pátria.
Querem montar o maior partido do Brasil, sob várias legendas, com uma bancada entre 70 e 100 deputados.
No jornal, nas barbas da Justiça que se empenha em verificar recibos de aluguel de um apartamento em São Bernardo do Campo, monta-se um esquema que, pelas pretensões eleitorais, é coisa para passar de 100 milhões de dólares, na mais miserável das projeções.
Dois geddéis, 200 malas rochalourianas, para traduzir nos valores que frequentam nossa política.
Como a lei, esta bobagem, proíbe doações de, no máximo 10% dos rendimentos declarados no ano anterior, dá para imaginar quanto cada um dos mecenas faturou, todos eles gritando contra a alta carga tributária.
Graças aos rapazes da Lava jato, nossa democracia está salva.
Nossos deputados – representantes do povo, alguém se lembra? – não serão mais comprados com caixa 2.
Todos terão nota fiscal.
O MBL já tirou CNPJ?

Bolsonaro não denunciou aumento de energia e gasolina

Bolsonaro não denunciou aumento de energia e gasolina

Mensagem falsa que circula no WhatsApp atribui a deputado federal alerta sobre reajustes que não vão acontecer
O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) em entrevista coletiva, em junho
O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) em entrevista coletiva, em junho. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
“Bolsonaro faz alerta sobre novo roubo do governo Temer. O Banco Central acabou de anunciar: a conta de energia elétrica terá mais um reajuste, dessa vez de 37%, e a gasolina de 14%. Vejam que absurdo! O reajuste será aplicado a partir da próxima semana. A imprensa foi comprada para não noticiar o novo reajuste abusivo. Próxima sexta haverá uma paralisação geral! CHEGA DE TANTO ROUBO!!! Se você repassar para mais 7 pessoas ou em 3 grupos, conseguiremos mobilizar esse país e esse canalha, safado do Temer vai cancelar esse reajuste absurdo.”
FalsoUma mensagem que viralizou no WhatsApp afirma que o pré-candidato à Presidência e deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) denunciou um grande aumento de gasolina e de energia elétrica planejado pelo presidente Michel Temer. Bastante confuso, o texto também diz que as medidas serão anunciadas pelo Banco Central a partir da próxima semana, sem precisar uma data. De acordo com a corrente, haverá uma paralisação na próxima sexta-feira – de novo sem indicar o dia do mês –, para protestar contra o “reajuste abusivo”. O alerta, no entanto, é falso.
Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública– analisou as informações da corrente e descobriu que nenhuma delas é verdadeira. Não foi possível identificar o autor do texto. Para tentar dar credibilidade à mensagem, foi incluído um link como fonte dos dados. O endereço, no entanto, leva para uma notícia no site Top Five TV, que traz apenas uma reprodução da corrente do WhatsApp, sem dados adicionais. O site também não informa autores ou traz dados de contato, o que é característico das páginas que publicam notícias falsas.
A menção de que o deputado federal Jair Bolsonaro teria feito o alerta sobre o aumento da energia e da gasolina também não é verdadeira. A assessoria de imprensa do parlamentar afirmou ao Truco que ele jamais fez qualquer declaração desse tipo. Buscas na internet também não revelam nenhuma entrevista em que ele tenha feito qualquer aviso do gênero. Os resultados remetem a reproduções do texto da corrente.
Outra informação falsa é atribuir ao Banco Central a responsabilidade de informar sobre esses supostos aumentos. Os reajustes na tarifa de energia são definidos e comunicados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que autoriza os aumentos para cada concessionária e permissionária do sistema. Logo, não há um anúncio de um porcentual fixo para todo o país. Na página do órgão é possível consultar todos os reajustes concedidos desde 2013. Não existe qualquer dado sobre um aumento geral de 37%.
Já a gasolina é reajustada nas refinarias pela Petrobras, também encarregada de anunciar os índices. O último ocorreu no dia 5 de setembro deste ano e foi de 3,3%. “Na última semana, em face dos impactos do furacão Harvey na operação das refinarias, oleodutos, e terminais de petróleo e derivados no Golfo do México, os mercados de derivados sofreram variações intensas de preços”, justificou a companhia, em nota. A área técnica de marketing e comercialização pode autorizar, a qualquer momento, uma mudança dentro da faixa de -7% até +7%. Quando esse limite é atingido, a decisão deve ser tomada tanto pelo Grupo Executivo de Mercado e Preços (Gemp), também um órgão interno da empresa. Não há, portanto, influência direta do presidente Michel Temer nos dois casos.
A última afirmação da mensagem do WhatsApp, sobre uma mobilização marcada para a próxima sexta-feira, também é falsa. Não há qualquer entidade ou grupo anunciando que fará um protesto por conta desses aumentos – que, aliás, nem são verdadeiros. Em correntes desse tipo, marcar um dia sem mencionar a data é um truque comum, porque dá a impressão de urgência – e, por tabela, incentiva as pessoas a compartilharem a mensagem.
Fonte: Pública

