segunda-feira, 21 de maio de 2018

A ditadura militar exposta e o golpe atual

VIOLÊNCIA DE ESTADO

ARTIGO | A ditadura militar exposta e o golpe atual

Assim como na ditadura de 1964, o golpe perpetrado em 2016 também persegue e mata seus opositores

Brasil de Fato | Brasília (DF)
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"A ditadura no País não foi menos cruel que qualquer outra ocorrida na América Latina, sob a orientação ou mesmo comando dos Estados Unidos" / CP Memória
É no mínimo perturbadora a divulgação de documentos secretos da agência de inteligência americana – CIA, sobre a execução de “subversivos” no Brasil. Isso é uma demonstração de que a ditadura no país não foi menos cruel que qualquer outra ocorrida na América Latina, sob a orientação ou mesmo comando dos Estados Unidos.
Segundo os documentos, Ernesto Geisel, novo presidente escolhido pelos militares (1974-1979), recebe o relato do Serviço Nacional de Informações (SNI) da execução sumária de 104 pessoas no Centro de Informações do Exército (CIE) durante o Governo Médici, ao tempo em que pede autorização para continuar a política de assassinatos no novo Governo.
Em princípio, o relutante Geisel pede tempo para pensar. Passadas 24 horas, ele decide que a política de execução deve continuar, cabendo ao General Figueiredo, então chefe do SNI e que viria a ser presidente sucedendo ao Geisel, a aprovação de cada execução. Ou seja, os assassinatos da ditadura teriam que ser autorizados pelo Palácio do Planalto. O relato da CIA foi endereçado a Henry Kissinger, então secretário de Estado Americano que manteve a política intervencionista no novo governo.
Na época, o AI-5 tornara as funções do STF de coadjuvante da ditadura civil militar, uma vez que seu poder para defender garantias e direitos fundamentais era inteiramente limitado e o tribunal tornou-se um enfeite institucional, inteiramente subserviente ao poder, fechando os olhos aos assassinatos que continuaram acontecendo.
A ditadura de 64 se estendeu até 1985 com o fim do Governo Figueiredo, sem punição aos torturadores e sem que os organismos militares tivessem a obrigação de preservar a memória de tudo que ocorreu naquele tempo.
Foi necessário um intenso trabalho da Comissão da Verdade, criada por lei em 2011 para que se investigassem as graves violações de direitos humanos cometidas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, embora os torturadores e assassinos não tenham sido punidos.
Tudo isso nos remete ao golpe atual, em que vemos cada vez mais o país se submeter às regras do capital, entregando o patrimônio público aos rentistas internacionais e promovendo uma desorganização social na qual se fragiliza o trabalhador e se retoma um processo de exclusão social gritante que repõe ao estado de extrema pobreza mais de 1,5 milhão de pessoas.
Um golpe que privatiza a Petrobras por partes, propõe a entrega do setor elétrico a empresas estrangeiras, estabelece regras para o setor de saneamento, cria normas para maior concentração de terras, flexibiliza o controle de agrotóxicos, combate índios e quilombolas e criminaliza os movimentos sociais.
Neste quadro que vivenciamos, percebemos também a mesma influência dos Estados Unidos, que retomou a sua importância após o golpe e que estabelece formas de atuação em setores econômicos e políticos.
Enfim, da mesma forma que se estabeleceu a perseguição aos inimigos do regime em 1964, hoje também se persegue os inimigos atuais, prendendo e matando lideranças populares no campo e nas cidades, tendo o caso Marielle Franco sido a maior expressão dos últimos tempos, como também os massacres que vêm ocorrendo nos estados, sem que haja uma determinação precisa da apuração dos crimes.
Além disso, o sistema torna preso político o ex-presidente Lula, o maior presidente que o País já conheceu, sem que nenhuma prova contra ele tenha sido apresentada e para isso se conta com o silencio do Governo, a acusação do Ministério Público e a conivência do Judiciário.
A nossa preocupação é simples: não podemos deixar que estes fatos que estão ocorrendo hoje se mantenham ou se aprofundem e que as constatações fiquem para a história, com o simples arrependimento daqueles que tanto mal estão fazendo ao País.
*João Daniel é deputado federal do PT/SE
Edição: Thalles Gomes

