segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Uma “escola sem partido” é a perversão dos nossos filhos

Uma “escola sem partido” é a perversão dos nossos filhos

RAPHAEL FAGUNDES
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Uma “escola sem partido” é a perversão dos nossos filhos
Por Raphael Silva Fagundes
Todo sistema de educação orientado à preservação acrítica da ordem estabelecida a todo custo só pode ser compatívelcom os mais pervertidos ideais e valores educacionaisIstván Mészáros
 “As escolas são formas sociais que ampliam as capacidades humanas”, nos atenta a isso os pedagogos Henry A. Giroux e Roger Simon. Nelas devem ser realizadas “as transações simbólicas e materiais do cotidiano que fornecem a base para se repensar a forma como as pessoas dão sentido e substância ética as suas experiências”.[1] O objetivo do projeto “Escola sem Partido” é nos distanciar ainda mais desse caráter ideal da escola.
Parece que estamos presenciando um clássico dos anos 80 produzido pelo cinema hollywoodiano. Essas reformas no currículo da educação foram um debate nos anos 70 e 80 nos EUA. Michael W. Apple destacava o interesse dos conservadores em convencer a todos que se as escolas fossem mais rigidamente controladas pelas indústrias, a deteriorização das cidades, o desemprego e o aproveitamento escolar de péssima qualidade não existiriam.[2]
O autor estadunidense também atenta para o crescimento da Nova Direita nos EUA. Esse grupo queria que a educação aumentasse a competitividade internacional, o lucro e a disciplina como auxiliadores dos negócios, o “público” como ruim e o “privado” como algo bom. São neoconservadores que desejam um Estado forte nas questões de transmissão de valores e conhecimento. São neoliberais por dar grande ênfase ao mercado. O que funde essas duas ideologias aparentemente contraditórias é o fato de que a “liberdade” econômica exige maior controle social. No fim, a escola deve estimular a criatividade, de modo que prevaleçam os interesses pessoais e competitivos. Todos podem escalar o Monte Everest, mas é preciso ser um bom alpinista e ter altos recursos financeiros para bancar a escalada.
Itaguaí: educação e capital não combinam
A classe social dominante detém os meios de produção culturais para disseminar a sua visão de mundo transformando-a em absoluta. Os trabalhadores recebem uma educação que os prepara para o esforço físico e atividades conformistas. Assim, o sistema único de avaliação torna-se extremamente útil para o mercado, pois o Estado irá redistribuir o interesse deste em cada localidade. Não são os interesses locais que importam para o mercado, pelo contrário, as contradições e culturas locais devem ser substituídas pelos problemas que o mercado irá trazer.
Exemplo desse fenômeno foi o que aconteceu no município de Itaguaí no Rio de Janeiro. Houve um investimento na educação com construção de escolas, contratação de novos professores e outros profissionais da educação. Tudo para atender o crescimento do porto local. Empresas vinculadas ao empresário Eike Batista fizeram uma revitalização no centro do município. Inclusive, o Arco Metropolitano tinha um grande interesse em melhorar o trânsito e facilitar o escoamento de mercadorias a partir do Porto para outros pontos da Cidade. Tudo isso exigia uma mão de obra com um mínimo de conhecimento para a produção. O foco tornou-se a expansão do acesso à educação.
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Mas com a crise econômica que se instalou no Rio, o governo ameaça fechar escolas, retrair o acesso a educação para Jovens e Adultos e os profissionais da educação estão perdendo os direitos conquistados. Com a crise do mercado, não há mais necessidade de formar cidadãos produtivos, portanto, o foco passou a ser a contração das vagas à educação. O cenário poderia ser ainda pior se não fosse a mobilização dos trabalhadores da área e da população local que não querem perder o acesso à educação que, diga-se de passagem, é uma obrigação do Estado fornecê-la.
Infelizmente a aprendizagem de hoje não serve para a autoemancipação da humanidade, mas para a concretização dos objetivos do capital. Distanciamo-nos da época de Paracelso. Até os projetos iluministas de Kant e de Schiller foram transformados em meras utopias educacionais pela consolidação do capitalismo.
István Mészáros propõe uma “contrainternalização”, isto é, uma transformação em relação à internalização da concepção de mundo historicamente prevalecente. Essa “contrainternalização” deve ser capaz de criar uma alternativa abrangente concretamente sustentável ao que já existe: “o papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à ‘legitimação constitucional democrática’ do Estado capitalista que defende seus próprios interesses”.[3]
O modelo utilitarista
O projeto “Escola sem Partido” é uma forma de fortalecer ainda mais o modelo utilitarista da escola, o modelo tradicional que nos faz internalizar os conteúdos de modo a serem interessantes para se arrumar emprego e resolver problemas que agrade os supervisores das empresas. É uma escola que quer desenvolver apenas a “racionalidade instrumental” do aluno.
