segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A senzala no quartinho de empregada

A senzala no quartinho de empregada

COTIDIANO
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Em reportagem publicada na edição 245 de Caros Amigos, a rapper Preta Rara, criadora da página Eu, empregada doméstica, comenta as situações degradantes das trabalhadoras domésticas no País
Por Lu Sudré
Caros Amigos
“Fui contratada pra ser cozinheira na casa, mas era impedida de comer da minha própria comida. A patroa me falava que o alimento que ela comprava era pra família dela e não pra mim. Eu disse que ia levar marmita e no dia que levei ela me dispensou. Me disse: ‘O que as pessoas vão pensar? Se um amigo meu vem aqui na hora do almoço e te vê comendo marmita na minha casa?’. Eu respondi que precisava comer. Ela me disse pra comer depois que eles acabassem de se alimentar para comer os restos. Me neguei e perdi meu emprego.” Este é um relato da rapper Preta Rara, nome artístico de Joyce Fernandes, sobre seu último emprego como trabalhadora doméstica, ainda em 2009. De lá pra cá, muita coisa em sua vida mudou.
Joyce se tornou historiadora, professora e construiu uma carreira no Hip Hop. Ao refletir sobre sua trajetória, decidiu postar em sua página no Facebook um dos inúmeros episódios de abusos que havia enfrentado durante os nove anos em que trabalhou como doméstica. Em algumas horas o post viralizou com a hashtag Eu, empregada doméstica e Preta Rara recebeu dezenas de depoimentos sobre situações ainda piores pelas quais passam outras mulheres, o que a incentivou a criar uma página com o mesmo nome. Em menos de 24 horas, o endereço contava com 24 mil seguidores e, em pouco mais de um ano, já publicou milhares de relatos — muitas vezes sem identificação por medo de retaliação —, e que expõem uma sombria realidade.
Ao ler os relatos, a rapper se impressionou com violações tão fortes e cotidianas. “Chegaram diversos depoimentos do tipo, ‘Ontem fui despedida por comer um pão porque estava com fome’. ‘Fui cobrar minha patroa pelo serviço e ela me dispensou por isso’; além dos tradicionais, ‘Não me pagou hora extra’ e ‘Não quer me registrar’”, afirma Preta Rara. “Recebi o relato de uma moça que era proibida de utilizar o banheiro da residência e a técnica que ela desenvolveu foi levar um pote de sorvete pra área de serviço e fazer as necessidades naquele pote, pelo simples capricho da patroa de não deixá-la usar o banheiro. Isso em uma jornada que é, no mínimo, de 8 horas. É um absurdo. Outra escreveu que ficou doente e tinha atestado. Quando foi entregar o documento, a patroa disse que não descontaria do salário mas que ela teria que repor o dia ausente e trabalhar no sábado e domingo, em um total de 12 horas”, conta Preta, em tom de indignação, que em resposta à criação da página recebe uma enxurrada de xingamentos racistas como “macaca”, “vagabunda” e “volta pra senzala”.

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De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015, mais de 6 milhões de pessoas são trabalhadores domésticos. Deste número, 91% são mulheres e, entre elas, as mulheres negras são mais da metade — como também já apontava estudo anterior, “O Emprego Doméstico do Brasil”, feito pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em 2013. No período de 2004 a 2011, houve a elevação do percentual de trabalhadoras domésticas negras em todas as regiões do País, exceto para a região Norte, que teve uma redução mínima de 79,6%, em 2004, para 79,3%, em 2011. Já a região Sudeste registrou o maior aumento de mulheres negras ocupadas no trabalho doméstico no período, com o percentual correspondendo a 52,3%, em 2004, e atingindo 57,2%, em 2011.
“As estatísticas mostram qual é o samba. Me questionam na página porque falamos sobre as mulheres negras, mas é apenas um reflexo. E este não pode ser o único local para as mulheres negras. O trabalho doméstico é hereditário. Minha vó era doméstica, minha mãe foi e eu também. Geralmente é assim. Somente nos últimos dez anos, graças aos orixás, algumas têm conseguindo romper com essa lógica. Recebemos, por exemplo, relatos de domésticas contando que as filhas ingressaram nas universidades ou que elas mesmas ingressaram. De 2003 pra cá, com o governo Lula e Dilma, conseguimos ver o filho da doméstica estudando na mesma escola que o filho da patroa. E isso incomoda a elite, a branquitude brasileira”, analisa a rapper, que se considera uma exceção por ter tido uma outra patroa que a incentivou a ler e ir atrás de uma formação superior.
