domingo, 25 de novembro de 2018

Cientista política italiana vê semelhanças entre Bolsonaro e Mussolini e critica a Lava Jato: “influência política desde o começo”


Cientista política italiana vê semelhanças entre Bolsonaro e Mussolini e critica a Lava Jato: “influência política desde o começo”

 
Caterina Froio
A cientista política italiana Caterina Froio esclarece a diferença entre Jair Bolsonaro e Matteo Salvini, vice-primeiro ministro italiano desde junho.
Professora na universidade Sciences Po, em Paris, e membro do Centro para a Pesquisa sobre o Extremismo da Universidade de Oslo, ela aponta semelhanças entre ambos, mas diz que não se deve confundir direita radical populista, caso da Europa, com extrema direita, caso brasileiro.
Para Froio, o recém eleito presidente do Brasil é “mais extremo”, um discurso que encontra precedentes não no mundo contemporâneo político europeu, mas em Mussolini.
“Salvini não questiona a democracia”, explica. Nem propõe restaurar o fascismo, “inaceitável” na sociedade italiana, afirma a professora.
Nesta entrevista para o DCM, ela explica o que permitiu a ascensão do radicalismo de direita na Itália e o compara com o Brasil.
Lança suspeita sobre a independência política da Lava Jato, diferenciando-a da Operação Mani Pulite, e conclui sobre as possíveis consequências dos momentos políticos vividos hoje pelos dois países.
DCM – O que explica a ascensão de Matteo Salvini na Itália
Caterina Froio – Há uma história ligada à ideologia da Liga, antiga Liga do Norte, um partido que nasce como “partido anticorrupção”. Mas nos anos 1980, ela tem uma virada para um sentido sobretudo etnocentrista, com uma situação específica voltada para os migrantes.
Ela aumenta, nos anos 1990, o foco sobre a questão migratória na Itália, fazendo campanhas contra a migração do sul rumo ao norte da Itália. A partir dos anos 2000, há uma mudança no seu discurso, que passa a ser contra a migração não europeia, que adquire uma polarização muito forte com a crise dos refugiados que a Europa conhece a partir de 2012.
Há uma outra dimensão que me parece importante: o papel da Itália na União Europeia. Depois de 2007, depois da crise da dívida, cinco países foram muito atingidos pelas consequências da crise econômica: Espanha, Portugal, Irlanda, Grécia e Itália.
Em novembro de 2011, há a nomeação de um governo tecnocrático, conduzido pelo primeiro-ministro – nomeado pelo presidente da República – Mário Monti. Ele substituiu Silvio Berlusconi. Ele tomou medidas econômicas visando controlar a situação econômica da Itália, cortando gastos sociais, na educação, etc.
Foi nesse momento que cresceu no eleitorado italiano uma cristalização em torno da questão europeia na campanha eleitoral. A União Europeia foi politizada, uma organização supranacional que “tira” da Itália sua soberania, a gestão da economia seguindo a regulação da União Europeia.
Por que Salvini foi tão entusiástico ao felicitar Bolsonaro pelo resultado da eleição e por, nas palavras do ministro do Interior, “mandar a esquerda para casa”?
Isso tem muita a ver com algumas singularidades entre Bolsonaro e Salvini. Os dois se apresentam como homens “novos”, mas na verdade são políticos de longa data. No caso de Salvini, não se trata de um humorista, como é caso de Beppe Grillo (fundador do Movimento 5 Estrelas), ou de um acadêmico.
Em segundo lugar, na agenda política dos dois, a segurança é prioritária para o funcionamento da sociedade. Salvini liga a questão da criminalidade à da imigração. No Brasil, a questão da segurança é mais ampla e não envolve necessariamente a questão da imigração externa.
Quais são as semelhanças e diferenças entre ambos?
De um lado, há a questão do etnocentrismo e, do outro, dos homossexuais. Salvini representa o que chamamos na ciência política de direita radical populista, um governante que fala mais da diferença étnica, da questão da raça, combinando-a com questões culturais. Minha impressão é que Bolsonaro não está nesse ponto ainda.
A maneira como ele fala da etnicidade e das divisões étnicas se assemelha mais à extrema direita europeia do pós-guerra, uma concepção racial das diferenças que ele não combina necessariamente com as características culturais.
A segunda diferença é em relação aos direitos dos homossexuais. Acompanhei a campanha eleitoral de Bolsonaro e a política brasileira antes da eleição de Bolsonaro. Ele se opõe abertamente aos direitos homossexuais. Salvini é um pouco mais sutil em relação a essa questão. Ele não se expressa diretamente. Ele, na verdade, deixa membros do seu governo se expressarem sobre essa questão.
Ele nomeou Lorenzo Fontana ministro da familia, um homem bastante próximo da ala mais conservadora italiana. Salvini, enquanto representante de uma direita radical populista que se opõe aos direitos das minorias respeitando o jogo democrático, não questiona a democracia italiana, não reivindica voltar à ditadura fascista. Já no caso de Bolsonaro ainda não está claro. O discurso de sua campanha é nostálgico da ditadura militar brasileira.