A partir desta perspectiva cria-se um discurso de que a escola deve ser um local de “neutralidade de valor”. Essa questão pode ser atraente à primeira vista se acreditarmos nos ideólogos que criam interpretações mirabolantes em nome da “objetividade científica”. No entanto, como adverte Mészaros, “as condições reais da vida cotidiana foram plenamente dominadas pelo ethos capitalista, sujeitando os indivíduos – como uma questão de determinação estruturalmente assegurada – ao imperativo de ajustar suas aspirações de maneira conforme, ainda que não pudessem fugir à áspera situação da escravidão assalariada”.[4]
A “neutralidade de valor”, reclamada pela Escola sem Partido, é de extrema importância para que encaremos os valores da ordem social capitalista como naturais. O indivíduo não terá outros valores críticos que possam combater os tradicionais, os que fazem girar a engrenagem do capitalismo. A ideia de ausência de valor cria uma liberdade ilusória, mas que no fim as pessoas optam pela prática, pelos procedimentos mecânicos que resolvem os seus problemas na realidade capitalista. Essa é a verdadeira doutrinação ideológica.
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Educar para a liberdade
“Os alunos devem ser encorajados a buscar mais conhecimento” coloca o professor Carlos Libâneo. Devem ser avaliados pela compreensão, originalidade, capacidade de resolver problemas e, sobretudo, pela “capacidade de fazer relações entre fatos e ideias”.[5] Paulo Freire diz que se não há a “possibilidade de reflexão sobre si”, o profissional da educação, “não é capaz de compromisso”. O indivíduo preso a sua realidade, aquele que não consegue “distanciar-se” do seu contexto, está “fora” do tempo, preso a um “perpétuo presente”. A imersão na realidade torna o ser a-histórico e, “em lugar de relacionar-se com o mundo, o ser imerso nele somente está em contato com ele. Seus contatos não chegam a transformar o mundo, pois deles não resultam produtos significativos, capazes de (inclusive, voltando-se sobre ele) marcá-los”.[6]
Essas reformas na educação têm o objetivo de inserir o aluno no contexto, de trabalhar com indivíduos (professor/aluno) que apenas entram em contato com o mundo. O próprio ensino de história acaba sendo moldado do jeito que o sistema quer. Ele passa a servir para o indivíduo se reconhecer como parte de uma sociedade que se desenvolveu tecnologicamente e que deve continuar a se desenvolver. O indivíduo é treinado para dar a sua contribuição nesse desenvolvimento tecnológico. Pretende-se apenas inseri-lo no sistema para este ser reforçado.[7]
Além disso, deparamo-nos com uma perversão pelo fato de uma escola que não é aberta a vários discursos acaba por incitar o preconceito e, consequentemente, a exclusão. Uma violência simbólica é cultuada porque todos são condenados a uma única maneira de conceber a realidade.
As esquerdas perderam muito tempo teorizando sobre a educação e não para a educação. Agora é preciso disseminar a ideia de que o professor é um intelectual e a escola um centro de contestação. O professor tem o dever de criticar o objetivo geral do sistema escolar que pretende preservar uma sociedade classe, a qual exclui certos grupos, de forma a identificar os objetivos que convergem para a efetiva democratização escolar. A escola não deve ser um local de mera reprodução dos interesses dominantes, mas um local onde grupos sociais se confrontam.
A escola não pode ser ideologicamente neutra. “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de revelar o compromisso”, nos diz Paulo Freire, o autor brasileiro mais consultado pelos estudantes norte-americanos. Os que dizem neutros “estão ‘comprometidos’ consigo mesmo, com seus interesses ou com os interesses dos grupos aos quais pertencem”.[8]
É necessário evidenciar a contradição entre a aprendizagem casual e a aprendizagem organizada, chocar a cultura de sala de aula com a cultura de esquina, os diversos discursos da cultura popular com a cultura dominante. Somente assim conseguiremos despertar no aluno um discurso subversivo, crítico que não quer fazer apenas a sociedade funcionar, mas melhorá-la.
O projeto “Escola sem Partido” propõe uma mudança fictícia. Um novo que é forjado pelo velho, ou melhor, como a frase que conduz todo o filme de Luchino Visconti baseado no romance O Leopardo de Guiseppe Tomasi di Lampedusa:“Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.
Referências
[1] GIROUX, Henry A. e SIMON, Roger. “Cultura popular e pedagogia crítica: a vida cotidiana como base para o conhecimento curricular”. MOREIRA, Antonio F. e SILVA, Tomaz T. da (orgs.) Currículo, cultura e sociedade. 9 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 95.
[2] APPLE, Michael W. “Repensando ideologia e currículo”. MOREIRA, Antonio F. e SILVA, Tomaz T. da (orgs.) Currículo, cultura e sociedade. 9 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 40.
[3] MÉSZÁROS, István (org.). A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008. p. 61.
[4] Id. p. 80.
[5] LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez. p. 200.
[6] FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 17.
[7] BITTENCOURT, Circe. “Capitalismo e cidadania nas atuais propostas curriculares de História”. _________. (org.) O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006. p. 21.
[8] FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 19.       