Preta Rara lembra de outro caso: uma paraibana de 23 anos trabalha como doméstica em São Paulo e sustenta a família que ficou no Estado de origem. A moça dorme no trabalho e ganha R$ 1.800, um valor acima da média salarial que normalmente é de um salário mínimo. Seus patrões são advogados, mas isto de nada adianta. “Todo dia o homem leva a esposa pro serviço e volta pra casa pra assediar a trabalhadora. Bate na bunda dela, abraça ela por trás e ela tem que fugir. Pra poder limpar a casa sem ele assediá-la, ela desenvolveu uma tática: tirou cópia da chave de todos os cômodos da casa. Ela se tranca pra limpar o banheiro, lavar a cozinha. O quarto dela não tinha porta porta porque que ele tirou propositalmente. A doméstica conversou com a patroa sobre isso e ela disse: ‘Até parece que você não gosta de um homem rico em cima de você’. Ela ficou desesperada mas não saiu do emprego porque com esse valor ela conseguia ajudar os pais e pagar até mesmo escola particular pros filhos na Paraíba”, relata a historiadora.
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Existem ainda outras situações consideradas inimagináveis, como por exemplo, a história de uma doméstica negra, de 73 anos, que foi obrigada a subir oito andares de escada porque o elevador de serviço estava quebrado e os moradores de um luxuoso prédio de São Paulo não autorizaram a utilização do elevador social. A página Eu, empregada doméstica conta com uma rede de apoio de  advogados que encaminham essas denúncias, muitas vezes enviadas por familiares, aos sindicatos da categoria. Preta Rara pretende lançar um livro com depoimentos inéditos que foram enviados à página, que recebe, em média, quinze mensagens por dia.
A luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas teve como precursora a mineira Laudelina de Campos Melo, fundadora do primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do País, ainda em 1936. Os primeiros direitos garantidos foram aprovados em 11 de novembro de 1972 pela Lei 5.859, frutos da luta de Laudelina — a lei estabelecia o registro na carteira de trabalho, a organização sindical, descontos obrigatórios para a Previdência e vale-transporte. Ainda assim, a lei não garantia questões centrais para as trabalhadoras, entre elas, o pagamento de um salário mínimo. Somente em 2006, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foram garantidas outras reivindicações históricas como os 30 dias de férias remuneradas; a estabilidade da trabalhadora doméstica gestante do início da gestação até o quinto mês após o nascimento, que seriam os quatro meses de licença-maternidade e mais um mês de aviso prévio; o direito a todos os feriados, sejam eles nacionais, estaduais, civis ou religiosos; a proibição do desconto da alimentação e moradia para trabalhadoras que dormem no emprego, entre outros pontos.
A Emenda Constitucional 72, de 2013, conhecida como PEC das Domésticas, consolidou direitos centrais das trabalhadoras, como o recebimento de um salário mínimo ao mês, pagamento garantido por lei, jornada de trabalho de 8 horas diárias e 44 semanais e hora extra. Em junho de 2015, a presidente afastada Dilma Rousseff promulgou sete novos direitos: o pagamento do adicional noturno, do adicional de viagem, a obrigação do controle de ponto do empregado e também a utilização do banco de horas; a redução da alíquota do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) do empregador de 12% para 8%; obrigatoriedade do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), seguro acidente de trabalho, antecipação da multa de 40% do FGTS, seguro-desemprego e salário-família.
