terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Zanin faz Youssef confessar que tinha ‘cláusula de sucesso’ para receber dinheiro na Lava Jato


16 DE FEVEREIRO DE 2018, 20H09

Zanin faz Youssef confessar que tinha ‘cláusula de sucesso’ para receber dinheiro na Lava Jato

O doleiro, primeiro delator da Lava Jato, disse em depoimento que tinha uma 'cláusula de sucesso' - ou seja, receberia, em dinheiro, parte dos recursos recuperados pela operação, compensação que, segundo ele, "abriu mão"; aditivos, no entanto, não constam nos autos. Youssef segue solto

Foto: EBC
O doleiro Alberto Youssef e Dalton Avancini, ex-executivo da Camargo Corrêa, prestaram depoimento nesta sexta-feira (16) em São Paulo pela ação em que Lula é réu, na Lava Jato, sobre o chamado “sítio de Atibaia”. O depoimento foi dirigido ao juiz Sérgio Moro, que os ouviu por vídeo-conferência.
No depoimento, o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, conseguiu fazer com que Youssef confessasse que sua delação premiada é, literalmente, premiada. Respondendo a uma pergunta de Zanin, Youssef revelou que possui, junto ao Ministério Público, uma ‘cláusula de sucesso’ que o dá direito de receber 1/50 avos do patrimônio recuperado pela força-tarefa no Brasil e no exterior. Se a Lava Jato recuperasse R$2 bilhões, por exemplo, o doleiro teria direito a R$40 milhões. Pela cláusula, Youssef poderia ainda recuperar parte de seu patrimônio apreendido.
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O que causou estranhamento ao advogado de Lula, diante da informação sobre a cláusula fornecida por Youssef, é que esses aditivos não constam nos autos disponibilizados à defesa. Diante da “pérola” pescada por Zanin, Moro deu prazo de 5 dias para que o MPF disponibilize esses aditivos nos autos.
Tendo uma ‘cláusula de sucesso’ (que sequer constava nos autos), portanto, Alberto Youssef poderia estar, o tempo todo, direcionando suas delações de modo a “faturar” ainda mais. Se for levado em consideração o fato de que o doleiro é o primeiro delator da Lava Jato, pode-se concluir que a operação nasceu de um acerto financeiro entre o Ministério Público e um dos operadores dos crimes apontados.
Em tempo, cabe lembrar que o doleiro foi também o principal delator do escândalo do Banestado, cujo juiz era também Sérgio Moro.
Youssef foi preso pela primeira vez em 2014 e, com o início das delações premiadas, conquistou o regime semi-aberto. Agora, segundo ele, cumpre regime aberto.
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Assista ao momento em que o doleiro fala sobre sua ‘cláusula de sucesso’.
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Libertação: o jornal da luta clandestina da AP (Ação Popular) contra a ditadura

Libertação: o jornal da luta clandestina da AP (Ação Popular) contra a ditadura


Publicação saiu mensalmente durante sete anos e nunca foi apreendida pelo regime militar; distribuição seguia padrões rígidos impostos pela clandestinidade

