sábado, 18 de janeiro de 2020

Boletim Carta Maior, em 17/01/2020

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OS RESISTENTES DA CASA DE RUI BARBOSA
17/01/2020
'A Casa é minha/ A luta é nossa/ Abram as portas/ da Casa de Rui Barbosa': manifestantes cantavam na rua, no Rio de Janeiro, contra a tentativa de desmonte da fundação federal cujas portas foram trancadas a cadeado para afastar o protesto
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Desmonte da Casa de Rui Barbosa é mais uma agressão bolsonarista à inteligência

Desmonte da Casa de Rui Barbosa é mais uma agressão bolsonarista à inteligência

 

Escrevo sobre a mais recente agressão do governo à inteligência: a razia que desmontou a área de pesquisa da Fundação Casa de Rui Barbosa, um dos mais importantes centros de produção de conhecimento do país, que, pelo respeito à sua excelência, até aqui vinha passando incólume pelas turbulências da tragédia política brasileira, sobrevivendo mesmo ao mandarinato militar, à aventura Collor de Mello e ao golpe de Temer e seus cúmplices.
Nada obstante sua gravidade, o explícito projeto de destruição da FCRB, pelo que ela é e pelo que representa, é, em si, apenas mais um elo em extensíssima corrente de agressões à inteligência brasileira sob o mando da extrema-direita; não é um ponto de partida nem muito menos um ponto de chegada, e por isso mesmo não pode ser recebido com qualquer sorte de surpresa, até porque tudo é admissível sob o bolsonarismo, e nada é fato isolado ou produto do acaso. Ora, esse é o governo que demitiu Ricardo Galvão da direção do INPE e nomeou para o Ministério da Educação, seguidamente, o néscio Ricardo Vélez Rodriguez, e o lamentável Abraham Weintraub, um analfabeto funcional incumbido da demolição do ensino público no país.
Para esse governo, as universidades públicas são “focos de balbúrdia” e centros  de plantação de maconha. Para o capitão Bolsonaro os livros didáticos têm muitas letras e poucas figurinhas, e os concursos públicos selecionam esquerdistas. Trata-se de governo que considera Paulo Freire um energúmeno e Fernanda Montenegro, uma figura desprezível. Dele, que  se pode esperar?
Por que a Fundação Casa de Rui Barbosa, já abatida com a premonitória mudança de presidência, poderia ficar de fora? E por que acaso ficarão outras instituições? O que precisa ser entendido é que  a causa de seus funcionários é a mesma do pessoal da Funarte, da Casa da Moeda, do IPHAN, da Eletrobras, da Petrobras, da área de saneamento, do meio ambiente, da Funai e dos povos indígenas.
É um absurdo inaceitável a demissão dos pesquisadores da Casa de Rui. Charles Gomes, Jöelle Rouchou, Flora Süssekind, José Almino e Antônio Herculano merecem nossa solidariedade e estendamos nosso apoio aos seus colegas de trabalho que, lutando internamente, persistem no propósito de resistir ao arbítrio e salvar a instituição que precisa deles, e que, como tantas outras, carece do apoio da opinião pública para sobreviver sem se abastardar. Ao lado de muitos companheiros da batalha da cultura estive diante dos portões da casa, significativamente fechados ao público pela atual presidente, antiga redatora de programas da TV do notório “bispo” Edir Macedo. E lá voltaremos todos sempre que nossa presença puder significar, pelo menos, que não estamos de braços cruzados diante da audaciosa tentativa de destruir nosso futuro.
Mas é preciso dizer que esta não é a questão fundamental, nem encerra a luta toda. É preciso erguer a cabeça e olhar o campo todo.
Há, em marcha, visível como o Corcovado, claro como a luz do meio-dia, um projeto de desconstrução nacional. Um competente projeto, diga-se de passagem. De um lado, a desmontagem da economia; de outro, mas completando-o, a destruição da alma nacional com a perseguição à memória, à cultura e às artes, à ciência, à tecnologia e à pesquisa. Associam-se o ultraliberalismo da política econômica (baseado em mitos como o da “fada da confiança”) e o paleoconservadorismo político. É preciso combatê-los ambos – o assédio econômico e o cultural –, pois, de fato, constituem uma unidade, isto porque só um governo autoritário pode sustentar uma política econômica que investe no aprofundamento da desigualdade social.