Nicolás Maduro é reeleito para segundo mandato como presidente da Venezuela



DEMOCRACIA

Nicolás Maduro é reeleito para segundo mandato como presidente da Venezuela

Conselho Nacional Eleitoral declarou vitória de Maduro por volta das 23h20 do domingo; comparecimento deve chegar a 48% ao final da apuração. Presidente afirmou que vai auditar todas as urnas e investigar denúncias de fraude
por Redação publicado 21/05/2018 08h12
TWITTER/@NICOLASMADURO
Maduro reeleito
Maduro faz primeiro discurso como presidente reeleito da Venezuela e chama à unidade das forças políticas em torno de um projeto para recuperar o país
Opera Mundi – O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), venceu as eleições presidenciais realizadas neste domingo (20) no país, anunciou a presidente do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), Tibisay Lucena. Com a vitória, Maduro irá para seu segundo mandato como presidente da Venezuela, após assumir o cargo em 2012, quando o então presidente Hugo Chávez faleceu.
Segundo a oficial, que anunciou os números , A tendência já era irreversível quando a oficial anunciou os números, por volta das 23h20 de Brasília, momento em que Maduro tinha 67,7% dos votos (5.823.728 do total). O candidato da oposição, Henri Falcón, somava 21,2% (1.820.552 votos); Javier Bertucci, 10,75% (925.042); e Reinaldo Quijada, 0,4% (34.614). Tinham sido apuradas 92,6% das urnas e, segundo o CNE, 46,01% dos venezuelanos compareceram às urnas neste domingo – a projeção é que o resultado final mostre 48% de comparecimento.
Unidade
Em discurso logo após a declaração de sua vitória, Maduro falou a apoiadores em frente ao Palácio de Miraflores, em Caracas. "Estamos obtendo um recorde histórico, nunca antes um candidato havia ganhado com 68% dos votos populares [na Venezuela], e nunca antes havia conseguido 47 pontos de diferença em relação ao segundo candidato", disse Maduro.
"Esta é a vitória número 22 em 19 anos [de chavismo], conquistada com base no esforço, no trabalho consciente, junto a um poderoso movimento, de um povo unido, de um povo lutador", disse Maduro, que dedicou a vitória ao ex-presidente Hugo Chávez. "Vocês confiaram em mim, e eu vou responder a essa confiança amorosa."
O agora presidente reeleito chamou os candidatos derrotados para conversar sobre o futuro do país. Maduro também anunciou que vai pedir a Lucena, ainda nesta segunda (21), a auditoria de 100% das urnas e a apuração de todas as denúncias de fraude durante o pleito. A lei eleitoral exige que apenas 54% das urnas sejam auditadas.
Presidente reeleito
Maduro construiu sua campanha em uma proposta de "revolução econômica", prometendo reestruturar as contas do país e aprofundar as bases do chavismo. O presidente garante que irá combater o dólar paralelo, colocar à venda uma nova moeda virtual, o Petro, e consolidar o corte de três zeros da moeda nacional, o Bolívar.
Ex-sindicalista e militante da Liga Socialista da Venezuela, Maduro foi duas vezes deputado da Assembleia Nacional, Ministro das Relações Exteriores e vice-presidente da república até a morte de Hugo Chávez, em 2012, quando assumiu a presidência.
As eleições presidenciais de domingo marcaram o quarto pleito em menos de um ano na Venezuela, que já votou para a Assembleia Nacional Constituinte, governadores e prefeitos. Em 19 anos de governo chavista, essa foi a 24ª eleição no país.
Oposição
Antes mesmo de os resultados oficiais serem divulgados, Henri Falcón, que ficou na segunda posição, disse que não iria reconhecer o pleito. "Desconhecemos este processo eleitoral e o qualificamos como ilegítimo (...) Poderia haver eleições em outubro e estaríamos dispostos a participar, sem vantagens e sem chantagem. É assim que se constrói uma alternativa para responder aos venezuelanos que hoje padecem de fome e enfermidades", disse, no Twitter.
Venezuela resultados