  Raphael Silva Fagundes Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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Pós-Huck, quase pós-Doria, a direita vive seu devastador pós-Aécio

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O fim da aventura Huck precipita definições de um quadro de uma sucessão presidencial fadada a permanecer com uma indefinição principal, até julho: se vai ou não se consumar o golpe da exclusão de Lula da disputa.
Ainda assim, sugere novas condições para o campo conservador, a mais evidente delas para um eventual reviver da candidatura de João Doria Júnior.
Embora já perdido o cheiro do verniz de novidade, é fato que Doria recebeu um pacote de sua farinata  para alimentar suas últimas pretensões de ser candidato a Presidente, moribundas, mas ainda esperançosas de receber uma transfusão de sangue  provinda de Michel Temer e de um PMDB com tempo de televisão, máquina partidária e sem candidato.
Alckmin, se ganha com o fim da possibilidade de que o “fernandismo” do PSDB vir a mergulhar do caldeirão, sabe que precisa “abrir o olho” com o temerismo crescente da ala mais governista do tucanato. Mas, sem dúvida, respira mais aliviado com a saída de Luciano Huck do páreo.
Bolsonaro, mais ainda porque, sem Huck, volta a ter expectativas de que, com a “roda presa” de Alckmin, só ele possa ser a “esperança branca” das próximas eleições. Com o animador de autitórios, seria impossível ou que já lhe é difícil: crescer além dos 15 ou 20% dos fanáticos envenenados pela mídia.
Creiam ou não, Bolsonaro torce para que Lula possa concorrer eque sua presença “justifique” uma alternativa feroz à direita.
O resto dos candidatos de si mesmos, a começar por Marina Silva – mas também Joaquim Barbosa –  celebram a desocupação do salão da tolice e sonham em bailar pelo espaço vazio que Huck ocuparia.
Todos eles, porém, têm uma quase intransponível dificuldade. Ou nunca empolgaram, como Alckmin, ou tropeçaram na própria empolgação, como Doria, ou ainda despertou empolgações em fanáticos que criam medo, como Bolsonaro.
A direita não encontrou um novo Aécio e perdeu o antigo, que seria seu candidato natural se não tivesse aderido, desde 2014, ao golpismo que o tragou. Já tinha morrido, mesmo antes de ser sepultado dentro de uma mala da JBS.