A inteligência e a criação, em suas mais variadas formas de manifestação, estão postas em xeque, por serem incompatíveis com o projeto autoritário que tem o bolsonarismo como o nome de fantasia. O conhecimento, e, portanto, seus centros de formulação, em todo o mundo e em todos os tempos, são os alvos essenciais dos candidatos a autocrata.
Há na causa da Casa de Rui Barbosa, que é uma questão política, um óbvio componente humano, quando se trata da exoneração injustificada de cinco profissionais. É relevante, ainda mais, porque essas exonerações implicam a desmontagem do mais importante núcleo de pesquisa de uma das mais destacadas instituições culturais e científicas do país, e esse caráter precisa ser, sempre, posto de manifesto, como é preciso dizer que ele não encerra toda a gravidade do desafio, que radica na natureza do bolsonarismo, besta fera que corre solta até aqui.
Insisto neste ponto: não estamos diante nem de acaso nem de fato isolado; não se trata de “acidente” de percurso ou “ponto fora da curva”, pois há uma lógica interna perversa costurando a aparente ilogicidade do bolsonarismo, que age de modo pensado, e pensadas e planejadas são levadas à ação suas decisões. Há concerto e muita racionalidade nesse aparente conjunto de absurdos, que alimenta o comentário frívolo, dá mote aos humoristas (que os temos muitos e talentosos) e distrai a opinião pública da gravidade disto: o projeto de desconstrução nacional que tem o capitão e sua súcia como espoletas, e, na retaguarda, além das baionetas  e dos cassetetes, o grande empresariado nativo ou aqui instalado.
Não se trata, porém, tão-só, de ações de governo, pois o bolsonarismo se estende por todo o aparelho do Estado e alcança crescentes setores da sociedade com o avanço da pauta ultraconservadora, e a todos implica, pois há um universo de possibilidades entre a rapinagem econômica do neoliberalismo e o autoritarismo político, um populismo de extrema-direita infenso à ordem democrática.
O poder judiciário – a reforma do poder judiciário visando à sua democratização é mais importante, hoje, do que a reforma agrária – é aquele aparelho do Estado que mais rapidamente responde aos apelos do autoritarismo e de todo oficialismo, ou seja, de todo poder de fato, ou de direito.
A tesoura judicial entrou em cena, mais recentemente, com a decisão de anônimo desembargador do Rio de Janeiro que proibiu a exibição, pela televisão, de uma paródia bíblica de gosto discutível. Atendendo à liminar que pedia a interdição e indenização gorda, o juiz, após informar que a sociedade brasileira é majoritariamente cristã, o que não vem ao caso por não se tratar esta de argumentação jurídica, afirma que “o direito à liberdade de expressão, impressa e artística não é absoluto”. É, sim, senhor juiz, porque é absoluto o veto a qualquer sorte de censura, estampado no inciso IX do Art. 1º da Constituição que todo julgador deveria respeitar: “é livre a manifestação da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura e licença”. Comando reforçado, de modo límpido, no art. 220, § 2º: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.  Ao ofendido, cabe o direito de resposta e indenização. Essa é a regra. E vale para tudo e para todos. Não cabe censura a nada, nem à crítica a qualquer religião, católica ou muçulmana, ou judaica, ou a esta ou aquela etnia ou “raça”, valor ideológico ou opção identitária. Por isso também errou o ministro Dias Toffoli quando, para fulminar a decisão do juiz fluminense, alega a longevidade da fé cristã (que não estava e não está em jogo), fugindo assim da questão crucial, que é o mandamento constitucional.
Para o poder judiciário, o império constitucional parece perigoso, pois pode dificultar as decisões políticas de acomodação. Assim o desembargador-censor, que desta feita entendeu limitada a liberdade de expressão, em julgamento anterior, quando as contingências lhe impunham absolver o capitão Messias, acusado de homofobia e racismo, alegou não ver  “como, em uma democracia, censurar o direito de manifestação de quem quer que seja”. Quando foi faccioso? Nos dois casos.
É trágico pensar que 2019 poderia ter sido pior, difícil dizer o que esperar deste 2020, que chega cercado de maus presságios.   
 Qual o tamanho e a duração da onda reacionária que engolfa o mundo e nos atinge em cheio?
A medida do tamanho e da intensidade do desafio brasileiro está na proporção direta de nossa capacidade de resistência e reação, em prontidão permanente.