Gaza: a proposta de um judeu de esquerda

Gaza: a proposta de um judeu de esquerda. Por Waldo Mermelstein

 
Publicado originalmente no site Outras Palavras
POR WALDO MERMELSTEIN
Caos em Gaza. Foto: Reprodução/Outras Palavras
Desabafo. Desculpem pelo texto longo e pessoal. Mas sinto que precisava falar alguma coisa mais pessoal.
Em meio ao horror, é hora de refletir. Escutei e li muitas coisas sobre o massacre de Gaza. Algumas emocionantes, sentidas, sofridas, surpresas, enojadas. Outras cínicas. Algumas diretamente desumanas, burras, cruéis, ignorantes, racistas, islamofóbicas, justificatórias. Não subestimo as últimas, mas elas merecem o desprezo total.
Queria compartilhar com aqueles que estão chocados, os que não sabiam o que significava o terror sionista, um depoimento que me emocionou da forma mais forte.
Uma mulher, judia, israelense, cuja família está entre os fundadores do estado de Israel, cujo pai foi um general herói de guerra de Israel, que havia mudado de posição depois. Em seus círculos familiares e de conhecidos estava o atual assassino que dirige Israel, cujo nome não quero repetir. Pois, em 1997, após todas as frustrações de muitos anos de abandono, miséria, perseguição, um terrorista suicida se explode, matando algumas pessoas. Entre elas, sua filha, Smadar, 13 anos. Como se sabe, não há dor maior que a perda de um filho. Ao terminar o enterro, as cerimônias, a imprensa pediu para que ela falasse o que pensava sobre a responsabilidade da direção palestina pelas mortes. Sua resposta foi clara:
“Isso é o fruto dos crimes de Israel.” Acrescentou: “Isso serve aos seus propósitos. Querem matar o processo de paz e colocar a culpa nos árabes”. Ela já era de esquerda, mas a morte de sua filha a fez colocar todas as suas energias para combater as raízes do mal que causou a tragédia. Seu nome, Nurit Peled-Elhanan. Seu irmão, de quem li pela primeira vez a história, Miko Peled, começou sua militância como ativista antissionista, inspirado na trajetória, atitude e palavras de Nurit. Ela publicou um livro notável sobre a educação das crianças em Israel, mostrando como são incutidas de ódio aos palestinos, e com uma versão que ignora quem habitava o país.
Tenho amigos de infância que continuam apegados aos velhos mitos da supremacia sionista. Paciência. A história julgará, já que eles não aprenderam da sua própria. Outros, queridos amigos, que há muito romperam com isso e com quem tenho o maior prazer de compartilhar ideias e emoções. Cada um tem seu ponto de ruptura.
O meu foi ainda em Israel, em 1970, com 17 anos, quando em um ônibus de Ashkelon para Gaza. Eu descia no meio do caminho para ir para o kibutz em que estava trabalhando. O ônibus estava lotado de trabalhadores palestinos que voltavam para suas casas após trabalharem em Israel. Um deles, perguntou para mim: “onde você vai”. Eu falei, “para o kibutz Zikim”. E ele, “minha família morava lá há 23 anos”. Eu fiquei atordoado, fiz que não havia entendido. E desci do ônibus. Foi o ponto decisivo para entender que éramos intrusos, invasores, colonos. Desde então fui rompendo com o sionismo por processos intelectuais. Provavelmente a família daquele palestino ainda vive em Gaza, possivelmente alguns deles nunca puderam sair de lá, pois é um lugar cercado e fechado, controlado pela potência colonial, ajudada pelos governos egípcios.
Muitos anos depois, verifiquei nos mapas da Nakba, feitas pela organização israelense Zochrot, que efetivamente, havia uma aldeia palestina onde tinha sido construído o kibutz.