“Meu argumento é um meme”: um comentário sobre a estupidez no ciberespaço

“Meu argumento é um meme”: um comentário sobre a estupidez no ciberespaço

RAPHAEL FAGUNDES
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“Meu argumento é um meme”: um comentário sobre a estupidez no ciberespaço
Por Raphael Silva Fagundes
Quem viu o último filme do Planeta dos Macacos pode observar o processo invertido da evolução. Os seres humanos vão perdendo a fala na medida em que os macacos vão desenvolvendo a linguagem humanizada. No início, Cesar era um macaco que queria a paz, enquanto os seres humanos, embrutecidos, resolviam tudo através da violência. Os macacos passaram a defender suas causas por meio de argumentos, sentimentos e emoções, enquanto que os seres humanos, de um modo geral, permaneceram presos aos atos violentos. Inclusive, os macacos violentos se aderiram aos seres humanos, e os seres humanos amorosos, por sua vez, se juntaram aos macacos.
Quando vejo a febre dos memes e dos vídeos curtos na internet, eu tenho a sensação de estar, de certo modo, vivenciando o mundo de Cesar. Páginas como “Socialista de iPhone”, “Bolsonaro Opressor 2.0”, “Jovens de esquerda” e do “MBL”, investem intensamente na propagação de ideias políticas que se afogam no mar de símbolos da comunicação online, tornando-se, cada vez mais, vítimas vulgares da necessidade de recursos visuais para sintetizar pensamentos, sentimentos e ideias. São novos brinquedos dados aos jovens para espalharem a estupidez e o ódio, esculpindo, inconsequentemente, novos Hiro Protagonists, personagem central do romance Snow Chash de Neal Stephenson, que no Metaverso (mundo virtual criado pelo autor) é um grande samurai, que mata e desfigura todo mundo, mas no mundo real é um simples entregador de pizzas.
O culto à boçalidade
É lógico que o meme possui uma história sofisticada. Esse conceito foi introduzido na literatura ocidental por Richard Dawkins, em sua obra “O Gene Egoísta”. “Dawkins compara a evolução cultural com a evolução genética, onde o meme é o “gene” da cultura, que se perpetua através de seus replicadores, as pessoas”[1], explica a tese da linguísta Krícia Helena Barreto.
Ou seja, o meme é uma unidade de transmissão cultural e de difusão da informação fundamentada na imitação, que é, por sua vez, a forma básica de aprendizado social geradora de padrões de comportamento. “Tudo que pode ser aprendido através da cópia é um meme”, e é por esta razão que não podemos confundi-lo com cartuns, charges ou piadas.[2] As pessoas aprendem sobre política através do meme e repetem, como meros replicadores, o que viram circular nas redes sociais, sem nenhuma reflexão sequer, baseada em fundamentos científicos. Partindo da teoria do próprio meme, as pessoas tornaram-se memes. Reproduzem as brincadeiras e joguinhos de palavras que vêem, passando uma informação vazia que nos quer fazer rir de tudo.
Isso é extremamente perigoso, porque “todo o conhecimento adquirido por réplica, tudo aquilo observado e imitado é considerado meme, como os hábitos, os valores, os padrões estéticos e qualquer produto cultural difundido. Uma vez copiado, o meme ajuda na implantação de crenças e valores, ganhando força a cada novo hospedeiro”.[3] Esse é o pesadelo que se tornou a cultura política popular. A capacidade epidêmica dos memes (Pierre Levy compara os memes a um vírus que acomete uma população) pariu os zumbis das redes sociais que só imitam e gargalham enquanto ingerem a boçalidade.