Segundo Luiza Batista, presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), os direitos conquistados até aqui são uma reparação histórica, mas ainda é preciso melhorar alguns pontos como o seguro-desemprego, registro digital dos acidentes de trabalho, o trabalho intermitente, a redução do salário que permite que as trabalhadoras possam ganhar menos do que um salário mínimo e adaptação do E-social para recolhimento da contribuição sindical na folha de pagamento. Sobre o cumprimento da lei, a sindicalista afirma que só é permitida uma fiscalização de forma indireta. “A Constituição Federal de 1988 diz que o lar é inviolável, só pode ser fiscalizado com a permissão da Justiça ou com autorização do dono da residência. O sindicato não pode entrar e nem mesmo o Ministério Público do Trabalho (MPT). O que geralmente acontece é que a trabalhadora vai até o sindicato e orientamos que ela faça uma denúncia à Superintendência (Regional do Trabalho). O empregador vai ser notificado e agendar um dia pra levar a carteira de trabalho. Se não estiver com a carteira assinada, por exemplo, ele terá que pagar uma multa e o dinheiro é revertido para a Justiça do Trabalho”, explica.
Herança escravocrata
Ainda com os avanços garantidos pela PEC das Domésticas, para Aldenir Dida Dias, feminista, doutora em Ciências Sociais pelo Núcleo de Relações Raciais da Pontifícia Universidade Católica  (PUC), em São Paulo, e ex-doméstica, nenhuma mulher que conseguiu romper com o padrão hereditário do trabalho doméstico o fez graças às políticas do Estado brasileiro, de nenhum governo, porque “o que foi feito foi tão pouco que não dá pra considerar”. Segundo ela, a situação dessas trabalhadoras no País demonstra como a América Latina tem cicatrizes profundas causadas pela escravidão. “A colonização europeia marcou o hemisfério Sul profundamente. Vivemos em um sistema capitalista hierárquico em sua essência, mas o fato de sermos colonizados deixou essa hierarquia ainda mais arraigada porque se junta a uma questão racial e de gênero. A relação patrão-trabalhadora doméstica parte de uma lógica igual à da escravidão. A ideia do banheiro da empregada, do quartinho, do elevador de serviço, por exemplo, permanece e está sendo até mesmo exportada para os Estados Unidos pelos brasileiros”, comenta Dida Dias.
A cientista social explica que a mesma dinâmica de exploração não é encontrada em países da Europa porque muitos passaram por momentos econômicos em que diversos serviços básicos foram oferecidos pelo Welfare State (estado de bem-estar social), como educação, saúde, moradia, alimentação e até mesmo equipamentos de uso coletivo, como lavanderias. “Quando este tipo de serviço é oferecido por lá, não há uma característica servil, de humilhação. É uma prestação de serviço, como deveria ser em qualquer lugar. Aqui, ocorre a colonização do colonizado. Estive em Moçambique, na África, e lá é um Brasil de cem anos atrás, justamente por conta da colonização portuguesa. Na casa de brancos e mestiços, as empregadas domésticas não podem usar chinelo, têm que andar descalças na rua. Isso há dois anos e sem perspectiva de mudança pelos próximos anos. A empregada doméstica idosa come o resto da patroa, quando permitido. A carcaça mesmo. É uma herança da colonização.”
Preta Rara concorda e questiona o lado mais perverso desta relação vertical: a internalização da exploração pelas próprias domésticas. “É um plano colonialista perfeito. Fizeram as empregadas domésticas acreditarem que elas têm que ser tratadas assim e naturalizam as opressões. Utilizam a famosa frase que destrói e passa por cima de todas as leis e direitos: ‘Você é tratada como se fosse da família’. A trabalhadora passa a acreditar nisto e tem horário pra entrar, mas não tem pra sair. Mas aí os patrões falam alguma coisa legalzinha, dão um brinquinho, uma blusinha e a trabalhadora acaba não questionando. Nisso, elas acreditam que são mesmo da família e não exigem seus direitos.”
Na avaliação de Dida Dias, as “senzalas contemporâneas” são “amenizadas” assim como a história dos considerados “escravos domésticos” da época da escravidão. “Essa ideologia está nas historinhas das ‘mães pretas’ atuais. Elas chegam em uma casa em que o patrão te leva pra uma viagem de férias mesmo que seja apenas pra que façam o almoço e cuidem das crianças, mas já é algo significativo na vida delas. Internalizamos os problemas sociais por não conhecer a situação política e econômica no Brasil. A mulher acha que a realidade dela é essa porque não lutou o suficiente, não brigou, não acordou cedo. É um discurso meritocrático e perverso”, afirma a cientista social, que endossa a necessidade do trabalho doméstico ser encarado como uma profissão e um serviço necessário, com direitos e deveres, como qualquer outro. Com as reformas trabalhistas e previdenciária propostas pelo governo Temer, que altera dezenas de pontos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), coloca o acordado sobre o legislado e ainda altera as leis de contribuição para aposentadoria, incluindo a igualação da idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, a perspectiva para as domésticas é ainda pior.