Minha mãe, como já contei várias vezes, tinha outra visão. Tinha vindo criança ao Brasil e sua família tinha sido exterminada em Aushwitz. Ela dizia, “não havia outra saída”. Em 1982, foi a experiência decisiva dela. Com a invasão israelense, as milícias falangistas cristãs do Líbano, ocuparam os campos de Sabra e Chatila e executaram centenas de palestinos refugiados. Com a proteção das tropas sionistas que lhes deram total cobertura. Uma imensa crise atingiu Israel, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em protesto. Minha mãe tomou a decisão e na semana seguinte, quando as pessoas que recolhiam sua contribuição para a Organização Sionista chegaram, ela disse: “Depois de Sabra e Chatila, não haverá mais um centavo para vocês!”.
Bem, são essas as atitudes que inspiram. As tragédias servem para ensinar. Que regime é capaz de fazer o que fez Israel em Gaza, sem que provoque uma comoção nacional? Houve algumas centenas de pessoas se manifestando em Tel-Aviv, além das manifestações dos palestinos de Israel. Mas foi só. Quem sabe este evento seja o momento de despertar de muitos judeus israelenses e pelo mundo.
A dominação de Israel é a maior desde que começou a colonização sionista. Parece absolutamente triunfante. E tem sido. Mas seus pés são de barro. Não é uma fanfarronice bizarra, mas uma reflexão histórica. Nenhum colonizador conseguiu impor-se eternamente. A não ser que tenha praticado o genocídio, como os que colonizaram os EUA ou a América espanhola ou o Brasil.
O regime do apartheid sul-africano também era um sucesso completo por muitas décadas. As semelhanças com o regime israelense são notáveis. Aliás, os ativistas que estiveram em Israel dizem que o apartheid não era tão duro e inumano como o que viram na Cisjordânia.
E ele caiu. A luta dos negros tornou impossível a sua manutenção. Os negros pagaram um preço terrível, entre mortos, presos, torturados, esfomeados e humilhados. Mas venceram. E sua estratégia era a de unir a todos os que se opunham ao apartheid. Foi a estratégia de Mandela, do Conselho Nacional Africano. Pagaram com décadas de prisão, mas a força da luta interna e da solidariedade mundiais acabou se impondo. Os mesmo que consideravam Mandela um terrorista, tiveram que se curvar. Entre os aderentes do CNA, muitos brancos, inclusive muitos judeus, como Ruth Fischer, Joe Slovo, da alta direção do CNA e do PC sul-africano. Akhmed Katrada, que passou cerca de vinte anos preso com Mandela tomou uma posição muito clara sobre o sionismo. Por isso, os sul-africanos estão entre os melhores aliados dos palestinos. Não seus governos, é claro, mas o povo. Não é por outra razão que eles expulsaram o embaixador israelense nesta semana!
Infelizmente, na queda do apartheid, as conquistas políticas se viram limitadas pelo acordo com a elite capitalista branca e o apartheid econômico se perpetuou.
São exemplos a serem seguidos. Não pelo apelo emotivo, mas pelo significado profundo. Assim como ninguém que defendesse princípios democráticos duvidava da necessidade de boicotar o nefasto regime do apartheid, espero que cada vez mais se compreenda o porquê de boicotar Israel. O desespero e a agressividade dos sionistas contra a campanha BDS (boicote, desinvestimento e sanções) são um alento, mostram que, pouco a pouco, começam a perder a batalha pelos corações e mentes. Que os mártires de Gaza, a rebelde, a insubmissa, sirvam para inspirar ódio, repulsa, e coragem aos muitos que ainda hesitam. Não é hora de se calar!

