terça-feira, 24 de abril de 2018

Por que destroem a Unasul?

Opinião

Por que destroem a Unasul?

por Maria do Rosário* — publicado 24/04/2018 19h01
O que Temer e o chanceler operam é a destruição de um instrumento de integração regional histórico
Wilson Dias / Agência Brasil
Unasul
Em 2015, Dilma recebeu o Secretário-Geral da Unasul, Ernesto Samper
Na última semana, os governos do Brasil, da Argentina, Peru, Colômbia, Chile e Paraguai, todos da nova onda de inspiração conservadora na América do Sul, resolveram bombardear a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
No caso brasileiro, o objetivo é praticar mais livremente a diplomacia submissa que governantes que chegaram pelo golpe parlamentar ao poder, praticam desde o momento em que pisaram no Itamaraty. 
Preservado o reconhecimento justo à competência e dedicação aos interesses do Brasil, de quadros de carreira da instituição, o chanceler atual age exatamente no sentido contrário à diplomacia com autonomia - como Chico Buarque referiu-se certa vez, esbraveja com a Bolívia, enquanto fala fino a linguagem que agrada a Washington.
O que Temer e o chanceler agressivo com nossos vizinhos de continente operam é a destruição de um instrumento de integração regional histórico, com grande contribuição já prestada ao continente e muito por fazer.
O primeiro aspecto a ser relembrado, é que a Unasul, construída após longo processo de diálogo regional, diferente de outros blocos que iniciaram sua agenda por interesses econômicos, foi firmada a partir da orientação política de fortalecer o sentido de uma cidadania regional no continente.
Entre seus objetivos primordiais, encontra-se desenvolver uma cooperação voltada a construir relações solidárias para o desenvolvimento comum de seus integrantes, superando assimetrias econômicas e sociais, e fortalecendo soluções democráticas, sustentáveis e soberanas a serem tomadas como parte da adesão das nações ao pacto regional.
A formação da Unasul partiu do reconhecimento de que o conjunto dos estados nacionais mantém relações econômicas e político-culturais prioritárias em movimentos extracontinentais ao longo da história.
Estudos indicam que barreiras geográficas naturais, demandam iniciativas planejadas de superação, estabelecendo conexões terrestres mesmo em regiões como a Cordilheira dos Andes e a Amazônia. Temas como a preservação ambiental, populações fronteiriças, validação da educação, uso racional das riquezas naturais e planejamento do enfrentamento a crimes internacionais, são questões que melhor se desenvolvem com uma integração permanente.
A Unasul também é essencial na relação com a economia regional e o Mercosul, sendo bastante claro seu papel, pois todos os países que a compõe, mesmo não participantes do mercado comum, foram considerados por ele como associados e colaboradores.
O significado dessa integração é fundamental para o Brasil, mesmo sendo o parceiro econômico mais forte da região. Sem vínculos e liderança regionalmente reconhecida, nosso país ficará mais vulnerável a especulações financeiras e protecionismos que o norte global realiza sobre sua economia - arvorando-se, porém, de uma autoridade (que não deveria ter) que impede que façamos entre nós mesmos, protegendo cada nação e a região.
O equilíbrio regional e o planejamento conjunto estão entre as principais ferramentas para superação da miséria extrema no nosso continente. Historicamente marcado pela explicação de suas riquezas, simbolizadas por Eduardo Galeano como veias abertas a irrigar com o sangue de nossos povos originários os padrões de riqueza e consumo dos países ricos, novamente nos vemos submetidos a líderes ilegítimos que entregam a força vital de nossa terra e nossa gente.
O fruto mais amargo do enfraquecimento da democracia que nos é muito cara, construída por gente que lutou contra ditaduras e enfrentou ontem o Plano Condor, e não mudou de lado hoje, é o aviltamento das liberdades democráticas e da soberania nacional no Brasil e na região.
Para os governos de Macri e outros, acabar com a Unasul é o cumprimento de mais um item na agenda de retrocessos. Se no plano nacional eles abrem o caminho para privatização das riquezas e do patrimônio público, desregulamentando relações de trabalho para assegurar a ampliação de taxas de lucros aos conglomerados financeiros internacionais que lucram com o ajuste fiscal na Argentina e no Brasil, comprometer a integração latino-americana é parte de seu projeto.
Já entregaram seus próprios povos à exploração, e agora entregam os povos e as nações mais pobres da região novamente à superexploração norte-americana, ao destruírem os pactos construídos na Unasul.
São uns vendilhões. Vão pra história como lacaios.
(Em memória de Marco Aurélio Garcia)
*Maria do Rosário é deputada federal pelo PT do Rio Grande do Sul

Como a privatização da Petrobras pode afetar a sua vida?