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Atualizada em 20/02/2018 às 14:00
A vida na clandestinidade durante a ditadura civil-militar brasileira era cheia de privações e compromissos. Militantes de várias organizações se escondiam das forças de repressão e se ocupavam com atividades e estratégias para organizar a resistência. Jornais eram impressos em mimeógrafos, em gráficas clandestinas, em endereços anônimos e distribuídos em esquemas cuidadosamente elaborados para escapar dos olhos da repressão. Foi assim que surgiu, em 1968, o jornal Libertação, órgão oficial de comunicação da organização Ação Popular (AP), que se propunha a combater o regime com matérias que denunciavam seu caráter opressor e prejudicial ao Brasil. 
Criada em 1962, a Ação Popular surge da união entre duas organizações católicas do movimento estudantil, a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC), ambas ligadas à Associação Católica Brasileira. Em meados dos anos 1960, a JUC passa por um processo de aproximação às teorias marxistas e elege alguns de seus membros para cargos importantes como a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). À medida que a linha ideológica dessas organizações se afastava da hierarquia tradicional da Igreja Católica, seus militantes necessitavam de autonomia e, em um congresso relizado em 1962, a AP foi foi fundada.
Capa de edição do Libertação - ReproduçãoCondenada pela cúpula da Igreja Católica no Brasil, a AP definia sua linha ideológica por uma "perspectiva do socialismo como humanismo", segundo o Documento Base da organização lançado em 1963. Nesse período pré-1964, a AP teve grande influência no moviemento estudantil e defendeu com veêmencia as Reformas de Base propostas pelo então presidente João Goulart, que foi deposto pelos militares.
Após o golpe de 1964, quando muitos de seus militantes foram presos ou exilados, a AP passa por uma reestruturação ideológica e um grande debate é levantado dentro da organização sobre a melhor maneira de enfrentar o regime militar recém-instaurado. Das discussões e divergências teóricas, parte expressiva da AP se aproxima do pensamento maoísta, enquanto um grupo dissidente, inspirado pela ideia de criação de focos guerrilheiros, forma o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). A partir desse momento, a AP se aproxima de comunidades camponesas para dar início a um trabalho de "conscientização revolucionária", levados pela teoria chinesa da "guerra popular prolongada".
Clandestinidade
Jornalista já experiente e então repórter da revista Realidade, da Editora Abril, Carlos Azevedo foi um dos profissionais da comunicação que largaram seus empregos estáveis em veículos da mídia hegemônica para se dedicar à imprensa independente e à militância. Em 1968, após se afastar da Abril, Azevedo partiu para a clandestinidade e passou a ser o redator-chefe do jornal Libertação, lançado no dia 1º de maio daquele mesmo ano. 
"Em geral, eu tinha mais experiência de texto, então eu era uma espécie de editor do jornal e passava as matérias para os dirigentes avaliarem, para depois voltarem e a gente enfim fazia a impressão. Agora, tudo isso na clandestinidade, ninguém sabia onde morava a outra pessoa", conta o jornalista, que viveu de forma clandestina com a família durante 10 anos em uma casa na cidade de Campinas, interior de São Paulo.

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Segundo Azevedo, o jornal era impresso em mimeógrafos (elétricos ou manuais), integrando um processo muito difícil na produção e redação de um periódico. "Tínhamos encontros semanais, discutíamos como seria a próxima edição, levantávamos informações necessárias para fazer a matéria. Depois de feita, nos encontrávamos e trocávamos as matérias para fazer as avaliações e correções possíveis, passávamos para os dirigentes que também faziam suas avaliações, só então elas voltavam para a impressão. Tudo isso em encontros clandestinos", explica o jornalista.
As condições de trabalho eram limitadas pela repressão e, de acordo com Azevedo, reuniões de pauta eram feitas na rua - muitas vezes, caminhando com um dirigente ou um companheiro jornalista. "Desenvolvi um sistema chamado Lapa-Penha, que consistia em uma caminhada da Lapa até a Penha e a volta. Essse trajeto nos proporcionava uma reunião de duas horas. Era uma reunião boa", brinca o jornalista.
O jornal era totalmente financiado pela organização da qual fazia parte, a AP. Segundo Azevedo, a organização recebia muitas doações de "camadas médias da sociedade", que simpatizavam com as propostas da Ação Popular. 
Olhos vendados
Após anos sendo impresso em mimeógrafos, a AP consegue comprar uma impressora off-set, foi instalada em um sítio afastado na região de Embu das Artes, São Paulo. O jornal Libertação ganha mais qualidade e velociade na impressão, aumentando sua tiragem e facilitando o trabalho dos jornalistas. "Eu e Narciso Kalili, companheiro da AP que trabalhava comigo na Realidade, pedimos demissão juntos e usamos o dinheiro da recisão para comprarmos uma impressora off-set, que só foi usada anos depois", conta Azevedo.
O jornal saía do sítio e os exemplares eram levados para distribuição em veículos cheios de legumes e verduras. "O casal responsável pela gráfica vinha de Santa Catarina e tinha experiência com agricultura, então plantavam legumes e produziam as impressões. Por fim, juntavam os legumes que eles plantavam e os jornais impressos dentro de um Kombi e levavam até a cidade", diz Azevedo.
Renato Rabelo, um dos dirigentes da AP à época, afirma que o porceso de troca de informações na clandestinidade era complicado, o que exigia uma estrutura bem planejada. "Existia um aparato para imprimir o jornal. Foi escolhida e definida uma casa para isso, inteira clandestina. Só quem conhecia a casa era o pessoal que trabalhava lá, mais ninguém. As matérias eram encaminhadas em pontos, ou seja, não existia essa história de você ir na casa de um e de outro. Qando você tinha que ir à casa de alguém, ia de olhos vendados, e, quando saía, era também de olhos vendados e você era deixado em um lugar determinado. Existiam, como a gente chamava, 'fusíveis' pelo caminho. Se caíssem, rompia-se a sequência das coisas", explica Rabelo.
Reprodução