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Desde a ditadura, “é o pior momento da história indígena”, diz Sônia Guajajara

Desde a ditadura, “é o pior momento da história indígena”, diz Sônia Guajajara

Mesmo com o fim da Renca outros projetos em tramitação no Congresso querem limitar os direitos indígenas
O presidente Michel Temer publicou hoje no Diário Oficial da União o decreto que revoga a abertura da Renca, a Reserva Nacional de Cobre e Associados na floresta amazônica, entre o Pará e o Amapá, para a exploração das mineradoras. A pressão de indígenas, ambientalistas e comunidade internacional parece ter surtido efeito.
No último fim de semana de Rock in Rio, durante o show da cantora norte-americana Alicia Keys, a líder indígena Sônia Guajajara deu seu recado em relação a questão: “Estamos de olho. Não existe plano B”.
Sônia, uma das principais lideranças do país, esteve na Casa Pública no dia anterior à sua fala no evento de rock. Com ela, Renata Machado, da Rádio Yandê, e o antropólogo Rubem Thomaz de Almeida concederam uma entrevista ao jornalista e antropólogo Spensy Pimentel, colaborador da Pública.
A conversa se debruçou nas dificuldades e retrocessos em torno da questão indígena desde que Temer chegou a presidência. Na avaliação de Sônia, chancelada por Renata e Rubem, os indígenas estão passando pelo pior momento de sua história desde a redemocratização.

Spensy Pimentel – Este momento que a gente vive com o Michel Temer no poder é muito dramático para as populações indígenas. Todo esse quadro dramático surgiu depois do impeachment – ou golpe – ou é uma continuidade?
Renata Machado – Essa pergunta provocativa do Spensy me faz pensar no quanto vocês chamam de golpe o que aconteceu. Só que a gente vem recebendo um golpe desde que o país foi encontrado por Pedro Álvares Cabral. A gente recebe golpes há mais de 517 anos. Mas lógico que houve mudanças drásticas depois do impeachment. Ocorreu um fortalecimento de uma política voltada para determinados segmentos, principalmente o agronegócio. A gente vê que piorou muito o que já não estava bom em governos anteriores. Nós, enquanto indígenas, sempre sofremos muito. A todo momento é como se a gente fosse impedido de ser quem é. O Darcy Ribeiro tem uma frase muito boa sobre o povo brasileiro: “Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo”. A todo momento tentam te enquadrar num formato que eles acham que tem que ser.
Existe um pensamento muito colonialista impregnado na sociedade brasileira que influencia a forma como essas pessoas estão vendo o mundo. O que são esses políticos, esses deputados? De onde vem isso? Os ruralistas vêm desde a década de 1960, quando chegavam aqueles coronéis e soltavam o gado na terra indígena falando: “Se vocês quiserem ficar, vocês ficam. Vocês vão ter que trabalhar para mim ou vão embora”. Muitas famílias foram desestruturadas em Mato Grosso do Sul antes e durante a ditadura. Existe uma segregação. Uma segregação de uma população de 305 povos indígenas. Existe uma limpeza étnico-racial no Brasil. A gente se depara com uma pessoa como o Temer, que representa muitas pessoas voltadas para o agronegócio. Voltado para aqueles que a gente chama de senhores da morte.