COLUNA

Como a privatização da Petrobras pode afetar a sua vida?

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O petróleo atualmente é o principal responsável pela geração energética no mundo / Divulgação
Se o preço da gasolina sobe, tudo que é “transportado” sobe de preço também
Na semana passada, a direção da Petrobras anunciou a venda de 60% das refinarias Presidente Getúlio Vargas (Repar-Paraná), Abreu e Lima (RNEST-Pernambuco), Landulpho Alves (RLAM-Bahia) e Alberto Pasqualini (Refap-Rio Grande do Sul). Se você não é petroleiro e nem vive nenhum desses estados, talvez ache que essa notícia pouco impactará a sua vida que segue. Só que se essa venda se confirmar sua vida será fortemente afetada. 
Te explico em três pontos os possíveis impactos dessa tentativa de privatização da Petrobras na sua vida!
1. A venda dessas refinarias implica que a Petrobras passará para a  iniciativa privada – talvez estrangeira – o controle de 40% do refino de petróleo e do transporte de derivados.  
Fazendo essa operação, a Petrobras deixa de ser uma empresa “integrada” - que atua desde a extração do Petróleo, passa pelo refino e chega até o posto de gasolina - e será  “fatiada”. 
Pois bem, se o refino e o transporte de derivados passarem para a iniciativa privada, o governo brasileiro perde a possibilidade de controlar o preço do combustível que chega nas bombas dos postos. 
Com a Petrobras estatal e integrada, ela pode eventualmente ter “deficit” no refino (ou seja, vender a gasolina por um preço abaixo do custo para o consumidor brasileiro) e mesmo assim não ter prejuízo, porque ela pode ter um “superavit” nos custos de produção, por exemplo. Ela também pode operar a política de controle do preço interno da gasolina sem ficar refém da dinâmica flutuante do preço do barril no mercado internacional.
Como estatal ela tem como meta prioritária a busca do atendimento aos interesses nacionais, acima da lógica da maximização do lucro. Com o refino nas mãos das empresas privadas findam-se as possibilidades de garantir desenvolvimento nacional e preços baixos aos consumidores, já que a lógica deixa de ser o bem estar social e passa a ser a do mercado.
Você também pode não ter carro e dizer que não se importa com a subida do preço do combustível. Acontece se o preço da gasolina sobe, tudo que é “transportado” por rodovias terá seu preço acrescido: a carne que a gente come, as roupas que a gente veste… e isso tudo impactará fortemente na inflação do país, porque todos os preços subirão rapidamente, diminuindo o seu poder de compra.
2. Antes de anunciar a privatização dessas refinarias, elas já estavam operando com capacidade ociosa, ou seja, produzindo menos do que é possível. A RLAM, na Bahia está operando com sua carga reduzida em 43%1 por exemplo! Porque será que produzem menos do que são capazes enquanto nossa demanda por petróleo refinado só vem aumentado? Assim, o único jeito de suprir nossas necessidades internas é importando petróleo. Com uma política dessas a Petrobras cria concorrentes para ela mesma e sinaliza para a sociedade que não tem capacidade de ser a provedora de petróleo refinado no Brasil, o que não é verdade!
Para comprar petróleo no mercado internacional é preciso pagar em dólares (divisas). Assim, o Estado gasta os nossos dólares para importar gasolina, utiliza uma reserva que poderia ser gasta em outra coisa que de fato não produzimos internamente e que é necessário importar, como equipamentos que utilizam tecnologia que não detemos internamente. E isso ainda interfere na nossa balança comercial: se a gente importa mais do que exporta, ficamos com deficit de “dólares”.
3. A privatização da Petrobras passará para o mercado controlar um ativo extremamente estratégico. O petróleo atualmente é o principal responsável pela geração energética no mundo, é um produto barato em comparação com os demais e está – comprovadamente – no centro dos principais conflitos mundiais, uma vez que quem tem petróleo hoje tem poder e segurança energética. A entrega desse produto compromete nossa soberania nacional, nossa capacidade de desenvolvimento e a segurança de que teremos abastecimento em quantidade suficiente e a preços muitos parecidos do Oiapoque ao Chuí.
Edição: Daniela Stefano