Memória e história no mundo cibernético
Nas sociedades que não possuíam a escrita, havia um ritual narrativo onde a memória era transferida através das gerações. Ou seja, a memória está estritamente ligada à linguagem. De uma forma ou de outra é a linguagem que faz com que ela exista. No entanto, por não haver escrita, as sociedades “primitivas” não tinham o luxo do registro, do arquivo. Deste modo, a memória estava muito mais aberta a mudanças, isto é, “a possibilidades criativas”, como mostra Jacques Le Goff.
O medievalista francês traça um panorama interessante sobre a trajetória da memória ao longo da história ocidental. Destaca, baseando-se nos estudos de Jack Goody, que nas sociedades sem escrita havia uma “vontade de manter em boa forma uma memória mais criadora que repetitiva”. Mas com as sociedades com escrita isso muda. O fato de se ter arquivos, documentos etc.. a criatividade ficou mais relacionada às reflexões sobre esses documentos, como fazem as diversas vertentes historiográficas. A memória ficou mais conservadora. A própria memória, utilizada pelos oradores gregos e romanos, trata de padrões reconhecidos e compartilhados por uma dada cultura.
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Le Goff sustenta a ideia de que em certas situações, principalmente escatológicas, a memória “nutre-se também de um verdadeiro ódio pela história”.[4] E não é isso que vemos hoje? Um discurso conservador disseminado pelas redes sociais que parte de uma memória forjada que afronta as evidências históricas. Tornou-se corriqueiro se ouvir dizer que na ditadura não houve tortura, que Hitler era de esquerda e outras bobagens do tipo. E a melhor forma de divulgar esse conhecimento espúrio é através de memes.
Compreendemos a realidade através de ideias que se põem entre nós como um “óculos sobre o nosso nariz, e o que vemos, vêmo-lo através deles”. Wittgenstein é claro ao dizer que “afirma-se da coisa o que já se encontra no modo de sua exposição”.[5] Desta maneira, ideias ilegítimas se tornam legítimas devido ao modo de expô-las através do meme, que tem apenas um objetivo: o de se repetir. A velha história de a mentira dita mil vezes se tornar verdade, agora se aproveita desse padrão linguístico do mundo virtual.
Contestam-se livros, teses e professores, acreditam-se em memes, em youtubers... A cultura letrada vai minguando, mas não será extinta, certamente não voltaremos ao homem “primitivo”. Cultuaremos rituais narrativos promovidos por jovens que falam entre cortes exagerados de vídeos curtos de internet e por imagens emporcalhadas, embora engraçadinhas? Se ler é a unidade entre letra e som, como colocava Wittgenstein, o som das gargalhadas embebeda a reflexão sobre as letras no caso dos memes. A criatividade do homem primitivo não voltará, pois conhecemos a escrita, só criamos uma aversão a ela. O que é bem pior.
No fim aquela realidade descrita no filme do Planeta dos Macacos não está tão distante assim. Está batendo em nossa porta. O enfraquecimento das universidades públicas e do investimento em pesquisa, o controle do que será dito em sala de aula etc.. parece nos guiar a um destino retirado de um mundo distópico deprimente.
Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