VÍDEO: Ana Cañas lança a canção “Viverei”, em homenagem a Lula

VÍDEO: Ana Cañas lança a canção “Viverei”, em homenagem a Lula

 
“Viverei” (Ana Cañas)
Mesmo que me falte o ar
Não me calarei
Mesmo que tirem o chão
Em pé ainda estarei
A luta é coração que sangra
Bate forte a esperança
De um povo que quer o seu direito
Todo respeito
E eu só lhe tenho amor
Podem me julgar além da lei
Podem me prender, eu andarei
Podem inventar o que nem sei
Podem me matar, eu viverei
A igualdade é uma ideia
Que nunca se aprisiona
Tem a veia aberta
Da gente que sonha
A liberdade é a glória
Da nossa imensa voz
Guarda na memória
É a história
Eles e nós

Depois de bagunçar o direito no Brasil, Lava Jato ameaça a estabilidade das instituições em Portugal

Depois de bagunçar o direito no Brasil, Lava Jato ameaça a estabilidade das instituições em Portugal. Por Joaquim de Carvalho

 
Sérgio Moro (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)
O advogado do empresário Raul Schimidt, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, está em Portugal para tentar reverter a decisão de um desembargador do Tribunal de Relação (português), que determinou na sexta-feira a prisão de seu cliente e a consequente extradição para o Brasil.
O advogado chegou lá depois que a procuradora da república Cristina Romanó, secretária de Cooperação Internacional do Ministério Público Federal, esteve em Lisboa para tentar reverter outra decisão judicial, do Supremo Tribunal de Justiça, a última instância de Portugal, que colocou Raul em liberdade.
Tanto o advogado quanto a procuradora estão de acordo em um ponto: o caso Raul Schimidt pode afetar as relações diplomáticas entre o Brasil e Portugal.
“Qualquer tentativa para tirar o Raul de Portugal e levar para o Brasil seria um ato de sequestro internacional, um ato gravíssimo, que atenta para a estabilidade de dois países soberanos”, afirma Kakay.
Para Cristina, segundo registra o site do Ministério Público Federal, não há divergência entre as autoridades brasileiras e portuguesas quanto à extradição. “Apenas a atuação da defesa para impedir o cumprimento de uma decisão judicial válida”, afirma.
Raul teve a prisão decretada pelo juiz Sergio Moro, numa das fases da Lava Jato, em julho de 2015, acusado de facilitar os desvios de recursos de contratos da Petrobras para três ex-diretores da empresa, Renato Duque, Jorge Zelada e Nestor Cerveró.
Na época, segundo o MPF, Raul vivia em Londres e, para evitar o cumprimento do decreto de prisão, se mudou para Portugal, onde tem cidadania. Um direito dele.
Mesmo assim, em 2016, a Justiça de Portugal o prendeu, em atendimento a um pedido de extradição feito pelo Brasil, e desde então lutava nos tribunais para demonstrar que, sendo português nato, não poderia ser extraditado, já que, pela lei brasileira, brasileiros natos também não podem ser extraditados.
Se a Constituição brasileira proíbe a extradição de brasileiro nato, o do Brasil não pode oferecer essa reciprocidade, como teria feito, numa flagrante tentativa de enganar as autoridades portuguesas.
No início de maio, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que Raul não poderia, mesmo, ser enviado ao Brasil, mas por outro motivo: o governo brasileiro perdeu o prazo para pedir o cumprimento da extradição. Com isso, em princípio, o pedido de extradição caducou.
O que não conseguiu pelos meios oficiais, o Ministério Público Federal tentou pelo jeitinho.
Em Portugal, como admite o texto do MPF, a procuradora fez contatos com várias autoridades e, como resultado, sexta-feira um desembargador do Tribunal de Relação, instância inferior ao Supremo Tribunal de Justiça, emitiu nova ordem de prisão e autorizou a extradição.
Com isso, segundo Kakay, há o risco de uma crise institucional.
Raul não estava em casa quando os policiais estiveram lá para prendê-lo. E agora seus advogados, o do Brasil e os de Portugal, vão recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça. Entre outras coisas, devem alegar a ilegalidade da nova ordem de prisão.
“Há um habeas corpus deferido pelo Supremo Tribuna de Justiça que não está sendo cumprido”, diz Kakay.
Para ele, enviar a procuradora brasileira a Portugal depois que o Brasil perdeu o prazo para requerer a extradição pode se caracterizar ato de improbidade administrativa.
“Eu estou aqui pago pelo meu cliente, dinheiro privado. Eu não posso admitir que o Brasil, tendo perdido o prazo, determine a vinda de uma procuradora, para fazer os contatos aqui junto ao Poder Judiciário e à Procuradoria do Estado português. Acho que isso é uma pressão indevida ao Estado português. São Estados soberanos”, declarou.
Com a ofensiva sobre Portugal, a Lava Jato exporta para o outro lado do Atlântico um jeito de atuação que viola regras constitucionais.
No texto publicado pelo site do Ministério Público Federal, há uma frase que pode ser entendida até como ofensa às instituições portuguesas.
Diz que a procuradora Cristina Romanó, em seus contatos com autoridades locais, “salientou a importância de que Lisboa não se torne um refúgio para investigados da Lava Jato brasileira sem vínculos efetivos prévios com Portugal”.
Nos últimos anos, Portugal se transformou numa referência mundial de civilidade e qualidade de vida. A Lava Jato, no entanto, vê esse país na iminência de se transformar em refúgio de investigados.
O risco é outro. Se aceita esse discurso e atropela as leis para satisfazer a Procuradoria da República no Brasil, Portugal emite um péssimo sinal sobre a estabilidade de suas instituições.
O melhor a fazer é não dar ouvidos a quem age como justiceiro e não agente da justiça.