Leonardo Melgarejo fala sobre os riscos da retirada da etiqueta dos transgênicos

ALIMENTAÇÃO

Leonardo Melgarejo fala sobre os riscos da retirada da etiqueta dos transgênicos

É uma temeridade sob o ponto de vista ambiental e um crime contra direitos constitucionais

A aprovação que aconteceu na comissão do Meio Ambiente é uma afronta aos direitos constitucionais / IHU On-line
A decisão da Comissão de Meio Ambiente do Senado, de aprovar a retirada do símbolo de identificação de transgênico em rótulos de produtos alimentícios, atende aos interesses do mercado e é “uma temeridade sob o ponto de vista ambiental” e “um crime contra direitos constitucionais, uma afronta à legislação, no que tange a direitos dos consumidores”, diz o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo à IHU On-Line.
Para ele, a argumentação da Comissão de Meio Ambiente do Senado se baseia em uma “mitologia criada pelas indústrias beneficiadas pela ocultação de danos e riscos associados aos transgênicos. Afirmam que ‘inexistem evidências de danos’, quando há farta bibliografia apontando problemas. Afirmam que há farta bibliografia apontando inexistência de riscos, quando a maior parte destes estudos são elaborados, patrocinados ou associados às empresas beneficiadas. Afirmam que tais estudos são robustos, quando existem evidências de fragilidade no prazo de análise, no tamanho e na representatividade das amostras”.
Segundo ele, se a medida for aprovada definitivamente, “facilitará alocação de recursos públicos para as lavouras transgênicas, bem como a rolagem e o perdão de dívidas do agronegócio a elas associado”. A decisão, frisa, também “beneficiará o mercado de agrotóxicos, especialmente de herbicidas, com as implicações conhecidas”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Melgarejo diz que a tendência de aprovação da medida “é enorme” e “a única possibilidade de reversão neste processo de degradação das normas e contratos sociais reside na reação da população, o que depende de acesso a informações que não circulam na grande mídia”.
Leonardo Melgarejo é engenheiro agrônomo e doutor em Engenharia de Produção. É vice-presidente regional Sul da Associação Brasileira de Agroecologia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como avalia a decisão da Comissão de Meio Ambiente do Senado, de aprovar a retirada da identificação de transgênicos em rótulos de produtos alimentícios?
Leonardo Melgarejo - Uma temeridade sob o ponto de vista ambiental, já que estimulará o consumo e, portanto, o cultivo de lavouras transgênicas, potencializadoras do uso de agrotóxicos a elas associados. Um crime contra direitos constitucionais, uma afronta à legislação, no que tange a direitos dos consumidores. Encaminhamento de retrocesso desta natureza, com origem na comissão de meio ambiente só pode ser entendido como sinal de contaminação das decisões daquela comissão, em benefício de interesses contrários a seus compromissos com a precaução e a proteção ambiental.
IHU On-Line - O que está em jogo na disputa de manter ou não o símbolo de transgênico nos rótulos dos alimentos?
Leonardo Melgarejo - Interesses de mercado e expansão do domínio da mídia corporativa sobre a consciência coletiva. De um lado, os consumidores não poderão optar pela rejeição aos produtos transgênicos, significando que não poderão sinalizar ao governo, quanto a suas preferências por políticas públicas para a agricultura. Isto facilitará alocação de recursos públicos para as lavouras transgênicas, bem como a rolagem e o perdão de dívidas do agronegócio a elas associado. Da mesma forma, beneficiará o mercado de agrotóxicos, especialmente de herbicidas, com as implicações conhecidas.
Pulverizações aéreas, contaminação de lavouras vizinhas, de aquíferos, de áreas de proteção, passeio e lazer, com ampliação de danos à saúde da população e aos serviços ambientais, serão alguns dos aspectos negativos. Com o agravante de que não será possível estabelecer nexo causal entre aquelas lavouras e os danos para a saúde da população, desresponsabilizando as empresas e seus agentes, quanto aos problemas futuros.
IHU On-Line - Por que razões tem se proposto a retirada da identificação de transgênicos dos rótulos de produtos alimentícios e quais foram os argumentos apresentados pela Comissão para justificar a retirada do símbolo de identificação dos rótulos de alimentos?
Leonardo Melgarejo - Os proponentes se baseiam em mitologia criada pelas indústrias beneficiadas pela ocultação de danos e riscos associados aos transgênicos. Afirmam que “inexistem evidências de danos”, quando há farta bibliografia apontando problemas. Afirmam que há farta bibliografia apontando inexistência de riscos, quando a maior parte destes estudos são elaborados, patrocinados ou associados às empresas beneficiadas. Afirmam que tais estudos são robustos, quando existem evidências de fragilidade no prazo de análise, no tamanho e na representatividade das amostras. Afirmam que são cultivados em todo o planeta, quando na verdade as lavouras se concentram nos EUA, Brasil, Argentina e Canadá.