"Sem essa comunicação, a ampliação da resistência era muito difícil", diz Rabelo
Rachas e fim do Libertação
Além de imprimir o jornal Libertação, a AP também publicou o Livro Negro da Ditadura Militar, que continha os nomes dos envolvidos nas torturas e na Operação Bandeirantes (OBAN), responsável por perseguir, prender, torturar e assassinar opositores do regime. Em 1972, após reunião ampliada entre seus membros, a organização passa a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista (APML). No mesmo ano, parte expressiva dos militantes que vinham se aproximando gradualmente do PCdoB, entram por completo no partido. Os membros que continuaram na organização ainda lançaram alguns números de ourtro jornal também denominado Libertação, que durou apenas alguns números. Aos poucos, os remanescentes foram desarticulados por violenta repressão dos militares.
Em 1975, após circular ininterruptamente por sete anos, todos os mês, o Libertação parou de ser publicado. Jornalistas responsáveis pelo periódico, como Azevedo, passaram a atuar na redação e distribuição do Classe Operária, jornal clandestino do PCdoB, que já era publicado pelo partido.
Para Rabelo, jornais alternativos como o Libertação trouxeram mais vigor à luta contra a ditadura. "Sem essa comunicação, a ampliação da resistência era muito difícil. À medida em que esses jornais passaram a existir e ter uma certa influência, isso abriu caminho", diz o ex-dirigente da AP, que hoje preside a fundação Maurício Grabois, do PCdoB.