Luiza Batista critica as propostas e pontua que tais trabalhadoras serão ainda mais prejudicadas porque a rotatividade do trabalho é muito grande. “Com essa reforma proposta por esse governo ilegítimo, toda a classe trabalhadora será prejudicada. As reformas não estão sendo feitas pensando no bem-estar  do trabalhador ou trabalhadora. Foram pensadas pra melhorar a vida de quem sempre explorou a mão de obra do pobre. Essa reforma foi construída pra garantir mais lucro a quem sempre teve tudo. Ou seja, já está provado em outros países, a exemplo do Chile, onde a reforma previdenciária foi um desastre: pessoas vivendo com 38% do salário mínimo nacional, vivendo na miséria”, afirma a presidente da Fenatrad.
Além das questões legais e jurídicas, de acordo com Dida Dias, ações como a de Preta Rara em sua página são importantes para desnudar abusos e dar voz às empregadas domésticas, além de elucidar que o machismo e o racismo que circundam o trabalho doméstico são estruturantes na pirâmide social, o que só poderia ser transformado a partir da educação e da organização da categoria. “Não há apoio ao povo negro que tanto fez e faz por este País. Não há boa educação, moradia ou trabalho. O trabalho doméstico é uma profissão: deve ter horário e direitos. Quando as trabalhadoras são chamadas de ‘secretárias do lar’, se doura a pílula, ‘romantiza’ uma relação de trabalho, desqualifica. ‘Ela é da família, sai pra passear com a gente.’ Com isso, se pode fazer o pagamento com qualquer coisa, até mesmo com comida. Pode até levar na manifestação, como fez aquela família na época do impeachment”, ironiza Dida, sobre o casal que foi a um protesto contra o governo Dilma com a empregada de uniforme e levando as crianças no carrinho, uma imagem que viralizou na internet.
Para Preta Rara também é urgente que as relações de trabalho sejam humanizadas, assim como uma de suas patroas, relembra ela, que a incentivou a ler mais livros ao pegá-la no flagra lendo Olga, de Fernando de Morais, enquanto limpava a biblioteca da residência. “É preciso humanizar as relações, tratar o serviço doméstico como algo essencial pra vida. Não tem como falar que não se sabe ou que não tem informação, mas o quartinho da empregada doméstica continua sendo a senzala de hoje”, lamenta a rapper.

O Fundo Cívico dos super-ricos é nebuloso e suspeito

O Fundo Cívico dos super-ricos é nebuloso e suspeito

por André Barrocal — publicado 23/10/2017 00h30, última modificação 20/10/2017 14h42
Pensado para fabricar candidatos, o fundo é acusado de tentar driblar o veto a doações de empresas
Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Fundo Cívico
Em 6 de outubro, o fundo foi ao ar
A democracia poderia ser um antídoto contra o poder econômico, ao dar ao cidadão o direito igual ao de qualquer endinheirado de escolher o tomador das decisões que afetam uma comunidade. A grana reage ao tentar tutelar a classe política. Com sucesso.
Dinheiro de campanha, maior ou menor boa vontade da mídia, lobby, ameaças de não investir, e por aí vai. No Brasil é igual.
O Congresso tem 42% de empresários e só a metade de assalariados, todo mundo financiado por empresas, daí a aprovação de um escandaloso perdão e parcelamento de dívidas patronais.
A bufunfa domina a cena fora de Brasília também, vide o pa­trimônio dos governadores eleitos em 2014 (3 milhões de reais, em média) e dos prefeitos em 2016 (1,1 milhão). A proibição judicial em 2015 de doação empresarial limitou a ação do capital, idem a promiscuidade público-privado revelada pela Operação Lava Jato.