A mitologia que sustenta a decisão da Comissão se escora numa prática simples, que combina a ocultação de informações contrárias, a desqualificação de estudos contrários e justificação enganosa (como a de que não seria possível alimentar o mundo sem os transgênicos, ou de que eles estariam contribuindo para redução no uso de agrotóxicos, proteção ambiental e dos consumidores/trabalhadores), com apoio da grande mídia e formadores de opinião seletivamente recrutados a opinar.
Com agroecologia e reforma agrária, a sociedade pode fazer mais e melhor, em termos de produção de alimentos, geração de empregos e proteção à saúde e ao ambiente. É impressionante o fato de a Comissão de Meio Ambiente não apenas fechar os olhos a isto como ainda propor avanços, na contramão, em rumo oposto.
IHU On-Line - Na sua avaliação, o símbolo de identificação de transgênico deve ou não permanecer nos rótulos de alimentos? Por quê?
Leonardo Melgarejo - Deve permanecer. Pelos motivos já referidos. Trata-se de direito constitucional e de necessidade comum a toda dona de casa que frequenta mercados, onde compra itens para alimentar sua família. O direito de acesso a informações para tomada de decisões responsáveis, no momento da opção pela aquisição de alimentos, não pode ser destruído por vontade de grupo golpista, em fim de mandato e claramente desinteressado em preservar direitos fundamentais da população.
A ocultação desta informação, a retirada do “T”, implicará em retrocesso inaceitável, que servirá aos interesses comerciais em desprezo aos direitos republicanos, e que deve ser denunciada: estamos perto de engolir mais uma afronta ao contrato social que nos mantém como sociedade organizada.
IHU On-Line - O que as pesquisas que têm sido feitas demonstram sobre a segurança dos transgênicos para a saúde?
Leonardo Melgarejo - As pesquisas patrocinadas pelas empresas e interesses associados têm se relevado comprometidas. A bibliografia internacional mostra isso. Estudo recente, avaliando mais de mil artigos, apontava que em 70% dos casos avaliados havia indícios de conflitos de interesse, levando a resultados sistematicamente favoráveis aos desejos corporativos. Além disso, os dados básicos destas pesquisas, onde os interesses empresariais afetam resultados, costumam ser ocultados, de forma a impedir sua revisão crítica.
De outro lado, em estudos independentes, via de regra negligenciados pelas agências avaliadoras de risco, os resultados são opostos. Na maioria destes casos são apontados indícios de problemas, falhas de metodologia, ocultação ou subvalorização de achados indicativos de problemas, entre outros elementos contrários ao que se divulga nas campanhas de marketing.
Como regra, deve-se afirmar que faltam pesquisas e falta transparência para as pesquisas disponíveis. As agências reguladoras carecem de recursos, de mecanismos e talvez inclusive de interesse em qualificar suas atividades para melhor defender a saúde humana e ambiental. Como agravante, temos o fato de que a sociedade vem sendo enganada por campanhas de marketing e manipulação de informações, o que em conjunto acaba levando à apatia e à formação de uma consciência coletiva ingênua e equivocada, sobre os riscos inerentes ao que ocorre neste campo.
IHU On-Line - Qual é a probabilidade de que a decisão da Comissão seja aprovada definitivamente? Como essa questão possivelmente será vista pela Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor?
Leonardo Melgarejo - A tendência de aprovaçãoO que as pesquisas que têm sido feitas demonstram sobre a segurança dos transgênicos para a saúde? é enorme. A única possibilidade de reversão neste processo de degradação das normas e contratos sociais reside na reação da população, o que depende de acesso a informações que não circulam na grande mídia. Iniciativas como esta, do IHU, contribuem de forma expressiva, mas são insuficientes para dar conta do problema. Precisamos de uma Voz do Brasil, uma cadeia de mídia verdadeira preocupada e comprometida com os interesses nacionais.
IHU On-Line - Como o senhor avalia o Projeto de Lei do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), PLC 34/2015, sobre o uso do símbolo dos transgênicos, que será votado na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado possivelmente na próxima semana?
Leonardo Melgarejo - Todos os comentários acima sustentam a necessidade de uma posição de rejeição a esta proposta. Ela implica em ofensa a direitos constitucionais. Ela trará/agravará ameaças à saúde humana e ambiental. Ela simplesmente não atende aos interesses nacionais.
Espero, sinceramente, que deputados como este sejam percebidos e interpretados com clareza, em função das implicações de seus esforços e iniciativas, tanto pela sociedade, no presente, como por seus filhos e netos, no futuro.
Edição: Redação