Sônia Bone Guajajara, Spensy Pimentel, Renata Machado e Rubem Thomaz de Almeida conversaram sobre as dificuldades e retrocessos da questão indígena desde que Michel Temer chegou a presidência (Foto: Pedro Padro/Agência Pública)
Spensy Pimentel – Como é que a gente chegou a este momento, Sônia? Fez diferença, por exemplo, o diálogo com uma mulher na Presidência da República?
Sônia Bone Guajajara – Nunca foi fácil. Tudo o que a gente conseguiu foi com muita luta, com muita pressão, com muita resistência. A gente já estava sinalizando que com o governo Lula e o governo Dilma estava difícil e que a gente temia o pior. E o pior está acontecendo. A gente não está mais só nas ameaças. No governo Dilma, a gente tinha muitas ameaças de retrocessos e a gente na linha de frente fazendo pressão, evitando a aprovação dessa pauta anti-indígena. Mas agora tudo deixou de ser uma ameaça e virou uma realidade. Nós temos casos concretos de retrocessos que fazem com que a gente afirme que é o pior momento da história desde a redemocratização. De ataque aos direitos, de incitação ao ódio, ao racismo, preconceito, de conflitos fundiários.
É um discurso de ódio e de violência por parte do próprio Congresso Nacional, do Poder Executivo, dos Ministérios. De que somos intrusos. O fato de ter uma mulher na Presidência não facilitou nada pra gente. Nada! Foi muito difícil e complicado. O que a gente tirou de proveito é que nós começamos também a reagir mais fortemente. E começamos a assumir a linha de frente no nosso contexto. As mulheres deixaram de ficar naquele papel mais secundário na aldeia e passaram a assumir o protagonismo. Inclusive motivadas por essa dificuldade de conversar com a Presidência. A gente teve um encontro com a presidenta Dilma naquele contexto das manifestações de rua em 2013. Sinalizou-se uma agenda com o movimento indígena que não aconteceu também. Agora, mais do que nunca, a gente nem quer saber de conversa. A gente não quer aproximação com esse governo porque a gente não confia. É um governo que não tem compromisso nenhum com a pauta indígena. A cada momento que se anuncia uma medida anti-indígena, temos ido fazer as ocupações. Temos ido para Brasília. Temos feito as mobilizações locais, regionais, e revertido muita coisa. No ano passado revertemos duas portarias da Saúde, que tirava a autonomia dos distritos especiais indígenas. No início do ano, mudamos uma portaria do MJ [Ministério da Justiça] que constituía aquele grupo de trabalho para poder fazer a identificação dos territórios indígenas. E com esse decreto de extinção da Renca, a Reserva Nacional de Cobre Associados, fizemos uma articulação com artistas e conseguimos dar um salto na visibilidade.
Tudo isso aconteceu porque a disputa territorial passou a ser o centro dos interesses. Eles não queriam demarcar mais terras. E, além disso, queriam acessar às terras já demarcadas. A reação foi com violência, o que aumentou esses conflitos no campo. A PEC 215 embora até hoje tramitando, não foi aprovada, mas coloca tudo em uma situação de insegurança muito grande. Junto a isso veio o enfraquecimento dos órgãos. A Funai foi totalmente sucateada e o órgão perdeu força e não tem condição de atuar.
Spensy Pimentel – O Rubem tem uma experiência de quase 40 anos na elaboração de estudos para a Funai de identificação de território reivindicado por comunidades indígenas. E a gente sabe que essa discussão sobre a questão do marco temporal, do Mato Grosso do Sul, é um dos epicentros.
Rubem Thomaz de Almeida – O Ministério Público tem batido na tecla de que os indígenas não estavam lá em determinado tempo. Eles foram retirados à força, foram colocados em outros espaços, e, entre 1914 e 1928, o SPI – Serviço de Proteção ao Índio, que na época era um serviço de proteção aos índios –, demarcou oito áreas no Mato Grosso do Sul. Nunca mais se demarcou terra nenhuma no Mato Grosso do Sul depois de 1928. Só a partir de 1985 é que começaram a demarcar terras no Mato Grosso por conta da pressão dos índios. A partir dos anos 1970, o agronegócio e o neoextrativismo começam a se proliferar e crescer. E o Lula dizendo que o agronegócio era a ponta de lança da economia. Hoje no Mato Grosso você tem jagunços a granel, toneladas de advogados defendendo os fazendeiros e os índios insistindo na reconquista das suas terras.
Marina Amaral – A gente falou da bancada ruralista e fiz levantamentos sobre os signatários daquela CPI da Funai e Incra que foi um dos pontos de combate aos indígenas neste governo. A bancada evangélica também assinou maciçamente a petição. Como a bancada evangélica interfere no avanço do movimento indígena? Tem um movimento de catequese evangélica dentro das comunidades?