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Em um dos países mais desiguais do mundo, os endinheirados não ficariam inertes. Com o pretexto de aposentar a “velha política” – que tanto ganho já proporcionou à elite brasileira, quanta ingratidão –, uma turma de milionários resolveu fabricar candidatos para 2018.
Montou um “Fundo Cívico para a Renovação da Política”, de quantia e depositantes ignorados até aqui, embora tenha circulado no noticiário o nome de alguns mecenas, casos do empresário Abilio Diniz, do banqueiro Arminio Fraga e do publicitário Nizan Guanaes.
O apresentador de tevê e aspirante à Presidência Luciano Huck, tucano, figura na lista. Será ele o postulante “cívico” ao Palácio do Planalto? Ou será o prefeito e empresário João Doria Júnior, recém-acusado dentro do PSDB de fraudar licitações e abandonar São Paulo? Ou o banqueiro João Dionísio Amoedo, conselheiro do Itaú e fundador do Partido Novo, legenda que recentemente abriu as portas a outro economista financista, Gustavo Franco, ex-tucano?
Armínio Fraga, figura importante nesse cenário (Foto: Bel Pedrosa/FotoArena)
Certo é que o fundo nasce sob a suspeita de ser uma tentativa disfarçada de burlar a proibição de doações empresariais. Foi o que fez o Ministério Público Federal ser cobrado a investigar. O pedido é de 3 de outubro, três dias antes do lançamento do fundo, e até a conclusão desta reportagem na quarta-feira 11 não havia providência a respeito.
O documento quer que sejam averiguados os “reais objetivos” do fundo, apontado como fonte de cooptação ilícita de cidadãos, uma “ditadura do dinheiro, com a formação de um exército do poder econômico”.
Quer da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a suspensão de qualquer operação “cívica” e a requisição da papelada sobre a iniciativa, como protocolos de intenções, atas de reuniões e contrato social, para instauração de um inquérito civil que o enterre definitivamente.
São dois os alvos da solicitação de suspensão do fundo e de requisição de material: o empresário Eduardo Mufarej, face pública da iniciativa até o momento, e Abilio Diniz. Mufarej é sócio da Tarpon Investimentos, que por sua vez é sócia da BRF, a multinacional de alimentos cujo conselho de administração é dirigido por Diniz.
Nizan Guanaes, mais um personagem desse enredo (Foto: Aloisio Mauricio/FotoArena)
O principal executivo da BRF é sócio-fundador da Tarpon, Pedro Faria. Mufarej nega que o fundo será financiador de campanhas e não atendeu a um pedido de entrevista.
Foi ele quem comandou a festa de lançamento do fundo em 6 de outubro, em São Paulo. Na plateia, a atriz global Maitê Proença, a elogiar Huck como presidenciável, reclamar que brasileiro não sabe votar e pregar “renovação” na política.
Brasileiro não sabe votar? Maitê foi por anos apologista do senador mineiro Aécio Neves, o presidenciável tucano de 2014 pego em 2017 no escândalo Friboi, afastado do mandato e colocado de castigo em casa à noite pelo Supremo Tribunal Federal.
Os usos e costumes da política precisam de “renovação”? A atriz de 59 anos, crítica do Bolsa Família, é solteira aos 59 para continuar embolsando uma bolada de pensão vitalícia por seu falecido pai ter sido juiz e procurador. Se casasse, adeus mamata, ôps!, “direito adquirido”, diz ela.
Abilio Diniz, outra figura importante da empreitada (Foto: Gabriel Soares/AFP)
O pessoal do fundo sonha em fabricar 150 candidatos, prioritariamente a deputado federal. É a meta de gente a ser selecionada entre as inscrições iniciadas dia 7. Os interessados precisam ter 21 anos ou mais, ficha limpa e nenhum mandato no currículo.
Cada escolhido receberá bolsa de 5 mil a 8 mil reais por mês a partir de janeiro e cursos de inteligência política e de como se portar perante a imprensa. O valor do auxílio foi definido com base em programas privados de trainee.
No limite, serão pagos até 7,2 milhões de reais em bolsas – uma ninharia para as fortunas dos idealizadores –, já que a preparação vai de janeiro a junho de 2018. O treinamento termina no mês que antecede o início das convenções partidárias que aprovarão candidaturas.