Conversão forçada e intolerância religiosa são retratadas em 'Ex-Pajé'



CINEMA NACIONAL

Conversão forçada e intolerância religiosa são retratadas em 'Ex-Pajé'

Etnocídio indígena: documentário de Luiz Bolognesi acompanha Perpera, da etnia Paiter Suruí que, com a chegada da igreja evangélica na floresta, foi obrigado a abrir mão da pajelância
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 23/04/2018 08h55
FOTOS: DIVULGAÇÃO
Perpera
'Depois que pastor disse que pajé é coisa do diabo, viravam o rosto pra mim. Só voltaram a falar comigo quando fui pra igreja'
Perpera já foi a pessoa mais importante e respeitada de sua aldeia. Até completar 20 anos, em 1969, seu povo nunca tinha tido contato com o homem branco. Mas, com a chegada dos brancos na terra indígena Sete de Setembro, em Rondônia, chegou também a opressão religiosa que vem cada vez mais exterminando a cultura indígena e seus saberes tradicionais. Quando o pastor evangélico disseminou que o xamanismo era coisa do diabo, Perpera foi excluído pelos seus até que aceitasse abandonar a prática ancestral da pajelância.
É esta a história que conta o documentário Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, exibido na última semana no Festival É Tudo Verdade e com estreia nas salas de cinema prevista para o dia 26 de abril. O filme é uma espécie de poema visual e sonoro que, em 1 hora e 21 minutos, desenha um sensível retrato do etnocício que vem sendo praticado há mais de cinco séculos no Brasil.
Em tempos de tanta intolerância religiosa, o longa de Bolognesi consegue fazer uma crítica contundente sendo respeitoso com os indígenas convertidos e também com a igreja evangélica em si, mesmo evidenciando na tela a pressão social e espiritual imposta pela religião. Uma das maneiras que os missionários usam para conquistar a população local é a distribuição de medicamentos.
Antigamente se consultava o pajé. Hoje só tomam aspirina”, afirma Perpera, que explica na língua Paiter Suruí que nunca poderia voltar a ser a ser pajé. “Não é possível. Depois que pastor disse que pajé é coisa do diabo, ninguém mais falou comigo, viravam o rosto pra mim. Só voltaram a falar comigo depois que eu fui pra igreja.”
Mesmo que ele não verbalize a profundidade de seus conflitos internos, fica claro para o espectador que seus poderes ancestrais e conhecimentos não desapareceram apenas porque um pastor exigiu. Ao contrário: por mais que diga que já não é pajé, quando alguém está à beira da morte na aldeia, o poder de falar com os espíritos volta a ser necessário. E é essa a maior beleza de Ex-pajé: a resistência silenciosa captada com tanta delicadeza e beleza.
Por mais que diga que já não é pajé, quando alguém está à beira da morte, o poder de falar com os espíritos volta a ser necessário
Fábula de um extermínio cultural
O etnocídio não é a destruição física dos homens, mas a destruição de seus modos de vida e pensamento. Enquanto o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito.” A frase do antropólogo e etnólogo francês Pierre Clastres abre o filme seguida de cenas da chegada dos homens brancos na aldeia. O canto que acompanha as imagens por si só já passa a mensagem de lamento que permeia todo o documentário.
Os sons que invadem a tela durante a exibição permitem uma imensão tanto na floresta quanto nos sentimentos que parecem povoar Perpera. O barulho das árvores, dos insetos, pássaros e do vento parece representar as mensagens que os espíritos continuam enviando ao pajé. As cenas mais intensas são as que Perpera acompanha as missas com o olhar perdido na exuberante natureza que cerca a igreja.