Sônia Bone Guajajara – Quando citei a bancada ruralista como a maior e a mais ofensiva aos direitos dos povos indígenas, é porque limitei um pouco a conversa. Somada a ela sempre está junto a bancada evangélica, que vota junto com a ruralista em tudo quanto é perda de direito. Evangélicos nas aldeias têm crescido bastante. Em um encontro religioso, falei que quem mais matou indígena no Brasil foram religiosos, no início os jesuítas, pela Igreja Católica e agora pelo próprio evangélico. Mata pela identidade, pela cultura… e, quando você mata a cultura, você mata o povo. E essas pessoas estão entrando nas aldeias e têm tido uma abertura por parte do povo. A ausência de políticas públicas nas aldeias faz com que qualquer pessoa que chega com discurso de ajudar, resolver, as pessoas abrem as portas. A pessoa entra primeiro como um bonzinho querendo ajudar e de repente domina. A questão do evangelismo nas aldeias tem interferido demais, de condenar os próprios rituais indígenas. Tem uns que são mais progressistas, e a gente não pode generalizar dizendo que são todos venenosos. Mas a gente não tem conseguido reverter isso, não. Eles têm tido um poder de sedução grande.
Renata Machado – Uma coisa interessante é que dentro dessas comunidades existem muitas rádios evangélicas. A gente tem esbarrado com isso na Yandê, quando chega em determinada comunidade para levar conteúdo e a rádio é evangélica. Essa coisa agora de ter um general na Funai, um general ainda indicado pelo Partido Social Cristão, como assim? Querem nos exterminar de todas as formas. É muito preocupante esse cenário, mas a gente sabe que existe uma resistência espiritual muito forte por parte de algumas culturas e comunidades.
Spensy Pimentel – O Rubem participou há uns dez anos de uma iniciativa cujo objetivo era tentar equacionar a questão das terras Guarani Kaiowá. Como você definiria o que aconteceu nesse período?
Rubem Thomaz de Almeida – Foi feito um levantamento em que se mostrava claramente ao Estado qual era a situação dos Guarani. Obviamente, isso foi boicotado em 2008, quando iniciamos o processo. A Funai, aliás, no tempo da ditadura, era uma instituição muito poderosa. Com a democracia, a Funai foi enfraquecendo. Um termo de ajustamento de conduta do Ministério Público não funcionou nesse caso porque o agronegócio é extremamente poderoso. Mas vale dizer que por parte do governo, tanto da Dilma quanto do Lula, não havia muito interesse também. O presidente Lula deixou bem claro que o agronegócio era a locomotiva da economia do país. Isso fez com que o agronegócio, os fazendeiros, as usinas de álcool e, enfim, o neoextrativismo crescessem de forma exacerbada e, obviamente, passaram por cima da Funai, embora tenhamos os registros de todas essas áreas ocupadas ou pretendidas pelos Guarani no Mato Grosso do Sul.
Spensy Pimentel – A gente falou de vários elementos para tentar entender esse quadro atual. A gente já falou dos evangélicos, do agronegócio. Dentro desse jogo de xadrez quais são os próximos lances de jogo?
Sônia Bone Guajajara – Difícil de saber, né? A gente está todo dia com uma novidade e não dá nem tempo de se programar para mais nada que no outro já mudou. Desde o primeiro dia de janeiro, a gente vem olhando para o Diário Oficial, vendo o jornal para ver qual a mudança, quais as novidades do dia. No acordo para votação do impeachment, foi rateado tudo. E agora é o momento de pagar a conta.
A gente escondeu a identidade, nossa língua, a cultura para poder sobreviver e continuar resistindo, porque ser indígena em determinado momento da história era motivo de sobressalto. Se eu disser que sou indígena, vou ser morta. Por muito tempo as pessoas se esconderam para não serem mortas. E agora, por mais que tenha toda essa situação de retrocessos, a gente percebe que houve uma aceitação das pessoas que não tem como negar essa origem do Brasil indígena. Nós precisamos de mais gente apoiando porque os territórios indígenas são um bem comum. A gente não briga ali por um pedacinho de terra, a gente briga é por um território. É a água, o vento, o que traz a chuva. Tudo que está ali é um conjunto que, somado, garante a vida. Comprovadamente os territórios indígenas são os mais preservados e o que mais contribui para o equilíbrio do clima. Se não fossem os territórios indígenas, o Brasil seria um total deserto. É importante que cada um entenda isso, que defender a demarcação de terra não é defender a terra para índio somente. É defender a sua própria vida.