Procurador-geral eleitoral de 2013 a 2016, Eugênio Aragão sente cheiro de trambique, um drible no veto a doações empresariais.
Solla: 'O poder econômico sempre jogou pesado' (Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados)
“É abuso de poder econômico. O bolsista que se candidatar deveria ter o registro cassado pela Justiça Eleitoral, pois entrará na campanha em vantagem em relação aos demais candidatos, vantagem financiada por empresários.” Para ele, o MPF precisa investigar. O pedido de apuração deu entrada na Bahia e foi remetido a São Paulo, onde o fundo foi apresentado.
Na terça-feira 10, o advogado Neomar Filho, responsável jurídico pelo pedido, encaminhou ofício ao MPF a solicitar urgência nas providências e que o caso fique com Raquel Dodge em Brasília, por ter implicação nacional. “O lançamento deu-se na certeza de que não haverá punição. É uma aberração grave que a PGR e a Justiça Eleitoral ainda não tenham se pronunciado”, diz.
O autor político do pedido é o deputado Jorge Solla, do PT da Bahia. Para ele, foi por naufragar a tentativa do Congresso de legalizar o financiamento empresarial de campanha que o fundo surgiu.
Nas eleições municipais de 2016, diz, a criatividade do PIB já tinha dado as caras, com doações na qualidade de pessoas físicas por parte de executivos de empresas, em troca de promessas de gorda participação nos lucros e resultados do patrão.
Aragão: tudo isso cheira a trambique (Foto: Daniel Marenco/FolhaPress)
“O poder econômico sempre jogou pesado no Brasil e agora vai jogar ainda mais. Há muito tempo não contava com um governo tão favorável, que entrega o petróleo, fez reforma trabalhista para reduzir o pagamento aos trabalhadores, congelou gastos com assistência social e educação para pagar juros da dívida pública”, diz.
O de Michel Temer é de fato o governo dos ricos. No primeiro semestre, o de PIB zero, a renda da classe A, entendida como quem ganha acima de 17 mil reais mensais, um grupo de 1 milhão de famílias, subiu 10%, enquanto a das classes D e E (renda até 2,3 mil), um total de 45 milhões de famílias, encolheu 3%.
São cálculos de uma consultoria do mercado financeiro, a Tendências. Não surpreende o governo preparar uma lei a pavimentar um novo Proer, socorro de bancos com verba pública da era neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.
Apesar dos lucros recordes, a situação dos bancos não é lá muito confortável, em razão da alta inadimplência, e os ganhos podem cair no futuro, dependendo dos rumos políticos no Brasil, segundo a agência de rating Moody’s, motivos para ela ter recém-rebaixado para “negativa” a nota dada a instituições financeiras atuantes aqui.
Luciano Huck é um dos nomes (Foto: Felipe Rau/Estadão Cnteúdo)
Os bolsistas a ser financiados pelo “fundo cívico” terão de estar afinados com a visão financista, certas credenciais ideológicas serão exigidas, daí que os partidos Novo e Rede e os movimentos conservadores MBL e Vem Pra Rua são vistos como celeiro natural de candidatos a ser fabricados.
Afinal, os ricos não iam botar grana em defensor de trabalhador e da taxação de grandes fortunas. Entre os “princípios inegociáveis” dos mecenas do fundo estão “gestão fiscal responsável”, eufemismo para boicote a uma política econômica desenvolvimentista, “priorização do cidadão em detrimento da máquina pública”, truque linguístico para redução do Estado, “respeito às liberdades individuais”, expressão que a direita adora, e “combate irrestrito à corrupção”, disfarçada declaração de amor à Lava Jato.
Compreensível que, logo na página 4 do manifesto de criação do fundo, haja o gráfico “destruição de valores financeiros”, a citar 700 bilhões de reais em perdas na Bovespa desde 2010.
“Esse fundo vai radicalizar a privatização da democracia brasileira.
Até aqui, os empresários não entravam na política, pagavam políticos pelo trabalho sujo. O fundo corta a intermediação”, diz o cientista político Gonzalo Berrón.