PajéEu não consigo dormir no escuro. Os espíritos da floresta me batem a noite toda, estão bravos por causa da igreja”, diz Perpera, quase implorando que o ajudem a resolver um problema elétrico da sua casa. “Ao mesmo tempo em que me disse que era um ex-pajé, ele me contou que só dormia de luz acesa porque os espíritos da floresta estavam bravos com ele e, se ficasse no escuro, os espíritos batiam nele. Na hora, pensei: ele nunca deixou de ser pajé. Ele está vivendo de outra forma, constrangido pela igreja evangélica a se declarar um ex-pajé, mas ainda vê o mundo com os olhos mágicos”, declara Luiz Bolognesi.
Para o diretor, era importante mostrar esta tragédia social por meio da história pessoal de alguém como Perpera. “Eu quis mostrar esse conflito – que é épico, porque são 500 anos de história do Brasil, desde a vinda dos jesuítas – de dentro para fora. Quis ver essa tragédia do ponto de vista lírico, do ponto de vista de uma personagem que está vivendo na intimidade o conflito. Perpera não abandonou a pajelança porque quis: foi constrangido a isso, e se sente violentado. Apesar de trabalhar muito como roteirista, eu não quis, neste caso, ir com o roteiro pronto. Eu tinha um arcabouço, mas a dramaturgia foi construída no dia a dia, no convívio com eles. À noite eu decidia o que ia filmar no dia seguinte”, afirma no material de divulgação do longa.
O documentário não deixa de lado a exploração extrativista que também vitima a população indígena. Apesar de não ser o tema central, a obra apresenta as ameaças ligadas à terra nesta região de Rondônia, na fronteira com Mato Grosso, onde nativos enfrentam extrativistas que, diariamente, invadem o território em busca de madeira, ouro e diamantes.
O filme passeia pelos limites entre o documentário e a ficção. “Ao longo do processo, entendi que o que eu estava fazendo era cinema direto. Acho que meu filme se insere nessa tradição de um cinema que fica na fronteira entre documentário e ficção, um cinema no qual os atores são os próprios personagens. Esse tipo de cinema é um mergulho muito profundo: você quebra a distância, você vira um pouco o outro. Mas a única coisa que eu sabia, de saída, é que ia escrever a dramaturgia com eles e que tinha de trabalhar com uma equipe pequena. Éramos apenas cinco pessoas”, detalha Bolognesi.
Ex-pajé recebeu o prêmio especial do Júri Oficial de Documentários da Mostra Panorama, no Festival de Berlim 2018. Durante a apresentação, Luiz Bolognese divulgou o Manifesto de Povos e Lideranças Indígenas do Brasil assinado por 28 lideranças e 15 organizações indígenas. O documento propunha um país com mais tolerância e respeito e criticava o etnocídio. Um dos trechos afirmava "Hoje atravessamos muitas crises, ecológica, econômica, política, a nossa frágil democracia foi atacada e os territórios indígenas estão sendo invadidos e saqueados".
CartazEx-pajéDireção e roteiro: Luiz Bolognesi
Direção de fotografia: Pedro J. Márquez
Elenco: Perpera Suruí, Kabena Cinta Larga, Agamenon Saruí, Kennedy Suruí (Caciquinho), Ubiratan Suruí (Bira), Mopidmore Suruí (Rone) e Arildo Gapamé Suruí.
Produtores: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Produção: Buriti Filmes e Gullane
Distribuição: Gullane 