Sérgio Moro, anunciado como ministro da Justiça de Bolsonaro, diz ter inspirado a Operação Lava Jato na Operação Mãos Limpas, na Itália. São parecidas?
De fato se trata de duas campanhas anticorrupção, mas me parecem muito muito (ênfase) diferentes. A operação Mani Pulite é uma investigação conduzida inteiramente pela magistratura sobre a política.
Foi a magistratura que de maneira independente conduziu uma investigação sobre a corrupção que caracterizava o sistema político italiano. Então, não houve intervenção política direta. Pelo contrário. As decisões tomadas pelos juízes afetaram radicalmente o sistema político italiano. Não me parece exatamente comparável à outra situação (da Operação Lava Jato).
Por quê?
Porque viu-se a independência da magistratura. A magistratura pôde investigar e agir profundamente contra a corrupção.
Não é o caso no Brasil?
Me parece que a dinâmica é um pouco diferente em relação a quem começou o processo. No caso italiano, foi realmente a magistratura. No caso do Brasil, não estou segura de que não houve influência política desde o começo.
Como é possível Salvini estar no poder de um país que viveu o fascismo?
Uma questão muito interessante. Ela remete ao que é a Liga do Norte. Os observadores externos da Liga do Norte a classificam como um partido de extrema direita, ligando-o à ditadura fascista do início do século XX. Mas se a olharmos de perto e compararmos com a extrema direita de matriz fascista, veremos que é sobretudo um partido de matriz etnocêntrica, que faz campanha para que só os italianos tenham espaço na Itália.
Quando se trata do autoritarismo, não há referência direta à ditadura fascista italiana. A Liga nunca dirá, nunca disse que gostaria de restaurar a ditadura fascista porque fazer esse tipo de proposta é inaceitável, mesmo num contexto polarizado e sobretudo na direita. Por isso eu sugiro classificar a Liga do Norte como um partido de direita radical populista.
Trata-se de partidos que sempre tiveram problemas com as minorias, como a extrema direita durante e imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Mas eles pensam a questão do autoritarismo como eliminação da criminalidade na sociedade mais do que como um retorno ao totalitarismo do passado.
Há uma outra dimensão que caracteriza a Liga do Norte hoje e que faz dela mais um partido de direita radical: a questão do populismo. Não se pode ser populista se crê-se que o líder e a multidão não são intercambiáveis. Era o caso dos ditadores fascistas, a figura do führer na Alemanha ou do Duce na Itália. Eram figuras carismáticas porque eram pessoas “excepcionais”.
Enquanto, no caso do populismo contemporâneo, pensa-se que o líder é apenas a voz do povo; é sobre isso que Salvini construiu seu apoio eleitoral.
O discurso de Bolsonaro lembra o de Mussolini?
Bolsonaro não me faz pensar nos líderes populistas contemporâneos da Europa. Eu tenho dificuldade para compará-lo com Marine Le Pen ou Matteo Salvini. Em relação a essas pessoas, Bolsonaro é um pouco mais extremo porque ele tem um culto típico do militarismo, uma estética que encontrou-se mais na formação da extrema direita e no pós-Guerra na Europa e mesmo em Mussolini, que era chefe do Exército durante a ditadura.
A retórica militar, encontramos em Matteo Salvini e Marine Le Pen, que são da direita radical populista. Mas minha impressão ao escutar o discurso de Bolsonaro sobre o exército é que ele se situa mais à extrema direita do que à direita radical populista. Não estou segura de que Bolsonaro seja alguém democrático.
No plano econômico, o governo italiano teve um orçamento recusado pela União Europeia. O que você pensa sobre isso?
Essa é uma questão muito interessante que você faz porque mostra que há uma crispação de relações entre a Itália – na verdade o governo da Liga – e a União Europeia; é uma tensão que não é nova. Desde o governo tecnocrático de Mario Monti, de 2012, representantes da Italia lamentam abertamente face a Bruxelas a imposição de uma política para o crescimento econômico do país. Nesse sentido, Salvini e o Movimento Cinco Estrelas não fazem nada de novo.
Eles apenas retomam uma retórica que já existia no sistema político italiano, levando-a ao extremo, indo contra os parâmetros definidos por Bruxelas. O que isso quer dizer? Não posso fazer previsões, mas Salvini e o movimento Cinco Estrelas tentam instrumentalizar essa tensão para capitalizá-la em termo de popularidade. Isso reflete um mal-estar que há na Itália hoje, um país historicamente pró-Europa, em relação ao modo de governo europeu.
De um lado, há um mal estar na relação entre Itália e União Europeia. Por outro lado, é necessário repensar a maneira como a União Europeia, sobretudo o governo econômico europeu, funciona se não quisermos ter um Salvini ou um Di Maio (vice-primeiro ministro, membro do partido 5 Estrelas) no poder.
Quais serão as consequências econômicas e sociais do governo atual italiano para a Itália e a Europa e Bolsonaro para o Brasil?
São países que se retraem cada vez mais sobre eles mesmos, tanto do ponto de vista social quanto econômico.