A pergunta que não pode calar: quem mandou o vizinho de Bolsonaro assassinar a vereadora Marielle Franco?
Roberto Amaral
______________
Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

Os destaques da manhã no 247, em 17/01/2020

Secretário de Cultura posta vídeo de inspiração nazista ao propor nova arte para o Brasil

Bolsonaro manda imprensa tomar "vergonha na cara" após a descoberta de novos escândalos de corrupção em seu governo

Bolsonaro também incita novos ataques a pessoas de esquerda: 'não são normais'

Moro quer unir forças contra juiz das garantias

Professores universitários protestam contra arbitrariedade na Casa de Rui Barbosa

Despenca expectativa dos brasileiros com o governo Bolsonaro, aponta pesquisa

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Áudio: a auto-denúncia de Carla Zambelli sobre a compra de votos para garantir o fim da aposentadoria do trabalhador

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“Legitima defesa imaginária” e outras maneiras de manter a impunidade

      
“Legitima defesa imaginária” e outras maneiras de manter a impunidade
por Natalia Viana
                                                            
“Você está aqui para o julgamento dos meninos?”, me perguntou a recepcionista da 1ª Circunscrição da Justiça Militar da União, que abriga os tribunais militares num predinho cinza e sem graça na Ilha do Governador no Rio. Naquela manhã, os “meninos” eram, mais uma vez, jovens soldados do Exército acusados de fuzilar civis em plena rua de um bairro carioca onde pessoas como eu ou você poderiam estar passando distraidamente.

A história vem se repetindo desde 2011. Conforme demonstramos na série investigativa Efeito Colateral, militares são acusados pela morte de pelo menos 35 mortes de civis durante operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) – e ninguém foi punido.

Abraão Maximiano Ferreira, de 15 anos, foi fuzilado pelas costas, quando voltava de uma partida de futebol com o primo no Complexo do Alemão, em 2011. Em 2015, a comerciante Raimunda Cláudia, 47, morreu com um tiro na cabeça ao chegar na janela da sua casa, um sobrado na Maré, para chamar a funcionária que cuidava da SUA loja de roupas do outro lado da rua. Matheus Martins da Silva, de 17 anos, foi morto em fevereiro de 2017, voltando da casa da tia, onde fora jantar, em Cariacica, no Espírito Santo. Em 2018, no mesmo bairro em que foi assassinado o músico Evaldo Rosa,  Diego Ferreira, de 25 anos, foi morto quando voltava de um posto onde fora comprar gasolina, de moto, na rua de trás da casa onde morava com os avós.

Em nenhum desses casos houve punição aos militares porque, da recepcionista aos juízes, a verdade é que os membros da Justiça Militar demonstram um especial “carinho” para com o seus réus.

Se a nossa justiça comum é punitivista, na militar tudo conspira para a impunidade.       

Os mesmos soldados que, quando enviados para uma operação de GLO são louvados como o valente e bem preparado braço forte da lei, nas auditorias militares são jovenzinhos assustados e sob “violenta emoção” e “grave ameaça”.   

Esta semana tratamos na Agência Pública de mais um caso no qual a absolvição é quase certa. Na véspera de carnaval de 2015, um carro com cinco amigos foi fuzilado com seis tiros de calibre 7,62 no Complexo da Maré, no Rio. Todos os passageiros, desarmados, foram atingidos por estilhaços dos projéteis. Vitor Santiago Borges, então com 29 anos, recebeu dois tiros; ficou paraplégico e teve que amputar a perna esquerda.

Mas o promotor do Ministério Público Militar, nas alegações finais, pediu a absolvição do soldado que atirou, alegando que agiu em “legítima defesa imaginária” – ou, no jargão jurídico. “putativa” – pois “supôs” fuzilar um veículo de criminosos que estavam “na iminência” de atirar contra os soldados.

A justificativa chocou tanto os leitores da Agência Pública que a cartunista Laerte fez uma tirinha sobre o caso. 
   
Mas esse é apenas um dos estratagemas que a Justiça militar usa para não punir os seus “meninos”.