“Essa privatização costuma ser feita com algum grau de sigilo e pudor midiático. Que se faça tudo abertamente é uma novidade.” Berrón foi um dos dois coordenadores de um relatório de 2016 a esmiuçar a captura da democracia no Brasil pelos ricos, intitulado A Privatização da Democracia, obra de uma rede de ativistas, a Vigência!, especializada nos efeitos sociais do que chama de “capitalismo extremo”.
O rapaz acima conta com Maitê Proença como cabo eleitoral (Foto: Gobo/João Miguel Júnior)
Essa captura acontece, entre outros meios, através da “porta-giratória”, definição do entra-e-sai de uma pessoa de empregos no setor privado e no público, e lobby no Congresso. O atual secretário de Previdência, Marcelo Caetano, um dos idealizadores da reforma das aposentadorias que empurra a classe média a planos privados, foi conselheiro de um desses, o BrasilPrev.

A reforma ter empacado no Con­gresso é uma das razões a motivar Arminio Fraga a apostar em “renovação”. Anda desesperado, como já mostrou em entrevista. Incompreensão política, a dele. Os parlamentares são patronais, mas não são burros.
Mexer nas aposentadorias a um ano da eleição seria suicídio. Fraga foi ingrato também. Esse Legislativo “velho” acaba de aprovar uma lei que fixa em 10% da renda o limite de doações de pessoas físicas a campanhas.
Quer dizer, quanto mais rico, mais grana para dar. Ademais, o Congresso fez uma lambança ao tratar de autofinanciamento, aquilo que um candidato pode botar do próprio bolso numa campanha, e talvez não haja teto algum, talvez de 10%, como o das pessoas físicas, incerteza que tende a parar nos tribunais. Onde o capital também deita e rola, com influência cultural, segundo A Privatização da Democracia.
E o campo progressista a olhar a paisagem, à espera de uma redentora candidatura Lula.

Fonte: Carta Capital

A "construção interrompida" e o País distante de Celso Furtado

A "construção interrompida" e o País distante de Celso Furtado

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Com visões diferentes sobre obra do economista e pensador, seminário mostra preocupação comum sobre a falta de um projeto nacional
Por Vitor Nuzzi
Da Rede Brasil Atual 
Logo de início, o professor Ricardo Bielschowsky cita questionamentos feitos por Celso Furtado no documentário O Longo Amanhecer, de 2006: "Eu me pergunto: quem manda neste país? Por que se conservam essas taxas de juros de fantasia, que sangram o país, deixando pequena margem para o crescimento? É difícil dirigir um país como este". Era o começo de um seminário, na Universidade de São Paulo (USP), que discutiu o legado do economista e ex-ministro do Planejamento, considerado um dos principais pensadores do Brasil.
Mesmo no cenário difícil como o atual, Bielschowsky, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse tentar "manter o otimismo histórico" de Celso Furtado em sua esperança de transformar o país – dentro de certos parâmetros. "Ele não era um socialista, digamos assim, não jogava as fichas em ruptura do capitalismo. Era um adepto da social-democracia clássica, progressista", define.
O seminário, realizado na terça-feira (17), fechava um ciclo de leituras de um grupo de pesquisa (Pensamento e Político no Brasil) formado por estudantes e professores e coordenado por André Singer e Bernardo Ricupero. Na mesa, Singer explica que a análise de Formação Econômica do Brasil, clássico escrito por Furtado em 1958, vinha a partir de "uma leitura de cientistas políticos, não de economistas".
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Já a mesa do debate tinha três economistas (Bielschowsky, Luiz Carlos Bresser-Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, e Plínio de Arruda Sampaio Jr., da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp) e uma cientista política (Vera Alves Cepêda, da Universidade Federal de São Carlos). Visões diferentes e uma preocupação em comum: a falta de um projeto nacional.
"Vamos desistir ou vamos batalhar sobre os erros e consertar?", pergunta o professor da UFRJ, também falando de Celso Furtado. "Será que ainda há condições políticas para avançar em um projeto dessa natureza?"