O BRASIL É UMA NEOCOLÔNIA BANANEIRA CHEIA DE BANANAS

TV 247 - Um dos maiores especialistas em geopolítica do mundo, o jornalista Pepe Escobar ressalta que, com a vitória de Bolsonaro, “o Brasil transformou-se numa neocolônia bananeira cheia de bananas”. Para ele, a representatividade internacional do País, que será feita através do futuro ministro das relações Exteriores, Ernesto Araújo, que nunca sequer chefiou uma embaixada, "já é motivo de chacota e perplexidade mundial". 
Escobar condena a indicação de Ernesto Araújo para ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro e questiona: “O que uma pessoa que não entende nada de geopolítica será capaz de fazer? Eu não sei como ele passou na prova do Instituto Rio Branco”.
“Simplesmente colocaram um cidadão de terceiro escalão para chefiar as relações exteriores da oitava economia do mundo. É inacreditável”, condena o jornalista.
EUA China
Ao citar o conflito entre China e EUA, Escobar ressalta que a guerra comercial estabelecida entre os dois países não será breve. “O governo estadunidense tenta dividir todos os parceiros econômicos e geopolíticos da China. Na América do Sul, Brasil e Argentina estão na mira”, observa.
Neo colônia das bananas
Escobar afirma “que o Brasil transformou-se numa neocolônia bananeira cheia de bananas com a vitória de Bolsonaro" e expõe "que sua presença na presidência já motivo de chacota e perplexidade mundial”. 

ENTREGUISMO Com Castello Branco, Petrobras abre mão do refino nacional do óleo bruto; entenda


ENTREGUISMO

Com Castello Branco, Petrobras abre mão do refino nacional do óleo bruto; entenda

Para especialistas, próximo presidente deve promover privatizações e um desmonte ainda maior na estrutura da empresa