Há um curto-circuito no coração do golpe

Há um curto-circuito no coração do golpe

Estamos entrando num novo momento da cronologia da crise, em que a aliança entre o judiciário e a mídia hegemônica, até então sólida como pedra, começa a fazer água
Artigo de Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia*
Acho que poucos de nós duvidam que a palavra “corrupção” é o termo chave da crise brasileira contemporânea. Uma crise que começou em junho de 2013, mas que deita suas raízes mais profundas lá em 2005, na ocasião do que já na época ficou conhecido como o “julgamento do mensalão”.
Aqui neste ensaio, quero mostrar como essa palavrinha mágica pode ser entendida de várias maneiras e como a história da crise brasileira contemporânea pode ser contada a partir do privilégio de um desses sentidos: o sentido “liberal”, segundo o qual a “corrupção” está diretamente vinculada ao Estado, a tudo que é público. É como se o Estado fosse naturalmente corrupto e corruptor e o combate à corrupção passasse, necessariamente, pelo combate ao Estado, pelo desmonte do Estado.
O privilégio dessa leitura liberal do fenômeno da corrupção diz muito sobre a crise, especialmente sobre os seus movimentos mais recentes. De uns dias pra cá, os veículos mais poderosos da imprensa hegemônica brasileira (Folha de São Paulo, o departamento de jornalismo da Rede Globo, Estadão) vêm abrindo fogo contra os privilégios dos juízes, que já são conhecidos por todos nós há muito tempo. Por que somente agora a imprensa hegemônica denuncia os privilégios nababescos dos juízes brasileiros? Penso que estamos entrando num novo momento da cronologia da crise, em que a aliança entre o judiciário e a mídia hegemônica, até então sólida como pedra, começa a fazer água. Também aqui a leitura liberal do conceito “corrupção” tem uma importante função política a cumprir.
Bom, pra começar a conversa é importante esclarecer melhor o que estou querendo dizer quando afirmo que o conceito “corrupção” é polissêmico, que possui vários sentidos. Pra isso, cito, bem rápido, alguns autores que ao longo da história da cultura política ocidental usaram a palavra “corrupção”, fazendo-o de diferentes formas.
Para Aristóteles, que que no IV século antes de Cristo escreveu o tratado da “Política”, a “corrupção” era o efeito natural do tempo sobre os organismos políticos. Maquiavel, escrevendo no século XVI da era cristã, seguiu a trilha aberta por Aristóteles e definiu a “corrupção” como a perda da capacidade da República em institucionalizar os conflitos travados entre seus cidadãos. Chamo de “republicana” essa forma de tratar a corrupção.
Karl Marx, escrevendo no século XIX, enfrentou o tema da corrupção em um livro pouco conhecido, cujo título é “A luta de classes na França entre 1848 e 1850”. Basicamente, Marx argumenta que falar em “corrupção política” no sistema capitalista é uma redundância, pois o próprio capitalismo já é corrupto, na medida em que se fundamenta na exploração de uma classe pela outra. Essa é a definição marxista.
Nenhuma dessas formas de pensar associou a “corrupção” ao roubo do dinheiro público. Vamos encontrar essa associação sendo feita de forma mais clara nos textos que Friedrick Hayek escreveu ao longo do século XX. Preocupado em discutir o tema da “ética na política”, Hayek definiu a corrupção como a apropriação para fins particulares dos recursos públicos. Como o objeto da corrupção seria o dinheiro público, a definição proposta por Hayek sugere que o terreno da “coisa pública”, do “Estado”, é solo fértil para a corrupção. Podemos chamar essa definição de “liberal”.
Bom, o conceito “corrupção” tem, pelo menos, três significados distintos: o republicano, o marxista e o liberal. Nem carece de gastar muito papel e tinta pra mostrar que na crise brasileira contemporânea um desses significados foi privilegiado: o liberal. Ao menos na minha avaliação, isso não aconteceu à toa, sendo um projeto planejado deliberadamente por segmentos poderosíssimos das elites brasileiras para realizar um antigo sonho, para viabilizar um projeto que vem sendo frustrado desde a década de 1940.
Que projeto é esse? Que sonho é esse que animou durante esse tempo todo o sono da direita brasileira, mas que jamais foi plenamente realizado?
Pra responder, apresento uma breve síntese da história contemporânea do Brasil. Síntese histórica é igual prudência e canja de galinha: é sempre bem-vinda. O conhecimento histórico é útil à vida.
Trata-se do sonho do “Estado Mínimo Brasileiro”, projeto que começou a ser defendido no final dos anos 1940 pela UDN, partido político que na época foi o portador da narrativa da redemocratização que marcou a transição da Ditadura do Estado Novo para a ordem democrática que se consolidaria em 1945. Não era, ainda, o “Estado Mínimo” neoliberal, mas sim um projeto desenvolvimentista internacionalista que priorizava o mercado e o capital, considerando o Estado um obstáculo para a prosperidade nacional.
Esse projeto desenvolvimentista jamais foi aprovado nas urnas, o que explica em parte o transformismo golpista da UDN. Em algum momento da década de 1950, a UDN cansou de brincar de eleição e passou a recorrer ao expediente golpista. Já que o povo não colaborava, a UDN resolveu caminhar sem o povo mesmo. A aproximação com os militares foi uma consequência quase natural.
A aliança entre a UDN e os militares viabilizou o golpe civil-militar de 1964. Mas como os militares não são seres acéfalos, não serviram como simples instrumento para a realização do projeto udenista. Acabou mesmo que a UDN deu com os burros n’água, pois os milicos sentaram na cadeira do poder e ali ficaram por mais de 20 anos, perseguindo até mesmo os aliados de véspera, como o líder udenista Carlos Lacerda.
E o pior para o sonho do “Estado Mínimo Brasileiro” vou contar agora: os militares não efetivaram o projeto udenista, pelo contrário, já que em vários aspectos os governos militares podem ser definidos como estatais-desenvolvimentistas. Isso não significa um elogio aos militares, bem longe disso, pois a ditadura foi fundada em um golpe que destituiu um governo democraticamente eleito. Diante desse vício de origem, nenhum ato da ditadura militar pode ser considerado legítimo.
Enfim, não foi com a UDN e não foi com os militares que o sonho do “Estado Mínimo Brasileiro” se tornou realidade.
O projeto voltou com força no final dos anos 1980 e pautou as eleições presidenciais de 1989. Sob a batuta do “Consenso de Washington”, um jovem político alagoano, bonitinho mas ordinário, prometeu “caçar os marajás”. Ou em outras palavras, combater a “corrupção”. Adivinhem como? Enxugando o Estado.