“Comprovadamente os territórios indígenas são os mais preservados e o que mais contribui para o equilíbrio do clima”, disse Sônia Guajajara durante a Conversa Pública (Foto: Pedro Padro/Agência Pública)
Spensy Pimentel – A gente tem que passar para uma rodada final. Renata, estavam perguntando sobre o papel da grande mídia. Você falou bastante da iniciativa da Yandê. Se você puder falar um pouco desse outro lado, digamos assim, que essas iniciativas se colocam. Rubem, nesse processo todo de ataque aos direitos indígenas, houve um ataque paralelo que foi um ataque aos profissionais que trabalham juntos aos povos indígenas, por exemplo, via CPI da Funai e várias outras iniciativas de menor visibilidade.
Renata Machado – Quando a gente fala em comunicação indígena, é muito além de notícias étnicas. Não existem limites para a comunicação indígena e ela envolve diretamente as nossas visões de mundo e a nossa cultura. Na Yandê, de certa forma a gente desconstrói um pouco o que a outra mídia faz. A gente sabe que a imagem, a palavra têm um significado muito além do que outros grupos. A gente não está fechado nessa questão do jornalismo, de produzir notícia. Mas ver notícias que fortaleçam a identidade daqueles que a produzem e que eles coloquem ali a sua identidade, olhar, sua forma de ver o mundo. Não apenas se ater aos fatos. A gente tem músicas indígenas em mais de 150 línguas indígenas diferentes e 80% são línguas indígenas no Brasil. Tem a música tradicional e tem a música contemporânea, que é forró em Kaiapó, rap em Guarani… porque é aquilo, a cultura ela está em movimento, não é estática, ela se transforma e encontra também meios de resistência. A gente se apropria de todos os objetos em diferentes contextos, a gente faz neles a nossa resistência. Comunicação, pra gente, é muito além, eu estou olhando a árvore lá fora, eu estou me comunicando com ela, nos sonhos, na nossa relação com a natureza. Por isso repito muito isso que a comunicação indígena não tem limites. Ela envolve muitos mundos ao mesmo tempo. Fica aquela coisa do formato-padrão jornalístico, apenas notícia. É muito limitado quando a gente pensa isso. Na Yandê, a todo momento a gente se inspira. A gente vê a luta da Sônia, a gente vê a luta dos parentes em diferentes regiões e a gente se inspira nessa garra de viver. Eu tenho um filho de 1 ano e 5 meses que é Terena, porque é sempre a etnia do pai que eles colocam, e me preocupo com o futuro dele. Fico pensando em como vou explicar o que acontece em Mato Grosso do Sul e é difícil.
Rubem Thomaz de Almeida – Na pergunta sobre essa investida aos antropólogos, eu diria que no intuito de acabar com os índios entrou também essa CPI da Funai e do Incra. E, se a gente observar a relação da CPI, é bem interessante porque vamos acabar de fato com esse pessoal. Se a gente vê os argumentos que eles usam, é tão absurdo quanto pensar no marco temporal. É interessante porque eles acusam de todos os lados os antropólogos e não tem nenhum fundamento. Agora, é o poder, o poder do dinheiro, o poder propriamente dito. Eu não sei se vai ter êxito porque é uma excrescência.
Crédito da foto em destaque: Laycer Tomaz / Câmara dos Deputados