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
,
Ouça a matéria:
Escolhido para comandar a estatal tem pós-doutorado pela Universidade de Chicago, um dos berços do neoliberalismo / (Foto: Evaristo Sa/AFP)
Anunciado esta semana pela equipe econômica de Jair Bolsonaro (PSL) como o futuro presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, ex-diretor do Banco Central e da Vale, tem feito uma série de declarações que sinalizam como será sua gestão à frente da maior estatal do país. 
Em entrevista ao Estado de S. Paulo, Castello Branco afirmou que o que compete à Petrobras é a exploração e a produção do petróleo, e que demais atividades, como a distribuição de combustíveis, não trariam retorno. 
Em nome da competição do mercado, o futuro presidente da estatal também defendeu a revisão do monopólio do refino do óleo. De acordo com ele, "não faz sentido uma única companhia ter 98% de uma atividade no Brasil", mesmo que ela seja estatal. "A Petrobras pode rever o monopólio nessa área. A competição é favorável a todos: à Petrobras e ao Brasil", disse ainda o executivo. 
William Nozaki, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), avalia que a política prevista por Castello Branco prejudicará a estatal, a começar pela abertura da concorrência para refino do petróleo. 
“Isso significa que vamos abrir o mercado brasileiro para um conjunto de players, traders, importadoras, que vão priorizar o refino para aproveitar a retirada da Petrobras desse mercado e a política de preço praticada no Brasil sem nenhuma preocupação com o abastecimento do mercado interno”, afirma.
Para Nozaki, que é professor de economia e ciência política da Fundação Escola de Sociologia e Política do Estado de São Paulo (FESP-SP), a população brasileira será afetada diretamente, já que o aumento do diesel, da gasolina, do etanol e do gás de cozinha são consequências da política defendida por Castello Branco: “Se nós não temos autonomia sobre nosso parque de refino, também não temos autonomia sobre o abastecimento de derivados. Isso, em um cenário de turbulência nos preços, pode significar o encarecimento dos preços dos derivados para os consumidores finais”.
A nomeação de Castello Branco, segundo ele, confirma que a ala “pró-mercado do grupo de Chicago” de Paulo Guedes está conseguindo hegemonia no conjunto da agenda econômica do país. O "guru econômico" de Bolsonaro é amigo pessoal de Castello Branco e foi o responsável pela indicação do nome ao presidente eleito. 
Economista, o novo presidente da estatal tem pós-doutorado pela Universidade de Chicago, conhecida como um dos berços do neoliberalismo. Lá, foram formuladas propostas econômicas que basearam políticas como a do ditador Augusto Pinochet, no Chile, e a de Margaret Thatcher, na Inglaterra.  
“Ele [Castello Branco] deve continuar e intensificar a política que teve início no governo Temer [MDB], de fazer com que a Petrobras deixe de ser uma empresa integrada e se transforme em uma empresa enxuta, concentrada em exploração e produção, acelerando o pacote de desinvestimento e a retirada da empresa dos outros segmentos da indústria petrolífera”, diz Nozaki.
O diretor técnico do Ineep explica ainda que há um cenário internacional de guerra comercial que impacta diretamente na indústria petrolífera. Tensões entre mercados ofertantes de petróleo como Estados Unidos e Arábia Saudita, Rússia e Irã, assim como incertezas dos mercados consumidores, a exemplo da China e da Europa, sinalizam uma maior volatilidade no preço do barril de petróleo em 2019. Se, no momento de maior alteração de preços, o mercado brasileiro estiver aberto para o capital estrangeiro, também estará mais exposto às vulnerabilidades do mercado internacional. 
Nas gestões anteriores, o custo de venda dos produtos refinados pela Petrobras se sustentava sobre os custos nacionais de produção do petróleo, independentemente das alterações nos preços internacionais. Ou seja, mesmo que um conflito no Oriente Médio ou a cotação do dólar aumentassem o preço do barril no mercado internacional, o custo de produção da estatal não se alterava. 
Na mira da privatização 
Castello Branco foi membro do conselho de administração da Petrobras, mas saiu do colegiado porque considerava lento o ritmo de venda de ativos na companhia. Ele já se posicionou diversas vezes a favor da privatização da estatal. José Maria Rangel, coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), alerta que, na avaliação da entidade, é provável que Castello Branco entregue a estatal ao setor privado em fatias. 
“Da escola [econômica] que ele vem, que é a Escola de Chicago, eles alimentam esse processo de um Estado cada vez menor. Isso dialoga diretamente com a política do novo governo – que é, inclusive, criar uma Secretaria de Privatizações. A expectativa é de entregar a empresa, entregar o pré-sal, de tornar a Petrobras uma mera exportadora de óleo cru”, lamenta.
Rangel concorda com a avaliação de que a proposta de abrir mão do refino do petróleo atende aos interesses estrangeiros. “O que ele [Castello Branco] quer dizer é que o que tem que valer aqui dentro é o livre mercado. No livre mercado, vamos expor o povo brasileiro ao que estamos assistindo hoje: gasolina a R$ 5,00 e botijão de gás a R$ 80,00. O brasileiro vai pagar o preço dos derivados de acordo com o mercado internacional, de acordo com a variação cambial. Quem tem petróleo tem poder, e o Brasil está entregando, de maneira acelerada e vergonhosa, seu petróleo para o capital internacional", complementa.
De acordo com o petroleiro, a BR Distribuidora é o “trem-pagador” da Petrobras, e é pela venda do produto final que a empresa tem uma grande lucratividade. No entanto, em suas declarações, Castello Branco reduz o potencial da distribuidora – “a BR é uma cadeia de lojas, no fim das contas”, chegou a dizer o executivo. 
“Entendemos a venda da BR Distribuidora como parte do DNA entreguista que o Castello Branco, e aqueles que o seguem, têm. Não há outra lógica. Ninguém em sã consciência iria vender aquilo que dá lucro”, argumenta Rangel. 
Para Nozaki, as ações anunciadas previamente pelo novo presidente da Petrobras, sem estratégia de planejamento e sem novos investimentos, pode fazer com que a estatal perca a oportunidade de encontrar novas reservas de petróleo que trariam avanços para o país a longo prazo. Por exemplo: se a política de Castello Branco tivesse sido adotada pela Petrobras nos anos 1990, com base apenas na exploração e produção do óleo já mapeado, o pré-sal sequer teria sido descoberto. 
Segundo o pesquisador, o setor de óleo e gás do Brasil corresponde a cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB). Outros setores industriais, que contam com o chamado “efeito multiplicador” causado pela atuação da estatal, por meio das demandas que gera e da rede de fornecedores que mobiliza, também seriam prejudicados com essa política.  A Petrobras tem a capacidade de estimular, por exemplo, a indústria metal-mecânica, a indústria de engenharia pesada, as indústrias naval e de construção civil.
Vende-se tudo
Com o viés liberal de Bolsonaro, a exploração do pré-sal também está em jogo. Ao longo de seus governos, o Partido dos Trabalhadores (PT) instaurou um regime de partilha da reserva, de modo que o Estado tivesse acesso a recursos do pré-sal.
Porém, os representantes do governo Bolsonaro apontam para uma alteração também no regime de partilha de produção para concessão, o que beneficiaria o setor privado. Neste modelo, as petrolíferas que ganhassem os leilões concentrariam o direito de exploração do óleo.
“O próprio Castello Branco já sinalizou que prefere só o regime de concessão. Ele é contra, em tese, o regime de partilha e de cessão onerosa. Defende uma espécie de regra universal de concessão, mesmo para o pré-sal, o que significa fazer com que o país e a Petrobras abram mão de uma oportunidade de negociar reservas expressivas, que poderiam trazer divisas muito significativas para o país”, analisa William Nozaki. 
Na opinião do pesquisador, com a justificativa de gerar caixa a curto prazo, a política indicada por Castello Branco resulta na perda de oportunidades que gerariam ganhos significativos a longo prazo.
Edição: Daniel Giovanaz