Sabemos bem o que aconteceu com esse jovem e charmoso político alagoano. Collor também não conseguiu realizar o velho sonho do “Estado Mínimo Brasileiro”.
Com um discurso de propaganda em muitos aspectos parecidos com o de Collor, só que acrescido da narrativa da “estabilidade econômica resultante do plano real”, Fernando Henrique Cardoso se submeteu às urnas em 1994. E venceu. Havia chegado a vez do príncipe da sociologia uspiana tentar realizar o sonho do “Estado Mínimo Brasileiro”, dessa vez com a legitimidade de uma vitória eleitoral.
O sucesso foi relativo. Sem dúvidas, FHC avançou mais que seus antecessores, mas no final dos seus oito anos de governo ficou a sensação de que foi pouco, de que dava pra entregar mais. O neoliberalismo é um lobo faminto.
Por mais que o governo de Lula tenha negociado com a agenda neoliberal, apenas com muita desonestidade intelectual seria possível dizer que o desmonte iniciado pelos tucanos foi mantido pelos governos petistas. Com a eleição de Lula, o sonho do “Estado Mínimo Brasileiro” sofreu um duro revés. Mas o lobo não é só faminto. É insistente e teimoso também.
O que estou querendo dizer é: A crise brasileira contemporânea representa uma nova ofensiva desse lobo neoliberal contra o Estado brasileiro e pra isso é necessário algo a mais do que o simples argumento macroeconômico. É que esse negócio de economia, de números, não convence muito, tem pouca eficiência retórica.
É aqui que o tratamento da “corrupção” na perspectiva liberal vai cumprir sua função discursiva, ao definir o Estado como o antro da corrupção, como o cabaré da imoralidade. A diferença é que a experiência mostrou que o marketing político não basta, que é necessário algo mais forte: a judicialização da política. Nasce assim, lá em 2005, a aliança que até a semana passada era a força política mais poderosa da República: o concubinato entre a mídia hegemônica e setores do poder judiciário.
Quem não lembra de Joaquim Barbosa, o homem da capa preta que prometia colocar todos os políticos corruptos na cadeia?
O tal combate à corrupção foi seletivo e serviu apenas para desestabilizar os governos petistas, que estavam fortalecendo o Estado como grande agente de regulação estratégica do desenvolvimento nacional. Lideranças petistas foram perseguidas judicialmente, como foi o caso de José Dirceu e José Genoíno, e isso sob os aplausos de uma opinião pública raivosa, com fome de vísceras.
Pouco importava o devido processo legal, desde que os “corruptos” fossem punidos e os “corruptos”, é claro, eram as lideranças petistas. Pronto! A matriz da crise está aqui. Só que do outro lado tinha um certo Luiz Inácio, cabra esperto, inteligente, que conseguiu sobreviver à primeira ofensiva do conglomerado “judiciário/imprensa hegemônica”.
Nos anos seguintes, com a prosperidade econômica resultante do boom das commodities, os ânimos foram pacificados. Tava entrando dinheiro no bolso de todo mundo e a opção lulista em não tensionar as contradições estruturais fez com que o lobo faminto e temporariamente saciado pudesse dormir.
O jogo mudou a partir de 2013, em virtude da combinação da crise econômica com algumas escolhas políticas da presidenta Dilma. Pois sim, em muitos aspectos o “dilmismo” é diferente do “lulismo”. Ainda precisamos avançar na conceituação do “dilmismo”. Não é isso que faço aqui.
O lobo acordou, mais faminto que nunca e viu naquele momento uma chance de ouro para realizar o sonho do “Estado Mínimo Brasileiro”. Outra vez foi evocada a narrativa liberal do combate à corrupção. Foi assim que o governo da presidenta Dilma foi desestabilizado, foi com essa semântica que o golpe de 2016 se efetivou, novamente sob os aplausos dos “brasileiros de bem”, indignados com a corrupção.
Mal sabiam os “brasileiros de bem” que eles estavam sendo bombardeados por uma narrativa que deu ao conceito “corrupção” um sentido específico, que de forma alguma é o único. Assim, com essa narrativa, Dilma foi derrubada e Lula condenado, em processos jurídicos profundamente politizados e questionados pela comunidade jurídica nacional e internacional.
Acontece que a crise é um processo em movimento que ainda não acabou. Ao que parece, acabamos de entrar num outro momento da cronologia da crise: com Lula condenado e virtualmente preso, chegou a hora do lobo neoliberal devorar todo o banquete. O lobo é insaciável.
E pra matar a fome do lobo, nada melhor do que servir, numa bandeja de prata, os privilégios do judiciário. Não é possível a realização do sonho do “Estado Mínimo Brasileiro” com um judiciário tão caro, cheio dos privilégios, cheio das pensões vitalícias.
Bastaram menos de 72 horas após a condenação de Lula para aliança entre o judiciário e a mídia hegemônica, até aqui marcada por lealdade recíproca, se dissolver. Moro, Dallagnol, Bretas, até então representados como heróis nas páginas dos principais jornais da imprensa brasileira, se tornaram aproveitadores da coisa pública, se tornaram corruptos.
Justo agora, os privilégios tão conhecidos por todos nós começaram a incomodar a imprensa hegemônica. De forma alguma, quero defender os juízes, mas precisamos entender que os ataques midiáticos ao judiciário fazem parte do mesmo projeto neoliberal que desestabilizou o reformismo petista. O lobo é faminto, teimoso e criativo. Tomara que as esquerdas brasileiras não se deixem seduzir pelo uivo do lobo, travestido de canto de sereia. Tem sereia não, meus amigos. É lobo mesmo, com os dentes enormes, mais perigoso que aquele jantou a chapeuzinho vermelho. Ou almoçou? Não sei.
Escrever no olho do furacão é sempre um desafio e aquele que se arrisca acaba botando a língua na guilhotina. Não tem jeito. Por isso, arrisco a integridade da minha língua dizendo que temos um elemento novo na cronologia da crise brasileira.
As duas forças que juntas foram as responsáveis pela aplicação do golpe têm projetos distintos e até mesmo rivais para o futuro da nação: de um lado, o judiciário querendo uma República dos bacharéis, onde os magistrados serão os guardiões da moral pública, com a devida recompensa, sob a forma de privilégios que não estão disponíveis a nenhum outro setor do funcionalismo público. Do outro lado, a imprensa hegemônica, que representando os interesses do neoliberalismo vê na atual conjuntura de crise a chance para tornar realidade, de uma vez por todas, o antigo sonho do “Estado Mínimo” brasileiro.
Há um curto-circuito no coração do golpe! Em tempos tão difíceis, com tantas notícias ruins, talvez exista aqui algo a se comemorar.
(*) Com ilustração de Cau Gomez