Fonte: Pública

Denúncia contra Temer começa a tramitar na Câmara

26 de setembro de 2017 - 12h59 

Denúncia contra Temer começa a tramitar na Câmara


Gilmar Félix/Câmara dos Deputados
A leitura é feita pela segunda-secretária da Mesa Diretora, deputada Mariana Carvalho (PSDB-RO)A leitura é feita pela segunda-secretária da Mesa Diretora, deputada Mariana Carvalho (PSDB-RO)
Na CCJC, Temer terá o prazo de 10 sessões para apresentar sua defesa. Depois disso, a CCJ tem até cinco sessões para elaborar e votar o parecer, que poderá ser pela aceitação ou arquivamento da denúncia. De toda forma, a decisão final sobre a abertura ou não de investigação contra o presidente da República cabe ao Plenário da Câmara, que necessita de 342 votos favoráveis para dar seguimento à análise da denúncia encaminhada pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra o peemedebista.

Temer foi denunciado pela PGR no último dia 14, na reta final do mandato de Rodrigo Janot à frente do órgão. Na peça, o ex-procurador denuncia Temer pelos crimes de obstrução de Justiça e organização criminosa.

Para deputados de Oposição esta é mais uma chance de a Câmara abrir o processo contra Temer. “Na primeira denúncia ele conseguiu se livrar, mas desta vez está mais consistente. As denúncias são graves. É mais uma chance que esta Casa tem de dar seguimento a esse processo”, pontua a líder comunista, Alice Portugal (BA).

Só com a autorização da Câmara é que o Supremo Tribunal Federal poderá julgar a ação contra Temer. Caso isso ocorra e os ministros decidam aceitá-la, Temer se tornará réu e será afastado do mandato por até 180 dias. Se a Câmara não der o aval, a segunda denúncia ficará parada até o fim do mandato do presidente, em 31 de dezembro de 2018, como aconteceu com a primeira denúncia por corrupção passiva.

Nova compra de votos 

Assim como aconteceu na primeira denúncia, a compra de votos por meio de liberação da verba de emendas parlamentares já teve início. Nesta segunda-feira (25), a imprensa já informava que Temer havia liberado algo em torno de R$ 1 bilhão.

De acordo com o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ), a Oposição está mapeando “todas as tentativas criminosas do governo” para impedir o avanço da denúncia.

“Já constatamos que no dia da apresentação da segunda denúncia foi o dia de liberação recorde de emendas no mês de setembro, mostrando que o governo voltou a usar deste expediente para angariar votos aqui na Câmara. Estamos de olho nessas movimentações e vamos denunciar esses resultados artificiais”, disse.


Fonte: Portal Vermelho