No caso de Matheus Martins da Silva, embora o adolescente não estivesse armado, a Juíza militar decidiu na sentença que apenas a sensação de que os soldados estavam sendo atacados era o suficiente. Foi um “erro escusável”, escreveu ela.

No caso de Evaldo Rosa, o Superior Tribunal Militar (STM) decidiu que os 9 soldados que fuzilaram o carro da família com 62 tiros responderiam ao processo em liberdade por uma questão processual: o Inquérito Policial Militar (IPM) acusou que eles haviam apenas descumprido as regras de engajamento, crime que não permite prisão preventiva. O IPM, conduzido por militares superiores, não considerou que o que houve ali fora um duplo homicídio.

No caso de Diego, o que livrou o Exército de sua culpa foi também o IPM. Os militares que apuraram o caso espantosamente concluíram que Diego, de chinelo e sem capacete, decidiu atropelar uma sentinela de soldados armados com fuzis. A sua família, que mora a não mais de 500 metros do local do crime, sequer foi ouvida.

E há casos como o de Raimunda Claudia, em que não houve absolutamente nada. A morte não foi sequer registrada pelo Comando Militar do Leste como ocorrida durante um confronto. O Exército saiu do local e nunca mais voltou. Sua filha Fabíola Rocha, de 28 anos, passou os anos seguintes tentando reestruturar a família, cuidar sozinha da irmã de 11 anos, e sair da favela da Maré, que lhe lembrava demais a tragédia.

Anos depois, não há uma investigação, um documento no qual ela possa se apoiar para tentar entender de fato o que ocorreu naquele dia.  

Hoje, num governo Bolsonaro, é difícil imaginar que a alta cúpula militar – que jamais defendeu a punição nem mesmo daqueles membros que torturaram e violaram mulheres durante a ditadura – admita e puna os excessos não só dos jovens soldados que cometeram esses crimes, mas dos verdadeiros responsáveis, segundo a disciplina militar: seus comandantes.
Natalia Viana é codiretora da Agência Pública.
Rolou na Pública
Bombou. A reportagem tema do texto principal da news dos Aliados de hoje, além de inspirar a cartunista Laerte, foi republicada por 19 veículos, como Carta Capital, Yahoo e Sul 21.

Outras reportagens importantes publicadas neste início de ano foram "Fake news e escândalos: a mídia católica de direita ataca Francisco""Como a corrupção no Incra levou à expulsão de um pequeno agricultor de sua terra" e "Trump, Lula e Moro: o que os Bolsonaros tuitaram em 2019". Não perca!

IMPRENSA DE JOELHOS Roda Viva: Lista de jornalistas teria sido submetida à aprovação de Sergio Moro

IMPRENSA DE JOELHOS

Roda Viva: Lista de jornalistas teria sido submetida à aprovação de Sergio Moro

Em carta aos assinantes, editor do site 'The Intercept' afirma que apurou que ministro aprovou lista de entrevistadores para o programa da próxima segunda
  17:47
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MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Sergio Moro será o entrevistado do Roda Viva da próxima segunda-feira
São Paulo – A lista com os nomes dos jornalistas que “entrevistarão” o ministro da Justiça, Sergio Moro, no programa Roda Viva da próxima segunda-feira (20) teve a aprovação do próprio entrevistado, segundo informa The Intercept Brasil em texto enviado aos seus assinantes neste sábado (18).
Desde que foi anunciada a presença de Moro no programa, na primeira edição comandada por Vera Magalhães, uma mobilização nas redes sociais cobra a presença de jornalistas que atuaram na chamada Vaza Jato, investigando denúncias que envolvem o ministro, na bancada do Roda Viva.
Pressionada, a equipe do programa chegou a afirmar no meio da semana que “não pedimos sugestões nem submetemos a bancada ao entrevistado”. O Intercept afirma que, ao contrário, os jornalistas que estarão no programa da próxima segunda foram previamente aprovados pelo ministro.
“Ele, assim como Bolsonaro, vê parte da imprensa como inimiga. Logo ele, que tanto usou a imprensa para seu projeto de poder. Pra Moro, jornalista só serve se escreve notícias de joelhos”, afirma o editor do site que liderou as investigações da Lava Jato, Leandro Demori.
O programa vai ao ar a partir das 22h30 e, como ficaram de fora da bancada, os jornalistas do Intercept prometem comentar ao vivo em seu canal no YouTube.