NOTA DA PRESIDENTA LEGÍTIMA DILMA ROUSSEFF

NOTA DA PRESIDENTA LEGÍTIMA DILMA ROUSSEFF:

Sobre as novas medidas anunciadas sobre a intervenção federal no Rio:
1. A iniciativa do governo golpista de promover mandados coletivos de busca, apreensão e captura é uma das mais graves violações aos direitos civis que o Brasil enfrenta desde o fim da ditadura.
2. É uma nova violência contra o quadro institucional e que aponta mais um passo no aprofundamento do Estado de Exceção no Brasil. 
3. O regime está fechando suas garras contra os brasileiros mais vulneráveis e que mais precisam de Justiça.

Dilma Rousseff

Defensoria repele mandados coletivos: 'Não tem respaldo constitucional'

20 de fevereiro de 2018 - 9h54 

Defensoria repele mandados coletivos: 'Não tem respaldo constitucional'


Fernando Frazão/Agência Brasil
  
Para André Castro, defensor público-geral do Estado do Rio de Janeiro, o combate ao crime "não autoriza a prática, pelo Estado, de violações de direitos individuais, como prisões sem ordem judicial ou flagrância, invasões de domicílio ou os já anunciados mandados de busca e apreensão coletivos – medidas sem respaldo constitucional e que penalizam apenas a população pobre".

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que o governo vai pedir à Justiça Federal no Rio autorização para realizar operações coletivas de busca e apreensão em comunidades e bairros inteiros do Rio de Janeiro.

“Em lugar de você dizer rua tal, número tal, você vai dizer digamos uma rua inteira, uma área ou um bairro. Aquele lugar inteiro é possível que tenha um mandado de busca e apreensão. Em lugar de uma casa, pode ser uma comunidade, um bairro ou uma rua”, declarou o ministro.

No entanto, a Constituição determina que para invadir uma residência é preciso ter na ordem judicial o endereço específico, jamais indeterminada ou coletiva. Trata-se de uma proteção aos direitos fundamentais dos cidadãos.

Em nota, André destaca "que o acompanha com preocupação os desdobramentos do decreto presidencial". Diz ainda que a instituição definiu estratégias de atuação coletivas em suas diferentes áreas com o objetivo de assegurar que direitos fundamentais sejam respeitados.