[1] BARRETO, Krícia HelenaOs memes e as interações sociais na internet: uma interface entre práticas rituais e estudos de face, Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/296
[2] Sobre a definição desses conceitos veja o magistral artigo de DAVIES, Chistie. Cartuns, caricaturas e piadas: roteiros e estereótipos. LUSTOSA, Isabel (org.). Imprensa, humos e caricatura: a questão dos estereótipos culturais. Belo Horizonte: EdUFMG, 2011.
[3] MORAES, Francine; MENDES, Gustavo; LUCARELLI, Talita. Memes na internet: a web 2.0 como espaço fecundo para propagação. XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Recife, PE, 2 a 6 de setembro de 2011. pp. 5-6.
[4] LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: EdUnicamp, 2013. p. 401
[5] WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 69

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Luigi Ferrajoli, jurista de reputação mundial, condena abusos da Lava Jato Atemporal

Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Luigi Ferrajoli, jurista de reputação mundial, condena abusos da Lava Jato


Luigi Ferrajoli, jurista de reputação mundial, condena abusos da Lava Jato



Foto: Luigi Ferrajoli ao lado de Cristiano Zanin, advogado de Lula.
Luigi Ferrajoli, um dos juristas de maior reconhecimento no mundo, denunciou de forma dura os métodos da Operação Lava Jato capitaneada pelo Juiz Federal Sérgio Moro como um processo de perseguição e espetacularização midiática. Ferrajoli ainda denunciou a fragilidade jurídica do processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff do poder, relacionando-o com a Operação em curso em Curitiba e, também, falou sobre como o populismo jurídico tem sido um grave problema para as democracias liberais.
A fala do jurista ocorreu neste mês no Parlamento italiano na capital, Roma. Ao lado de Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Zanin Martins, advogados do ex-presidente, Ferrajoli afirmou que o constitucionalismo brasileiro é um dos mais avançados do mundo, mas falhou em não impedir o crescimento da onda de populismo jurídico crescente no país que impulsionou tanto a Operação Lava Jato, quanto o Impeachment.
O curioso é que Luigi Ferrajoli é um dos teóricos citados com bastante frequência pelos Procuradores da República e pelo Juiz Federal Sérgio Moro nos processos da Operação Lava Jato. No entanto, apesar da deferência atribuída a ele, isso não obstou duras críticas às violações cometidas no processo – “podemos notar singulares violações, como a difusão e a publicação das interceptações promovidas pelo próprio juiz instrutor e traços típicos de impedimento. (…) Esta confusão entre acusação e justiça é o primeiro traço do impedimento [de Moro]. O andamento de mão única do processo, que não tem parte contraditória e possui apenas uma pessoa que acusa e julga”. 
Para o jurista, Moro é impedido de julgar pois não se comporta como um juiz, mas como um acusador – “Impressionante traço [de impedimento de Moro] é o que está provocando esta demonização pública do Lula. A espetacularização do processo, o fato do juiz Sérgio Moro ou do Ministério Público ir à televisão para falar deste processo, promover coletivas de imprensa e acusações externas a série documental do processo do investigado. Isso tudo constitui, em outras palavras, na criação da figura do inimigo” – afirmou. 
Existe uma forma horrenda de populismo, que não é o populismo político, mas o populismo judiciário. E esse [da Lava Jato] pode representar um perigo para a cultura jurídica, que deve ficar atenta de maneira alarmante para proteger a própria jurisdição e a credibilidade do direito.
– Luigi Ferrajoli, em palestra no Parlamento da Itália.
Ferrajoli ainda sustentou que, na sua visão, a Operação tem servido como instrumento para inviabilizar o ex-presidente politicamente com vistas para a próxima eleição de 2018 – “Acredito que o verdadeiro sentido político desta história é uma Operação que tenta desabilitar Lula de se lançar candidato à próxima eleição presidencial”. 
O jurista afirmou que o populismo judicial tem contribuído para a crise das democracias mundiais e isso deveria criar a preocupação não apenas de quem se opõe ao autoritarismo jurídico, como também dos liberais que no Brasil se viram no campo de intensos apoiadores no início da Operação, como também foram entusiastas do processo de impeachment – “nós estamos diante de uma fase geral de crises nas nossas democracias, que se manifestam das maneiras mais diversas. Mas essa é uma crise muito singular que deveria criar alarde, a começar pelos liberais. Também estamos diante de formas mais que intoleráveis de exibicionismo de protagonismo judicial, que contam com o consenso público para legitimar suas ações”.
“Acredito que estamos diante de uma patologia gravíssima, que é essa jurisdição de exceção. Ela é criada majoritariamente pelos abusos, mas provavelmente também porque existem defeitos no sistema processual brasileiro, o qual permite esses abusos. Ou seja, o caráter fortemente inquisitório do processo penal brasileiro” – concluiu.

Impeachment

Na palestra, o doutrinador ainda citou o processo de impeachment na análise da crise institucional brasileira ante os abusos jurídicos. Para ele, não houve motivo para justificar o afastamento de Dilma Rousseff – “O impeachment consiste no processo em que a acusação de subversão democrática é cometida através destes tipos de crime. E aqui não tem nenhuma subversão. A única acusação contra ela [Dilma Rousseff] é de não ter comunicado o banco que gerencia as contas do Brasil e ter, digamos, usado os fundos para um outra determinada despesa além do previsto. Nenhuma dessas duas ilegalidades correspondem a um dos sete tipos de crimes usados para impeachment”.
“Tivemos um impeachment que destituiu um presidente com base em um clamor de desconfiança, porque não houve nenhum processo, nenhum contraditório. É uma lesão gigantesca aos direitos dos cidadãos” – concluiu.
Veja a palestra na íntegra com legenda, a qual está em uma versão primária, mas pode ser compreendida.