A volta do efeito Orlloff: Em seis meses a Argentina foi demolida

25 DE NOVEMBRO DE 2018, 14H37

A volta do efeito Orlloff: Em seis meses a Argentina foi demolida

Nas décadas de 80 e 90 usava-se o termo efeito Orlloff, cuja frase ícone de uma propaganda era "Eu sou você amanhã", para explicar que o FMI, Banco Mundial e outras instituições usavam sempre nossos vizinhos como laboratório pra implementar a mesma política econômica por aqui.

Reprodução
Em Maio, estive em Buenos Aires acompanhando, a convite da Clacso, uma agenda de advogados e juristas que foram a Argentina denunciar o golpe contra Dilma e o lawfare no processo de Lula. Dilma também estava presente.
Naquele momento, há exatos seis meses, o governo Macri começava a fazer água. Foi exatamente ali que o país teve que ir ao FMI.
As ruas já davam sinais de que a algo não ia bem, mas a sensação era de que no Brasil a situação estava pior.
Hoje, volto pra São Paulo após 10 dias intensos na capital argentina. Assustado e impressionado com o tamanho da derrocada do país em tão pouco tempo.
As ruas de Buenos Aires se tornaram favelas a céu aberto, com muitas famílias dormindo ao relento.
Percebe-se que a coleta de lixo já não é a mesma e as obras que estavam sendo realizadas ou estão paradas ou andando em ritmo muito lento.
O país está desmoronando e o projeto neoliberal de Macri que ia conduzir os hermanos ao primeiro mundo está levando-os a viver dias muito piores do que nos tempos dos Kirchners.
Neste ano a inflação da Argentina deve fechar próxima a 50%, sem que os trabalhadores tenham tido reposição salarial. Em dólar, o salário mínimo caiu pela metade nesses últimos seis meses.
Enquanto isso, seguem as perseguições aos líderes peronistas, Cristina incluída, para que mesmo com popularidade baixa Macri e sua turma tenham condições políticas de continuar no poder, já que no ano que vem o país terá eleições presidenciais.
O que está acontecendo na Argentina do ponto de vista econômico deve se repetir no Brasil de Bolsonaro. Até porque a receita ultraliberal de Paulo Guedes é ainda mais forte e amarga do que a de Macri.
Nas décadas de 80 e 90 usava-se o termo efeito Orlloff, cuja frase ícone de uma propaganda era “Eu sou você amanhã”, para explicar que o FMI, Banco Mundial e outras instituições usavam sempre nossos vizinhos como laboratório pra implementar a mesma política econômica por aqui. Alfonsin fez o Austral, Sarney o Cruzado. Menem derrubou a inflação e privatizou tudo o que pode. FHC fez o mesmo.
Observar o que Macri está fazendo na Argentina e ver o que isso está significando para o seu povo é hoje o maior desafio de economistas, sociólogos e líderes sociais brasileiros. Porque o “Eu sou você amanhã” voltou com tudo.

Recomendados para você