"Entre as ações está o estreitamento dos canais de comunicação com a sociedade civil, por meio de reuniões periódicas nas comunidades, com a participação da Ouvidoria externa da Defensoria, para que as camadas mais vulneráveis da sociedade possam se manifestar sobre os impactos da medida em seu cotidiano. A Defensoria Pública também buscará a necessária interlocução com as instituições do sistema de justiça e autoridades de segurança pública", enfatiza.

A defensoria informa ainda que aguarda a decisão do Congresso Nacional sobre o decreto de intervenção. A Câmara aprovou na madrugada desta terça-feira (18) o decreto e o texto será analisado agora pelo Senado.

Para o órgão, após a análise legislativa, "será possível avaliar aspectos controvertidos do ato, como a natureza militar da intervenção, a inaplicabilidade das normas estaduais e a falta de clareza quanto à participação social e controle das ações".

O presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB/RJ, Breno Melaragno, também aponta abusos constitucionais e afirma que . "mMandado de busca e apreensão coletivo é ilegal".

“Essa intervenção não pode se transformar num estado de exceção”, enfatizou. Segundo o representante da OAB, "a intervenção federal tem que seguir o ordenamento jurídico em vigor, principalmente no que concerne aos direitos e garantias fundamentais do cidadão".


Do Portal Vermelho

Maia dá troco a Temer: “não se meta na pauta da Câmara”

Maia dá troco a Temer: “não se meta na pauta da Câmara”

Rodrigo Maia mandou sinais – quase um coice, aliás – a Michel Temer de que não está disposto a ser atropelado como foi na decretação da intervenção federal no Rio de Janeiro.
Diate da pauta “fake” de “15 propostas econômicas” mandada distribuir ontem pelo Palácio do Planalto como “compensação” pelo fim da reforma previdenciária, soltou o verbo no G1:
“Nem conheço as 15 [propostas]. Nem li, nem vou ler”. 
Disse que a “pauta” foi “um abuso” e um “desrespeito ao parlamento, já que os projetos já estão aqui e nós vamos pautar aquilo que nós entendermos como relevante, no nosso tempo”.
Nem mesmo os remendos na Previdência que o governo espalhou na mídia – avisem á Miriam Leitão – vão ser votados, segundo Maia.
O governo não tem voto para votar a reforma da Previdência, não dá para ficar criando espuma com a sociedade num tema tão grave como esse. Ou o governo vai apresentar os votos ou eu não vou ficar discutindo, mesmo que por projeto de lei, algo que eu não sei se o governo tem maioria para votar.
Por quê isso? Tem eleição e Maia não vai dar de barato o tempo de televisão do DEM.

Lula apresenta embargos ao TRF-4. Serão negados, mas “na corrida”?

Lula apresenta embargos ao TRF-4. Serão negados, mas “na corrida”?

Lula apresenta embargos ao TRF-4. Serão negados, mas “na corrida”?

Ninguém tem dúvidas que o Tribunal Federal da 4ª Região recusará os embargos de declaração oferecidos hoje pela defesa do ex-presidente Lula (veja o documento aqui).
Ao longo de 175 páginas, segundo a defesa, se “O recurso demonstra que o acórdão contém 38 omissões em relação a elementos que constam no processo e que foram tratados pela defesa no momento da apresentação da Apelação Criminal. Também demonstra  16 contradições com os seus próprios termos, além de 5 obscuridades, ou seja, aspectos da decisão que revelam dificuldade de compreensão.”
Depois de questionar a competência de Moro para a ação, ainda mais depois que este reconheceu, nos embargos de declaração, que ““este juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram usados para pagamento da vantagem indevida para o ex-presidente”.
Ora, se o dinheiro não proveio dos contratos da Petrobras, porque a jurisdição de Moro sobre um apartamento supostamente recebido em São Paulo?
Só com a jurisdição do “não vem ao caso”.
Ainda assim, é delírio esperar que haja a mínima revisão na sentença, milimetricamente dosada para vencer o prazo de prescrição da pena que não estava coberto na sentença original.
A batalha segue sendo obter a revogação da esdrúxula prisão antes dos recursos onde os tribunais superiores vão verificar as irregularidades processuais do caso. E não este absurdo pretendido pela Lava jato de que as pessoas cumpram pena antes de terem, como diz a Constituição, o trânsito em julgado de suas condenações.
Só mesmo no transe punitivista que vive este país é possível dar outro sentido ao claríssimo texto da Carta: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.