Milton Hatoum: 'Parece que vivemos em um pesadelo'


LUGAR MAIS SOMBRIO

Milton Hatoum: 'Parece que vivemos em um pesadelo'

Escritor falou em São Paulo sobre seu romance "A Noite da Espera", que trata das angústias dos jovens que amadureceram durante a ditadura
por Gabriel Valery, da RBA publicado 24/04/2018 16h48, última modificação 24/04/2018 17h15
FESPSP/DIVULGAÇÃO/ICARABE
hatoum
'Tempos em que até a arte é praticamente banida. É incrível como vai e volta (a repressão)'
São Paulo – Intolerância, incertezas e o vazio de uma geração sufocada pela ditadura civil-militar (1964-1985) são os temas centrais do mais recente livro de Milton Hatoum, A Noite da Espera (2017). Ele esteve na noite de ontem (24) na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), onde falou sobre sua obra e fez paralelos com a atual situação do país. “Achava que algumas coisas poderiam desandar, mas parece que vivemos em um pesadelo”, disse, sobre as mazelas que voltam a assombrar o país nos contextos políticos e sociais após um breve momento de aparente consolidação democrática.
O escritor contou que o projeto do livro, o primeiro de uma trilogia intitulada O Lugar Mais Sombrio, vem de longa data, mas que sua entrega ao tema esperava o instante certo. “Tinha receio de tocar em alguns temas em algum momento da minha já distante juventude. Achava o grau de complexidade da época difícil de ser abordado, então adiei e quando me entreguei a ele, há exatos 10 anos, o Brasil estava em outra toada”, disse. “Lembra de 2008? Parece outro país. Parece que estamos em meio a um pesadelo, que nada daquilo aconteceu ou que nada hoje é real. Não sabemos para onde vamos, se pensamos que foi tudo um sonho ou se isso hoje é este sonho enterrado.”
A história, por vezes, se confunde com a própria trajetória do autor. Assim como Hatoum, o protagonista, Martim, vai morar jovem em Brasília e passa por um processo de amadurecimento na capital durante a passagem dos anos 1960 para 1970. Por isso, a obra é considerada um “romance de formação”, estrutura literária que acompanha o processo de aprendizagem do protagonista. E é nesta linha que a obra honra o legado dos grandes nomes do gênero como Johann Wolfgang von Goethe e Thomas Mann, sem deixar de lado a poética com referências de Fernando Pessoa e a inteligência na utilização do idioma escrito como é possível saborear nas obras de Guimarães Rosa.
O autor diz não ter saudade dos tempos de sua formação. “A saudade pode ofuscar o presente e gosto de viver com os pés no chão e a cabeça viajando. O passado interessa para entender o presente, mas existe um perigo. Existe uma massa de alienados proto fascistas e fascistas, literalmente, que se recusam a entender o passado. Ela sim, sente uma nostalgia dessa época bruta.”
São movimentos ultraconservadores, reacionários, que exaltam os tempos sombrios de repressão. Hatoum lamenta sua existência e vê a formação de ciclos relacionados à opressão. “Essas lideranças que estão ai, como o MBL e o Vem Pra Rua, ligadas à direita, são farsantes. Usam discursos oportunistas, moralistas e antidemocráticos, sobretudo. Eles carregam o discurso arbitrário e proto fascista”, disse.
Tempos de intolerância que fazem do livro uma peça de reflexão, introspectiva, com forte pessimismo e ares de uma geração perdida. “Se trata da trajetória de um personagem com suas metas, com seus anseios, em uma sociedade cujas normas não obedecem ao agregado. A trajetória da passagem do jovem para a vida adulta de forma problemática (…) É a história do desencanto, do indivíduo que persegue uma meta, vai em busca de um sentido para a sua vida. Sobre isso que o romance trata. E essa busca não se completa, ele não completa seus anseios então, vive um momento de renúncia e melancolia.”
“Nem tudo é suportável quando se está longe”, afirma em certa hora o protagonista que, além dos traumas relacionados à separação de sua mãe ao ser obrigado a morar em Brasília, em decorrência da ditadura, tem outra ruptura adiante. Exilado em Paris, relembra de seu amadurecimento ingrato. Esta é a natureza deste romance de formação, com toda a complexidade das relações humanas, sem maniqueísmos.