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Ele cita uma série de itens que precisam ser discutidos em um debate sobre o desenvolvimento: estabilidade econômica, salários e produtividade, formalização do trabalho, acesso a bens e serviços públicos, impostos progressivos, cobertura universal, previdência pública e solidária. "Não existe país no mundo que consiga fazer sua sustentação a longo prazo que não passe por uma reindustrialização radical", afirma Bielschowsky, para quem houve avanço nos governos recentes, mas "não se fez uma reforma tributária que desfizesse a péssima distribuição de renda".
Há muitos "temas em disputa" entre conservadores e progressistas, como reforma tributária, políticas sociais, reforma da Previdência, política macroeconômica, modelos de desenvolvimento, democracia, reforma política. "A lista é enorme, e o balanço não está nos parecendo muito favorável", afirma o professor da UFRJ, falando do campo progressista.
Para Plínio, da Unicamp, Celso Furtado é um autor muito homenageado no Brasil, mas pouco estudado. "O Brasil de Furtado é o que luta para se consolidar em uma democracia minimamente autônoma", observa, chamando a atenção para os "dilemas" da formação do país. Para superar desigualdades, é preciso pensar na base material de uma economia nacional.
Furtado, lembra, identificou a relação entre subdesenvolvimento e a formação da nação. Hoje, acrescenta o professor, "estamos assistindo o desmonte da nação". Ele acredita que, para que haja efetivamente avanços, o Brasil precisa de rupturas, mudanças estruturais.
Estado soberano
"Felizmente, o Furtado morreu em 2004 para não ver o que está acontecendo hoje", comenta Vera, autora, em 1998, da dissertação de mestrado Raízes do Pensamento Político de Celso Furtado, na USP. A professora, que também destaca a presença do subdesenvolvimento na formação brasileira, comenta a importância, para o economista, de se estabelecer condições para um Estado "social, autônomo, soberano, livre, com capacidade de prover o seu próprio futuro, capaz de produzir uma nova economia para além das regras do mercado, de fazer reformas estruturais".
Para ela, de certa forma Celso Furtado pôs a política à frente da economia, "embora seu método de trabalho venha da dimensão econômica". E ressalta a importância da democracia: "Se acumula melhor em regimes fechados, se distribui melhor em regimes abertos".
Ao apresentar Furtado como "mestre e amigo", Bresser-Pereira disse que o economista estava "muito decepcionado com o Brasil" no final da vida. Segundo ele, o país experimentou algum crescimento no período 1950/1980, com crescimento anual per capita de 4,5%, caindo para 1%, em média, a partir dos anos 1990, com o predomínio do liberalismo econômico. 
Lula e Dilma, diz Bresser-Pereira, fizeram "esforços políticos para tentar recuperar o desenvolvimentismo", mas esbarraram em uma falta de capacidade de elaborar uma política econômica que garantisse taxa de juros razoável, além de manter o câmbio muito valorizado. "Não podemos ficar na mão dos economistas liberais", afirma, citando ainda a presença crescente do chamado rentismo: "O rentista não é sócio do crescimento. É sócio da espoliação". 
Bielschowsky repete o termo "reindustrialização radical" como fator-chave para o país, mas admite problemas. "Eu não sei onde está o Estado que vai fazer isso, onde está a burguesia industrial que vai fazer isso." Ele e Plínio Jr. voltam a falar do subdesenvolvimento como característica brasileira – a "primazia da desigualdade", diz o professor da Unicamp, tem raízes estruturais. "Assim como abacateiro não dá jabuticaba, economia de subdesenvolvimento não dá Estado de bem-estar social."
Uma pessoa da plateia pergunta sobre a Emenda Constitucional 95, que limita gastos públicos durante 20 anos. "Inviabiliza qualquer possibilidade de vida civilizada no Brasil, inviabiliza o Brasil", responde Plínio. "O Brasil vai ferver, e nós vamos para uma polarização brutal da luta de classes", acrescentando, prevendo "tempos turbulentos pela frente". 
Bresser-Pereira considera a emenda "um escândalo, uma coisa sem pé nem cabeça", mas acredita que algo ainda pode mudar. "Logo no começo do próximo governo vai surgir o problema, e eles vão ter de fazer alguma coisa", afirma, antes de observar que "o capitalismo hoje não é mais de empresários, mas de rentistas".