PT reafirma candidatura de Lula e lança plano de governo

PT reafirma candidatura de Lula e lança plano de governo

Evento ocorreu em frente à sede da Polícia Federal onde Lula está preso, em Curitiba. Com sete eixos, programa será sistematizado até julho
por Redação RBA publicado 24/04/2018 18h48, última modificação 24/04/2018 19h29
RICARDO STUCKERT
Lançamento plano governo Lula
Para o PT, plano de governo deve impedir o desmonte do país, criar emprego, renda e retomar o crescimento
São Paulo – Em um gesto simbólico de reafirmação da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvaàs eleições de outubro, o PT lançou os sete eixos temáticos do seu programa de governo nesta terça-feira (24), em frente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula está preso. “É fundamental que esse plano de governo possa impedir o desmonte da nação e a venda dos ativos nacionais”, afirmou o presidente da Fundação Perseu Abramo, o economista Marcio Pochmann.
Com altas taxas de desemprego e expressivo aumento da pobreza, Pochmann explicou que as bases do programa de governo do partido estão sendo construídas nos últimos 18 meses a partir de um diálogo unindo a participação de mais de 300 estudiosos, pesquisadores e intelectuais com o “saber popular”. “Estamos organizando esse grande programa para ser implementado de forma democrática a partir de janeiro de 2019”, enfatizou o presidente da Fundação Perseu Abramo.
Os sete eixos temáticos são: sistema internacional, soberania e defesa nacional; participação popular, liberdade, direitos e diversidade. Qual democracia queremos?; integração e coesão nacionais, e oferta de serviços públicos. É possível construir um país mais justo para todos; o que é qualidade de vida para você?; como aumentar a nossa estrutura de bens de consumo; como reduzir a desigualdade e garantir a inclusão social no Brasil; e por último, desenvolvimento econômico e sustentabilidade, como usar recursos naturais e industriais gerando riqueza para todos.  
Coordenador do programa de governo da legenda, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad disse que o trabalho de elaboração do plano será reforçado com a participação de futuros parceiros. “Queremos alargar o nosso campo de visão para sair dessa crise tão braba.” Haddad ponderou que o PT e a Fundação Perseu Abramo, apesar de toda a crise política dos últimos anos, nunca deixaram de pensar e formular propostas para o desenvolvimento do Brasil.
“São 38 anos de história em que o PT produz os melhores textos, por isso fez o melhor governo”, afirmou. Segundo o ex-prefeito e ex-ministro, o partido sempre uniu a produção intelectual dos meios acadêmicos com a participação dos sindicatos e movimentos sociais que, para ele, trazem pontos de vista diferentes e complementares.
Haddad reconheceu que o desafio dos próximos meses é expressar as reflexões e o sentimento popular em um programa de governo capaz de abrir um novo ciclo de desenvolvimento no país. E reforçou a posição do PT em manter a candidatura de Lula. “Ele já fez. Não é que ele ‘deu conta’. Ele foi o melhor.”
Para Fernando Haddad, o ex-presidente deve ser julgado pelo povo brasileiro, em outubro, nas eleições para a Presidência da República. “Quem melhor do que os milhões de eleitores, depois de anos de massacre, para julgar o Lula? Vamos deixar as pessoas dizerem se Lula tem ou não condições de liderar um terceiro mandato.”
A presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), avaliou que a pergunta deixada no ar por Haddad está sendo respondida pelo povo nas pesquisas de intenção de voto, nas quais o ex-presidente lidera em todos os cenários. “Temos clareza absoluta da estratégia que temos que assumir”, enfatizou Gleisi, reforçando a decisão do partido em manter a candidatura de Lula.